Catarina de Bragança
rainha fizera um esforço sobre-humano para se recompor. Era a
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Como gostaria de voltar, já nada o prendia a Portugal. Era tempo, pensando bem, de tratar mas era do seu casamento. Hoje mesmo iniciaria o processo: estava certo de que sir Charles o receberia na corte inglesa de braços abertos, e os negócios do príncipe Rupert tinham-lhe parecido promissores. O Novo Mundo? Teria idade para arriscar ainda mais essa viagem? Ficou sentado na varanda de sua casa, o cheiro das frésias do jardim a acordarem dentro de si o desejo de Nan.
Hampton Court, Agosto de 1667
ra decididamente o palácio favorito de Catarina. Os pátios que
abriam uns para os outros, as fontes, os jardins e o caminho de água, que Charles mandara construir para ela, e onde as árvores, então tão pequeninas, estavam já imponentes, davam-lhe a sensação de estar em casa. A casa que o rei lhe destinara.
Charles, no entanto, não aguentava estar preso muito tempo, e saltitava para Windsor, e dali para Londres, onde não resistia aos teatros, ao ritual da noite, dos copos e das actrizes, que exerciam sobre ele um poder irresistível. Catarina estava tão preocupada com a melancolia que o recente ataque holandês aos barcos fundeados no Tamisa, a humilhação das humilhações sofrida pela armada inglesa, e sobretudo a fuga de Frances lhe provocaram, que fazia ouvidos moucos às histórias da sua nova paixão. Nell Gwyn era uma jovem actriz cheia de «talento» que, segundo os relatos que chegaram à corte, tratava o rei de igual para igual e o divertia com a sua irreverência e franqueza. Um corpo de formas magní icas, de uma mulher de pouco mais de 18 anos, fazia certamente o resto, suspirava.
Nell, francamente, não preocupava a rainha, fazia parte daquela categoria que D. Luísa lhe dissera não ser importante. Já se tinha informado, e era uma rapariga pobre, ilha de uma dona de casa de passe e de pai incógnito, maltratada pela vida, mas sem guardar ressentimentos nem amarguras.
- Dizem que faz rir o rei - contava a Nan e a Meg -, e o mais estranho é que nem me importo da sua existência, se lhe der um pouco de alegria.
As irmãs Fanshawe abriram os olhos, genuinamente chocadas:
- Meu Deus, dona Catarina! - foi tudo o que conseguiram dizer.
Catarina encolhera os ombros, voltando a en iar a agulha no bordado. Não podia dizer alto que, comparado com o sofrimento recente de ter perdido mais um ilho, tudo o resto lhe parecia absolutamente mesquinho. Fora uma gravidez-relâmpago, apenas umas semanas de falta, mas o su iciente para lhe alvoroçar o coração. Não dissera nada a ninguém, mas as mulheres que a serviam de perto sabiam estas coisas, e rezavam que não voltasse a ser uma desilusão. Mas fora. Os sinais estavam todos lá, as náuseas, o peito dorido, e a certeza interior de que uma nova vida, um Charles pequenino e adorável se mexia dentro de si, mas, mais uma vez, tudo terminara num banho de sangue.
Lady Suffolk sentara-se nessa noite junto da sua cama, amparando-lhe a dor, já sem se coibir de a abraçar e de a adormecer com festinhas no cabelo. Ambas tinham feito um pacto de silêncio, e a rainha guardara dentro de si a dor a sete chaves. De tal forma que, por vezes, se perguntava se no fundo de si mesma não se conformara já com o seu destino. Talvez estivesse destinada a reservar todo o seu amor para Charles, o seu menino e o seu homem. E enquanto o rei a amasse, mesmo que fosse daquela estranha maneira, mas cada vez mais dependente e dedicada, desde que se mantivesse próximo, mesmo que não a toda a hora, desde que con iasse nela as suas angústias e lhe solicitasse o seu conselho, acreditava que conseguiria ser feliz. Quanto à cama, ao sexo, ao desejo de conceber, que assombrara até agora as suas noites, desaparecera. Sabia que as amantes do marido iriam continuar a procriar, e que ela não. A doença de Joana e Teodósio tinha, apesar de tudo, poupado-lhe a vida, permitindo-lhe amar e ser amada. Era certamente um desígnio de Deus, e estava grata.
Londres, 10 de Dezembro de 1667
atarina não queria acreditar. Não bastava a agitação em Inglaterra,
a publicação de uma lei que permitia a expulsão de todos os padres jesuítas do reino, ou seja, de todos os padres, porque de uma maneira ou de outra os inquisidores arranjavam forma de os ligar a Santo Inácio de Loyola, os pedidos secretos que lhe chegavam para que ajudasse mais um a fugir, ou as solicitações das irmãs católicas que procuravam um refúgio dos perseguidores, e agora Portugal também a traía?
A carta chegara naquela manhã e num primeiro momento julgara que era de algum dos irmãos a desejar-lhe os parabéns pelos seus 29 anos, mas observando melhor percebeu que a caligra ia lhe era desconhecida. Escrevia-lhe o conde de Castelo Melhor, em nome do seu irmão Afonso, «que estava demasiado perturbado para segurar a pena», dando-lhe conta que o infante D. Pedro obrigara o rei a abandonar o governo do reino, apesar de lhe permitir manter o título de rei. Com o apoio das Cortes, o seu irmão mais novo, que tinha apenas 19 anos, destituía Afonso, cinco anos mais velho, depunha o rei e com ele todos os seus ministros. Na prática usurpara-lhe o trono, e D. Pedro era rei de Portugal. António Sousa de Macedo e ele, Luís de Vasconcelos e Sousa, tinham sido exilados, mas antes de partir para Turim sentia-se na obrigação de dar uma explicação à rainha de Inglaterra. Terminava a irmando que D. Afonso lhe escreveria pessoalmente, logo que se sentisse capaz.
Catarina segurava na carta enquanto andava de um lado para o outro do seu quarto. Sentia-se furiosa, zangada como nunca o estivera, enervada. Num impulso, saiu pela porta, sem dizer nada a ninguém, e correu pelo corredor direita ao escritório de Charles. Bateu à porta, e entrou antes de ouvir ordem para tal. Quando viu a palidez da mulher e a carta que trazia na mão, Charles mandou sair todos os seus ministros.
- Catarina, o que é que aconteceu?
A rainha explicou-lhe tudo, entre gestos, gritos e protestos:
- Eu sabia, Charles, eu sabia que isto ia acontecer, e no entanto jurava a mim própria que era impossível, que Pedro nunca teria a coragem de agir assim. Mas agora aconteceu aquilo que frei Pedro e eu tanto tememos: o meu irmão mais novo e mais mimado, que cresceu com a convicção, correcta, de que a minha mãe o queria a reinar, tomou o lugar de Afonso. Ai, meu Deus, como deve estar o pobre Afonso. Acabado de casar, Charles, e roubam-lhe o trono?
Charles obrigou-a a sentar-se, e, deixando-se cair no sofá ao seu lado, respirou longamente:
- Terrível, Catarina, terrível, minha pobre mulherzinha. Sei que para si tudo isto é impensável, incorrecto, cruel, mas o gesto de Pedro conta com o apoio das Cortes, e isso quer dizer qualquer coisa. Talvez o Governo de Afonso fosse realmente impossível de sustentar - arriscou.
- Não, não é nada disso. Não digo que Afonso fosse o melhor dos reis, mas Castelo Melhor era um magní ico primeiro-ministro, e nestes cinco anos, e com a ajuda de Inglaterra, Portugal venceu as últimas batalhas contra Espanha, o país está inalmente em paz. Não é a competência de Castelo Melhor nem do seu Governo que está em causa, mas a ambição do meu irmão Pedro. Charles, aos seis anos os meus pais deram-lhe uma Casa, recusando-a a Afonso, o herdeiro ao trono. Já então estava tudo dito.
A imagem de Afonso, por trás da cortina, voltou nítida. Frei Pedro e Catarina desde esse minuto conheciam o futuro.
- Catarina, dentro de dias estará aqui o embaixador, temos de nos preparar...
- Não aceitamos esta situação, não reconhecemos Pedro, está tudo decidido.
- Minha adorada Catarina, Inglaterra não vai poder assumir uma posição tão radical. Direi que vamos esperar para ver...
- Esperar para ver, Charles? Vamos abandonar o meu irmão Afonso? Não podemos!
- Esperar para ver, é isso mesmo, esperar. Mas diplomaticamente manifestamos o nosso apoio a Afonso, porque Castelo Melhor receberá da rainha de Inglaterra um convite para que se exile na nossa corte. Julgo que era altura de solicitar ao marquês de Sande, que não estará certamente neste momento numa posição muito confortável, tendo sido o mediador do casamento do rei com Maria Francisca, para regressar imediatamente a Londres.
Catarina olhou o marido com adoração. Nestes momentos sabia porque o amava, em tantos outros amava-o sem saber porquê...
Quando saiu dos quartos da rainha, Nan correu à procura de Meg para lhe contar o que acabara de saber, e encontrou-a no jardim, de braço dado com Francis.
- Mana, graças a Deus, há uma revolução em Portugal e a rainha mandou vir dom Francisco. Meg, o Francisco vem aí...
Meg abraçou-a com força.
Umas semanas depois, Sande comunicava à rainha, e simultaneamente numa carta apaixonada a Nan, que tencionava chegar a Londres antes do Natal.
Não falava na rainha de Portugal, e Catarina entendeu o signi icado do seu silêncio, que con irmava os rumores da in idelidade de Maria Francisca e as insinuações de que preparava este golpe palaciano com o cunhado Pedro. Mais ainda, que fora o seu ódio pessoal a Castelo Melhor, com quem se incompatibilizara desde o primeiro momento, que a tinha levado a instigar o amante...
Catarina pensava nisto, junto da janela, olhando as damas a patinar sobre o gelo no canal de St. James. Porque será que o mundo parecia de repente virar-se todo do avesso? Por Inglaterra as coisas não estavam melhores. Edward Hyde era agora o bode expiatório dos ódios ingleses -bem lhe dizia a mãe que quando não há dinheiro alguém tem de ser enforcado na praça pública. Percebia, pelas suas conversas com Charles, que era mesmo esse o im que o rei temia, e de como o desesperava não ser capaz de convencer o seu chanceler a demitir-se, aceitando que a idade o tornara menos capaz. Charles con idenciava a Catarina que já não suportava os sermões de Hyde, as suas reprimendas, as suas amarguras. Por muito que lhe devesse, sentia já ter pago tudo. Mas Hyde recusava todas as saídas honrosas.
Simplesmente tudo se agravara de repente, como ainda ontem lhe explicara o marido, quando inesperadamente surgira entre os seus lençóis...
Encostando-se meigamente a Catarina, contara:
- Pintaram os piores insultos na porta de casa do chanceler...
- O que é que diziam? De que é que o acusam, coitado do senhor, que ainda por cima é sogro do irmão do rei...
- Pois, essa é exactamente uma das acusações.
- E as outras?
- Disparates que não interessam a ninguém, delírios de loucos. As palavras eram acompanhadas do desenho de uma forca, é gente má e doente.
Catarina percebeu que lhe diziam respeito. Mordeu o lábio, e insistiu:
- Acusam-no de ter casado o rei com uma mulher infértil, de propósito para que a sua filha possa ser rainha de Inglaterra, e mais?
Charles agradeceu a escuridão do quarto que escondia a pena que sentia por não poder desmentir a presunção de Catarina.
- Charles, por favor, diga-me.
O rei suspirou:
- Sim, isso mesmo, de não ter escutado os avisos dos espanhóis, que já então diziam que a infanta portuguesa...
Catarina sentiu que o corpo se tornava tão tenso como a corda numa viola, e Charles apressou-se a acrescentar:
- E de ter vendido Dunquerque, a nossa praça em França, e de ter entregado Tânger aos espanhóis. - Catarina indignou-se:
- Mas isso é mentira, não é? Não estava cá quando foi Dunquerque, mas a decisão de vender nunca poderia ter sido a de um pobre chanceler...
- Claro que não foi dele, nem podia ser, só mentes maldosas poderiam acreditar numa coisa dessas. Mas o povo é assim, agradece o dinheiro, mas esquece-se de que não cresce nas árvores.
- Tânger? Não entregámos Tânger, por amor de Deus. Alguma vez o faríamos? Aos castelhanos, contra quem Portugal lutou trinta anos...
Charles pensou, para si, que a praça só lhe dera prejuízos, porque os soldados necessários para a manter na posse de Inglaterra custavam rios de dinheiro, mas não era altura de perturbar ainda mais a rainha.
- Não era a senhora sua mãe que dizia que era importante agradar ao povo, mas que não se podia con iar nele? Aqui está a prova de que dona Luísa de Gusmão, que sempre admirei, sabia do que falava.
Ficaram em silêncio e adormeceram. Para Catarina, o importante é que estavam juntos.
Na manhã seguinte a rainha sentou-se à janela, rindo com os risos que via na boca das suas damas, que passeavam lá fora na neve. Um dos criados tossiu mesmo junto de si, e a rainha percebeu que lhe estendia, numa bandeja de prata, um bilhete de Charles. O selo tinha as armas do rei e estava marcado de «Urgente». Começava a ficar alérgica a cartas. Tremia só de olhar para elas. Respirou fundo e abriu-a. Charles dizia-lhe que soubera que os seus inimigos se preparavam para acusar Hyde de traição e o levar para a Torre de Londres. Dava-lhe nota de que o chanceler e a mulher já iam, naquele momento, a caminho do barco que os levaria para o exílio. Pedia-lhe que queimasse a carta, esperasse 24 horas e fosse então consolar a cunhada Anne e as sobrinhas.
Pobre Hyde, que com tanta alegria acreditara que a aclamação de Charles lhe dera direito a encontrar na sua pátria o descanso, depois de ter acompanhado o pretendente ao trono tantos anos por montes e vales...
Mas não era só Hyde que iria sofrer. Catarina sabia que perder o trono, tornar-se de novo um vagabundo do mundo, era o maior terror do marido. Deixara o seu chanceler cair para se proteger mas colocava-se assim mais próximo do abismo.
St. James Palace, 14 de Dezembro de 1667
rainha levou as mãos à garganta. Faltava-lhe o ar, não conseguia
respirar. O embaixador de Portugal entrou em pânico, gritou por socorro, não sabia se em inglês ou em português, e as criadas, as damas, a Guarda da Rainha acorreram em peso.
Catarina não os via sequer. Tombou sobre uma cadeira, o embaixador ajudou-a a sentar-se, e lady Suffolk assumiu rapidamente o comando.
- Saiam todos daqui e chamem um dos médicos.
Virando-se para Meg, que estava mesmo ali à mão e falava português, disse-lhe:
- Lady Margaret, por favor, acompanhe o senhor embaixador.
Depois mais baixo, para que só ela ouvisse:
- De forma discreta, tente perceber que notícia foi esta, para deixar a rainha neste estado. Con io que não a repetirá depois, nem ao seu querido Francis - acrescentou, num tom autoritário.
Meg conduziu o senhor para a sala do lado. Pediu-lhe que se sentasse, porque estava visivelmente abalado com toda aquela agitação, e mandou vir um chá. Apresentou-se como ilha de sir Richard Fanshawe e percebeu que a cara do embaixador se abria num sorriso:
- Lady Margaret, conheço bem o seu pai e aprecio muito o seu trabalho. Ficou tão abalado como a rainha quando lhe dei a triste notícia.
Meg aproveitou a oportunidade:
- Triste notícia? - perguntou, com o ar mais ingénuo possível.
- Não é nenhum segredo, apenas uma notícia terrível, apenas uma notícia terrível...
Meg começava a ficar assustada.
- Por favor, para que eu possa ajudar a rainha, pode dizer-me o que se passa?
O embaixador levantou-se e começou a andar de um lado para o outro do sala, tentando dominar o nervosismo:
- O marquês de Sande foi assassinado em Lisboa.
O coração da pequenina Fanshawe começou a bater acelerado, a sua pele já tão branca icou absolutamente lívida, e o embaixador teve de correr para o seu lado e dar-lhe a beber do seu próprio chá com muito açúcar.
Meg tossiu e afastou a chávena. Numa voz gelada, perguntou:
- O marquês de Sande assassinado? Mas porquê? Mas por quem?
- Por engano, lady Margaret. Vinha da missa na carruagem de um amigo, que pelos vistos tinha inimigos... Um ajuste de contas de que não era o alvo, mas de que foi a vítima. Pelo menos é o que se julga. Morreu instantaneamente - acrescentou, como para a consolar.
- Meu Deus, Meu Deus, não admira que a rainha tenha desmaiado. Como, como conseguiriam dar uma notícia como esta a Nan? Nan que marcava os dias no calendário do Advento, não para contar os dias até ao Natal, mas para tentar acelerar o tempo até à chegada do seu querido Francisco. Contava as semanas, os dias e as horas, e lia e relia todas as cartas, sobretudo esta última, em que o marquês lhe confessava o desejo de passar com ela o resto da sua vida, aqui em Inglaterra, a nova pátria da sua rainha.
- Por favor, senhor embaixador, vá-se embora - disse-lhe, procurando manter todo o seu autocontrolo. Que Deus a ajudasse a não quebrar, não podia, não devia, Nan não merecia que também ela, a sua irmã querida, a abandonasse agora.
Lady Suffolk encontrou Meg sentada no chão, como uma criança pequena, com os olhos na lareira, em estado de choque. Não era típico da Fanshawe mais nova este alheamento. Assustada, dobrou-se com esforço, e murmurou numa voz doce:
- Meg, Meg, que notícia tenebrosa é esta, que te deixa assim e quase mata a nossa rainha?
Meg, sempre tão capaz de esconder os sentimentos, desta vez atirou-se para os braços de lady Suffolk e soluçou:
- Não sou capaz de repetir, não sou, é como se passasse a ser verdade. Se me atrever a pronunciar as palavras, acontece... Talvez seja só um pesadelo. Lady Suffolk, diga-me que é um pesadelo mau, que já se vai embora.
Lady Suffolk estava próxima do pânico: o que podia vir de Lisboa que afectasse assim também a dama da rainha?
- Não sei do que se trata, minha querida, mas tens de falar...
Meg, engasgada pelas lágrimas, o corpo a tremer incontrolavelmente, balbuciou:
- O marquês de Sande foi assassinado. Em Lisboa. Por engano. Mas morreu, lady Suffolk, morreu, e agora como é que dou a notícia à minha irmã? É segredo, mas sei que sabe, dom Francisco voltava antes do Natal e ele e Nan iam casar...
Lady Suffolk sentiu um murro no estômago. Gostava do marquês de Sande, gostava mesmo muito, apesar do seu estilo distante, às vezes frio, e percebera o encantamento de Nan por ele, e dele por Nan...
Naquele momento, e sem se fazer anunciar, o rei entrou na sala. Já sabia da morte de Sande, e acelerou o passo em direcção às duas mulheres. Com uma mão ajudou lady Suffolk a levantar-se, puxando uma cadeira para que se sentasse. Depois dobrou os joelhos e beijou a testa de Meg carinhosamente:
- Minha pequenina, custa tanto crescer, perder aqueles de quem gostamos.
Pondo-lhe um dedo sobre a boca em sinal de silêncio, acrescentou:
- Sei que não chora por si, lady Meg. A rainha tem-me falado com um entusiasmo infantil do romance de Nan com Sande, vá lá a gente saber o que viu a sua irmã naquele homem, comigo aqui tão perto - estúpido, pensou, porque é que não resistes a fugir para o humor quando não sabes o que dizer? - Não ligue, disparates. Diga-me só, a sua irmã sabe?
Meg abanou que não com a cabeça e lady Suffolk acrescentou:
- A rainha desmaiou, está deitada, o médico receitou-lhe um calmante. Só agora soube do noivado de lady Ann, Sua Majestade, e de que esperava casar já pelo Natal - contou, desolada.
Charles era um homem de crises. Sentia-se tão feliz por ser útil, por perceber que os seus gestos traziam felicidade e serenidade às pessoas a litas, que quando se via apanhado numa situação como esta tornava-se rápido, seguro, ágil, e, sim, genuinamente reconfortante.
- Lady Meg, vamos levantar-nos daí, e tratar deste assunto, o melhor que formos capazes. Lady Ann vai precisar muito de si. Mas talvez, mais do que de todas as outras pessoas, vai precisar da mãe, não?
Meg acenou que sim com a cabeça. Apesar da vida na corte, ambas as ilhas mantinham uma relação muito forte com a mãe e os irmãos. Lady Fanshawe morava perto e era habitual irem a casa nos dias de festa. Sim, nada faria melhor a Nan do que voltar para o ninho, ser mimada pela sua querida mummy, visitada pela rainha, animada pelos irmãos mais pequeninos...
- Pensei que sim, e lady Fanshawe vem já a caminho. O seu pai deu-lhe também a notícia hoje, por isso é natural que venha abalada, mas certamente menos do que vocês - comentou. - Agora vamos ter com Nan.
Sentada sobre a coberta de seda, de mão dada com a rainha que não parava de chorar, apesar do sedativo, Nan já não sabia o que fazer, ou dizer, para a consolar. Desta vez Catarina não abrira a boca, não con idenciara uma palavra, não deixara perceber a natureza da notícia recebida.
Quando o rei abriu as portas de par em par, Catarina abriu os olhos como quem pede socorro, sem proferir uma palavra, e Nan deu um salto de espanto.
Saltando para o chão, fez-lhe uma vénia:
- Sua Alteza, bom dia. A rainha recebeu uma má notícia do embaixador de Portugal, e não pára de chorar - acrescentou, as mãos abertas ao lado do corpo, como uma criança que não consegue explicar o que está a acontecer.
Charles aproximou-se da mulher, beijou-a nos lábios e passou-lhe uma mão pelo cabelo. Sussurrou-lhe ao ouvido qualquer coisa, e o rosto de Catarina pareceu descontrair. Falando alto, acrescentou:
- Senhora minha mulher, espero-a para almoçar. Mal se sinta melhor, por favor vá ter comigo...
Catarina acenou que sim com a cabeça. As criadas espantaram-se: porque é que Sua Alteza mandava a rainha levantar-se quando estava tão abatida? Mas Charles sabia o que fazia.
Virando-se para Nan, ainda mais boquiaberta, pegou-lhe no braço e disse-lhe:
- Vamos dar um passeio, nós os dois.
- E eu também - disse Meg, e a irmã reparou de repente que os olhos da irmã estavam encarnados de chorar. Começou a tremer dos pés à cabeça, mas Charles pegou-lhe praticamente ao colo e levou-a para a sala da lareira. Não queria que a rainha se tornasse a comover, não até ter recuperado um pouco das suas forças. Conhecia Catarina e sabia que, por muito magoada que estivesse, faria uso de toda a sua força interior para ajudar a sua dama favorita a ultrapassar esta dor.
Nan deixou-se arrastar, abraçar e aconchegar nos braços do rei. O seu cérebro corria como uma lebre: a única coisa que os unia a todos era Francisco, o seu Francisco.
- O que é que lhe aconteceu? Digam-me depressa - insistia.
Meg estava aos seus pés, o rei mantinha-a segura nos seus braços, com aqueles gestos que lhe eram tão naturais, apesar de chocarem tanto quem os observava de fora. Foi Meg quem falou:
- Nan, o marquês de Sande foi assassinado.
- Morreu? - sussurrou sem perceber que o que dizia não fazia sentido.
- Morreu, mana querida. Morreu por engano, seguia na carruagem de um amigo, o golpe da espada não era para ele.
Nan não chorava. Os olhos verdes brilhavam, como se uma febre alta tivesse tomado conta do seu corpo. Silenciosamente levantou-se, aceitou o braço protector do rei, e caminhou até ao seu quarto. Com gestos mecânicos tirou de cima da sua mesinha a caixa onde guardava as cartas de Francisco, e pediu:
- Meg, leva-me para casa.
Lady Fanshawe acabava de entrar no quarto, afogueada, e ao ver Nan correu a abraçá-la com força, tão decidida a proteger a sua querida ilha que nem reparou que o homem do outro lado da cama era o rei. Charles fez um gesto a Meg para que nada dissesse, e saiu silenciosamente pela porta.
Catarina esperava-o nos seus aposentos, para almoçar. Pintara-se, mudara de vestido. Queria ser tudo o que o marido esperava dela, e o coração enchia-se de uma gratidão imensa. Em palavras breves, o rei contou-lhe como julgara melhor enviar Nan para casa, onde, entre o colo da mãe e a animação de uma casa cheia de irmãos, podia chorar à vontade, longe da coscuvilhice da corte, sem ser obrigada a partilhar um dormitório com «víboras maldosas, que é aquilo que a maioria delas são», comentava, com uma lucidez que à rainha parecia avassaladora. Este Charles, este homem que surgia sempre que estava realmente perdida, parecia-lhe ter a forma de um anjo-da-guarda. O seu comportamento era tão invulgar, tão doce, tão generoso, nestes momentos, que era impossível acreditar que fosse o mesmo que tantas vezes a magoava com os gestos e as atitudes mais inconcebíveis. Decididamente não era um, mas dois. E ela tinha agora o melhor dos dois.
A rainha nomeara um estribeiro-mor. Depois de se ter recusado a fazê-lo em protesto contra o despedimento de Edward, aceitara há pouco que o lugar fosse preenchido pelo seu irmão mais novo, Ralph Montagu. Era um rapaz dedicado mas nem o cabelo era encarnado, nem tinha aquela perspicácia de Edward para adivinhar o que lhe ia na alma e no pensamento, nem tão-pouco alguma vez se lembraria de lhe oferecer uma raposinha - pobre Cenoura que acabara por morrer ao colo da rainha. Catarina naquela manhã chamou Ralph e pediu-lhe uma carruagem para as três horas. Deixara passar dois dias, mandara dizer várias missas pela alma de D. Francisco, mas agora sentia um impulso irresistível de acorrer à sua «menina». Sabia que não era muito mais velha do que ela, mas sempre encarara Nan como uma irmã mais nova, ou mesmo como a ilha que gostaria de ter tido.
Como reagiria ela se Charles morresse? Afastou o pensamento da cabeça. Pobre Ann Fanshawe, que se entregara de alma e coração a este sonho, e fora capaz de transformar um homem duro e batido pela vida num sentimental. Um sorriso percorreu os lábios de Catarina: era isso, era isso que a tinha de fazer sentir: que Nan dera ao marquês mais do que ele alguma vez sonhara ainda viver, amara-o de forma apaixonada e ingénua, e esse amor fora capaz de mover montanhas. Não tinha sido uma brincadeira, um amor passageiro, mas um marco, uma ponte para que D. Francisco hoje estivesse mais perto de Deus, porque se tornara um homem melhor.
Quando chegaram a casa dos Fanshawe, uma casa relativamente modesta e sóbria, a rainha viu junto ao ribeiro dois vultos. Meg e Nan passeavam de mãos dadas, botas nos pés, indiferentes ao frio. O céu estava invulgarmente azul para Dezembro, e o ar, translúcido, daqueles em que a primeira inspiração quase nos congela os pulmões.
Lady Fanshawe estava à porta, e fez-lhe uma profunda vénia. D. Catarina abraçou-a, sem protocolos.
Que inveja, pensou de súbito a rainha, ao ver as crianças presas ao vestido da mãe, todas elas ansiosas por olhar a rainha de que tanto se falava naquela casa. Catarina sorriu-lhes, e esticou-se para apanhar Richard, o mais pequenino, que com dois anos era rechonchudo e rosado, com o cabelo ondulado de Meg, os olhos penetrantes de Nan. Beijou-lhe a testa antes de o pousar, enquanto dizia à senhora da casa:
- São os momentos de alegria que nos dão forças para suportar alturas como esta. Como está Nan?
Lady Fanshawe fez um sorriso triste:
- Nunca queremos que uma ilha sofra, nem um bocadinho, quanto mais um desgosto assim, logo agora quando todas as esperanças estavam ainda por realizar. É sempre cruel quando os sonhos se despedaçam sem chegarem a acontecer. Como, aliás, Sua Majestade sabe tão bem - atreveu-se a acrescentar.
Catarina tremeu, e pensou nos seus bebés perdidos, nos ilhos que nunca teria. Lady Fanshawe continuou, a lita, procurando desviar a conversa para terreno mais seguro:
- Também a sua mãe foi obrigada a vê-la partir, e como estava lá e vi percebi bem como foi corajosa, como se despediu de si naquela escada de mármore do paço, sorrindo-lhe como se não fosse nada, desejosa de a encher de alegria e con iança. Via-a depois, o rosto colado à vidraça, a saudade da única filha que se ia embora, para um país distante...
- Mas eu sabia que ia casar, que ia ter com o meu marido, que uma vida nova esperava por mim. Nan ica sem planos, sem sonhos - suspirou a rainha.
Lady Fanshawe riu:
- Acreditava em tudo isso, Sua Alteza, porque apesar de todas as angústias e dúvidas que a sua mãe alimentava acerca do seu futuro, nem por um minuto as deixou transparecer. Foi uma grande mulher e uma grande mãe. Sei que Sua Majestade saberá ser assim com Nan, vai voltar a dar-lhe razões para viver. Nós, que já passámos por muito, sabemos que o tempo suaviza a dor, que a fé nos ajuda a aceitar a vontade de Deus. Temos de ajudá-la a superar esta perda, e levá-la a amar de novo...
Catarina franziu o sobrolho, assustada:
- Voltar a amar, lady Fanshawe?
A senhora soltou uma sincera gargalhada:
- Desculpe, Sua Alteza, mas vejo que é tão menina, e está tão apaixonada como a minha ilha. Sim, é claro que Nan vai voltar a amar, tem vinte e dois anos e a vida toda pela frente. Não lhe podemos falar nisso, nem hoje, nem para o ano, mas um dia vai acontecer. E mais, tenho a certeza que seria essa a vontade do marquês...
- Queria tanto ter a sua sabedoria. Permite-me que a visite com mais frequência? Às vezes sinto-me tão sozinha. Estou-lhe tão agradecida por me ter «emprestado» as suas maravilhosas ilhas todos estes anos: acredite que têm sido, cada uma à sua maneira, as melhores das amigas.
Lady Fanshawe riu de novo, era de riso fácil, tal qual a sua Nan:
- Cada uma à sua maneira, diz bem, que nunca vi como é que do mesmo saco saíram duas irmãs tão unidas, e tão diferentes.
Catarina perguntou então, como quem pergunta à mãe:
- Posso ir ter com elas? Junto ao rio, quero dizer?
- Vá, minha rainha, vá. Vão ficar felizes de a ver.
Quando levantou os olhos do chão, e olhou Catarina, Nan desatou a correr em sua direcção. Lançou-se nos braços, com uma paixão imensa:
- Sua Majestade, obrigada por ter vindo, nem sabe como é bom vê-la. Sinto-me mais próxima de Francisco quando estou ao pé de si. Sei que entende a minha perda, a minha dor.
Catarina passou-lhe uma ponta do seu manto por cima dos ombros e aconchegou-a junto a si, e estendeu a mão a Meg, que se mantivera um pouco mais atrás. Meg respondeu ao apelo e apressando o passo, e em silêncio, entrelaçou os seus dedos nos da rainha:
- Estive a pensar, Nan, e percebi a importância que o vosso amor teve para dom Francisco, e é exactamente isso que lhe vim dizer. Porque, por muito dolorosa que seja a morte, é suportável se lhe virmos um sentido, se acreditarmos que não foi em vão, se percebermos que deixamos uma marca nessa pessoa, e que ela nos tocou de tal maneira que viverá em nós para sempre. E vivendo em nós, nas nossas memórias, nas nossas orações, continua sempre vivo.
- Dona Catarina, posso não ter passado de um lirt de Francisco? Leio e releio as suas cartas, as primeiras tão formais, as últimas tão abertas e sinceras, mas agora parece-me tudo tão irreal... Não fui ao seu enterro, não vi o seu corpo, é-me difícil acreditar que ele não esteja neste momento num barco a caminho de Inglaterra, de regresso a mim...
Catarina apertou-lhes as mãos.
- É muito di ícil estar longe de quem morre, sim. Senti-o quando a minha mãe morreu e não podia fazer mais do que vos obrigar a todas a andar de luto por alguém que nem conheciam. Perder um noivo, um futuro marido, é ainda mais penoso, mas Nan, acredito mesmo que os seus olhos verdes, a sua sinceridade, essa franqueza tão rara de encontrar, e a generosidade com que se entrega àqueles de quem gosta, mudaram completamente o marquês de Sande. Por isso lhe digo que vinha a pensar que foi através de si que ele chegou mais perto de Deus. Foi a sua alegria que quebrou uma certa amargura que parecia trazer sempre aos ombros. Eu própria não o reconhecia, e quando o via sorrir para si espantava-me, como me espanto todos os dias, com o poder do amor.
Nan ouvia com toda a atenção. A ideia de ter mudado um homem tão mais velho e sábio do que ela, de ter sido capaz de lhe dar sentido à vida, de o fazer esquecer desilusões, confortava-a. Se era cruel perdê-lo, teria sido muito pior descobrir que não tinha representado nada para ele. Mas a rainha dizia que Francisco a tinha amado, e a rainha nunca mentia. Nan suspirou:
- Sua Alteza, posso ficar sempre consigo?
As irmãs estavam de volta ao paço. Quando soube da chegada, Catarina chamou-as.
- Os vossos presentes de Natal.
Meg gritou de alegria quando abriu o embrulho que continha uns brincos lindos, e Nan agradeceu efusivamente um diário, com um cadeado- «Para escrever o que não quer dizer a ninguém», escrevera a rainha no pequeno cartão que o acompanhava.
Depois puxou Nan para junto do seu oratório, pediu-lhe que se ajoelhasse e colocou-lhe em volta do pescoço um io de prata com uma cruz, onde estavam gravadas três iniciais: FMT, e um ano, o de 1610. Nan deu um grito, de horror, de alegria, de tudo junto:
- Dona Catarina! - disse, e parou aí.
- O io que o marquês de Sande, antes disso conde da Ponte, e sempre Francisco de Melo e Torres, nascido em 1610, nunca tirou do pescoço desde o dia em que foi baptizado.
- Mas como? Como é que veio aqui parar?
- Pedi que me mandassem o seu io e a sua cruz. Não me parece que façam sentido na posse de mais ninguém.
Nan saiu pela porta, num pranto incontido. Meg olhou, assustada, como se a rainha tivesse vindo desestabilizar a serenidade que, com tanto esforço, tinham conseguido fazer descer sobre a irmã.
Catarina puxou-a a si:
- Não se zangue, Meg, este choro é bom, este choro limpa a alma, cura. Agora Nan fica completamente ciente de que dom Francisco morreu, mas também tem qualquer coisa de palpável que lhe permite mantê-lo junto de si. Aos poucos vão ficando as memórias boas, e a dor atenua-se. Um dia damos por nós a rir. A vida e a alegria de Nan têm mais força do que a morte. É essa a lição da cruz.
Era di ícil saber o que Meg sentia quando olhava com aquela expressão opaca.
- Desculpe, dona Catarina, mas se não precisa de nada, vou até ao jardim...
D. Catarina ficou subitamente séria:
- Lady Meg?
- Sua Alteza?
- Meg, não quero que se sinta culpada por ser feliz. Por ter o seu Francis, enquanto Nan perdeu o dela.
Os olhos de Meg abriram-se instantaneamente, naquele truque que usava para não chorar.
- A nossa infelicidade não faz ninguém mais feliz, enquanto a nossa felicidade, sim. Haverá momentos em que Nan vos invejará, claro, como invejará todos os casais apaixonados do Mundo, mas nunca desejará que tenham de passar por esta dor. Se alguma lição podemos tirar daqui é a de que a vida tem de ser aproveitada todos os dias, merecida diariamente, porque um erro, um engano, pode estupidamente amputá-la num segundo.
Meg aproximou-se, pegou na mão da rainha e beijou-a.
- Obrigada, precisava muito que me dessem autorização para ser feliz.
- Está dada, minha ilha. Marquem o casamento para o Verão, daqui a seis meses, nos jardins loridos de Hampton Court. Serei madrinha, se aceitarem de presente a tal viagem ao Novo Mundo. Vão vê-lo por mim, dêem-lhe o meu nome, digam que partem ao meu serviço, ou ao do príncipe Rupert, mas comecem a vossa família onde o Mundo é novinho em folha...
St. James Palace, Fevereiro de 1668
s notícias de Portugal continuavam a tirar-lhe o sono. António Vieira
tinha sido condenado - como era possível que um país temente a Deus condenasse os seus? Saberiam eles como era praticar a nossa fé num país hostil, onde todos os gestos são vistos com desconfiança, em que nos benzemos às escondidas e o próprio irmão do rei vai à missa disfarçado? Perseguiam um dos homens mais corajosos, mais bondosos, mais puros do reino, e que tanto fizera por ele. Vieira escrevia-lhe, mas Catarina respondia friamente, porque acreditara que o «seu» padre apoiara Pedro e o seu casamento com Maria Francisca, e o pensamento era-lhe insuportável. Se ao menos Teodósio não tivesse morrido. Vezes e vezes sem conta pensava nisso. Acreditava, sinceramente, que nada teria sido igual se o primogénito tivesse chegado ao trono.
Mas naquela manhã tudo fora diferente. Charles viera pessoalmente contar-lhe que lord Sandwich, o conde agora promovido a duque que a fora buscar a Portugal, voltara a Lisboa para rati icar o acordo de paz entre Lisboa e Madrid. Nada a fazia sentir-se mais orgulhosa: cumprira o seu dever. Graças a ela, Inglaterra conseguira negociar um tratado que garantia a independência de Portugal. Subitamente regressou no tempo, à biblioteca de música do pai. Ouvia, com clareza, a voz de D. João a repetir-lhe que tinha de casar bem, que o seu casamento era fundamental para garantir o futuro da dinastia de Bragança, a independência do seu país. Lá em cima, junto de Deus, o pai sentir-se-ia orgulhoso dela, e essa ideia dava-lhe uma satisfação e uma paz imensas.
Agradeceu ao rei ter-lhe vindo trazer pessoalmente a notícia e teve vontade de que a sua querida bandeira fosse hasteada, pelo menos por um dia...
Nan estava com ela quando o criado anunciou a chegada de D. Luís de Vasconcelos e Sousa, conde de Castelo Melhor. Pediu-lhe para sair, como se a chegada de um outro grande senhor de Portugal, de quem a rainha tanto falava, lhe trouxesse recordações dolorosas, mas D. Catarina não o permitiu.
Murmurou-lhe severamente ao ouvido:
- Sente-se e borde, que as damas da rainha não fogem de nada, nem de ninguém.
Nan voltou a sentar-se no banquinho, gelada por dentro. Não sabia se se sentia assim por ter sido repreendida, por se sentir frágil e cobarde, ou porque nunca conseguiria esquecer que era assim que D. Francisco seria anunciado, se voltasse para a ver.
Um murmúrio atravessou a sala quando D. Luís entrou.
- Há muito tempo que não víamos um homem tão bonito - coscuvilhava o eterno trio diabólico.
Meg observou-o longamente: não teria mais de 30 anos, alto, cabelos ondulados castanhos-avelã até aos ombros, uma voz forte, mas sedutora. Se eu fosse ao rei punha-me a pau, pensou.
D. Catarina sorriu-lhe, como se ele lhe trouxesse o cheiro a maresia do Tejo e a luz única de Lisboa. Apontando para a porta que conduzia ao seu escritório privado, pediu às criadas que lhe trouxessem chá, bolinhos, e aquele «doce de laranja» com uns scones, para que o conde se divertisse com a última invenção da cozinha anglo-portuguesa.
Nan mantinha os olhos no chão. Não o viu, não o queria ver, ponto final.
D. Luís esforçou-se por suavizar o que tinha para dizer, recordando constantemente a si mesmo que tanto D. Afonso, que servira com toda a dedicação, como o usurpador D. Pedro, como entre amigos lhe chamavam, eram ambos irmãos da rainha. Sabia que Catarina e Charles, ao convidarem-no para a sua corte, tomavam de certa forma partido contra D. Pedro, mas percebia que a decisão não deveria ter sido fácil. A inal, eram ambos seus irmãos, e ninguém gosta que digam mal da própria família, mesmo que no segredo de nossas casas nos insultemos uns aos outros. Por isso optou pelo caminho mais seguro: agradeceu a hospitalidade, explicou como fora importante para ele sentir que, apesar de ser obrigado a abandonar o seu país, «ia, de certo modo, para uma casa portuguesa». A rainha soltou uma gargalhada:
- Acredite que aqui encontrará pouco da corte de Lisboa.
- O que, desculpe a franqueza, será um alívio - ripostou directo.
Catarina estacou, espantada. Vivia há tanto tempo longe de Portugal que endeusara a sua vida de família, pacata e intocada, mas a corte que D. Luís deixava para trás, pelos vistos, não era um sítio invejável.
Depois veio a parte mais di ícil. Catarina encheu-se de coragem e perguntou:
- Dom Afonso está bem? Deixam-no em paz, pelo menos?
O conde hesitou:
- Vou ser franco, dona Catarina, porque só tendo a coragem de assim ser consigo é que lhe poderei ser útil, tanto neste reino de Inglaterra, como em Portugal. Dom Afonso está devastado. Talvez tivesse suportado o golpe de Estado com bonomia, porque, como sabe, abomina reuniões e conselhos de Estado, e provavelmente até aceitaria, se fosse só por ele, partilhar o poder com dom Pedro, mas...
- Mas a forma violenta como tudo foi feito não lhe deixou dúvidas de que estava a ser deposto. Além disso, têm-me chegado rumores, mas não quero acreditar que sejam verdade - disse a rainha.
- Infelizmente, Sua Alteza, vai mesmo ter de acreditar, o que não é sinónimo de gostar. Pelo menos eu, com toda a franqueza, acho que é um dos actos mais vis que já vi praticar, e sinceramente envergonha-me.
- Por amor de Deus, senhor conde, diga-me tudo de uma vez! - protestou Catarina.
- De uma vez? Assim seja. Dona Maria Francisca pediu a nulidade do casamento. Alega que não foi consumado, embora tenha dito, em cartas que escreveu, que se julgava grávida. Dom Afonso foi ouvido, assim como prostitutas trazidas ao Tribunal Eclesiástico, e que atestavam, como hei-de dizer...
- A impotência do meu irmão - ajudou Catarina.
Castelo Melhor corou:
- Exactamente. Diz o tribunal que a não consumação do casamento icou provada. Consideram assim que não houve casamento algum. O assunto tem sido, como imagina, o tema de todas as conversas em Portugal inteiro, e na corte em particular. Melhor dito, nas cortes, porque de momento há duas, uma partidária de um dos seus irmãos, outra, de outro.
Catarina benzeu-se e rezou uma oração rápida.
- Coitado do meu irmão Afonso. A sua virilidade posta em causa, humilhado. Como se pode humilhar alguém, ainda por cima um rei, desta forma? O que é que passou pela cabeça das Cortes, dos tribunais, da gente de bom senso do meu país?
- Quero acreditar que ainda há muitos que não se deixaram levar por estes golpes, mas que entre o medo do príncipe dom Pedro - (Catarina ainda não estava habituada a este novo tratamento do irmão, oficialmente aprovado) - e do Santo O ício, acho que cada um prefere meter-se na sua vida.
- Sob risco de se não o fizer acabar no exílio, na fria e nebulosa cidade de Londres - constatou a rainha.
Castelo Melhor riu. Catarina estava mais bonita, mais inteligente, mais sábia. Disse-lhe, e ela agradeceu, sem embaraço.
- E quanto aos rumores de uma ligação entre a minha cunhada e dom Pedro? - inquiriu, directa.
- Absolutamente verdadeiros. As Cortes aprovam e encorajam o novo relacionamento. Tive notícia de que a bula papal que autoriza o casamento entre dom Pedro e dona Maria Francisca já está a caminho.
Catarina pôs-se de pé, sobressaltada:
- Que autoriza o quê? Ai, meu Deus, Maria Francisca, com vinte e dois anos por completar, vai agora desposar o irmão do seu marido traído? Esforço-me eu por dizer aos ingleses que não cometemos imoralidades tais, e vem dizer-me que o meu próprio irmão, que criei, a quem ensinei as primeiras letras, a quem dei o primeiro cão, vai escolher a cunhada, a mulher de um irmão vivo, para esposa?
Preocupado com a veemência de D. Catarina, o conde tentou explicar-lhe os meandros políticos da decisão.