Catarina de Bragança
rainha fizera um esforço sobre-humano para se recompor. Era a
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Mas Nan não a deixou cair na melancolia.
- Sua Alteza, vamos fazer uma peça de Natal, de Natal e para celebrar os seus trinta e sete anos - insistia.
- Como aquelas que fazíamos antigamente, em que cada um de nós tinha um papel. Podemos chamar de novo o professor de dança, está mais velho, mas ainda se mexe... - diziam as outras damas.
A rainha entusiasmou-se. Sim, porque não trazer de novo a alegria à corte? Enquanto encenavam uma peça com uma história virtuosa não andavam pelos cantos em actividades menos lícitas. Encomendou o libreto de uma pastoral, e durante um mês toda a gente da sua Casa esqueceu, por momentos, Louise, as in idelidades do rei, os bastardinhos e os ódios do reino. Os ensaios da Ninfa Casta eram diários e as costureiras de Londres agradeceram que lhes fosse dado de novo trabalho.
No dia 15 de Novembro, o rei e a corte assistiram à peça onde a rainha tinha insistido em ocupar apenas um papel secundário, deixando os lugares principais para as suas damas mais novas e bonitas. O aplauso que encheu a sala deixou-a orgulhosa. Pelo menos hoje o rei frequentava outro tipo de sala de espectáculos...
De Lisboa as notícias que chegavam pareciam não fazer sentido. Pedro mandara vir Afonso da ilha Terceira, onde suspeitava que os conspiradores o poderiam encontrar com facilidade, e «cedera-lhe» um quarto no Palácio da Vila, em Sintra. «Prendeu-o num dos quartos mais pequenos, Sua Majestade, onde o rei tem cinco metros para andar de um lado para o outro e apenas a vista da janela para lhe alegrar os dias. Nem um papel e uma caneta entra no aposento. Dom Pedro diz que teme que o irmão se auto-in lija com o bico da pena! Saídas, apenas uma por dia, para assistir à missa na capela, e escoltado, evidentemente», explicara-lhe o muito mais bem informado conde de Castelo Melhor.
Simultaneamente, o príncipe regente mandara regressar António Vieira, que voltara munido de um salvo-conduto da própria Santa Sé - a Inquisição, mais enfurecida do que nunca com as suas denúncias em Roma, não lhe podia assim chegar.
O que fazer? Escrever a D. Pedro e repreendê-lo pela prisão efectiva do rei? Elogiá-lo de seguida por se ter prestado a fazer alguma justiça a António Vieira? A rainha olhou desanimada para D. Luís:
- Parecia um país tão simples, quando o deixei.
D. Luís sorriu-lhe tristemente.
Hampton Court, 26 de Julho de 1677
atarina acordou de manhã e olhou para o céu, que estava
invulgarmente azul. Viu as horas no precioso relógio que Charles lhe oferecera: ainda era cedo. Espreguiçou-se e fez contas de cabeça: há 15 verões que acordava neste castelo, dentro em breve teria vivido tantos anos em Portugal como aqueles que passara em Inglaterra. Com o passar do tempo tudo se tornara tão mais fácil. Já não se perdia nestes corredores imensos, cheios de escadinhas secretas e passagens alternativas. Habituara-se a um ritmo de vida tão diferente do que tivera até sair de Lisboa, a este constante fazer e desfazer de malas, e sentia que conseguira conciliar sem pecado o lado lúdico da corte com as suas obrigações religiosas. Já não se sobressaltava por tudo, e o facto de entender o que lhe diziam, sem aquele desespero de passar aos olhos dos outros por burra simplesmente porque não entendia a língua, ou não era capaz de responder rapidamente e à letra, por não dominar o inglês, tornava o seu dia-a-dia infinitamente mais fácil.
E o seu casamento? Catarina rebolou para o lado e agarrou-se a uma das suas queridas almofadas de penas. O seu casamento tinha momentos, alturas em que era tudo o que sonhara enquanto adolescente no Paço da Ribeira, e em que se sentia a mulher mais feliz da Terra, e outros tão negros e tenebrosos que nem queria pensar neles. É verdade que izera concessões inimagináveis, mas de que não se arrependia: Charles tratava-a com uma imensa amizade e con iança, pedia-lhe conselhos, e sabia que ela o amava. Ela, estranhamente, acabara por se habituar ao facto de a sua paixão ser unívoca, conten tando-se com a ideia de que o amor que tinha ao marido chegava para os dois. Havia noites raras em que ele ainda a procurava na cama, com uma voracidade e um desejo que lhe pareciam incompreensíveis, em que dava por si a desejar que ainda fossem a tempo, que Charles ainda descobrisse que era ela, e só ela, o amor da sua vida. Mas a vida regressava na manhã seguinte à sua plácida rotina...
Por vezes, quando passava pelo Anne Boleyn's Gateway ou pelo Corredor do Desespero, ainda se arrepiava: os ódios contra os papistas cresciam, dizia-lhe Castelo Melhor, mas decidira preocupar-se com os problemas apenas quando lhe batiam à porta. Apesar do ambiente hostil, continuava a inanciar pequeninos conventos de freiras católicas, a fundar pequenas comunidades de padres da sua fé, e tanto a Queen's Chapel como a capelinha de Somerset House eram verdadeiros lugares de culto, de que se orgulhava.
Olhou de novo para fora da janela e sorriu. Se os dias no Inverno eram tão curtos que se icava com a impressão de que a noite caía pouco depois do levantar do sol, os verões ingleses enchiam-na de alegria. Mesmo quando acordava às quatro da manhã, o céu já clareara, e os ins de tarde prolongavam-se pela noite fora, como se o sol quisesse aproveitar todos os momentos.
Mas hoje era um dia especial, lembrou-se de repente, ao ver, no fundo do quarto, o seu novo vestido de gala pendurado no manequim que lhe mantinha a forma. Nan, a sua querida e adorada Nan, a irmã mais nova, a filha que nunca tivera, casava finalmente.
Tudo acontecera nos últimos meses, durante os seus passeios a cavalo, que Ralph Montagu acompanhava sempre. Se Catarina não conseguia olhá-lo sem o comparar com Edward, deixando-o sempre a perder, já Nan parecia vê-lo com olhos novinhos em folha. A amizade com Castelo Melhor, como a rainha profetizara, ajudara a sarar a ferida da morte de Sande (mas o io lá estava sempre, ao pescoço), tornando-a mais disponível para tudo o que se passava à sua volta. Naquelas cavalgadas pelas horas mais frescas da manhã, Catarina começou a dar por si umas léguas mais à frente, em conversa com uma das outras damas, enquanto Nan e Ralph
icavam para trás, tão entusiasmados um com o outro que se esqueciam
completamente de que estavam acompanhados.
O amor de Nan às cavalariças multiplicou-se por esses dias e falava de cavalos, selas, estribos e poldros como se nunca tivesse tido outro interesse, para divertimento de Catarina. D. Luís, esse, sorria por delicadeza mas aproveitava imediatamente qualquer pretexto para se levantar e desaparecer.
- Dona Catarina, acha que o estou a magoar, por falar tanto de Ralph? -perguntara-lhe Nan, num im de tarde em que passeavam as duas no jardim das Laranjeiras.
Catarina não respondeu logo. Era evidente - e tinha hoje uma capacidade para detectar todos os sinais de romances, namoros e paixões com que decididamente não viera munida de Lisboa - que Castelo Melhor se apaixonara pela Fanshawe. Mas era inimaginável que sendo casado, e com
ilhos, pudesse fazer uma proposta honesta à mulher por quem se
apaixonara. Era duro para o conde manter os seus votos de idelidade, tão novo e obrigado a viver no exílio numa corte de mulheres bonitas, pensou a rainha, lembrando-se de tantos, inclusivamente o rei, resmungou com amargura, que os teriam lançado às urtigas. Mas mesmo que D. Luís estivesse disposto a uma relação ilícita com lady Ann, esta estava-lhe completamente vedada. Nan não só era uma dama da rainha, e logo uma cheia de princípios e convicções, como Castelo Melhor fora grande amigo de sir Richard, tendo grande estima pela viúva lady Fanshawe. Além de tudo o mais, Nan ia fazer agora 32 anos, o tempo começava a ser curto, sobretudo se queria ter ilhos. Por isso, Catarina sentiu que era preciso desvalorizar a paixão de D. Luís. Nan, com o seu feitio generoso, icaria demasiado dividida se achasse que partia o coração a alguém.
Debruçando-se para colher os amores-perfeitos que mandara plantar em redor das laranjeiras, a rainha respondeu:
- Nan, em breve o meu irmão deixar-se-á de guerras fúteis e pedirá a dom Luís que regresse a Portugal. É jovem, um político com uma carreira pela frente, e com família. Qualquer homem sonharia casar com Ann Fanshawe, mas Ann Fanshawe já ganhou há muito o direito de escolher com quem quer casar...
Nan tinha percebido tudo, percebido que a porta a uma relação com D. Luís estava de initivamente fechada. Era preciso procurar outras saídas, e a verdade é que Ralph a fazia rir, era sensível, cuidadoso, tratava-a como uma princesa, e tinha o sentido de honra dos Montagu, que se percebia em cada decisão que tomava. Sim, Ralph provocava-lhe borboletas na barriga e lembrava-se bem de como ela e Meg tinham de inido esse esvoaçar como o sintoma que revelava tudo. Ajudando a rainha a colher umas laranjas, voltara à carga:
- Ralph pediu-me hoje em casamento. Disse-lhe que lhe dava a resposta amanhã...
- Porque não dá já hoje? - quis saber a rainha.
- É di ícil decidir, é uma decisão para a vida... Fazem-me falta aquelas opiniões implacáveis de Meg - suspirou. E depois, virando-se para Catarina:
- Mas podemos depois manter os mesmos postos? Ralph adora o que faz, e eu, e eu, acho que já não consigo viver longe de si...
Catarina lançara-lhe um braço sobre os ombros e, chegando-a a si, respondeu:
- Fico feliz, tão feliz, por ouvir isso, Nan. Não levantaria o assunto, como não levantei qualquer problema à partida de Meg, mas era um pedaço do coração que me era arrancado.
Nan virou os olhos cheios de lágrimas para ela e, procurando tirar o toque sentimental à conversa, comentou:
- Ainda bem que a minha mãe não é ciumenta.
Meg chegara há uns dias. Lady Fanshawe juntara os ilhos todos em casa, e Catarina sentira-se secretamente um pouco posta de lado: crescera com aquele exacto sentimento de clã, rodeada dos irmãos e dos pais, mas agora sobrava-lhe o quê? Talvez pudesse ter recriado esse ambiente se tivesse a nursery cheia de filhos, mas assim, sozinha, icava com a sensação de ser uma peça solta do puzzle, e então quando lhe tiravam as suas damas, a sua Meg, a sua Nan, e o seu estribeiro-mor, icava ainda mais perdida.
Mas hoje chegavam todos a Hampton, logo pela manhã. O rei e a rainha tinham insistido que Ann Fanshawe casasse no mesmo lugar e com a mesma pompa da irmã mais nova, e a cerimónia depressa se tornara um acontecimento real.
Sentada frente ao espelho, oferecido por Charles como presente de casamento, Catarina ouviu bater à porta. Nem chegou a mandar ninguém entrar, porque quando ia abrir a boca já tinha ajoelhada a seus pés Meg, que lhe beijava a mão.
- Meg, Meg - foi tudo o que a rainha conseguiu dizer, enquanto a cobria com os braços e a sua loirinha deitava a cabeça no seu colo.
As criadas pousaram as escovas e os ganchos, e esperaram. Também elas estavam felizes com esta visita.
- Meg, ponha-se de pé e deixe-me vê-la - ordenou.
Meg riu:
- Não me vai dizer que cresci...
Catarina olhava para ela, encantada: continuava linda e so isticada. Nada tinha sido deixado ao acaso, como nunca fora, dos brincos ao colar, do caracol que lhe caía sobre a testa à altura do vestido.
- Não tem ar de ter chegado de uma viagem de barco de dois meses, nem de ter vivido nessa terra de índios - sorriu-lhe a rainha.
- Mais uma coisa que lhe devo, Sua Majestade. Aquele conselho que deu a Francis, de me deixar assentar praça numa cidade com vida própria, foi certeiro. Acredite que depois de um mês de botas e chapéu de palha não pensava noutra coisa senão nos nossos bailes...
A rainha riu:
- Mas, e as crianças?
- Achei que oito da manhã era cedo de mais para as impingir a Sua Majestade, mas já cá estão. Correm de um lado para o outro dos corredores, numa excitação insuportável. Nada no Novo Mundo é tão grande, ou tão imponente. E adormeceram estes anos todos ao som das histórias da minha vida junto de si, sobre os meus dias nestes magní icos castelos, acredite que é preciso viver em cabanas para os apreciar! Agora, de cada vez que reconhecem um pormenor, um móvel, um relógio, uma torre, gritam como se estivessem por aqui numa visita de reconhecimento.
- E Nan, como está Nan?
Por momentos o seu olhar entristeceu-se:
- Parece feliz, mas não sei. Ficámos a falar até de madrugada nas últimas noites e pressinto que além da sombra de dom Francisco, temos outra, não?
A rainha acenou cuidadosamente com a cabeça - estavam ali mais pessoas, e não sabia quanto é que Nan decidira divulgar os seus sentimentos.
- O casamento não é fácil, bem me disse sempre Sua Alteza, e tenho a certeza de que só o meu amor, a minha obsessão por Francis nos permitiu manter-nos tão unidos, mesmo quando os dias não eram fáceis, os confortos nenhuns, o dinheiro menos ainda. Sonhava para Nan um amor absoluto, total...
- Talvez tenhamos todos maneiras diferentes de amar. Consigo, Meg, tem de ser tudo sempre absoluto, como, aliás, acontece comigo, mas Nan, Nan é diferente, parecem caber muitos amores no seu coração. Acho que soube escolher com sensatez e de acordo com a sua consciência. Tenho a certeza de que será recompensada por isso...
Meg não podia dizer o que pensava, que desejava para a irmã um casamento muito mais feliz do que o da rainha, um marido muito mais dedicado e iel do que o rei... Que tal seria este D. Luís, de quem Nan falava com um brilho nos olhos, embora depois atribuísse todos os méritos a Ralph? Garantia-lhe que Montagu lhe fazia borboletas no estômago, mas Meg desconfiava...
Por Nan, como já o izera por Meg, Catarina aceitara assistir à cerimónia anglicana na capela de Hampton Court, uma capela linda, forrada a madeira de carvalho, as janelas de vitrais espantosas, mas para a rainha sem qualquer signi icado. Segundo as tradições da Igreja de Inglaterra, as paredes estavam vazias de imagens, ou de quadros, porque alegavam que tudo isso distraía o crente de Deus.
Sentara-se no banco da frente, ao lado de lady Fanshawe, guardando um lugar para o rei, como sempre atrasado. Mas quando Charles caminhara para o seu lugar trocara olhares com Meg, e abraçara-a, entusiasmado:
- Lady Villiers, que bem lhe fizeram os ares do lado de lá do Atlântico.
E antes que Meg pudesse dizer alguma coisa, tinha-a arrancado do banco, sussurrando a Francis:
- Desculpe lá, Villiers, mas estas cerimónias são tão chatas, que não as suporto sem uma mulher bonita ao meu lado.
Perante o murmúrio dos convidados, arrastara uma Meg meio divertida, meio chocada para o banco da frente, onde, no entanto, a Fanshawe fora
irme: sentar-se-ia ao lado da rainha e mais nada. Charles, perante o ar
espantado da rainha, dizia-lhe:
- Minha querida Catarina, acho que depois de nos ter deixado durante tanto tempo, esta rapariga tinha de se sentar entre nós.
A assembleia abafou uma gargalhada, a rainha abanou a cabeça, divertida, e aconchegou Meg ao seu lado.
- Desculpe - disse-lhe ela ao ouvido.
- Não há nada para desculpar - sorriu Catarina. - O rei tem razão, não posso desperdiçar um minuto da sua companhia. - Meg ainda olhou discretamente para trás, com medo de que Francis estivesse en furecido, mas o marido piscou-lhe o olho: estava demasiado seguro do seu amor para se preocupar com as infantilidades do rei.
Meg seguiu os olhos de Catarina, que a levavam até ao banco do lado, onde um homem elegante exibia na sua capa de veludo as armas de Portugal bordadas.
Com que então era aquele, Luís, conde de Castelo Melhor. Percebia que Nan o achasse encantador. Ao lado de Ralph tinha a maturidade que a irmã parecia buscar incessantemente nos homens. De facto, estes cavalheiros portugueses confundiam a vida de Nan. Uns morriam, outros estavam comprometidos, ainda bem que a irmã tivera a sensatez de optar por um inglês - agora que voltava para Inglaterra, queria que os seus filhos crescessem ao lado dos dela, que os seus maridos se entretivessem juntos a jogar às cartas, que todos eles pudessem tomar conta da mãe, que bem merecia uma velhice descansada.
Quando Nan entrou pelo braço do irmão Richard, num vestido absolutamente simples, o peito realçado por um corpete plissado, as mangas a três quartos e um magnífico véu de renda, que lady Fanshawe se orgulhava de já ter sido usado por quatro gerações da sua família, toda a gente parou por segundos de respirar. A segurar a cauda vinham os dois
ilhos de Meg, com coroas feitas de alfazema e ervilhas-de-cheiro, ao som
do órgão da capela.
Ralph, na sua farda de gala de man of the horse, esperava a noiva junto do altar, orgulhoso.
- Que sorte teve este rapaz, espero que a mereça sempre - sussurrou a rainha ao ouvido da mãe da noiva, lavada em lágrimas.
Meg pensava o mesmo. Ralph parecia cheio de vitalidade, mas sentia-o calmo e seguro de si. Nan precisava de todos estes ingredientes. É claro que iam ser felizes.
O movimento foi imperceptível, mas não escapou a Catarina. Nem a Meg. Segundos, milésimos de segundo, não mais, foi o que demorou o olhar que Nan e Luís trocaram entre si, antes de a noiva proferir os seus votos. Nos seus olhares lia-se pena e conformismo. Nada poderia ter sido de outra maneira.
À saída da igreja, duas crianças saltaram, literalmente, em cima de Catarina. Cada uma delas trazia-lhe um raminho de amores-perfeitos.
- Calma, calma, deixem-me olhar-vos com cuidado. Posso adivinhar os vossos nomes? - disse a rainha.
Os dois soltaram risinhos nervosos:
- Não é capaz! Não é capaz! - repetia o rapaz, o cabelo escuro ondulado, os olhos de um verde-esmeralda, das crianças mais bonitas que Catarina já vira.
- Claro que é. A mummy diz que a rainha dona Catarina é a mulher mais esperta do Mundo - retorquiu a rapariga, que, apesar dos seus três anos, falava num tom determinado e luente, o que facilitava a tarefa de adivinhar a sua ascendência.
- Ora bem - disse a rainha, pretextando uma enorme di iculdade. Ora bem, este menino aqui chama-se Richard Fanshawe Villiers.
O rapaz gritou, delirante:
- Acertou. Acertou, no nome todo, mana, viste?
- Claro, eu disse-te. E agora o meu? - implorou.
- Ah, isso ainda é mais di ícil. Deixa-me olhar para ti: olhos verdes como os do teu irmão, pele muito, muito branquinha, sardas e mais sardas, de quem anda ao sol sem chapéu - a criança riu, fascinada -, e os cabelos loiros, com caracóis revirados nas pontas. Ora, o teu nome é Catherine Fanshawe Villiers.
- Enganou-se, enganou-se! - disse o pequenino Richard, radiante, mas imediatamente corrigiu:
- Desculpe, eu queria dizer Sua Majestade, antes do resto, mas esqueci-me; não estou habituado.
Catarina riu como não ria há muito, um riso de felicidade pura, saído do fundo do coração:
- Não faz mal, mas não te esqueças mais. Mas como é que me enganei, explica-me, Catherine - disse-lhe, puxando-a para o seu colo.
- Não é bem enganar - disse a criança, lançando um olhar de crí- tica ao irmão (quando a mãe soubesse que ele tinha acusado a rainha de Inglaterra de se enganar, e podiam contar com ela para não deixar a cena por contar!). - O problema é que a minha mãe quis que eu me chamasse CATARINA, em português.
A rainha sentiu as lágrimas saltarem-lhe dos olhos. Disfarçou a emoção pousando a criança no chão e apertando-a contra as suas pernas, a mão na sua cabeça loira.
Como poderia agradecer a Meg? Como poderia agradecer-lhe ter aceitado partilhar com ela a sua ilha? Porque era isso que sentia, que aquela criança era a sua Catarina, que aquele rapaz era o seu Richard.
Levantou o olhos e cruzou-os com os de Meg. Disse tudo, e ela entendeu tudo.
St. James Palace, Agosto de 1678
atarina assustou-se quando Ralph Montagu entrou na sala onde
costurava tranquilamente com as damas. Mais angustiada ficou quando o seu estribeiro-mor lhe entregou uma mensagem, e percebeu que vinha fechada com as armas do rei. Charles dissera-lhe que tinha de ir a Londres, e nos tempos que corria Catarina temia sempre pela sua segurança - as ameaças à sua vida multiplicavam-se, nas ruas da capital tinham sido queimadas imagens do papa e, diziam os seus conselheiros, a hostilidade contra os católicos crescia. A filha mais velha de James, Mary Stuart, casara com William de Orange, ambos protestantes, e os boatos que corriam afirmavam que o partido de Buckingham tudo faria para que fosse a princesa a ocupar o trono, já que Charles recusava todas as propostas de reconhecer Jemmy como o seu sucessor.
«Usar Jemmy para roubar o lugar ao meu irmão, nunca! Preferia vê-lo enforcado em Tyburn», gritara o rei, numa das suas raras fúrias, quando um grupo de amigos lhe viera propor a solução. A frase correra a corte e chegara, obviamente, ao próprio Jemmy e Catarina receava aquilo que o jovem ambicioso poderia ser levado a fazer.
Montagu já estava a icar nervoso. A rainha virava e revirava o sobrescrito, como se não o soubesse abrir.
Montagu tossiu e perguntou-lhe se queria que saísse, se preferia ler a mensagem sozinha. Catarina pareceu acordar, e sobressaltada olhou de novo para o papel que tinha na mão:
- Não, não, sir Ralph. Pelo contrário, prefiro que fique.
Num gesto decidido, quebrou o lacre e leu, e a cada linha icava mais pálida.
Montagu voltou a arriscar:
- Sua Alteza, más notícias?
Catarina disse-lhe que sim. Sim, decididamente eram más notícias.
- Posso ler-lhe o que diz? - solicitou, porque não aguentava sozinha toda aquela angústia. Sem esperar pela resposta começou a ler:
Minha querida mulher,
Não posso voltar tão cedo como desejava, em consequência de mais um episódio absurdo. Passeava hoje bem cedo de manhã com os cães em St. James Park, quando um homem me saiu ao caminho e me disse que, mais à frente, estava um atirador pronto para me assassinar. Perguntei-lhe, a rir, porque é que o tal sujeito queria acabar com a minha vida, e ele respondeu, com a lengalenga que já cansa, que os papistas me queriam morto, para que James herdasse o trono. Pobre James, agora é suposto passar os dias a conspirar contra mim. Não gostei do tom arrogante do sujeito e mandei-o apresentar-se ontem à noite no palácio. Convoquei o meu conselho privado e o meu próprio irmão, mas sinceramente acho que
iz mal. A criatura não se intimidou e deu-nos o nome de um outro, que
dizia ser quem conhecia realmente os pormenores da cabala contra mim. Quis dar o assunto por encerrado, mas acho que fui ingénuo: há gente, mesmo no meu conselho, que adora estas histórias que servem os seus interesses. Marcaram para hoje um encontro com o tal, de nome Titus Oates. Uma criatura baixa, oleosa, que tanto quanto entendi já foi anabaptista, protestante, ingiu-se católico, e, depois de ter fugido de Inglaterra para não pagar dívidas, voltou agora com esta maravilhosa conspiração na manga.
Quando o interroguei meteu os pés pelas mãos.
Querida Catarina, se tudo isto não fosse tão sério, só dava vontade de rir. Pedi-lhe, por exemplo, que descrevesse João da Áustria, de que não se cansava de falar:
- Um homem alto, loiro, de olhos claros - respondeu o detestável homenzinho.
Dei uma gargalhada. Sinceramente, desculpe-me a falta de modéstia, mas acho que a minha resposta teve graça, embora como sempre fosse o único a rir dela. Disse-lhe:
- Meu caro amigo, não imagina como dom João gostava de ser descrito assim. O pobre homem tem um complexo enorme por ser baixo, moreno e rechonchudo.
Mas, Catarina, estou a falar a sério, só eu é que me ri. Por muito que o tivesse desmascarado nesta e noutras ocasiões, os meus ministros queriam, a todo o transe, acreditar na conspiração, e nada serviu para os demover. A certa altura, sinceramente, perguntei-me se não terão sido eles a montar todo este teatro, e o tal Oates não passa de um testa-de-ferro.
Queria muito escrever-lhe antes que as notícias lhe chegassem por outras vias: é que Oates denunciou nomes de padres católicos, de nobres católicos, de uma série de gente que decidiu conotar com Roma. Exibia uma lista daqueles que, segundo dizia, teriam tomado parte no golpe (que, note-se, nunca aconteceu). Nunca vi tanto interesse na minha pessoa, nunca vi conseguirem-se mais depressa mandados de busca, mas sei que neste preciso momento a guarda já entrou em muitas casas, e arrasta muita desta gente para a Torre de Londres. Não se preocupe comigo, porque não me vai acontecer nada, até porque neste momento isso seria sinónimo de James no trono. Procuram apenas criar confusão, pressionar-me a nomear Jemmy, ou a tomar outras decisões. Peço-lhe que se mantenha calma, e que se abstenha, embora saiba que di ícil isso é para si, de entrar em contacto com os católicos que estão em perigo, e imploro-lhe que não receba aqueles que, certamente, vão pedir-lhe conselho e ajuda. Percebo que é contra o seu temperamento fugir aos problemas, e que terá medo que os seus amigos julguem que os abandona num momento di ícil, mas a rainha de Inglaterra só agravará a situação dos católicos romanos e a sua própria, se neste momento der algum pretexto a este bando de cães de ila ansiosos por sangue. Lembre-se que a guerra já está instalada e quem a move saberá manipular o povo na direcção que entender, como a sua mãe a avisava sempre.
Mais não posso dizer, nem era sensato que o fizesse, mas neste momento rea irmo a minha dedicação e prometo reunir-me a si o mais breve possível,
Charles R.
Montagu tinha escutado tudo em profundo silêncio. Já lhe tinham chegado rumores pelos seus estribeiros, mas não pensava que a situação fosse tão grave, que os próprios ministros e conselheiros do rei, e o Parlamento também, estivessem tão empenhados em exterminar todos os simpatizantes ou praticantes da fé católica. Como a rainha, também ele entendera, que seria ela o alvo seguinte, o verdadeiro alvo a abater.
Tanto Catarina como Ralph pensavam, sem se atreverem a dizer uma palavra sobre o assunto, que talvez o rei não tivesse a coragem su iciente para defender a mulher. Seria Charles capaz de resistir às pressões de quem pedia um divórcio? Charles não o mencionava directamente, incluindo esta proposta no capítulo das «outras decisões», mas era perfeitamente possível descortiná-lo nas entrelinhas.
- Quer que chame Nan? - perguntou Ralph, preocupado com o ar doente e cansado da rainha.
Catarina olhou-o com um ar meigo, mas exausto.
- Sir Ralph, deixe Nan descansar, ainda por cima está quase no im do tempo.
Sempre tão capaz de desejar a felicidade dos outros sem uma pinga de inveja, pensou Montagu, orgulhoso por servi-la.
- Quem, então?
- Pedia-lhe que pedisse uma infusão de laranja à criada, aí na antecâmara, e depois solicitasse a dom Luís que chegasse aqui.
- Sua Alteza vai permitir-me que faça mais. Deu-me o enorme privilégio de ouvir a carta do rei, e entrar na sua con idência. Percebi perfeitamente que sir Charles a deseja bem protegida. Esta matilha está zangada, determinada e rapidamente pode tornar-se perigosa. Vou falar com o chefe da Guarda da Rainha para reforçar a guarda aos seus aposentos, e, até novas ordens do rei, peço-lhe que se mantenha dentro do castelo...
Catarina agradeceu, mas manteve os olhos no chão. Como Charles previra, tinha uma imensa di iculdade em aceitar que pessoas inocentes estivessem presas e a caminho da forca, sem que ela, rainha de Inglaterra, izesse um gesto para as ajudar. Como se não fosse o bastião da fé católica
naquele país. Pelo menos avisaria alguns, avisaria os seus frades arrábidos, e depois poderiam ser eles, sem o seu conhecimento directo, a espalhar o aviso. Assim quase que obedecia ao rei... Quando Castelo Melhor entrou na sua sala, Catarina percebeu que ele já recebera informações tão ou mais completas do que as suas. A rainha pediu-lhe que se sentasse, e começou:
- Dom Luís, temos de avisar...
- Sua Alteza não vai avisar ninguém.
- Não posso, dom Luís, não posso deixar que os frades e padres portugueses, que o father Hudlestone, que...
- Dona Catarina, repare bem que lhe disse apenas que não ia ser Sua Alteza a mexer um dedo para lhes fazer chegar a ordem de que deixem Inglaterra o mais depressa possível... - Catarina entendeu. Restava-lhe rezar, rezar com toda a piedade para que Deus Nosso Senhor velasse pelos seus. Ninguém a podia impedir de rezar.
Somerset House, 7 de Outubro de 1678
stava de novo em sua casa, e Charles surgira de surpresa depois do
almoço, alegando que em mais lugar nenhum de Londres se bebia um chá como nos seus quartos. O clima de instabilidade mantinha-se, e Titus Oates continuava a ser utilizado para fazer mover esta grande campanha contra os católicos.
- É a irracionalidade de tudo isto que me faz confusão, Charles. Duques, marqueses, condes, todos preferem acreditar nesta teoria da conspiração, apesar do tal Oates se contraditar a todo o minuto. Já passaram leis a assegurar a primazia da Igreja de Inglaterra e a impedir qualquer católico de ocupar um lugar no aparelho do Estado - (escusou-se a dizer que todas elas tinham contado com a assinatura do rei!) -, já mataram tantos, porque precisam de mais sangue? Dizem-me que já são 25 mil, Charles, 25 mil as pessoas interrogadas e presas por alegadamente professarem a fé, e muitas delas estão presas ou foram mesmo enforcadas. Não chega? -Pousando a cabeça nas mãos, murmurou, desesperada.
- Tanto sangue inocente que já correu, Charles, porquê? Porque é que não conseguem deixar que cada um viva segundo a sua consciência?
Estavam os dois fechados no escritório que fora de Henriette Marie. Charles quisera mantê-la fora de Londres, mas a rainha recusara: não tinha nada a temer, não mudaria um milímetro aos seus hábitos e, mesmo nestes dias de terror, mandava celebrar missa na capela consagrada.
Charles admirava-a, admirava a serenidade com que aceitava tudo isto, sem nunca se fazer de vítima, sem lhe pedir que se cruci icasse pelas suas causas ou que tomasse atitudes mais irmes. Catarina, por seu lado, sabia que o rei procurava a todo o custo sobreviver à crise, que o fantasma do exílio se adensava e que o pior que podia fazer era pressioná-lo. Porque con iava totalmente nele, ou porque desistira de contar com ele?, perguntava-se por vezes, no escuro da noite, mas nunca quando o tinha à frente, forte, grande, os olhos generosos e perspicazes virados sobre ela.
- Mas hoje as notícias ainda são piores - comentou ele, deixando-se escorregar ainda mais sobre o sofá.
- Piores? - sobressaltou-se Catarina.
- O juiz Godfrey desapareceu e dois dias depois foi encontrado morto numa cova. Espicaçaram o povo a acreditar que era obra dos papistas... coitados dos papistas, os que puderam fugiram e os que não conseguiram fazê-lo estão presos... Estou perfeitamente convencido que foi um golpe dos apoiantes de Oates, que agora vive em Whitehall, e tem um ordenado...
- Em Whitehall? - surpreendeu-se Catarina, cheia de vontade de dizer que quando alguém conseguia abrigar um inimigo do rei, contra a sua vontade, no seu próprio palácio, a situação era de facto grave!
Charles percebeu a crítica.
- Mando pouco, Catarina. Quando os meus conselheiros tomam decisões destas, protesto, re ilo, ironizo, mas se forem muito insistentes o que posso fazer? Tomariam a minha recusa como uma vontade de proteger a rainha, como uma aliança com os católicos, e não quero, nem posso, dar-me a esse luxo.
Catarina teve vontade de dizer o que pensava de novo, mas calou-se: de quem era o palácio, por amor de Deus, como podia Charles deixar que
izessem estas coisas em seu nome, e agora refugiar-se na desculpa que a
protegia a ela, a ela que a irmava publicamente todos os dias a sua fé? E que desculpa teria para explicar que, igualmente no seu palácio, a sua amante Louise reinasse, porque era esse o termo exacto da palavra -afinal, não era também ela católica?
Charles começava a enervar-se, como acontecia sempre que pressentia uma crítica fundamentada.
- Não estou tão parado como parece! - comentou, zangado, e Catarina corou, porque sentiu que lhe lera os pensamentos.
- Ontem ofereci quinhentas libras a quem descobrir o assassino, esperava que alguém denunciasse o mercenário que, por sua vez, quando fosse apertado denunciaria quem lhe encomendara o serviço. Esperava, digo bem, porque o tiro saiu-me pela culatra. Os partidários de Oates mandaram um homem, um bandido há pouco saído da cadeia, ao que desceu a exigência de credibilidade das testemunhas nestes tempos!, denunciar um padre como o autor do homicídio. Passei aqui agora porque vou saber o que se apurou em concreto...
- Por favor, Charles, peço-lhe que mande notícias rápidas. Porque não leva consigo dom Luís e depois envia-o de volta com a informação disponível? Ficava mais descansada, e ele é tão discreto.
- Minha querida rainha - disse o rei, procurando descontrair o ambiente com o seu humor -, quer proteger-me mandando-me para o meio dos meus inimigos com um papista assumido, vestido com uma capa com as armas de um reino submetido a Roma?
- Que estupidez, de facto, mas...
- Mas quero que o conde ique perto de si, porque con io muito no seu bom senso e sei que assim a deixo protegida. Quanto a recados, mando-os por um dos meus homens de confiança, não se aflija...
Catarina ordenara que lhe pusessem a mesa do jantar no escritório para duas pessoas. Precisava da companhia de Nan, de alguém que compreendesse as suas angústias e os seus medos. Nan, com a barriga já enorme, sentou-se junto da lareira, que as noites já estavam frias.
- Dona Catarina, está exausta, e os médicos que tanto lhe recomendaram repouso...
A rainha mordeu o lábio, como fazia quando estava nervosa:
- Como é que posso descansar, logo hoje que o rei me veio dizer que um criminoso diz que foi um padre a matar o juiz? Prometeu ir até ao tribunal e mandar dizer o que se tinha passado, mas até agora nada. Quis que levasse com ele dom Luís...
- Mas... - e Nan ia repetir a mesma advertência do rei.
- Já sei, já sei, que foi uma ideia desprovida de senso, mas pensei que Castelo Melhor...
- ... o protegia...
- Sei que é disparatado, pobre dom Luís, o que podia fazer por ele, mas confio de tal maneira nele, como em si e em Ralph, que vos acho detentores de poderes miraculosos - disse, rindo.
Nan não teve tempo de responder, porque o porteiro-mor anunciava o conde de Castelo Melhor.
D. Luís e Nan tinham passado a cumprimentar-se com distanciamento, procurando que os seus caminhos não se cruzassem, e a rainha recebia-os sempre a tempos diferentes, mas esta visita era inesperada e agora não havia nada a fazer.
D. Luís fez uma pequena vénia às senhoras, mas era nítido que estava demasiado agitado para se preocupar com protocolos:
- Conte-nos tudo, por favor - solicitou Catarina.
- Recebi nota do rei. As notícias são inacreditáveis, tão inacreditáveis, dona Catarina, que começo a pensar seriamente que este país ensandeceu, e acredite que já passei por muito.
- Não nos deixe assim...
- O tal criminoso teve o desplante de dizer que o assassino do juiz foi mesmo um padre de que deu o nome, que o procurou depois, sabendo do seu passado, para vir aqui buscar o cadáver do pobre sir Godfrey, e dele se desfazer...
- Aqui? Mas aqui onde? - exclamaram Catarina e Nan em uníssono.
- Aqui, a Somerset House.
Catarina e Nan taparam a boca, em estado de choque.
A gravidade desta acusação era clara. Sem o terem dito para já claramente, era visível que os inimigos da rainha, ou de James, estavam dispostos a tudo, inclusivamente a acusar Catarina de estar envolvida na tentativa de assassínio do marido.
Castelo Melhor andava de um lado para o outro, as mãos atrás das costas, e falava como se estivesse a depor num tribunal.
- A insensatez da acusação é total. Nunca deveria sequer ter sido considerado o testemunho de um criminoso, mas é isso que me preocupa, é essa sensação de que estas personagens menores não são mais do que peões num tabuleiro, e que quem os move são os mesmos que lhes dão crédito...
- O que disse o rei, quando ouviu essa acusação? - perguntou, numa voz sumida, Catarina.
D. Luís parou e olhou-a.
- Sua Alteza ridicularizou o criminoso, os juízes, enfureceu-se com a Acusação e foi di ícil impedi-lo de ajustar contas ali com alguns dos «senhores» que insistiam que era preciso investigar mais fundo estas «revelações». Defendeu a honra da rainha, proibiu-os de sequer imaginarem, quanto mais dizerem que Sua Majestade poderia estar de alguma forma envolvida nesta conspiração. Repetiu mil vezes que era uma mulher a todos os títulos honrada, cuja dignidade e dedicação a este seu país adoptivo só podiam servir de lição a muita da gente que estava naquela sala.
Catarina corou de orgulho e prendeu a mão de Nan na sua:
- Eu sabia que, num momento importante, o rei não me abandonaria.
Nan e D. Luís cruzaram instintivamente um olhar, que logo disfarçaram.
- E agora? - perguntou a rainha. - Se querem vir ver a casa, procurar os vestígios do sangue do pobre juiz nas escadarias, são livres de cá vir, que venham todos! - disse Catarina, recuperando a sua postura de rainha.
- Foi exactamente isso o que lhes disse o rei. Amanhã o criminoso, na companhia de dois parlamentares, virá a Somerset House. A ideia foi de Sua Majestade, e ao que parece impressionou. O rei insistiu em acompanhar pessoalmente a visita. Dizem-me, dona Catarina, que a posição tão clara de Sua Alteza a favor da mulher fez mudar muitas opiniões. Gente que tinha sido levada a acreditar que o rei estaria por trás de toda esta cabala, para aproveitar o pretexto...
- Para se divorciar de mim...
Castelo Melhor anuiu. Nan não resistiu:
- Dona Catarina, quando perceberem que o rei não cede desistem. Não querem confrontá-lo, têm medo de que os ventos mudem, vai ver que depois da dura prova de amanhã, comprovando-se o perjúrio da testemunha, este pesadelo acaba.
Catarina, no seu mais belo vestido, recebeu a comitiva no patamar das escadas. Os seus olhos negros brilhavam intensamente, e deixou que os dois nobres encarregados de « iscalizar» a investigação lhe beijassem a mão, como se nada fosse. O rei fez questão em subir os degraus dois a dois e perante todos os presentes beijá-la na boca, demorada e visivelmente, para espanto, antes de mais, da própria Catarina, que manteve, porém, o ar de que aquele tipo de cumprimento fazia parte da sua relação de todos os dias.
Os guardas seguravam o criminoso Bedloe e o inquisidor, encarregado de conduzir as perguntas e de fazer o relatório, pediu-lhe que apontasse os locais que indicara no seu depoimento:
- Onde é o tal corredor onde o corpo foi escondido? - perguntou, com o embaraço de se ver perante os reis a torná-lo mais agressivo.
Bedloe não sabia para onde se virar. Nunca pusera os pés naquela casa, sabia lá ele onde era a passagem que Titus Oates lhe dissera para assinalar no seu testemunho. Subiu e desceu as escadas, insinuou que era «para ali», para gáudio de Catarina, porque a porta dava para a sua casa de jantar, e, por im, ele encolheu os ombros. Que não sabia, não se lembrava, que talvez tivesse bebido, e de qualquer maneira tudo se passara na escuridão da noite. Bedloe tremeu quando o rei, na sua voz mais forte, declarou:
- Levem-me daqui este mentiroso, e que o relatório deixe bem claro que eu, Charles II de Inglaterra, peço uma condenação para este homem que se atreveu a procurar manchar o nome da rainha.
Castelo Melhor escrevia cartas para Lisboa. Procurava acalmar a ânsia de D. Pedro, que tinha sido avisado do perigo que a irmã corria. Chegavam cartas do duque de Cadaval e de outros conselheiros reais, que sugeriam que o melhor era trazer a rainha de volta a Portugal. Se ainda por cima não tinha ilhos, o que a prendia a Inglaterra? D. Luís sorria tristemente quando as lia: o que prendia a rainha a Inglaterra? De facto, nenhum deles tivera a oportunidade de observar como D. Catarina olhava o marido, como vivia para os momentos das suas visitas, como con iava nele, mesmo quando todos - inclusive o próprio - temiam que Charles não tivesse a coragem de se arriscar por ela. Não ouviam D. Catarina lembrar-lhes que o rei não a abandonara por um minuto quando estivera a morrer, que fora ele que lhe segurara a cabeça quando vomitava, que lhe mudara a cama suja sem chamar a criada, que vez após vez recebera a notícia do bebé perdido, com um mimo, um braço em redor do pescoço, sem uma queixa, u m a recriminação. Era verdade que a izera sofrer, que a obrigara a confrontar-se com as suas in idelidades, mas a rainha recordava com satisfação a forma como expulsara por duas vezes a Palmer da corte porque a apanhara a troçar de Catarina. Charles era um homem de equilíbrios, um egoísta, reconhecia a mulher, mas não a abandonaria, nem a renegaria.
Castelo Melhor escrevia a dizer isto mesmo a Lisboa. Por enquanto a rainha estava serena, feliz até com as provas de amor que o rei lhe dava com mais frequência neste tempo de crise, e Charles nunca fora visto tanto tempo com ela, fazendo questão de a passear nos jardins públicos ou de a levar através da cidade numa caleche toda transparente, que izera o furor de Londres há uns anos.
A um dos seus melhores amigos, D. Luís até se atrevera a acrescentar uma graça: «Corre na corte que o rei tem uma nova amante. A rainha», escreveu. Mas também lhe con idenciava que não estava absolutamente descansado: Inglaterra tinha o mau hábito, gracejava, de esgrimir os assuntos religiosos com uma violência bárbara. O rei poderia tentar tudo para defender a mulher, mas continuava a fechar os olhos a todos aqueles que, diariamente, eram sacri icados, enforcados, degolados, refugiando-se num «que se cumpra a lei». A inal, depois e apesar de tudo isto, Charles dissera no Parlamento que prometia lutar contra quem procurasse restaurar o papismo, suspirou D. Luís enquanto arrumava a escrivaninha. Esquecera-se, porventura, da religião professada pelo seu irmão?