Catarina de Bragança
rainha fizera um esforço sobre-humano para se recompor. Era a
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Não se esqueça, dona Catarina, que o contrato de casamento assinado por Portugal deixaria o reino em maus lençóis se tudo se des izesse. As Cortes limitam-se a aproveitar o facto de dom Pedro ter vinte anos e idade de casar para resolver a contento um diferendo diplomático complicado.
- Não tente lavar a imagem do meu irmão. Tudo concorre agora para provar que provavelmente estavam os dois realmente ligados na estratégia para destronar de facto o rei dom Afonso VI de Portugal, ou será melhor dizer o conde de Castelo Melhor?
D. Luís corou.
- Ao que parece, sim, entendem-se muito bem.
Catarina abanou a cabeça, desesperada - ainda bem que o seu pai e a sua mãe já não podiam assistir a nada disto.
Hampton Court, Março de 1668
rainha sabia que estava de novo grávida. Aos 29 anos, quase 30, e
com tantos abortos espontâneos pelo caminho, tanto sofrimento, nem queria tomar consciência do que lhe acontecera. Lady Suffolk acabara por mencionar que há dois meses não lhe vinham as regras, e a rainha, o coração a bater com força, olhara-a com o seu ar mais sério, quase zangado e dissera-lhe:
- O meu corpo reage à agitação que se vive em Portugal. Mais nada.
Como lady Suffolk a compreendia. Desta vez o segredo fora bem guardado, e a camareira-mor pedira apenas ao Dr. Pierce, em quem confiava em absoluto, que arranjasse um pretexto para vir fazer um exame geral à rainha - que lhe dissesse que era rotina.
O aceno a irmativo do médico con irmava a sua maior esperança e simultaneamente o seu maior terror. Não precisou de dizer nada, de pedir nada, porque Pierce sossegou-a:
- Vamos deixar que a Natureza prossiga o seu curso. Já sabe os cuidados que tem de ter, não é verdade? Será o que Deus quiser.
Catarina não resistira a corrigi-lo:
- Preferia que dissesse «aquilo que a sua doença o permitir». Diga-me a sério, doutor Pierce, acha que o sarampo que tive há tantos anos, aqueles vinte e dois dias praticamente inconsciente, poderá estar ligado a tudo isto que me acontece?
Pierce fingiu arrumar os seus instrumentos na mala, e por fim disse:
- Sinceramente, temo que sim. Mas vou dar-lhe outra teoria. Como imagina, tenho lido muitos livros sobre este assunto, Sua Alteza. O seu sofrimento comove-me, e gostaria de ajudar, e num desses livros...
Catarina sentou-se mais direita na cama onde tinha sido observada, entusiasmada:
- Descobriu alguma coisa? Diga-me, por favor, nem que sejam más notícias. Se eu soubesse que estes problemas resultavam de uma doença, acredite que tornava tudo mais fácil...
- Então posso dizer-lhe, com um grande grau de certeza, que sim, dona Catarina. O livro que li falava de uma doença que em algumas pessoas ataca os pulmões e leva à morte, e noutras manifesta-se de maneira mais discreta, mas afecta a capacidade de as mulheres gerarem ou prosseguirem com a gravidez até ao final do termo.
Catarina sentiu uma tontura:
- Então é isso. Doutor Pierce, sabe o que aconteceu aos meus dois irmãos mais velhos, não sabe?
Pierce acenou que sim com a cabeça. Tinha-lho contado o próprio rei, num dos dias em que fora ao seu laboratório, cheio de curiosidade pelas experiências e descobertas que lá se faziam. Disse à rainha, por quem soubera. Catarina corou, entre o entusiasmo e a aflição:
- Doutor Pierce, falou nessa tal doença ao meu marido?
- Falei, dona Catarina, e o rei é um homem muito mais vocacionado para a Ciência do que para a superstição. Parece-me que recebeu a notícia com serenidade, acho mesmo que a considerou uma explicação cabal para o que tem acontecido.
Catarina sentia-se fraca, como se alguém lhe tivesse dado um murro no estômago.
- Doutor Pierce, acha possível que aquele boato que os espanhóis espalharam quando se negociava o meu casamento, aquele rumor venenoso que a irmava que a infanta de Portugal era estéril, acha que havia alguém na corte de Castela que fez a ligação com a doença dos meus irmãos? Alguém que conhecia os seus efeitos sobre as mulheres que lhe sobreviviam...
Pierce olhou-a, pensativo:
- É possível, mas parece-me bem mais provável que fosse pura política, jogo sujo apenas.
E Ali, como é que Ali soubera? Pela primeira vez na vida não resistiu e contou ao médico toda a história daquele dia passado no Terreiro do Paço, rematando:
- Como podia Ali saber?
- Esquece-se, dona Catarina, que era infanta de Portugal, e toda a gente conhecia tudo sobre si, sobre a sua vida e a dos seus irmãos. Os árabes são médicos fantásticos. Dona Catarina de Aragão, casada com Henrique VIII, também teve muitos desmanchos, e insistiu em chamar em segredo um médico árabe para a ajudar a engravidar, para a assistir no parto.
- Está a falar a sério? Um médico árabe aqui em Hampton Court?
- Que a mãe nunca sonhasse, era a única coisa que a rainha pedia à sua camareira. Como sabe, dona Isabel, a Católica, perseguia os mouros, expulsou-os do seu último reduto em Granada.
Então Ali sabia mesmo, suspirou Catarina, e deixou-se escorregar sobre as almofadas. Charles também sabia - e acreditava que era uma doença. Sabia que não estava amaldiçoada, que não era vontade sua, e aceitava o seu mal, que tanto o fazia sofrer também a ele, com a serenidade, como foi que Pierce dissera?, «de um homem da Ciência».
O médico esperava que o autorizasse a partir, mas a rainha queria fazer mais uma pergunta.
- Doutor Pierce, acha que essa tal doença pode curar-se sozinha, que este bebé pode ter um futuro diferente dos outros? Ou que vale a pena tomar infusões da tal planta que já sei que em Inglaterra se chama cat's claw?
- O facto de ter engravidado é já de si óptimo sinal. Quem sabe as maravilhas de que Deus e a Natureza são capazes?
- Obrigada, senhor doutor, obrigada pela sua sinceridade.
Quando a porta se fechou, Catarina escondeu-se por baixo dos lençóis e sonhou acordada. Com o bebé que lhe traziam embrulhado em panos, e que segurava nos braços com força. Na cara de felicidade de Charles, que se debruçava para tocar, pela primeira vez, no seu primeiro ilho legítimo, no herdeiro do trono. Que bom era pôr a mão no seu próprio ventre e deixar que a imaginação fizesse o resto...
Quando, um mês mais tarde, Catarina de Bragança perdeu o seu quarto ilho, entre lágrimas e contracções dolorosas, tinha, pelo menos, uma consolação: não falara a ninguém no que lhe sucedera. Não havia pêsames, lamentações, palavras de simpatia sussurradas à frente e comentários malévolos pronunciados atrás das costas. A dor era sua, só sua. Nem Charles a partilhava. Era assim que deveria ser - preferia que assim fosse, a ser acusada de ter «falhado» mais uma vez.
Charles sabia, mas sabia que a rainha não queria que soubesse. Por isso ingiu que não percebeu a gravidez, que não entendeu que, mais uma vez, tudo tinha acabado. Só o doutor Pierce sabia que o rei sabia, porque Charles o tinha colocado entre a espada e a parede, falara-lhe na responsabilidade de cuidar da mãe do herdeiro do trono, e obrigara-o a falar.
Minette também foi incluída no segredo. Incapaz de guardar para si o desgosto, escreveu-lhe, como quase todos os dias fazia, como quem escreve um diário.
«Minha adorada irmã,
Catarina teve um novo desmancho. Mas os médicos vão tentar agora diversos tratamentos, que, estão convencidos, a podem ajudar a aguentar o
ilho até ao im do tempo. Estou desiludido. Mas sei que ela ainda o estará
mais do que eu, e por isso não me consigo sentir zangado com ela. Só sinto pena. Muita pena. Por ela e por mim.»
Windsor, 30 de Agosto de 1668
bandeira de Inglaterra, a bandeira do rei, estava hasteada no
torreão mais alto do Castelo de Windsor. A família real mudara-se para o palácio havia umas semanas, e Catarina sentia-se feliz por ver o marido feliz.
Frances Stuart, agora duquesa de Richmond, voltara ao seu serviço, a cara marcada por varicela e o desgosto de um marido alcoólico que a maltratava, mas Catarina sabia que, embora a generosidade de Charles lhe tivesse permitido perdoar a fuga, a desilusão e o sofrimento que Frances lhe causara matara em si o desejo.
Curiosamente, constatava a rainha, lady Richmond aproximara-se agora de Nan, como se os desgostos de amor lhes dessem uma plataforma de entendimento comum. Castelo Melhor juntara-se ao duo, e a rainha divertia-se ao vê-los praticar tiro ao arco ou sair para um passeio a cavalo.
Nan, pela primeira vez na vida, estava sem a irmã, a sua cara-metade, aquela com quem sempre partilhara tudo - era, de facto, o momento ideal para encontrar novas cumplicidades.
Margaret Fanshawe casara com Francis Villiers, em julho, nos relvados de Hampton Court num dia cheio de sol. Estava absolutamente deslumbrante, e a rainha acreditara, por momentos, que o rei ainda era capaz de saltar do seu lugar e propor ser ele a desposá-la - o que vale, pensava, é que já conseguia rir destas coisas. Nan portara-se como uma heroína, escondendo toda a sua tristeza atrás de uma alegria esfuziante: apanhara as lores para o bouquet da irmã, cantara na cerimónia, brincara com os sobrinhos de Francis Villiers, izera caretas a George Buckingham, decididamente amuado, mas sem desculpa para não vir a um casamento onde o rei e a rainha eram padrinhos do noivo, e dançara até de madrugada, passando dos braços de uns para os de outros, acabando nos de Luís de Vasconcelos e Sousa. Meg olhara para ela naquele momento, e sentira o coração apertar-se: seria esta a segunda oportunidade da irmã? Mas conhecia-a bem de mais: a tristeza estava lá, marcada e dorida, e era preciso mais tempo, muito mais tempo.
Tinham sugerido levar Nan com eles, na missão de que o príncipe Rupert incumbira Francis, e o levaria a Halifax, na Terra Nova, para importar peles. Charles chamara o seu agora a ilhado à parte para lhe recordar que o primo era o melhor almirante que conhecia, um jogador de ténis sem rival, mas, atenção, um péssimo homem de negócios. «Parece que é de família», acrescentara a rir, passando ao rapaz o nome de vários outros comerciantes com quem talvez fosse seguro negociar paralelamente.
Meg prometera à rainha cumprir o seu pedido: «Viver livremente, segundo os Mandamentos de Deus, aproveitar todos os minutos do seu dia, e escrever-lhe a contar os mais pequenos pormenores, porque queria saber tudo sobre a vida do lado de lá do oceano.»
Catarina, à cautela, chamara dias antes Francis aos seus aposentos e pregara-lhe um pequeno sermão. Meg não era uma garimpeira, nem encontraria a felicidade longe de uma corte.
- Tem de ter oportunidade de usar o pendente de esmeraldas que lhe dei - disse, divertida -, por isso, depois da lua-de-mel, aconselho-vos a que se instalem numa grande cidade...
Villiers rira a bandeiras despregadas:
- Nunca poderei alegar que não conheço a mulher com quem casei. Ou muito me engano, ou estaremos de volta dentro de um ou dois anos, mas talvez nessa altura o meu irmão se tenha esquecido de mim...
Catarina apertara-lhe o braço com força:
- Trate-a bem, Villiers.
- Os seus desejos são ordens - respondera Francis, inclinando-se numa sentida vénia. Papista, ou não, Catarina era absolutamente única, pensou, comovido.
«Sereníssima rainha, irmã minha», começava a carta de Afonso, datada de 12 de Agosto. Catarina leu-a avidamente, e as suas lágri mas esborrataram a tinta. Afonso dizia-lhe que estava certo de que a irmã podia imaginar como ele se sentia. «Pena, mágoa e desconsolo», escrevia.
Não está conformado, pensou a irmã, mas como poderia estar? Pede-me ajuda, pede ajuda a Charles, mas que ajuda lhe podemos dar?
Quando naquela noite ceou com o rei, contou-lhe o que dizia a carta.
- Charles, o que podemos fazer? Ainda por cima, Afonso acaba a carta pedindo-me desculpa por me incomodar, mas não tem mais ninguém a quem recorrer.
O rei olhou-a, cansado, e limitou-se a encolher os ombros. Chegava sempre assim dos dias passados em Londres, e Catarina não tinha dúvidas de que estivera com Nell Gwyn, de quem já tinha um ilho chamado, como não podia deixar de ser, Charles - porque a magoavam assim, escolhendo sempre o nome que só o herdeiro do trono deveria usar? Apesar disso, estranhamente, não conseguia ter-lhe muita raiva. Tê-la-ia gasto toda em Palmer, pensava, ou talvez fosse o facto de Nell enlouquecer de fúria a Palmer que a transformava, de alguma forma, em sua cúmplice? Nell podia ter sido vendedora de laranjas chinesas, as laranjas doces que os portugueses tinham importado e depois exportado, mas, fosse como fosse, parecia mais bem formada do que muitas destas meninas da corte, porque sempre que se cruzavam no Teatro Real, ou em qualquer outro lugar, baixava os olhos. Catarina sabia que a nova amante do rei recusava igualmente todos os esforços de Buckingham para que assumisse qualquer tipo de afronta à rainha. Filha de uma prostituta, fugira do bordel onde a mãe a pusera a trabalhar com pouco mais de 12 anos, e fizera tudo (e tudo, era tudo) para ser actriz. Catarina, que já vira várias peças suas, reconhecia, no entanto, que o seu talento no palco era genuíno, e a sua capacidade de mímica e de fazer rir, surpreendente.
Charles, pelos vistos, pensava o mesmo. De tal maneira que adormeceu enquanto Catarina lhe sugeria estratégias de apoio à causa de Afonso. A rainha percebeu que, para o rei, o assunto estava encerrado.
Atirou a carta para o colo de Nan, com um pedido:
- Nan, por favor, leia-me a carta de dom Pedro, mas omita ou acelere a leitura nas partes que pressente que me vão incomodar.
Nan riu:
- Desconfio, então, que o melhor é não a abrir de todo.
A rainha sorriu:
- Provavelmente era in initamente mais sensato, mas tenho de saber o que diz...
Nan sentiu que o coração se apertava enquanto quebrava o selo da carta. Como se sentira excitada e delirante, de cada vez que abria uma das mensagens de Francisco - como o gesto icava associado às pessoas, como este gesto seria sempre equivalente a pensar nele, a estender instintivamente a mão para a cruz que não voltara a tirar do pescoço.
- Dom Pedro pede-lhe que lhe responda às cartas. Diz que o obrigaram a fazer o que fez, que as Cortes insistiram, que todos acreditavam que era seu dever governar o País, mesmo que com sacrifício pessoal.
Catarina agitou-se na cadeira:
- Adiante.
- O pior é que o parágrafo seguinte ainda lhe trará mais desconforto -comentou Nan.
- Então, quanto mais depressa o ouvir, melhor.
- Escreve que queria muito que tivesse a oportunidade de conhecer a princesa, que já foi rainha... porque se «enamoraria dela, tal como CU».
Catarina benzeu-se:
- Diria, antes, que é o único motivo que encontro para não voltar a Portugal.
Nan riu.
- Quer mesmo que continue? Conta que a sua cunhada, dona Maria Francisca, está grávida.
Nan encolheu-se na cadeira, e de soslaio percebeu a expressão de dor que cobriu o rosto da rainha, mas decidiu que o melhor era ingir que não percebia como esta nova a afectava, e continuou a ler:
- Diz que a sucessão será garantida, se tudo correr bem, em janeiro, e convida Sua Alteza para madrinha. Insiste muito, aliás, e informa-a de que o padrinho será o rei dom Luís de França.
- Disse-me ontem Castelo Melhor que dom Afonso foi banido pelas Cortes para a ilha Terceira, nos Açores. Preso e exilado pelo irmão, portanto. E convidam-me para ser madrinha da criança dessa relação tão triste, como se nada fosse? Será que o meu irmão foi trocado por outro homem e ninguém me disse? Nan, guarde essa carta, por favor - e apontou-lhe o contador de pau-preto, que ainda fora a mãe a mandar-lhe de Portugal.
- Não lhe vai responder?
- Mesmo que quisesse, não era capaz! - respondeu, numa voz sumida.
Whitehall Palace, 15 de janeiro de 1669
rente ao seu oratório, de joelhos numa almofada, Catarina deixou,
finalmente, as lágrimas correrem-lhe pela cara. Recebera a notícia do nascimento da primeira filha do seu irmão Pedro, do seu irmão pequenino. A infanta D. Isabel Luísa Josefa de Bragança, a primeira de uma nova geração de Bragança, apenas a primeira porque ela era incapaz de levar uma gravidez até ao fim. Sentia raiva e pedia desculpa a Deus por este ódio que lhe enchia o peito: como é que esta sua cunhada, que considerava tão leviana e imoral, era capaz de conceber num estalar de dedos, e ela, Catarina, se mantinha de «ventre liso», sem poder realizar o sonho de todos os sonhos: dar a Inglaterra, dar a Charles acima de tudo, um herdeiro?
A carta de Pedro implorava de novo que aceitasse ser madrinha da sua primogénita. Mas Catarina não podia aceitar, seria uma prova de que concordava com aquilo que Pedro izera a Afonso, e essa ferida ainda estava demasiado aberta no coração de todos. Mandara dizer que não. De initivamente não. Era tão bom que fosse, também, capaz de pôr um im à sua dor.
Dover, 29 de Maio de 1669
ue confusão de sentimentos. Por um lado ficara feliz, quando
soubera que a cunhada Minette, a adorada irmã de Charles, conseguira autorização do autoritário marido para vir a Inglaterra, mas por outro era devorada por ciúmes, que doíam, quase como uma doença física, quando via Charles de olhos brilhantes, excitado como uma criança, a esvoaçar em redor de madame, como todos lhe chamavam. Não era digno de si pensar assim. Pecava, certamente. Mas os argumentos, como o de que os irmãos se sentiam unidos pela perda recente da mãe, ou de que não se viam há muitos anos, eram sempre contraditos por um diabo interior que lhe lembrava como era estranha esta relação, já que aqueles dois nem sequer se tinham conhecido em crianças, praticamente não tinham estado juntos até à adolescência... Zangava-se consigo mesma, e rezava um acto de contrição, mas sempre que os via sozinhos numa das varandas do castelo, embrenhados um no outro como um casal, ou Minette de cabeça no ombro de Charles durante um jantar inteiro, ambos aparentemente esquecidos de toda aquela multidão de gente que os rodeava, sentia-se invadida por uma onda de raiva e ciúme. Seria assim entre ela e Teodósio, se Teodósio não tivesse morrido, se Teodósio a visitasse aqui em Dover? Sorriu, nostálgica. Voltara-lhe subitamente à memória a imagem do irmão a ameaçar com a espada quem se atrevesse a cortar-lhe o cabelo, quando a mãe a chamara de vaidosa por não querer ser freira. Mas era diferente, havia qualquer coisa de diferente...
Minette aproximava-se dela agora, um sorriso aberto na sua cara branca e sardenta, uns olhos azuis lindos: tinha de o reconhecer, o marido não resistia à beleza feminina, era só isso.
Sentou-se a seu lado, e Catarina deu graças por o seu inglês já estar um pouco mais luente, por não se sentir tão tímida e envergonhada como quando aqui chegara. Escusava de se ter preocupado, porque a cunhada tinha a imensa capacidade de pôr toda a gente à vontade, e era tão generosa e bem-disposta, que ao im de uns minutos riam juntas. Era tão franca e directa, que Catarina nem conseguia encontrar palavras para lhe responder, mas subitamente passou a vê-la por outros olhos: também ela não resistia àquele charme, no fundo tão parecido com o do homem que amava. Agora Minette dizia, baixinho:
- O meu irmão deve ser difícil de aturar - comentou, divertida.
Catarina acenou que não com a cabeça, os olhos a brilhar.
- Sabe que ele a adora? Sinceramente, adora.
Uma frase destas, dita pela primeira e última confidente do marido, tinha tanto valor, que Catarina sentiu que o coração explodia de alegria. Vendo-a embaraçada, Minette atalhou:
- Não diga nada, sei que a vossa vida não tem sido fácil, com os bebés perdidos, as intrigas, essas lausinas a que o tonto do Charles não resiste. Mas se lhe disserem que o meu irmão vai nas conversas de Buckingham ou de quem vos quer separar, não acredite. Ele está feliz com o vosso casamento, e escreve sempre cheio de admiração por si, e remorsos -acrescentou, com uma gargalhada cristalina.
Os olhos da rainha encheram-se de lágrimas, e a cunhada segurou a sua mão entre as dela:
- Acredite que os homens não são fáceis, e que apesar de tudo Charles é uma pessoa profundamente boa... - e ao dizê-lo icou triste, como se uma nuvem escura lhe tivesse passado por cima.
Catarina já tinha ouvido falar su icientemente sobre a crueldade do marido de Minette para perceber que se moviam em terras pantanosas, e, desejosa de lhe retribuir a dádiva que tinha recebido, disse-lhe:
- Sei que é muito corajosa. O nosso Deus também o sabe. Mas agora, que está aqui de férias, longe de tudo, fale-me dos seus ilhos. O Charles tem um quadro da ilha mais velha no escritório, ao lado do seu, e achei-a linda...
Minette recomeçou a tagarelar alegremente.
É mesmo parecida com o irmão, com esta capacidade de afastar a tristeza, para não dividir com os outros os lados mais escuros da sua vida, da sua alma, pensou Catarina.
Castelo Melhor viera até Dover com a rainha. Tornara-se parte da sua Casa e seu principal conselheiro, com absoluta naturalidade, para fúria do embaixador português em Londres. Mas Catarina encolhera os ombros quando recebera os protestos do senhor, que ainda para mais alegava que D. Pedro não estava satisfeito com o facto de a rainha ter acolhido o homem que ele enviara para o exílio. Respondera com ironia: «Pode sempre dizer que se não tivesse exilado o conde, não tinha mais esse problema com que se preocupar», o que parecia ter sido su iciente para, pelo menos por agora, silenciar o senhor.
E fora o conde quem a alertara para o facto de toda esta festa, este reencontro fraterno, ser muito mais do que isso. Catarina olhara-o, a princípio, como quem olha para alguém em delírio, mas depressa compreendera que a informação que D. Luís lhe passava era importante. Magoava-a que Charles não con iasse nela o su iciente para lhe contar pessoalmente tudo isto, mas talvez estivesse a ser precipitada, e o marido estivesse apenas à espera de regressarem a Hampton Court para lhe falar, longe dos ouvidos dos espiões de França.
- Então, qual é a sua teoria, senhor conde?
- Não quero falar do que não sei, Sua Alteza, mas dir-lhe-ei o que sei com segurança. Hoje vai ser aqui assinado o Tratado de Dover, um acordo entre o rei de Inglaterra e o rei de França, e a irmã do rei só foi autorizada a esta viagem porque vem ao serviço de Luís XIV.
Era di ícil imaginar Minette como embaixadora, a tratar de negócios complicados, mas, pensando bem, não poderia haver quem melhor desempenhasse o papel, afastando todas as desconfianças.
Castelo Melhor continuou, depois de se assegurar que estavam realmente sozinhos, na salinha da rainha:
- 0 rei irá receber, por este acordo, uma avultada soma de dinheiro...
- De que tanto precisa - suspirou Catarina. Subitamente assustada, pensou de que era Charles capaz para inanciar as suas loucuras, os presentes para as amantes, as obras nos seus palácios.
- Dinheiro de que tanto precisa - con irmou cautelosamente D. Luís. Mas, e este é que é o pormenor que tem de ser guardado segredo a todo o custo, o acordo contém uma cláusula secreta que prevê que o rei francês conceda mais dinheiro se...
- Se Charles e Inglaterra se converterem a Roma - disse logo a rainha, como se sempre o tivesse sabido.
Castelo Melhor olhou-a, espantado:
- Sua Majestade estava a par?
- Não, não estava, dom Luís, mas de repente tornou-se tudo muito claro, todo este encontro, a autorização da vinda da minha cunhada, que há anos vive presa em casa pelo marido...
E acrescentou pausadamente, pensando alto:
- Mas esse segredo enche-me de angústia, e de uma certa tristeza.
O conde calou-se. Não lhe cabia perguntar nada. Estranhamente, comungava do mesmo sentimento de desilusão, tinha de o confessar. Considerava-se um político, e durante anos o homem mais poderoso em Portugal, mas não deixava de lhe fazer confusão que uma conversão religiosa pudesse ser feita a troco de dinheiro, e a reacção de D. Catarina só demonstrava como os seus sentimentos eram puros: certamente desejava ardentemente que Charles partilhasse a sua fé, mas por convicção.
Depois de um silêncio, Catarina comentou:
- Esta situação vai colocar-me num perigo ainda maior, não vai, dom Luís? Nem precisa de responder, eu sei que vai. Buckingham é uma velha raposa, apanhará no ar o cheiro de que qualquer coisa a mais se passa. Quando descobrir o que é, e vai descobrir, insinuará ao Parlamento que isto é obra minha, coligada com Roma e França, para tornarmos Inglaterra papista...
Olhou para o conde como que à espera de uma con irmação do seu raciocínio.
- Tem toda a razão, mas estaremos todos dupla ou triplamente vigilantes. De qualquer maneira, para inventar pretextos e conspirações, o duque não precisa de um Tratado de Dover. Como este envolve a irmã do rei, todos eles terão cuidado com o que fazem ou dizem...
O que ele não tem coragem de acrescentar é que mais depressa atentam contra a rainha do que contra a reconhecida paixão do monarca. Mas desta vez não sentira nenhuma amargura ao pensá-lo: como podia sentir a menor animosidade contra a primeira mulher que viera ter com ela de coração aberto e lhe garantira que Charles estava feliz com o seu casamento?
Hampton Court, 20 de Julho de 1669
atarina e Nan treinavam o tiro ao arco, à sombra de um imenso
castanheiro. Riam como adolescentes, e Catarina acusava-a de não se estar a esforçar o suficiente, com medo de ganhar à rainha. Nan encolhia os ombros, divertida:
- Diz a senhora do reino que foi escolhida para padroeira dos arqueiros ingleses, e tem direito a uma placa de bronze na sede da associação nacional...
Era verdade. Catarina corou de orgulho.
- Acho que foi o momento em que o rei mais me admirou.
- Por falar em Sua Majestade, vejo-o vir aí - disse Nan, fazendo com a mão uma pala sobre os olhos.
Catarina virou-se na direcção em que a sua dama apontava, feliz. Esquecida dos protocolos, começou a andar depressa em sua direcção. Mas de repente estacou: Charles vinha sozinho, sem guarda, nem amigos. Quando se aproximou, percebeu que nunca o vira tão perturbado, os olhos inchados de chorar. Instintivamente abriu-lhe os braços, e, apesar de estarem naquele espaço público, o rei caiu neles e soluçou como uma criança. Nan, nervosa, sentou-se num banco do jardim afastado, e concentrou-se nos arcos pousados no chão.
- Charles, Charles, o que é que aconteceu? - perguntou-lhe Catarina, falando em castelhano, aquela língua que os unia aos dois.
- Minette morreu, Catarina! Mataram-na, envenenaram-na, a minha mais querida e doce irmã.
Catarina ficou lívida.
- Minette? Mas estava tão bem, de saúde tão forte - balbuciou.
- Recebi uma carta - soluçava o rei. Insinuava que foi o marido, aquela besta que eu já devia ter morto com as minhas próprias mãos, pela violência com que tratava uma princesa de Inglaterra, a minha adorada irmã. Mas mato-o agora...
- Calma, querido, calma. Vamos para casa, vamos chamar o médico...
- Não preciso de calmantes, Catarina. Calmantes a mais tomei eu em pequenino, certamente, que vejo que as coisas não estão bem e sistematicamente não tomo a iniciativa de agir. Eu mato-o, juro que vingo a morte da minha irmã...
O rei fechara-se sobre si mesmo, passava horas com Rupert no laboratório, ou no escritório a revisitar as cartas que a irmã lhe escrevera. Acordava à noite e andava pelo palácio a dar corda aos relógios que espalhara por todas as salas. Mas o pior sintoma eram as suas longas reuniões com Buckingham, que reaparecera como o amigo cúmplice e condoído. Como Catarina o odiava.
Falara a D. Luís no perigo desta nova aproximação:
- George Villiers vai aproveitar-se disto para farejar o tratado - disse a Castelo Melhor, e o conde anuiu com a cabeça. Tinha também os seus espiões.
Quando Charles lhe disse que enviara Buckingham a Versalhes para apurar o que se passara com a súbita morte da irmã, Catarina tremeu por dentro, mas não disse nada. Neste momento, qualquer protesto contra o carácter do duque seria interpretado como falta de empatia com a dor do rei, e daria direito a amuo. A rainha não podia arriscar outro mal-entendido com Charles, muito menos agora. Além do mais, em França já não tinha a sogra nem a cunhada com quem pudesse contar como aliadas. Decididamente, as manobras de lord Buckingham podiam constituir uma ameaça grave.
Quando a viu entrar pela porta do salão percebeu tudo. Buckingham chegava de braço dado com uma jovem linda, magní ica, muito jovem, uma francesa que, se bem se recordava, acompanhara a visita de Minette a Dover.
O seu olhar cruzou-se com o de Nan. Provavelmente, toda a gente que ali estava entendia o golpe do duque excepto, claro, o próprio rei.
- Louise de Kéroualle, vinte e um anos, órfã, que foi acolhida pelo rei de França, após a morte de madame, por não ter para onde ir... - sussurrou, um quarto de hora depois, Nan ao ouvido da rainha.
Catarina teve vontade de levantar a voz e cinicamente comentar: «Chega, portanto, à nossa corte uma jovem indefesa, que França manda ao rei de Inglaterra, para que ele a proteja em nome do amor que tinha à irmã, de quem a rapariga era amiga. Uma menina linda, 19 anos mais nova do que o rei. Se esta história não me tivesse como vítima, até me ria com a transparência da estratégia.» Manteve-se, contudo, direita e sorridente, aceitando o convite de Jemmy para dançar, trocando graças com as suas damas, e, em suma, evitando, até quando tal fosse possível, o momento em que o rei lhe viria apresentar Louise e pedir-lhe que a aceitasse como dama da sua Casa. Como podia dizer que não à dama de companhia de Minette, aquela que, contava a própria, estivera com ela na hora da morte?
Não podia, mas pressentia que o ciclo recomeçara de novo.
Catarina observou Nan no jardim, em alegre conversa com D. Luís. Tinha uma carta na mão com que gesticulava e, embora estivesse a olhá-la de uma janela distante, a rainha sabia que falavam de Meg e Francis, e das suas aventuras no Novo Mundo.
Nan e Castelo Melhor estavam cada vez mais próximos. As damas da sua Casa já comentavam o romance que nascia, mas Catarina conhecia bem a sua menina e sabia que o que facilitara esta aproximação era o facto de Nan saber que D. Luís era casado e tinha ilhos. Saber que o homem que tinha à frente era comprometido dera-lhe a segurança necessária para se aproximar dele, confiante de que, à partida, os papéis estavam definidos.
Já tinham passado três anos sobre a morte do marquês de Sande e Catarina esperava que Nan começasse a ser capaz de imaginar um futuro para si própria, em lugar de se dedicar tanto aos outros. Tinha tanto direito como Meg à felicidade, a ter ilhos, a não icar presa a uma promessa não consumada, feita quando era uma jovem de 20 anos, pensou, recordando-se das palavras de lady Fanshawe. Esta amizade era um momento de transição, tinha a certeza disso, daqui poderia partir depois para um amor a sério. A Virgem das Candeias trataria de lhe encontrar alguém, tinha a certeza disso...
Entretinha-se a fazer de casamenteira, como dizia a si mesma, divertida, para esquecer o inferno em que a sua própria vida se tornara de novo. Kéroualle cumprira o plano: o rei estava de novo embeve cido, apaixonado, preso nas teias daqueles olhos, e desta vez não tinha pela frente uma rapariga ingénua como Frances Stuart, mas uma jovem instruída pelo embaixador francês, numa estranha conjugação com Buckingham. George estava interessado em fomentar este romance apenas para desestabilizar o casamento do rei, tornando possível um pedido de divórcio. Louise era católica, mas o ilho que pudesse nascer de um futuro casamento poderia ser educado como protestante...
Estratégias, intrigas, tentativas sobre tentativas de a destruir, pensou Catarina. Será que algum dia tudo isto teria um im? Quando é que o marido crescia e percebia que o seu amor, sólido e seguro, legitimado por Deus, era mil vezes melhor do que o destas mulheres interesseiras? A Palmer estava aparentemente arrumada numa prateleira, levando como presente o título de duquesa de Cleveland, ou não fosse mãe de seis ilhos do rei. Mas dali o perigo era sempre iminente, porque ainda este ano dera à luz Barbara, jurando que era do rei. Charles negara, entre gargalhadas, acusara-a de ser uma prostituta sem carácter, mas a verdade é que acabara por reconhecer a criança. «Mais um, menos um, tanto me faz, o que quero é calar esta prostituta que me bate aos pontos na quantidade de gente que mete na sua cama», comentava, brejeiro. Nell Gwyn, por seu lado, parecia manter algum poder sobre o rei. Segundo contavam à rainha, a actriz troçava de Louise constantemente, e Catarina confessava que se sentia feliz por esta rapariga do povo verbalizar tudo o que a rainha de Inglaterra não podia dizer.
Fora até Nan que lhe contara que Nell, ao ser confundida com a francesa à saída do Teatro Nacional, gritara a plenos pulmões para o povo que rodeava a carruagem real «Meus amigos, nada de confusões e vamos a ter respeitinho. Eu sou a puta protestante!», provocando o gáudio da multidão.
Teria de se confessar destas conversas levianas, indignas de uma filha de D. Luísa de Gusmão, mas a verdade é que a libertavam da tensão interior em que vivia, e era bom ter amigas com quem pudesse rir, até das suas desgraças.
St. James Palace, 30 de Março de 1672
ouise de Kéroualle e uma nova guerra contra os holandeses, eram
estas as novidades do ano, pensou Catarina enquanto pegava na caneta para escrever uma carta a Afonso. Ah, quase se esquecia: além de Barbara Palmer Fitzroy, havia ainda que dar nota do nascimento de mais um bastardo do rei, James, o segundo filho de Nell. Decididamente, temas sobre os quais não podia escrever nem uma linha, mas sobre o que escrever então? Castelo Melhor pedira-lhe que acalmasse o irmão, porque os relatos que recebia directamente dos criados que o serviam davam conta que Afonso estava cada vez mais descontrolado e zangado, que as suas fúrias incluíam o partir de tudo o que lhe estava à mão. Era preciso convencê-lo de que esse comportamento só reforçaria a força daqueles que o diziam louco, e Catarina era a pessoa ideal para essa missão, dizia o conde.
D. Luís não escondia da rainha de Inglaterra que não tinha qualquer ilusão de que D. Afonso não voltaria a conhecer a liberdade. «Mas não tinha aliados? Dom António de Sousa Macedo, dom Luís, todos vocês não tinham ninguém do vosso lado?», perguntara, desesperada, Catarina, mas o conde respondera com aquele deslumbramento que admirava:
- Enquanto detínhamos o poder, tínhamos todos os que quiséssemos, hoje são de dom Pedro, e talvez a natureza humana, a portuguesa sobretudo, se proteja assim de guerras civis sangrentas. Países onde há gente demasiado convicta - e era evidente que pensava em Inglaterra -correm o risco de confrontos fratricidas. Deus saberá o que faz, e, para lhe ser franco, não tenho dado o meu apoio ao pequeno movimento que continua a conspirar pelo regresso do rei...
Catarina olhou-o, ligeiramente chocada, mas Luís manteve o olhar.
- Sei que este meu comentário a magoou, mas acredite, Sua Alteza, que gosto genuinamente do rei, e temo que usem e abusem da sua fragilidade, agora violentamente acentuada pelo que lhe aconteceu. Pre iro que o deixem em paz a que o usem e o deixem ainda mais debilitado...
- Afonso nunca mais reencontrará o equilíbrio depois de ter sido traído pelo irmão e pela mulher - comentou a rainha, dizendo as palavras que o conde não podia proferir. - Sabe, dom Luís, as mães amam os ilhos e querem o melhor para eles, e a minha mãe não era excepção, muito pelo contrário, mas podem cometer-se tantos erros, fazer tanto mal àqueles que mais se ama - re lectiu alto, como se daqui retirasse uma ligeira consolação para o facto de não ter filhos.
Castelo Melhor olhou-a com admiração: crescia em sabedoria, pensou. Sabia que enquanto falavam de Portugal fugiam àquilo que a ameaçava no imediato: afectivamente tinha o coração destroçado pela Kéroualle, que jogava com todo o desplante cartas bem mais fortes do que as suas antecessoras - alguém lhe teria dito que poderia ambicionar o lugar da rainha? Se não conseguira proteger D. Afonso, que Deus lhe desse forças para servir melhor a irmã, que estava tão sozinha nesta guerra de interesses nesta corte inglesa. O chanceler Hyde fora substituído por um homem perigosíssimo e fortemente anticatólico - Charles fazia constantemente estas escolhas, como que acreditando que dando uma no cravo e outra na ferradura conseguia manter a paz entre todos. A somar a este novo risco, havia ainda o facto de a duquesa de York ter morrido há cerca de um ano, deixando as duas ilhas a cargo de um tutor protestante, e de o próprio James, o mais provável sucessor de Charles, não ser, na opinião de D. Luís, um homem inteligente, e que com os seus gestos impensados só acicatava ódios contra Catarina. Aliás, acabara de casar em Itália pelo rito de Roma com Maria de Modena, uma princesa católica, lavando a imagem perante os ingleses com uma cerimónia anglicana à chegada a Londres, rápida e sem notoriedade.
Catarina sentia-se francamente doente. Os médicos franziam o sobrolho, mas não punham nome ao mal. Lady Suffolk, Nan e lady Richmond rodeavam a rainha de cuidados, mas percebiam, tal como os ísicos da corte, que a frágil senhora sofria mais de desgosto e cansaço do que de qualquer outra coisa.
O último golpe tinha sido a assinatura de Charles aposta ao Test Act, Acto da Prova, aprovado pelo Parlamento, e que excluía católicos romanos de ocuparem lugares no Estado. Qualquer pessoa que pretendesse ocupar um cargo passava a ser obrigada a jurar não acreditar na substanciação da hóstia durante a Consagração - que os anglicanos recusavam - e a sua fidelidade exclusiva à Igreja de Inglaterra.
Charles traíra o compromisso secretamente assumido no Tratado de Dover, trocando o dinheiro que o primo francês lhe oferecia pela conversão ao catolicismo pelo milhão de libras com que o Parlamento inglês comprara o seu acordo.
Castelo Melhor só esperava que o rei resistisse a comprometer-se com a proposta de 500 mil libras que lhe entregariam se abandonasse Catarina, voltando a casar com uma princesa protestante. Buckingham, soubera D. Luís, já chegara ao absurdo de propor raptar Catarina, deixando-a numa plantação no Novo Mundo, alegando que fugira para Portugal, mas o rei limitara-se a rir e a mandá-lo consultar um médico. George recebera a invectiva real com um sorriso: a verdade é que a Kéroualle já estava na cama do rei, já tinha aposentos próprios em Whitehall, quanto mais poderia aguentar a enfezada e infértil Catarina?, pensava.
A George Villiers, as notícias da doença da rainha só enchiam de esperanças. Tomara que fosse mortal, dizia abertamente, quando Charles não estava presente. Castelo Melhor e Nan comentavam tudo isto nos seus passeios, e a mais velha das Fanshawe só dizia:
- Dom Luís, não podemos pagar-lhe com a mesma moeda, descobrir alguém que o envenenasse?
Castelo Melhor ria:
- Por minha vontade estrangulava-o eu, mas não se angustie, lady Ann, que este tipo de gente um dia morde a própria língua...
Mas Nan abanou a cabeça, subitamente triste:
- Não é verdade, dom Luís. Só os bons morrem.
Castelo Melhor sentiu um nó na garganta. Não gostava nada que a sua querida Nan lhe recordasse como tinha já amado...
Whitehall Palace, 12 de Outubro de 1675
ouise de Kéroualle tivera um filho de Charles. Já não doía tanto,
como naquele primeiro mês da sua lua-de-mel em que descobrira que a Palmer continuava a ser amante do rei e a gerar a sua descendência, mas mentiria a si mesma se não dissesse que ainda doía, doía muito, doía fundo. E o mais doloroso é que sentia que a única culpada desta situação era ela própria, Catarina de Bragança, Catarina Stuart, a filha da Medina-Sidónia. Se tivesse tido um filho, cumprido a sua missão como mulher, nada disto aconteceria. Ou, a acontecer, não lhe teria nem tocado, porque Charles seria pai de um filho seu, do herdeiro legítimo. Até a instabilidade do país, esta luta entre católicos e protestantes, deixaria de fazer sentido, ou faria menos, se o «seu» pequenino Charles, e não o das outras, estivesse aqui para assegurar a sucessão. O confessor dizia-lhe, quando se atrevia a levantar a ponta do véu da sua culpa, que a Igreja não apoiava estas teorias, até porque não considerava que a ausência de filhos, quando havia o desejo de os ter, era motivo para declarações de nulidade, mas Catarina sabia que nem sempre era assim. Sabia que as decisões papais eram vezes sem conta apenas políticas - como podia achar de outro modo, se apenas há cinco anos Roma considerara Portugal um reino independente, ou se concedia o seu aval ao casamento entre cunhados, como acontecera no caso do seu irmão Pedro, ainda para mais estando o marido vivo, e retendo o título de rei?
Não se espantara nada quando começara a ouvir chamar Louise de duquesa de Portsmouth, o título que Charles lhe concedera aquando do nascimento do ilho, mas num dos dias que o marido aparecera para cear não resistira a dizer-lhe com a voz mais cínica que conseguiu:
- Não será de pouco gosto, para dizer o mínimo, conceder à francesa o título de Portsmouth, logo da terra onde casámos?
Charles olhara para ela, surpreendido e preocupado:
- De facto, Portsmouth foi onde nos vimos pela primeira vez...
Mas era tarde de mais para emendar o erro, e, como sempre acontecia, foi a própria rainha que o libertou do embaraço:
- Falemos de outras coisas. Como está Jemmy?
O sobrolho de Charles carregou-se.
- Demasiado convencido da sua grandeza para meu gosto.
Catarina fitou-o, pensativa.
- É perigoso quando um rapaz bonito, ilho mais velho, mesmo que bastardo, do rei veri ica que o caminho para o trono só tem um tio como obstáculo... O exemplo dos meus irmãos deveria servir-nos de aviso.
A perspicácia da rainha surpreendia-o sempre, e gostava dos seus conselhos desinteressados, o que por sua vez acentuava o remorso e a culpa. Até ele já se cansava do círculo vicioso em que se prendia a si mesmo.
Mas o assunto era Jemmy:
- Tem toda a razão, e o pior é que é fácil manipular uma cabeça vazia a fazer o que não deve - assegurou, preocupado.
A rainha suspeitou que, no que dizia respeito ao duque de Monmouth, o rei ainda se iria arrepender muito de ter deixado o ilho de Lucy Walters voar demasiado alto.
Louise era sempre delicada com a rainha, mas Catarina não a suportava por perto, muito menos saber que nos seus aposentos estava um bebé rosado, de olhos azuis e caracóis pretos, que o pai atirava ao ar e com quem brincava. Catarina declarou ao rei a intenção de se mudar para Somerset House, a casa que a rainha-mãe deixara vaga, alegando que os seus jardins, que corriam até à margem do rio, lhe lembravam o Paço da Ribeira. Charles anuiu imediatamente. Que se fizessem obras e gastasse o dinheiro que fosse preciso a arranjar a capela católica romana que a mãe mandara consagrar. A rainha fez um sorriso triste - pouco recebera da pensão que o acordo de casamento previa que lhe fosse concedida, e que sabia que em larga medida o marido gastava nas suas despesas pessoais. Não deixava de ser irónico que agora, cheio de problemas de consciência, se oferecesse para pagar obras e restauros. Afinal era só pedir, ou sugerir, e Charles abria os cordões à bolsa. Lamentou, com amargura, ser mais lenta e simples do que as amantes a perceber estas coisas.