Contos escolhidos
O banquete de Tillotson
I
O JOVEM SPODE NÃO era um esnobe; era inteligente demais para isso, demasiada e fundamentalmente
correto. Não era esnobe; mas, ao mesmo tempo, não podia deixar de se sentir muito contente ao
pensar que jantaria, a sós e intimamente, com lorde Badgery. Era um acontecimento extraordinário em sua vida, um passo à frente, ele sentia, em direção ao sucesso definitivo,
social, material e literário que, quando viera para Londres, tinha o firme propósito de conseguir.
Conquistar e capturar Badgery eram movimentos estratégicos para o sucesso da campanha.
Edmund, quadragésimo sétimo barão Badgery, era descendente direto daquele Edmund, de
sobrenome Le Blayreau, que chegou ao solo inglês na esteira de Guilherme, o Conquistador.
Elevados à nobreza por William Rufus, os Badgery eram uma das poucas famílias de barões a
sobreviverem à Guerra das Rosas e a todas as outras mudanças e acasos da história inglesa.
Eram uma raça ajuizada e prolífica. Nenhum Badgery jamais lutara em qualquer guerra, nenhum Badgery jamais se envolvera com qualquer tipo de política. Contentavam-se em viver e
quietamente propagar sua espécie num enorme castelo normando provido de balestreiros,
rodeado por uma muralha tripla, saindo de lá apenas para cultivar sua propriedade e recolher
seus arrendamentos. No século XVIII, quando a vida se tornara relativamente segura, os Badgery
começaram a aventurar-se na sociedade civilizada. De rústicos cavalheiros, floresceram em
grands seigneurs, patronos das artes, virtuoses. Sua propriedade era grande, eles eram ricos; e
com o crescimento do industrialismo sua riqueza também cresceu. Povoados em sua
propriedade transformaram-se em cidades industriais, descobriu-se carvão sob a superfície de suas planícies pouco férteis. Em meados do século XIX, os Badgery estavam entre as mais ricas
famílias nobres inglesas. O quadragésimo sétimo barão dispunha de uma renda de pelo menos
duzentas mil libras por ano. Seguindo a grande tradição dos Badgery, ele se recusara a se
envolver em política ou guerra. Ocupava-se em colecionar quadros; interessava-se por
produções teatrais; era amigo e patrono de homens de letras, pintores e músicos. Uma
personagem, em suma, de considerável importância nesse mundo particular que o jovem Spode
escolhera para fazer sucesso.
Fazia pouquíssimo tempo que Spode deixara a universidade. Simon Gollamy, editor da World’s Review (“O melhor de todos os mundos possíveis”), o conhecera (estava sempre atento
a talentos jovens), vira possibilidades no rapaz e indicou-o como crítico de arte em seu jornal.
Gollamy gostava de ter à sua volta pessoas jovens e capazes de aprender. Ter discípulos a seu
redor lisonjeava sua vaidade, e ele achava mais fácil, além do mais, dirigir seu jornal com
colaboradores dóceis do que com homens tornados teimosos e insensíveis pela idade. Spode
não se saíra mal em seu novo emprego. De qualquer maneira, seus artigos tinham sido
suficientemente inteligentes para despertar o interesse de lorde Badgery. Era, em última análise, a eles que devia a honra de sentar-se esta noite na sala de jantar de Badgery House.
Encorajado por diversas variedades de vinho e uma taça de conhaque envelhecido, Spode
sentia-se mais confiante e à vontade do que se sentira a noite inteira. Badgery era um anfitrião um tanto perturbador. Tinha o hábito alarmante de mudar o assunto de qualquer conversa que
durasse mais de dois minutos. Spode julgou digno de ofensa, por exemplo, quando seu anfitrião,
interrompendo o que era, vangloriava-se, uma fala particularmente sofisticada e esclarecedora
sobre a arte barroca, passeara o olhar perdido pelo aposento e perguntara-lhe abruptamente se
gostava de papagaios. Ele enrubescera e olhara para o outro com suspeita, imaginando que
tentava humilhá-lo. Mas não; o rosto branco, carnudo, hanoveriano de Badgery ostentava uma
expressão de perfeita boa-fé. Não havia dolo em seus pequenos olhos verdes. Ele claramente
queria saber se Spode gostava de papagaios. O rapaz engoliu sua irritação e respondeu que gostava. Badgery então contou uma boa história sobre papagaios. Spode estava prestes a rebater
com uma história melhor quando o anfitrião começou a falar sobre Beethoven. E assim
continuou o jogo. Spode talhou sua conversa para adaptá-la aos desejos de seu anfitrião.
Durante dez minutos ele fez um epigrama mais ou menos inteligente sobre Benevenuto Cellini, a
rainha Vitória, esportes, Deus, Stephen Phillips e arquitetura mourisca. Lorde Badgery achou-o
um rapaz encantador e muito inteligente.
— Se você terminou seu café, vamos ver os quadros — disse, levantando-se enquanto
falava.
Spode ergueu-se com entusiasmo, e só então percebeu que bebera um pouquinho demais.
Teria que tomar cuidado, falar deliberadamente e plantar os pés no chão conscientemente, um
após o outro.
— Esta casa está atulhada de quadros — queixou-se lorde Badgery. — Na semana passada
mandei um vagão cheio para o campo; mas ainda são demais. Meus ancestrais tiveram seus
retratos pintados por Romney. Um artista tão ofensivo, não acha? Por que não podiam ter
escolhido Gainsborough, ou até mesmo Reynolds? Agora mandei pendurar todos os Romney no
salão dos empregados. É um grande consolo saber que ninguém mais os verá de novo. Imagino que você conheça tudo sobre os antigos hititas.
— Bem... — respondeu o rapaz, com apropriada modéstia.
— Olhe para isto, então. — Indicou uma grande cabeça de pedra colocada em uma estante
perto da porta da sala de jantar. — Não é grega, nem egípcia, nem persa, nem outra coisa;
assim, se não for hitita antigo, não sei o que é. E isso me lembra daquela história sobre lorde
George Sanger, o Rei do Circo... — e, sem dar a Spode tempo de examinar a relíquia hitita,
encaminhou-se para a longa escadaria, interrompendo-se a todo momento para mostrar algum
novo espetáculo de curiosidade ou beleza.
— Imagino que conheça as pantomimas de Deburau — Spode sugeriu assim que a história
terminou. Estava ansioso para passar sua informação sobre Deburau. Badgery lhe dera uma
abertura perfeita com seu ridículo Sanger. — Que homem perfeito, não é? Ele costumava...
— Esta é a galeria principal — disse lorde Badgery, abrindo uma folha de uma alta porta
dobrável. — Tenho de pedir desculpas por ela. Parece um rinque. — Mexeu nos interruptores e
de repente havia luz, luz que revelava uma enorme galeria, devidamente desaparecendo à
distância segundo todas as leis da perspectiva. — Ouso dizer que você ouviu falar sobre meu
pobre pai — continuou lorde Badgery. — Um pouco insano, sabe? Uma espécie de gênio mecânico com um parafuso solto. Costumava ter sua ferrovia de brinquedo neste aposento.
Muito se divertiu com ela, rastejando pelo chão atrás de seus trens. E todos os quadros estavam
empilhados no porão. Não posso lhe dizer como estavam quando os encontrei, fungos crescendo nos Botticelli. Agora, tenho certo orgulho deste Poussin; ele o pintou para Scarron.
— Maravilhoso! — exclamou Spode, fazendo com a mão um gesto como se estivesse
modelando uma forma pura no ar. — Como é esplêndido o movimento dessas árvores e dessas
figuras inclinadas! E o modo como foram pegas, por assim dizer, e imobilizadas por aquela
figura divina única opondo-se a elas com seu movimento contrário! E os drapejados...
Mas lorde Badgery adiantara-se e estava parado diante de uma pequena Virgem do século
XV de madeira entalhada.
— Escola de Rheims — explicou.
“Fizeram” a galeria em alta velocidade. Badgery não permitiu que seu convidado parasse
por mais de quarenta segundos diante de qualquer obra de arte. Spode teria gostado de passar
alguns momentos de rememoração e tranquilidade diante de algumas daquelas lindas coisas.
Mas não lhe foi permitido.
Feita a galeria, passaram para um pequeno aposento. Ao ver o que as luzes revelavam,
Spode engasgou-se.
— É como alguma coisa de Balzac — exclamou — Un de ces salons dorés où se déploie
un luxe insolent. Você sabe.
— Minha câmara do século XIX — explicou Badgery. — A melhor de seu gênero —
orgulhou-se em dizer — fora dos Aposentos Reais, em Windsor.
Spode andou pela câmara na ponta dos pés, contemplando atônito todos os objetos de
vidro, bronze dourado, porcelana, plumas, seda bordada e pintada, contas, cera, objetos de
formas e cores das mais fantásticas, todos os estranhos produtos de uma tradição decadente que
enchiam o aposento. Havia quadros nas paredes — um Martin, um Wilkie, um Landseer dos
primeiros anos, vários Etty, um grande Haydon, uma leve aquarela de uma moça pintada por
Wainewright, pupilo de Blake e mestre em envenenamento por arsênico, e muitos outros. Mas o quadro que prendeu a atenção de Spode foi uma tela de tamanho mediano representando Tróilo
adentrando Troia a cavalo em meio às flores e aos aplausos da multidão de admiradores e
alheio (via-se em sua expressão) a tudo exceto aos olhos de Créssida, que o contemplava de
uma janela com Pândaro sorrindo por cima do ombro dela.
— Que quadro absurdo e encantador! — exclamou Spode.
— Ah, você descobriu meu Tróilo. — Lorde Badgery ficou contente.
— Que cores brilhantes! Como as de Etty, só que mais fortes, não tão obviamente bonitas.
E há uma energia que me lembra um quadro de Haydon. Só que Haydon jamais conseguiria fazer algo de gosto tão impecável. Quem fez? — Spode voltou-se interrogativamente para seu
anfitrião.
— Você acertou ao identificar Haydon — respondeu lorde Badgery. — É de um pupilo
dele, Tillotson. Queria obter outras obras dele. Mas parece que ninguém sabe coisa alguma
sobre ele. E parece que ele fez tão poucos quadros.
Dessa vez foi o rapaz quem interrompeu.
— Tillotson, Tillotson... — Levou a mão à testa. Uma ruga incongruente distorceu seu rosto
redondo e de curvos ornatos. — Não... Sim, já sei. — Ergueu os olhos em triunfo, sobrancelhas serenas e infantis. — Tillotson, Walter Tillotson. O sujeito ainda está vivo.
Badgery sorriu.
— Lembre-se que este quadro foi pintado em 1846.
— Bem, está certo. Digamos que ele tenha nascido em 1820, pintou sua obra-prima aos
vinte e seis anos, e estamos em 1913; quer dizer que ele tem só noventa e três anos. Não tão
velho quanto Ticiano.
— Mas ninguém ouve falar dele desde 1860 — protestou lorde Badgery.
— Exatamente. A menção do nome dele lembrou-me da descoberta que fiz outro dia
quando lia as notícias obituárias nos arquivos da World’s Review. (Precisamos colocar as
informações em dia todos os anos para não sermos pegos cochilando se um desses velhotes
resolver apagar de repente.) Bem, lembro-me do meu espanto na época: entre elas encontrei a biografia de Walter Tillotson. Bastante completa até 1860 e depois um buraco, exceto por uma
anotação a lápis no início do século dizendo que ele voltara do Oriente. O obituário nunca havia
sido usado ou ampliado. Tirei a conclusão óbvia: o velho ainda não está morto. Só que de
alguma forma se esqueceram dele.
— Mas isso é fantástico! — exclamou lorde Badgery. — Você precisa encontrá-lo, Spode,
tem que encontrá-lo. Vou contratá-lo para pintar afrescos em volta desta sala. É exatamente o
que eu sempre quis e sem sucesso: um verdadeiro artista do século XIX para decorar este lugar
para mim. Ah, precisamos encontrá-lo, imediatamente.
Lorde Badgery caminhava de um lado para outro em estado de grande excitação.
— Estou vendo como esta sala poderia ficar perfeita — continuou. — Tiramos todas essas
estantes e encheremos aquela parede com um afresco heroico de Heitor e Andrômaca, ou
“Confisco por dívida de aluguel”[29], ou Fanny Kemble como Belvidera em “Veneza preservada”
— qualquer coisa do gênero, desde que seja imponente como nas décadas de 1830 ou 1840. E
aqui eu colocaria uma paisagem com lindas perspectivas recuando, ou então algo arquitetônico
e imponente, no estilo do banquete de Baltasar. Depois tiramos essa lareira Adam e
substituímos por algo gótico-mourisco. E nessas paredes teremos espelhos, ou não... Deixe-me ver...
Mergulhou em silêncio pensativo, do qual finalmente acordou para exclamar:
— O velho, o velho! Spode, precisamos encontrar essa espantosa criatura. E não conte uma
palavra a ninguém. Tillotson! Será nosso segredo. Ah, é perfeito, incrível! Pense nos afrescos!
O rosto de lorde Badgery parecia definitivamente contente. Ele conversara sobre um único
assunto durante quase quinze minutos.
II
Três semanas mais tarde lorde Badgery foi despertado de sua costumeira sonolência de depois
do almoço pela chegada de um telegrama. A mensagem era curta. “Encontrei. — Spode.” Um ar
de prazer e inteligência tornou humano o rosto acinzentado de descomedimentos de lorde
Badgery.
— Nenhuma resposta — disse. O criado retirou-se com passos silenciosos.
Lorde Badgery fechou os olhos e começou a imaginar. Encontrado! Que sala ele teria! Não
haveria no mundo coisa como ela. Os afrescos, a lareira, os espelhos, o teto... E um velhinho pequenino e enrugado escalando os andaimes, ágil e rápido como um daqueles macaquinhos
cabeludos do zoológico, pintando, pintando... Fanny Kemble como Belvidera, Heitor e
Andrômaca, ou por que não o duque de Clarence no Butt, o duque de Malmsey, o Butt de Clarence... Lorde Badgery dormia.
Spode não chegou muito depois de seu telegrama. Às seis horas estava em Badgery House.
Sua Excelência estava na sala do século XIX, ocupado em retirar os objetos da sala por conta
própria. Spode encontrou-o sem fôlego e vermelho.
— Ah, aí está você — disse lorde Badgery. — Veja que já estou preparando as coisas para
a chegada do grande homem. Agora tem de me contar tudo sobre ele.
— Ele é ainda mais velho do que eu pensava — informou Spode. — Faz noventa e sete
anos este ano. Nasceu em 1816. Incrível, não é? Mas assim estou começando pelo fim.
— Comece onde quiser — disse Badgery eufórico.
— Não vou lhe contar todos os incidentes da caçada. Não tem ideia do trabalho que tive
para encontrá-lo. Era como uma história de Sherlock Holmes, imensamente complicada,
complicada demais. Qualquer dia vou escrever um livro sobre isso. De qualquer maneira,
finalmente encontrei-o.
— Onde?
— Em uma espécie de favela respeitável em Holloway, mais velho, mais pobre e mais
sozinho do que se poderia acreditar. Descobri como foi que chegou a ser esquecido e como, então, se retirou da vida. Ele enfiou na cabeça, pelos idos de 1860, de ir para a Palestina a fim
de conseguir cor local para seus quadros religiosos — bodes expiatórios e coisas do gênero.[30]
Bem, ele foi para Jerusalém e depois para o monte Líbano e sempre em frente, e então, em
algum lugar no meio da Ásia Menor, ele pirou — e por lá ficou lá durante uns quarenta anos.
— Mas que foi que ele fez todo esse tempo?
— Ah, ele pintava, e fundou uma missão, e converteu três turcos, e ensinou aos paxás
locais rudimentos de inglês, latim, perspectiva e Deus sabe mais o quê. Então, mais ou menos
em 1904, parece que lhe ocorreu que estava ficando meio velho e estivera fora de casa por bastante tempo. Assim voltou para a Inglaterra, para descobrir que todos a quem conhecia
estavam mortos, que os comerciantes de arte nunca tinham ouvido falar dele e não queriam
comprar seus quadros, que era apenas um velho ridículo. Assim, conseguiu um emprego como
professor de desenho num colégio feminino em Holloway e esteve lá desde então, cada vez mais
velho, e mais fraco, cego e surdo e em geral mais gagá, até que finalmente a escola o despediu.
Ele tinha umas dez libras ao todo quando o encontrei. Vive numa espécie de buraco escuro num
porão cheio de baratas. Quando tiver gastado suas dez libras, acho que vai morrer ali em paz.
Badgery ergueu a mão pálida.
— Chega, chega. Já acho a literatura suficientemente deprimente. Insisto que pelo menos a
vida seja um pouco mais alegre. Você lhe disse que quero que pinte minha sala?
— Mas ele não pode pintar. Está cego e trêmulo demais.
— Não pode pintar? — exclamou Badgery com horror. — Então qual é a vantagem do
velhote?
— Bem, colocando as coisas assim... — começou Spode.
— Não vou ter mais meus afrescos. Toque a campainha; sim?
Spode tocou.
— Que direito Tillotson tem de continuar existindo se não pode pintar? — continuou lorde
Badgery com petulância. — Afinal, era sua única justificativa para ocupar um lugar ao sol.
— Ele não tem muito sol em seu porão.
O criado apareceu à porta.
— Arranje alguém para colocar essas coisas de volta no lugar — ordenou lorde Badgery
indicando com a mão as estantes pilhadas, a confusão de vidro e porcelana com que ele atulhara
o chão, os quadros dependurados. — Vamos para a biblioteca, Spode; lá é mais confortável.
Guiou-o através da longa galeria e escada abaixo.
— Lamento que o velho Tillotson tenha sido uma decepção tão grande — disse Spode com
simpatia.
— Vamos falar de outra coisa; ele deixou de me interessar.
— Mas não acha que devíamos fazer alguma coisa por ele? Só dez libras o separam do
asilo. E se tivesse visto os besouros naquele porão!
— Chega, chega. Faço qualquer coisa que você achar apropriada.
— Achei que podíamos fazer uma coleta entre os amantes da arte.
— Não existe nenhum — disse Badgery.
— Não; mas muitas pessoas vão contribuir por esnobismo.
— Só se você lhes der algo em troca do dinheiro.
— É verdade. Não tinha pensado nisso. — Spode ficou em silêncio por um momento. — Podíamos dar um jantar em homenagem a ele. O Grande Banquete de Tillotson. O Decano da
Arte Inglesa. Um Elo com o Passado. Não está vendo os jornais? Eu faria um grande movimento
na World’s Review. Isso vai atrair os esnobes.
— E vamos convidar muitos artistas e críticos; todos os que não se suportam. Vai ser
engraçado vê-los discutindo. — Badgery riu. Depois seu rosto tornou a anuviar-se. — Mesmo
assim — acrescentou — vai ser um consolo muito pobre para os meus afrescos. Você vai ficar
para jantar, é claro.
— Bem, já que convida. Muito obrigado.
III
O Banquete de Tillotson foi marcado para umas três semanas depois. Spode, encarregado dos
arranjos, mostrou-se um excelente organizador. Alugou o enorme salão de banquetes do Café
Bomba e, entre elogios e intimidações, conseguiu convencer o gerente a dar um jantar para cinquenta pessoas a doze xelins por cabeça, incluindo o vinho. Mandou convites e recolheu
contribuições. Escreveu um artigo sobre Tillotson na World’s Review — um desses artigos
encantadores e inteligentes, vazado na agradável mistura de indulgência e crítica com que se
fala dos grandes homens de 1840. Também não negligenciou o próprio Tillotson. Costumava ir
quase todos os dias a Holloway para ouvir as histórias infindáveis do velho sobre a Ásia Menor
e a Grande Exposição de 1851 e Benjamin Robert Haydon. Tinha sincera pena daquela relíquia
de outra era.
O quarto do sr. Tillotson ficava a uns três metros abaixo do nível do solo em Holloway Sul. Uma tênue luz cinzenta penetrava através das barras da área, passava com dificuldade pelas
vidraças opacas e sujas e dissipava-se, como uma gota de leite que cai num tinteiro, por entre as sombras espessas do porão. O lugar estava impregnado pelo cheiro acre de reboco úmido e de
madeira cujo âmago começava a pulverizar-se secretamente. Móveis um tanto heterogêneos,
incluindo uma cama, um lavatório e uma cômoda, uma mesa e uma ou duas cadeiras, escondiam-se nos cantos obscuros do porão ou se aventuravam a aparecer furtivamente. Ali Spode ia quase
todos os dias, levando ao velho notícias sobre o andamento dos planos para o banquete. Todos
os dias encontrava o sr. Tillotson sentado no mesmo lugar sob a janela, banhando-se, por assim
dizer, em sua minúscula poça de luz. “O ancião que sempre teve cabelos grisalhos”, refletia
Spode, olhando para ele. Só que naquela cabeça calva e opaca restavam poucos cabelos. Ao
som da batida do visitante, o sr. Tillotson voltava-se na cadeira e fixava na direção da porta
seus olhos pouco firmes e pestanejantes. Estava sempre cheio de desculpas por demorar tanto a
reconhecer quem chegava.
— Não é falta de cortesia — dizia, depois de convidá-lo a entrar. — Não é que tenha me
esquecido de você. Só que está tão escuro e minha vista não é mais o que era.
Depois disso ele nunca deixava de soltar uma risadinha e, apontando através da janela para
as barras da área, dizia:
— Ah, aquele é o lugar para alguém de vista boa. É o lugar para olhar os tornozelos. É o
palanque.
Era a véspera do grande evento. Spode veio como sempre, e o sr. Tillotson soltou
pontualmente sua piada sobre os tornozelos, e Spode riu também pontualmente.
— Bem, sr. Tillotson — falou, depois que a reverberação da piada desapareceu. —
Amanhã o senhor faz sua reentrada no mundo da arte e da moda. Vai encontrar algumas
mudanças.
— Sempre tive uma sorte extraordinária — disse o sr. Tillotson, e Spode podia ver em sua
expressão sincera que ele de fato acreditava nisso, que esquecera o buraco escuro e os besouros
e as dez libras, quase todas gastas, que o separavam do asilo. — Que sorte espantosa, por
exemplo, você ter me descoberto exatamente naquela ocasião. Agora, esse jantar vai me levar
de volta ao meu lugar no mundo. Vou ter dinheiro e, em pouco tempo, quem sabe, poderei enxergar o suficiente para pintar outra vez. Acredito que meus olhos estão melhorando, sabe.
Ah, o futuro é dourado.
O sr. Tillotson ergueu os olhos, o rosto enrugado em um sorriso, e fez um gesto de
assentimento às suas palavras.
— Acredita na vida futura? — perguntou Spode, e imediatamente ruborizou-se de vergonha
pela crueldade das palavras.
Mas o sr. Tillotson estava alegre demais para perceber seu significado.
— A vida futura — repetiu. — Não, não acredito nessas coisas, desde 1859. A origem das espécies mudou minha opinião, sabe? Nenhuma vida futura para mim, obrigado! Você não se
lembra da confusão, naturalmente. É muito jovem, sr. Spode.
— Bem, não sou tão velho quanto era — replicou Spode. — Sabe como a pessoa se sente
na meia-idade quando estudante e calouro? Agora sou suficientemente adulto para saber que sou
jovem.
Spode estava a ponto de desenvolver um pouco mais esse pequeno paradoxo, mas
percebeu que o sr. Tillotson não estava escutando. Anotou a jogada para usar em companhias
que apreciassem mais as sutilezas.
— Você estava falando sobre A origem das espécies — disse.
— Estava? — perguntou o sr. Tillotson, acordando de seu devaneio.
— Sobre o efeito do livro em sua fé, sr. Tillotson.
— Sim, claro. Sacudiu minha fé. Mas lembro-me de uma coisa linda do Poeta Laureado,
alguma coisa sobre haver mais fé na dúvida honesta,[31] creia-me, do que em toda... em toda...
esqueci exatamente em quê; mas você percebeu o raciocínio. Ah, era uma época ruim para a
religião. Estou contente que meu mestre Haydon não tenha vivido para ver isso. Era um homem
de muita fé. Lembro-me de vê-lo caminhando de um lado para o outro de seu estúdio em Lisson
Grove, cantando, gritando e rezando ao mesmo tempo. Quase me assusta. Ah, mas ele era um
homem maravilhoso, um grande homem. No todo, não vamos encontrar outro como ele. Como
sempre, o Bardo está certo. Mas foi tudo há muito tempo, antes do seu tempo, sr. Spode.
— Bem, não sou tão velho quanto fui — disse Spode, na esperança de que dessa vez seu
paradoxo fosse apreciado. Mas o sr. Tillotson continuou sem perceber a interrupção.
— Há muito, muito tempo. No entanto, quando olho para trás, parece que foi há um ou dois
dias. Estranho que cada dia pareça tão longo e que muitos dias juntos sejam menos que uma
hora. Como vejo claramente o velho Haydon andando de um lado para o outro! Muito mais
claramente, na verdade, do que o vejo agora, sr. Spode. Os olhos da memória não enfraquecem.
Mas minha vista está melhorando, eu lhe asseguro; está melhorando diariamente. Logo poderei
ver aqueles tornozelos. — Riu como um sino rachado, um daqueles pequenos sinos antigos, imaginou Spode, que tocam nos distantes alojamentos dos empregados em casas antigas. — E
logo — continuou o sr. Tillotson — estarei pintando de novo. Ah, sr. Spode; minha sorte é
extraordinária. Acredito nela, confio nela. E, afinal, que é a sorte? Simplesmente outro nome da
Providência, apesar de A origem das espécies e tudo o mais. Como o Laureado estava certo
quando disse que há mais fé na dúvida honesta, creia-me, do que em toda... hum, toda... hum...
bem, você sabe. Eu o considero, sr. Spode, um emissário da Providência. Sua vinda marcou um
ponto decisivo em minha vida e o início, para mim, de dias mais felizes. Sabe, uma das
primeiras coisas que farei quando minha fortuna for restaurada será comprar um porco-espinho.
— Um porco-espinho, sr. Tillotson?
— Para as baratas. Não há nada como um porco-espinho para as baratas. Ele come baratas
até ficar doente, até morrer de indigestão. Isso me lembra uma vez em que disse a meu pobre
grande mestre Haydon, brincando, é claro, que ele devia mandar um desenho do rei João
morrendo de excesso de lampreias para os afrescos das novas Casas do Parlamento. Como eu
disse a ele, é um acontecimento notabilíssimo nos anais da liberdade inglesa: a remoção
providencial e exemplar de um tirano.
O sr. Tillotson riu novamente — o sininho na casa deserta; uma mão fantasmagórica puxando uma corda na sala de estar e criados fantasmas respondendo ao som fraco e quebrado.
— Lembro-me de que ele riu como um touro, em seu modo imponente. Mas ah, foi um
golpe terrível quando recusaram seus desenhos, um golpe terrível. Foi a causa primeira e
fundamental de seu suicídio.
O sr. Tillotson interrompeu-se. Houve um longo silêncio. Spode sentia-se estranhamente
comovido, mal sabia por quê, na presença desse homem, tão frágil, tão velho, em um corpo três
quartos morto e com um espírito tão cheio de vida e de esperançosa paciência. Sentia-se
envergonhado. Qual era a utilidade de sua própria juventude e inteligência? Viu a si mesmo de repente como um menino com um chocalho espantando pássaros; chocalhando sua barulhenta
inteligência, sacudindo os braços em atividade inútil e sem fim, nunca descansando em seus
esforços para espantar os pássaros que estavam sempre tentando pousar em sua mente. E que pássaros! Bonitos, de asas compridas, todos esses pensamentos, crenças e emoções tranquilas
que só visitam as mentes que se tornaram humildes e serenas. Esses eram os graciosos visitantes
contra os quais ele estava sempre usando todas as suas energias. Mas a mente desse velho,
como seu porco-espinho e suas dúvidas honestas e tudo o mais, era como um campo embelezado
pela liberdade de idas e vindas, pelos pousos sem temor de uma multidão de criaturas brancas,
de asas brilhantes. Sentiu-se envergonhado. Mas seria possível alterar a vida? Não era um
pouco absurdo arriscar uma conversão? Spode deu de ombros.
— Vou lhe arranjar um porco-espinho imediatamente — disse. — Certamente terão alguns
na Whiteley’s.[32]
Antes de partir naquela noite, Spode fez uma descoberta alarmante. O sr. Tillotson não
possuía fraque. Era impossível pensar em mandar fazer um em prazo tão curto, e, além disso,
que despesa supérflua!
— Vamos ter de pedir um fraque emprestado, sr. Tillotson. Eu devia ter pensado nisso
antes.
— Ora, ora. — O sr. Tillotson estava triste por causa dessa descoberta aziaga. — Pedir um
fraque emprestado?
Spode saiu correndo para aconselhar-se em Badgery House. Lorde Badgery
surpreendentemente fez jus à ocasião. — Mande Boreham vir me ver — ordenou ao empregado
que atendeu à campainha.
Boreham era um desses mordomos imemoriais que permanecem, geração após geração, nas
casas dos grandes. Tinha mais de oitenta anos agora, curvado, ressecado, encolhido com a
idade.
— Todos os velhos são mais ou menos do mesmo tamanho — declarou lorde Badgery. Era
uma teoria reconfortante. — Ah, aqui está ele. Você tem um fraque extra, Boreham?
— Tenho um fraque velho, meu lorde, que parei de usar em... deixe-me ver... foi em 1907
ou 1908?
— Exatamente. Eu ficaria muito grato, Boreham, se você pudesse emprestá-lo ao sr. Spode
aqui por um dia.
O ancião retirou-se e logo reapareceu trazendo no braço um fraque preto muito velho.
Ergueu o paletó e as calças para exame. À luz do dia eram deploráveis.
— O senhor não tem ideia — disse Boreham a Spode em tom suplicante —, não tem ideia
de como as coisas se sujam com facilidade, de gordura, de molho e assim por diante. Por mais cuidado que se tome, senhor. Por mais cuidado que se tome.
— Imagino que sim. — O tom de Spode era de simpatia.
— Por mais cuidado que se tome, senhor.
— Mas à luz artificial vai parecer bem.
— Perfeitamente bem — repetiu lorde Badgery.
— Obrigado, Boreham; vai tê-lo de volta na quinta-feira.
— De nada, meu senhor, de nada. — E o velho curvou-se e desapareceu.
Na tarde do grande dia Spode levou para Holloway um pacote contendo o fraque aposentado de Boreham e todos os complementos necessários, tais como camisa e colarinho.
Devido à escuridão e à sua visão fraca, o sr. Tillotson ficou alegremente inconsciente dos
defeitos do fraque. Estava em um estado de extrema agitação nervosa. Foi com alguma dificuldade que Spode conseguiu impedi-lo, embora fossem apenas três horas, de iniciar sua
toalete imediatamente.
— Calma, sr. Tillotson, calma. Não precisamos sair antes das sete e meia.
Spode partiu uma hora depois, e logo que se certificou de sua saída do aposento o sr.
Tillotson começou a preparar-se para o banquete. Acendeu o gás e algumas velas e, piscando
com toda sua miopia para a imagem que o encarava no espelho minúsculo que ficava sobre a
cômoda, pôs-se a trabalhar com todo o entusiasmo de uma jovem preparando-se para seu
primeiro baile. Às seis horas, após os últimos retoques, ele estava satisfeito.
Marchou de um lado para o outro em seu porão, cantarolando consigo mesmo a canção
alegre que tinha sido tão popular em sua juventude:
Oh, oh, Anna Maria Jones!
Rainha do pandeiro, dos címbalos e dos ossos!
Spode chegou uma hora mais tarde no segundo Rolls-Royce de lorde Badgery. Abrindo a porta da enxovia do ancião, parou por um momento, olhos arregalados de espanto, à soleira. O
sr. Tillotson estava parado junto ao caixote vazio, um cotovelo descansando na prateleira acima
da lareira, uma perna cruzada sobre a outra numa pose janota e cavalheiresca. O efeito da luz
das velas brilhando em seu rosto era de aprofundar cada ruga com sombras intensamente negras;
parecia infinitamente velho. Era uma cabeça nobre e patética. Por outro lado, o fraque bastante
usado de Boreham era simplesmente cômico. O paletó tinha as mangas e a cauda compridas
demais; as calças formavam bolsas em rugas elefantinas nos tornozelos. Algumas das manchas
de gordura eram visíveis até à luz de vela. A gravata branca, com a qual o sr. Tillotson tivera um trabalho infinito e que acreditava, em sua quase cegueira, estar perfeita, estava
fantasticamente torta para um lado. Ele tinha abotoado o colete de tal maneira que um botão
estava privado de sua casa e uma casa de seu botão. Atravessando a frente da camisa havia
larga fita verde de uma Ordem desconhecida qualquer.
— Rainha do pandeiro, dos címbalos e dos ossos — concluiu o sr. Tillotson com voz de
mosquito antes de dar as boas-vindas ao visitante. — Bem, Spode, aí está você. Já estou pronto,
está vendo? Fico lisonjeado de poder dizer que o fraque me serve muito bem, quase como se
tivesse sido feito para mim. Sou todo gratidão para com o cavalheiro que teve a gentileza de emprestá-lo; vou tomar o maior cuidado com ele. É perigoso emprestar roupa. Pois amiúde se
perde a coisa emprestada e o amigo. O Bardo está sempre certo.
— Só uma coisa — disse Spode. — Um toque no seu colete.
Desabotoou a peça de roupa envelhecida e abotoou-a novamente, de modo mais simétrico.
O sr. Tillotson ficou um tanto ofendido por ter sido pego num erro tão absurdo.
— Obrigado, obrigado — disse, em tom de protesto, tentando afastar-se de seu valete. —
Está bem, sabe; posso fazer isso sozinho. Esquecimento tolo. Agrada-me que o terno me sirva
tão bem.
— E talvez a gravata possa... — Spode começou em tom de tentativa. Mas o velho não quis
saber daquilo.
— Não, não. A gravata está certa. Sei dar o nó numa gravata, sr. Spode. A gravata está
bem. Deixe-a assim, eu lhe peço.
— Gosto de sua Ordem.
O sr. Tillotson baixou os olhos complacentemente para o peito da camisa.
— Ah, você notou a minha Ordem. Faz muito tempo que não uso isso. Foi o Grand Porte
que me deu, sabe, por serviços prestados na Guerra Russo-Turca. É a Ordem da Castidade,
segunda classe. Eles só dão a primeira classe a cabeças coroadas, sabe; cabeças coroadas e
embaixadores. E só paxás do nível mais alto recebem a segunda. A minha é a segunda. Eles só
dão a primeira classe para cabeças coroadas...
— Naturalmente, naturalmente — disse Spode.
— Acha que estou bem, sr. Spode? — perguntou o sr. Tillotson, um pouco ansioso.
— Esplêndido, sr. Tillotson, esplêndido. A Ordem é magnífica.
O rosto do velho tornou a brilhar.
— Fico lisonjeado — disse — porque esse fraque emprestado me serve muito bem. Mas
não gosto de pedir roupas emprestadas. Pois com frequência perde-se a coisa emprestada e o
amigo, sabe? E o Bardo está sempre certo.
— Ui, uma dessas baratas horríveis! — exclamou Spode.
O sr. Tillotson curvou-se e fixou o olhar no chão.
— Estou vendo — declarou, e pisou com força num pedacinho de carvão, que virou pó sob seu pé. — Seguramente vou comprar um porco-espinho.
Era hora de partirem. Uma multidão de meninos e meninas juntaram-se ao redor do enorme
carro de lorde Badgery. O motorista, sentindo que a honra e a dignidade corriam risco, fingia
não notar as crianças e contemplava, como uma estátua, a eternidade. A visão de Spode e do sr.
Tillotson emergindo da casa provocou um grito de admiração e troça, que diminuiu até um
silêncio atônito enquanto entravam no carro.
— Para o Bomba — ordenou Spode. O Rolls-Royce soltou um suspiro vagamente ofegante
e começou a mover-se. As crianças tornaram a gritar e correram ao lado do carro, acenando com os braços num frenesi de excitação. Foi quando o sr. Tillotson, com um gesto
incomparavelmente nobre, inclinou-se para a frente e jogou para a agitadíssima multidão de
crianças suas três últimas moedas.
IV
No grande salão do Bomba juntavam-se os convidados. Os compridos espelhos emoldurados
em dourado refletiam uma coleção singular de pessoas. Acadêmicos de meia-idade lançavam
olhares suspeitosos a jovens de quem suspeitavam, com bastante razão, serem iconoclastas,
organizadores de exposições pós-impressionistas. Críticos de arte rivais, postos subitamente
frente a frente, estremeciam com ódio incontido. A sra. Nobes, a sra. Cayman e a sra.
Mandragore, essas infatigáveis perseguidoras de caça artística pesada, encontraram-se sem
aviso nessa aglomeração, onde cada uma pensara caçar sozinha, e encheram-se de raiva.
Através dessa multidão de vaidades mutuamente repelentes lorde Badgery movia-se com uma suavidade que parecia inconsciente a todas as brigas e ódios. Estava se divertindo imensamente.
Atrás da pesada máscara cerúlea de seu rosto, emboscado atrás do nariz hanoveriano, os olhinhos baços de porco, os lábios grossos e pálidos, havia um pequeno demônio de alegre
malícia que rolava de rir.
— Muita gentileza a sua de ter vindo, sra. Mandragore, honrar o passado artístico da Inglaterra. E estou feliz em ver que trouxe a querida sra. Cayman. E a sra. Nobes, também? É
mesmo! Não a tinha visto antes. Que maravilha! Sabia que podia confiar em seu amor à arte.
E ele saiu apressado para aproveitar a oportunidade de apresentar aquele famoso escultor,
Sir Herbert Herne, ao brilhante e jovem crítico que o chamara, na imprensa, de um pedreiro
monumental.
Um momento mais tarde o maître d’hôtel chegou à porta do salão dourado e anunciou, em
voz alta e viva:
— Sr. Walter Tillotson.
Guiado por trás pelo jovem Spode, o sr. Tillotson entrou no salão lenta e hesitantemente.
Ao brilho das luzes, suas pesadas pálpebras bateram dolorosamente, como as asas de uma
vespa aprisionada, sobre os olhos úmidos. Uma vez do lado de dentro da porta ele estacou e
endireitou-se com uma tomada consciente de dignidade. Lorde Badgery aproximou-se depressa
e apertou-lhe a mão.
— Bem-vindo, sr. Tillotson. Bem-vindo, em nome da arte inglesa!
O sr. Tillotson inclinou a cabeça em silêncio. Estava por demais emocionado para poder
responder.
— Gostaria de apresentá-lo a alguns de seus colegas mais jovens, que se reuniram aqui
para homenageá-lo.
Lorde Badgery apresentou todos na sala ao velho pintor, que inclinava-se, apertava mãos,
fazia ruídos com a garganta, mas ainda se encontrava incapaz de falar. A sra. Nobes, a sra.
Cayman e a sra. Mandragore disseram coisas encantadoras.
O jantar foi servido; as pessoas tomaram seus lugares. Lorde Badgery sentou-se à
cabeceira da mesa, com o sr. Tillotson à sua direita e Sir Herbert Herne à sua esquerda. Posto
diante da suculenta cozinha do Bomba e dos vinhos do Bomba, o sr. Tillotson comeu e bebeu bastante. Tinha o apetite de alguém que viveu de verduras e batatas durante dez anos entre as
baratas. Depois da segunda taça de vinho ele começou a falar, abrupta e torrencialmente, como
se uma comporta tivesse sido aberta.
— Na Ásia Menor — começou — é costume, quando se vai a um jantar, arrotar como sinal
de satisfação. Eructavit cor meum,[33]como disse o salmista; ele próprio era oriental.
Spode deu um jeito para sentar-se ao lado da sra. Cayman; tinha objetivos que a
envolviam. Era uma mulher impossível, naturalmente, mas rica e útil; ele queria seduzi-la para
que comprasse alguns quadros de seu novo amigo.
— Em um porão? — dizia a sra. Cayman. — E com baratas? Ah, que horror! Pobre
homem! E ele tem noventa e sete anos, você disse? Não é chocante? Espero que a coleta seja
grande. Claro, gostaria de ter dado mais. Mas, sabe, tantas despesas e as coisas andam tão
difíceis.
— Eu sei, eu sei — disse Spode, com sentimento.
— Tudo por causa do trabalhismo — explicou a sra. Cayman. — Claro, eu simplesmente
adoraria convidá-lo para jantar às vezes. Mas sinto que na verdade ele é velho demais,
farouche e gâteux demais; não seria bondoso para com ele, seria? E então você agora está trabalhando com o sr. Gollamy? Que homem encantador, tão talentoso, uma conversa tão...
— Eructavit cor meum — falou o sr. Tillotson pela terceira vez. Lorde Badgery tentou
desviá-lo do assunto da etiqueta turca, mas em vão.
Pelas nove e meia uma atmosfera etílica mais generosa tinha adormecido os ódios e as
suspeitas de antes do jantar. Sir Herbert Herne descobrira que o jovem cubista sentado a seu
lado não era maluco e na verdade conhecia bastante os Velhos Mestres. Por sua parte esses
rapazes tinham percebido que os mais velhos não eram nem um pouco malignos; eram apenas
muito estúpidos e patéticos. Apenas nos peitos da sra. Nobes, da sra. Cayman e da sra.
Mandragore o ódio ainda reinava. Sendo damas e antiquadas, elas quase não tinham bebido
vinho.
Chegou o momento dos discursos. Lorde Badgery pôs-se de pé, disse o que se esperava dele e chamou Sir Herbert para erguer o brinde da noite. Sir Herbert tossiu, sorriu e começou.
Durante um discurso que durou vinte minutos ele contou anedotas do sr. Gladstone, de lorde
Leighton, Sir Alma Tadema e do finado bispo de Bombaim; fez três trocadilhos, citou
Shakespeare e Whittier, foi brincalhão, eloquente, sério... No final de sua arenga Sir Herbert
entregou ao sr. Tillotson uma bolsa de seda contendo cinquenta e oito libras e dez xelins, o total
da coleta. A saúde do velho foi brindada sob aplausos.
O sr. Tillotson pôs-se de pé com dificuldade. A pele de seu rosto, seca como a de uma
serpente, estava ruborizada; a gravata estava mais torta que nunca; a fita verde da Ordem da Castidade segunda classe tinha de algum modo escalado o peito amassado e manchado da
camisa.
— Meu lorde, damas e cavalheiros — começou em voz embargada, e depois desmoronou
completamente. Era um espetáculo doloroso e patético. Uma sensação de intenso desconforto
atingiu a mente de todos que contemplavam aquela trêmula ruína humana, ali parada chorando e
gaguejando. Era como se uma brisa do vento da morte tivesse soprado de súbito através da sala,
levando os vapores de vinho e a fumaça de tabaco, extinguindo o riso e as chamas das velas.
Olhos vagavam pouco à vontade, sem saber para onde olhar. Lorde Badgery, com grande presença de espírito, ofereceu ao ancião uma taça de vinho. O sr. Tillotson começou a
recuperar-se. Os convidados ouviram-no murmurar algumas palavras desconexas.
— Esta grande honra... dominado pela generosidade... este banquete magnífico... não
acostumado... na Ásia Menor... eructavit cor meum.
Nesse ponto lorde Badgery puxou com força uma das pontas do paletó do velho. O sr.
Tillotson parou de falar, tomou outro gole do vinho e então continuou com coerência e energia
recém-conquistadas.
— A vida do artista é dura. Seu trabalho é diferente do trabalho de outros homens, que pode ser feito mecanicamente, de cor e, pode-se dizer, dormindo. Requer dele um gasto
constante de espírito. Ele dá continuamente o melhor de sua vida, e em troca recebe muita
alegria, é verdade; muita fama, pode ser; mas, de bênçãos materiais, muito poucas. Faz oitenta
anos desde que consagrei minha vida ao serviço da arte; oitenta anos, e quase todos esses anos
me trouxeram provas novas e dolorosas do que acabo de dizer: a vida do artista é dura.
Esse inesperado desvio para um discurso que fazia sentido aumentou a sensação geral de
desconforto. Tornava-se necessário levar a sério o ancião, vê-lo como um ser humano. Até
então ele fora apenas um objeto de curiosidade, uma múmia num terno absurdo com uma faixa verde atravessada no peito. As pessoas não podiam deixar de pensar que poderiam ter
contribuído com um pouco mais. Cinquenta e oito libras e dez xelins — não era muito. Mas
felizmente para a paz de espírito da plateia o sr. Tillotson interrompeu-se para, de acordo com sua verdadeira personalidade, falar absurdamente.
— Quando penso na vida desse grande homem, Benjamin Robert Haydon, um dos maiores
homens que a Inglaterra já produziu...
A assistência soltou um suspiro de alívio; era assim que devia ser. Houve uma explosão de
vivas e palmas. O sr. Tillotson passeou os olhos sombrios pela sala e sorriu com gratidão às
figuras enevoadas que enxergava.
— Esse grande homem, Benjamin Robert Haydon — continuou —, a quem me orgulho de
chamar meu mestre e que, meu coração se alegra ao constatar, ainda vive em sua lembrança e estima, esse grande homem, um dos maiores que a Inglaterra já produziu, teve uma vida tão
deplorável que não posso pensar nela sem uma lágrima.
E com infinitas repetições e digressões o sr. Tillotson contou a história de B. R. Haydon,
suas prisões por dívidas, sua batalha com a Academia, seus triunfos, seus fracassos, seu
desespero, seu suicídio. Bateram as dez e meia. O sr. Tillotson exprobava os juízes estúpidos e
preconceituosos que tinham recusado os desenhos de Haydon para a decoração das novas Casas
do Parlamento em favor dos insignificantes rabiscos alemães.
— Esse grande homem, um dos maiores que a Inglaterra já produziu, esse grande Benjamin Robert Haydon, a quem me orgulho de chamar meu mestre e que, alegro-me em ver, ainda vive
em sua lembrança e estima — ante tamanha afronta seu grande coração explodiu; foi a maior de
todas as decepções. Ele que trabalhara a vida toda para o reconhecimento do artista pelo
Estado, ele que tinha peticionado a todos os primeiros-ministros, inclusive ao duque de
Wellington, durante trinta anos, implorando-lhes que empregassem artistas para decorar os
prédios públicos, ele a quem era inegavelmente devido o esquema para a decoração das Casas
do Parlamento... — O sr. Tillotson perdeu o controle da sintaxe e iniciou uma nova sentença. —
Foi a maior de todas as decepções, foi a gota d’água. A vida do artista é dura.
Às onze horas o sr. Tillotson estava falando sobre os pré-rafaelitas. Às onze e quinze
começou a contar toda a história de B. R. Haydon de novo. Aos vinte e cinco minutos para a
meia-noite ele desabou, sem fala, sobre a cadeira. A maioria dos convidados já tinha ido
embora; os poucos que tinham ficado apressaram-se a sair. Lorde Badgery levou o ancião até a
porta e colocou-o no segundo Rolls-Royce. O Banquete de Tillotson tinha terminado; fora uma
noite agradável, mas um pouco longa demais.
Spode foi a pé para seus aposentos em Bloomsbury, assoviando enquanto caminhava. As
lâmpadas de Oxford Street refletiam-se na superfície polida da rua: canais de bronze escuro. Ele precisava colocar isso num artigo algum dia. A Cayman fora lograda com muito sucesso. Voi
Che Sapete, ele assoviava — um tanto desafinado, mas não percebia isso.
Quando a senhoria do sr. Tillotson veio chamá-lo na manhã seguinte, encontrou o ancião
deitado na cama inteiramente vestido. Parecia muito doente e muito velho; o fraque de Boreham
estava em terrível estado e a faixa verde da Ordem da Castidade, estragada. O sr. Tillotson
estava imóvel, mas não estava dormindo. Ouvindo o som de passos, ele abriu um pouco os
olhos e gemeu de leve. A senhoria olhou para ele ameaçadoramente.
— Nojento! — disse. — Acho isso nojento. Na sua idade.
O sr. Tillotson tornou a gemer. Fazendo um grande esforço, tirou do bolso da calça uma
grande bolsa de seda, abriu-a e extraiu uma moeda de uma libra.
— A vida do artista é dura, sra. Green — disse, estendendo a moeda. — Será que se importa de mandar chamar o médico? Não me sinto muito bem. E que é que vamos fazer com
essas roupas? Que vou dizer ao cavalheiro que teve a generosidade de emprestá-las a mim?
Perde-se o empréstimo e o amigo. O Bardo está sempre certo.