Contos escolhidos

Aldous Huxley · Capítulo 13 de 23

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Contos escolhidos

Hubert e Minnie

 

PARA HUBERT L APELL ESSE primeiro caso de amor era extremamente importante. “Importante” era a palavra

que ele próprio usava quando escrevia sobre ele em seu diário. Era um acontecimento em sua

vida, um acontecimento de verdade, para variar. Marcava, ele sentia, um verdadeiro ponto de

mudança em seu desenvolvimento espiritual.

“Voltaire”, ele escreveu no diário — e escreveu pela segunda vez em uma das cartas a

Minnie —, “Voltaire disse que a pessoa morria duas vezes: uma com a morte do corpo inteiro e

outra antes, com a morte da capacidade de amar. E do mesmo modo uma pessoa nasce duas

vezes, sendo a segunda na ocasião em que a pessoa se apaixona. A pessoa nasce, então, para um novo mundo — um mundo de sentimentos mais intensos, valores mais elevados, discernimento

mais agudo.” E assim por diante.

Na realidade, Hubert achou esse novo mundo um pouco decepcionante. Os sentimentos

mais intensos mostraram-se bem tranquilos; de maneira alguma alcançavam padrões literários.

 

Eu vos digo que sou louco

No amor de Créssida. Vós respondeis: ela é bela.

Derramais na úlcera aberta de meu coração

Seus olhos, seus cabelos, sua face, seu andar, sua voz...

 

Não, com certeza não era bem assim. Em seu diário, em suas cartas para Minnie, ele pintava, é verdade, uma série de paisa-gens brilhantes e românticas do novo mundo. Mas eram

paisagens imaginárias combinadas à maneira de Salvator Rosa — mais ricas, mais selvagens,

mais pitorescamente claro-escuras que o mundo real. Hubert agarrava-se com avidez à menor

veleidade de uma infelicidade, um desejo físico, uma ânsia espiritual, para desenvolvê-la em

suas cartas e diários em algo substancialmente romântico. Havia ocasiões, geralmente bem tarde

da noite, em que conseguia convencer-se de que era de fato o mais selvagem, o mais infeliz, o

mais apaixonado dos amantes. Mas durante o dia ele tratava de seus negócios acalentando algo

como uma queixa contra o amor. O negócio era uma fraude; sim, decidiu ele, de certo modo uma verdadeira fraude. Mesmo assim, supunha que era importante.

Para Minnie, no entanto, o amor não tinha nada de fraude. Quase desde o primeiro

momento ela o adorou. Um amigo comum o levara certa feita a uma de suas noitadas de quarta-

feira. “Este é o sr. Lapell; mas é jovem demais para não ser chamado de Hubert.” Assim ele

fora apresentado. E, rindo, ela pegara a mão dele e chamara-o de Hubert imediatamente. Ele

também rira, um tanto nervoso. “Meu nome é Minnie”, ela disse. Mas ele era tímido demais

para chamá-la de qualquer coisa naquela noite. Seus cabelos castanhos eram espessos e

revoltos, como os de um garotinho, e ele tinha olhos cinzentos tímidos que nunca olhavam uma pessoa mais de uma vez, e afastavam-se quase imediatamente, como se tivessem medo. Ele

olhava para você rápida, ansiosamente — e então afastava o olhar; e sua voz musical, com suas ênfases súbitas, suas rápidas modulações de alto a grave pareciam sempre dirigir-se a um

fantasma flutuando baixo, ao lado da pessoa com quem ele falava. Acima das sobrancelhas

havia uma testa lindamente abobadada, com uma ruga reflexiva subindo entre os olhos. Em repouso, sua boca de lábios cheios fazia um leve biquinho, como se exprimisse algum

descontentamento crônico com o mundo. E, naturalmente, pensava Minnie, o mundo não era

suficientemente belo para o idealismo dele.

— Mas afinal — ele dissera — a pessoa tem o mundo das ideias para viver. Isso, de

qualquer modo, é simples, claro e belo. Pode-se sempre viver longe da bagunça brutal.

E das profundezas da poltrona onde, frágil, cansada, e nesse ambiente “artístico” quase

incoerentemente elegante, ela estava sentada, Helen Glamber soltou sua risadinha sincera.

— Pelo contrário, eu acho — disse ela. (Minnie lembrava-se de cada incidente daquela primeira noite.) — Para mim, a pessoa devia agitar por aí e conhecer milhares de pessoas e

comer e beber bastante e fazer amor incessantemente e gritar e rir e bater na cabeça dos outros.

— E tendo dado vazão a esses sentimentos rabelaisianos, a sra. Glamber reclinou-se com um

suspiro de cansaço, cobrindo os olhos com a mão magra e branca pois tinha uma dor de cabeça

de rachar, e a luz lhe fazia mal.

— Sério? — Minnie protestou, rindo. Teria ficado bastante chocada se qualquer outra

pessoa tivesse dito aquilo, mas a Helen Glamber permitia-se dizer qualquer coisa.

Hubert reafirmou seu quietismo. Elegante, exausta, infinitamente frágil, a sra. Glamber recostava-se na poltrona, ouvindo. Ou talvez, sob a mão que a escondia, ela estivesse tentando

dormir.

Ela o adorara à primeira vista. Agora que olhava para trás podia ver que fora à primeira

vista. Adorou-o como quem quisesse protegê-lo, como uma mãe — pois ele tinha só vinte anos

e era muito novo, apesar da ruga entre as sobrancelhas, das palavras difíceis e do conhecimento

recém-descoberto de graduando; apenas vinte anos, e ela tinha quase vinte e nove. Também se

apaixonara, vale dizer, pela beleza dele. Ah, completamente.

Hubert, percebendo isso mais tarde, ficou surpreso e muito lisonjeado. Nunca lhe acontecera nada igual antes. Gostava de ser adorado, e já que Minnie tinha se apaixonado tão

violentamente por ele, parecia-lhe a coisa mais natural do mundo que estivesse apaixonado por

Minnie. É verdade que, se ela não tivesse começado por adorá-lo, nunca ocorreria a Hubert

apaixonar-se por ela. E em seu primeiro encontro achou-a certamente muito boazinha, mas não

particularmente excitante. Depois, a expressão manifesta da adoração dela fizera com que a

achasse mais interessante, e afinal ele próprio se apaixonara. Mas talvez não fosse de espantar

que ele tivesse achado o processo um pouco decepcionante.

Mesmo assim, ele refletia naquelas ocasiões secretas quando tinha que admitir a si próprio que alguma coisa estava errada com sua paixão, que o amor sem a posse jamais poderia,

certamente, conforme a ordem natural da vida, ser a coisa real e verdadeira. Em seu diário

registrou com muito acerto essas quadras de John Donne:

 

Assim as almas dos amantes devem

Descer às afeições e às faculdades

Que os sentidos atingem e percebem.

Ou um príncipe jaz aprisionado.

 

Aos corpos finalmente retornemos

Descortinando o amor a toda a gente;

Os mistérios do amor a alma os sente,

Porém o corpo é a página que lemos.[42]

 

Em seu encontro seguinte ele as recitou para Minnie. A conversa que se seguiu, feita de filosofia e confidências pessoais, foi refinada. A conversa, Hubert sentia, atingira de fato um

padrão literário.

Na manhã seguinte Minnie ligou para sua amiga Helen Glamber e perguntou se podia

aparecer para o chá naquela tarde. Tinha muitas coisas para conversar com ela. A sra. Glamber

suspirou ao desligar o telefone.

— Minnie vem para o chá — falou, voltando-se para a porta aberta.

Do outro lado do corredor veio a voz do marido.

— Meu Deus! — Isso foi dito num tom de horror distante, de resignação distraída; pois John Glamber estava mergulhado no trabalho e sobrava muito pouco dele, por assim dizer,

acima da superfície para reagir às más notícias.

Helen Glamber tornou a suspirar e, recostando-se com mais conforto nas almofadas,

estendeu a mão para o livro. Conhecia aquela voz distante e o que ela significava. Significava

que ele não responderia se ela continuasse a conversa; apenas diria “hum” ou “sim”. E se

depois disso ela persistisse, significava que ele diria, em tom queixoso e comovente: “Querida,

você precisa me deixar trabalhar”. E naquele momento ela teria adorado conversar um pouco.

Em vez disso, continuou a leitura no ponto onde a interrompera para atender ao telefonema de Minnie.

“A essa altura as chamas tinham envolvido o gynaeceum. Dezenove vezes o Patriarca de

Alexandria aventurou-se a entrar no edifício em fogo, de onde conseguiu salvar as lindas

ocupantes, exceto duas — vinte e sete ao todo, e fez com que todas fossem transportadas

imediatamente para seus aposentos particulares...”

Era um desses livros instrutivos que John gostava que ela lesse. História, mistério, lição e

lei. Mas no momento ela não sentia muita vontade de ler História. Tinha vontade de conversar. E

isso estava fora de questão; absolutamente fora.

Largou o livro e começou a lixar as unhas e a pensar na pobre Minnie. Sim, pobre Minnie.

Por que não se conseguia deixar de dizer um “Meu Deus!”, do fundo do coração, quando se

anunciava que ela viria tomar chá? E por que não se tinha coragem de recusar-se a deixar que

ela viesse tomar chá? Ela era patética, mas patética de um modo enfadonho. Há algumas pessoas

com quem é bom ser generoso, pessoas que se quer ajudar e de quem se quer ser amigo. Pessoas

que olham para a gente com olhos de macaco doente. Nosso coração se parte quando as vemos.

Mas a pobre Minnie não tinha nenhum dos encantos de um macaco doente. Ela era apenas uma

mulherona saudável e jovem, de vinte e nove anos, que devia estar casada e com filhos e não estava. Ela teria dado uma esposa muito boa, uma mãe admiravelmente solícita e cuidadosa.

Mas aconteceu que nenhum dos homens que ela conhecera quis casar com ela. E por que

deveriam? Quando ela entrava em uma sala, a luz parecia diminuir sensivelmente e a tensão

elétrica afrouxava. Ela não trazia vida alguma consigo; absorvia a que havia, era como um mata-

borrão. Não era de admirar que ninguém quisesse casar com ela. Embora fosse isto o essencial.

Particularmente porque ela estava sempre se apaixonando. O essencial.

— John! — chamou de repente a sra. Glamber. — É verdade aquilo dos furões?

— Furões? — repetiu a voz do outro lado do corredor com uma irritação distante. — O

que é que é verdade sobre os furões?

— Que as fêmeas morrem se não cruzarem.

— Como é que vou saber?

— Você geralmente sabe tudo.

— Mas, minha querida, realmente... — A voz era queixosa, cheia de recriminação.

A sra. Glamber tapou a boca com a mão e só a retirou para mandar um beijo.

— Certo — disse depressa. — Está bem. Realmente. Desculpe. Não vou fazer isso de

novo. Realmente. — Mandou outro beijo em direção à porta.

— Mas furões... — repetiu a voz.

— Psiu, psiu.

— Por que furões?

— Querido, você tem que continuar seu trabalho — disse quase com dureza a sra.

Glamber.

Minnie veio tomar chá. Ela expôs o caso — a princípio hipoteticamente, como se fosse o

caso de uma terceira pessoa; depois, ganhando coragem, ela o colocou em termos pessoais. Era

seu próprio caso. Das profundezas de sua inocência tranquila e pagã, Helen Glamber

aconselhou-a sem meias palavras.

— Se você quer ir para a cama com o rapaz, vá para a cama com ele — disse. — A coisa em si não tem importância. Pelo menos não muita. Só é importante porque torna possível

confidências mais secretas, porque fortalece a afeição, faz o homem ficar mais dependente, de

certo modo. Além disso, é claro, é a coisa natural. Sou totalmente a favor da natureza, a não ser

quando se trata de pintar o rosto. Dizem que os furões...

Mas Minnie percebeu que ela não terminara a frase. Apavorada e fascinada, chocada e no

entanto convencida, ela escutava.

— Meu querido, quem foi que inventou a religião, o pecado, tudo isso? — perguntou a sra.

Glamber naquela noite quando o marido voltou (pois ele não tinha sido capaz de enfrentar Minnie e saira para tomar o chá no clube). — E por quê?

John riu.

— Foi inventado por Adão, por várias pequenas razões transcendentais que você

provavelmente acharia difícil de apreciar — disse ele. — Mas também com o propósito muito

prático de manter Eva na linha.

— Bem, se você acha que complicar a vida das pessoas é mantê-las na linha, então acho

que concordo. — A sra. Glamber sacudiu a cabeça. — Acho tudo muito obscuro. Aos dezesseis

anos, sim. Mas aos vinte anos uma pessoa já devia ter ultrapassado isso. E aos trinta... ela tem quase trinta, você sabe... ora, realmente...

Finalmente, Minnie escreveu para Hubert dizendo que tinha se decidido. Hubert estava em

Hertfordshire com seu amigo Wat- chett. Era uma casa grande, a comida era boa, ficava-se

muito confortável; e o velho sr. Watchett, além disso, tinha uma biblioteca bem completa. À

sombra impenetrável das sequoias, Hubert e Ted Watchett jogavam críquete e discutiam os

melhores métodos de cultivar o Eu. Concluíram que se podia fazer muita coisa com a arte —

livros, você sabe, pintura e música.

— Ouça o Sacre de Stravinsky e está para sempre dispensado de ir ao Tibete ou à Costa do Ouro ou a qualquer desses lugares horrorosos — declarou Ted Watchett. — E Dostoiévski

substitui o assassinato, assim como D. H. Lawrence é sucedâneo do sexo.

— Mesmo assim — contestou Hubert — é preciso certa quantidade de experiência não imaginária. — Ele falava sinceramente, abstratamente; mas a carta de Minnie estava em seu

bolso. — Gnosce teipsum. Não se pode realmente conhecer a si mesmo sem entrar em colisão

com os acontecimentos, não é?

No dia seguinte, a prima de Ted, Phoebe, chegou. Tinha cabelos vermelhos e pele leitosa, e

mais ou menos trabalhava em comédias musicais.

— Um pé dentro e um pé fora — ela explicou. — Os saltos. — E ali mesmo ela os

executou, em grand écart, no tapete da sala de estar. — É bem fácil — declarou, rindo, e tornou

a saltar com uma graciosidade fácil que arrebatava quem a via. Ted não gostava dela.

— Menina cansativa — disse. — E tão boba, também. Conscientemente boba, boba de

propósito, o que piora tudo.

Era verdade, ela gostava de se vangloriar da quantidade de champanhe que conseguia

entornar sem ficar de pileque, e do número de vezes que ultrapassara esse generoso limite e

ficara “cega para o mundo”. Gostava de falar de seus admiradores em termos que poderiam

fazer você supor que eram todos seus amantes. Mas então ela dava a justificativa de sua

vitalidade e seus brilhantes cabelos vermelhos.

“A vitalidade”, Hubert escreveu em seu diário (imaginava uma data distante, depois ou, preferivelmente, antes de sua morte, quando essas confissões e aforismos seriam publicados),

“a vitalidade pode fazer exigências ao mundo quase tão imperiosamente quanto a beleza. Às

vezes a beleza e a vitalidade encontram-se em uma só pessoa.”

Foi Hubert quem arranjou para que ficassem no moinho. Um de seus amigos uma vez

estivera lá com uma turma de leitura e achou o lugar confortável, retirado e admiravelmente

sossegado. Isto é, sossegado com o sossego peculiar aos moinhos. Pois o silêncio de lá não era

o silêncio de uma noite na montanha; era o silêncio feito de um trovão contínuo. Todos os dias

às nove horas da manhã a roda do moinho começava a girar, e seu fragor não parava o dia inteiro. Nos primeiros momentos o ruído era aterrorizante, quase insuportável. Então, pouco

tempo depois, a pessoa se acostumava a ele. O trovão tornava-se, por causa de sua própria

constância, um silêncio perfeito, maravilhosamente rico e profundo.

Atrás do moinho havia um pequeno jardim cercado em três lados pela casa, pelos anexos e

por um alto muro de tijolos, porém aberto no quarto lado em direção à água. Olhando por cima

do parapeito, Minnie observou-a em movimento. Era como uma serpente marrom com marcas

como flechas nas costas; e ela se arrastava, escorregava, deslizava para sempre. Ela se sentou

ali, à espera: seu trem, saindo de Londres, a levara logo depois do almoço; Hubert, atravessando o país desde a casa dos Watchett, não chegaria antes das seis. A água fluía sob os

olhos dela como o tempo, como o destino, correndo suave de encontro a um acontecimento

qualquer, novo e violento.

O barulho enorme que nesse jardim era silêncio envolveu-a. Conformada, sua mente

movia-se ali como se estivesse em seu elemento nativo. Do outro lado do parapeito vinham a

frieza e o cheiro vegetal da água. Mas quando virava em direção ao jardim ela respirava

imediatamente o perfume quente do sol batendo nas flores e amadurecendo as frutas. Ao sol da

tarde o mundo inteiro estava maduro. A velha casa vermelha ali estava, madura, como uma ameixa no chão; as paredes eram mais maduras do que os frutos das nectarinas, tão terna e

perfeitamente crucificadas em seus tijolos quentes. E aquele silêncio fecundo do trovão

incessante parecia, por assim dizer, o desabrochar de um dia que tinha chegado à refinada maturidade e agora pendia, redondo como um pêssego e cheio do suco da vida e da felicidade,

esperando ao sol a mordida de dentes ansiosos.

No coração desse mundo de fruta madura Minnie esperava. A água fluía em direção à roda:

suavemente, suavemente — depois caía, despedaçava-se na roda que girava. E o tempo

deslizava para diante, em silêncio rumo a um acontecimento que romperia a suavidade de sua

vida.

“Se você realmente quer ir para a cama com o rapaz, vá para a cama com ele.” Podia ouvir

a voz clara e aguda de Helen dizendo coisas impossíveis, brutais. Se qualquer outra pessoa as tivesse dito, ela teria saído correndo da sala. Mas na boca de Helen elas pareciam, de certa

forma, tão simples, inócuas e verdadeiras. E no entanto tudo o que as outras pessoas tinham dito

ou insinuado — em casa, na escola, entre as pessoas que ela costumava encontrar — parecia

igualmente verdadeiro.

Mas além disso, naturalmente, havia o amor. Hubert tinha escrito um soneto shakespeariano

que começava assim:

 

O amor santifica tudo onde ele verdadeiramente está,

Transforma a escória em ouro com um toque de seu dardo,

Faz da matéria a mente, casta a paixão mais extremada,

E constrói um templo no coração lascivo.

 

Ela achava o soneto lindo. E muito verdadeiro. Parecia lançar uma ponte entre Helen e as

outras pessoas. O amor, o verdadeiro amor, fazia toda a diferença. Justificava. O amor —

quanto, quanto ela amava!

O tempo passou e a luz ficou mais rica à medida que o sol declinava das alturas do céu. O

dia ficou cada vez mais deliciosamente maduro, inchado de uma doçura desconhecida. Sobre

sua face corada de sol, o silêncio trovejante da roda do moinho estendia o mais macio, o mais

aveludado dos brilhos. Minnie sentou-se no parapeito, esperando. Às vezes baixava os olhos para a água que deslizava, às vezes voltava-os para o jardim. O tempo fluía, mas ela agora não

tinha mais medo do acontecimento cabal que trovejava ali, no futuro. O dulçor maduro da tarde

parecia entrar em seu espírito, enchendo-o até a borda. Não havia mais espaço para dúvidas,

para antecipações medrosas ou remorsos. Ela estava feliz. Ternamente, com uma ternura que ela

não conseguiria exprimir em palavras, somente com o mais leve e suave dos beijos, com dedos

carinhosamente passados pelos cabelos despenteados, ela pensava em Hubert, no seu Hubert.

Hubert, Hubert... E de repente, espantosamente, ele estava ali parado a seu lado.

— Ah! — disse ela, e por um momento encarou-o com seus olhos redondos e castanhos, nos quais nada havia a não ser espanto. Então sua expressão modificou-se. — Hubert —

murmurou suavemente.

Hubert tomou-lhe a mão e tornou a largá-la; olhou para ela por um instante, depois deu-lhe

as costas. Inclinado sobre o parapeito, ele contemplou a água que corria; seu rosto não sorria.

Durante um longo tempo ambos ficaram em silêncio. Minnie continuou onde estava, sentada

imóvel, olhos fixos no rosto desviado do rapaz. Ela estava feliz, feliz, feliz. O longo dia

amadurecia e amadurecia, perfeição após perfeição.

— Minnie — disse o rapaz de súbito, alta e abruptamente, como se durante muito tempo

estivesse se decidindo a falar e por fim conseguisse pronunciar as palavras preparadas e

prontas. — Acho que me comportei muito mal com você. Nunca devia ter-lhe pedido para vir aqui. Eu errei. Desculpe.

— Mas eu vim porque quis! — exclamou Minnie.

Hubert olhou para ela de relance, depois desviou os olhos e continuou a dirigir-se a um

fantasma que flutuava, parecia, logo acima da face da água que deslizava.

— Foi pedir demais. Eu não devia ter feito isso. Para um homem é diferente. Mas para uma

mulher...

— Mas, estou lhe dizendo, eu queria.

— É demais.

— Não é nada, porque eu te amo — disse Minnie. E, inclinando-se para a frente, correu os

dedos pelos cabelos dele. Ah, a ternura que palavra nenhuma pode expressar! — Seu menino

bobo — sussurrou ela. — Você pensou que eu não o amava bastante para isso?

Hubert não ergueu os olhos. A água continuava deslizando sob seus olhos; os dedos de

Minnie brincavam com seus cabelos, percorriam carinhosamente sua nuca. Ele sentiu de repente

um verdadeiro ódio por essa mulher. Idiota! Por que ela não entendia uma insinuação? Ele não a

queria. E por que tinha chegado a imaginar que a queria? Durante toda a viagem de trem ele se

fizera essa pergunta. Por quê? Por quê? E a pergunta se fazia ainda mais urgente naquele momento em que, parado à porta do jardim, ele olhara através da macieira e a analisara, sem ser

observado, durante um longo minuto; analisara-a sentada ali no parapeito, voltando os olhos

marrons e vagos para a água, depois para o jardim, e sorrindo consigo mesma com uma

expressão que lhe parecia tão obtusa e vazia que ele quase podia imaginá-la uma imbecil.

E com Phoebe na véspera ele tinha parado na crista nua da chapada de greda. Como um

mar a seus pés estendia-se a planície, e acima do horizonte obscuro pairavam grandes nuvens.

Dedos de vento erguiam os cachos vermelhos dos cabelos dela. Ela estava como que a postos,

pronta para voar para o céu agitado. “Como eu gostaria de voar!”, disse. “Há algo especialmente atraente nos pilotos, sempre achei.” E correra morro abaixo.

Mas Minnie, com seus cabelos baços, suas bochechas vermelhas como maçãs, seu corpo

grande e lerdo, era como uma camponesa. Como foi que ele se convencera de que a queria? E o

que piorava muito, naturalmente, era que ela o adorava, para seu constrangimento e enfado,

como um cachorro carinhoso demais que insiste em rolar a nossos pés e lamber nossas mãos

quando o que queremos é sentar-nos calmamente e concentrar-nos em coisas sérias.

Hubert afastou-se, saindo do alcance da mão acariciante. Ergueu para ela por um momento

um par de olhos que se tinham tornado, por assim dizer, opacos de uma raiva fria; depois baixou-os novamente.

— O sacrifício é grande demais — disse, com uma voz que a ele próprio soava como se

fosse de outra pessoa. Achava muito difícil dizer esse tipo de coisa convincentemente. — Não

posso lhe pedir isso — continuou o ator. — Não quero.

— Mas não é um sacrifício — Minnie protestou. — É uma alegria, é a felicidade. Ah, você

não entende?

Hubert não respondeu. Imóvel, os cotovelos no parapeito, fixou os olhos na água. Minnie

olhou para ele, a princípio apenas perplexa; mas de repente ela foi presa de uma dúvida dolorosa e indefinível que aumentava dentro de si, à medida que o silêncio se prolongava, como

um horrível câncer do espírito, até ter devorado toda a sua felicidade, até não sobrar coisa

alguma em sua mente exceto dúvida e apreensão.

— Que foi? — ela perguntou finalmente. — Por que você está tão estranho? Que foi,

Hubert? Que foi?

Inclinando-se ansiosamente, colocou as mãos de cada lado do rosto dele e virou-o para

ela. Vazios e opacos de raiva estavam os olhos dele.

— Que foi? — repetiu ela. — Hubert, que foi?

Hubert desvencilhou-se.

— Não adianta — disse em voz densa. — Não adianta mesmo. Foi tudo um erro. Lamento.

Acho melhor eu ir embora. A carruagem ainda está aí fora.

E sem esperar que ela dissesse alguma coisa, sem explicar-se mais, voltou-se e afastou-se

rapidamente, quase correndo, em direção à casa. Bem, graças a Deus, disse a si mesmo, estava

fora disso. Não tinha agido muito bem, com elegância ou coragem; mas, de qualquer maneira,

estava fora. Pobre Minnie! Sentia pena dela; mas, afinal, que poderia fazer? Pobre Minnie!

Mesmo assim, sua vaidade ficava lisonjeada ao pensar que ela choraria por ele. E, de qualquer

maneira, assegurou à sua consciência, não era possível que ela fosse se importar demais. No

entanto, por outro lado, lembrou-lhe sua vaidade, ela o adorava realmente. Ah, ela

absolutamente o venerava...

A porta fechou-se atrás dele. Minnie estava novamente sozinha no jardim. Maduro, maduro

ele jazia ao sol do fim da tarde. Metade dele estava à sombra agora; mas o resto, à luz colorida

do crepúsculo, parecia ter chegado à perfeição definitiva e absoluta da maturidade.

Amadurecida com o silêncio trovejante, a fruta preferida de todos os tempos ali pendia,

deliciosamente doce, doce até o fim; pendia rubra e linda à margem da escuridão.

Minnie ficou sentada imóvel, perguntando-se o que tinha acontecido. Ele tinha ido embora,

tinha mesmo ido embora? A porta fechou-se atrás dele com uma pancada e, quase como se o

som fosse um sinal combinado, um homem saiu do moinho, foi até o dique e fechou a comporta. E de repente a roda ficou imóvel. Fez um silêncio apocalíptico; o silêncio da ausência de som

tomou o lugar desse outro silêncio que era o do som sem fim. Abismos abriam-se infinitos à sua

volta; ela estava sozinha. Do outro lado do abismo de ausência de som uma abelha atrasada

levava consigo seu zumbido fino; os pardais chilreavam, e do outro lado da água vinha o som de

vozes e risadas distantes. E, como se acordasse de um sono, Minnie ergueu os olhos e escutou,

temerosa, virando a cabeça de um lado para o outro.