Contos escolhidos
Chawdron
DE TRÁS DO TIMES ABERTO rompi o silêncio.
— Estou vendo que seu amigo Chawdron morreu.
— Morreu? — repetiu Tilney, meio incrédulo. — Chawdron morreu?
— De repente, de ataque do coração — continuei, lendo o obituário —, em sua residência
na praça St. James.
— É, o coração dele... — Ele falava em tom pensativo. — Quantos anos tinha? Sessenta?
— Cinquenta e nove. Não tinha noção de que o velho malandro era rico há muito tempo.
“... o extraordinário instinto para negócios, juntamente com uma teimosia e uma determinação tipicamente escocesas, que o elevaram, antes dos trinta e cinco anos, da obscuridade e relativa
pobreza ao cume da opulência.” Você não gostaria de poder escrever assim? Meu pai perdeu as
economias de um quarto de século em uma das companhias dele.
— Bem feito para ele, por economizar! — disse Tilney com uma fúria súbita. Surpreso,
olhei por cima de meu jornal. Em seu rosto nodoso e corado havia uma expressão de irritada
melancolia intratável. A notícia evidentemente o deprimira. Ademais, ele sempre estava de mau
humor no café da manhã. Meu pobre pai estava pagando. — Que tipo de geleia é essa perto de
você? — perguntou ferozmente.
— Morango.
— Então vou comer geleia de marmelo.
Passei-lhe a geleia de marmelo e, ignorando seu mau humor, continuei:
— Quando meu velho e, com ele naturalmente, a maioria dos outros investidores tinham
liquidado suas ações sem compensação alguma com um prejuízo de mais ou menos oitenta por
cento, Chawdron fez alguns truques de mágica e os preços então dispararam. Mas a essa altura
ele já era dono de praticamente toda a companhia.
— Estou sempre a favor dos malandros — disse Tilney. — Por princípio.
— Ah, eu também. Mesmo assim, lamento aquelas doze mil libras.
Tilney não disse nada. Voltei ao obituário.
— O que dizem sobre o escândalo da Companhia de Petróleo Nova Guiné? — perguntou
ele, depois de um silêncio.
— Muito pouco; e o toque é lindamente leve. “As conclusões da Comissão Real foram em
geral favoráveis, embora na época se comentasse que o sr. Chawdron agira um tanto
indelicadamente.” Tilney riu.
— “Indelicadamente” é bom. Gostaria de ganhar um milhão e quatrocentas mil pratas cada vez que fosse indelicado.
— Foi isso que ele ganhou com o negócio da Petróleo Nova Guiné?
— Foi o que ele me disse, e acho que não exagerou. Ele nunca mentia por prazer. Fora do
expediente de trabalho ele era incrivelmente honesto.
— Você deve tê-lo conhecido muito bem.
— Intimamente — disse Tilney, que, empurrando o.prato para longe, começava a encher o
cachimbo.
— Eu o invejo. Um espécime digno de coleção! Mas você não ficava um pouco entediado
de viver dentro do museu, por assim dizer, atrás das grades das jaulas? Ser íntimo de um
espécime desses deve ser difícil.
— Não, se ele é imensamente rico — Tilney respondeu. — Sabe, tenho um fraco por
conhaque Napoleon e charuto Coronas; o parasitismo tem suas recompensas. E se você for
hábil, não precisa haver muitas desvantagens. É possível ser um parasita de alma refinada, um
verme independente. Mas conhaque Napoleon e Coronas não eram, para mim, as únicas atrações
que Chawdron possuía. Tenho uma curiosidade científica e desinteressada pelos imensamente ricos. Um homem com uma renda de mais de cinquenta mil por ano é um ser fantástico e
improvável. Chawdron era especialmente interessante porque fizera todo o seu dinheiro — a
maior parte desonestamente; isso é que era fascinante. Era um escroque de grande alcance,
napoleônico. E, por Deus, ele parecia mesmo! Você o conhecia de vista?
Assenti com a cabeça.
— Como uma ilustração das teorias de Lombroso. Um tipo criminoso. Mas inteligente, não
brutalmente criminoso. Ele não era violento.
— Pensei que fosse parecido com um chimpanzé.
— Era mesmo — concordou Tilney. — Mas, afinal, um chimpanzé não tem aparência
brutal. O que nos impressiona no chimpanzé é sua aparência quase humana. Tão inteligente,
quase um homem. O rosto de Chawdron tinha essa mesma expressão. Mas com uma diferença. O
chimpanzé parece bonzinho e virtuoso e sem humor. Já a inteligência quase humana de
Chawdron era astuta e, debaixo daquela jovialidade efervescente, bastante implacável. Ah, uma
criatura estranha, interessante! Diverti-me muito estudando-o. Mas no final, é claro, ele
realmente me entediava. Me matava de tédio. Era tão horrivelmente ignorante. Não sabia as
coisas mais óbvias, era incapaz de compreender uma generalização. E nojentamente sem gosto, sem senso ou entendimento estético. Em termos artísticos e metafísicos, um cretino.
— Parece que o obituarista não é da sua opinião. — Voltei-me novamente para o Times. —
Onde está? Ah! “Perdeu-se um escritor notável quando Chawdron dedicou-se às finanças. Não
se perdeu inteiramente, no entanto; pois a brilhante Autobiografia, publicada em 1921,
permanece como uma lembrança de seus talentos como estilista e narrador.” Que é que você diz
disso? — perguntei, erguendo os olhos para Tilney.
Ele sorriu enigmaticamente.
— É a pura verdade.
— Confesso que nunca li o livro. É bom?
— É ótimo. — Abria um sorriso, incompreensivelmente zombeteiro.
— Você está brincando comigo?
— Não, ele é bom de verdade.
— Então ele não podia ser o cretino artístico que você descreveu.
— Não podia? — repetiu Tilney e, depois de uma pequena pausa, riu alto. — Mas ele era
mesmo um cretino — prosseguiu, numa onda de confidências que parecia derrubar as barreiras
de sua discrição —, e o livro era bom. Pela excelente razão de que ele não o escreveu. Eu o escrevi.
— Você? — Encarei-o, perguntando-me se ele estaria brincando. Mas seu rosto, depois da
rápida iluminação do riso, tinha ficado sério, quase sombrio. Um rosto curioso, refleti. Belo a seu modo, inteligente, atento, mas com algo um tanto sinistro, quase repulsivo. O encanto
superficial e o bom humor do sujeito pareciam cobrir uma dureza fundamental, uma falta de
sentimentos, até mesmo uma hostilidade. Uma vida boa demais, além disso, deixara suas marcas
em seu rosto. Trazia manchas vermelhas e uma dureza nodosa. As feições finas tornaram-se um
tanto grosseiras. Havia uma rudeza misturada com o refinamento nativo. Gostava de Tilney, ou
não? Nunca soube direito. E talvez a pergunta fosse irrelevante. Talvez Tilney fosse um
daqueles homens que não são feitos para ser apreciados ou odiados como homens — apenas
como executantes. Gostava da conversa dele; divertia-me, interessava-me, instruía-me com o que ele dizia. Perguntar-me se também gostava do que ele era, isso sem dúvida era irrelevante.
Tilney levantou-se e começou a caminhar de um lado para o outro do aposento, o cachimbo
entre os dentes, fumando.
— O pobre Chawdron está morto agora, de modo que não há motivo... — Deixou a frase
por terminar e ficou em silêncio durante alguns segundos. De pé junto à janela, olhava pelo
vidro borrado de chuva para os verdes e os cinzentos molhados da paisagem de Kent. — A
Inglaterra parece as verduras do jantar de uma pensão de Bloomsbury — disse devagar. —
Horrível! Por que moramos neste país horrível? Ugh! — Ele estremeceu e voltou-se. Houve outro silêncio. A porta abriu-se, e a moça entrou para tirar a mesa do café. Eu digo “a moça”,
mas esse termo impessoal e breve não é acurado. Não é acurado porque é totalmente
inadequado para descrever Hawtrey. O que entrou quando a porta se abriu foi a eficiência
personificada, foi um dragão implacável, foi uma feiura pétrea, foi um pilar da sociedade, foram
os Dez Mandamentos sobre pernas. Tilney, que não a conhecia, não compartilhava do meu terror
ao monstro doméstico. Alheio à intensa censura que eu sentia irradiar-se do seu silêncio (eram
mais de dez horas; os hábitos preguiçosos de Tilney tinham atrapalhado toda a sua rotina
matinal), ele continuou a andar de um lado para o outro, enquanto Hawtrey ocupava-se em volta da mesa. De repente ele riu.
— A Autobiografia de Chawdron foi o único dos meus livros que me rendeu algum
dinheiro — comentou Tilney. Eu escutava com apreensão, com medo de que ele dissesse alguma
coisa que pudesse chocar ou ofender o dragão. — Ele deixou para mim todos os direitos
autorais — continuou Tilney. — Fiz mais de três mil libras com a Autobiografia dele. Sem
mencionar as quinhentas que ele me deu para escrevê-la. (Seria delicado, perguntei-me, falar de
tanto dinheiro na frente de alguém tão incomparavelmente mais virtuoso que nós, e tão mais
pobre? Felizmente Tilney mudou de assunto.) Você devia ler o livro — disse. — Na verdade, sinto-me ofendido por você não tê-lo lido ainda. Toda aquela infância de classe média baixa em
Peebles — é realmente primoroso. (“Classe média baixa”; estremeci. O pai de Hawtrey fora
proprietário de uma loja; mas tinha tido seus infortúnios.) É o Clayhanger, L’Éducation
Sentimentale e David Copperfield juntos. Realmente esplêndido. E as primeiras aventuras no
mundo das finanças eram puro Balzac, magníficas. — Tornou a rir, dessa vez sem amargura,
divertidamente; estava ficando entusiasmado com o assunto. — Cheguei até a colocar um
solilóquio de Rastignac[49] no alto da cúpula de St. Paul, fiz com que ele sacudisse o punho à
cidade. Pobre Chawdron! Ele ficou fascinado. “Se ao menos eu tivesse sabido como a minha vida era interessante”, costumava me dizer. “Sabido disso enquanto a vida passava.” (Olhei
para Hawtrey para ver se ela estava achando ruins as referências a uma vida interessante. Mas
seu rosto estava fechado; ela trabalhava como se fosse surda.) “Você não teria gostado”, eu lhe disse. “Tem que deixar para os artistas a descoberta das coisas excitantes.” — Tornou a
silenciar. Hawtrey colocou a última colher na bandeja e encaminhou-se para a porta. Graças a
Deus! — Sim, o artista — continuou Tilney num tom que se tornara novamente melancólico. —
Eu realmente era um, sabe? (Hawtrey, que saía, deve ter ouvido essa confissão
comprometedora. Mas, refleti, ela sempre soubera que eu e meus amigos éramos uma turma
ruim.) Sou mesmo um artista — insistiu. — Qualis artifex! Mas pereo, pereo. De algum modo,
nunca fiz coisa alguma a não ser morrer, toda a minha vida. Morrer, morrer, morrer. Por
preguiça e porque sempre parecia haver muito tempo. Mas vou fazer quarenta e oito anos em junho. Quarenta e oito! Não há tempo. E a preguiça é um hábito. Assim como falar. É tão fácil
falar. E tão divertido. Pelo menos para si mesmo.
— Para as outras pessoas também — falei; e o elogio era sincero. Eu podia não ter certeza
de gostar ou não de Tilney. Mas apreciava genuinamente seu desempenho como orador. Às
vezes, talvez, esse desempenho era um pouco profissional demais. Mas, afinal, um artista tem de
ser profissional.
— É o que dá ser a maior parte irlandês — continuou Tilney. — Falar é o vício nacional.
Como fumar ópio com os chineses! (Hawtrey retornou silenciosamente para varrer as migalhas e dobrar a toalha.) Se você soubesse o número de obras-primas que permiti que se evaporasse
em mesas de jantar, fumando charutos e bebendo uísque! (Duas coisas que, eu sabia, o virtuoso
Pilar da Sociedade desaprovava.) Uma biblioteca inteira. Eu podia ter sido... o quê? Bem,
imagino que poderia ter sido um horrível velho chato — respondeu a si mesmo com uma
autozombaria forçada. — “As obras completas de Edmund Tilney, em trinta e oito volumes,
post octavo”. Ouso dizer que o mundo devia ser grato a mim por poupá-lo deles. Mesmo assim,
fico um pouco deprimido quando releio os números antigos da Thursday Review e leio aqueles
meus artigozinhos bobos. Parturiunt montes...[50]
— Mas os artigos são bons — protestei. Se eu fosse mais honesto, diria que às vezes eram
bons, quando ele se dava o trabalho de fazê-los bons. Às vezes, por outro lado...
— Merci, mon cher maître! — ele respondeu ironicamente. — Mas não são mais
duradouros do que o bronze,[51] você tem de admitir. Monumentos de polpa de madeira. É
deprimente ser um fracasso. Principalmente quando a culpa é nossa, quando deveríamos ter sido
qualquer outra coisa.
Resmunguei alguma coisa. Que havia a dizer? A não ser como conversador profissional,
Tilney tinha mesmo sido um fracasso. Tinha grande talento e era um jornalista literário que vez por outra escrevia um bom artigo. Tinha razão para sentir-se deprimido.
— E a coisa absurda, irônica, é que a única peça boa que já produzi é a autobiografia de
outra pessoa — continuou. — Nunca poderia provar minha autoria mesmo que eu quisesse. O
velho Chawdron teve o maior cuidado em destruir todas as provas do crime. As combinações
foram todas verbais. Nenhum documento de espécie alguma. E o manuscrito, o meu manuscrito,
ele comprou de mim. Foi incinerado.
Eu ri.
— Ele não se arriscou com você. — Graças a Deus! O dragão estava se preparando para sair definitivamente.
— Nem um pouco — concordou Tilney. — Queria ter certeza de usar sua coroa de louros.
Não haveria outro concorrente. E naquela época, naturalmente, eu não dava a mínima. Tinha ideias esnobes sobre a fama. A boa arte — e a Autobiografia de Chawdron era boa arte, um
romance de primeira classe — a boa arte é sua própria recompensa. (O comentário que
Hawtrey fez a isso foi bater a porta ao sair.) Conhece o estilo da coisa? E nesse caso ela foi
mais que sua própria recompensa. Havia dinheiro nisso. Quinhentas libras na hora e todos os
direitos autorais. E eu estava horrivelmente sem dinheiro no momento. Não fosse por isso,
jamais teria escrito o livro. Talvez essa tenha sido uma de minhas desvantagens — uma pequena
renda independente e gostos não muito extravagantes. Aconteceu que, na época em que
Chawdron fez sua oferta, eu estava apaixonado por uma jovem muito cara. Não se pode sair para dançar e beber champanhe com quinhentas libras por ano. O cheque de Chawdron chegou
bem na hora. E lá estava eu, comprometido a escrever as memórias dele. Um tédio, é claro. Mas
por sorte a jovem me despachou logo a seguir; assim, eu tinha tempo para gastar. E Chawdron
era um feitor implacável. Além disso, eu realmente passei a gostar da coisa, depois que
comecei. Era mesmo sua própria recompensa. Mas agora — agora que o livro foi escrito, o
dinheiro foi gasto e eu logo terei cinquenta anos, em vez de quarenta como tinha então, agora,
devo dizer, preferia ter pelo menos um bom livro a meu crédito. Gostaria de ser conhecido
como o autor daquele romance admirável, A autobiografia de Benjamin Chawdron, mas não serei. — Ele suspirou. – É Benjamin Chawdron, e não Edmund Tilney, quem terá seu pequeno
nicho na história literária. Não que eu me importe muito com a história literária. Mas me
importo, tenho que confessar, com as antecipações atuais desse nicho. A reputação de salão, as
menções nos jornais, o respeito dos jovens, a curiosidade simpática das mulheres. Todos os
subprodutos de uma carreira literária de sucesso. Mas vendi-os para Chawdron. Por um bom
preço. Não posso me queixar. Mesmo assim eu ainda me queixo. Você tem algum fumo de
cachimbo? O meu acabou.
Entreguei-lhe minha bolsa de tabaco.
— Se eu tivesse a energia, ou estivesse desesperadamente sem dinheiro, o que, graças a
Deus mas também infelizmente, não é o caso no momento, poderia fazer outro livro a respeito de
Chawdron — continuou ele, enquanto enchia o cachimbo. — Outro livro, e melhor. Melhor —
ele começou a explicar, e interrompeu-se para chupar a labareda do fósforo que acendera —
porque... muito mais... malicioso. — Jogou o fósforo fora. — Não se pode escrever um bom
livro sem ser malicioso. Na Autobiografia transformei Chawdron num herói. Fui pago para
isso; além do mais, foi o próprio Chawdron quem me forneceu a documentação. Nesse outro
livro ele seria o vilão. Ou, em outras palavras, ele seria ele mesmo como as outras pessoas o viam, não como ele próprio se via. O que é, aliás, a única diferença válida que eu consegui
descobrir entre os virtuosos e os maus. Quando nós mesmos nos permitimos qualquer um dos
pecados mortais, estamos sempre absolvidos — eles nunca são mortais. Mas, quando se trata de
outra pessoa, a gente fica indignado com muita razão. O velho Rousseau teve a coragem de dizer
que ele era o homem mais virtuoso do mundo. O resto de nós só acredita nisso silenciosamente.
Mas, voltando a Chawdron, o que eu gostaria de fazer agora é escrever a biografia dele, não sua
autobiografia. E a biografia de um aspecto bem diferente dele. Não sobre o homem de ação, o
capitão de indústria, o Napoleão das finanças etc. Mas sobre o Chawdron doméstico, particular, sentimental.
— O Times diz alguma coisa sobre isso — falei; e, tornando a pegar o jornal, li: — “Sob
seus modos desconcertantemente bruscos e até mesmo ríspidos, o sr. Chawdron escondia a mais generosa das naturezas. Uma pessoa, ao conhecê-lo, muitas vezes ressentia-se de uma certa
aspereza superficial. Era apenas aos íntimos que ele revelava...” — Adivinhe o quê! — “um
coração de ouro.”
— Coração de ouro! — Tilney tirou o cachimbo da boca para rir.
— E estou vendo que ele tinha também “um profundo senso religioso”. — Larguei o jornal.
— Profundo? Não tinha fim!
— Extraordinário — refleti alto. — Todos eles têm coração de ouro e senso religioso.
Cada um deles, desde o ríspido velho cientista até o duro velho negociante e o carrancudo velho estadista.
— Corações de ouro — repetiu Tilney. — Mas o ouro é duro demais. Corações de barro,
corações de vaselina, corações de lavagem de porcos. Eis o que mais lhes parece. Corações de
lavagem de porco. Quanto mais duros, abruptos e carrancudos eles são por fora, mais moles são
por dentro. É uma lei da natureza. Nunca encontrei uma exceção. Chawdron era a encarnação
dessa regra. O que é precisamente o que quero mostrar nesse meu outro livro em potencial — o
implacável Napoleão das finanças pagando por sua implacabilidade, e seu napoleonismo
dissolvendo-se interiormente até virar lavagem de porcos. Pois foi o que aconteceu com ele: dissolveu-se e virou lavagem de porcos. Como em O estranho caso do sr. Valdemar, de Edgar
Allan Poe. Vi isso com meus próprios olhos. É um espetáculo apavorante. E ainda mais
apavorante quando percebemos que, a não ser pela graça de Deus, vamos para lá nós mesmos
— e ainda mais quando começamos a duvidar da graça de Deus, quando vemos que na verdade
vamos mesmo. Sim, você ou eu, meu rapaz. Pois não são só os velhos negociantes duros quem
têm coração de lavagem de porcos. São também, como você mesmo acabou de dizer, os velhos
cientistas ríspidos, os velhos eruditos rudes, os velhos almirantes intratáveis, os bispos e todos
os outros pilares da sociedade cristã. É todo o mundo, em uma palavra, que se fez duro demais na cabeça ou na couraça; todo o mundo que aspira a ser não humano — se anjo ou máquina não
faz diferença. A super-humanidade é tão ruim quanto a sub-humanidade, é a mesma coisa no fim.
O que mostra como devemos tomar cuidado, se somos intelectuais. Mesmo o tipo mais leve de
intelectual. Como eu, por exemplo. Não sou um de seus eruditos ascéticos genuínos. Deus me
livre! Mas sou decididamente intelectual, e sou literato; sou até mesmo o que os jornais chamam
de “pensador”. Sofro de uma paixão por ideias. Sempre sofri, desde garoto. Com que
resultados? Que nunca me senti atraído por mulher alguma que não fosse uma prostituta.
Eu ri. Mas Tilney ergueu a mão em um gesto de protesto.
— A coisa é séria — declarou. — Suas consequências podem ser terríveis, inclusive.
Nada além de prostitutas. Imagine!
— Estou imaginando — falei. — Mas onde entram os livros e as ideias? Post não é
necessariamente propter.[52]
— Nesse caso é propter mesmo. Graças aos livros e às ideias, nunca aprendi a lidar com
situações reais, com pessoas e coisas sólidas. Os relacionamentos pessoais — nunca consegui
lidar com eles direito. Só com ideias. Com ideias eu me sinto em casa. Com a ideia de
relacionamentos pessoais, por exemplo. As pessoas acham que sou um excelente psicólogo. E acho que sou mesmo. Como espectador. Mas sou um péssimo experimentador. Vivi a maior
parte de minha vida postumamente, se é que você me entende; em reflexões e conversas depois
de os fatos terem se consumado. Como se minha existência fosse um romance ou um livro didático de psicologia ou uma biografia, como quaisquer outros nas estantes das bibliotecas.
Uma situação horrível. Foi por isso que sempre gostei tanto de prostitutas, sempre fui grato a
elas; porque foram as únicas mulheres com quem consegui ter uma relação não póstuma,
contemporânea, concreta. As únicas. — Por um momento ele ficou fumando em silêncio.
— Mas por que as únicas? — perguntei.
— Por quê? — repetiu Tilney. — Não é bastante óbvio? Para o homem tímido, isto é, o
homem que não sabe como lidar com pessoas e situações reais, as prostitutas são as únicas
amantes possíveis, porque são as únicas mulheres que estão prontas a vir ao encontro dele, as únicas que vão tomar a iniciativa que ele não sabe tomar.
Assenti.
— Os homens tímidos têm razões para sentir atração pelas prostitutas; compreendo isso.
Mas por que as prostitutas sentiriam atração pelos homens tímidos? O que as leva a tomar a
iniciativa apropriada? É isso que não entendo.
— Ah, é claro que elas não tomam essa iniciativa a menos que o homem tímido seja
atraente — respondeu Tilney. — Mas no meu caso as prostitutas sempre se sentiram atraídas.
Sempre. E, para falar francamente, elas estavam certas. Eu era toleravelmente pitoresco, tinha o encanto profissional irlandês, sabia conversar, era várias centenas de vezes mais inteligente que
qualquer rapaz que elas poderiam conhecer. Além disso, imagino, minha timidez era uma
vantagem. Não parecia ser timidez. Ela se exteriorizava como uma espécie de impessoalidade e
distanciamento divinos — muitíssimo excitante para mulheres assim. Eu tinha, aos olhos delas,
os encantos do monte Everest ou do polo Norte — uma coisa difícil e inconquistada que fazia
surgir nelas o instinto de quebrar recordes. E ao mesmo tempo meu distanciamento tímido me
fazia parecer superior de alguma forma; e, como você sabe, poucos prazeres podem ser
comparados ao esporte de derrubar a superioridade e provar que ela não é melhor que nós. Meu ar de distanciamento desinteressado sempre teve um succès fou com as prostitutas. Elas todas
me adoram porque sou “diferente”. “Mas você é diferente, Edmund, você é diferente” —
cantarolou em falsete. — Essas prostitutas? Sob seus sentimentalismos, o único desejo delas,
naturalmente, era me reduzir o mais depressa possível à mais ignóbil falta de diferenças...
— E conseguiam? — perguntei.
— Ah, sempre. Naturalmente. Não é porque um homem é tímido e literato que não é um
porco di prim’ordine. Na verdade, quanto mais tímido e estudioso, mais probabilidades tem de
ser secretamente um suíno. Ou, se não um porco, pelo menos um asino, um oca, um vitello. É a regra, como eu já disse; a lei da natureza. Não há como escapar.
Eu ri.
— Eu me pergunto qual dos animais eu sou...
Tilney sacudiu a cabeça.
— Não sou zoólogo. Pelo menos quando estou falando com o espécime em discussão —
acrescentou. — Pergunte à sua própria consciência.
— E Chawdron? — Eu queria saber mais sobre Chawdron. — Ele grunhia, zurrava ou
mugia?
— Um pouco de cada. E se os rapinos fizessem algum ruído... Não, rapinos não. Pior que
isso. Chawdron era um caso extremo, e os casos extremos estão fora do reino animal.
— Que são, então? Vegetais?
— Não, não. Piores que vegetais. São espirituais. Anjos, é o que são: anjos apodrecidos. É
apenas nos primeiros estágios da degeneração que eles zurram e bodejam. Depois eles tocam
harpa e batem as asas. Asas de porco, é claro. São anjos em roupagens de porcos. Corações de
lavagem de porcos. Já lhe falei sobre Chawdron e Charlotte Salmon?
— A violoncelista?
Ele assentiu.
— Que mulher!
— E sua execução! Tão carregada, deprimida, escorregadia... — Eu procurava a descrição correta.
— Tão terrivelmente judia, em uma palavra — disse Tilney. — Aquele emocionalismo
nauseabundo, aquela espiritualidade digna de enjoo em alto-mar — puramente hebraico. Se ao
menos houvesse mais arianos no mundo da música! Meus olhos se enchem de lágrimas sempre
que vejo a besta loura ao piano. Mas isso não importa. Eu ia contar-lhe sobre Charlotte. Você a
conhece, naturalmente.
— E como!
— Bem, foi Charlotte quem primeiro me revelou o coração de lavagem de porcos do pobre Chawdron. O meu também, indiretamente. Foi uma noite na casa do velho Cryle. Chawdron
estava lá, e Charlotte, e eu, e não me lembro quem mais. Não sei como, éramos pessoas de
todos os mundos — do céu e do inferno. Cryle, como você sabe, tem um pé em cada. Ele acha
que sua missão é juntá-los. É o alcoviteiro entre Deus e Mammon. Nesse caso ele certamente
imaginou-se o responsável pelo casamento. Chawdron era mesmo Mammon; e embora você e eu
não ousássemos rotular Charlotte de Deus, tenho certeza de que o velho Cryle não tinha dúvida.
Afinal, ela toca violoncelo; é uma artista. Que mais queremos?
— Realmente!
— Devo dizer que admirei Charlotte nessa noite — continuou. — Ela sabia exatamente que
caminho tomar com Chaw- dron; isso era mais surpreendente ainda porque a mim ela nunca
convenceu. Comigo ela tenta bancar a sereia, bastante ousada e ao mesmo tempo extremamente
misteriosa. Seu truque é responder a meus comentários mais banais com algo absolutamente
incompreensível, mas obviamente muito significativo. Se eu lhe pergunto, por exemplo: “Você
vai à corrida de cavalos este ano?”, ela sorri um sorriso verdadeiramente etrusco e responde:
“Não, estou ocupada demais assistindo à corrida de barcos dentro do meu coração”. Bem,
obviamente é minha deixa para ficar mais do que intrigado. “Esfinge fascinante”, eu devia responder, “conte-me mais sobre sua corrida de barcos visceral”, ou algo assim. E quase com
certeza eu descobriria que estava remando no barco vencedor. Mas acho que não consigo fazer
o que esperam de mim. Digo apenas: “Que pena! Eu estou organizando um grupo para ir a
Epsom” — e me afasto depressa. Sem dúvida, se ela fosse menos desastrosamente semita sua
corrida de barcos me seria irresistível. Mas na realidade suas manobras não funcionam. Ela
ainda não conseguiu pensar em coisa melhor. Com Chawdron, no entanto, ela descobriu desde o
princípio a estratégia correta. Nada de sereia, nada de mistério com ele. O coração dele era
dourado e sujo demais para isso. Além do mais, ele tinha cinquenta anos. É a idade em que os clérigos começam a preocupar-se com as roupas de baixo das menininhas de escola nos trens, a
idade em que arqueólogos eminentes começam a ter um interesse de fato apaixonado pelo
escotismo. Sob a máscara criminosa de Chawdron, Charlotte descobriu o anjo suíno, o sentimental e simplório amante de crianças com um fraco pelo détournement de mineurs.
Charlotte é uma mulher prática: era preciso uma criança, ela tornou-se imediatamente uma
criança. E que criança! Nunca tinha visto coisa igual. Tanta tagarelice! Olhos grandes tão
inocentes! Uma risada tão alegre! Um modo tão maravilhosamente inteligente de dizer coisas
muito arriscadas sem saber (doce inocência) o que elas significam! Eu via e escutava —
estupefato. Horrorizado também. A performance era realmente apavorante. Deixai vir a mim...[53]
Mas quando a criancinha tem vinte e oito anos e é dura para a idade que tem — ah, não; dela é o
reino do inferno. Para mim, pelo menos. Mas Chawdron ficou encantado. Parecia mesmo imaginar que tinha se apossado de algo abaixo da idade de consentir. Olhei para ele com
espanto. Seria possível que ele estivesse sendo enganado? A representação era tão ruim,
incrivelmente pouco convincente. Sarah Bernhardt aos setenta representando L’Aiglon parecia
mais genuinamente uma criança do que nossa pequena e dura Charlotte. Mas Chawdron não via
isso. Aquele homem que vivia por sua astúcia, e não apenas vivia como fizera uma fortuna
enorme com ela — seria possível que o mais brilhante financista da época podia ser tão
fabulosamente estúpido? “A juventude é contagiosa”, declarou-me depois do jantar, quando as
mulheres se retiraram. E então — você devia ter visto o sorriso no rosto dele: beatífico, lubricamente terno — “Ela é uma gatinha feliz, não acha?”. Mas eu pensava era na Companhia
de Petróleo Nova Guiné. Como era possível? E então percebi de repente que não era apenas e
simplesmente possível; era absolutamente necessário. Apenas e por ser capaz de ganhar um
milhão e quatrocentas mil libras com o escândalo da Petróleo Nova Guiné, era inevitável que
confundisse uma pequenina tarântula feliz como Charlotte com uma gatinha feliz. Inevitável.
Assim como era inevitável que eu fosse abordado por todas as prostitutas que aparecessem no
meu caminho. Chawdron passara a vida pensando em petróleo, ações da bolsa e flutuações. Eu
passara a vida lendo o melhor que fora pensado e dito. Nenhum de nós tivera tempo ou energia para viver — viver completa e intensamente, como deve viver um ser humano, em todos os
níveis da existência. Assim ele era enganado pela pseudogatinha, ao passo que eu sucumbia à
prostituta genuína. E o que é pior, sucumbia com pleno conhecimento. Pois nunca fui realmente
enganado. Sempre soube que as prostitutas eram prostitutas e não camponesas puras. E agora sei
também por que elas me cativavam. Mas isso, naturalmente, não me impede de continuar sendo
cativado por elas. A experientia não o impede, apesar do papaizinho da sra. Micawber. Nem o
saber. — Fez uma pausa para acender o cachimbo.
— Então o que impede? — perguntei.
Tilney deu de ombros.
— Nada, uma vez que tenhamos saído dos trilhos instintivos normais.
— Às vezes me pergunto se esses trilhos realmente existem.
— Eu também, às vezes — confessou ele. — Mas acredito piamente.
— Rousseau e Shelley também acreditavam piamente. Mas alguém já viu um Homem
Natural? Esses Nobres Selvagens... Leia Malinóvski a respeito deles; leia Frazer; leia...
— Ah, eu li, eu li. E naturalmente o selvagem não é nobre. Os Primitivos são horríveis. Eu
sei. Mas o Homem Natural não é o Homem Primitivo. Não é a matéria-prima da humanidade; é o produto acabado. O Homem Natural é um artigo manufaturado. Não, manufaturado não; é mais
uma obra de arte. O que está errado com pessoas como Chawdron é que elas são obras de arte
muito ruins. Não são naturais porque não são artísticas. Ary Scheffer em lugar de Manet. Mas com essa diferença. Um Ary Scheffer é estatisticamente ruim; ele não piora com a passagem do
tempo. Ao passo que um ser humano não artístico degenera dinamicamente. Uma vez tendo
começado mal, ele se torna cada vez mais não artístico. É preciso um terremoto moral para
refrear o processo. Arremedos cheios de trivialidade, como a experiência e o conhecimento, de
nada adiantam. A experientia não ensina. Se ensinasse, nunca teria sucumbido como sucumbi,
nem teria tido problemas financeiros e, portanto, nem teria escrito a autobiografia de Chawdron,
nem teria tido a oportunidade de juntar o material íntimo e desabonador para a biografia que, oh
Deus, jamais escreverei. Não, não; a experiência não me salvou de mais uma vez ser vítima. E de um espécime tão ruinosamente raro. Não que ela fosse mercenária — colocou à guisa de
esclarecimento. — Estava muito bem de vida para precisar disso. Tão bem, no entanto, que o
simples custo de alimentá-la e diverti-la no estilo a que estava acostumada a ser alimentada e
divertida estava inteiramente além de minha capacidade. Claro que ela nunca percebeu isso.
Não se pode esperar que as pessoas que nascem com mais de cinco mil libras por ano
percebam. Ela teria ficado muito perturbada se tivesse percebido; pois tinha um coração de
ouro — como o resto de nós. — Riu melancolicamente. — Pobre Sybil! Imagino que você se
lembre dela.
O nome evocava para mim um fantasma de olhos e cabelos claríssimos.
— Que criatura espantosamente linda ela era!
— Era, era — repetiu — Fuit. Linda e fatal. Que agonias ela me fez sofrer! Mas era tão
fatal para si mesma quanto para os outros. Pobre Sybil! Tenho vontade de chorar quando penso
no inevitável caminho dela, em sua trajetória predestinada. — Com o dedo esticado ele traçou
no ar uma curva que subia e tornava a descer. — Ela tinha acabado de passar o pico quando a
conheci. A descida era horrivelmente íngreme. Que profundezas a esperavam! Aquele horrível
judeuzinho do East Side com quem ela se deu o trabalho de se casar! E, depois do judeu, o índio mexicano. E enquanto isso, um pouco de champanhe se tornara um bocado de champanhe, um
bocado de conhaque; e os momentos divertidos ocasionais tornaram-se incessantes, uma
necessidade, mas tão tediosa, uma rotina tão melancólica, tão terrivelmente cansativa... Passei
quatro anos sem vê-la depois de nossa briga definitiva; e então (você não tem ideia de como foi
doloroso) de repente encontrei-me apertando a mão de um momento mori. Tão gasta, doente e
cansada, tão terrivelmente velha. Velha aos trinta e quatro anos. E a última vez em que eu a vira
ela estava radiante. Dezoito meses depois estava morta; mas não antes que o índio tivesse dado
lugar a um chinês e o conhaque à cocaína. Era tudo inevitável, naturalmente, tudo perfeitamente previsível. Nêmesis funcionou com regularidade exemplar. O que só piorava as coisas. Nêmesis
está de bom tamanho para desconhecidos e conhecidos casuais. Mas para nós mesmos, para as
pessoas que apreciamos, ah, não! Para nós, o certo seria poder semear sem colher. Mas não
pode ser. Eu semeei livros e colhi Sybil. Sybil semeou a mim (para não mencionar os outros) e
colheu mexicanos, cocaína, morte. Inevitável, mas um ultraje, uma negação insultuosa da
diferença e da singularidade de cada um de nós. Ao passo que, quando pessoas como Chawdron
semeiam Petróleos Nova Guiné e colhem gatinhas Charlottes, ficamos deliciados; a precisão do
destino parece admirável.
— Não sabia que Charlotte fora colhida por Chawdron — interpus. — A colheita deve ter
sido feita com uma discrição extraordinária. Charlotte geralmente gosta tanto de publicidade,
mesmo nesses assuntos. Nunca imaginei que ela...
— Mas a colheita foi muito breve e parcial — Tilney explicou.
Aquilo me surpreendeu ainda mais.
— Charlotte, sempre tão decidida e grudenta! E com os milhões de Chawdron para
grudar...
— Ah, não foi por culpa dela que o caso não foi adiante. Ela tinha toda a intenção de ser
colhida e permanentemente armazenada. Mas tinha combinado passar dois meses na América em
uma turnê de concertos. Seria complicado quebrar o contrato; Chawdron parecia completamente
apaixonado; ademais, dois meses passam depressa. E, assim, ela foi. Cheia de confiança. Mas, quando voltou, contudo, Chawdron estava ocupado com outra coisa.
— Outra gatinha?
— Gatinha? A pobre Charlotte era uma velha tigresa de bigodes brancos, em comparação.
Ela chegou até a me procurar em desespero. Dessa vez sem sutilezas enigmáticas: esquecera-se
de que era a esfinge. “Acho que você devia avisar o sr. Chawdron sobre aquela mulher”, disse-
me. “Ele devia ficar sabendo que ela o está explorando. É ultrajante.” Ela estava cheia de
moralidade indignada. Não sem razão. Chegou até a ficar zangada comigo porque não quis fazer
coisa alguma. “Mas ele quer ser explorado”, falei. “É sua única alegria na vida.” O que era a mais absoluta verdade. Mas não resisti e fui um pouco malicioso. “Por que você quer estragar o
divertimento dele?”, perguntei. Ela ficou vermelha. “Porque acho nojento.” — Tilney fez sua
voz estrilar em revolta. — “Fico realmente chocada em ver o sr. Chawdron fazendo papel de
tolo.” Pobre Charlotte! Seus sentimentos eram elogiáveis. Mas de nada serviram. Chawdron
continuou fazendo papel de tolo, apesar da indignação moral dela. Charlotte teve que desistir. O
inimigo estava inexpugnavelmente entrincheirado.
— Mas quem era ela, o inimigo?
— A femme fatale menos provável que você já viu. Baixinha; feia; doentia — sim, genuinamente doentia, acho, embora fosse muito dada a fingir doença. Uma dama refinada
demais, você conhece o tipo. Uma governanta; não as governantas modernas e atléticas, mas tipo
Jane Eyre, frágil, filha de clérigo. Seu único mérito visível era ser jovem. Uns vinte e cinco
anos, acredito.
— Mas como eles se conheceram? Milionários e governantas...
— Por puro milagre — afirmou Tilney. — O próprio Chawdron detectou a mão da
Providência. Era o profundo senso religioso agindo. “Se minhas duas secretárias não tivessem
ficado doentes no mesmo dia”, declarou-me solenemente (e você não tem ideia de como ele ficava ridículo quando estava sendo solene: o falsário santo, o ladrão no púlpito), “se não fosse
por isso — e, afinal, é muito difícil duas secretárias ficarem doentes no mesmo momento; é
coisa do destino! Eu nunca teria conhecido minha pequena Fada.” E você tem que imaginar essa
última palavra pronunciada com um sorriso belo e reverente, indescritivelmente incongruente
naquela cara de bandido. “Minha pequena Fada (aliás, o nome dela era Maggie Spindell), minha
pequena Fada! — Tilney sorriu seraficamente e arregalou os olhos. — Você não pode imaginar
a expressão dele. São Carlos Borromeu no ato de arrombar a gaveta do dinheiro.
— Pintado por Carlo Dolci — sugeri.
— Com a ajuda de Rowlandson. Está começando a entender?
Assenti.
— Mas, e as secretárias? — Eu estava ansioso para ouvir a história.
— Elas tinham ordens de lidar sumariamente com todas as cartas com pedidos, todas as
comunicações de malucos, inventores, gênios incompreendidos e, finalmente, mulheres. O
trabalho era duro, posso lhe dizer. Você não faz ideia de como é a correspondência de um
homem rico. Fantástica. Bem, como eu dizia, a Providência derrubara as duas secretárias
particulares de Chawdron com uma gripe. Aconteceu que Chawdron não tinha coisa melhor a
fazer nessa manhã (novamente a Providência); de modo que começou a abrir sua própria
correspondência. A terceira carta que abriu era da Fada. A carta derrubou-o.
— O que havia nela?
Tilney deu de ombros.
— Ele nunca me mostrou. Mas pelo que entendi ela escreveu sobre Deus e o Universo em
geral e sua alma em particular, para não mencionar a alma dele próprio. Não tendo gosto e
sendo inteiramente sem educação, Chawdron ficou tremendamente impressionado por sua
trapalhada filosófica. Tocava-lhe o profundo sentimento religioso! Realmente, ele ficou tão
impressionado que escreveu imediatamente marcando um encontro com ela. Ela veio, viu e
venceu. “Providencial, meu caro rapaz, providencial.” E naturalmente ele tinha razão. Só que eu
teria mudado o nome da força para Nêmesis. A srta. Spindell foi o instrumento de Nêmesis; ela era a Até usando a fantasia que o modo de vida de Chawdron fizera com que achasse
irresistível. Ela era o fruto finalmente amadurecido da semeadura da Petróleos Nova Guiné ou
coisa semelhante.
— Mas, se seu relato está correto, o fruto era delicioso, ao menos para o gosto dele —
interrompi. — Ser explorado por gatinhas era sua única alegria; você mesmo disse isso.
Nêmesis o estava premiando por seus pecados, não castigando.
Tilney interrompeu sua caminhada de um lado para o outro do aposento, franziu a testa
pensativamente e, tirando o cachimbo da boca, esfregou a lateral do nariz com o bojo quente.
— É, isso é um ponto importante — disse devagar. — Já andei pensando vagamente nisso;
mas agora você colocou tudo às claras. Do ponto de vista do pecador, os castigos de Nêmesis
podem realmente parecer recompensas. É verdade, sim.
— Nesse caso, sua Nêmesis não tem muita utilidade como policial.
Ele ergueu a mão.
— Mas Nêmesis não é um policial. Nêmesis não é moral, pelo menos, é apenas
incidentalmente moral, mais ou menos por acidente. Nêmesis é algo como a lei da gravidade,
indiferente. Tudo o que faz é garantir que você colha o que semeou. E se você semeia o embrutecimento próprio, como Chawdron fazia com seu interesse excessivo em dinheiro, colhe
a humilhação grotesca. Mas como você já está reduzido a uma condição sub-humana por seus
pecados, então não vai perceber que a humilhação grotesca é uma humilhação. Aí está sua
explicação de por que Nêmesis às vezes parece ser uma recompensa. O que ela traz é uma
humilhação apenas no sentido absoluto, para o ser humano ideal e completo; ou, de qualquer
maneira, na prática, para o quase completo, o ser humano próximo ao ideal. Para o espécime
sub-humano ela pode parecer um triunfo, uma consumação, uma realização dos desejos do
coração. Mas você tem de se lembrar que esse coração que deseja é um coração de lavagem de porcos...
— Moral: “Viva sub-humanamente e Nêmesis pode trazer-lhe felicidade” — concluí.
— Exatamente. Mas que felicidade!
Dei de ombros.
— Mas, afinal, para o relativismo, um tipo de felicidade é tão bom quanto outro qualquer.
Você está tomando o ponto de vista de Deus.
— O ponto de vista dos gregos — ele corrigiu.
— Como quiser. Mas, de qualquer maneira, do ponto de vista de Chawdron a felicidade é
perfeita. Portanto devíamos ser como Chawdron.
Tilney assentiu.
— Sim, é preciso ser um pouco platônico para ver que os castigos são castigos. E naturalmente, se houvesse outra vida... Ou melhor ainda, metempsicose: há alguns insetos
incrivelmente nojentos... Mas, mesmo do ponto de vista meramente utilitário, o chawdronismo é
perigoso. Socialmente perigoso. Uma sociedade construída por e para homens não pode
funcionar se todos os seus componentes são emocionalmente sub-homens. Quando a maioria dos
corações virou lavagem de porcos, alguma coisa catastrófica tem de acontecer. De modo que
Nêmesis acaba sendo um policial, afinal. Espero que você esteja satisfeito.
— Perfeitamente.
— Você sempre teve um respeito muito desabonador pela lei, a ordem e a moral — reclamou.
— Elas têm que existir...
— Não sei por quê — ele interrompeu.
— Para que você e eu possamos ser imorais confortavelmente — expliquei. — A lei e a
ordem existem para tornar o mundo seguro para os individualistas desordeiros e sem lei.
— Para não mencionar os fora da lei, gente do submundo como Chawdron. De quem, aliás,
parece que nos afastamos. Onde é que eu estava?
— Você tinha chegado ao providencial encontro com a Fadinha.
— Sim, sim. Bem, como eu disse, ela veio, viu e venceu. Três dias depois estava instalada
na casa. Ele a tornou sua bibliotecária.
— E amante, imagino.
Tilney deu de ombros e estendeu as mãos em um gesto de dúvida.
— Ah, esta é a questão. Aí você está tocando no coração do mistério.
— Mas você não está querendo dizer que...
— Não estou querendo dizer coisa alguma, pela boa razão de que não sei. Só posso
imaginar.
— E que é que você imagina?
— Às vezes uma coisa, às vezes outra. A Fada era genuinamente enigmática. Sem o ar de
esfinge que Charlotte fabricava: um mistério real. Com a Fada qualquer coisa era possível.
— Mas certamente não com Chawdron. Nesses assuntos, ele não era... bem, humano
demais?
— Não, era sub-humano demais. O que é bem diferente. A Fada despertava nele toda a sua
espiritualidade e religiosidade sub-humanas. Enquanto com Charlotte assomava à superfície a
paixão não menos sub-humana pelo détournement de mineurs.
— Isso é por demais primitivo e esquemático para ser boa psicologia — objetei. — Os
estados emocionais não são tão definidos assim. Não há um compartimento para a
espiritualidade e outro, estanque, para o détournement de mineurs. Há sempre uma fusão, uma mistura.
— Você provavelmente tem razão — concordou Tilney. — E, de fato, uma de minhas
conjeturas era exatamente sobre essa fusão. Conhece o tipo de coisa: os discursos
insensivelmente dando lugar à ação amorosa — se bem que “ação” pareça uma palavra forte
demais para descrever o que tenho em mente. Alguma coisa suavemente senil e infantil.
Contatos positivamente espirituais. O amor dos anjos — tão angélico que, quando terminou, não
se podia ter certeza de ter havido ou não alguma interrupção na conversa mística. O que
justificaria a virtuosa indignação da Fada quando ouvia alguém aventurar-se a supor que ela era qualquer coisa além da bibliotecária de Chawdron. Quase conseguia acreditar honestamente que
não era. “Acho que as pessoas são horríveis”, ela costumava me dizer nessas ocasiões. “Acho
que são simplesmente nojentas. Será que não podem acreditar nem na possibilidade de pureza?”
Ela ficava furiosa, ofendida, magoada. E a emoção parecia absolutamente real. O que era uma
ocorrência tão rara na vida da Fada — ou pelo menos me parecia — que eu era forçado a crer
que havia um motivo genuíno.
— Não ficamos todos genuinamente zangados quando sabemos que nossos conhecidos
dizem de nós as mesmas coisas que dizemos deles?
— Claro; e quanto mais verdadeiro o mexerico, mais zangados ficamos. Mas a Fada ficava
zangada porque o mexerico era falso. Ela insistia nisso — e insistia tão genuinamente (era a
isso que eu estava querendo chegar) que me parecia impossível não crer que ela tivesse alguma
justificativa. Ou nada tinha acontecido, ou então tratava-se de algo tão suavemente angelical que
passara despercebido, evadia a observação aguda e, por isso, não contava.
— Mas, afinal, não é porque a aparência é honesta que se fala a verdade — protestei.
— Não. Mas você não conheceu a Fada. Ela quase nunca parecia honesta. Pouco havia do
que ela dizia que não me soasse de um modo ou de outro uma mentira deslavada. De modo que, quando ela parecia estar falando a verdade (e era incrível como isso acontecia raramente), eu
sempre ficava impressionado. Não podia deixar de pensar que devia haver uma razão. É por
isso que dou tanta importância ao modo realmente sincero como ela ficava zangada quando
lançavam dúvidas sobre a pureza de suas relações com Chawdron. Acredito que eram mesmo
puras, ou então, mais provavelmente, que a impureza era tão pequena, por assim dizer, que ela
podia honestamente considerá-la inexistente. Você teria a mesma impressão se a escutasse. A
veracidade da raiva, o protesto ultrajado eram pura obviedade. E de repente ela se lembrava de
que era cristã, praticamente uma santa; e começava a perdoar os inimigos. “Tenho pena deles”, dizia, “porque não sabem o que fazem. Gente miserável! Ignorantes de todos os sentimentos
mais elevados, de todos os relacionamentos mais belos.” Não posso lhe dizer como a palavra
“belo” soava pavorosa em sua boca! Realmente de fazer gelar o sangue. Ugh! — Ele
estremeceu. — Dava vontade de matá-la. Todo esse tom de sentimentos cristãos dava vontade
de matá-la. Quando ela perdoava as pobres pessoas desencaminhadas que não conseguiam ver o
“belo” em suas relações com Chawdron, eu ficava horrorizado, enjoado, arrepiado. Pois a coisa
toda era uma mentira, inteira e profundamente falsa. Depois da raiva genuína contra os
mexeriqueiros, a falsidade soava ainda mais falsa do que o normal. Óbvia, inconfundível, dolorosa — como um piano desafinado, como um cuco em junho. Chawdron era surdo a essa
falsidade, naturalmente; não conseguia ouvi-la. Se uma pessoa tem um profundo sentimento
religioso, imagino que não perceba essas coisas. “Acho que ela tem o mais belo caráter que já encontrei num ser humano”, costumava me dizer. (Novamente “belo”, percebe? Chawdron
aprendeu com ela. Mas na boca dele era apenas engraçado, não era assustador.) “O mais belo
caráter”... e então aquele sorriso beatífico. Grotesco! Era exatamente o mesmo com Charlotte;
ele a engoliu inteira. Charlotte fingia-se de gatinha feliz, e ele a aceitava como uma gatinha feliz.
A ambição da Fada era ser considerada uma santa gatinha cristã, crismada, comungante,
católica, canonizada — assim ele via sua gatinha. Incrível. Mas se alguém gasta toda a
inteligência e energia aprendendo sobre petróleo, não se pode esperar que saiba muita coisa
sobre o resto. Não se pode esperar que saiba a diferença entre tarântulas e gatinhas, por exemplo; nem a diferença entre Santa Catarina de Siena e uma mentirosazinha como Maggie
Spindell.
— Mas ela sabia que mentia? — perguntei. — Era conscientemente hipócrita?
Tilney repetiu seu gesto de incerteza.
— Chi lo sa? Esta é finalmente a pergunta irrespondível. Ela nos leva de volta aonde
estávamos agora mesmo com Chawdron: à fronteira entre biografia e autobiografia. Qual é mais
real: você como você mesmo se vê ou como os outros o veem? Você em suas intenções e seus
motivos ou você no produto de suas intenções? Você em suas ações ou você nos resultados de suas ações? E de qualquer maneira, quais são suas intenções e seus motivos? E quem é o “você”
que tem intenções? De modo que, quando você pergunta se a Fada era uma mentirosa e uma
hipócrita consciente, tenho de responder que não sei. Ninguém sabe. Nem mesmo a própria
Fada. Pois, afinal de contas, eram muitas as Fadas. Havia uma que queria ser alimentada e
cuidada e ter dinheiro e talvez casar-se um dia, se acontecesse de a esposa de Chawdron
morrer.
— Não sabia que ele tinha uma esposa — interrompi, espantado.
— Louca — Tilney explicou telegraficamente. — Passou os últimos vinte e cinco anos num sanatório. Eu também ficaria louco se fosse casado com Chawdron. Mas isso não impedia que a
Fada aspirasse a ser a segunda sra. Chawdron. Dinheiro é sempre dinheiro. Bem, havia essa
Fada — a aventureira, a espécie darwiniana lutando pela existência. Mas havia também uma
Fada que queria ser genuinamente cristã e santa. Uma Fada espiritual. E se a espiritualidade
rendesse com financistas cansados como Chawdron — bem, naturalmente, tant mieux.
— Mas, e a falsidade de que você falou, as mentiras, a hipocrisia?
— Mera ineficiência — respondeu Tilney. — Apenas uma representação malfeita. Pois, no
fim das contas, o que é a hipocrisia senão representar mal? Ela difere da santidade como um desempenho de Lucien Guitry difere de um desempenho de seu filho. Um é artisticamente bom e
o outro não é.
Eu ri.
— Você esquece que sou moralista; pelo menos você disse que eu era. Essas heresias
estéticas...
— Não são heresias; são reconhecimentos de fatos óbvios. Pois o que é a prática da
moralidade? E só fingir ser alguém que você por natureza não é. É representar o papel de santo,
ou de herói, ou de cidadão respeitável. Qual é o mais alto ideal ético da Cristandade? Ele está expresso na fórmula de Tomás de Kempis, A imitação de Cristo. De modo que as Igrejas
organizadas não são mais que enormes e complicadas Academias de Arte Dramática. E todas as
escolas são escolas de representar. Todas as famílias são famílias Crummles.[54] Todos os seres humanos são educados para pantomimeiros. Toda educação, à parte a educação meramente
intelectual, é apenas uma série de ensaios para o papel de Jesus, de Podsnap ou de Alexandre, o
Grande, ou quem quer que seja o favorito local. O homem virtuoso é aquele que aprendeu
completamente seu papel e o representa com competência e de maneira convincente. O santo e o
herói são grandes atores; são os Kembles[55] e Siddons[56] — pessoas com um grande talento para
representar personagens heroicos que elas não são; ou pessoas com a sorte de terem nascido tão
parecidas com o ideal heroico que podem começar direto com o papel, sem ensaiar. Os maus
são aqueles que ou não conseguem representar ou não querem aprender. Imagine um encarregado de mudar os cenários, ligeiramente bêbado, usando seu macacão e fumando um cachimbo; ele
entra no palco cambaleando, no meio da cena do julgamento em O mercador de Veneza, grita
com Pórcia, dá um chute nas costelas de Antônio, derruba alguns Magníficos e puxa a barba
postiça de Shylock. Ele é o criminoso. Quanto ao hipócrita — ele é o mesmo tipo de criminoso
que tudo interrompe, disfarçado de ator temporariamente ou segundo fins particulares (é
Tartufo); ou então (e acho que é o tipo mais comum) é apenas um mau ator. Por natureza, como o
resto de nós, ele é um criminoso que interrompe a cena; mas aceita os ensinamentos das
Academias de Arte Dramática locais e admite que o mais alto dever do homem é fazer o papel de astro para plateias embevecidas. Mas ele é inteiramente sem talento. Quando está pensando
em seu nobre papel, ele fala, declama e gesticula até fazer quem lhe assiste sentir-se
envergonhado — por si mesmo, por ele, pela espécie humana. “Julgo que a dama, ou o
cavalheiro, proteste demais” — eis o que se diz. E esses protestos parecem ainda mais
excessivos quando, poucos momentos depois, observa-se que quem protestava esqueceu-se
inteiramente de que estava representando um papel e está se comportando como o criminoso
perturbador que está em sua natureza ser. Mas ele mesmo é tão mau pantomineiro, tão
completamente sem talento para a representação convincente que não percebe suas próprias interrupções; ou, se percebe, é muito de leve e com a convicção de que ninguém mais vai notá-
las. Em outras palavras, a maioria dos hipócritas é de hipócritas mais ou menos inconscientes.
A Fada, tenho certeza, era um deles. Simplesmente não tinha consciência de ser uma aventureira
de olho nos milhões de Chawdron. Tinha consciência, isso sim, de seu papel — o papel de
Santa Catarina de Siena. Acreditava nele; tinha a ambição de ser uma artista de alta classe do
West End. Mas, infelizmente, não tinha talento. Representava seu papel com tão pouca
naturalidade, com tantos exageros grotescos que uma pessoa normalmente sensível só podia
estremecer diante de tão vergonhoso espetáculo. Era um desempenho capaz de convencer apenas os cegos e surdos espirituais. E, graças às suas preocupações com a Petróleos Nova
Guiné, Chawdron era cego e surdo espiritualmente falando. Seu profundo senso religioso era o
profundo senso religioso de um sub-homem. Quando ele exibia a gatinha canonizada, eu tinha
náuseas; mas Chawdron achava que ela tinha o caráter mais “belo” que ele já encontrara num
ser humano. E não apenas pensava que ela tinha o caráter mais belo; ele também pensava, o que
era quase mais engraçado, que ela tinha a mente refinada. Era a conversa metafísica dela que o
impressionava. Ela lera uns trechinhos de Spinoza e Platão e um livrinho qualquer sobre os
místicos do cristianismo e uma boa quantidade daquela frouxa literatura teosófica tão popular nos subúrbios e entre coronéis aposentados e senhoras de certa idade; de modo que podia falar
sobre o cosmo com muita profundidade. E, por Deus, como ela era profunda! Eu costumava às
vezes perder a paciência, tudo era uma bobagem tão grande, era tanta a ignorância... Mas Chawdron a escutava reverente, cheio de enlevo, admiração e fé. Acreditava em cada palavra.
Quando alguém é totalmente sem educação e amealhou fortunas mediante fraudes legais, essa
pessoa é capaz de acreditar na falácia da matéria, na não existência do mal, na unidade de toda
a diversidade e na espiritualidade de todas as coisas. Toda a sua vida ele conservou o
presbiterianismo da infância — e com muitíssimo fervor. E agora enxertava a chorumela da
Fada no Catecismo, ou no que quer que os presbiterianos aprendam na infância. Não via
incongruência alguma em ser tanto um bom presbiteriano quanto um consumado vigarista.
Representava o papel de presbiteriano apenas aos domingos e quando estava doente, nunca em horário de trabalho. A religião nunca tivera permissão para invadir a santidade de sua vida
particular. Mas com o avançar da meia-idade sua mente ficou mais frouxa, os efeitos de uma
vida mal usada começaram a se fazer sentir. E ao mesmo tempo seu afastamento dos negócios
eliminou quase todas as distrações não essenciais. Seu profundo senso religioso tinha mais
chance de expressar-se. Ele podia chafurdar tranquilo no sentimentalismo e na tolice. A Fada
fez sua aparição providencial e mostrou-lhe quais eram os montes de estrume emocionais e
intelectuais mais macios para ele chafurdar. Ele ficou grato — lealmente grato, mas não sem
perder o senso do ridículo. Nunca me esquecerei, por exemplo, da ocasião em que falou sobre o gênio da Fada. Estávamos jantando na casa dele, eu, ele e a Fada. Um jantar horrível, com a
Fada, mistura de Santa Catarina de Siena e Mahatma Gandhi, explicando por que era
vegetariana e asceta. Tinha aquele horrível complexo da classe média fina a respeito de comida
que faz com que os modos à mesa nas praças de alimentação das galerias sejam tão
grotescamente perfeitos — aquele medo de ser baixo ou vulgar que leva as pessoas a comerem
como se não estivessem comendo. Elas nunca botam comida na boca, e só mastigam com os
dentes da frente, como coelhos. E nunca tocam em coisa alguma com os dedos. Já vi uma mulher
comer cereja com garfo e faca em um lugar desses. Muitíssimo extraordinário e repulsivo. Bem, a Fada tinha esse complexo — é uma questão de classe — mas com ela era racionalizado em
termos de ahimsa e ascetismo cristão. Bem, ela tinha passado a noite inteira tagarelando sobre o
espírito do amor e sua incompatibilidade com uma dieta de carne, e a necessidade de mortificar
o corpo por causa da alma, e sobre Buda e São Francisco e os êxtases místicos e, acima de
tudo, sobre si mesma. Deixou-me quase louco de irritação, sem mencionar o fato de que ela
realmente começou a me fazer perder a fome com suas rapsódias de horror e nojo santos. Fiquei
grato quando finalmente ela nos deixou em paz com nosso conhaque e nossos charutos. Mas
Chawdron inclinou-se sobre a mesa em minha direção, brilhando espiritualmente em cada centímetro daquele seu rosto de falsário. “Ela não é maravilhosa?”, perguntou. “Não é
simplesmente ma-ra-vi-lho-sa?” “Maravilhosa”, concordei. E então, com muita solenidade,
sacudindo o dedo para mim, ele disse: “Conheci três grandes intelectos em minha vida, três
gênios — Lorde Northcliffe, o sr. John Morley e essa menininha. Esses três”. E recostou-se
novamente na cadeira assentindo para mim quase ferozmente, como se me desafiasse a negar.
— E você aceitou o desafio? — perguntei rindo.
Tilney sacudiu a cabeça.
— Apenas me servi de mais uma dose do seu conhaque de 1820; era a única resposta que um homem racional podia dar.
— E a Fada concordava com a opinião de Chawdron sobre sua mente?
— Ah, acho que sim — disse Tilney. — Acho que sim. Ela tinha um ótimo conceito de si mesma. Como todas essas pessoas espirituais. Um conceito injustificado. Representava muito
mal e sem consistência alguma o papel superior. Mas mesmo assim estava convencida de sua
superioridade. Era inevitável, pois tinha uma capacidade enorme de autossugestão. O que dizia
três vezes tornava-se verdade. Por exemplo, a princípio eu costumava achar que havia alguma
palavra mágica, um hocus-pocus, naquele ascetismo dela. Ela comia tão absurdamente pouco
em público e nas refeições que imaginei que ela devia ter algum momento de glutonice
escondida nos intervalos. Mas depois cheguei à conclusão de que tinha cometido uma injustiça
com ela. Por obra de dizer constantemente a si mesma e às outras pessoas que comer era grosseiro e pouco espiritual, para não dizer mal-educado e vulgar, ela realmente tinha
conseguido, acredito, fazer com que a comida lhe desse enjoo. Tinha chegado ao ponto de não
poder mesmo comer mais que um mínimo. O que era uma das causas de suas mazelas. Era
simplesmente subnutrida. Mas a subnutrição era apenas uma das causas. Ela era também
diplomaticamente doente. Ameaçava morrer como um estadista ameaça mobilizar, para
conseguir o que queria. Chantagem, na verdade. Não por dinheiro; de muitos modos ela era
curiosamente despojada. O que queria era o interesse dele, era poder sobre ele, era
autoafirmação. Tinha dores de cabeça pela mesma razão por que um bebê chora. Se cedemos ao bebê e fazemos o que ele quer, ele vai tornar a chorar, vai fazer do choro um hábito. Chawdron
era um desses pais do tipo fraco. Quando a Fada tinha uma de suas famosas dores de cabeça, ele
ficava terrivelmente perturbado. O modo como ele se alvoroçava pelo quarto com bolsas de
gelo e de água quente e água de colônia! O obituarista do Times teria chorado ao vê-lo; uma
exibição tão comovente do coração de ouro! O resultado foi que a Fada costumava ter uma dor
de cabeça a cada dois ou três dias. Era absolutamente intolerável.
— Mas eram puramente imaginárias essas dores de cabeça?
Tilney deu de ombros.
— Sim e não. Certamente havia uma base fisiológica. A mulher tinha mesmo dor de cabeça
de vez em quando. Era de esperar; estava fraca por não comer o suficiente; não fazia bastante
exercício, de modo que tinha prisão de ventre crônica; a prisão de ventre crônica provavelmente
provocou uma leve inflamação crônica nos ovários; e ela certamente sofria de algum problema
nos olhos — dava para perceber por aquele olhar belamente vago e espiritual característico da
miopia não corrigida. Havia, como se vê, muitas razões fisiológicas para as dores de cabeça. O
corpo lhe dava de presente, por assim dizer, uma dor. Sua mente então punha-se a trabalhar essa
matéria-prima. E que formas não surgiram! Tocadas por sua imaginação, as dores de cabeça tornavam-se místicas, transcendentais. Era o infinito num grão de areia, e a eternidade numa
estase intestinal. Regularmente todas as terças e sextas-feiras ela morria — morria com uma
linda resignação cristã, a coragem de um mártir. Chawdron costumava descer do quarto da
doente com lágrimas nos olhos. Nunca vira tanta paciência, tanta coragem, tanta garra. Poucos
homens havia que ela não suplantava. Era um exemplo maravilhoso. E assim por diante. E ouso
dizer que era tudo verdade. Ela começava fingindo um pouco, fingindo que as dores de cabeça
eram piores do que eram. Mas sua imaginação era demais para ela; fugia de seu controle. Seus
fingimentos gradualmente tornavam-se verdade, e ela realmente sofria um martírio todas as vezes; ela de fato chegava às raias da morte. E então surgiu o hábito do martírio, e as crises
tornaram-se corriqueiras; a imaginação estimulava as atividades normais dos ovários
inflamados e dos intestinos envenenados; a dor surgia e imediatamente tornava-se a matéria-prima de um martírio místico e espiritual tendo lugar num plano mais alto. De qualquer maneira,
era tudo muito complicado e obscuro. E, obviamente, se a própria Fada tivesse feito a você um
relato de sua vida naquela época, seria parecido com as reminiscências da vida de São
Lourenço sobre a grelha. Ou melhor, seria parecido com a produção insincera dessas
reminiscências. Pois a Fada, como já disse antes, não tinha talento, e a sinceridade e a santidade
são questões de talento. A hipocrisia e a falta de sinceridade são produtos de uma
incompetência nata. Aqueles que são culpados delas são as pessoas sem capacidade para as
artes do comportamento e da autoexpressão. A conversa da Fada teria soado para você inteiramente falsa. Mas para ela era tudo genuíno. Ela realmente sofria, realmente morria,
realmente era boa, resignada e corajosa. Assim como o paranoico é realmente Napoleão
Bonaparte, e o rapaz com dementia praecox está realmente sendo espionado e perseguido por
um bando de inimigos diabolicamente inteligentes. Se eu fosse contar a história do ponto de
vista dela, soaria realmente bela — não “bela”, por favor; mas genuína e verdadeiramente bela;
e pela simples razão de que eu tenho o dom da expressão, que a pobre Fada não tem. De modo
que, para todos, exceto os cretinos emocionais como Chawdron, ela era obviamente hipócrita e
mentirosa. E também um caso patológico. Conseguia fazer as coisas se tornarem muito verdadeiras. Não apenas doenças, martírio e santidade mas também fatos históricos, ou melhor,
não fatos históricos. Ela autenticava esses não fatos pela simples repetição de que eles tinham
acontecido. Por exemplo, ela queria que as pessoas acreditassem — e ela mesma queria
acreditar — que era íntima de Chawdron havia muitos anos, desde a infância, desde que
nascera. O fato de que ele a conhecia desde que ela era “daquele” tamanho explicaria e
justificaria seu atual relacionamento com ele. Os mexeriqueiros não teriam desculpa para falar.
Assim, ela se pôs a fabricar pedacinho por pedacinho uma intimidade de uma vida inteira, até
mesmo certo parentesco, com seu tio Benny. Eu lhe contei que era assim que ela o chamava, não contei? Esse apelido tinha sua importância; colocava-o imediatamente em sua tabela de
consanguinidade e então desinfetava suas relações, por assim dizer; automaticamente tornava-as
inocentes.
— Ou incestuosas — acrescentei.
— Ou incestuosas. Isso mesmo. Mas ela não pensava nos refinamentos d’Annunzianos.
Quando lhe dava esse nome, ela promovia Chawdron ao grau de um velho parente querido, ou
pelo menos um velho e querido amigo de família. Às vezes até o chamava de “titiozinho Benny”,
para mostrar que o conhecia desde o berço — e assim articulava os sons, pois assim eles se materializavam. Mas isso não era suficiente. A prova tinha de ser maior, mais circunstancial.
Assim ela inventava: brincadeiras com o titiozinho, visitas ao circo com ele, todo um
suprimento de lembranças infantis.
— Mas e quanto a Chawdron? — perguntei. — Ele participava das lembranças
inventadas?
Tilney assentiu.
— Mas para ele, naturalmente, elas eram mesmo inventadas. As outras pessoas, no entanto,
aceitavam-nas como fatos. As lembranças dela eram tão detalhadas que, a não ser que se soubesse que era mentirosa, simplesmente tinha-se que aceitá-las. Com o próprio Chawdron ela
não podia, é claro, fingir que o conhecia, literal e historicamente, todos aqueles anos. Não a
princípio, de qualquer maneira. A intimidade de uma vida inteira começou sendo figurativa e espiritual. “Sinto que conheço meu tio Benny desde criancinha”, disse-me na presença dele,
logo depois de tê-lo conhecido; e como sempre, nessas ocasiões, sua voz era mais infantil que
nunca. Era uma voz horrível — tão choramingas, tão falsamente doce... “Desde que eu era um
bebezinho pequetitinho. Você não sente isso, tio Benny?” E Chawdron concordava
calorosamente; claro que ele sentia isso. Desse dia em diante ela começou a discorrer sobre os
incidentes que deviam ter ocorrido naquela distante infância com o querido titiozinho. Eram os
mesmos incidentes, é claro, que ela rememorava quando conversava com outras pessoas e ele
não estava presente. Fez com que lhe desse velhas fotografias dele — imagens de colarinho alto e fraque, em estranhos paletós de Norfolk, de cartola, sentado em uma caleça. Ajudaram a fazer
reais suas invenções. Com a ajuda delas e a ajuda das reminiscências dele, construiu uma vida
inteira em comum com ele. “Você se lembra, tio Benny, daquela vez que fomos para Cowes no
seu iate e eu caí no mar?”, ela perguntava. E Chawdron, que entrara de cabeça no jogo,
respondia: “Claro que me lembro. E, quando a pescamos, tivemos que enrolá-la em cobertores
quentes e dar-lhe um rum aquecido com leite. E você ficou bêbada”. “Eu era engraçada quando
estava bêbada, tio Benny?” E Chawdron dava-se ao penoso trabalho de inventar algumas
gracinhas capengas que eram então incorporadas à história. De modo que em outra ocasião a Fada poderia começar: “Titiozinho Benny, você se lembra das coisas ridículas que eu disse
quando você me fez ficar bêbada com rum e leite quente naquela vez em que caí no mar em
Cowes?”. E assim por diante. Chawdron adorava esse jogo, achava-o simplesmente doce,
engraçado e comovente — de fato alguma coisa tirada de Barrie ou A. A. Milne, e nunca se
cansava de jogá-lo. Quanto à Fada — para ela não era um jogo. Os não fatos tinham sido
repetidos até se transformar em fatos. “Mas, convenhamos, srta. Spindell”, eu lhe disse certa
vez, quando ela me contava — me contava! — sobre uma aventura que tivera com o tio Benny
quando ela era pequenininha, “convenhamos, srta. Spindell” (eu sempre a chamava assim, embora ela ansiasse por ser minha Fada assim como de Chawdron, e me teria chamado de tio
Ted se eu lhe desse o menor encorajamento; mas permaneci firme; para mim ela era sempre a
srta. Spindell), “convenhamos”, disse, “a senhorita parece esquecer-se que faz pouco mais de
um ano que viu o sr. Chawdron pela primeira vez.” Ela olhou para mim sem expressão e sem
dizer coisa alguma. “Não pode seriamente esperar que eu também esqueça”, acrescentei. Pobre
Fada! A falta de expressão deu lugar a um embaraço triste, ruborizado. “Ah, é claro”, ela
começou, e riu nervosamente. “É como se eu o conhecesse desde sempre. Minha imaginação...”
A frase terminou em silêncio, e um minuto depois ela arranjou uma desculpa para sair. Eu percebia que ela estava perturbada, fisicamente perturbada, como se tivesse acordado depressa
demais de um sono profundo, jogada para fora de um mundo e caindo em outro que se movia em
direção diferente. Mas, quando a encontrei no dia seguinte, ela parecia novamente ela própria.
Tinha sugestionado a si mesma de volta ao mundo dos sonhos; da outra ponta da mesa, ao
almoço, ouvi-a conversar com um americano, conhecido de negócios de Chawdron, sobre os
momentos divertidos que ela e o tio Benny costumavam ter na casa dele numa charneca na
Escócia. Mas daí em diante, percebi, ela nunca mais conversou comigo sobre sua infância
apócrifa. Um incidente curioso: fazia com que eu visse sua hipocrisia sob outro prisma. Foi então que comecei a perceber que a mentira em sua alma era principalmente uma mentira
inconsciente, produto de patologia e falta de talento. Principalmente; pois às vezes, ao contrário,
a mentira era consciente e deliberada. A mais extraordinária foi a mentira no fundo do grande caso dos estigmas.
— Os estigmas? — repeti. — Uma mentira religiosa, então.
— Religiosa — ele assentiu. — Era assim que ela a justificava para si mesma. Embora,
naturalmente, a seus olhos todas as suas mentiras fossem religiosas. Religiosas porque serviam
a seus propósitos, e ela era uma santa; sua causa era sagrada. E depois, é claro, quando ela
tivesse tratado as mentiras pelo processo de desinfecção imaginativa, elas deixavam de ser
mentiras e esvoaçavam para longe como verdades religiosas brancas como a neve. O caso dos
estigmas deixou isso bem claro. Eu a peguei em flagrante. Tudo começou com um furúnculo que surgiu no pé de Chawdron.
— Lugar curioso para um furúnculo.
— Não é comum — concordou ele. — Eu mesmo já tive um quando era menino.
Desagradabilíssimo, eu lhe asseguro. Bem, a mesma coisa aconteceu com Chawdron. Ele e eu
estavámos em sua casa de campo, jogando golfe nos intervalos da confecção da Autobiografia.
Nós nos sentávamos com charutos e conhaque, e eu o interrogava de leve. Deixado por sua
própria conta, ele era capaz de divagar e tornar-se incoerente e sem cronologia. Eu tinha de
canalizar a narração, por assim dizer. Incrivelmente franco ele era. Aprendi coisas curiosas sobre o mundo dos negócios, posso lhe garantir. Não é necessário dizer que elas não estão na
Autobiografia. Eu as estou reservando para a Vida. O que significa que ninguém jamais vai
conhecê-las. Bem, como eu dizia, estávamos no campo para um fim de semana prolongado, de
sexta a terça. A Fada ficara em Londres. Periodicamente ela levava a sério seu emprego de
bibliotecária e protestava que simplesmente tinha de continuar seu catálogo. “Tenho minhas
obrigações”, disse quando Chawdron sugeriu que ela viesse conosco. “Você tem de me deixar
cumprir com minhas obrigações. Acho que não se deve ser apenas frívolo; não acha, tio Benny?
Além disso, realmente adoro meu trabalho.” Deus, como ela me enfurecia com aquela conversa mole! Mas Chawdron, naturalmente, ficou emocionado e encantado. “Que pessoazinha
extraordinária ela é!”, disse-me quando saímos juntos de casa. Ainda mais extraordinária do
que você imagina, pensei. Ele continuou com a rapsódia até Watford. Mas, de certo modo,
percebi quando chegamos, de certo modo ele estava bem satisfeito por ela não ter ido. Era para
ele um alívio ter umas breves férias masculinas. Ela tinha a esperteza de ver que ele precisava
dessas pausas de vez em quando. Bem, jogamos nosso golfe, com o resultado de que no domingo
de manhã o furúnculo do pobre Chawdron, que na sexta-feira era só uma manchinha
insignificante, tinha inchado com o exercício e a fricção até transformar-se num enorme hemisfério vermelho que fazia com que caminhar fosse um sofrimento. Desagradável, sem
dúvida; mas nada que, para uma pessoa comum, fosse motivo de preocupação séria. Chawdron,
no entanto, não era uma pessoa comum no que se referia a furúnculos. Ele tinha um complexo de
furúnculo, uma furunculofobia. Desculpável, talvez; parece que o irmão dele tinha morrido de
uma gangrena horrível que começara, aparentemente inócua, com uma espinha no rosto.
Chawdron não podia ter uma pinta sem imaginar que tinha pegado a doença do irmão. Esse caso
do pé deixou-o apavorado. Via o osso infectado, a perna inteira apodrecendo, amputações,
morte. Ofereci todo o consolo e encorajamento que pude e mandei buscar o médico local. Ele veio imediatamente e aconteceu de ser um rapaz muito decidido, eficiente e que inspirava
confiança. O furúnculo foi anestesiado, lancetado, limpo, coberto com um curativo. Ele
prometeu a Chawdron que não haveria complicações. E não houve. A coisa cicatrizou normalmente. Chawdron resolveu voltar para a cidade na terça-feira, como tinha sido
combinado. “Não gostaria de decepcionar a Fada”, explicou. “Ela ficaria tão triste se não
voltasse quando prometi. Além disso, pode ficar nervosa. Você não tem ideia da intuição que
aquela menininha tem. É quase sobrenatural, como a vidência. Ela ia adivinhar que alguma coisa
está errada e ia ficar preocupada; e você sabe como preocupar-se faz mal a ela.” Eu sabia
realmente; aquelas suas dores de cabeça místicas eram a maldição da minha vida. Não, não,
concordei. Ela não podia se preocupar. Assim, foi decidido que a Fada permaneceria na feliz
ignorância do furúnculo até Chawdron chegar. Mas surgiu a questão: como ele deveria chegar? Tínhamos ido para o campo no Bugatti de Chawdron. Ele tinha um fraco pela velocidade. Mas
não era carro para enfermo. Foi combinado que o motorista levaria o Bugatti para a cidade e
voltaria com o Rolls. No caso improvável de encontrar a srta. Spindell, ele não podia dizer-lhe
por que tinha sido mandado à cidade. Essas eram as suas ordens. O sujeito foi e voltou com o
Rolls. Chawdron foi instalado, quase como se estivesse numa ambulância, e viajamos
majestosamente para Londres. Que volta ao lar! Antevendo a solidariedade que receberia da
Fada, Chawdron começou a ter uma leve recaída à medida que nos aproximávamos de casa.
“Sinto o pé latejando”, assegurou-me; e quando saímos do carro, como ele mancava! Como se tivesse perdido uma perna em Gallipoli. Realmente heroico. O mordomo teve que ampará-lo até
a sala de estar. Ele foi colocado no sofá. “A srta. Spindell está em seu quarto?” O mordomo
achava que sim. “Então peça a ela para descer até aqui imediatamente.” O mordomo saiu;
Chawdron fechou os olhos — afetando fadiga, como um homem muito doente. Estava se
preparando para conseguir a solidariedade que pudesse e, é lógico, saboreando-a
voluptuosamente de antemão. “Ainda latejando?”, perguntei, um tanto irreverente. Ele assentiu
sem abrir os olhos. “Ainda latejando.” Seus modos eram graves, sepulcrais. Tive de me
esforçar para não rir. Houve um silêncio, nós esperamos. E então a porta abriu-se. A Fada apareceu. Mas uma Fada estropiada. Um pé calçando sapato de salto alto, o outro de chinelo. E
como mancava! “Outra perna perdida em Gallipoli”, pensei eu. Quando ouviu a porta abrir-se,
Chawdron fechou os olhos com mais força e virou o rosto para a parede, ou pelo menos para o
encosto do sofá. Eu percebi que isso constrangeu um pouco a Fada. Sua entrada tinha sido
dramática; ela queria que ele visse sua enfermidade imediatamente; não contava encontrá-lo
numa cena de leito de morte. Teve de improvisar apressadamente outro truque teatral, um novo
roteiro; a cena que tinha preparado não ia servir. O que era ainda mais constrangedor para ela,
porque eu estava lá, observando — um espectador muito exigente, ela sabia; nem um pouco fã de Maggie Spindell. Hesitou um segundo perto da porta, esperando que Chawdron virasse o
rosto; mas ele mantinha os olhos resolutamente fechados e o rosto escondido. Evidentemente
decidira representar o papel de moribundo com todas as suas forças. Assim, depois de um olhar
meio nervoso em minha direção, ela atravessou mancando a sala até o sofá. “Tio Benny!” Ele
levou um susto, como se não soubesse que ela estava ali. “É você, Fada?” Isso pianissimo, con
espressione. Então, molto agitato da parte da Fada: “Que foi, titiozinho? Que foi? Ah, conte-
me!”. Ela estava suficientemente perto agora para colocar a mão no ombro dele. “Conte-me.”
Ele voltou o rosto para ela — o ladrão ternamente transfigurado. Seu coração transbordava — “Fada!” — a lavagem de porcos. “Mas que foi que aconteceu, tio Benny?” “Nada, Fada.” Seu
tom insinuava que isso era uma heroica minimização, à maneira de Sir Philip Sidney. “Só o meu
pé.” “Seu pé!” A Fada demonstrou tamanho espanto que nós dois quase saltamos. “Alguma coisa errada com seu pé?” “Sim, por que não?” Chawdron estava meio irritado; não estava recebendo
o tipo de solidariedade que tinha esperado. Ela voltou-se para mim. “Mas quando aconteceu
isso, sr. Tilney?” Eu estava tranquilo. “Um furúnculo feio”, expliquei. “Andar pelo campo de
golfe não foi muito bom. Ele teve de ser lancetado no domingo.” “Mais ou menos às onze e meia
da manhã de domingo?” “Sim, acho que foi mais ou menos às onze e meia”, respondi, achando
estranha a pergunta. “Foi exatamente às onze e meia que isto aconteceu”, disse ela tragicamente,
apontando para seu pé calçado de chinelo. “‘Isto’ o quê?”, perguntou Chawdron, irritado. Estava
profundamente zangado por ter sido subtraído da solidariedade. Tive pena da Fada; as coisas pareciam estar correndo mal para ela. Percebi que ela tinha preparado um golpe que não tinha
dado certo. “Parece que a srta. Spindell também machucou o pé”, expliquei. “Você não viu
como ela mancava?” “Como foi que você se machucou?”, perguntou Chawdron. Ainda estava
mal-humorado. “Eu estava sentada tranquilamente na biblioteca, trabalhando no catálogo”,
começou; e eu adivinhei, pelo modo que as frases saíam, que ela estava finalmente podendo usar
o material que tinha preparado. “De repente, exatamente às onze e meia (eu me lembro de ter
consultado o relógio), senti uma dor horrível no pé. Como se alguém estivesse enfiando uma
faca muito afiada nele. Foi tão forte que quase desmaiei.” Ela fez uma pausa, esperando um comentário. Mas Chawdron não quis fazê-lo. De modo que coloquei um “Meu Deus, que
extraordinário!” com o qual ela teve que se contentar. “Quando me levantei, mal podia ficar de
pé, de tanto que o pé doía”, continuou. “E desde então estou mancando. E a coisa mais
extraordinária é que há uma marca vermelha no meu pé, como uma cicatriz.” Outra pausa cheia
de expectativa. Mas ainda nenhuma palavra de Chawdron. Ele ficou ali com a boca bem
fechada, e as rugas que separavam suas bochechas daquele enorme lábio superior de macaco
pareciam talhadas na pedra. A Fada olhou para ele e viu que ele tomara um caminho indesejado.
Seria tarde demais para remediar o erro? Colocou o novo plano de campanha em execução imediata. “Mas você, pobre titiozinho!”, começou, no tom que se usa com um cachorro doente.
“Como sou egoísta de falar sobre minhas dores, com você deitado aí com o pé todo enfaixado!”
O cão começou imediatamente a abanar o rabo. O olhar beatífico voltou a seu rosto. Ele pegou a
mão dela. Eu não ia conseguir suportar aquilo. “Acho melhor ir embora”, falei; e fui.
— Mas e o pé? — perguntei. — A dor perfurante exatamente às onze e meia?
— Boa pergunta. Como o próprio Chawdron comentou, quando o encontrei de novo, “Há
mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha tua filosofia”. — Tilney riu. — A Fada
tinha triunfado. Depois que ele teve sua dose de amor maternal, caridade cristã e simpatia felina, acho que estava pronto para ouvir a história dela. A dor perfurante às onze e meia, a
cicatriz vermelha. Estranho, misterioso, inexplicável. Ele discutiu isso tudo comigo, com muita
seriedade. Falamos sobre espiritualismo e telepatia. Separamos cuidadosamente as coisas
milagrosas e as paranormais. “Como você sabe”, disse-me, “a vida inteira fui um bom
presbiteriano, e como tal era inclinado a considerar como meras invenções todas as histórias
dos santos católicos. Nunca acreditei na história dos estigmas de São Francisco, por exemplo.
Mas agora acredito!” Uma pausa solene e tremenda. “Agora sei que é verdade.” Apenas baixei
a cabeça em silêncio. Mas quando voltei a encontrar M’Crae, o motorista, fiz-lhe algumas perguntas. Sim, ele tinha encontrado a srta. Spindell no dia em que levara o Bugatti para
Londres e voltara com o Rolls. Tinha ido até o escritório das secretárias para ver se havia
alguma carta para levar ao sr. Chawdron, e a srta. Spindell colidira com ele quando ele saía. Perguntou-lhe o que estava fazendo em Londres e ele não conseguiu pensar em algo para
responder, apesar das ordens do sr. Chawdron, a não ser a verdade. Desde então isso estava em
sua consciência; esperava não ter causado mal algum. “Pelo contrário”, assegurei, e também que
certamente eu não iria contar ao sr. Chawdron. E nunca contei. Achei... Mas meu Deus! —
interrompeu-se ele. — Que é isso? — Era Hawtrey, que entrara para arrumar a mesa para o
almoço. Ela nos ignorou deliberadamente. Era não apenas como se não existíssemos, mas
também como se não tivéssemos o direito de existir. Tilney pegou seu relógio. — Uma e vinte.
Deus do céu! Quer dizer que passei a manhã inteira falando, desde o café?
— Parece que sim — respondi.
Ele gemeu.
— Está vendo o que é ter o dom da tagarelice. Uma preciosa manhã inteiramente
desperdiçada.
— Para mim, não — declarei.
Ele deu de ombros.
— Talvez não. Para você a história era nova e curiosa. Mas para mim é conhecida,
passada.
— Mas também era para Shakespeare a história de Otelo, mesmo antes de começar a
escrevê-la.
— É, mas ele escrevia, não falava. Havia algo para mostrar em troca do tempo que ele
gastava. Seu Otelo não desapareceu no ar, como o meu pobre Chawdron.
Suspirou e silenciou. De rosto pétreo e sombrio, Hawtrey movimentava-se engomada e
levemente ruidosa em volta da mesa; houve um tilintar de aço e prata quando ela arrumou os
lugares. Esperei até ela sair do aposento antes de tornar a falar. Quando os empregados de
alguém são mais respeitáveis que esse alguém (e hoje em dia eles geralmente são), todo cuidado é pouco.
— E como terminou? — perguntei.
— Como terminou? — ele repetiu, a voz de repente vazia e sem expressão; estava cansado
da história, queria pensar em outra coisa. — Terminou, pelo que me dizia respeito, quando
terminei a Autobiografia e me cansei do assunto. Gradualmente desapareci da existência de
Chawdron. Como o Gato de Alice no País das Maravilhas.
— E a Fada?
— Desapareceu gradualmente da vida um ano depois do caso dos estigmas. Retirara-se demasiadas vezes para seu leito de morte místico. Seus fingimentos tornaram-se afinal
realidade; sempre existira esse risco. Ela por fim morreu.
A porta abriu-se; Hawtrey entrou, carregando uma travessa.
— E Chawdron, imagino, ficou inconsolável? — A inconsolabilidade é, felizmente, um
assunto respeitável.
Tilney assentiu.
— Voltou-se para o espiritualismo, é claro. Nêmesis mais uma vez.
Hawtrey levantou a tampa da travessa; um cheiro de solhas fritas escapou para o ar.
— O almoço está servido — anunciou ela, com o que me parecia uma censura e
desaprovação mal disfarçadas.
— O almoço está servido — repetiu Tilney, aproximando-se de seu lugar. Sentou-se e desdobrou o guardanapo.
— Uma refeição depois da outra, pontualidade, dia após dia, dia após dia. Que vida! Seria
bastante tolerável se alguma coisa fosse feita entre as refeições. Mas, em meu caso, nada é feito.
Refeição após refeição, e entre as refeições um vácuo, uma espécie de... — Hawtrey, que
passara os últimos segundos oferecendo-lhe o sauce tartare, deu-lhe uma discretíssima
cotovelada. Tilney voltou a cabeça. — Ah, obrigado — disse, servindo-se.