Contos escolhidos

Aldous Huxley · Capítulo 16 de 23

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Contos escolhidos

O jovem Arquimedes

 

FOI A VISTA QUE FINALMENTE nos fez ficar com a casa. É verdade que ela tinha suas desvantagens. Ficava

longe da cidade e não tinha telefone. O aluguel era exorbitantemente alto, o escoamento do

esgoto, ruim. Em noites de ventania, quando as vidraças mal colocadas batiam com tanta fúria

nos caixilhos que a pessoa podia imaginar-se num hotel-carruagem, a luz elétrica, por alguma

razão misteriosa, costumava invariavelmente acabar e deixar a pessoa na barulhenta escuridão.

Havia um banheiro esplêndido; mas a bomba elétrica, que deveria mandar a água das cisternas

de água pluvial do terraço, não funcionava. O poço de água secava religiosamente em todos os

outonos. E nossa senhoria era mentirosa e trapaceira.

Mas essas são as pequenas desvantagens de toda casa alugada, no mundo inteiro. Para os

padrões italianos este não chegava a ser o pior dos mundos. Já vi muitas casas que tinham esses

e mais centenas de outros problemas, sem possuir as vantagens compensadoras da nossa — o

jardim e o terraço virados para o sul, para o inverno e a primavera, os grandes aposentos

frescos contra o calor do verão, o ar arejado e sem mosquitos do alto da colina e, por fim, a

vista.

E que vista! Ou melhor, que sucessão de vistas! Pois era diferente todos os dias; e sem sair

da casa tinha-se a impressão de uma mudança incessante de cenário: todas as delícias de viajar, sem o cansaço. Havia dias de outono em que todos os vales estavam cheios de névoa e o sopé

dos Apeninos erguia-se escuro de um lago plano e branco. Havia dias em que a névoa invadia

até mesmo nosso alto da colina e ficávamos envoltos num vapor suave no qual as oliveiras cor

de neblina, que desciam abaixo de nossas janelas em direção ao vale, desapareciam como se

voltassem à sua essência espiritual; e as únicas coisas firmes e definidas no mundo pequeno e

escuro em que nos encontrávamos confinados eram os dois ciprestes altos e escuros que

cresciam num pequeno terraço trinta metros morro abaixo. Negros, agudos e sólidos, eles ali se

postavam, pilares gêmeos de Hércules na extremidade do universo conhecido; para além deles havia apenas uma nuvem pálida, e em volta deles apenas as nebulosas oliveiras.

Esses eram os dias de inverno. Mas havia os dias de primavera e de outono, dias

invariavelmente sem nuvens, ou — mais adorável ainda — tornados diferentes pelas imensas e

flutuantes formas de vapor que, brancas por cima das distantes montanhas cobertas de neve,

gradualmente revelavam, contra o pálido e reluzente azul, irregulares e heroicas posturas. E no

alto do céu os véus bojudos, os cisnes, os mármores aéreos, talhados e deixados inconclusos

pelos deuses cansados da criação quase antes de a terem começado, deslizavam adormecidos ao

longo do vento, mudando de forma enquanto se moviam. E o sol vinha e desaparecia atrás deles; e ora a cidade no vale desbotava e quase desaparecia na sombra, ora, como uma enorme joia

entre as colinas, ela brilhava como se por sua própria luz. E olhando por cima do vale tributário

mais próximo, que se estendia desde nosso sopé, descendo em direção ao Arno, olhando por

cima do ombro escuro da colina em cujo promontório externo ficava a igreja de San Miniato com suas torres, via-se a enorme cúpula pendendo levemente de suas costelas de alvenaria, o

campanário quadrado, a aguda flecha da torre da Santa Croce e o dossel da torre da Signoria,

erguendo-se acima do intrincado labirinto de casas, distintas e brilhantes como pequenos tesouros talhados em pedras preciosas. Sua luz, de repente, desaparecia, e o foco errante

escolhia, entre os montes azuis mais além, uma única escarpa dourada.

Havia dias em que o ar estava úmido da chuva que já tinha passado ou ainda se

aproximava, e todas as distâncias pareciam miraculosamente próximas e claras. As oliveiras

destacavam-se umas das outras nas encostas distantes; os povoados longínquos mostravam-se

lindos e patéticos como os mais refinados brinquedos. Havia dias de verão, dias de tempestade

iminente em que, brilhantes e iluminadas pelo sol contra enormes massas bojudas de preto e

púrpura, as colinas e as casas brancas cintilavam por assim dizer precariamente, num esplendor moribundo, à beira de alguma horrível calamidade.

Como mudavam e variavam as colinas! A cada dia e praticamente a cada hora do dia elas

se transformavam. Havia momentos em que, olhando através de Florença, via-se apenas uma

silhueta azul-escura contra o céu. A paisagem não tinha profundidade; havia apenas uma cortina

pendente, pintada com os símbolos das montanhas. E então, quase subitamente, com a passagem

de uma nuvem à descida do sol a um certo nível no céu, a paisagem plana tornava-se outra; e

onde antes só havia uma cortina pintada, surgiam então serras e serras, com graduações de tom

de marrom, ou cinzento, ou um ouro esverdeado até o azul distante. Formas que um momento antes estavam fundidas indiscriminadamente numa massa única agora decompunham-se em seus

constituintes. O Fiesole, antes tão somente um contraforte do monte Morello, então se revelava

promontório saliente de outro sistema de morros, separados dos bastiões mais próximos de seu

vizinho por um vale profundo e sombreado.

Ao meio-dia, durante o calor do verão, a paisagem fazia-se baça, poeirenta, vaga e quase

sem cor sob o sol a pino; as colinas desapareciam nas franjas trêmulas do céu. Mas, à medida

que a tarde seguia, a paisagem tornava a emergir, perdia seu anonimato, erguia-se do nada para

constituir-se forma e vida. E sua vida, quando o sol mergulhava lentamente através da longa tarde, ficava mais rica, mais intensa a cada momento. A luz horizontal, com as sombras escuras

e alongadas que a seguiam, deixava a nu, por assim dizer, a anatomia da terra; as colinas —

cada escarpa ocidental brilhando e cada encosta escondida do sol profundamente sombreada —

tornavam-se maciças, escarpadas e sólidas. Pequenas dobras e depressões no terreno

aparentemente regular revelavam-se. A leste de nosso morro, através da planície de Ema, um

penhasco enorme lançava sua sombra cada vez maior; à claridade do vale uma cidade inteira

ficava eclipsada dentro dela. E quando o sol expirava no horizonte, os morros distantes

enrubesciam em sua luz cálida, até que seus flancos iluminados ficavam da cor de rosas amareladas; mas os vales já estavam cheios da neblina azul da noite. E ela subia, subia; o fogo

retirava-se das janelas ocidentais das encostas povoadas; apenas as cristas ainda estavam

acesas, e finalmente elas também se extinguiam. As montanhas desbotavam e tornavam a fundir-

se numa pintura plana de montanhas contra o pálido céu noturno. Pouco depois era noite; e, se a

lua estava cheia, um fantasma do cenário morto ainda assombrava os horizontes.

Mutável em sua beleza, essa larga paisagem sempre preservou uma característica de

humanidade e domesticação que fazia dela, pelo menos para mim, a melhor das paisagens para

viver. Dia a dia a pessoa viajava através de suas belezas diferentes; mas a viagem, como a Grande Travessia de nossos ancestrais, era sempre uma viagem através da civilização. Apesar

de todas as suas montanhas, encostas íngremes e vales profundos, a paisagem toscana é

dominada por seus habitantes. Eles cultivaram cada pedaço de terra que pôde ser cultivado; suas casas estão densamente espalhadas até mesmo sobre os morros, e os vales são populosos.

Solitário no topo do morro, não se está sozinho no ermo. Os traços do homem estão sobre o

campo, e já — sente-se isso com satisfação quando se contempla o campo — por séculos, por

milhares de anos, tem sido dele, submisso, domado e humanizado. As vastas e vazias charnecas,

as areias, as florestas de árvores inumeráveis — esses são lugares para uma visita ocasional,

saudável ao espírito que se submete a eles por pouco tempo. Mas influências diabólicas assim

como divinas assombram estes eremitérios. A vida vegetativa de plantas e coisas é estranha e

hostil à vida humana. Os homens não podem viver em paz a não ser onde tiverem dominado seu ambiente e onde seu número supera as vidas vegetativas à sua volta. Despida de seus bosques

negros, plantada, cortada em terraços e cultivada quase até o topo das montanhas, a paisagem

toscana é humanizada e segura. Às vezes cai sobre aqueles que vivem no meio dela uma ânsia

por algum lugar que seja solitário, inumano, sem vida ou povoado apenas com formas de vida

exóticas. Mas a ânsia é logo satisfeita, e fica-se contente ao retornar à paisagem civilizada e

submissa.

Descobri que a casa no alto do morro era o lugar ideal de moradia. Pois ali, seguro no

meio de uma paisagem humanizada, estava-se não obstante sozinho; podia-se ficar solitário à vontade. Os vizinhos que nunca são vistos de perto são os vizinhos ideais e perfeitos.

Nossos vizinhos mais próximos, em termos de proximidade física, moravam muito perto.

Aliás, eram dois grupos, quase na mesma casa conosco. Um era a família de camponeses que

ocupava um prédio comprido e baixo, parte moradia, parte estábulo, depósito e estrebaria, junto

à villa. Nossos outros vizinhos — vizinhos intermitentes, pois só se aventuravam a sair da

cidade ocasionalmente, quando o tempo estava perfeito — eram os proprietários da villa, que

tinham reservado para si a ala menor da imensa casa em L — apenas uma dúzia de aposentos,

ou algo que o valesse — deixando para nós os dezoito ou vinte aposentos restantes.

Eram um casal curioso os nossos senhorios. Um marido velho, cinzento, apático, trôpego,

no mínimo setenta anos; e uma esposa de uns quarenta, baixa, bem gordinha, com mãozinhas e

pezinhos gordos e um par de olhos negros muito grandes, muito escuros, que ela usava com a

habilidade de uma comediante nata. Sua vitalidade, se pudesse ser canalizada para algum

trabalho útil, teria abastecido de energia elétrica uma cidade inteira. Os físicos falam de tirar

energia do átomo; eles teriam muito com que se ocupar, e de maneira bem mais proveitosa,

perto de suas casas — descobrindo algum meio de utilizar essa enorme quantidade de energia

vital que se acumula em mulheres desocupadas e de temperamento forte que, no atual e imperfeito estado da organização social e científica, dão vazão a si mesmas por meios

geralmente não pouco deploráveis: interferindo nos negócios dos outros, criando cenas

sentimentais, pensando em amor e fazendo-o ou incomodando os homens até que eles não

consigam continuar a trabalhar.

A signora Bondi gastava sua energia supérflua, entre outras maneiras, “liquidando” seus

inquilinos. O velho cavalheiro, comerciante aposentado com uma reputação da mais perfeita

honradez, não tinha permissão de tratar conosco. Quando viemos ver a casa, foi a mulher quem

nos mostrou tudo. Foi ela quem, com uma pródiga demonstração de encanto e um irresistível jogo de olhares, alongou-se nos méritos do lugar, cantou as maravilhas da bomba elétrica,

glorificou o banheiro (que, levado em consideração, tornava o aluguel incrivelmente barato,

segundo ela) e, quando sugerimos chamar um avaliador para examinar a casa, implorou-nos ansiosamente, como se nosso bem-estar fosse sua única preocupação, que não

desperdiçássemos nosso dinheiro fazendo algo tão supérfluo.

— Afinal, somos pessoas honestas — disse ela. — Eu não sonharia em alugar a casa para

vocês a não ser em perfeitas condições. Tenham confiança.

E ela olhava para mim com uma dolorida expressão de apelo em seus olhos magníficos,

como que me implorando a não insultá-la com minhas rudes suspeitas. E deixando-nos sem

tempo para estender o assunto de avaliadores, ela começou a nos assegurar que nosso menino

era o mais belo anjo que ela já vira. Quando nossa entrevista com a signora Bondi estava no final, tínhamos decidido definitivamente aceitar a casa.

— Mulher encantadora — falei, quando saímos da casa. Mas acho que Elizabeth não tinha

tanta certeza disso quanto eu.

Então teve início o episódio da bomba.

Na noite da nossa chegada na casa, ligamos a eletricidade. A bomba fez um ruído muito

profissional; mas não saiu água das torneiras do banheiro. Entreolhamo-nos com ar de dúvida.

— Mulher encantadora? — Elizabeth ergueu as sobrancelhas.

Pedimos encontros; mas de algum jeito o velho cavalheiro nunca podia nos receber, e a signora estava invariavelmente fora ou indisposta. Deixamos recados; nunca eram respondidos.

Por fim, achamos que o único método de nos comunicarmos com nossos senhorios, que

moravam na mesma casa que nós, era descer a Florença e mandar-lhes uma carta expressa

registrada. Para isso eles teriam que assinar dois recibos separados e até mesmo, se

resolvêssemos pagar mais quarenta cêntimos, um terceiro documento incriminador, que então

voltava para nós. Não poderia haver a mentira, como sempre havia com cartas ou bilhetes

comuns, de que a comunicação não fora recebida. Começamos finalmente a obter respostas a

nossas queixas. A signora, que escrevia todas as cartas, começou por nos dizer que, naturalmente, a bomba não funcionava pois as cisternas estavam vazias devido à longa estiagem.

Tive que caminhar cinco quilômetros até o correio para registrar minha carta lembrando-lhe que

caíra uma violenta tempestade na quarta-feira anterior, portanto, e que as cisternas estavam mais

que a metade cheias. A resposta voltou: a água de banho não era garantida pelo contrato; se eu a

queria, por que não mandara verificar a bomba antes de alugar a casa? Outra caminhada até a

cidade para perguntar à signora da porta ao lado se ela se lembrava de suas súplicas para que

tivéssemos confiança nela e para informar que a existência de um banheiro em uma casa era por

si mesma a garantia implícita de água para o banho. A resposta a isso foi que a signora não poderia continuar comunicando-se com pessoas que lhe escreviam tão rudemente. Depois disso

coloquei a questão nas mãos de um advogado. Dois meses depois a bomba foi trocada. Mas

tivemos que apresentar um mandado para que ela cedesse. E o custo foi considerável.

Um dia, já pelo final do episódio, encontrei o velho cavalheiro na estrada, levando o seu

cachorro — ou melhor, sendo levado a passear pelo cachorro, um enorme pastor maremano.

Pois aonde o cachorro o puxava, o velho forçosamente tinha que segui-lo. E quando ele parava

para farejar, ou arranhar o chão ou deixar seu cartão de visita ou um desafio ofensivo junto à

trave de algum portão, pacientemente, em sua ponta da coleira, o velho tinha que esperar. Passei por ele parado à beira da estrada, poucas centenas de metros abaixo de nossa casa. O cachorro

farejava as raízes de um dos ciprestes gêmeos que cresciam a cada lado da entrada de uma

fazenda; ouvi o animal rosnando consigo mesmo, indignado como se farejasse um insulto intolerável. O velho signor Bondi, atrelado ao cachorro, esperava. Os joelhos dentro das calças

cinzentas tubulares estavam ligeiramente dobrados. Inclinado sobre a bengala, ele contemplava

a paisagem triste e vagamente. O branco de seus velhos olhos estava descolorido, como se

fossem duas velhas bolas de bilhar. No rosto cinzento e profundamente enrugado, o nariz surgia

dispepticamente vermelho. O bigode branco, maltratado e amarelado nas pontas, pendia em uma

curva melancólica. Na gravata preta ele usava um diamante muito grande; talvez fosse isso que a

signora Bondi achava atraente nele.

Tirei o chapéu ao me aproximar. O velho encarou-me distraidamente, e só quando já tinha quase passado por ele foi que se lembrou de quem eu era.

— Espere! — gritou às minhas costas. — Espere! — E desceu apressadamente a estrada

em perseguição. O cachorro, tomado inteiramente de surpresa e em desvantagem (pois estava

ocupado em retribuir a afronta encontrada na raiz do cipreste), permitiu que fosse arrastado.

Espantado demais para fazer outra coisa senão obedecer, seguiu o dono. — Espere!

Esperei.

— Meu caro senhor — disse o velho cavalheiro, segurando-me pela lapela do casaco e

bafejando de modo desagradabilíssimo em meu rosto. — Quero pedir desculpas. — Olhou em volta, como se tivesse medo de ser ouvido até mesmo ali. — Quero pedir desculpas por aquela

bomba elétrica desgraçada — continuou. — Eu lhe asseguro que, se fosse só comigo, teria

mandado consertar imediatamente. O senhor tem razão: um banheiro é uma garantia implícita de

água para o banho. Desde o início vi que não teríamos chance se a coisa fosse à Justiça. Além

disso, acho que se deve tratar um inquilino o melhor possível. Mas minha esposa... — Ele

baixou a voz. — O fato é que ela gosta desse tipo de coisa, mesmo sabendo que está errada e

vai perder. Além disso, ela esperava, eu imagino, que o senhor ficasse cansado de pedir e

fizesse o trabalho o senhor mesmo. Eu disse a ela desde o início que devíamos ceder; mas ela não quis ouvir. Sabe, ela gosta disso. Mesmo assim, ela agora vê que tem que ser feito. Nos

próximos dois ou três dias o senhor terá sua água para banho. Mas achei que seria bom lhe dizer

como... — mas o cachorro, que a essa altura já tinha se recuperado da surpresa de um momento

antes, saltou de repente, rosnando, estrada acima. O velho cavalheiro tentou segurar o animal,

prendeu com firmeza a coleira, cambaleou e, então, desequilibrado, desistiu e deixou-se arrastar

— ... como lamento — continuou enquanto se afastava — que esse pequeno mal-entendido... —

mas não adiantava. — Até logo. — Sorriu educadamente, fez um pequeno gesto de impotência,

como se de repente tivesse recordado um compromisso importante e não tivesse tempo de explicar o que era. — Até logo. — Tirou o chapéu e abandonou-se completamente ao cão.

Uma semana mais tarde a água realmente começou a correr, e um dia depois do nosso

primeiro banho a signora Bondi, usando cetim cinza-claro e todas as suas pérolas, veio nos

visitar.

— Agora estamos em paz? — ela perguntou, com encantadora franqueza, quando

apertávamos as mãos.

Asseguramos que, quanto a nós, certamente estávamos.

— Mas por que o senhor me escreveu cartas tão horríveis e rudes? — perguntou, dirigindo a mim um olhar de censura que deveria levar o mais empedernido criminoso à contrição. — E

depois aquele mandado. Como pôde? Para uma dama...

Resmunguei algo sobre a bomba e nós querermos tomar banho.

— Mas como quer que eu o escute enquanto está com aquela raiva? Por que não fez tudo

diferente, educadamente, com elegância? — Ela sorriu e baixou as pálpebras trêmulas.

Achei melhor mudar de assunto. Quando a pessoa está certa, é desagradável parecer

errada.

Poucas semanas mais tarde recebemos uma carta — devidamente registrada e por

mensageiro expresso — na qual a signora nos perguntava se pretendíamos renovar o contrato

(que era só por seis meses) e notificava que, se o fizéssemos, o aluguel receberia um aumento

de vinte e cinco por cento, por causa das melhorias que tinham sido feitas. Achamos que tivemos sorte, depois de muita barganha, de conseguir renovar o contrato por um ano inteiro

com um aumento de só quinze por cento no aluguel.

Era sobretudo por causa da vista que aguentávamos essas extorsões intoleráveis. Mas

tínhamos descoberto outras razões, depois de alguns dias de resistência, para gostar da casa.

Dessas, a mais poderosa era que, no filho mais velho dos camponeses, descobrimos o que

parecia ser o perfeito companheiro de brincadeiras de nosso filho. Entre o pequeno Guido —

esse era o nome dele — e o mais jovem de seus irmãos havia um espaço de seis ou sete anos.

Seus dois irmãos maiores trabalhavam no campo com o pai; desde a morte da mãe, dois ou três anos antes de os conhecermos, a irmã mais velha tomava conta da casa, e a mais nova, que

acabara de sair da escola, ajudava e nos intervalos ficava de olho em Guido, que nessa época,

no entanto, já necessitava de poucos cuidados; pois entre os seis e sete anos ele era precoce,

seguro de si e responsável como geralmente são os filhos dos pobres, deixados por sua conta

desde que começam a andar.

Embora dois anos e meio mais velho do que o pequeno Robin — e nessa idade trinta meses

são cheios de experiência de uma meia vida —, Guido não se aproveitava indevidamente de sua

força e inteligência superiores. Nunca vi uma criança mais paciente, tolerante e nada tirana. Jamais ria dos esforços desajeitados de Robin para imitar suas próprias façanhas prodigiosas;

não implicava nem provocava, mas ajudava seu pequeno companheiro quando este estava em

dificuldades e explicava quando ele não conseguia entender. Por sua vez, Robin adorava-o,

considerava-o o modelo do perfeito Garotão e humildemente imitava-o em tudo o que podia.

Essas tentativas de Robin de imitar seu companheiro eram com frequência muitíssimo

cômicas. Pois, por uma obscura lei psicológica, palavras e atos em si mesmos muito sérios se

tornam cômicos assim que são copiados; e quanto mais acuradamente, caso a imitação seja uma

paródia deliberada, tanto mais engraçada — pois uma imitação exagerada de alguém que conhecemos não nos faz rir tanto quanto uma que seja quase indistinguível do original. A

imitação ruim só é cômica quando se trata de ato de lisonja sincera e esforçada que não dá

certo. As imitações de Robin eram na maioria dessa espécie. Suas tentativas heroicas e

fracassadas de executar as façanhas de força e habilidade que Guido podia fazer com facilidade

eram primorosamente engraçadas. E suas imitações cuidadosas dos hábitos e maneirismos de

Guido não eram menos divertidas. Mais cômico que tudo, porque levada a cabo com mais

seriedade, e mais estranho no imitador, era a imitação que Robin fazia de Guido pensativo.

Guido era uma criança pensativa, dada a devaneios e abstrações repentinas. Podia-se encontrá-lo sentado a um canto, queixo na mão, cotovelo no joelho, mergulhado, a julgar pelas

aparências, na mais profunda meditação. E às vezes, mesmo no meio da brincadeira, ele de

repente parava e se postava, mãos atrás das costas, testa franzida, olhando o chão. Quando isso acontecia, Robin ficava amedrontado e um pouco inquieto. Em espantado silêncio ele olhava

para o companheiro. “Guido”, dizia baixinho, “Guido.” Mas Guido geralmente estava

preocupado demais para responder; e Robin, não se aventurando a insistir, esgueirava-se para

perto dele e, colocando-se o mais possível na atitude de Guido — parado napoleonicamente,

mãos juntas atrás das costas, ou sentado na posição do Lourenço, o Magnífico, de Michelangelo

—, tentava meditar também. Mas no fim de um minuto ele começava a ficar impaciente; a

meditação não era seu forte. “Guido”, ele chamava de novo, mais alto, “Guido!”. E pegava-lhe a

mão e tentava puxá-lo. Às vezes Guido despertava de seu devaneio e voltava à brincadeira interrompida. Às vezes não ligava. Melancólico, perplexo, Robin tinha que ir brincar sozinho. E

Guido continuava sentado ou de pé, imóvel; e seus olhos, se alguém os observasse, eram lindos

em sua calma grave e pensativa.

Eram olhos grandes, separados e, o que era estranho em uma criança italiana de cabelos

escuros, de uma luminosa cor pálida azul-acinzentada. Não eram sempre graves e calmos, como

nesses momentos pensativos. Quando estava brincando, quando falava ou ria, eles se acendiam;

e a superfície desses dois claros lagos de pensamentos parecia, por assim dizer, ser sacudida e

transformar-se em brilhantes ondas de clarões de sol. Acima desses olhos a testa era bonita, alta, reta e abobadada em uma curva que era como a curva sutil de uma pétala de rosa. O nariz

era reto, o queixo pequeno e um tanto pontudo, a boca caía um pouco tristemente nos cantos.

Tenho um instantâneo das duas crianças sentadas juntas no parapeito do terraço. Guido está

sentado quase de frente para a câmera, mas olhando um pouco para o lado e para baixo; as mãos

estão cruzadas no colo e a expressão, a postura são pensativas, graves, absortas. É Guido num

daqueles momentos de abstração em que ele mergulhava mesmo no meio de uma risada ou

brincadeira — súbita e completamente, como se tivesse de repente decidido ir embora e tivesse

deixado o corpo silencioso e belo, como uma casa vazia, esperando sua volta. E a seu lado está sentado o pequeno Robin, voltando-se para olhar para ele, o rosto um pouco desviado da

câmera, mas a curva da face mostrando que ele está sorrindo; uma das mãozinhas, erguida, está

presa no alto de um gesto, a outra agarra a manga de Guido, como se insistisse para que ele

fosse brincar. E as pernas pendentes do parapeito foram vistas pela máquina piscante em meio a

um movimento impaciente; ele está prestes a escorregar para o chão e correr para brincar de

esconder no jardim. Todas as características essenciais de ambas as crianças estão nesse

pequeno instantâneo.

— Se Robin não fosse Robin, eu quase queria que ele fosse Guido — costumava dizer Elizabeth.

Mesmo naquela época em que eu não tinha interesse particular pela criança, concordei com

ela. Guido me parecia um dos garotinhos mais encantadores que eu já conhecera.

Não éramos os únicos a admirá-lo. A signora Bondi, quando vinha nos visitar nos

intervalos amigáveis entre nossas brigas, estava constantemente falando nele.

— Uma criança tão linda, tão linda! — ela exclamava com entusiasmo. — É realmente uma

pena que ele pertença a camponeses que não podem vesti-lo direito. Se ele fosse meu, eu o

vestiria de veludo preto; ou pequenos calções brancos e uma camisa de malha de seda com uma listra vermelha no colarinho e nos punhos; ou talvez uma roupa de marinheiro branca ficasse

bonita. E no inverno um pequeno casaco de pele, com um boné de pele de esquilo, e

possivelmente botas russas... — Sua imaginação estava descontrolada. — E deixaria os cabelos dele crescerem, como os de um pajem, e mandaria cachear só um pouquinho nas pontas. E uma

franja reta no meio da testa. Todos iam virar para olhar para nós se eu o levasse comigo à Vila

Tornabuoni.

O que você quer, eu gostaria de dizer a ela, não é uma criança; é um boneco de corda ou

um macaco amestrado. Mas não falei isso — em parte porque não conseguia lembrar do italiano

para boneco de corda e em parte porque não queria correr o risco de ter outro aumento de

quinze por cento no aluguel.

— Ah, se pelo menos eu tivesse um garotinho como esse! — Ela suspirou e modestamente baixou as pálpebras. — Adoro crianças. Às vezes penso em adotar uma; isto é, se meu marido

permitisse.

Pensei no coitado do velho cavalheiro sendo arrastado na esteira de seu maremano branco

e sorri interiormente.

— Mas não sei se ele permitiria — continuava a signora. — Não sei se ele permitiria. —

Ficou em silêncio por um momento, como se pensasse em uma ideia nova.

Poucos dias depois, quando estávamos sentados no jardim depois do almoço, bebendo

nosso café, o pai de Guido, em vez de passar com um cumprimento e o costumeiro e alegre bom-dia, parou à nossa frente e começou a falar. Era um belo homem, não muito alto, mas bem-

proporcionado, de movimentos rápidos e elásticos e cheio de vida. Tinha o rosto magro e

moreno, com feições como as de um romano e iluminado pelo par de olhos de aparência mais

inteligente que já vi. Seus olhos exibiam quase inteligência demais quando, como acontecia com

frequência, ele tentava, com a mais perfeita franqueza e inocência infantil, enganar alguém ou

conseguir alguma coisa de alguém. Nessas ocasiões, a inteligência reluzia malandramente,

deliciando-se de si mesma. O rosto podia ser esperto, impassível ou quase imbecil em sua

expressão; mas os olhos nessas ocasiões denunciavam-no por inteiro. Sabia-se, quando eles brilhavam assim, que era preciso ter cuidado.

Naquele dia, no entanto, não havia luzes perigosas neles. Ele não queria nada de nós, nada

de valor — apenas conselhos, que é um artigo, ele sabia, que muita gente está ansiosa por dar.

Mas ele queria conselhos sobre o que era, para nós, um assunto um tanto delicado: sobre a

signora Bondi. Carlo muitas vezes reclamara dela conosco. O velho é bom, ele nos disse, muito

bom e generoso. O que significava, ouso dizer, entre outras coisas, que ele podia ser enganado

com facilidade. Mas a esposa... Bem, aquela mulher era um animal. E então passou às histórias

de sua cupidez insaciável: ela estava sempre exigindo mais da metade da produção, que, pelas leis do sistema de meias, era direito do proprietário. Reclamou das suspeitas dela: estava

sempre acusando-o de ações erradas ou de roubo — ele, bateu no peito, a personificação da

honestidade. Reclamou da avareza míope: ela não queria gastar o suficiente com esterco, não

queria lhe comprar outra vaca, não queria instalar luz elétrica no estábulo. E fomos solidários,

mas com cautela, sem expressar uma opinião muito forte sobre o assunto. Os italianos são

maravilhosamente evasivos em sua fala; não soltam nada para seu interlocutor até terem certeza

de que é certo, necessário e, acima de tudo, seguro fazê-lo. Vivíamos entre eles havia tempo

suficiente para imitar sua cautela. Cedo ou tarde, o que havíamos dito a Carlo certamente voltaria à signora Bondi. Nada se ganharia com um desgaste desnecessário nas nossas relações

com a dama — apenas outros quinze por cento, muito provavelmente, seriam perdidos.

Nesse dia ele não estava exatamente reclamando, mas sim sentindo-se perplexo. A signora o mandara chamar, parecia, e lhe perguntara se ele gostaria que ela lhe fizesse uma oferta — era

tudo muito hipotético, com a cautela do estilo italiano — para adotar o pequeno Guido. O

primeiro instinto de Carlo fora dizer que não gostava da ideia. Mas uma resposta assim

implicaria algum nível de comprometimento. Preferiu dizer que pensaria a respeito. E agora nos

estava pedindo conselho.

Faça o que você achar melhor, foi o que realmente respondemos. Mas demos a entender,

fria porém claramente, que achávamos que a signora Bondi não seria uma madrasta muito boa

para a criança. E Carlo estava inclinado a concordar. Além disso, ele era muito apegado ao garoto.

— Mas o caso é que, se ela realmente resolver ter a criança, não há o que não faça para

conseguir — concluiu ele com tristeza.

Era claro para mim que ele também gostaria que os físicos usassem as mulheres

desocupadas e sem filhos e de temperamento forte antes de lidarem com o átomo. Mesmo assim,

refleti, observando-o afastar-se pelo terraço, cantando a plenos pulmões, ali há força, há vida

suficiente nesses membros elásticos, atrás desses olhos cinzentos brilhantes, para armar uma

boa briga, mesmo contra as energias vitais acumuladas da signora Bondi.

Poucos dias depois disso meu gramofone e duas ou três caixas de discos chegaram da

Inglaterra. Eram para nós um grande conforto no alto do morro, fornecendo a única coisa de que

aquela solidão espiritualmente fértil — doutro modo uma perfeita ilha para a família Robinson

suíça — não dispunha: música. Hoje em dia não há muita música para ouvir em Florença. Foi-

se a época em que o dr. Burney podia viajar pela Itália ouvindo uma sucessão infinda de novas

óperas, sinfonias, quartetos, cantatas. Acabaram-se os dias em que um músico erudito, inferior

apenas ao reverendo padre Martini de Bolonha, podia admirar o que os camponeses cantavam e

os músicos ambulantes dedilhavam e tocavam em seus instrumentos. Viajei semanas através da península e mal ouvi uma nota que não fosse Salomé ou a canção dos fascistas. Pobres em tudo

que faça a vida agradável ou mesmo suportável, as metrópoles do norte são ricas em música.

Talvez seja o único incentivo que um homem razoável pode encontrar para viver lá. As outras

atrações — a alegria organizada, o povo, a conversa, os prazeres sociais —, que são elas,

afinal, senão um dispêndio de espírito que nada compra? E o frio, a escuridão, a sujeira, a

umidade e a miséria... Não, onde não haja uma necessidade que nos detenha, a música pode ser

o único incentivo. E isso, graças ao engenhoso Edison, pode agora ser carregado numa caixa a

ser aberta em qualquer eremitério que tenhamos escolhido para visitar. Pode-se viver em Benin, ou Nuneaton, ou Tozeur no Saara, e mesmo assim escutar quartetos de Mozart e seleções do

Cravo bem temperado, a Quinta sinfonia e o Quinteto para clarinete de Brahms, ou motetos

de Palestrina.

Carlo, que descera à estação com a mula e a carroça para buscar o caixote, estava

muitíssimo interessado no aparelho.

— Vai-se ouvir música novamente — ele disse, observando-me desempacotar o gramofone

e os discos. — É difícil fazer muita coisa sozinho.

Mesmo assim, pensei, ele consegue fazer muito. Nas noites quentes costumávamos escutá-lo, sentado à porta de sua casa, tocando seu violão e cantando baixinho; o filho mais velho

aguçava a melodia no bandolim, e às vezes toda a família entrava, e a escuridão enchia-se com

seu canto apaixonado e rouco. Cantavam principalmente canções de Piedigrotta; e as vozes escorregavam macias de uma nota a outra, subiam preguiçosamente ou saltavam com súbitas

ênfases soluçantes de um tom para outro. À distância e sob as estrelas o efeito não era

desagradável.

— Antes da guerra — prosseguiu ele —, nos tempos normais — e Carlo tinha uma

esperança, até mesmo uma crença, de que os tempos normais estavam voltando e que a vida

logo seria tão fácil e barata quanto tinha sido nos dias antes do dilúvio —, eu costumava ir

ouvir as óperas no Politeama. Ah, eram magníficas. Mas agora custa cinco liras para entrar.

— Demais — concordei.

— Você tem o Trovatore? — ele perguntou.

Sacudi a cabeça.

— O Rigoletto?

— Infelizmente, não.

— A Bohème? Fanciulla del West? Pagliacci?

Tive que continuar a decepcioná-lo.

— Nem mesmo a Norma? Ou o Barbiere?

Coloquei Battistini em “Là Ci Darem”, de Don Giovanni. Ele concordou que o coro era bom, mas pude ver que ele não gostava muito da música. Por que não? Ele achou difícil

explicar.

— Não é como Pagliacci — disse afinal.

— Não é arrebatador? — opinei, usando uma palavra que eu tinha certeza que lhe era

familiar; pois ela ocorre em todo discurso político e em todo artigo patriota na Itália.

— Não é arrebatador — ele concordou.

E eu refleti que é precisamente pela diferença entre Pagliacci e Don Giovanni, entre o

arrebatador e o não arrebatador, que o gosto musical moderno é separado do antigo. A corrupção do melhor, refleti, é o pior. Beethoven ensinou a música a arrebatar com sua paixão

intelectual e espiritual. Ela continua arrebatando desde então, mas com a paixão de homens

inferiores. Indiretamente, pensei, Beethoven é responsável por Parsifal, Pagliacci e o “Poema

de fogo”; ainda mais indiretamente por Sansão e Dalila e pelo foxtrote “Ivy, Cling To Me”. As

melodias de Mozart podem ser brilhantes, memoráveis e contagiosas; mas não arrebatam, não

nos pegam entre o vento e a água, não lançam o ouvinte a êxtases eróticos.

Suspeito que Carlo e seus filhos mais velhos acharam o gramofone uma decepção. Eram

educados demais, no entanto, para dizê-lo; simplesmente deixaram, depois dos primeiros dias, de se interessar pela máquina e pela música que ela tocava. Preferiam o violão e seu próprio

canto.

Guido, por outro lado, ficou imensamente interessado. E ele gostava, não das alegres

canções de danças, a cujos ritmos agudos nosso pequeno Robin adorava sair marchando em

volta da sala fingindo ser um regimento inteiro de soldados, mas da coisa verdadeira. O

primeiro disco que ele ouviu, lembro-me, foi o do movimento lento do Concerto em ré menor

para dois violinos, de Bach. Foi o disco que coloquei assim que Carlo saiu. Ele me parecia,

por assim dizer, a peça de música mais musical com que poderia refrescar minha mente há muito sedenta — a mais fresca e clara das poções. O movimento estava no início e começava a

desdobrar suas belezas puras e melancólicas segundo as leis da lógica intelectual mais

exigentes, quando as duas crianças, Guido à frente e o pequeno Robin seguindo-o sem fôlego, entraram na sala vindos da loggia.

Guido estacou diante do gramofone e ali ficou, imóvel, ouvindo. Seus olhos claros azuis-

acinzentados arregalaram-se; fazendo um pequeno gesto nervoso que eu com frequência já

notara nele antes, ele beliscava o lábio inferior com o polegar e o indicador. Deve ter um

excelente fôlego, pois percebi que, depois de escutar por alguns segundos, ele expirou com

força e inspirou nova lufada de ar fresco. Por um instante olhou para mim — um olhar

interrogador, atônito, arrebatado —, deu uma risadinha que terminou numa espécie de

estremecimento nervoso e tornou a virar-se para a fonte de sons incríveis. Humildemente imitando seu camarada mais velho, Robin também tinha tomado seu lugar em frente ao

gramofone, na mesma posição exata, olhando de relance para Guido de vez em quando para se

certificar de que estava fazendo tudo certo, até mesmo beliscando o lábio. Mas depois de um

minuto ele ficou entediado.

— Soldados — disse, voltando-se para mim. — Eu quero soldados. Como em Londres. —

Ele se lembrava do ragtime e das alegres marchas em volta da sala.

Levei o dedo aos lábios.

— Depois — sussurrei.

Robin conseguiu permanecer em silêncio e imóvel por uns outros vinte segundos. Depois

agarrou Guido pelo braço, gritando:

— Vieni, Guido! Soldados. Soldati. Vieni giuocare soldati. Foi então que pela primeira

vez vi Guido impaciente.

— Vai! — exclamou ele com raiva, deu um tapa na mão de Robin que o agarrava e

empurrou-a bruscamente. E inclinou-se para mais perto do instrumento, como se para

compensar, ouvindo mais intensamente o que a interrupção o fizera perder.

Robin olhou para ele atônito. Uma coisa dessas nunca tinha acontecido antes. Então rompeu em choro e veio me pedir consolo.

Quando fizeram as pazes — e Guido estava sinceramente arrependido, era tão bonzinho

quanto sabia ser quando a música terminou e sua mente estava livre para pensar em Robin de

novo —, eu lhe perguntei se tinha gostado da música., Ele disse que tinha achado bonito. Mas

bello em italiano é uma palavra vaga demais, pronunciada com muita facilidade e frequência,

para significar muita coisa.

— De que você gostou mais? — insisti. Pois ele parecia ter gostado tanto que fiquei

curioso para descobrir o que realmente o impressionara.

Ele ficou em silêncio por um momento, franzindo a testa pensativamente.

— Bem, gostei do pedaço que era assim — disse afinal, e cantarolou uma longa frase. — E

havia aquela outra coisa cantando ao mesmo tempo. Mas que são essas coisas que cantam

assim?

— Chamam-se violinos — falei.

— Violinos. — Ele assentiu. — Bem, o outro violino faz assim. — Tornou a cantarolar. —

Por que a gente não consegue cantar os dois ao mesmo tempo? E o que há nesta caixa? Que é

que faz esse barulho? — A criança derramava suas perguntas.

Respondi-lhe o melhor que pude, mostrando-lhe as pequenas espirais no disco, a agulha, o

diafragma. Disse-lhe para lembrar como a corda do violão tremia quando alguém tangia; o som

é um estremecimento no ar, eu lhe disse, e tentei explicar como esses estremecimentos são impressos no disco preto. Guido ouviu-me com muita seriedade, assentindo de vez em quando.

Eu tinha a impressão de que ele entendia perfeitamente tudo o que eu estava dizendo.

A essa altura, no entanto, o pobre Robin estava tão horrivelmente entediado que por pena

dele tive que mandar as duas crianças saírem para brincar no jardim. Guido obedeceu; mas eu

podia ver que ele teria preferido ficar dentro de casa ouvindo mais música. Pouco mais tarde,

quando olhei para fora, ele estava escondido no recesso escuro do grande loureiro, rugindo

como um leão, e Robin rindo, mas um pouco nervoso, como se tivesse medo que o horrível

barulho pudesse possivelmente ser mesmo, afinal, o rugido de um leão de verdade, batia na moita com uma vara, gritando:

— Saia, saia! Quero atirar em você!

Depois do almoço, quando Robin subiu para dormir a sesta, ele reapareceu.

— Posso ouvir a música agora? — pediu.

E durante uma hora ficou sentado diante do instrumento, a cabeça ligeiramente caída para

um lado, escutando enquanto eu colocava disco após disco.

Daí em diante ele veio todas as tardes. Logo conhecia toda a minha discoteca, tinha suas

preferências e antipatias, e pedia o que queria cantarolando o tema principal.

— Não gosto desta — disse do Till Eulenspiegel, de Strauss. — É como quando cantamos

em casa. Não é exatamente igual. Mas mesmo assim é bem parecido. O senhor entende? — Ele

olhou para nós perplexo e suplicante, como se nos implorasse para entendermos o que ele

queria dizer e poupá-lo de continuar explicando. Assentimos. Guido continuou. — E o final

parece que não sai propriamente do começo. Não é como aquela que o senhor tocou na primeira

vez. — Ele cantarolou um ou dois compassos do movimento lento do Concerto em ré menor de

Bach.

— Não é como dizer: todos os meninos gostam de brincar. Guido é um menino. Portanto Guido gosta de brincar — sugeri. Ele franziu a testa.

— É, talvez seja isso — disse finalmente. — Aquela que o senhor tocou primeiro é mais

assim. Mas sabe — acrescentou, com um apego excessivo à verdade —, não gosto tanto de

brincar quanto Robin.

Wagner estava entre suas ojerizas; e também Debussy. Quando toquei o disco de um dos

Arabescos de Debussy, ele disse:

— Por que ele diz a mesma coisa muitas vezes seguidas? Deveria dizer alguma coisa nova,

ou continuar, ou fazer a coisa crescer. Será que ele não consegue pensar em alguma coisa diferente? — Mas censurava menos o Après-midi d’un faune. — As coisas têm vozes lindas —

comentou.

Mozart enchia-o de satisfação. O dueto de Don Giovanni, que seu pai tinha achado

insuficientemente arrebatador, encantou Guido. Mas ele preferia os quartetos e as peças de

orquestra.

— Gosto mais de música do que de canto — ele disse.

Refleti que a maioria das pessoas gosta mais de canto do que de música; são mais

interessadas no executante do que naquilo que ele executa e acham a orquestra impessoal menos emocionante do que o solista. O toque do pianista é um toque humano, e o dó agudo da soprano

é uma nota pessoal. É por causa do toque dele, dessa nota, que as plateias enchem as salas de

concertos.

Guido, no entanto, preferia a música. É verdade que ele gostava de “La ci Darem”; gostava

de “Deh Vieni alla Finestra”; achava “Che Soave Zefiretto” tão linda que quase todos os nossos

concertos tinham que começar com ela. Mas ele preferia as outras coisas. A abertura do Figaro

era uma de suas favoritas. Há uma passagem, não muito distante do início da peça, em que os

primeiros violinos de repente sobem como um foguete até as alturas da beleza; quando a música

se aproximava desse ponto, eu costumava ver um sorriso desenvolvendo-se e aos poucos

iluminando o rosto de Guido, e quando, pontualmente, a coisa acontecia, ele batia palmas e ria

alto de prazer.

Aconteceu que no outro lado do mesmo disco estava gravada a abertura Egmont, de

Beethoven. Ele gostava dela quase mais que do Fígaro.

— Tem mais vozes — explicou. E eu fiquei deliciado com a agudeza de sua crítica; pois é

precisamente na riqueza de sua orquestração que Egmont supera Fígaro.

Mas o que o perturbava mais que qualquer outra coisa era a abertura Coriolano. O terceiro

movimento da Quinta sinfonia, o segundo movimento da Sétima, o movimento lento do

Concerto Imperador — todas essas coisas estavam no páreo. Mas nenhuma o excitava tanto

quanto a Coriolano. Um dia ele me fez tocá-la três ou quatro vezes seguidas; depois guardou-a.

— Acho que não quero mais ouvir isso — disse.

— Por que não?

— É muito... muito... — hesitou. — Muito grande — disse finalmente. — Eu não a

compreendo de verdade. Toque aquela que faz assim. — Ele cantarolou uma frase do Concerto

em ré menor.

— Gosta mais desta? — perguntei.

Ele sacudiu a cabeça.

— Não é exatamente isso. Mas é mais fácil.

— Mais fácil? — Aquela palavra me parecia um tanto estranha, aplicada a Bach.

— Eu a compreendo melhor.

Certa tarde, quando estávamos no meio de nosso concerto, a signora Bondi surgiu.

Começou de imediato a ser exageradamente carinhosa com a criança: beijava-a, dava tapinhas

em sua cabeça, fazia os elogios mais disparatados de sua aparência. Guido afastou-se dela.

— E você gosta de música? — perguntou ela.

A criança assentiu.

— Acho que ele tem o dom — falei. — De qualquer maneira, tem um ouvido maravilhoso e um poder de escutar e criticar que nunca vi em uma criança da idade dele. Estamos pensando

em alugar um piano para ele aprender.

Um momento depois eu me amaldiçoava por minha franqueza indevida ao elogiar o garoto.

Pois a signora Bondi começou imediatamente a protestar que se pudesse se encarregar da

educação do menino ela iria dar-lhe os melhores professores, fazer seu talento brotar, fazer dele

um maestro — e, além disso, uma criança-prodígio. E naquele momento, tenho certeza, ela se

via sentada maternalmente, de pérolas e cetim preto, junto ao enorme Steinway, enquanto um

Guido angélico, vestido como o pequeno Lorde Fauntleroy, executava Liszt e Chopin para a delícia de um auditório repleto. Ela via os ramalhetes e todos os elaborados tributos florais,

ouvia os aplausos e as poucas palavras bem escolhidas com que os maestros veteranos,

comovidos quase até as lágrimas, saudariam o aparecimento do pequeno gênio. Ter a criança para si tornou-se mais que nunca importante para ela.

— Você a deixou bem voraz — disse Elizabeth, depois que a signora Bondi tinha ido

embora. — É melhor lhe dizer da próxima vez que você estava enganado e que o garoto não tem

o menor talento musical.

No devido tempo o piano chegou. Depois de lhe dar um mínimo de instrução preliminar,

soltei Guido nele. Ele começou tirando por si mesmo as melodias que escutara, reconstruindo as

harmonias onde elas estavam incrustadas. Depois de umas poucas lições, ele entendia os

rudimentos da notação musical e podia ler uma passagem simples à primeira vista, embora devagar. Todo o processo de ler ainda era estranho para ele; de alguma forma ele compreendia

as letras, mas ninguém ainda lhe tinha ensinado a ler palavras e frases inteiras.

Quando voltei a ver a signora Bondi, aproveitei a ocasião para assegurar-lhe que Guido

me decepcionara. Seu talento musical não existia, de verdade. Ela declarou lamentar muito; mas

pude ver que nem por um momento acreditou em mim. Provavelmente achou que também

estávamos querendo o garoto e pretendíamos guardar a criança-prodígio para nós mesmos antes

que ela conseguisse entrar com seu pedido, privando-a assim do que ela considerava quase

como seu direito feudal. Pois, afinal, eles não eram os seus camponeses? Se alguém fosse lucrar adotando a criança, devia ser ela.

Com tato e diplomacia, ela renovou suas negociações com Carlo. O garoto, ela o declarou,

era um gênio. Fora o cavalheiro estrangeiro quem lhe dissera isso, e não havia dúvida de que

ele era o tipo de homem que entendia dessas coisas. Se Carlo deixasse que ela adotasse o

menino, ia fazer com que estudasse. Ele se tornaria um grande maestro, com contratos na

Argentina e nos Estados Unidos, em Paris e Londres. Ganharia milhões e milhões. Pense em

Caruso, por exemplo. Uma parte dos milhões, ela explicou, naturalmente viria para Carlo. Mas

antes que eles começassem a aparecer, esses milhões, o garoto teria que estudar. Os estudos, no entanto, eram muito caros. Em seu próprio interesse, assim como no de seu filho, ele devia

deixar que ela se encarregasse da criança. Carlo disse que iria pensar, e novamente procurou

nosso conselho. Sugerimos que seria melhor, de qualquer maneira, esperar um pouco e ver os

progressos do menino.

Ele fez grandes progressos, apesar de minha declaração à signora Bondi. Todas as tardes,

enquanto Robin dormia, ele vinha para seu concerto e sua aula. Estava indo muito bem na

leitura; seus dedinhos estavam adquirindo força e agilidade. Mas o que para mim era mais

interessante era que ele começava a criar pequenas peças por conta própria. Algumas delas eu transcrevi enquanto ele tocava, e ainda as tenho. A maior parte, por mais estranho que seja,

como pensei na época, são cânones. Ele tinha paixão por cânones. Quando lhe expliquei os

princípios dessa forma, ele ficou encantado.

— É lindo — disse com admiração. — Lindo, lindo. E tão fácil!

Novamente a palavra me surpreendeu. O cânone não é, afinal, tão obviamente simples. Daí

em diante ele passou a maior parte de seu tempo ao piano trabalhando em pequenos cânones

para seu próprio divertimento. Eram com frequência muito engenhosos. Contudo, na invenção de

outros tipos de música ele não se mostrou tão fértil quanto eu esperara. Compôs e harmonizou uma ou duas ariazinhas solenes como hinos, além de algumas peças mais rápidas, ao espírito da

marcha militar. Eram extraordinárias, é claro, por serem invenções de uma criança. Mas muitas

crianças podem fazer coisas extraordinárias; somos todos gênios aos dez anos de idade. Porém, minha expectativa era a de que Guido fosse uma criança que se tornaria um gênio aos quarenta;

nesse caso o que era extraordinário para uma criança comum não era extraordinário o suficiente

para ele. “Não chega a ser um Mozart”, concordamos, ao tocar suas pequenas peças. Devo

confessar que me senti quase ofendido. Qualquer coisa menos que um Mozart, me parecia, não

valia a pena.

Ele não era um Mozart. Não. Mas era alguém, como eu descobriria, tão extraordinário

quanto ele. Foi numa manhã no início do verão que fiz a descoberta. Estava sentado na sombra

quente de nossa varanda virada para o oeste, trabalhando. Guido e Robin brincavam no pequeno jardim cercado, embaixo da varanda. Absorto em meu trabalho, acho que foi só depois de o

silêncio ter se prolongado por um tempo considerável que tomei consciência de que as crianças

estavam fazendo pouquíssimo barulho. Não havia gritos nem correrias; apenas uma conversa

tranquila. Sabendo por experiência que quando as crianças estão sossegadas isso geralmente

significa que estão absortas em alguma deliciosa encrenca, levantei-me da cadeira e olhei por

cima da balaustrada para ver o que estavam fazendo. Imaginava pegá-los brincando com água,

fazendo uma fogueira, cobrindo-se de piche. Mas o que na verdade vi foi Guido demonstrando

nos paralelepípedos com um bastão queimado que o quadrado da hipotenusa de um triângulo regular é igual à soma dos quadrados dos outros dois lados.

Ajoelhado no chão, ele desenhava com a ponta enegrecida do bastão nas pedras. E Robin,

ajoelhado da mesma maneira a seu lado, estava ficando, eu podia perceber, meio impaciente

com esse jogo tão lento.

— Guido! — ele chamou. Mas Guido não prestou atenção. Franzindo a testa

pensativamente, ele continuou seu diagrama. — Guido! — A criança mais nova inclinou-se e

virou o pescoço para olhar para o rosto de Guido. — Por que você não desenha um trem?

— Depois — disse Guido. — Mas só quero mostrar isto para você primeiro. É tão lindo — acrescentou, tentando iludi-lo.

— Mas eu quero um trem — insistiu Robin.

— Daqui a pouco. Espere só um momento. — O tom era quase implorante. Robin armou-se

de paciência renovada. Um minuto mais tarde Guido terminava seus dois diagramas. — Pronto!

— exclamou em tom triunfante, e endireitou-se para olhar para eles. — Agora vou explicar.

E passou a provar o teorema de Pitágoras — não à maneira de Euclides, mas por um

método mais simples e satisfatório que, muito provavelmente, fora empregado pelo próprio

Pitágoras. Ele tinha desenhado um quadrado e dividido esse quadrado, com um par de perpendiculares cruzadas, em dois quadrados e dois retângulos iguais. Os retângulos iguais ele

dividiu por suas diagonais em quatro triângulos retângulos iguais. Os dois quadrados então são

vistos como os quadrados em dois lados de qualquer desses triângulos, excluindo-se a

hipotenusa. Esse era o primeiro diagrama. No segundo ele pegou os quatro triângulos retângulos

nos quais os retângulos tinham sido divididos e redistribuiu-os em volta do quadrado original

de modo que seus ângulos retos enchiam os cantos do quadrado, as hipotenusas voltadas para

dentro, e os lados maiores e menores dos triângulos em continuação ao longo dos lados do

quadrado (que são cada um igual à soma desses lados). Assim o quadrado original é redividido em quatro triângulos retângulos e o quadrado na hipotenusa. Os quatro triângulos são iguais aos

dois retângulos da divisão original. Portanto o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos dois

quadrados — os quadrados nos outros dois lados — nos quais, com os retângulos, o quadrado original tinha sido dividido no início.

Em linguagem muito pouco técnica, mas de forma clara e com uma lógica implacável,

Guido expôs sua prova. Robin escutava, com uma expressão de perfeita incompreensão em seu

rosto brilhante e sardento.

— Treno — ele repetia de vez em quando. — Treno. Faça um trem.

— Daqui a pouco — implorava Guido. — Espere um momento. Mas por favor olhe para

isto. Por favor — pedia ele, solerte. — É tão lindo. É tão fácil.

Tão fácil... O teorema de Pitágoras parecia, para mim, explicar as predileções musicais de Guido. Não era um Mozart criança que estivéramos alimentando; era um pequeno Arquimedes

com um dom musical incidental, como a maioria dos de sua espécie.

— Treno, treno! — gritou Robin, cada vez com mais impaciência à medida que a

explicação prosseguia. E quando Guido insistiu em continuar com sua prova, ele perdeu a

paciência. — Cattivo Guido — gritou, e começou a golpeá-lo com os punhos.

— Está certo — disse Guido resignadamente. — Vou fazer um trem. — E com seu galho

carbonizado começou a rabiscar nas pedras.

Fiquei olhando em silêncio por um momento. Não era um trem muito bom. Guido podia ser capaz de inventar sozinho e provar o teorema de Pitágoras; mas não era um grande desenhista.

— Guido! — chamei. As duas crianças voltaram-se e olharam para cima. — Quem lhe

ensinou a desenhar esses quadrados? — Era concebível, claro, que alguém pudesse ter ensinado

a ele.

— Ninguém. — Ele sacudiu a cabeça. Então, meio ansioso, como se tivesse medo de que

pudesse haver algo errado em desenhar quadrados, pôs-se a desculpar-se e a explicar. — Sabe,

é que isso me pareceu tão bonito. Porque esses quadrados — apontou para os dois quadrados

pequenos da primeira figura — são do mesmo tamanho deste. — E, indicando o quadrado na hipotenusa no segundo diagrama, ergueu os olhos para mim com um sorriso conciliador.

Assenti.

— É muito bonito — falei. — Muito bonito mesmo.

Uma expressão de alívio deliciado surgiu em seu rosto; ele riu com prazer.

— Entende, é assim — continuou, ansioso por me iniciar no glorioso segredo que tinha

descoberto. — Corta-se esses dois quadrados compridos — ele queria dizer os retângulos —

em duas fatias. E então ficam quatro fatias, todas iguais, porque... porque... ah, eu devia ter dito

isso antes! Porque esses quadrados compridos são o mesmo, por causa daquelas linhas, entende...

— Mas eu quero um trem — Robin protestou.

Debruçado sobre o parapeito da varanda, eu observava as crianças lá embaixo. Pensei na

coisa extraordinária que tinha acabado de ver e no que ela representava.

Pensei nas enormes diferenças entre os seres humanos. Classificamos os homens pela cor

de olhos e cabelos, pelo formato do crânio. Não seria mais sensato dividi-los em espécies

intelectuais? Haveria diferenças ainda maiores entre os tipos mentais extremos do que entre um

aborígene australiano e um escandinavo. Essa criança, pensei, quando crescer, será para mim, intelectualmente, o que um homem é para um cachorro. E há outros homens e mulheres que são,

talvez, quase como cachorros para mim.

Talvez os homens de gênio sejam os únicos homens de verdade. Em toda a história da raça houve apenas poucos milhares de homens verdadeiros. E o resto de nós, o que somos? Animais

ensináveis. Sem o auxílio dos homens de verdade, quase nada teríamos descoberto. Quase todas

as ideias com que estamos familiarizados nunca poderiam ter ocorrido a mentes como as nossas.

Plante ali as sementes e elas crescerão; mas nossas mentes jamais poderiam tê-las gerado

espontaneamente.

Tem havido nações inteiras de cães, pensei; épocas inteiras em que nenhum Homem nasceu.

Dos obtusos egípcios, os gregos pegaram a experiência crua e normas empíricas e fizeram

ciências. Mais de mil anos se passaram antes que Arquimedes tivesse um sucessor comparável. Houve somente um Buda, um Jesus, apenas um Bach que conheçamos, um Michelangelo.

É por puro acaso, perguntei a mim mesmo, que nasce um Homem de vez em quando? O que

faz toda uma constelação deles nascer na mesma época e de um único povo? Taine achava que

Leonardo, Michelangelo e Rafael tinham nascido quando nasceram porque a época estava

pronta para grandes pintores e o ambiente italiano era adequado. Na boca de um francês

nacionalista do século XIX essa doutrina é estranhamente mística; porém não deixa de poder ser

verdadeira. Mas e os que nasceram fora de época? Blake, por exemplo; e quanto a esses?

Esta criança, pensei, tem a sorte de ter nascido numa época em que poderá fazer bom uso de sua capacidade. Encontrará os mais elaborados métodos analíticos a sua espera; terá atrás de

si uma experiência prodigiosa. Suponhamos que ele tivesse nascido enquanto construíam

Stonehenge; ele poderia ter passado a vida inteira descobrindo os rudimentos, tentando

adivinhar onde poderia ter uma chance de prová-los. Se tivesse nascido na época da Conquista

Normanda, teria tido que lutar com todas as dificuldades preliminares criadas por um

simbolismo inadequado; levaria longos anos, por exemplo, para aprender a arte de dividir

MMMCCCLXXXVIII MCMXIX por . Em cinco anos, hoje em dia, ele aprenderá o que precisou de gerações e

gerações de homens para ser descoberto.

E pensei no destino de todos os Homens nascidos tão irremediavelmente fora de tempo que

pouco ou nada conseguiam fazer de valor. Beethoven nascido na Grécia, pensei, teria que se

contentar em tocar melodias simples na flauta ou na lira; naquele ambiente intelectual não lhe

teria sido possível imaginar a natureza da harmonia.

As crianças no jardim tinham passado de desenhar trens a brincar de trens. Troteavam em

círculos; com as bochechas redondas e cheias e os lábios franzidos, como o anjo que simboliza

um vento, Robin fazia puf puf e Guido, segurando a barra de sua camisa, arrastava os pés atrás

dele, apitando. Andavam para frente, recuavam, paravam em estações imaginárias, entravam em desvios, rugiam sobre pontes, atravessavam túneis, de vez em quando colidiam e descarrilavam.

O jovem Arquimedes parecia tão feliz quanto o pequeno e louro bárbaro. Poucos minutos antes

ele se ocupava com o teorema de Pitágoras. Agora, apitando sem descanso ao longo de trilhos

imaginários, ele estava perfeitamente feliz em andar para a frente e para trás entre os canteiros

de flores, entre os pilares do terraço, para dentro e para fora dos túneis escuros do loureiro. O

fato de ser um futuro Arquimedes não impede que a pessoa seja uma criança normal e feliz.

Pensei nesse estranho talento, específico e separado do resto da mente, quase independente da

experiência. As típicas crianças-prodígio desenvolvem-se na música e na matemática; os demais talentos amadurecem devagar sob a influência da vivência e do crescimento emocional.

Até os trinta anos Balzac nada demonstrara senão inaptidão; mas aos quatro o pequeno Mozart

já era músico, e alguns dos trabalhos mais brilhantes de Pascal foram produzidos antes que ele saísse da adolescência.

Nas semanas que se seguiram, alternei as aulas diárias de piano com aulas de matemática.

Mais do que aulas, eram insinuações, pois eu apenas dava sugestões, indicava métodos e

deixava a criança sozinha desenvolver as ideias em detalhe. Assim apresentei-o à álgebra

mostrando outra prova do teorema de Pitágoras. Nessa prova baixa-se uma perpendicular desde

o ângulo reto até a hipotenusa e, argumentando a partir do fato de que os dois triângulos assim

criados são semelhantes um ao outro e ao triângulo original, e que as proporções que seus lados

correspondentes mantêm um com o outro são portanto iguais, pode-se demonstrar em forma algébrica que c2 + d2 (os quadrados dos outros dois lados) são iguais a a2 + b2 (os quadrados dos

dois segmentos da hipotenusa) + 2ab; que por sua vez, é fácil demonstrar geometricamente, é

igual a (a + b)2, ou o quadrado da hipotenusa. Guido ficou tão encantado com os rudimentos de

álgebra quanto teria ficado se eu lhe tivesse dado uma máquina a vapor e uma lâmpada a álcool

metilado para aquecer a caldeira; mais encantado ainda, talvez, pois a máquina iria se quebrar

e, permanecendo sempre a mesma, de qualquer maneira teria perdido seu encanto, ao passo que

os rudimentos de álgebra continuavam a crescer e a desabrochar em sua mente com incessante

exuberância. Todos os dias ele fazia a descoberta de algo que lhe parecia primorosamente belo; o novo brinquedo era inexaurível em suas potencialidades.

Nos intervalos de aplicar álgebra ao segundo livro de Euclides, fazíamos experiências com

círculos; enfiávamos bambus na terra seca, medíamos suas sombras em diferentes horas do dia e

tirávamos conclusões excitantes de nossas observações. Às vezes, por divertimento, cortávamos

e dobrávamos folhas de papel para fazer cubos e pirâmides. Certa tarde Guido apareceu

carregando cuidadosamente entre as mãos pequeninas e meio sujas um frágil dodecaedro.

— È tanto bello! — disse, exibindo-nos seu cristal de papel; e quando lhe perguntei como

tinha conseguido fazer aquilo, ele simplesmente sorriu e disse que tinha sido muito fácil. Olhei para Elizabeth e ri. Mas seria mais simbolicamente acurado, sentia eu, se tivesse caído de

quatro, sacudido o prolongamento imaginário de meu cóccix e latido minha atônita admiração.

Era um verão extraordinariamente quente. No início de julho o nosso pequeno Robin,

desacostumado com essas temperaturas altas, começou a ficar pálido e cansado; andava apático,

perdera o apetite e a energia. O médico recomendou o ar da montanha. Resolvemos passar as

dez ou doze semanas seguintes na Suíça. Meu presente de despedida para Guido foram os seis

primeiros livros de Euclides em italiano. Ele folheou as páginas, olhando em êxtase para as

figuras.

— Se ao menos eu soubesse ler direito — disse ele. — Sou muito burro. Mas agora vou

mesmo tentar aprender.

De nosso hotel perto de Grindewald mandamos ao garoto, em nome de Robin, vários

cartões-postais de vacas, trompas alpinas, chalés suíços, edelweiss, coisas assim. Não

recebemos resposta a esses cartões; mas não esperávamos resposta. Guido não sabia escrever, e

não havia razão para que o pai ou as irmãs se dessem ao trabalho de escrever por ele. A falta de

notícias, assim encaramos, significava boas notícias. E então um dia, no início de setembro,

chegou ao hotel uma carta estranha. O gerente a prendera no quadro de avisos no vestíbulo, de modo que todos os hóspedes a vissem e quem quer que julgasse que lhe pertencia pudesse

reclamá-la. Passando pelo quadro a caminho do almoço, Elizabeth parou para vê-la.

— Mas deve ser de Guido — disse.

Aproximei-me e olhei para o envelope por sobre o ombro dela. Estava sem selo e preta de

carimbos postais. Escritas a lápis, as grandes maiúsculas espalhavam-se pelo papel. Na

primeira linha estava escrito: AL BABBO DI ROBIN; e seguia-se uma versão caricata do nome do hotel e

do lugar. Em volta do endereço, perplexos funcionários postais tinham rabiscado sugestões de

probabilidades. A carta tinha vagado pelo menos por duas semanas, de um lado para o outro,

por toda a Europa.

— Al babbo di Robin. Ao pai de Robin. — Ri. — Muito esperto de os carteiros terem

trazido a carta até aqui.

Fui até o escritório do gerente, demonstrei-lhe meu direito à carta e, tendo pago a multa de

cinquenta cêntimos pela falta do selo, fiz com que abrissem o quadro de avisos e me

entregassem a carta. Fomos almoçar.

— A caligrafia é magnífica — concordamos, rindo, examinando de perto o endereço.

— Graças a Euclides — acrescentei. — É o que dá deixar-se dominar pela paixão.

Mas, quando abri o envelope e li seu conteúdo, parei de rir. A carta era breve e de estilo

quase telegráfico. “SONO DALLA PADRONA”, dizia, “NON MI PIACE HA RUBATO IL MIO LIBRO NON VOGLIO SUONARE PIU VOGLIO TORNARE A CASA VENGA

SUBITO UIDO G.”

[43]

 

— Que é?

Passei a carta para Elizabeth.

— Aquela mulher desgraçada agarrou-o — respondi.

 

Bustos de homens com chapéus de feltro, anjos banhados em lágrimas de mármore apagando

tochas, estátuas de menininhas, figuras veladas, alegorias e realismos implacáveis: os ídolos

mais estranhos e diversos chamavam e gesticulavam ao passarmos. Impressas indelevelmente

em lata e incrustadas na rocha viva, as fotografias marrons expunham-se, sob vidro, em cruzes, pedras tumulares, colunas partidas mais humildes. Senhoras mortas, na moda geométrica cubista

de trinta anos antes — dois cones de cetim preto com as pontas encontrando-se na cintura, e os

braços; uma esfera perto do cotovelo, um cilindro polido abaixo —, sorriam tristemente em suas

molduras de mármore; os rostos sorridentes, as mãos brancas eram as únicas coisas humanas

reconhecíveis que emergiam da sólida geometria de suas roupas. Homens de bigodes pretos,

homens de barbas brancas, rapazes barbeados encaravam ou desviavam o olhar para mostrar um

perfil romano. Crianças em suas rígidas roupas de festa arregalavam os olhos, sorriam

esperançosamente na antecipação do passarinho que surgiria da câmera, sorriam ceticamente na certeza de que ele não surgiria, sorriam laboriosa e obedientemente porque lhes tinha sido

ordenado. Em pontiagudos chalés góticos de mármore os mortos mais ricos repousavam com

privacidade; através de portas gradeadas podia-se entrever pálidos Desolados chorando,

Gênios procelosos guardando o segredo da tumba. As camadas menos prósperas da maioria

dormiam em comunidade, apertadas mas elegantemente abrigadas sob extensos solos de

mármore liso, em que cada pedra era a boca de uma sepultura.

Esses cemitérios continentais, pensei enquanto Carlo e eu avançávamos por entre os

mortos, são mais assustadores que os nossos, porque essas pessoas dão mais atenção a seus mortos que nós. Esse culto primordial aos cadáveres, esse prestimoso carinho por seu bem-estar material, que levava os antigos a abrigar seus mortos em pedra enquanto eles próprios viviam

entre bambus e sobre esteiras, ainda se encontra aqui; persiste, pensei, mais vigorosamente do

que conosco. Há milhares de estátuas gesticulando aqui para cada uma em um cemitério inglês. Há mais jazigos de família mais “luxuosamente guarnecidos” (como dizem de navios e hotéis)

do que se encontraria em minha terra. E incrustadas em cada lápide havia fotografias para

lembrar aos ossos tornados pó qual a forma que deveriam reassumir no Dia do Juízo; ao lado de

cada uma há pequenas lamparinas pendentes para arder com otimismo no dia de Finados. Para o

Homem que construiu as Pirâmides eles estão mais próximos, pensei, do que nós.

— Se eu soubesse — repetia Carlo sem cessar. — Se ao menos eu soubesse. — Sua voz

me chegava através de minhas reflexões como se de muito longe. — Na ocasião ele não se

importou nem um pouco. Como eu poderia saber que depois ele ia ficar tão afetado? E ela me enganou, ela mentiu para mim.

Assegurei-lhe mais uma vez que não era culpa sua. Embora, naturalmente, fosse, em parte.

Era minha também, em parte; eu devia ter pensado na possibilidade e de algum modo tomado

precauções contra ela. E ele não devia ter deixado a criança ir, ainda que temporariamente e por

experiência, ainda que a mulher o estivesse pressionando. E a pressão fora imensa. Eles

trabalhavam no mesmo lugar havia mais de cem anos, os homens da família de Carlo; e ela fez o

velho ameaçar mandá-lo embora. Seria uma coisa horrível deixar o lugar; além disso, não seria

fácil encontrar outro. No entanto, ficou bem claro que ele poderia ficar se lhe deixasse o menino. Só por pouco tempo, para começar; só para ver como ele se saía. Não haveria nenhuma

compulsão para que ele ficasse, se não gostasse. E seria tudo para o bem de Guido; e do pai

dele, também, no final. E aquilo que o inglês tinha dito de que ele não era um músico tão bom

como ele tinha pensado era obviamente mentira — puro ciúme e egoísmo; o homem queria ter o

mérito para si, só isso. E o menino, era óbvio, não aprenderia coisa alguma com ele. O que

precisava era de um bom professor de verdade.

Toda a energia que, se os físicos conhecessem seus assuntos, estaria movendo dínamos

entrou nessa campanha. Começou no momento em que saímos de casa, intensivamente. Teria mais chance de sucesso, pensou sem dúvida a signora, se não estivéssemos lá. Além disso, era

essencial aproveitar a oportunidade quando ela se oferecia e pegar a criança antes que

pudéssemos fazer nossa oferta — pois era óbvio que nós queríamos Guido tanto quanto ela o

queria.

Dia após dia ela renovava o assalto. No final da semana mandou o marido reclamar do

estado das parreiras: a condição delas era inaceitável; ele decidira, ou estava perto de, mandar

Carlo embora. Submisso, envergonhado, obedecendo a ordens superiores, o velho cavalheiro

pronunciou suas ameaças. No dia seguinte a signora Bondi voltou ao ataque. O padrone, declarou, estava perturbadíssimo; mas ela faria o possível, o melhor possível, para acalmá-lo.

E depois de uma pausa significativa começou a falar sobre Guido.

Finalmente Carlo cedeu. A mulher era persistente demais, tinha muitas cartas na manga. A

criança poderia ficar um ou dois meses com ela, em caráter de experiência. Depois, se

realmente mostrasse vontade de continuar com ela, poderia ser adotada formalmente.

À ideia de passar umas férias à beira-mar — e era para a costa, a signora Bondi lhe

dissera, que iriam — Guido ficou contente e excitado. Muito ouvira Robin falar sobre o mar.

“Tanta acqua!” Parecia quase bom demais para ser verdade. E agora ele mesmo iria ver essa maravilha. Foi com muita alegria que ele se separou da família.

Mas depois que terminaram as férias à beira-mar, e a signora Bondi o trouxera de volta

para sua casa em Florença, ele começou a ter saudade de casa. A signora, era verdade, tratava-o muitíssimo bem, comprou-lhe roupas novas, levou-o para tomar chá na Vila Tornabuoni e

enchia-o de bolos, morangos gelados, creme batido e chocolates. Mas obrigava-o a estudar

piano mais do que ele gostava e, o que era pior, tirou seu Euclides, sob o pretexto de que ele

perdia tempo demais com aquilo. E quando ele disse que queria ir para casa ela adiou com

promessas, desculpas e rematadas mentiras. Disse a ele que não podia levá-lo imediatamente,

mas na semana seguinte, se ele ficasse bonzinho e, enquanto isso, estudasse com afinco o piano,

na semana seguinte... E quando chegou o dia ela lhe disse que o pai não o queria de volta. E

redobrou as adulações, deu-lhe presentes caros e entupiu-o com comidas ainda menos saudáveis. Em vão. Guido não gostava de sua nova vida, não queria estudar escalas, queria seu

livro e ansiava em voltar para os irmãos e irmãs. A signora Bondi, entrementes, continuava a

esperar que o tempo e os chocolates eventualmente fizessem com que a criança fosse sua; e,

para manter a família à distância, ela sempre escrevia a Carlo cartas que ainda declaravam ser

da cidade à beira-mar (tomava o trabalho de mandá-las a uma amiga, que as despachava

novamente para Florença) e nas quais pintava um quadro encantador da felicidade de Guido.

Foi então que Guido escreveu a carta para mim. Abandonado, como imaginava, pela

família — pois o fato de não se darem o trabalho de ir visitá-lo estando tão perto só era explicável pela hipótese de que realmente tinham esquecido dele —, ele deve ter me

considerado sua última e única esperança. E a carta, com seu endereço fantástico, tinha passado

quase quinze dias viajando. Quinze dias — deviam parecer centenas de anos; e à medida que os

séculos se sucediam, gradualmente, sem dúvida, a pobre criança se convencera de que eu

também a abandonara. Não havia mais esperança.

— Aqui estamos — disse Carlo.

Olhei para cima e me vi enfrentado por um enorme monumento. Numa espécie de gruta

cavada nos flancos de um monólito de arenito cinzento, o Sagrado Amor, de bronze, abraçava uma urna funerária. E em letras de bronze presas à pedra havia uma comprida lenda de que o

inconsolável Ernesto Bondi erguera esse monumento à memória de sua amada esposa,

Annunziata, como sinal de seu imorredouro amor por aquela a quem, arrancada dele por uma

morte prematura, ele esperava logo unir-se sob aquela pedra. A primeira signora Bondi tinha

morrido em 1912. Pensei no velho atrelado a seu cachorro branco; ele deve ter sido sempre,

refleti, um marido escravizado.

— Eles o enterraram aqui.

Ficamos parados ali em silêncio por um longo tempo. Senti as lágrimas virem-me aos olhos ao pensar na pobre criança que jazia ali no fundo da terra. Pensei naqueles olhos

luminosos e sérios, na curva da bela testa, no caimento da boca melancólica, na expressão de

delícia que lhe iluminava o rosto quando descobria uma nova ideia que o agradava, quando ele

ouvia uma música de que gostava. E esse serzinho lindo estava morto; e o espírito que habitara

essa forma, o espírito espantoso, ele também fora destruído quase antes de ter começado a

existir.

E a infelicidade que deve ter precedido o ato final, o desespero da criança, a convicção de

seu completo abandono — era terrível pensar nisso, terrível.

— Acho que é melhor irmos embora agora — falei finalmente, e toquei no braço de Carlo.

Ele estava parado ali como um cego, olhos fechados, o rosto ligeiramente erguido em direção à

luz; por entre suas pálpebras fechadas as lágrimas afloravam, pendiam por um instante e desciam pelo rosto. Os lábios tremiam, e eu percebia que ele estava fazendo um esforço para

mantê-los firmes. — Vamos embora — repeti.

O rosto, que estivera imobilizado na dor, convulsionou-se de repente; ele abriu os olhos, e

através das lágrimas eles brilhavam de raiva violenta.

— Vou matá-la — disse. — Vou matá-la. Quando penso nele se jogando, caindo pelo ar...

— Com as duas mãos ele fez um gesto violento, deixando-as cair de sobre a cabeça e

imobilizando-as com um solavanco súbito quando estavam diante de seu peito. — E então crás.

— Estremeceu. — Ela é tão responsável como se ela mesma tivesse empurrado o menino. Vou matá-la. — Rilhou os dentes.

Ficar zangado é mais fácil do que ficar triste, menos doloroso. É confortador pensar na

vingança.

— Não fale assim — aconselhei. — Não adianta. É estúpido. E de que adiantaria? — Ele

tinha tido esses acessos antes, quando a dor ficava forte demais e ele tentava escapar dela. A

raiva tinha sido o meio de fuga mais fácil. Antes disso eu já tivera de convencê-lo a voltar ao

caminho mais difícil da dor. — É estupidez falar assim — repeti, e levei-o para longe daquele

horrível labirinto de túmulos, onde a morte parecia ser ainda mais terrível do que é.

Depois que saímos do cemitério, descendo de San Miniato em direção ao Piazzale

Michelangelo, ele ficou mais calmo. Sua raiva tornara a acalmar-se na tristeza de onde extraíra

toda a sua força e amargura. No Piazzale paramos por um momento para olhar a cidade no vale

abaixo de nós. Era um dia de nuvens flutuantes — grandes formas, brancas, douradas e

cinzentas; e entre elas pedaços de um azul fino e transparente. Com sua claraboia quase ao nível

de nossos olhos, a cúpula da catedral revelava-se em toda a sua leveza grandiosa, sua vastidão

e sua força aérea. Nos inumeráveis telhados marrons e rosados da cidade a luz do sol da tarde

batia suave, suntuosa, e as torres pareciam envernizadas e esmaltadas de um ouro antigo. Pensei em todos os Homens que viveram aqui e deixaram traços visíveis de seu espírito e conceberam

coisas extraordinárias. Pensei na criança morta.