Contos escolhidos

Aldous Huxley · Capítulo 11 de 23

Páginas do PDF

Contos escolhidos

Freiras no almoço

 

— QUE ANDEI FAZENDO O desde que você me viu pela última vez? — A srta. Penny repetiu minha

pergunta em sua voz alta e enfática. — Bem, quando me viu pela última vez?

— Deve ter sido em junho — calculei.

— Foi depois que o general russo me pediu em casamento?

— Sim; eu me lembro de ter ouvido falar no general russo.

A srta. Penny jogou a cabeça para trás e riu. Seus brincos compridos balançaram-se

ruidosamente — cadáveres pendurados em correntes: uma analogia agradavelmente literária. E

a risada dela era como cobre, mas isso já fora dito antes.

— Aquele incidente foi cômico. Pena que você já tenha ouvido. Adoro minha história do

general russo. “Vos yeux me rendent fou.” — Ela riu de novo.

Vos yeux — ela tinha olhos de lebre, fundos e muito brilhantes, com um fulgor superficial e

sem expressão. Que mulher formidável. Senti pena do general russo.

— “Sans coeur et sans entrailles” — ela continuou, citando as palavras do pobre-diabo.

— Uma epígrafe tão deliciosa, não acha? Como “Sans peur et sans reproche”. Mas deixe-me

pensar: que andei fazendo desde então? — Pensativamente ela mordeu a casca do pão com

dentes longos, aguçados e brancos.

— Dois assados mistos — pedi ao garçom.

— Mas é claro — exclamou de repente a srta. Penny. — Não vejo você desde a minha

viagem à Alemanha. Toda espécie de aventuras. Minha apendicite; minha freira.

— Sua freira?

— Minha freira maravilhosa. Preciso lhe contar tudo sobre ela.

— Faça isso. — Os casos da srta. Penny eram sempre curiosos. Eu previa um almoço

bastante divertido.

— Sabia que estive na Alemanha no outono?

— Bem, não sabia. Porém...

— Eu estava só passeando por lá. — A srta. Penny descreveu um círculo no ar com sua

mão exuberantemente cheia de joias. Sempre brilhava de joias pesadas e estranhas. —

Passeando, vivendo com três libras por semana, em parte me divertindo, em parte juntando

material para alguns artigos. “O que é ser uma nação conquistada”: coisas lacrimejantes para a

imprensa liberal, sabe. E “Como o huno está tentando escapar da indenização”, para os outros

sujeitos. É preciso tirar o melhor de todos os mundos possíveis, não acha? Mas não vamos falar

de trabalho. Bem, eu estava passeando por lá e achando tudo muito agradável. Berlim, Dresden, Leipzig. Depois desci para Munique e andei por lá. Um belo dia cheguei a Grauburg. Conhece

Grauburg? É uma dessas cidades alemãs dos álbuns de fotografias, com um castelo no morro,

jardins suspensos, uma igreja gótica, uma velha universidade, um rio, uma linda ponte e

florestas em toda a volta. Encantadora. Mas não tive muita oportunidade de apreciar as belezas do lugar. No dia seguinte à minha chegada, bangue! Caí com apendicite. Gritei de dor, fique

sabendo.

— Mas que horror!

— Eles me levaram depressa para o hospital e me abriram num piscar de olhos. Excelente

cirurgião, irmãs de caridade muito eficientes cuidando de mim; não poderia estar em melhores

mãos. Mas era uma amolação ficar lá presa pela perna durante quatro semanas, uma grande

amolação. Mesmo assim havia algumas compensações. Havia a minha freira, por exemplo. Ah,

chegou a comida, graças a Deus!

O assado misto mostrou-se excelente. A descrição que a srta. Penny fez da freira chegou-

me aos pedaços. Um rosto redondo, rosado e bonito sob a touca; olhos azuis e feições regulares;

dentes perfeitos demais; falsos, aliás. Mas o efeito geral era extremamente agradável. Uma jovem teutônica de vinte e oito anos.

— Ela não era a minha enfermeira — explicou a srta. Penny. — Mas costumava vê-la com

muita frequência quando ela vinha dar uma olhada na tolle Engländerin. Seu nome era irmã

Agatha. Durante a guerra, disseram-me, ela convertera inúmeros soldados feridos para a fé

verdadeira. O que não era de espantar, considerando-se como era bonita.

— Ela não tentou converter você? — perguntei.

— Não era tão tola assim. — A srta. Penny riu e sacudiu as correntes em miniatura de suas

orelhas.

Diverti-me por um momento com a ideia da conversão da srta. Penny; a srta. Penny diante

de uma grande assembleia de padres, sacudindo seus brincos aos discursos sobre a Trindade,

rindo seu riso assustador à doutrina da Imaculada Conceição, encontrando o olhar sério do

Grande Inquisidor com um clarão de seus olhos brilhantes e sem emoção. Qual era o segredo

para uma mulher ser tão formidável?

Mas eu estava perdendo a história. Que foi que tinha acontecido? Ah, sim, o importante era

que a irmã Agatha tinha aparecido certa manhã, depois de dois ou três dias de ausência, vestida

não como freira, mas com um macacão das faxineiras do hospital, com um lenço em vez da touca em sua cabeça raspada.

— Morta — declarou a srta. Penny. — Ela parecia estar morta. Um cadáver ambulante, é o

que ela era. Uma coisa impressionante. Eu não teria achado possível que alguém mudasse tanto

em tão pouco tempo. Ela caminhava com dificuldade, como se tivesse passado meses doente,

tinha grandes círculos escuros em volta dos olhos e rugas fundas no rosto. E a expressão geral

de infelicidade, isso era algo bastante assustador.

Inclinou-se para a passagem entre as duas fileiras de mesas e agarrou pela ponta do paletó

um garçom que passava. O pequeno italiano olhou em volta com uma expressão de surpresa que se transformou em terror.

— Uma caneca de Guinness — pediu a srta. Penny. — E depois me traga um rocambole.

— Não temos rocambole hoje, madame.

— Droga! — exclamou a srta. Penny. — Traga-me o que quiser, então.

Ela soltou o paletó do garçom e reencetou sua narrativa.

— Onde é que eu estava? Ah, eu me lembro. Ela entrou em meu quarto com um balde de

água e um escovão, vestida de faxineira. Naturalmente fiquei bastante surpresa. “Que é que está

fazendo, irmã Agatha?”, perguntei. Nenhuma resposta. Ela apenas sacudiu a cabeça e começou a esfregar o chão. Quando terminou, saiu do quarto sem nem mesmo olhar para mim. “Que

aconteceu com a irmã Agatha?”, perguntei à minha enfermeira quando ela apareceu. “Não sei.”

“Não quer dizer”, retruquei. Nenhuma resposta. Levei quase uma semana para descobrir o que

realmente tinha acontecido. Ninguém ousava me contar; era strengst verboten,[36]como se

costumava dizer nos velhos tempos. Mas finalmente consegui. Minha enfermeira, o médico, as

faxineiras — extraí alguma coisa de todos eles. Sempre consigo o que quero. — A srta. Penny

riu como um cavalo.

— Tenho certeza que sim — comentei educadamente.

— Muito obrigada — agradeceu a srta. Penny. — Mas continuando: minha informação me

chegou em sussurros fragmentados. “A irmã Agatha fugiu com um homem.” Meu Deus! “Um dos

pacientes.” Não diga! “Um criminoso saído da prisão.” O enredo se complica. “Ele fugiu dela.” O enredo se simplifica novamente. “Trouxeram-na de volta para cá; ela caiu em desgraça.

Houve um serviço funerário para ela na capela, com caixão e tudo. Ela precisou estar presente

ao próprio enterro. Não é mais freira. Agora tem que fazer o trabalho de faxineira, o mais duro

do hospital. Não tem permissão de falar com ninguém e ninguém pode falar com ela. É tida

como morta.” — A srta. Penny fez uma pausa para chamar o aflito italianinho. — Minha

Guinness! — gritou.

— Já vai, já vai — e a voz estrangeira gritou “Guinness” para dentro do poço do elevador,

e lá de baixo outra voz ecoou: “Guinness”.

— Aos poucos fui sabendo dos detalhes. Para começar, havia o nosso herói; tive que

incluí-lo na história, o que era meio difícil, pois nunca o tinha visto. Mas arranjei uma fotografia

dele. A polícia distribuiu uma quando ele fugiu; acho que nunca o pegaram. — A srta. Penny

abriu a bolsa. — Sempre a carrego comigo; virou uma superstição. Durante anos, eu me lembro,

costumava carregar um pedacinho de urze amarrada com barbante. Lindo, não é? Ele tem uma

aparência meio renascentista, não acha? Era meio italiano, sabe?

Italiano. Ah, isso explicava tudo. Eu estava me perguntando como a Bavária poderia ter

produzido essa criatura de rosto fino e grandes olhos escuros, o nariz e o queixo finamente moldados e os lábios carnudos tão majestosa e sensualmente curvados.

— Não há dúvida de que ele impressiona — falei, devolvendo a foto.

A srta. Penny guardou-a cuidadosamente na bolsa.

— Não é? Maravilhoso. Mas o caráter e o cérebro eram ainda melhores. Vejo-o como um

desses monstros de iniquidade inocentes e infantis, que simplesmente ignoram a existência de

certo e errado. E ele tinha um enorme talento, o talento italiano para a engenharia, para dominar

e explorar a natureza. Um verdadeiro filho dos construtores dos aquedutos romanos ele era, e

irmão dos engenheiros eletricistas. Só que Kuno — esse era seu nome — não trabalhava com água; ele trabalhava com mulheres. Sabia como fazer uso da energia natural da paixão; fazia a

devoção mover seus moinhos. A exploração comercial da energia do amor, essa era a sua

especialidade. Às vezes me pergunto — acrescentou a srta. Penny em tom diferente — se algum

dia vou ser explorada, quando ficar um pouco mais velha e celibatária, por um desses jovens

engenheiros da paixão. Seria humilhante, especialmente porque eu própria explorei um pouco.

Franziu a testa e ficou em silêncio por um momento. Não, decididamente, a srta. Penny não

era bonita; nem se podia dizer honestamente que tinha encantos ou que era atraente. A coloração

escocesa, aqueles olhos de lebre, a voz, a risada apavorante, e o tamanho dela, sua imponência geral. Não, não, não.

— Você disse que ele estivera preso — falei. O silêncio, com todas as suas implicações,

estava ficando embaraçoso.

A srta. Penny suspirou, ergueu os olhos e assentiu.

— Ele foi suficientemente tolo para deixar a estrada reta e segura da exploração das

mulheres em nome dos sinuosos perigos do roubo. Todos temos nossos acessos ocasionais de

loucura. Deram-lhe uma sentença pesada, mas ele conseguiu pegar pneumonia, acho que foi isso,

uma semana depois de entrar na prisão. Foi transferido para o hospital. A irmã Agatha, com seu

conhecido talento para salvar almas, foi designada para atendê-lo. Mas foi ele quem fez a

conversão.

A srta. Penny terminou o último pedaço do pudim de gengibre que o garçom lhe trouxera em lugar do rocambole.

— Imagino que você não fume charutos — falei, abrindo minha charuteira.

— Bem, para falar a verdade, fumo, sim — replicou a srta. Penny. Passeou o olhar aguçado

pelo restaurante. — Só preciso ver se há aqui algum desses horríveis colunistas mexeriqueiros.

Não quero aparecer na coluna social amanhã de manhã: “Um fato que não é tão conhecido

quanto deveria ser é que a srta. Penny, a famosa jornalista, sempre termina seu almoço com um

charuto da Birmânia de vinte centímetros. Vi-a ontem num restaurante a menos de cem

quilômetros da rua Carmelita, fumando feito uma chaminé”. Você conhece o gênero. Mas a costa me parece livre, graças a Deus.

Pegou um charuto da charuteira, acendeu-o no fósforo que eu lhe estendi e continuou a

falar.

— Sim, foi o jovem Kuno quem fez a conversão. A irmã Agatha foi convertida de volta à

Melpomene Fugger mundana que fora antes de se tornar noiva da santidade.

— Melpomene Fugger?

— Era o nome dela. Ouvi a história dela do meu velho médico. Ele tinha visto toda

Grauburg nascer, multiplicar-se e morrer durante gerações. Melpomene Fugger... Ora, ele tinha ajudado no parto da pequena Melpel, a pequena Melpchen. O pai dela era o professor Fugger, o

grande professor Fugger, o berühmter Geolog,[37]Ah, sim, é claro, conheço o nome. Tão bem...

Foi ele quem escreveu o trabalho clássico sobre a Lemúria: sabe, o continente hipotético de

onde vieram os lêmures. Mostrei o devido respeito. Era liberal, discípulo de Herder, um

cidadão do mundo, como eles dizem lá. Anglófilo, também, e sempre comeu mingau no café da

manhã, até agosto de 1914. Então, na radiante manhã do dia 5, ele renunciou para sempre ao

mingau, solenemente e com lágrimas nos olhos. O alimento nacional de um povo que traíra a

cultura e a civilização, como poderia ele continuar comendo? Ficaria preso em sua garganta. No futuro ele comeria ovo quente. Parecia-me encantador. E a filha, Melpomene — ela também

parecia encantadora; e que rabo de cavalo, espesso e loiro, ela tinha quando criança! A mãe

estava morta, e uma irmã do grande professor comandava a casa com mão de ferro. Tia Bertha

era o nome dela. Bem, Melpomene cresceu, gordinha e apetitosa. Aos dezesete anos, algo

odioso e desagradável lhe aconteceu. Nem mesmo o médico sabia exatamente o que tinha sido,

mas ele não se surpreenderia se fosse algo relativo ao então professor de latim, um velho amigo

da família, que, parece, aliava grande erudição a uma horrível predileção por mocinhas bem

jovens.

A srta. Penny derrubou dois centímetros de cinza do charuto em seu copo vazio.

— Se eu escrevesse contos — continuou, pensativa —, se não fosse trabalho demais,

transformaria esse caso numa espécie de biografia, começando com a cena imediatamente posterior a esse desagradável acontecimento na vida de Melpomene. Vejo claramente a cena. A

pobre Melpel, debruçada sobre o parapeito do castelo Grauburg, chorando numa noite de junho,

e as amoreiras nos jardins dez metros abaixo. Dominam-na lembranças do que aconteceu

naquela terrível tarde. O professor Engelmann, o velho amigo de seu pai, com a magnífica barba

assíria vermelha... Horrível demais, demais! Mas, como estava dizendo, escrever contos dá

muito trabalho, ou talvez eu seja burra demais para escrevê-los. Cedo-o a você. Você sabe como

fazer funcionar essas coisas.

— Você é muito generosa.

— Nem um pouco — replicou a srta. Penny. — Minhas condições são uma comissão de

dez por cento nas vendas americanas. Aliás, não haverá vendas americanas. A história da pobre

Melpchen não serve para o casto público daqueles Estados. Mas diga-me o que você pretende

fazer com Melpomene, agora que a tem no parapeito do castelo.

— É simples — declarei. — Conheço tudo sobre as universidades alemãs e os castelos

nos montes. Vou fazer com que ela contemple a noite de junho, como você sugeriu; a noite

violeta com seus pontos de chama dourada. Haverá a silhueta negra do castelo, com seus

telhados pontiagudos e suas torrezinhas cobertas, atrás dela. Das cervejarias da cidade, lá embaixo, a voz dos estudantes, cantando em perfeita harmonia a quatro vozes, flutuará através

da amplidão azul-escura. “Röslein, Röslein, Röslein rot” e “Das Ringlein sprang in zwei” —

as canções comoventes e doces de antigamente vão fazê-la chorar mais ainda. Suas lágrimas

cairão como chuva sobre as folhas das amoreiras no jardim abaixo. Isso lhe parece adequado?

— Muito bonito — aplaudiu a srta. Penny. — Mas como é que você vai trazer o problema

sexual e todos os seus horrores para esta paisagem?

— Bem, deixe-me pensar. — Chamei à lembrança aqueles distantes verões no estrangeiro

quando estava completando minha educação. — Já sei. Vou trazer de repente um enxame de velas e lanternas chinesas movendo-se sob as amoreiras. Pode imaginar a riqueza de luz e

sombra, as folhas reluzindo feito joias, os rostos e membros dos homens e mulheres vistos por

um instante e logo desaparecidos. São estudantes e moças da cidade que saíram para dançar

nessa noite azul e parada de junho sob as amoreiras. E agora começam, girando em roda,

batendo os pés ao compasso da música de suas canções:

 

Wir können spielen

Vio-vio-vio-lin,

Wir können spielen

Vi-o-lin.

 

E o ritmo muda, fica mais rápido:

 

Und wir können tanzen Bumstarara,

Bumstarara, Bumstarara,

Und wir können tanzen Bumstarara,

Bumstarara-rara.

“A dança se torna um tropel, um pisotear elefantino na grama seca sob as amoreiras. E do

baluarte Melpomene observa e percebe, de súbito e como que num apocalipse, que tudo no

mundo é sexo, sexo, sexo. Homens e mulheres, machos e fêmeas — sempre a mesma coisa, e tudo, à luz do horror daquela tarde, nojento. É assim que eu faria, srta. Penny.”

— E muito bem. Mas gostaria que você encontrasse um lugar para encaixar minha conversa

com o médico. Nunca me esquecerei do modo como ele pigarreou e tossiu antes de embarcar em

assunto tão delicado. “Deve saber, hum, minha graciosa senhorita”, ele começou, “deve saber

que os fenômenos religiosos são com frequência, hum, intimamente ligados a causas sexuais.”

Respondi que ouvira rumores que poderiam justificar minha crença de que isso é verdade entre

os católicos, mas que na Igreja da Inglaterra (pois eu praticava o anglicanismo) era muito

diferente. Pode ser, disse o médico; no decorrer de sua longa carreira médica ele não tivera oportunidade de estudar o anglicanismo. Mas era capaz de garantir o fato de que entre seus

pacientes, ali em Grauburg, o misticismo apresentava-se amiúde misturado ao

Geschlechtsleben.[38]Melpomene era um caso desses. Depois daquela tarde horrível ela se

tornara extremamente religiosa; o professor de latim desviara suas emoções dos canais naturais.

Ela se rebelou contra o agnosticismo plácido do pai e à noite, em segredo, quando os olhos de

dragão de tia Bertha estavam fechados, ela lia livros proibidos, tais como a Vida de Santa

Teresa, As florezinhas de São Francisco, a Imitação de Cristo e o monstruosamente fascinante

Livro dos mártires. Tia Bertha confiscava essas obras quando as encontrava; considerava-as mais perniciosas do que os romances de Marcel Prévost. O caráter de uma boa esposa em

potencial podia ser inteiramente minado por leituras desse tipo. Foi um alívio para Melpomene

quando tia Bertha libertou-se, no verão de 1911, de seus deveres mortais. Ela era uma dessas

pessoas indispensáveis sobre as quais descobrimos, depois que se foram, que poderíamos ter

passado muito bem sem elas. Pobre tia Bertha!

— Pode-se imaginar Melpomene tentando acreditar que estava triste e ficando

horrivelmente envergonhada ao descobrir que na verdade, em segredo, estava quase contente.

— A sugestão me parecia engenhosa, mas a srta. Penny julgou-a óbvia.

— Exatamente — disse. — E a emoção só confirmaria e daria novo alento às tendências às

quais a morte da tia abria caminho para que as vivesse como quisesse. Remorso, contrição —

tais sentimentos levariam à ideia da penitência. E, para uma pessoa agora mergulhada no

martirológio, penitência era a mortificação da carne. Ela costumava passar horas ajoelhada, à

noite, no frio; comia pouco, e quando seus dentes doíam (o que acontecia com frequência, disse-

me o médico, pois sua dentadura sempre lhe deu problemas), ela não ia ao dentista, mas ficava

acordada toda a noite, desfrutando de todo o seu sofrimento e sentindo triunfantemente que este

devia, à sua maneira enviesada, agradar às Forças Misteriosas. Continuou assim por dois ou três anos, até estar inteiramente envenenada. Por fim, ganhou uma úlcera gástrica. Levou três

meses até sair do hospital, bem pela primeira vez em anos e com uma dentadura novinha de

dentes duráveis, tudo ouro e marfim. Também por dentro ela estava mudada — para melhor,

imagino. As freiras que cuidaram dela fizeram-na ver que, mortificando-se, ela agira com

exagero, motivada pelo orgulho espiritual; em vez de agir certo, ela pecara. O único caminho

para a salvação, disseram-lhe, estava na disciplina, na ordem da religião estabelecida, na

obediência à autoridade. Secretamente, para não entristecer seu pobre pai, cujo agnosticismo

era extremamente dogmático apesar de toda a sua moderação, Melpomene tornou-se católica romana. Tinha vinte e dois anos. Poucos meses mais tarde veio a guerra e a renúncia eterna do

professor Fugger ao mingau. Ele não sobreviveu muito tempo a seu gesto patriótico. No outono

de 1914 pegou uma gripe fatal. Melpomene estava sozinha no mundo. Na primavera de 1915 havia uma nova e muito escrupulosa irmã de caridade trabalhando entre os feridos no hospital

de Grauburg. Aqui — explicou a srta. Penny, cortando o ar com o dedo indicador — você põe

uma linha de asteriscos ou pontos para significar um intervalo de seis anos na narração. E

começa de novo bem no meio de um diálogo entre a irmã Agatha e o convalescente Kuno.

— Sobre o que vai ser o diálogo deles?

— Ah, isso é fácil — declarou a srta. Penny. — Qualquer coisa serve. Que tal isso, por

exemplo? Você explica que a febre acabou de baixar; pela primeira vez em vários dias o rapaz

está inteiramente consciente. Sente-se muito bem, renascido, por assim dizer, em um mundo novo — um mundo tão brilhante e diferente e alegre que ele não consegue deixar de rir. Olha em

volta; as moscas no teto lhe parecem extremamente cômicas. Como conseguem andar de cabeça

para baixo? Elas têm ventosas nos pés, diz a irmã Agatha, perguntando-se se sua história natural

estaria correta. Ventosas nos pés, ha, ha! Que ideia louca! Ventosas nos pés, isso é ótimo! Você

pode dizer umas coisinhas encantadoras, patéticas, de todo ternas sobre a descabida alegria dos

convalescentes — ainda mais nesse caso particular, em que a alegria é expressada por um rapaz

que será levado de volta à prisão tão logo consiga firmar-se nas pernas. Ha, ha! Continue a rir,

pobre rapaz! É a gargalhada do Destino, das Parcas, das Nornas!

A srta. Penny fez uma exagerada imitação de sua própria risada metálica. A esse som, os

poucos comensais que ainda restavam nas outras mesas ergueram os olhos, assustados.

— Você pode escrever páginas sobre o Destino e sua gargalhada irônica. É tremendamente

impressionante, e há dinheiro em cada linha.

— Pode ter certeza de que escreverei.

— Ótimo! Então posso continuar com minha história. Os dias passam e a primeira alegria

da convalescença desaparece. O rapaz se lembra e fica melancólico; sua força retorna, e com

ela uma sensação de desespero. Sua mente interroga incessantemente o odioso futuro. Quanto aos consolos da religião, ele não quer saber. A irmã Agatha persevera — ah! mas com que

solicitude e ansiedade, na tentativa de fazê-lo compreender e crer e encontrar consolo. É tudo

tremendamente importante, e nesse caso, de alguma forma, mais importante do que em qualquer

outro. E agora você vê a Geschlechtsleben em operação, fecunda e obscura, e mais uma vez

ouve-se a gargalhada das Nornas. Aliás — fez a srta. Penny, mudando de tom e inclinando-se

em postura de confidência por sobre a mesa —, gostaria que me dissesse uma coisa. Você

acredita mesmo, diga com toda a honestidade, você acredita seriamente na literatura?

— Se eu acredito na literatura?

— Estava pensando — explicou a srta. Penny — no Destino Irônico e nas gargalhadas das

Nornas, essas coisas.

— Hum, sim.

— E também esse negócio de psicologia e introspecção; e construção, boa narração,

imagens e le mot juste, mágica verbal e metáforas fortes.

Lembrei-me de ter comparado os brincos tintilantes da srta. Penny a esqueletos presos a

correntes.

— E então, finalmente e para começar, Alfa e Ômega, nós próprios: dois profissionais saboreando, com uma falta de simpatia absoluta, a sedução de uma freira e especulando a

melhor maneira de transformar os infortúnios dela em dinheiro. É tudo muito curioso, não é?,

quando a gente começa a pensar friamente sobre isso.

— Muito curioso — concordei. — Mas tudo é, quando se olha assim.

— Não, não — discordou a srta. Penny. — Nada é tão curioso quanto nosso negócio. Mas

jamais chegarei ao fim de minha história se começar a entrar nos princípios.

A srta. Penny continuou sua narrativa. Eu ainda estava pensando na literatura. Você acredita

nela? Seriamente? Oh! Felizmente a pergunta não tinha sentido. A história me chegou um tanto

vagamente, mas parecia que o rapaz estava melhorando; em poucos dias, disse o médico, ele

estaria bem — bem o suficiente para voltar para a cadeia. Não, não. A pergunta não tinha

sentido. Não iria mais pensar nela. Concentrei novamente minha atenção.

— A irmã Agatha — ouvi a srta. Penny dizer — rezou, exortou, doutrinou. Sempre que

tinha meio minuto de folga de suas demais obrigações ela corria para o quarto do rapaz. “Eu me

pergunto se você compreende inteiramente a importância da oração”, ela dizia, e, antes que ele

tivesse tido tempo para responder, ela lhe dava uma lição sobre os usos e as virtudes da súplica

regular e paciente. Ou então era: “Posso lhe falar sobre Santa Teresa?” ou “Santo Estêvão, o

primeiro mártir, você já ouviu falar dele, não ouviu?” A princípio Kuno simplesmente não

queria ouvir. Parecia-lhe fantasticamente descabida essa absurda interrupção de seus

pensamentos, de seus pensamentos sérios e desesperados sobre o futuro. A prisão era real, iminente, e essa mulher o perseguia com seus ridículos contos de fadas. Então, de repente, um

dia ele começou a escutar e a mostrar sinais de contrição e conversão. A irmã Agatha anunciou

seu triunfo às outras freiras, e houve regozijo por causa da ovelha tresmalhada. Melpomene

nunca se sentira tão feliz na vida, e Kuno, olhando para seu rosto radiante, deve ter se

perguntado como podia ter sido tão tolo de não ver desde o início o que agora lhe era tão óbvio.

A mulher perdera a cabeça por ele. E ele só tinha quatro dias — quatro dias para canalizar essa

incrível energia amorosa e colocá-la trabalhando para sua fuga. Por que não começara uma

semana antes? Então podia ter certeza de dar certo. Mas agora? Não era possível saber. Quatro dias era um tempo curto demais.

— Como foi que ele fez isso? — perguntei, pois a srta. Penny se interrompera.

— Isso é você quem vai dizer — ela respondeu, e sacudiu os brincos para mim. — Não

sei. Ninguém sabe, imagino, exceto pelas duas pessoas envolvidas e talvez o confessor da irmã

Agatha. Mas pode-se reconstruir o crime, como dizem. Como você teria agido? Você é homem,

deve conhecer o processo da engenharia amorosa.

— Você me lisonjeia — respondi. — Então imagina que...? — Estendi os braços. A srta.

Penny riu como um cavalo. — Não. Mas, sério, é um problema. Esse caso é muito especial. A pessoa, uma freira; o lugar, um hospital; as oportunidades, poucas. Não podia haver

circunstâncias favoráveis — luar, música distante; e qualquer forma de ataque direto com

certeza falharia. Aquele tipo de confiança audaciosa que é a melhor arma do seu sedutor não

funcionaria aqui.

— Claro — disse a srta. Penny. — Mas com certeza há outros métodos; pode ser a

abordagem pela piedade e o instinto maternal. E a abordagem espiritual pelas mais Elevadas

Esferas, pela alma. Kuno deve ter trabalhado com essas armas, não acha? Pode-se imaginá-lo

deixando-se converter, rezando com ela e ao mesmo tempo apelando à sua solidariedade e até mesmo ameaçando, com ar sério, matar-se para não voltar para a cadeia. Você pode escrever

isso facilmente e de modo convincente. Mas é o tipo de coisa que acho entediante fazer. Por isso

não consigo escrever ficção. Qual é o sentido de tudo isso? E o modo como vocês, literatos, se acham tão importantes — especialmente se escrevem tragédias. É tudo muito estranho, muito

estranho mesmo.

Não respondi. A srta. Penny mudou de tom e continuou com a história:

— Bem, seja qual for o meio empregado, o processo de engenharia foi perfeito. O amor foi

obrigado a achar um modo. Na tarde da véspera do dia em que Kuno voltaria para a prisão,

duas irmãs de caridade saíram pelos portões do hospital, cruzaram a praça defronte, desceram

as ruelas em direção ao rio, pegaram um bonde na ponte e não saltaram até o bonde chegar ao

ponto final, num subúrbio distante. Saíram caminhando ao longo da estrada para o campo. “Veja!”, disse uma delas, quando deixaram as casas para trás; e com um gesto de ilusionista

tirou do nada uma carteira de couro vermelho. “De onde surgiu isso?”, perguntou a outra,

arregalando os olhos. Lembranças de Eliseu e os corvos, do jarro da viúva, devem ter passado

pela névoa iluminada da cabeça da pobre Melpomene. “A velha que estava sentada a meu lado

no bonde deixou a bolsa aberta. Não podia ser mais fácil.” “Kuno, você não está querendo dizer

que roubou a bolsa, está?” Kuno praguejou horrivelmente. Tinha aberto a carteira. “Só sessenta

marcos. Quem ia pensar que aquela camela velha, toda enfeitada de sedas e peles, teria só

sessenta marcos na carteira? E eu preciso de pelo menos mil marcos para fugir.” É fácil reconstituir o resto da conversa até o inevitável “Pelo amor de Deus, cale a boca” com que

Kuno poria fim à consternada pregação moral de Melpomene. Continuam caminhando em

silêncio. Kuno pensa desesperadamente. Só sessenta marcos não davam para nada. Se pelo

menos tivesse alguma coisa para vender, uma joia, ouro ou prata — qualquer coisa, qualquer

coisa. Conhece um lugar ótimo para vender coisas. Será que vai ser preso de novo só por falta

de uns poucos marcos? Melpomene também está pensando. Muitas vezes é preciso fazer o mal

para que possa vir o bem. Afinal, ela mesma não tinha roubado as roupas da irmã Maria da

Purificação quando a outra dormia depois da noite de plantão? Não tinha fugido do convento, quebrado seus votos? E, no entanto, como estava convencida de que estava fazendo o certo? As

Forças misteriosas enfaticamente aprovavam; ela tinha certeza disso. E agora essa carteira

vermelha. Mas o que era uma carteira vermelha quando comparada a uma alma salva? E, afinal,

o que ela estava fazendo, senão salvando a alma de Kuno? — A srta. Penny, que adotara a voz e

os gestos de um orador fazendo perguntas retóricas, baixou a mão sobre a mesa com um tapa. —

Meu Deus, como esse tipo de coisa é enfadonha! — exclamou. — Vamos chegar ao fim dessa

piada arrastada o mais depressa possível. Aquela hora, você pode imaginar, as sombras da

noite caíam depressa — o frio do crepúsculo de novembro, etc., etc. Mas vou deixar para você as descrições. Kuno entra na vala à beira da estrada e tira o hábito. Imagino que ele se sentiria

mais seguro de calças, mais capaz de agir com decisão numa crise. Andam quilômetros. Tarde

da noite saem da estrada e atravessam os campos em direção a uma floresta. Na beira do bosque

encontram um desses casebres sobre rodas onde os pastores dormem na temporada de

procriação.

— A verdadeira Maison du Berger?[39]

— Exatamente — confirmou a srta. Penny, e começou a recitar:

 

Si ton coeur gémissant du poids de notre vie,

Se traîne et se débat comme un aigle blessé...

 

“Como é que continua? Eu adorava isso tanto quando era garota!”

 

Le seuil est parfumé, l’alcôve est large et sombre,

Et là parmi les fleurs, nous trouverons dans l’ombre,

Pour nos cheveux unis un lit silencieux.

 

“Eu poderia continuar indefinidamente.”

— Então continue — pedi.

— Não, não, não, não. Estou resolvida a terminar essa história desgraçada. Kuno quebrou

o cadeado da porta. Entraram. Que aconteceu naquele barracãozinho? — A srta. Penny inclinou-

se em minha direção. Seus grandes olhos de lebre brilhavam, os brincos compridos balançavam

e tilintavam de leve. — Imagine as emoções de uma virgem de trinta anos, ainda por cima uma

freira, na presença aterrorizante do desejo. Imagine as brutalidades fáceis e costumeiras do

rapaz. Ah, pode-se fazer páginas e páginas disso — a escuridão absolutamente impenetrável, o

cheiro de palha, as vozes, o choro abafado, os movimentos. E é bom imaginar que as emoções

pulsando naquele espaço confinado tinham vibrações palpáveis, como um som baixo que sacode o ar. Ora, essa cena é literatura já pronta. De manhã — continuou a srta. Penny depois de uma

pausa — dois lenhadores a caminho do trabalho perceberam que a porta do casebre estava

escancarada. Aproximaram-se com cuidado, os machados erguidos e prontos para um golpe se

houvesse necessidade. Olhando para dentro, viram uma mulher de preto deitada de rosto para

baixo na palha. Morta? Não; ela se movia, gemia. “Qual é o problema?” Um rosto inchado,

manchado com listras de poeira cinzenta misturada a lágrimas, ergue-se para eles. “Qual é o

problema?” “Ele foi embora!” Que exclamação estranha, indistinta. Os lenhadores se

entreolham. Que é que ela está dizendo? Talvez seja estrangeira. “Qual é o problema?”, tornam a repetir. A mulher tem uma violenta explosão de choro. “Foi embora, foi embora! Ele foi

embora!”, ela soluça ininteligivelmente. “Ah, foi embora, isso é que ela está dizendo. Quem foi

embora?” “Ele me deixou.” “Quê?” “Me deixou...” “Que diabos...? Fale mais claro.” “Não

posso”, ela geme. “Ele levou meus dentes.” “Seus quê?” “Meus dentes!” E a voz aguda

transforma-se num grito, e ela torna a cair soluçante sobre a palha. Os lenhadores se entreolham

significativamente. Um deles leva o dedo indicador, grosso e de unha amarela, até o lado da

cabeça e faz círculos.

A srta. Penny consultou o relógio.

— Céus! — exclamou. — São quase três e meia da tarde. Tenho que voar. Não se esqueça

do serviço funerário — acrescentou enquanto vestia o casaco. — Os círios, o caixão negro no

meio da nave da igreja, as freiras com suas toucas de asas brancas, os cânticos tristes e a pobre

criatura encolhida, sem dentes, o rosto como o de uma velha — perguntando-se se não estaria

realmente e de fato morta. Perguntando-se se já não estaria no inferno. Adeus.