Contos escolhidos

Aldous Huxley · Capítulo 8 de 23

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Contos escolhidos

O sorriso de Gioconda

 

I

 

— SENHORITA PENCE JÁ A Svai descer, senhor.

— Obrigado — disse o sr. Hutton, sem se voltar.

A criada de Janet Spence era tão feia — feia de propósito, sempre lhe parecera, malignamente, criminosamente feia — que ele não suportava olhar para ela mais que o

necessário. A porta fechou-se. Deixado a sós, o sr. Hutton levantou-se e começou a caminhar

pela sala, contemplando com os olhos meditativos os objetos familiares que ela continha.

Fotografias de estatuária grega, fotografias do Fórum romano, gravuras coloridas de obras-

primas italianas, todas bastante fiéis e conhecidas. Coitada, querida Janet, que pedante — que

esnobe intelectual! Seu verdadeiro gosto estava ilustrado naquela aquarela feita pelo artista de

calçada, aquela pela qual pagara meia coroa (e trinta e cinco xelins pela moldura). Com que

frequência ele a ouvira contar a história, com que frequência discorria sobre as belezas daquela competente imitação de uma oleografia! “Um verdadeiro Artista nas ruas”, e podia-se ouvir o A

maiúsculo em Artista quando ela falava. Ela fazia as pessoas sentirem que parte da glória dele

tinha entrado em Janet Spence quando ela lhe dera aquela meia coroa pela cópia da oleografia.

Insinuava um elogio a seu próprio gosto e discernimento. Um genuíno Mestre Antigo por meia

coroa. Coitada, querida Janet!

O sr. Hutton estacou diante de um pequeno espelho oblongo. Inclinando-se um pouco para

poder ver o rosto por inteiro, passou um dedo branco e bem tratado pelo bigode. Era tão

cacheado e tão vivamente castanho-avermelhado quanto fora vinte anos antes. Os cabelos ainda mantinham sua cor, e não havia sinal de calvície — apenas certa elevação da testa,

“shakespeariana”, pensou o sr. Hutton, com um sorriso, examinando a extensão lisa e polida de

sua testa.

Outros enfrentam nossa pergunta, tu estás livre... Passos no mar... Majestade...

Shakespeare, devias estar vivo a essa hora. Não, isso era Milton, não era? Milton, a Senhora de

Cristo. Não havia coisa alguma de senhora nele. Era o que as mulheres chamariam de um

homem másculo. Era por isso que gostavam dele — pelo bigode cacheado, castanho-

avermelhado, e o discreto cheiro de tabaco. O sr. Hutton tornou a sorrir; gostava de zombar de si mesmo. Da Senhora de Cristo? Não, não. Ele era o Cristo das Senhoras. Muito bonito, muito

bonito. O Cristo das Senhoras. O sr. Hutton desejou que houvesse alguém a quem ele pudesse

contar a brincadeira. A coitada e querida Janet não ia apreciá-la, que pena!

Endireitou-se, ajeitou os cabelos e reencetou a peregrinação. Dane-se o Fórum romano;

odiava aquelas fotografias horrendas.

De repente tomou consciência de que Janet Spence estava na sala, parada, junto à porta. O

sr. Hutton assustou-se, como se tivesse sido pego num ato criminoso. Essas aparições silenciosas e fantasmagóricas eram um dos talentos peculiares de Janet Spence. Talvez ela

estivesse na sala todo o tempo, talvez o tivesse visto olhando-se no espelho. Impossível! Mas,

mesmo assim, era inquietante.

— Ah, você me deu um susto — disse o sr. Hutton, recuperando o sorriso e avançando com

a mão estendida ao encontro dela.

A srta. Spence estava sorrindo também: seu sorriso de Gioconda, ele uma vez assim o

chamara num momento de lisonja meio irônica. A srta. Spence levara o elogio a sério e sempre

tentava corresponder ao padrão de Leonardo. Continuou sorrindo em silêncio enquanto o sr.

Hutton apertava-lhe a mão; isso fazia parte da Gioconda.

— Espero que esteja bem — falou o sr. Hutton. — Sua aparência é boa.

Que rosto estranho ela tinha! Aquela boca pequena enrugada para a frente pela expressão de Gioconda num pequeno focinho com um buraco no meio, como que para assobiar — era

como um porta-caneta visto de frente. Acima da boca um nariz bem-feito, finamente aquilino. Os

olhos grandes, brilhantes e escuros, com a grandeza, o brilho e a escuridão que parecem

convidar terçóis e uma eventual infiltração sanguínea. Eram olhos belos, mas imutavelmente

severos. O porta-caneta podia ter seu efeito de Gioconda, mas os olhos nunca se alteravam em

sua seriedade. Acima deles, um par de sobrancelhas negras, ousadamente arqueadas e muito

pintadas, davam surpreendente ar de poder, como o de uma matrona romana, à parte superior do

rosto. Os cabelos eram escuros e igualmente romanos; Agripina com as sobrancelhas erguidas.

— Resolvi passar por aqui a caminho de casa — continuou o sr. Hutton. — Ah, é bom

estar de volta — indicou com um aceno as flores nos vasos, a luz do sol e o verdor além das

janelas —, é bom estar de volta ao campo depois de um abafado dia de negócios na cidade.

A srta. Spence, que se sentara, indicou uma cadeira a seu lado.

— Não, na verdade não posso me sentar — protestou o sr. Hutton. — Preciso voltar para

ver como está a coitada da Emily. Ela estava meio indisposta hoje de manhã. — No entanto,

sentou-se. — São essas danadas cólicas do fígado. Ela está sempre com isso. Mulheres... —

Interrompeu-se e pigarreou, para esconder o fato de que tinha falado. Estava prestes a dizer que mulheres de digestão fraca não deveriam casar-se; mas o comentário era cruel demais, e ele

realmente não achava isso. Além do mais, Janet Spence acreditava nas chamas eternas e nas

ligações espirituais. — Ela espera estar boa para receber você para o almoço amanhã —

continuou. — Você pode vir? Venha! — Sorriu persuasivamente. — O convite é meu também,

você sabe.

Ela baixou os olhos, e o sr. Hutton quase pensou detectar certo rubor nas faces dela. Era

um cumprimento; ele acariciou o bigode.

— Eu gostaria, se você acha que Emily está realmente boa para receber visitas...

— Claro. Você vai lhe fazer bem. Vai fazer bem a nós dois. Na vida de casado, três é com

frequência melhor que dois.

— Ah, você é um cínico.

O sr. Hutton sempre tinha vontade de dizer “Au au au” quando ouvia essa palavra. Irritava-

o mais do que qualquer outra palavra da língua. Mas em vez de latir ele apressou-se a protestar.

— Não, não. Estou só dizendo uma verdade melancólica. A realidade nem sempre alcança

o ideal, sabe. Mas isso não me faz acreditar menos no ideal. Na verdade, acredito nele com

paixão — o ideal de um casamento entre duas pessoas em perfeito acordo. Acho que é possível. Tenho certeza de que é.

Fez uma pausa significativa e olhou para ela com expressão maliciosa. Uma virgem de

trinta e seis anos, mas ainda não murcha; ela tinha seus encantos. E havia algo realmente enigmático nela. A srta. Spence não respondeu, mas continuou a sorrir. Havia ocasiões em que o

sr. Hutton ficava um tanto entediado com a Gioconda. Levantou-se.

— Tenho de ir agora. Adeus, misteriosa Gioconda.

O sorriso ficou mais intenso, como que concentrado num focinho mais afilado. O sr. Hutton

fez um gesto digno do Cinquecento e beijou-lhe a mão estendida. Era a primeira vez que tinha

feito tal coisa; o ato não pareceu ter sido desaprovado.

— Mal posso esperar pelo dia de amanhã.

— É mesmo?

Como resposta o sr. Hutton mais uma vez beijou-lhe a mão, depois voltou-se para sair. A

srta. Spence acompanhou-o até o pórtico.

— Onde está seu carro? — perguntou ela.

— Deixei-o junto ao portão.

— Vou com você até lá.

— Não, não. — O sr. Hutton estava brincalhão, porém decidido. — Não faça isso. Eu

simplesmente proíbo.

— Mas eu gostaria de ir — protestou a srta. Spence, lançando-lhe um sorriso de Gioconda.

O sr. Hutton ergueu a mão.

— Não — repetiu, e então, com um gesto que era quase um beijo, começou a correr pela

alameda com graça, na ponta dos pés, com passos longos e saltitantes como os de um garoto.

Tinha orgulho de sua corrida; era maravilhosamente juvenil. Ademais, ficou feliz por a alameda

não ser tão comprida. Na última curva, antes de sair do campo de visão da casa, ele estacou e

voltou-se. A srta. Spence ainda estava parada nos degraus, sorrindo seu sorriso. Ele acenou com

a mão, e dessa vez bem aberta e definidamente mandou um beijo em sua direção. Depois,

reencetando sua magnífica corrida, rodeou o último promontório escuro de árvores. Uma vez fora do campo de visão da casa ele deixou suas passadas altas reduzirem-se a um trote, e, por

fim, a um caminhar normal. Pegou o lenço e começou a enxugar o pescoço dentro do colarinho.

Que tolos, que tolas! Será que existia um asno igual à coitada, querida Janet Spence? Nunca, a

não ser que fosse ele mesmo. Não restava dúvida de que ele era um grande tolo maligno, já que,

pelo menos, tinha consciência de sua tolice e ainda persistia nela. Por que persistia? Ah, o

problema que ele próprio era, o problema que as outras pessoas eram...

Chegou ao portão. Um automóvel grande e de belíssima aparência estava parado na rua.

— Para casa, M’Nab. — O motorista tocou no boné. — E pare na encruzilhada do caminho, como sempre — acrescentou o sr. Hutton, falando para a obscuridade que espreitava

lá dentro.

— Ah, Ursinho, como você demorou! — Era uma voz fresca e infantil que dizia essas

palavras. Havia um levíssimo toque de impureza cockney[26]no som das vogais.

O sr. Hutton dobrou seu corpo comprido e entrou no carro com a agilidade de um animal

chegando à toca.

— Foi mesmo? — disse ele, fechando a porta. O carro começou a andar. — Você deve ter

sentido muita saudade, se achou o tempo tão comprido. — Recostou-se no assento baixo; um calor aconchegante envolveu-o.

— Ursinho... — e com um suspiro de contentamento uma encantadora cabecinha reclinou-

se no ombro do sr. Hutton. Embevecido, ele baixou os olhos para o lado, para o rosto redondo e infantil.

— Sabe, Dóris, você parece os retratos de Louise de Kéroual. — Passou os dedos pela

massa de cabelos cacheados.

— Quem é Louise de Kera-sei-lá-o-quê? — perguntou Dóris afastando-se.

— Infelizmente ela era! Fuit. Todos seremos “era” um dia desses. Enquanto isso...

O sr. Hutton cobriu de beijos o rosto infantil. O carro rodava suavemente. As costas de

M’Nab, através da janela fronteira, eram petreamente impressionantes, as costas de uma estátua:

— Suas mãos — Dóris murmurou. — Ah, você não deve tocar em mim. Elas me dão choques elétricos.

O sr. Hutton adorou-a pela imbecilidade virginal dessas palavras. Como as pessoas

descobrem o corpo tarde na vida!

— A eletricidade não está em mim, está em você. — Tornou a beijá-la, sussurrando seu

nome várias vezes: Dóris, Dóris! Dóris! Denominação científica do rato marinho, pensava ele

enquanto beijava a garganta que ela lhe oferecia, branca e estendida como a garganta de uma

vítima esperando a faca do sacrifício. O rato marinho era uma salsicha com pele iridescente;

muito curioso. Ou Dóris seria o pepino marinho, que em momentos de perigo vira-se do avesso? Teria realmente de voltar a Nápoles, só para ver o aquário. As criaturas do mar eram fabulosas,

incrivelmente fantásticas.

— Ah, Ursinho! (Mais zoologia; mas ele era apenas um animal terrestre. Suas pobres

piadinhas!) — Ursinho, estou tão feliz!

— Eu também — disse o sr. Hutton. Seria verdade?

— Mas eu queria saber se está certo. Diga, Ursinho, está certo ou errado?

— Ah, minha querida, é exatamente o que venho perguntando nos últimos trinta anos.

— Fale sério, Ursinho. Quero saber se está certo; se está certo que eu esteja aqui com você e que a gente se ame, e que eu sinta choques elétricos quando você me toca.

— Certo? Bem, claro que é bom que você sinta choques elétricos em vez de repressões

sexuais. Leia Freud; repressões são o diabo.

— Ah, você não me ajuda. Por que nunca fala sério? Se soubesse como fico infeliz às

vezes, pensando que não está certo. Talvez, sabe, talvez haja um inferno, e tudo isso. Não sei o

que fazer. Às vezes acho que devia parar de amar você.

— Mas você conseguiria? — perguntou o sr. Hutton, confiante no poder de sua sedução e

de seu bigode.

— Não, Ursinho, você sabe que eu não conseguiria. Mas poderia fugir, poderia me

esconder de você, poderia me trancar e me obrigar a não procurar você.

— Bobinha! — Ele abraçou-a com mais força.

— Ah, meu bem, espero que não esteja errado. E às vezes não me importo se estiver.

O sr. Hutton ficou emocionado. Tinha uma certa afeição protetora por essa criaturinha.

Encostou a face nos cabelos dela e assim, abraçados, ficaram em silêncio, enquanto o carro,

balançando um pouco devido à velocidade, parecia engolir com voracidade a estrada branca e

as cercas empoeiradas.

— Até logo, até logo.

O carro seguiu, aumentou a velocidade, desapareceu atrás de uma curva, e Dóris ficou

parada junto ao poste na encruzilhada, ainda tonta e fraca com o langor provocado por aqueles beijos e o choque elétrico daquelas mãos gentis. Teve que respirar fundo, endireitar-se

vagarosamente, antes de sentir-se suficientemente forte para iniciar sua caminhada para casa.

Tinha quase meio quilômetro para inventar as mentiras necessárias.

Sozinho, o sr. Hutton de repente descobriu ser a presa de um tédio apavorante.

 

II

 

A sra. Hutton estava deitada no sofá em seu quarto de vestir, jogando paciência. Apesar do calor

da noite de julho, um fogo ardia na lareira. Um lulu da Pomerânia preto, exaurido pelo calor e

pela fadiga da digestão, dormia diante do fogo.

— Ufa! Não está quente demais aqui? — perguntou o sr. Hutton ao entrar no aposento.

— Você sabe que preciso ficar aquecida, querido. — A voz parecia à beira das lágrimas.

— Sinto tantos arrepios...

— Espero que esteja melhor hoje.

— Não muito, infelizmente.

A conversa estagnou. O sr. Hutton apoiou-se à prateleira sobre a lareira. Baixou os olhos

para o lulu adormecido a seus pés, e com a ponta da bota direita rolou o cachorrinho e esfregou-

lhe o peito e a barriga manchados de branco. O animal continuou deitado, em êxtase inerte. A

sra. Hutton continuou jogando paciência. Chegando a um impasse, ela alterou a posição de uma

carta, pegou outra de volta e continuou jogando. Sua paciência sempre se manifestava.

— O dr. Libbard acha que eu devia ir para Llandrindrod Wells no verão.

— Bem, então vá, minha querida. Vá, é claro.

O sr. Hutton estava pensando nos acontecimentos da tarde: como ele e Dóris tinham ido de

carro até o bosque, tinham deixado o carro estacionado sob a sombra das árvores e caminhado

juntos para o sol sem vento da chapada de greda.

— Preciso beber as águas por causa do meu fígado, e ele acha que eu deveria fazer

massagem e um tratamento elétrico também.

Chapéu na mão, Dóris perseguira quatro borboletas azuis que dançavam juntas em volta de

uma flor de saudade com um movimento que era como o piscar de um fogo azul. O fogo azul

explodiu e espalhou-se em faíscas que giravam; ela as perseguira, rindo e gritando como uma criança.

— Tenho certeza de que vai lhe fazer bem, minha querida.

— Estive imaginando se você viria comigo, meu querido.

— Mas você sabe que vou à Escócia no final do mês.

A sra. Hutton ergueu os olhos suplicantes.

— É a viagem — disse. — A ideia é um pesadelo. Não sei se vou conseguir. E você sabe

que não consigo dormir em hotéis. E há a bagagem e todas essas preocupações. Não posso ir

sozinha.

— Mas você não estará sozinha. Sua criada estará com você.

Ele falou com impaciência. A mulher doente estava usurpando o lugar da mulher saudável.

Ele estava sendo levado para longe da lembrança da chapada iluminada pelo sol e da garota

viva e sorridente, de volta para o aposento insalubre, superaquecido, e sua queixosa ocupante.

— Acho que não vou poder ir.

— Mas você tem de ir, minha cara, se o médico mandar. Além disso, uma mudança vai lhe

fazer bem.

— Acho que não.

— Mas Libbard acha que sim, e ele sabe do que está falando.

— Não, não vou aguentar. Estou fraca demais. Não posso ir sozinha. — A sra. Hutton tirou

um lenço da bolsa de seda preta e levou-o aos olhos.

— Bobagem, minha cara, você precisa fazer um esforço.

— Prefiro ser deixada em paz para morrer aqui. — Ela agora chorava de verdade.

— Ah, Deus! Ora, seja razoável. Agora escute, por favor. — A sra. Hutton apenas soluçou

com mais violência. — Ah, que é que se pode fazer? — Ele deu de ombros e saiu do aposento.

O sr. Hutton tinha consciência de que não se comportara com a paciência necessária; mas

nada podia fazer. Muito cedo em sua vida descobrira que não apenas não sentia pena dos

pobres, fracos, doentes ou deformados; na verdade, os odiava. Uma ocasião, quando calouro,

passara três dias numa missão no East End. Voltou cheio de um nojo profundo e indelével. Em

vez de se apiedar, ele abominava os infelizes. Sabia que não era uma emoção muito bonita, e a

princípio envergonhava-se dela. Finalmente decidira que era de seu temperamento, inevitável, e desistiu dos escrúpulos. Emily era saudável e bonita quando ele se casara com ela. Ele a amava

então. Mas agora — era culpa dele ela estar assim?

O sr. Hutton jantou sozinho. A comida e a bebida deixaram-no mais benevolente do que

antes do jantar. Para desculpar-se por sua demonstração de impaciência foi ao quarto da esposa

e ofereceu-se para ler para ela. Ela ficou comovida, aceitou a oferta, cheia de gratidão, e o sr.

Hutton, que tinha particular orgulho de sua pronúncia, sugeriu uma pequena leitura em francês.

— Francês? Aprecio tanto o francês. — A sra. Hutton falava da língua de Racine como se

falasse de um prato de ervilhas.

O sr. Hutton correu à biblioteca e voltou com um volume amarelo. Começou a ler. O

esforço de pronunciar perfeitamente absorveu toda a sua atenção. Mas como seu sotaque era

bom! A sua perfeição parecia melhorar a qualidade do romance que lia.

No final de quinze páginas um som inconfundível chamou-lhe a atenção. Ergueu os olhos: a

sra. Hutton adormecera. Ficou imóvel por algum tempo, olhando com uma curiosidade

desinteressada para o rosto adormecido. Ele já fora lindo, antes; antes, havia muito tempo, a

visão daquele rosto, sua lembrança, suscitavam uma emoção profunda, talvez mais do que já

sentira antes ou depois. Agora ele estava vincado e cadavérico. A pele esticava-se sobre as maçãs do rosto, sobre o nariz agudo como o bico de um pássaro. Os olhos fechados

apresentavam-se perdidos em profundas órbitas. A luz da lâmpada, batendo no rosto de lado,

enfatizava com luz e sombra suas cavidades e projeções. Era o rosto de um Cristo morto pintado

por Morales.

 

Le squelette était invisible

Aux temps heureux de l’art païen[27]

 

Estremeceu e saiu do aposento pé ante pé.

No dia seguinte a sra. Hutton desceu para o almoço. Tivera algumas palpitações

desagradáveis durante a noite, mas sentia-se melhor agora. Além disso, queria ser gentil com

sua convidada. A srta. Spence ouviu suas queixas sobre Llandrindrod Wells e foi pródiga em solidariedade, generosa em conselhos. O que quer que dissesse era sempre dito com

intensidade. Inclinava-se para a frente, apontada, por assim dizer, como uma pistola e

disparando suas palavras. Bang! A pólvora em sua alma era acesa, e as palavras sibilavam pelo

cano estreito de sua boca. Ela era uma metralhadora crivando sua anfitriã de solidariedade. O

sr. Hutton já sofrera bombardeios semelhantes, a maioria de caráter literário ou filosófico —

bombardeios de Maeterlinck, da sra. Besant, de Bergson, de William James. Hoje os projéteis

eram medicinais. Ela falou sobre insônia, estendeu-se sobre as virtudes de drogas inofensivas e

de especialistas generosos. Sob o bombardeio a sra. Hutton abriu-se como uma flor ao sol.

O sr. Hutton observava em silêncio. O espetáculo de Janet Spence despertava nele uma

curiosidade infalível. Ele não era suficientemente romântico para imaginar que todos os rostos

escondiam uma faceta interior de beleza ou estranheza, que a conversa fiada de todas as

mulheres era como uma neblina sobre misteriosos abismos. A esposa, por exemplo, e Dóris;

elas nada mais eram do que pareciam ser. Mas com Janet Spence era, de certo modo, diferente.

Ali podia-se ter certeza de que havia uma espécie qualquer de rosto estranho sob o sorriso de

Gioconda e as sobrancelhas romanas. A única pergunta era: o que exatamente havia ali? O sr.

Hutton não conseguia descobrir.

— Mas talvez você não precise ir para Llandrindrod — dizia a srta. Spence. — Se ficar

boa logo, o dr. Libbard vai dispensá-la.

— Só espero que sim. Realmente, eu me sinto bem melhor hoje.

O sr. Hutton sentiu-se envergonhado. Até que ponto era a falta de solidariedade dele que a

impedia de sentir-se bem todos os dias? Mas consolou-se refletindo que era apenas um caso de

sentir-se, não de estar melhor. A solidariedade não conserta um fígado doente ou um coração

fraco.

— Minha cara, eu não comeria essas groselhas se fosse você — disse ele, subitamente apreensivo. — Sabe que Libbard proibiu tudo o que tiver casca e caroço.

— Mas gosto tanto delas — protestou a sra. Hutton. — E estou me sentindo tão bem hoje.

— Não seja tirano — falou a srta. Spence, olhando primeiro para ele e depois para a

esposa. — Deixe a pobre enferma comer o que quiser; vai lhe fazer bem. — Colocou a mão no

braço da sra. Hutton e deu-lhe dois ou três tapinhas afetuosos.

— Obrigada, minha querida. — A sra. Hutton serviu-se de groselhas cozidas.

— Bem, não me culpe se elas lhe fizerem mal.

— Alguma vez culpei você, meu bem?

— Você não tem do que me culpar — respondeu o sr. Hutton em tom brincalhão. — Sou o

marido perfeito.

Depois do almoço sentaram-se no jardim. Da ilha de sombra sob o velho cipreste viam o

extenso gramado, no qual os canteiros de flores faiscavam com um brilho metálico.

O sr. Hutton respirou profundamente o ar quente e perfumado.

— É bom estar vivo — comentou.

— Apenas estar vivo — repetiu a esposa, estendendo para o sol a mão pálida e de juntas

grossas.

Uma criada trouxe o café; os bules de prata e as xícaras azuis foram colocados numa mesa

dobrável junto ao grupo de cadeiras.

— Ah, o meu remédio! — exclamou a sra. Hutton. — Vá buscá-lo, sim, Clara? A garrafa branca no aparador.

— Eu vou — falou o sr. Hutton. — De qualquer maneira, tenho de ir buscar um charuto.

Correu na direção da casa. Na soleira, voltou-se por um instante. A criada caminhava de

volta pelo gramado. A esposa estava sentada em sua espreguiçadeira, ocupada em abrir seu

guarda-sol branco. A srta. Spence estava inclinada sobre a mesa servindo o café. Ele entrou na

fresca obscuridade da casa.

— Gosta de açúcar em seu café? — perguntou a srta. Spence.

— Sim, por favor. Ponha bastante. Vou beber depois do remédio, para tirar o gosto.

A sra. Hutton recostou-se na cadeira, baixando a sombrinha sobre os olhos para esconder

de sua visão o céu ardente.

Atrás dela, a srta. Spence fazia ruídos delicados com as xícaras de café.

— Coloquei três colheres cheias. Isso deve tirar o gosto. E aí vem o remédio.

O sr. Hutton reaparecera, trazendo uma taça cheia até a metade de um líquido claro.

— O cheiro é delicioso — comentou, entregando-o à esposa.

— É só o aromatizante que eles colocam. — Bebeu tudo de um gole, estremeceu e fez uma

careta. — Ui, é tão ruim. Me dê o café.

A srta. Spence passou-lhe a xícara; ela tomou um gole.

— Você o engoliu feito um xarope. Mas está muito bom, depois desse remédio atroz.

Às três e meia a sra. Hutton queixou-se de que não se sentia tão bem quanto antes e entrou

para deitar-se. O marido gostaria de ter dito algo sobre as groselhas, mas conteve-se; o triunfo

de um “não lhe disse?” seria demasiadamente fácil. Em vez disso, foi solidário e deu-lhe o

braço até a casa.

— Um descanso vai lhe fazer bem — disse. — A propósito, não estarei de volta antes do

jantar.

— Mas por quê? Aonde você vai?

— Prometi ir à casa de Johnson esta tarde. Temos que discutir o memorial de guerra, sabe.

— Ah, preferia que você não fosse. — A sra. Hutton estava quase em lágrimas. — Não

pode ficar? Não gosto de ficar sozinha em casa.

— Mas, minha cara, prometi há várias semanas. — Era uma amolação ter de mentir assim.

— E agora preciso voltar e cuidar da srta. Spence.

Beijou-a na testa e tornou a sair para o jardim. A srta. Spence recebeu-o objetiva e

veemente.

— Sua esposa está terrivelmente doente — disparou contra ele.

— Achei que ela ficou muito melhor quando você veio.

— Isso foi puramente nervoso, puramente nervoso. Eu a estava observando de perto. Com

um coração nessas condições e a digestão destruída — sim, destruída — tudo pode acontecer.

— Libbard não tem uma opinião tão pessimista sobre a saúde da pobre Emily. — O sr.

Hutton abriu o portão que levava do jardim à alameda; o carro da srta. Spence estava esperando

perto da porta da frente.

— Libbard é só um médico rural. Você devia consultar um especialista.

Ele não conteve o riso.

— Você tem uma paixão macabra por especialistas.

A srta. Spence ergueu a mão em protesto.

— Estou falando sério. Acho que a coitada da Emily está em péssimo estado. Qualquer

coisa pode acontecer... a qualquer momento.

Ele ajudou-a a entrar no carro e fechou a porta. O motorista ligou o motor e acomodou-se

em seu banco, pronto para partir.

— Posso mandar seguir? — Ele não tinha vontade alguma de continuar a conversa.

A srta. Spence inclinou-se para a frente e disparou um sorriso de Gioconda na direção

dele.

— Lembre-se, espero que venha me ver logo.

Ele sorriu mecanicamente, emitiu um ruído educado e, quando o carro pôs-se em

movimento, acenou com a mão. Estava feliz por ficar sozinho.

Poucos minutos depois o próprio sr. Hutton saiu de carro. Dóris estava esperando na

encruzilhada. Jantaram juntos a trinta quilômetros de casa, num hotel de beira de estrada. Era

uma dessas refeições ruins e caras que só são feitas em hotéis do campo frequentados por

motoristas. Aquilo revoltou o sr. Hutton, mas Dóris gostou. Ela sempre gostava das coisas. O sr.

Hutton pediu uma marca não muito boa de champanhe. Desejava ter passado a noite em sua

biblioteca.

Na volta para casa Dóris estava levemente embriagada e bastante carinhosa. Estava muito

escuro dentro do carro, mas, olhando para a frente, além da figura imóvel de M’Nab, podiam

ver um universo brilhante e estreito de formas e cores resgatadas da escuridão pelos faróis.

Eram mais de onze horas quando o sr. Hutton chegou a casa. O dr. Libbard esperava no

vestíbulo. Era um homem pequeno, com mãos delicadas e feições bem formadas, quase

femininas. Seus olhos castanhos eram grandes e melancólicos. Costumava passar muito tempo

sentado à cabeceira de seus pacientes, olhando tristemente com aqueles olhos e falando em voz

pesarosa e baixa sobre nada em particular. Sua pessoa exalava um cheiro agradável, sem dúvida antisséptico, mas ao mesmo tempo suave e discretamente delicioso.

— Libbard? — disse o sr. Hutton, surpreso. — Você aqui? Minha esposa não está bem?

— Tentamos encontrá-lo mais cedo — respondeu a voz suave e melancólica. — Pensava-

se que você estava na casa do sr. Johnson, mas eles não tinham notícias suas.

— Não, não consegui chegar. O carro quebrou — respondeu o sr. Hutton irritado. Era

desagradável ser pego em uma mentira.

— Sua esposa queria vê-lo com urgência.

— Bem, posso vê-la agora. — O sr. Hutton dirigiu-se para a escada.

O dr. Libbard colocou a mão no braço dele.

— Infelizmente é tarde demais.

— Tarde demais? — Começou a tentar tirar o relógio que não queria sair do bolso.

— A sra. Hutton faleceu há meia hora.

A voz permaneceu regular em sua suavidade, a melancolia dos olhos não se aprofundou. O

dr. Libbard falava da morte como falaria de uma partida local de críquete. Todas as coisas eram

igualmente vãs e deploráveis.

O sr. Hutton surpreendeu-se pensando nas palavras de Janet Spence. A qualquer momento, a qualquer momento. Ela estava extraordinariamente certa.

— Que aconteceu? — perguntou. — Qual foi a causa?

O dr. Libbard explicou. Tinha sido uma parada cardíaca provocada por um violento ataque de náusea, causado, por sua vez, pela ingestão de algo de natureza indigesta. Groselhas?,

sugeriu o sr. Hutton. Muito provável. Fora demais para o coração. Havia uma doença valvular

crônica: alguma coisa cedera sob o esforço. Estava tudo acabado; ela não deve ter sofrido

muito.

 

III

 

— É uma pena que tenham escolhido o dia do jogo entre Eton e Harrow para o funeral — dizia

o velho general Grego, de pé, cartola na mão, sob a sombra do portão, enxugando o rosto com o

lenço.

O sr. Hutton ouviu o comentário e com dificuldade conteve o desejo de infligir um

doloroso castigo corporal ao general. Tinha vontade de atingir o velho brutamontes no meio de

seu rosto grande e vermelho. Monstruosa amora gigante, salpicada de comida! E o respeito

pelos mortos? Ninguém se importava? Na teoria ele não se importava muito; que os mortos enterrem seus mortos. Mas ali, à beira da sepultura, ele se pegara de fato soluçando. Pobre

Emily, eles tinham sido muito felizes tempos antes. Agora ela jazia no fundo de um buraco de

dois metros. E ali estava Grego reclamando que não podia ir ao jogo entre Eton e Harrow.

O sr. Hutton olhou em volta, para os grupos de figuras negras que saíam lentamente do adro

em direção ao grupo de carruagens e automóveis estacionados na estrada. Contra o fundo

brilhante da grama, das flores e das folhagens de julho, tinham uma aparência horrivelmente

estranha e pouco natural. Agradava-lhe pensar que todas essas pessoas logo estariam mortas

também.

Naquela noite o sr. Hutton ficou até tarde em sua biblioteca lendo a vida de Milton. Não

havia uma razão particular para tê-lo escolhido; foi o livro que primeiro lhe caiu nas mãos, só

isso. Era mais de meia-noite quando terminou. Levantou-se da poltrona, destrancou as portas-

janelas e saiu para o pequeno terraço pavimentado. A noite era clara e silenciosa. O sr. Hutton

olhou para as estrelas e para os buracos entre elas, baixou os olhos para os gramados obscuros

e as flores sem brilho do jardim e deixou-os passear pela paisagem longínqua, preta e cinzenta

sob a lua.

Começou a pensar com uma espécie de violência confusa. Havia as estrelas, havia Milton. Um homem pode de alguma forma ter a grandeza das estrelas e da noite. Esplendor, nobreza.

Mas existe, a sério, uma diferença entre o nobre e o ignóbil? Milton, as estrelas, a morte e ele

próprio — ele próprio. A alma, o corpo; a natureza elevada e a mais baixa. Talvez houvesse

alguma coisa nisso, afinal. Milton tinha um deus a seu lado, e a virtude. E ele, o que tinha?

Nada, coisa nenhuma. Havia apenas os pequenos seios de Dóris. Qual era o sentido disso tudo?

Milton, as estrelas, a morte, e Emily em sua sepultura, Dóris e ele próprio — sempre ele

próprio...

Ah, ele era um ser fútil e asqueroso. Tudo o convencia disso. Era um momento solene. Falou alto: “Vou conseguir, vou conseguir”. O som de sua própria voz na escuridão era

assustador; parecia-lhe que fizera um juramento infernal ao qual submetia até mesmo os deuses: “Vou conseguir, vou conseguir”. No passado houvera dias de Ano-Novo e aniversários solenes,

quando ele sentira a mesma contrição e registrara resoluções semelhantes. Todas tinham se

dissipado, essas resoluções, como fumaça, até o nada. Mas esse era um momento maior e ele pronunciara um julgamento mais temível. No futuro tudo seria diferente. Sim, ele viveria pela

razão, seria diligente, conteria seus apetites, devotaria sua vida a um bom propósito qualquer.

Estava resolvido e assim seria.

Na prática ele se via passando as manhãs em empreendimentos agrícolas, cavalgando com

o capataz, providenciando para que a terra fosse cultivada pelo melhor método moderno —

silos, adubo artificial e colheita contínua, tudo isso. O resto do dia deveria ser dedicado ao

estudo sério. Havia aquele livro que há tanto tempo pretendia escrever — O efeito das doenças

na civilização.

O sr. Hutton foi para a cama humilde e contrito, mas com a sensação de que a graça o

penetrara. Dormiu sete horas e meia e acordou para encontrar o sol brilhando. As emoções da

noite anterior tinham sido transformadas por uma noite de sono em sua costumeira alegria.

Somente muitos segundos depois de sua volta à consciência foi que se lembrou de sua

resolução, de seu juramento estígio. Milton e a morte pareciam de alguma forma diferentes à luz

do sol. Quanto às estrelas, não estavam lá. Mas as resoluções eram boas; mesmo à luz do dia ele

percebia isso. Mandou selarem o cavalo depois do café da manhã e cavalgou pela fazenda com

o capataz. Depois do almoço leu Tucídides sobre a praga em Atenas. À noite fez algumas anotações sobre a malária no sul da Itália. Enquanto se despia lembrou-se de que havia uma boa

anedota no livro de piadas de Skelton acerca da doença do suor. Teria anotado o fato, se tivesse

encontrado um lápis.

Na sexta manhã de sua nova vida o sr. Hutton encontrou em sua correspondência um

envelope endereçado naquela caligrafia peculiarmente vulgar que ele sabia ser de Dóris. Abriu-

o e começou a ler. Ela não sabia o que dizer; as palavras eram tão impróprias. A mulher dele

morrendo assim, e tão de repente — era horrível demais. O sr. Hutton suspirou, mas seu

interesse reviveu um pouco ao continuar a ler:

 

A morte é tão apavorante, nunca penso nela. Mas quando acontece uma coisa assim, ou quando estou me sentindo doente ou deprimida, não consigo deixar de pensar que ela está tão perto, e penso em todas as coisas más que fiz e sobre você e eu, e me pergunto o que acontecerá, e fico muito assustada. Estou tão sozinha, Ursinho, e tão infeliz, não sei o que fazer. Não consigo me livrar da ideia de morrer, estou tão infeliz e desamparada sem você. Não pretendia escrever-lhe; pretendia esperar até você tirar o luto e poder vir me ver de novo, mas eu estava tão sozinha e infeliz, Ursinho, tinha que escrever. Não pude evitar. Perdoe-me, quero você muito; não tenho ninguém no mundo além de você. Você é tão bom, gentil e compreensivo; não há ninguém como você. Nunca esquecerei como você foi bom e generoso para mim, e você é tão inteligente e sabe tantas coisas, não consigo entender como você chegou a prestar atenção em mim, pois você me ama um pouquinho, não ama, Ursinho?

 

O sr. Hutton sentiu vergonha e remorso. Que lhe agradecessem assim, ser venerado por ter

seduzido a garota — era demais. Tinha sido apenas um ato de irresponsabilidade imbecil.

Imbecil, idiota: não havia outra maneira de descrevê-lo. Pois, afinal, tivera muito pouco prazer

com aquilo. Levando tudo em consideração, provavelmente se entediara mais do que se

divertira. Antigamente ele se considerava um hedonista. Mas ser hedonista implica certo

processo de raciocínio, uma escolha deliberada de prazeres conhecidos, uma rejeição de

sofrimentos conhecidos. Aquilo tinha sido feito sem razão, contra ela própria. Pois ele sabia de antemão — tão bem, tão bem — que não havia interesse ou prazer a ser tirado desses casos infelizes. No entanto, cada vez que a coceira vaga o atingia ele sucumbia, envolvendo-se mais

uma vez na velha estupidez. Houvera Maggie, a criada da esposa, e Edith, a garota na fazenda, e

a sra. Pringole, e a garçonete em Londres, e outras — parecia haver dúzias delas. Tinha sido tudo estagnado e tedioso demais. Ele sabia que seria; sempre sabia. E no entanto, no entanto... A

experiência não ensina.

Pobre Dóris! Escreveria para ela carinhosamente, consoladoramente, mas não a veria de

novo. Um empregado veio avisar que o cavalo estava selado e esperando. Ele montou e partiu.

Nessa manhã o velho capataz estava mais irritante que de costume.

 

Cinco dias mais tarde Dóris e o sr. Hutton estavam sentados juntos no cais em Southend; Dóris,

de musselina branca com enfeites cor-de-rosa, irradiava felicidade; o sr. Hutton, pernas esticadas e cadeira inclinada, empurrava o Panamá para longe da testa e tentava sentir-se como

um viajante. Naquela noite, quando Dóris dormia, respirando calidamente a seu lado, ele

recapturou, naquele momento de escuridão e fadiga física, a emoção um tanto cósmica que o

dominara naquela tarde, menos de quinze dias antes, quando tomara sua grande resolução. E seu

juramento tão solene já tinha seguido o caminho de tantas outras resoluções. A falta de razão

triunfara; à primeira coceira do desejo ele cedera. Ele não tinha jeito, não tinha jeito.

Durante um longo tempo ficou deitado de olhos fechados, ruminando sua humilhação. A

jovem mexeu-se no sono. O sr. Hutton virou-se e olhou para ela. Entre as cortinas semicerradas entrava luz suficiente para mostrar o ombro nu e o braço, o pescoço e a massa escura de cabelos

sobre o travesseiro. Era linda, desejável. Por que ele ficava remoendo seus pecados? Qual a

importância disso? Se ele não tinha jeito, então pronto; faria o melhor possível de sua falta de

jeito. Um glorioso senso de irresponsabilidade encheu-o de repente. Estava livre,

magnificamente livre. Em uma espécie de exaltação ele puxou a jovem para si. Ela acordou,

surpresa, quase assustada sob seus beijos bruscos.

A tempestade de seu desejo diminuiu para uma espécie de alegria serena. Toda a atmosfera

parecia estar estremecendo com uma enorme gargalhada silenciosa.

— Será que alguém poderia amar você tanto quanto eu amo, Ursinho? — A pergunta

chegou tenuemente de mundos distantes do amor.

— Acho que conheço alguém que ama — respondeu o sr. Hutton. A gargalhada submarina

estava inchando, crescendo, prestes a romper a superfície de silêncio e ressoar.

— Quem? Diga. Que quer dizer? — A voz viera de bem perto; carregada de suspeita,

angústia, indignação, pertencia a esse mundo imediato.

— Ah!

— Quem?

— Você nunca vai adivinhar. — O sr. Hutton manteve a brincadeira até começar a ficar

enfadonha, e então pronunciou o nome: — Janet Spence.

Dóris não acreditou.

— A srta. Spence, da Mansão? Aquela velha? — Era ridículo. O sr. Hutton riu também.

— Mas é verdade — ele disse. — Ela me adora. — Ah, que grande piada! Iria vê-la assim

que voltasse: ver e conquistar. — Acho que ela quer se casar comigo — acrescentou.

— Mas você não iria... você não pretende...

O ar crepitava de humor. O sr. Hutton riu alto.

— Pretendo me casar com você — disse. Parecia-lhe a melhor piada que já fizera na vida.

Quando o sr. Hutton saiu de Southend, era mais uma vez um homem casado. Foi combinado

que, por enquanto, o fato seria mantido em segredo. No outono viajariam juntos ao estrangeiro e

o mundo seria informado. Por enquanto ele voltaria para sua própria casa e Dóris para a dela.

No dia seguinte à sua volta ele saiu à tarde para visitar a srta. Spence. Ela recebeu-o com o

velho sorriso Gioconda.

— Estava esperando sua vinda.

— Não consegui ficar longe — respondeu galantemente o sr. Hutton.

Sentaram-se no pavilhão de verão. Era um lugar agradável — um pequeno templo de

estuque escondido entre densas moitas de sempre-vivas. A srta. Spence deixara sua marca ali

pendurando sobre a cadeira uma placa ornamental azul e branca de Della Robbia.

— Estou pensando em ir para a Itália no outono — declarou o sr. Hutton. Ele se sentia como uma garrafa de cerveja de gengibre, prestes a explodir sua excitação borbulhante e alegre.

— Itália... — A srta. Spence fechou os olhos em êxtase. — Eu me sinto atraída por lá,

também.

— Por que não se deixa levar?

— Não sei. De algum modo não tenho energia e iniciativa para ir sozinha.

— Sozinha... — Ah, som de guitarras e de canções roucas! — É, viajar sozinho não é

muito divertido.

A srta. Spence recostou-se na cadeira sem falar. Os olhos ainda estavam fechados. O sr. Hutton acariciou o bigode. O silêncio prolongou-se pelo que parecia um longo tempo.

Diante da insistência para que ficasse para o jantar, o sr. Hutton não recusou. O

divertimento mal começara. A mesa foi posta na varanda. Através de seus arcos eles viam o

jardim em declive, até o vale lá embaixo e os montes mais distantes. A luz caía; o calor e o

silêncio eram opressivos. Uma enorme nuvem subia no céu, e havia sussurros distantes de

trovoada. A trovoada chegou mais perto, começou a soprar um vento e caíram os primeiros

pingos da chuva. A mesa foi retirada. A srta. Spence e o sr. Hutton ficaram sentados em meio à

escuridão crescente.

A srta. Spence rompeu um longo silêncio dizendo pensativamente:

— Acho que todo mundo tem direito a uma certa dose de felicidade, você não acha?

— Sem dúvida.

Mas aonde ela queria chegar? Ninguém faz generalizações sobre a vida a não ser que

pretenda falar sobre si mesmo. Felicidade: ele rememorou a própria vida e viu uma existência

alegre e plácida jamais perturbada por grandes tristezas, desconfortos ou sustos. Sempre tivera

dinheiro e liberdade; tinha podido fazer o que queria. Sim, ele imaginava que tinha sido feliz,

mais feliz que a maioria dos homens. E agora não era meramente feliz; tinha descoberto na irresponsabilidade o segredo da alegria. Estava prestes a dizer algo sobre sua felicidade

quando a srta. Spence continuou:

— Pessoas como eu e você têm o direito de ser felizes alguma vez na vida.

— Eu? — disse o sr. Hutton, surpreso.

— Pobre Henry! A vida não nos tratou muito bem.

— Ora, bem, podia ter me tratado pior.

— Você está sendo otimista. É muito corajoso de sua parte. Mas não pense que não posso

enxergar atrás da máscara.

A srta. Spence falava cada vez mais alto, à medida que a chuva caía cada vez mais forte.

Periodicamente o trovão interrompia suas palavras. Ela continuou a falar, gritando contra o

tonitroar.

— Eu compreendo você tão bem, e há tanto tempo.

Um relâmpago revelou-a, obstinada e decidida, inclinando-se na direção dele. Os olhos

eram dois canos de pistola, profundos e ameaçadores. A escuridão tornou a engoli-la.

— Você era uma alma solitária procurando uma alma companheira. Eu me solidarizava

com você em sua solidão. Seu casamento...

O trovão interrompeu a frase. A voz da srta. Spence tornou-se novamente audível com as

palavras:

— ... não podia oferecer companheirismo a um homem de sua classe. Você precisava de uma alma irmã.

Uma alma irmã — ele, uma alma irmã! Era absolutamente fantástico. “Georgette Leblanc, a

ex-alma irmã de Maurice Mae- terlinck.” Ele tinha visto isso no jornal alguns dias antes. Então

era assim que Janet Spence o pintara na imaginação — uma alma procurando seu par. E para

Dóris ele era a personificação do bem e o homem mais inteligente do mundo. E

verdadeiramente, que era ele? Quem sabe?

— Meu coração se comoveu. Eu podia compreender; também estava solitária. — A srta.

Spence pousou a mão no joelho dele. — Você foi tão paciente. — Outro relâmpago. Ela ainda estava decidida, perigosamente. — Você nunca se queixava. Mas eu podia adivinhar, eu podia

adivinhar.

— Que maravilhoso! — Então ele era uma âme incomprise. — Só mesmo a intuição

feminina...

O trovão explodiu e ecoou, diminuiu, e sobrou apenas o ruído da chuva. O trovão era a

gargalhada dele, aumentada, exteriorizada. Relâmpago e trovão lá estavam de novo, bem em

cima deles.

— Você não sente que tem dentro de si algo semelhante a essa tempestade? — Ele podia imaginá-la inclinada para a frente enquanto falava. — A paixão torna a pessoa igual aos

elementos.

Qual era a jogada dele agora? Ora, obviamente deveria ter dito “sim” e aventurado um

gesto inequívoco qualquer. Mas o sr. Hutton assustou-se de repente. A cerveja de gengibre

dentro dele ficara choca. A mulher estava falando sério, terrivelmente sério. Ele ficou

apavorado. Paixão?

— Não — respondeu desesperadamente. — Não há paixão.

Mas seu comentário não foi ouvido ou não foi levado em conta, pois a srta. Spence continuou em arrebatamento crescente, falando tão rapidamente e, no entanto, num sussurro tão

ardente e íntimo que o sr. Hutton achou muito difícil distinguir o que ela dizia. Ela estava

contando, pelo que ele podia entender, a história de sua vida. Os relâmpagos eram menos

frequentes agora, e havia longos intervalos de escuridão. Mas a cada clarão ele a via ainda

apontada na sua direção, ainda inclinada para a frente com uma intensidade aterrorizante. A

escuridão, a chuva e então o relâmpago, e lá estava o rosto dela, bem próximo. Uma máscara

pálida, de um branco esverdeado; os olhos grandes, o cano estreito da boca, as sobrancelhas

pesadas. Agripina, ou não era mais — sim, não era antes George Robey?[28]

Começou a fazer planos absurdos para fugir. Poderia subitamente escapar de um salto,

fingir que tinha visto um ladrão — pega ladrão! Pega ladrão! E disparar noite afora em

perseguição. Ou deveria dizer que se sentia fraco, um ataque de coração? Ou que tinha visto um fantasma, o fantasma de Emily, no jardim? Absorto em planos infantis, deixara de prestar

atenção às palavras da srta. Spence. O aperto espasmódico da mão dela chamou sua atenção.

— Eu o venerei por isso, Henry — ela estava dizendo.

Venerou-o por quê?

— O casamento é um laço sagrado, e seu respeito por ele, mesmo sendo o casamento,

como no seu caso, infeliz, fez com que eu respeitasse e admirasse você, e... será que ousarei

dizer a palavra...?

Ah, o ladrão, o fantasma no jardim! Mas era tarde demais. — ... sim, amasse você, Henry, ainda mais. Mas agora estamos livres, Henry.

Livres? Houve um movimento na escuridão, e ela estava ajoelhada no chão perto da

cadeira dele.

— Ah, Henry, Henry, eu também tenho sido infeliz.

Seus braços envolveram-no, e pelo tremor do corpo dela ele podia sentir que ela soluçava.

Podia ser um suplicante implorando misericórdia.

— Não faça isso, Janet — ele protestou. Aquelas lágrimas eram terríveis, terríveis. —

Agora não, agora não! Você tem que ficar calma; tem que ir para a cama. — Deu um tapinha no ombro dela e levantou-se desembaraçando-se do abraço. Deixou-a ainda caída no chão junto à

cadeira em que ele se sentara.

Tateando o caminho para o vestíbulo, e sem se deter para procurar o chapéu, ele saiu da

casa, tomando um cuidado infinito para fechar a porta da frente sem ruído atrás de si. As nuvens

tinham sido sopradas para longe e a lua brilhava no céu claro. Havia poças d’água ao longo de

toda a estrada, e o ruído de água corrente vinha das valas e sarjetas. O sr. Hutton caminhava sem

se importar de ficar molhado.

Como eram comoventes seus soluços! Junto com as emoções de pena e remorso que essa lembrança provocava nele havia um certo ressentimento: por que ela não podia ter jogado o

jogo que ele estava jogando — o jogo frio e divertido? Sim, mas todo o tempo ele sabia que ela

não jogaria, não poderia jogar esse jogo; ele sabia, mas persistira.

O que ela tinha dito sobre a paixão e os elementos? Alguma coisa absurdamente antiga,

mas verdadeira, verdadeira. Lá estava ela, uma nuvem de interior negro e carregada de trovões,

e ele, como um absurdo Benjamin Franklin, tinha mandado uma pipa para o coração do perigo.

Agora reclamava que seu brinquedo atraíra o raio.

Ela com certeza ainda estava ajoelhada junto à cadeira na varanda, chorando.

Mas por que ele não conseguira manter o jogo? Por que sua irresponsabilidade desertara,

deixando-o subitamente sóbrio num mundo frio? Não havia resposta para qualquer de suas

perguntas. Uma ideia queimava forte e luminosa em sua mente: a ideia de fuga. Precisava ir

embora imediatamente.

 

IV

 

— Em que está pensando, Ursinho?

— Em nada.

Silêncio. O sr. Hutton continuou imóvel, os cotovelos no parapeito do terraço, o queixo nas

mãos, contemplando Florença. Tinha alugado uma casa em uma das colinas ao sul da cidade. De um pequeno terraço elevado no final do jardim via-se um extenso vale fértil até a cidade e, atrás

dela, a massa escura do monte Morello e, para o leste, a colina de Fiesole, pontilhada de casas

brancas. Tudo estava claro e luminoso ao sol de setembro.

— Está preocupado com alguma coisa?

— Não, nada.

— Conte-me, Ursinho.

— Mas, minha cara, não há coisa alguma a dizer. — O sr. Hutton voltou-se, sorriu e deu um

tapinha na mão da jovem. — Acho que é melhor você entrar para a sesta. Está quente demais para você aqui.

— Muito bem, Ursinho. Você vem também?

— Quando terminar o charuto.

— Certo. Mas ande depressa, Ursinho. — Lentamente, com relutância, ela desceu os

degraus do terraço e se encaminhou para a casa.

O sr. Hutton continuou sua contemplação de Florença. Tinha necessidade de ficar sozinho.

Às vezes era bom escapar de Dóris e dos incansáveis e excessivos cuidados de sua paixão. Ele

nunca conhecera o sofrimento de amar sem esperança, mas estava experimentando agora o sofrimento de ser amado. Essas últimas semanas tinham sido um período de desconforto

crescente. Dóris estava sempre com ele, como uma obsessão, como uma consciência de culpa.

Sim, era bom estar sozinho.

Tirou do bolso um envelope e abriu-o, não sem relutância. Odiava cartas; sempre

continham algo desagradável — hoje em dia, desde o seu segundo casamento. Essa era de sua

irmã. Ele começou a ler por alto as verdades insultuosas que a compunham. As expressões

“pressa indecente”, “suicídio social”, “mal esfriou na sepultura”, “pessoa das classes

inferiores” — todas foram solicitadas. Agora elas eram inevitáveis em qualquer mensagem de um parente de boas intenções e ideias corretas. Impaciente, ele estava prestes a rasgar em

pedaços a carta idiota quando seu olho recaiu sobre uma frase no final da terceira página. Seu

coração bateu com uma violência incômoda ao lê-la. Era monstruoso demais! Janet Spence

estava dizendo para todo mundo que ele tinha envenenado a esposa para poder se casar com

Dóris. Que maldade abominável! Normalmente um homem de temperamento suave, o sr. Hutton

encontrou-se tremendo de raiva. Procurou consolo infantil nos palavrões — e xingou a mulher.

Então de repente ele viu o lado ridículo da situação. A ideia de que ele assassinasse

alguém para casar-se com Dóris! Se ao menos soubessem como ele estava entediado. Coitada, querida Janet! Ela tentara ser maldosa; só conseguira ser estúpida.

O som de passos despertou-o; olhou em volta. No jardim abaixo do pequeno terraço a

empregada da casa estava colhendo frutas. Napolitana que de algum modo vagara até Florença,

ela fazia o tipo clássico — um pouco vulgar. O perfil poderia ter sido tirado de uma moeda

siciliana de um período ruim. As feições, cunhadas à maneira ornada da grande tradição local,

exprimiam uma imbecilidade quase perfeita. A boca era o que tinha de mais belo; a mão

caligráfica da natureza a tinha ricamente curvado numa expressão de mau humor asinino... Sob

as horrorosas roupas pretas, o sr. Hutton adivinhou um corpo poderoso, firme e maciço. Olhara para ela antes com um vago interesse e curiosidade. Hoje a curiosidade definiu-se e centralizou-

se em desejo. Um idílio de Teócrito. Ali estava a mulher; ele, coitado, não era precisamente um

pastor de cabra nos montes vulcânicos. Chamou-a.

— Armida!

O sorriso com que ela respondeu era tão provocante, testemunhava uma virtude tão fácil

que o sr. Hutton ficou com medo. Mais uma vez estava prestes a — prestes a. Precisava recuar,

ah, depressa, depressa, antes que fosse tarde demais. A moça continuava a olhar para ele.

— Ha chiamato? — perguntou ela finalmente.

Estupidez ou razão? Ah, agora não havia escolha. Era a imbecilidade.

— Scendo — gritou para ela. Doze degraus levavam do jardim ao terraço. O sr. Hutton

contou-os. Descendo, descendo, descendo, descendo... Teve a visão de si mesmo descendo de . um círculo do inferno para o seguinte, de uma escuridão cheia de vento e granizo para um abismo de areia movediça.

 

V

 

Por muitos dias o caso Hutton ocupou a primeira página de todos os jornais. Não houve

julgamento mais popular desde que George Smith eclipsara temporariamente a Guerra Europeia afogando numa banheira quente sua sétima noiva. A imaginação pública foi despertada por essa

história de assassinato trazida à luz meses depois da data do crime. Ali, sentia-se, estava um

desses incidentes na vida humana, tão notáveis porque são tão raros que, definitivamente,

justificam os caminhos de Deus para o homem. Um homem mau fora levado por uma paixão

ilícita a matar a esposa. Durante meses ele vivera em pecado e imaginara a segurança — apenas

para ser jogado finalmente, de modo mais horrível, na armadilha que preparara para si mesmo.

O crime não compensava, e ali estava a prova disso. Os leitores dos jornais estavam em

posição de seguir todos os movimentos da mão de Deus. Tinha havido rumores vagos, porém persistentes, nas vizinhanças; a polícia agira finalmente. Então veio a ordem de exumação, o

exame post mortem, o inquérito, o depoimento dos especialistas, o veredito do júri de

instrução, o julgamento, a condenação. Pelo menos uma vez a Providência cumprira seu dever,

óbvia, contundente, didaticamente, como num melodrama. Os jornais tinham razão em fazer

desse caso o principal alimento intelectual de toda uma estação.

A primeira emoção do sr. Hutton ao ser chamado da Itália para depor no inquérito foi de

indignação. Era uma coisa monstruosa, escandalosa, que a polícia levasse a sério um mexerico

tão bobo e malicioso. Quando o inquérito findasse, ele entraria com uma ação contra o delegado do condado por perseguição; processaria a tal Spence por calúnia.

Foi aberto o inquérito; a surpreendente prova foi descoberta. Os especialistas tinham

examinado o corpo e encontrado traços de arsênico; eram da opinião de que a causa mortis da

finada sra. Hutton fora envenenamento por arsênico.

Envenenamento por arsênico... Emily morrera de envenenamento por arsênico? Depois

disso, o sr. Hutton soube com surpresa que havia herbicida arsenicado em suas estufas em

quantidade suficiente para envenenar um exército.

Foi então, de repente, que ele percebeu: havia um caso contra ele. Fascinado, ele o viu crescer, crescer, como uma monstruo- sa planta tropical. Ela o envolvia, o rodeava; ele estava perdido numa mata fechada.

Quando tinha sido ministrado o veneno? Os especialistas concordavam em que ele deve ter

sido ingerido oito ou nove horas antes da morte. Mais ou menos na hora do almoço? Sim, mais ou menos na hora do almoço. Clara, a copeira, foi chamada. A sra. Hutton, lembrava-se ela,

tinha lhe pedido para ir buscar seu remédio. O sr. Hutton se oferecera para ir; ele fora sozinho.

A srta. Spence... ah, a lembrança da tempestade, o rosto branco armado! O horror de tudo

aquilo! A srta. Spence confirmou a declaração de Clara e acrescentou que o sr. Hutton voltara

com o remédio já em uma taça, não no frasco.

A indignação do sr. Hutton evaporou-se. Ele estava abismado, apavorado. Era tudo

fantástico demais para ser levado a sério, e no entanto aquele pesadelo era um fato, estava

realmente acontecendo.

M’Nab os tinha visto se beijando muitas vezes. Ele os levara para um passeio no dia da

morte da sra. Hutton. Ele podia vê-los refletidos no para-brisa, às vezes pelo canto do olho.

O inquérito foi adiado. Naquela noite Dóris foi deitar-se com dor de cabeça. Quando foi

ao quarto dela depois do jantar, o sr. Hutton encontrou-a chorando.

— Que foi? — Ele sentou-se na beirada da cama e começou a acariciar-lhe os cabelos.

Durante muito tempo ela não respondeu, e ele continuou a acariciar-lhe os cabelos

mecanicamente, quase inconscientemente; às vezes até se inclinava e beijava seu ombro nu. No

entanto ele tinha seus negócios para pensar. O que tinha acontecido? Como foi que aquele mexerico estúpido tinha se tornado verdade? Emily tinha morrido de envenenamento por

arsênico: era absurdo, impossível. A ordem das coisas tinha sido rompida, e ele estava à mercê

de uma irresponsabilidade. Que tinha acontecido, que ia acontecer? Foi interrompido no meio

de seus pensamentos.

— A culpa é minha, a culpa é minha! — soluçou Dóris de repente. — Eu não devia ter

amado você; não devia ter deixado que você me amasse. Por que foi que nasci?

O sr. Hutton não disse coisa alguma, mas baixou os olhos em silêncio para a abjeta imagem

do sofrimento deitada na cama.

— Se fizerem alguma coisa com você, eu me mato.

Ela sentou-se, segurou-o por um momento à distância e olhou para ele com uma espécie de

violência, como se nunca mais fosse vê-lo.

— Eu te amo, te amo, te amo. — Puxou-o, inerte e passivo, para si, agarrou-se nele. —

Não sabia que você me amava tanto assim, Ursinho. Mas por que você fez isso, por que fez

isso?

O sr. Hutton afastou os braços que o prendiam e levantou-se. Seu rosto ficou muito

vermelho.

— Você parece aceitar que eu assassinei minha esposa — disse. — É realmente grotesco

demais. Por quem vocês todos me tomam? Um herói de cinema? — Ele começava a perder a

paciên- cia. Toda a exasperação, todo o medo e o pasmo do dia transformaram-se em violenta

raiva contra ela. — É tudo uma maldita estupidez. Você não tem a menor concepção da

mentalidade de um homem civilizado? Pareço o tipo de homem que sai por aí matando os

outros? Acho que você imaginou que eu estava tão loucamente apaixonado por você que

cometeria qualquer loucura. Quando é que vocês mulheres vão entender que ninguém fica

loucamente apaixonado? Tudo o que se quer é uma vida sossegada, o que vocês não permitem que se tenha. Não sei que diabo me levou a me casar com você. Foi tudo uma brincadeira

estúpida. E agora você sai por aí dizendo que sou um assassino. Não vou permitir.

O sr. Hutton foi até a porta. Tinha dito coisas horríveis, sabia disso; coisas odiosas, que deveria desdizer rapidamente. Mas não queria. Fechou a porta atrás de si.

— Ursinho!

Ele girou a maçaneta; a lingueta entrou no lugar com um estalido.

— Ursinho!

A voz que chegou a ele através da porta fechada era desesperada. Deveria voltar? Tinha de

voltar. Tocou na maçaneta, depois retirou os dedos e afastou-se rapidamente. Quando estava no

meio da escada, parou. Ela podia tentar alguma bobagem — jogar-se da janela ou sabe Deus o

quê! Escutou com atenção, não havia som algum. Mas ele a imaginou com muita clareza, atravessando o quarto pé ante pé, levantando a vidraça o máximo possível, debruçando-se para

o frio ar da noite. Chovia um pouco. Sob a janela havia o terraço pavimentado. A que distância?

Sete ou dez metros? Uma vez, quando caminhava por Piccadilly, um cão saltara de uma janela

do terceiro andar do Ritz. Ele o tinha visto cair; tinha ouvido o baque na calçada. Devia voltar?

De jeito nenhum; ele a odiava.

Sentou-se por um longo tempo na biblioteca. Que tinha acontecido? Que estava

acontecendo? Revolveu a pergunta inúmeras vezes na mente e não conseguiu encontrar resposta.

E se o pesadelo sonhasse a si mesmo até o fim, até sua conclusão horrível? A morte esperava por ele. Seus olhos encheram-se de lágrimas; queria apaixonadamente viver. “Apenas estar

vivo.” A pobre Emily também desejara isso, ele se lembrava. “Apenas estar vivo.” Havia tantos

lugares nesse mundo impressionante ainda não visitados, tantas pessoas estranhas e

maravilhosas ainda desconhecidas, tantas mulheres lindas ainda nem entrevistas. Os enormes

bois brancos ainda estariam puxando seus carros ao longo das estradas toscanas, os ciprestes

ainda cresceriam, eretos como colunas, para o céu azul; mas ele não estaria lá para vê-los. E os

doces vinhos do sul — Lágrima de Cristo e Sangue de Judas —, outros os beberiam, não ele.

Outros caminhariam pelos corredores escuros e estreitos entre as estantes de livros na Biblioteca de Londres, aspirando o perfume empoeirado da boa literatura, lendo títulos

estranhos, descobrindo nomes desconhecidos, explorando as fronteiras dos vastos domínios do

conhecimento. Ele estaria num buraco no chão. E por que, por quê? Confusamente ele sentiu que

alguma espécie extraordinária de justiça estava sendo feita. No passado ele tinha sido leviano,

idiota e irresponsável. Agora o Destino estava brincando com ele, também leviana e

irresponsavelmente. Era olho por olho, e Deus existia afinal.

Sentiu que gostaria de rezar. Quarenta anos antes ele costumava ajoelhar-se junto ao leito

todas as noites. A fórmula noturna de sua infância veio-lhe quase automaticamente de alguma câmara de sua memória que há muito não era aberta. “Deus abençoe papai e mamãe, Tom e

Cissie e o neném, Mademoiselle e a babá, e todo o mundo que eu amo, e faça de mim um bom

menino. Amém.” Estavam todos mortos agora — todos, exceto Cissie.

Sua mente pareceu amolecer e dissolver-se; uma grande calma desceu sobre seu espírito.

Subiu ao segundo andar para pedir o perdão de Dóris. Encontrou-a deitada no sofá aos pés da

cama. No chão ao lado dela havia uma garrafa azul de unguento, rotulada “Não deve ser

ingerido”; parecia que ela bebera a metade.

— Você não me amava — foi tudo o que ela disse quando abriu os olhos e encontrou-o debruçado sobre ela.

O dr. Libbard chegou a tempo de impedir consequências sérias.

— Não deve fazer isso de novo — disse ele quando o sr. Hutton não estava no quarto.

— Quem é que vai me impedir? — perguntou ela em desafio.

O dr. Libbard olhou para ela com seus olhos grandes e tristes.

— Nada vai impedi-la — respondeu. — Apenas você mesma e seu bebê. Não é azar do

bebê não poder vir ao mundo porque você quer sair dele?

Dóris ficou em silêncio por algum tempo.

— Está bem — sussurrou. — Não vou mais fazer isso.

O sr. Hutton sentou-se à cabeceira dela pelo resto da noite. Agora sentia-se mesmo um

criminoso. Durante algum tempo se persuadiu de que amava essa pobre criança. Cochilando em sua cadeira, ele acordou, rígido e friorento, para encontrar-se enxugado, por assim dizer, de

toda emoção. Tornara-se nada, a não ser uma carcaça cansada e sofredora. Às seis horas ele

despiu-se e foi para a cama para dormir um pouco. Na mesma tarde o júri de instrução

apresentou o veredito de “homicídio doloso” e o sr. Hutton foi preso para ser julgado.

 

VI

 

A srta. Spence não estava nada bem. Achara suas aparições públicas no banco das testemunhas

muito cansativas, e quando tudo terminou ela teve algo que era quase um colapso. Dormia mal e

sofria de indigestão nervosa. O dr. Libbard costumava visitá-la de dois em dois dias. Ela

conversava muito com ele; geralmente a respeito do caso Hutton... Sua indignação moral estava

sempre fervilhando. Não era horrível pensar que ela recebera um assassino em sua própria

casa? Não era extraordinário que ela pudesse por tanto tempo enganar-se quanto ao caráter do

homem? (Mas desde o princípio ela tinha uma suspeita.) E a garota com quem ele tinha fugido: classe tão baixa, só um pouco melhor que uma prostituta. A notícia de que a segunda sra. Hutton

estava esperando um bebê — o filho póstumo de um criminoso condenado e executado —

revoltava-a; a coisa era chocante, uma obscenidade. O dr. Libbard respondia gentil e

vagamente, e receitava-lhe brometo.

Certa manhã ele interrompeu-a no meio de seu discurso costumeiro.

— Aliás — disse ele em sua voz suave e melancólica —, imagino que na verdade foi você

quem envenenou a sra. Hutton.

A srta. Spence encarou-o durante dois ou três segundos com olhos enormes, em seguida disse baixinho:

— Sim. — Depois disso começou a chorar.

— No café, imagino.

Pareceu-lhe que ela inclinou a cabeça concordando. O dr. Libbard pegou a caneta e, em sua

caligrafia precisa e meticulosa, escreveu uma receita de remédio para dormir.