Contos escolhidos

Aldous Huxley · Capítulo 12 de 23

Páginas do PDF

Contos escolhidos

Mexicaninho

 

O VENDEDOR CHAMAVA-O, com afeto, mexicaninho; e para um mexicano, ele pode ter sido pequeno. Mas

nesta nossa Europa, onde o espaço é limitado e a escala é menor, o mexicaninho era portentoso,

um gigante entre chapéus. Estava ali pendurado no centro da vitrine da chapelaria, uma enorme

auréola negra, digna de um rei entre demônios. Mas nenhum demônio caminhava naquela tarde

pelas ruas de Ravena; apenas o mais inofensivo de todos os turistas literários. Aqueles eram os

dias em que chapéus grandes pareciam, a meus olhos, desejáveis, e era sobre a minha cabeça

tão indigna que aquela auréola de escuridão estava destinada a descer. Sobre minha cabeça;

pois à primeira vista do chapéu corri para dentro da loja, experimentei-o, achei-o perfeito de tamanho e comprei-o, sem barganhar, por um preço de estrangeiro. Saí da loja com o

mexicaninho na cabeça, e minha sombra nas calçadas de Ravena parecia a sombra de uma

magnólia.

O mexicaninho está muito velho agora, verde e roído pelas traças. Mas ainda o tenho

comigo. De vez em quando, em nome das velhas amizades, eu até o uso. Querido mexicaninho!

Ele representa para mim toda uma época de minha vida. Significa a emancipação e o primeiro

ano na universidade. Simboliza a descoberta de tantas coisas novas, ideias novas, sensações

novas! Da literatura francesa, do álcool, da pintura moderna, de Nietzsche, do amor, da metafísica; de Mallarmé, do sindicalismo e Deus sabe do que mais. Mas, acima de tudo, eu o

aprecio porque me lembra minha primeira descoberta da Itália. Ele torna a suscitar para mim, o

meu mexicaninho, todas as emoções, surpresas e êxtases virginais daquela primeira turnê

italiana no início do outono de 1912. Urbino, Rimini, Ravena, Ferrara, Módena, Mântua,

Verona, Pádua, Veneza, minha primeira impressão de todos esses nomes fabulosos descansa,

como um chapéu cheio de joias, na coroa do mexicaninho. Será que um dia terei coragem de

jogá-lo fora?

E também, é claro, há Tirabassi. Sem o mexicaninho eu nunca teria conhecido Tirabassi. Ele nunca teria imaginado que eu, em meu pouco enfático chapéu inglês, fosse um pintor. E,

consequentemente, eu nunca teria visto os afrescos nem conversado com o velho conde nem

ouvido falar na Colombella. Nunca... Quando penso nisso, o mexicaninho me parece ainda mais

precioso.

Era, naturalmente, bem típico de Tirabassi supor, pelo tamanho do meu chapéu, que eu

devia ser pintor. Ele tinha a mentalidade militar que se recusava a aceitar a vaga desordem do

mundo. Estava sempre pronto a etiquetar, classificar e limitar seu universo; e quando os objetos

classificados saíam de seus compartimentos e arrancavam as etiquetas do pescoço Tirabassi ficava confuso e aborrecido. De qualquer maneira, para ele era óbvio, desde o primeiro

momento em que me viu no restaurante em Pádua, que eu devia ser pintor. Todos os pintores

usam chapéus grandes e pretos. Eu estava usando o mexicaninho. Ergo, eu era pintor. Era

silogístico, inescapável.

Ele mandou um garçom me perguntar se eu lhe daria a honra de tomar café com ele em sua

mesa. No início, confesso, fiquei um pouco assustado. Esse impetuoso tenente da cavalaria, que

diabos podia querer comigo? As fantasias mais absurdas encheram-me a mente: cometera, de modo inteiramente inconsciente, alguma terrível impostura; pisara nos pés da honra do tenente, e

ele estava prestes a me desafiar para um duelo. A escolha das armas, refleti rapidamente, seria

minha. Mas o quê, que arma eu escolheria? Espadas? Não era treinado na esgrima. Pistolas?

Uma vez dera seis tiros numa garrafa e errara todos os seis. Haveria tempo para escrever uma

ou duas cartas, fazer um tipo qualquer de testamento de meus pertences pessoais? Dessa

angústia o garçom, voltando em seguida com meu polvo frito, me salvou. O tenente Conde, ele

explicou num sussurro confidencial, tinha uma villa no Brenta, não muito longe do Strà. Uma

villa — ele estendeu os braços em um gesto generoso — cheia de pinturas. Cheia, cheia, cheia. E estava ansioso para que eu as visse, pois tinha certeza de que me interessava por pintura. Ah,

naturalmente — sorri um tanto tolamente, pois o garçom parecia esperar de mim algum

comentário confirmando — eu era interessado em pintura; muitíssimo. Nesse caso, disse o

garçom, o Conde teria muito prazer em me levar para vê-las. Deixou-me ainda confuso, mas

bastante aliviado. De qualquer maneira, eu não teria que fazer a embaraçosa escolha entre

espadas e pistolas.

Com discrição, todas as vezes que ele não estava olhando na minha direção eu examinava

o tenente Conde. Sua aparência não era tipicamente italiana (mas o que é um italiano típico?). Ele não tinha a queixada azulada, os olhos vivos, não era moreno nem aquilino. Pelo contrário,

tinha cabelos castanho-claros, olhos cinzentos, nariz arrebitado e pele sardenta. Eu conhecia

muitos ingleses que poderiam ser os irmãos menos vivazes do conde Tirabassi.

Ele me recebeu, quando chegou a hora, com a mais refinada cortesia, desculpando-se pelo

modo pouco cerimonioso com que me abordara.

— Mas como eu estava certo — falou — de que você se interessava pela arte, achei que

me perdoaria por causa do que tenho para lhe mostrar.

Não pude deixar de me perguntar por que o conde tinha tanta certeza do meu interesse pela arte. Foi só mais tarde, quando deixamos juntos o restaurante, que compreendi; pois, ao colocar

meu chapéu para sair, ele apontou com um sorriso para o mexicaninho.

— Pode-se ver que você é um artista de verdade.

Fiquei perdido, sem saber o que responder.

Passada a troca preliminar de cortesias, o tenente atacou de imediato, e totalmente por

minha causa, como podia notar o tema.

— Hoje em dia — disse — nós, italianos, não somos bastante interessados em arte. Em um

país moderno, compreende... — Deu de ombros deixando a frase por terminar. — Mas não acho isso certo. Adoro arte. Simplesmente adoro. Quando vejo estrangeiros andando por aí com seus

livros de informações, parados meia hora diante de um quadro, olhando primeiro para o livro,

depois para o quadro... Neste ponto, ele fez uma brilhante imitação de um clérigo anglicano,

“fazendo” cuidadosamente a capela Mantegna: primeiro uma olhada no livro imaginário

apoiado nas duas mãos, depois, com o movimento de uma galinha bebendo, o rosto erguido para

um afresco imaginário, um olhar comprido entre pálpebras franzidas, a boca entreaberta, e

finalmente os olhos voltando para as páginas inspiradas do guia Baedeker. Quando os vejo,

sinto vergonha por nós, italianos. — O conde falava com muita seriedade, sentindo, talvez, que seu talento para a mímica o levara um pouco longe demais. — E se eles passam meia hora

olhando para o negócio, eu vou e passo uma hora. É a maneira de entender a arte. A única

maneira. — Recostou-se na cadeira e tomou um gole de café. — Infelizmente — acrescentou, depois de um momento —, não se tem muito tempo.

Concordei com ele:

— Quando a pessoa não pode passar mais de um mês seguido na Itália, como eu...

— Ah, se pelo menos pudesse viajar pelo mundo como você — o conde suspirou. — Mas

aqui estou, preso nesta cidade desgraçada. E quando penso no capital enorme pintado lá nas

paredes de minha casa...

Interrompeu-se, sacudindo a cabeça. Então, mudando de tom, começou a falar-me sobre sua

casa no Brenta. Parecia bom demais para ser verdade. Carpioni, sim — estavam lá os afrescos de Carpioni; quase todo mundo poderia tê-los. Mas um vestíbulo por Veronese, quartos por

Tiepolo, tudo na mesma casa — isso parecia inacreditável. Não podia deixar de acreditar que o

entusiasmo do conde pela arte o tinha dominado. Mas, de qualquer maneira, no dia seguinte eu

poderia julgar por mim mesmo; o conde me convidara para almoçar com ele.

Saímos do restaurante. Ainda constrangido pelas referências do conde ao meu

mexicaninho, caminhei a seu lado em silêncio pela rua em arcada.

— Vou apresentá-lo a meu pai — disse o conde. — Ele também adora as artes.

Mais do que nunca me sentia um vigarista. Conquistara a confiança do conde sob falsos pretextos; meu chapéu era uma mentira. Senti que devia fazer alguma coisa para esclarecer o

mal-entendido. Mas o conde estava tão ocupado queixando-se do pai que não tive oportunidade

para introduzir minha explicação. Confesso, não ouvi com muita atenção o que ele dizia.

Durante um ano em Oxford, escutara muitos jovens reclamando dos pais. Pouco dinheiro, muita

interferência: sempre a mesma história. Ademais, naquela época eu adotara uma visada mais

filosófica e elevada sobre esse tipo de coisa. Eu fingia que as pessoas não me interessavam —

somente os livros, somente as ideias. Como se pode bancar o bobo nessa idade!

— Eccoci — fez o conde. Paramos diante do Café Pedrochi. — Ele sempre vem tomar café aqui.

E onde mais iria ele tomar seu café? Quem, em Pádua, iria a outro lugar?

Encontramo-lo sentado no terraço, no canto oposto do prédio. Eu nunca vira um velho

cavalheiro mais jovial, pensei. O velho conde tinha o rosto envelhecido, com bigodes brancos

erguendo-se galantes e uma pera branca à suntuosa moda renascentista de Vítor Emanuel 11. Sob

as sobrancelhas brancas e fartas, em meio a uma teia de rugas sutis, os olhos eram castanhos e

brilhantes como os de um tordo. Seu nariz comprido parecia, de certo modo, mais útil na prática

do que o nariz humano normal, como se feito para aspirar com fineza e pose, para brincadeiras delicadas. Robusto e forte, ele sentava-se solidamente na cadeira, joelhos separados, mãos

juntas sobre o castão da bengala, carregando a pança com dignidade, nobremente chego a dizer,

à frente do corpo. Estava todo vestido de linho branco — pois o tempo ainda era quente — e

seu largo chapéu cinzento estava puxado malandramente sobre o olho esquerdo. Dava satisfação

olhar para ele; tão completo, tão perfeito a seu modo ele era.

O jovem conde me apresentou:

— Este é um cavalheiro inglês. Signor… — Voltou-se para mim.

— Oosselay — respondi, tendo aprendido por experiência que isso era o mais perto que qualquer italiano conseguia chegar do meu nome.

— O signor Oosselay — continuou o jovem conde — é artista.

— Bem, não exatamente artista — comecei; mas ele não me deixou terminar.

— Ele também se interessa muito por arte antiga — continuou ele. — Amanhã vou levá-lo

a Dolo para ver os afrescos. Sei que ele vai gostar.

Sentamo-nos à mesa do velho conde; ele olhou criticamente para mim e assentiu.

— Benissimo — falou, e acrescentou: — Vamos esperar que possa fazer alguma coisa para

nos ajudar a vendê-los.

Isso era surpreendente. Olhei, meio perplexo, para o jovem conde. Ele olhava com raiva

para o pai. O velho cavalheiro evidentemente dissera a coisa errada; falara, imaginei, cedo

demais. De qualquer maneira, entendeu a indireta do filho e passou serenamente para outro assunto.

— A fantasia férvida de Tiepolo — começou sonoramente. — O esplendor frio e

desapaixonado de Veronese... Em Dolo você vai ver os dois contrastados. — Escutei atento,

enquanto o velho prosseguia ruidosamente no que era, não havia sombra de dúvida, um discurso

ensaiado. Quando ele terminou, o jovem conde levantou-se; tinha que estar de volta ao quartel

às duas e meia da tarde. Preparei-me para sair também; mas o velho colocou a mão em meu

braço. — Fique comigo — disse. — Aprecio imensamente sua conversa. E como ele próprio

mal fechara a boca por um momento desde que eu o conhecera, acreditei. Com o gesto de uma dama erguendo as saias para longe da lama (e aqueles eram dias em que as saias ainda tinham

de ser erguidas), o jovem conde ergueu seu sabre pendente e partiu, muito militar, vivo e

radiante, como um soldado de teatro, para a luz do sol, e desapareceu de vista.

Os olhos com brilho de pássaro do ancião acompanharam sua partida.

— Bom rapaz, o Fábio — disse, voltando-se finalmente para mim. — Um bom filho. —

Falava com afeição; mas havia em seu sorriso, achei, no tom de sua voz, um toque de

divertimento, de ironia. Era como se ele tivesse acrescentado implicitamente: “Mas bons

rapazes, afinal, são tolos em serem tão bons”. Vi-me, apesar do afetado alheamento, bastante curioso acerca daquele velho cavalheiro. Ele, por sua vez, não era homem de deixar qualquer

pessoa em sua companhia permanecer muito tempo em esplêndido isolamento. Insistia em que

eu me interessasse por seus negócios. Contou-me tudo sobre eles — ou, pelo menos, tudo sobre

alguns deles —, fazendo jorrar suas confidências com uma impressionante falta de reserva.

Depois do amigo íntimo e de confiança, um perfeito desconhecido é o melhor dos confidentes.

Não existe um só viajante comercial, de aparência moderadamente simpática, que durante seus

dias nos trens e suas noites nas portarias dos hotéis comerciais não tenha sido feito repositório

de mil segredos íntimos — até mesmo na Inglaterra. E na Itália — Deus sabe o que os viajantes comerciais ouvem na Itália. Mesmo eu, um estrangeiro, falando mal a língua e de qualquer modo

não muito hábil em conversar com desconhecidos, tinha ouvido coisas estranhas nos vagões de

segunda classe dos trens italianos... Ali, também, no terraço do Pedrochi, eu ouviria coisas

estranhas. Uma porta seria aberta e através da fresta eu teria uma visão de vidas pouco

familiares.

— O que eu devia fazer com ele — prosseguiu o velho —, realmente não sei. O modo

como ele dirige a propriedade é simplesmente maravilhoso. — E continuou a falar em longas

divagações sobre a estupidez dos camponeses, a incompetência e a desonestidade dos capatazes, a severidade do tempo, a disseminação de pragas nas parreiras, o alto preço do

esterco. O desfecho era que, desde que Fábio se encarregara da propriedade, tudo ia bem; até

mesmo o tempo tinha melhorado. — É um alívio tão grande — concluiu o conde — sentir que tenho alguém em quem possa confiar inteiramente, tomando conta de tudo. Isso me deixa livre

para dedicar minha mente a coisas mais importantes.

Não pude deixar de imaginar quais seriam as coisas importantes; mas senti que seria

impertinência perguntar. Em vez disso, fiz uma pergunta mais prática:

— Mas que vai acontecer quando o serviço militar de seu filho afastá-lo de Pádua?

O velho conde deu-me uma piscadela e levou o dedo indicador, com bastante deliberação,

à lateral de seu grande nariz. O gesto era rico de significado.

— Isso nunca vai acontecer — disse. — Está tudo arranjado. Uma pequena combinazione, você sabe. Tenho um amigo no Ministério. O serviço militar vai mantê-lo sempre em Pádua. —

Tornou a piscar e sorriu.

Não pude deixar de rir, e o velho Conde juntou-se a mim com um jovial “ha, ha, ha”,

expressão de uma satisfação profunda que era, por assim dizer, uma rajada de aplausos para si

mesmo. Tinha um evidente orgulho de sua pequena combinazione. Mas tinha ainda mais orgulho

da outra combinação, e acerca desta ele agora se inclinava sobre a mesa para, em tom de

confidência, me contar. Era decididamente a mais sutil das duas.

— E não é meramente seu serviço militar — falou, sacudindo o dedo grosso e de unha amarela que levara ao nariz. — Não é só o serviço militar que vai manter o rapaz em Pádua. É o

dever doméstico. Ele é casado. Eu o casei. — Recostou-se na cadeira e estudou-me, a sorrir. As

ruguinhas em volta dos olhos pareciam vivas. — Esse rapaz, eu disse a mim mesmo, precisa

sossegar. Precisa ter um ninho, senão voa para longe. Precisa de raízes, senão vai fugir. E o

pobre do seu pai ficará mal. Ele é jovem, pensei, mas precisa se casar. Tem que se casar.

Imediatamente. — E o velho fez largos gestos com o indicador. Era uma história comprida. Seu

velho amigo, o avvocato Monaldeschi, tinha doze filhos, três rapazes e nove moças. (E aqui

houve divagações sobre o avvocato e o tamanho das boas famílias católicas.) A mais velha tinha a idade certa para Fábio. Dinheiro nenhum, é claro; mas uma boa moça, e bonitinha, e

muito bem educada e religiosa. Religiosa — isso era muito importante, pois era essencial que

Fábio tivesse uma família grande (para prendê-lo com mais eficiência, explicou o velho conde)

e com essas moças modernas, criadas fora da Igreja, não se podia ter certeza de filhos. Sim, a

religião era importantíssima; ele estudara isso cuidadosamente antes de escolhê-la. Bem, o

passo seguinte, naturalmente, era que Fábio fosse induzido a escolhê-la. Tinha sido uma questão

de levar o cavalo à água e fazê-lo beber. Ah, uma coisa dificílima e delicadíssima! Pois Fábio

orgulhava-se de sua independência; e era teimoso como uma mula. Ninguém podia interferir em seus negócios, ninguém podia obrigá-lo a fazer o que ele não queria. E era tão suscetível, tão

cabeça-dura que muitas vezes não fazia o que realmente queria só porque alguém sugeria que

ele o fizesse. De modo que eu podia imaginar — e o velho conde estendia os braços à minha

frente — como tinha sido um negócio difícil e delicado. Só um diplomata consumado poderia

ter tido sucesso. Ele o conseguiu juntando-os várias vezes e, entrementes, falando sobre a

estupidez de casamentos apressados, a inutilidade de esposas pobres, a indesejabilidade de

esposas que não eram de berço nobre. Funcionou como um feitiço: dentro de quatro meses

Fábio estava noivo; dois meses depois estava casado e dez meses depois disso tinha um filho e herdeiro. E agora estava preso, enraizado. O velho cavalheiro deu uma risadinha, e eu podia

imaginar que estava escutando a risada de um velho tirano de cabelos brancos do quattrocento

congratulando-se pelo sucesso de uma manobra qualquer peculiarmente engenhosa — uma cidade rica induzida a render-se pela fraude, um rival perigoso atraído por palavras doces a

uma armadilha. Pobre Fábio, pensei; e também, que desperdício de talento!

Sim, continuou o velho conde, agora ele jamais partiria. Não era como o irmão mais moço,

Lúcio. Lúcio era um tratante, furbo, esperto; não tinha consciência. Mas Fábio tinha ideias

sobre o dever, e vivia de acordo com elas. Uma vez assumido um compromisso, ele o manteria,

obstinado, com toda a teimosia de seu caráter. Bem, agora ele vivia na propriedade, na grande

casa pintada de Dolo. Três dias por semana vinha a Pádua para seu serviço militar, e o resto do

tempo era dedicado à propriedade. Ela agora rendia muito mais do que antes. Mas só Deus sabia, queixou-se o velho, que mesmo isso era bem pouco. Pão e azeite, vinho e leite, galinhas e

carne — havia bastante disso, até demais. Fábio poderia ter uma família de cinquenta pessoas e

nunca passariam fome. Mas dinheiro vivo — disso não havia muito. — Na Inglaterra —

concluiu o conde — vocês são ricos. Mas nós, italianos... — Ele sacudiu a cabeça.

Passei o quarto de hora seguinte tentando convencê-lo de que não éramos todos

milionários. Mas em vão. Minhas estatísticas, baseadas em lembranças meio imperfeitas do sr. e

da sra. Sidney Webb, não inspiravam confiança. Afinal desisti.

Na manhã seguinte Fábio apareceu à porta do meu hotel num Fiat grande, muito velho e barulhento. Amassada, arranhada e suja por anos de serviço, para a família era a máquina

pronta para qualquer empreitada. Fábio dirigia com incrível e segura despreocupação.

Atravessamos correndo a cidade, serpenteando pelas ruas estreitas, com um desprezo pelas

regras de trânsito que, num país pedante como a Inglaterra, significaria pelo menos cinco libras

de multa e a licença cassada. Mas aqui os carabinieri, caminhando gravemente em grupos de

dois sob as arcadas, deixavam-nos passar sem comentários. Direita ou esquerda — afinal, que

importância tinha?

— Por que você não tem escapamento? — gritei através da horrível barulheira do motor.

Fábio deu de ombros.

— È più allegro così — respondeu.

Não falei mais. De um membro dessa raça rija que gosta de barulho e aprecia o

desconforto, um inglês nervoso não podia esperar muita solidariedade.

Logo estávamos fora da cidade. Arrastando atrás de nós uma agitada esteira de poeira

branca, e com o motor arrojando suas explosões como uma bateria de metralhadoras,

disparamos pela estrada de Fusina. De ambos os lados estendia-se a planície cultivada. A

estrada era margeada por fossos, e nos barrancos, em vez de cercas, havia fileiras de tocos de árvores, aos quais se entrelaçavam como grinaldas parreiras carregadas de uvas. Brancas de

poeira, as gavinhas, as frutas e as folhas pareciam um trabalho de ourivesaria esculpido em

metal fosco, pendendo como guirlandas de fruta e folhagem ao redor de uma gamela de prata.

Seguimos em disparada. Logo, à nossa direita, tínhamos o Brenta, fundo entre as margens de seu

canal. E agora estávamos em Strà. Através de portões enriquecidos por fantásticos trabalhos de

estuque, cruzando túneis de sombras perenes, entreviam-se rápidas imagens do coração do

parque. E agora por um instante as estátuas no telhado da villa acenaram de encontro ao céu e

passaram. Continuamos. À direita e à esquerda, em cada margem do rio, de vez em quando eu divisava alguma encantadora mansão, alegre e brilhante mesmo na decadência. Pequenos

pavilhões barrocos insinuavam-se a mim por sobre os muros; e através de grandes portões, no

final de empoeiradas alamedas de ciprestes, um pouco por brincadeira, ao que parecia, fachadas pomposas e frívolas erguiam-se em desafio a todas as regras. Teria me agradado fazer

essa viagem devagar, parar aqui e ali, olhar, saborear com calma, mas Fábio recusava-se a

viajar a menos de cinquenta quilômetros por hora e eu tinha de me contentar com vislumbres

momentâneos e precários. Era nessas villas, refleti enquanto o carro avançava em meio à

desolação da poeira branca, que Casanova costumava vir passar o verão; seduzindo as

camareiras, aproveitando-se das marquesas aterrorizadas em calèches durante tempestades,

ludibriando velhos senadores de Veneza com suas previsões do futuro e sua magia negra.

Esplêndido e infeliz patife! Apesar de meu declarado alheamento, eu o invejava. E, na verdade, o que era esse famoso alheamento senão uma expressão disfarçada da inveja que os sucessos e

as audácias de Casanova necessariamente despertavam em todas as mentes tímidas e

acanhadas?

Se eu vivia em esplêndido isolamento, era porque me faltava a audácia para guerrear —

até mesmo para fazer alianças que me prendessem. Estava absorto nesses agradáveis

pensamentos autocondenatórios quando o carro diminuiu a marcha e parou em frente a um portão

enorme e imponente. Fábio fez soar a buzina com impaciência; houve um ruído de passos leves,

o som de trancas puxadas, e o portão abriu-se. No final de uma curta alameda, muito larga e severa, muito casta e austera, ficava a casa. Era consideravelmente mais velha do que a maioria

das outras villas que se desvelavam pelo caminho. Não havia frivolidade em sua fachada,

nenhuma grandiloquência irregular. Um grande bloco de tijolo enfeitado com estuque; um

pórtico central no alto de alguns degraus, encimado por um enorme frontão; uma fileira de

estátuas rígidas na balaustrada acima da cornija. Era correta, até mesmo friamente, paladiana.[40]

Fábio parou o carro em frente ao pórtico. Saltamos. No alto dos degraus postava-se uma jovem

com uma criança de cabelos vermelhos nos braços. Era a condessa com o filho e herdeiro.

A condessa impressionou-me agradavelmente. Era magra e alta — uns cinco centímetros mais alta que o marido; com cabelos escuros, puxados para trás e enrolados em nó sobre a nuca;

olhos escuros, vagos, brilhantes e melancólicos, como os de um dócil animalzinho; a pele

morena e transparente como âmbar escurecido. Seus modos eram gentis e pouco enfáticos. Ela

raramente gesticulava; nunca a ouvi erguer a voz. Falava, na verdade, muito pouco. O velho

conde contara-me que sua nora era religiosa, e por sua aparência eu podia tranquilamente

acreditar nisso. Olhava para as pessoas com o olhar calmo e distante de alguém cuja vida

acontece na maior parte atrás dos olhos.

Fábio beijou a esposa e então, baixando o rosto para a criança, fez uma careta assustadora e rugiu como um leão. Tudo isso foi feito afetuosamente; mas a pobre criatura encolheu-se,

aterrorizada. Fábio riu e beliscou-lhe a orelha.

— Não implique com ele — disse a condessa suavemente. — Vai fazê-lo chorar.

Fábio voltou-se para mim.

— Isso é o que dá deixar um garoto para mulheres tomarem conta. Ele chora por tudo.

Vamos entrar — acrescentou. — No momento só usamos dois ou três aposentos no andar térreo,

e a cozinha no porão. Todo o resto está vazio. Não sei como esse pessoal antigo conseguia

manter seus palácios. Eu não consigo. — Deu de ombros. Através de uma porta à direita do pórtico entramos na casa. — Esta é nossa sala de estar e de jantar.

Era um aposento grande e belo, de proporções nobres — um cubo duplo, adivinhei — com

portadas de mármore esculpido e uma lareira magnífica ladeada por um par de ninfas sobre cujos ombros curvados descansava uma prateleira entalhada com escudos de armas e festões de

folhagem. Em volta das paredes corria um friso pintado em grisalha; em graciosa confusão de

cornucópias e panóplias, deusas reclinavam-se suntuosamente, querubins contorciam-se e

voavam. A mobília era estranhamente misturada. Em volta de uma mesa do século XVI, que era

uma obra de arquitetura paladiana de madeira, estavam arrumadas oito cadeiras no estilo da

Secessão vienense de 1905. Um grande relógio cuco em forma de chalé, de Berna, estava

pendurado na parede entre dois armários de nogueira, com pilastras e frontões para parecerem

pequenos templos, e com estatuetas heroicas em buxo amarelo postadas em nichos entre as pilastras. E os quadros nas paredes, os cretones com que as poltronas eram forradas! Com muita

discrição, no entanto, admirei tudo, novo e velho.

— E agora os afrescos — disse o conde.

Segui-o através de uma das portas emolduradas em mármore e encontrei-me imediatamente

no grande vestíbulo central da villa. O conde voltou-se para mim.

— Pronto! — exclamou, sorrindo triunfalmente com o ar de alguém que realmente

conseguiu tirar um coelho de uma cartola vazia. E, realmente, o espetáculo era suficientemente

espantoso.

As paredes do enorme aposento estavam completamente cobertas de afrescos que não

necessitavam de muito conhecimento crítico para ser reconhecidos como Veroneses genuínos. A

autoria era óbvia, palpável. Quem mais poderia ter pintado esses grupos harmoniosamente

ondulantes de figuras em sua esplêndida moldura arquitetônica? Quem, senão Veronese, podia

ter aliado tal esplendor a tal frieza, tanta opulência extravagante a tamanha suavidade

requintada?

— É grandioso! — disse ao conde.

E era mesmo. Grandioso; não havia outra palavra. Uma rica galeria triunfal corria em volta do aposento, quatro ou cinco arcos aparecendo em cada parede. Através dos arcos olhava-se

para um jardim; e lá, de encontro a um fundo de ciprestes e estátuas e montanhas azuis à

distância, grupos de damas e cavalheiros venezianos divertiam-se discretamente. Sob um dos

arcos faziam música; através de outro, sentavam-se ao redor de uma mesa, bebendo à saúde uns

dos outros com taças de vinho tinto, enquanto um pequeno lacaio negro em libré verde e amarela

carregava uma jarra de prata. No painel seguinte assistiam a uma luta entre um macaco e um

gato. Na parede oposta um poeta lia seus versos para um grupo, e ao lado dele o próprio

Veronese — o autorretrato era reconhecível — postava-se junto a seu cavalete, pintando o retrato de uma loura de bastas carnes em cetim cor-de-rosa. Aos pés do artista deitava-se seu

cão; dois papagaios e um macaco estavam sentados na balaustrada de mármore a meia distância.

Contemplei deliciado.

— Que coisa maravilhosa você possui! — exclamei, dominado pelo entusiasmo. — Eu o

invejo.

O Conde fez uma careta e riu.

— Vamos ver os Tiepolo? — perguntou.

Passamos através de alguns aposentos alegres, pintados por Carpioni — sátiros perseguindo ninfas através de uma romântica floresta e, nas franjas de uma paisagem marítima,

um rapto muito excêntrico de sereias por centauros —, e atravessando uma porta entramos nesse

universo brilhante, ao mesmo tempo delicado e violentamente extravagante, selvagem e sutilmente organizado, que Tiepolo, nos últimos dias da pintura italiana, criou tão magistral e

magicamente. Era a história de Eros e Psique, e o enredo atravessava três aposentos amplos,

espalhando-se até mesmo para os tetos, onde, num céu pálido manchado de nuvens brancas e

douradas, as deidades apropriadas equilibravam-se, mergulhando ou ascendendo através do

firmamento com aquele ar de estarem perfeitamente à vontade em seu elemento, que parece

pertencer, na natureza, apenas aos peixes e talvez a alguns insetos alados e pássaros.

Fábio gabara-se a mim que, diante de um quadro, ele podia passar mais tempo

contemplando do que qualquer estrangeiro. Mas fiquei um tempo tão mortalmente longo admirando aquelas deslumbrantes fantasias que finalmente ele perdeu a paciência.

— Eu queria lhe mostrar a fazenda antes do almoço — disse, consultando o relógio. — O

tempo é curto.

Segui-o com relutância. Admiramos as vacas, os cavalos, o touro premiado, os perus.

Contemplamos os montes de feno altos e finos, em forma de charutos gigantescos colocados de

pé. Contemplamos os sacos de trigo no celeiro. Por falta de um comentário melhor, disse ao

conde que eles me lembravam os sacos de trigo nos celeiros ingleses; ele pareceu maravilhado.

Os prédios da fazenda ficavam em volta de um imenso pátio. Tínhamos explorado três lados dessa piazza; então chegamos ao quarto, que era ocupado por um prédio comprido e

baixo, perfurado de passagens em arco e, fiquei surpreso ao vê-lo inteiramente vazio.

— Que é isso? — perguntei quando entramos.

— Não é nada — respondeu o conde. — Mas um dia pode se tornar... chi sa? — Ficou por

um momento parado em silêncio, franzindo a testa pensativamente, com a expressão de

Napoleão em Santa Helena: sonhando com o futuro, lamentando oportunidades passadas para

sempre perdidas. Seu rosto sardento, normalmente um farol brilhante, tornou-se

despropositadamente sombrio. Então subitamente explodiu: amaldiçoando a vida, praguejando contra o destino, pedindo a Deus para poder ir embora e fazer alguma coisa em vez de

desperdiçar energia ali. Escutei, fazendo de vez em quando um vago ruído de simpatia. Que

poderia eu fazer? E então, para meu terror, descobri que eu poderia fazer alguma coisa, que era

esperado que eu fizesse alguma coisa. Ele insinuava que eu o ajudasse a vender seus afrescos.

Como artista, era óbvio, eu devia ter conhecimento com patronos ricos, com museus, com

milionários. Eu tinha visto os afrescos; podia honestamente recomendá-los. E agora havia esse

processo aperfeiçoado para transferir afrescos para tela. As paredes podiam facilmente ser

descascadas, as telas enroladas e levadas a Veneza. E de lá seria a coisa mais fácil do mundo escondê-las a bordo de um navio e partir com elas. Quanto aos preços: se ele conseguisse um

milhão e quinhentas mil liras, tanto melhor; mas aceitaria um milhão, até mesmo três quartos. E

me daria uma comissão de dez por cento...

E depois, quando vendesse seus afrescos, que faria? Para começar, ele sorriu triunfalmente

para mim, transformaria esse prédio vazio no qual estávamos numa moderna fábrica de queijos.

Podia começar o negócio muito bem com meio milhão, e então, usando a mão de obra feminina

barata do campo, podia quase ter certeza de tirar grandes lucros imediatamente. Em dois anos,

calculava, estaria ganhando oitenta ou cem mil liras por ano com seus queijos. E então, ah, então ele seria independente, poderia viajar, ver o mundo. Iria ao Brasil e à Argentina. Um homem

empreendedor, com capital, sempre podia se dar bem lá. Iria a Nova York, Londres, Berlim,

Paris. Não havia o que ele não pudesse fazer.

Enquanto isso, os afrescos ainda estavam nas paredes — lindos, sem dúvida (pois,

relembrou o conde, ele adorava arte), mas inúteis; um enorme capital congelado no gesso,

inteiramente imprestável. Ao passo que, com sua fábrica de queijos...

Lentamente caminhamos de volta para a casa.

Estive novamente em Veneza em setembro do ano seguinte, 1913. Havia naquele outono, eu

imaginava, mais casais alemães em lua de mel, mais grupos daqueles passarinhos de arribação e

mochila[41] do que nunca na cidade. De qualquer maneira, eram demais para mim; arrumei minha

mala e peguei o trem para Pádua.

A princípio não pretendia ver o jovem Tirabassi de novo. Não sabia, na verdade, até que

ponto ele ficaria satisfeito em me ver. Pois os afrescos, pelo que sabia, ainda estavam nas

paredes, a fábrica de queijos ainda distante no futuro, na imaginação. Eu lhe escrevera mais de

uma vez, dizendo que estava fazendo o possível, mas no momento etc. etc. Não que eu alguma

vez tivesse dado muita esperança. Desde o início deixei claro que meus conhecidos entre os

milionários eram poucos, que não contava com diretores de museus americanos entre minhas

relações, que não tinha a menor ligação com quaisquer comerciantes internacionais de arte. Mas

a fé do conde em mim permaneceu, mesmo assim, sólida. Era o mexicaninho, imagino, que lhe inspirava tanta confiança. Mas agora, depois de minhas cartas, depois de todo esse intervalo de

tempo e nada feito, ele podia achar que eu o decepcionara, de alguma forma o enganara. Foi por

isso que não o procurei. Mas o acaso passou por cima da minha decisão. No terceiro dia de

minha estada em Pádua esbarrei com ele na rua. Ou melhor, ele esbarrou comigo.

Eram quase seis horas e eu tinha passeado até a Piazza del Santo. Àquela hora, quando a

luz oblíqua é cheia de cores e as sombras são longas e profundas, a grande igreja, com suas

cúpulas, torrinhas e campanários, toma um aspecto mais do que nunca fantástico e oriental. Eu

rodeara a igreja, e agora estava parado aos pés da estátua de Donatello, olhos erguidos para o sisudo homem de bronze e o animal de pés maciços, quando de repente tomei consciência de

que alguém estava parado muito perto, atrás de mim. Dei um passo para o lado e voltei-me. Era

Fábio. Usando sua famosa expressão de clérigo turista, ele contemplava a estátua, a boca aberta

como um peixe. Comecei a rir.

— Eu estava assim? — perguntei.

— Exatamente. — Ele riu também. — Fiquei observando você nos últimos dez minutos,

vagando em volta da igreja. Vocês, ingleses, realmente... — Sacudiu a cabeça.

Juntos subimos a Via del Santo, conversando.

— Lamento não ter conseguido fazer coisa alguma a respeito dos afrescos — falei. — Mas

realmente... — Entrei em explicações.

— Qualquer dia, talvez. — Fábio ainda estava otimista.

— E como vai a condessa?

— Ah, ela vai muito bem — disse Fábio. — Apesar de tudo. Sabe que ela teve outro filho

três ou quatro meses depois que você nos visitou?

— Não!

— E agora está esperando outro. — Fábio falava com certa tristeza, achei. Mais do que nunca admirei a sagacidade do velho conde. Mas fiquei com pena, por causa de seu filho, de

que ele não tivesse um campo mais amplo para exercitar seus talentos.

— E seu pai? — perguntei. — Vamos encontrá-lo sentado no Pedrochi como sempre?

Fábio riu.

— Não — respondeu significativamente. — Ele fugiu.

— Fugiu?

— Foi embora, sumiu, desapareceu.

— Mas foi para onde?

— Quem sabe? — fez Fábio. — Meu pai é como as andorinhas; vai e vem. Todos os

anos... Mas a migração não é regular. Às vezes ele vai embora na primavera; às vezes no

outono, às vezes no verão. Uma bela manhã o criado entra em seu quarto para acordá-lo, como de costume, e ele não está. Sumiu. Pode até estar morto. Ah, mas não está. — Fábio riu. — Dois

ou três meses mais tarde ele aparece, como se estivesse voltando de um passeio no Jardim

Botânico. “Boa noite.” — Fábio imitou a voz e o jeito do velho conde, cheirando o ar como um

cavalo, retorcendo as pontas de um imaginário bigode branco. — “Como está sua mãe? Como

vão as meninas? Como foram as uvas este ano?” Snif, snif, snif. “Como vai o Lúcio? E quem

diabos deixou todo esse lixo no meu escritório?” — Fábio explodiu num urro indignado que fez

com que os passantes na Via Roma se voltassem, espantados, em nossa direção.

— E aonde ele vai? — quis saber.

— Ninguém sabe. Minha mãe costumava perguntar, antigamente. Mas logo desistiu. Não

adiantava. “Onde você esteve, Ascânio?” “Minha cara, acho que a colheita de azeitonas vai ser

pequena este ano.” Snif, snif. E quando ela o apertava, ele ficava furioso e batia as portas... Que

é que você diz de um aperitivo?

As portas do Pedrochi nos convidavam. Entramos, escolhemos uma mesa retirada e nos

sentamos.

— Mas o que você imagina que o velho cavalheiro faça quando viaja?

— Ah! — E fazendo o gesto altamente significativo que eu tanto admirara em seu pai, o jovem conde levou o dedo à lateral do nariz e, lenta e solenemente, piscou o olho esquerdo.

— Quer dizer...?

Fábio assentiu.

— Aqui em Pádua há uma viuvinha. — Com o dedo esticado o jovem Conde descreveu no

ar uma linha ondulante. — Bonita e roliça. Olhos pretos. Percebi que em geral ela está fora da

cidade exatamente na época em que o velho faz sua migração. Mas pode ser, é claro, mera

coincidência. — O garçom trouxe nosso vermute. Pensativo, o jovem conde bebeu. A alegria

desaparecera de seu rosto aberto e luminoso. — E enquanto isso — continuou devagar e em voz alterada — eu fico aqui, cuidando da propriedade, para que o velho possa correr mundo com

sua pombinha — la sua colombella. (Essa expressão tocou-me com sua particular precisão e

agudeza.) — Ah, é engraçado, sem dúvida — continuou o jovem conde. — Mas não está certo.

Se eu não fosse casado, iria embora tentar a sorte em outro lugar qualquer. Deixaria que ele

ficasse tomando conta de tudo. Mas com mulher e dois filhos, quase três, como posso me

arriscar? De qualquer maneira, há bastante comida enquanto eu ficar aqui. Minha única

esperança — acrescentou depois de uma pausa — são os afrescos.

O que insinuava, eu refleti, que sua única esperança era eu; senti pena dele.

Na primavera de 1914 recomendei a villa a dois norte-americanos ricos. Nenhum dos dois

fez oferta alguma para comprar os afrescos; teria ficado espantado se o tivessem feito. Mas

Fábio ficou bastante animado com a visita. “Sinto que agora houve um início”, ele escreveu em carta. “Esses norte-americanos vão voltar ao país deles e contar aos amigos. Logo haverá uma

procissão de milionários para ver os afrescos. Enquanto isso, a vida continua igual. Ou até pior.

Nossa filhinha, que batizamos de Emília, nasceu no mês passado. Minha esposa teve um parto

muito ruim e ainda está longe de ficar boa, o que é muito problemático.” (Esse me pareceu um

adjetivo curioso, nessas circunstâncias.) Vindo de Fábio, no entanto, eu o compreendi; ele era

uma dessas pessoas excessivamente saudáveis a quem qualquer tipo de doença é misteriosa,

inexplicável, e acima de tudo extraordinariamente cansativa e irritante. “Anteontem meu pai

tornou a desaparecer. Ainda não tive tempo de descobrir se a Colombella também desapareceu. Meu irmão, Lúcio, conseguiu lhe tirar uma motocicleta, que é mais do que eu alguma vez

consegui. Mas também nunca fui de ficar rodeando diplomaticamente alguma coisa, como ele...

Ultimamente andei estudando com muito cuidado esse negócio da fábrica de queijo, e não tenho

certeza se não seria mais lucrativo montar um estabelecimento de tecelagem de seda. Quando

você voltar, vou lhe contar os detalhes.”

Mas demorou muito tempo antes que eu visse Pádua e o conde novamente... A guerra pôs

fim às minhas visitas anuais à Itália, e por várias razões, mesmo depois que ela terminou, não

pude ir ao sul novamente tão rápido quanto gostaria. Só no outono de 1921 foi que embarquei novamente no expresso de Veneza.

Eu me encontrava numa Itália muito pouco familiar — uma Itália repleta de violência e

derramamento de sangue. Fascistas e comunistas ainda lutavam ativamente. Rugindo à frente de

suas tempestades de poeira, e carregados de rapazes cantando, os caminhões disparavam

através do país em busca de aventura e o bolchevismo à espreita. As pessoas paravam

respeitosamente quando eles passavam; e através da poeira que flutuava, através do ruído do

motor, um fiapo de canção era soprado: “Giovinezza, giovinezza, primavera di bellezza...”

(Juventude, juventude, primavera de beleza). Onde, senão na Itália, colocariam essas palavras numa canção política? E as proclamações, os manifestos, as denúncias, os apelos! Todos os

tapumes e muros estavam cobertos de palavras. Entre a estação e o Pedrochi passei por toda

uma biblioteca dessas coisas. “Cidadãos!”, eles começavam. “Uma brisa heroica está fazendo

renascer hoje a alma quase asfixiada de nossa infeliz Itália, dominada pelos gases venenosos do

bolchevismo e rastejando em ignóbil humilhação aos pés das outras nações.” E geralmente

terminavam com referências a Dante. Li-os todos com prazer infinito.

Cheguei por fim ao Pedrochi. No terraço, sentado no mesmo canto onde eu o conhecera

anos antes, estava o velho conde. Encarou-me sem expressão quando o cumprimentei, sem me reconhecer. Comecei a explicar quem eu era; depois de um momento ele me interrompeu, quase

com impaciência, protestando que se lembrava então, perfeitamente. Duvidei muito que ele

realmente se lembrasse, mas ele era orgulhoso demais para confessar que se esquecera.

Enquanto isso, convidou-me a sentar-me à sua mesa.

À primeira vista, de longe, imaginei que o velho conde não envelhecera desde que o vira.

Mas estava enganado. Da rua só enxergara o caimento malandro de seu chapéu, o esplendor de

seu bigode e sua pera brancos, os joelhos separados, a nobre protuberância de sua pança. Mas,

agora que podia vê-lo de perto e com calma, vi que ele era na verdade um homem muito diferente. Sob o chapéu de lado o rosto era de um púrpura doentio; a carne pendia em bolsas.

No branco dos olhos, descoloridos como se estivessem embaçados pela idade, as veiazinhas

rompidas surgiam vermelhas. E, opacos, pareciam olhar sem interesse o que viam. Os ombros eram curvados como que sob um peso, e quando levou a xícara aos lábios a mão tremia tanto

que uma gota de café caiu na mesa. Ele agora era um homem velho, velho e cansado.

— Como vai o Fábio? — perguntei. — Desde 1916 não tivera notícias dele.

— Ah, Fábio está bem — respondeu o velho conde. — Fábio está muito bem. Agora tem

seis filhos, sabe? — E o velho cavalheiro assentiu e sorriu para mim sem um traço de malícia.

Parecia ter esquecido as razões pelas quais tomara tanto trabalho para escolher uma boa

católica como nora. — Seis — repetiu. — Sabe, ele se deu muito bem na guerra. Nós,

Tirabassi, sempre fomos guerreiros. — Cheio de orgulho, ele me contou as proezas e os sofrimentos de Fábio. Duas vezes ferido, promoção especial no campo de batalha,

condecorações esplêndidas. Ele agora era major.

— E o serviço militar ainda o prende a Pádua?

O velho assentiu, e de repente apareceu em seu rosto algo como o antigo sorriso.

— Uma pequena combinazione minha — disse, com uma risadinha.

— E a propriedade? — perguntei.

Ah, essa ia muito bem, dentro das circunstâncias. Tinha ficado um pouco descontrolada

durante a guerra, quando Fábio estava no front. E então, depois, houve muitos problemas com os camponeses; mas Fábio e seus fascistas estavam consertando tudo.

— Com Fábio aqui, não tenho preocupações — disse o velho cavalheiro. E então pôs-se a

me contar, de novo, as façanhas de Fábio na guerra.

No dia seguinte peguei um trem para Strà, e depois de uma hora agradável passada na villa

e no parque caminhei sem pressa em direção a Dolo. Levei muito tempo para chegar, pois nessa

ocasião pude parar e contemplar pelo tempo que quisesse as coisas encantadoras no caminho.

Casanova me parecia agora muito menos invejável, percebi, olhando para dentro de mim

mesmo, do que quando eu passara por ali pela última vez. Eu era nove anos mais velho.

O portão estava aberto; entrei. Lá estava a casa, grave e pesada como sempre, porém mais

descuidada do que quando a vira antes. As janelas precisavam de pintura, e aqui e ali o estuque

descascava. Aproximei-me. De dentro da casa vinha o ruído alegre de gritos e risadas de

crianças. A família, imaginei, estava brincando de esconder, ou de trenzinho, ou talvez de algum

jogo atual de fascistas e comunistas. Enquanto subia os degraus da varanda, podia ouvir o som

de pezinhos correndo sobre o chão de lajota; nos aposentos vazios os passos e os gritos

ecoavam estranhamente. E então, de repente, da sala de estar à direita, veio o som da voz de

Fábio, gritando com fúria:

— Ah, pelo amor de Deus, faça essas crianças calarem a boca. — E então, reclamando

com petulância: — Como você quer que eu faça contas com tudo isso?

Fez-se imediatamente um silêncio profundo e, por assim dizer, pouco natural; em seguida, o

som de pezinhos afastando-se em silêncio, alguns sussurros, uma risadinha nervosa. Toquei a

campainha.

Foi a condessa quem abriu a porta. Hesitou por um momento, perguntando-se quem seria

eu; depois lembrou-se, sorriu, estendeu a mão. Ela emagrecera, percebi, e com o

envelhecimento do rosto os olhos pareciam maiores. Sua expressão era gentil e serena, como sempre; ela parecia estar olhando para mim de longe.

— Fábio vai adorar vê-lo — disse ela, e levou-me pela porta à direita do pórtico

diretamente para a sala. Fábio estava sentado à mesa paladiana diante de uma pilha de papéis, mordendo a ponta do lápis.

Mesmo em seu uniforme verde-acinzentado o jovem conde parecia maravilhosamente

brilhante, como um soldado no palco. O rosto ainda era sardento como o de um menino, mas a

pele estava bastante enrugada; ele parecia bem mais velho do que quando o vira pela última

vez; mais velho do que realmente era. A alegria aberta, o brilho iluminado já não estavam ali.

Em seu rosto de feições finas ele ostentava uma expressão incongruente de melancolia crônica.

Ele iluminou-se por um momento, é verdade, quando apareci; acho que estava genuinamente

feliz em me ver.

— Caspita! — repetia sem parar. — Caspita! — Era sua expressão favorita de espanto,

uma palavra estranha, fora de moda. — Quem poderia imaginar? Depois de tanto tempo!

— E toda a eternidade da guerra também — disse eu.

Mas, quando a primeira ebulição de surpresa e alegria diminuiu, o ar melancólico voltou.

— Fico deprimido em ver você de novo — confessou ele. — Ainda viajando por aí; livre

para ir aonde quiser. Se soubesse como é a vida aqui...

— Bem, de qualquer maneira a guerra terminou, e vocês escaparam de uma revolução de

verdade — falei, sentindo que devia, por causa da condessa, fazer algum tipo de protesto. — Isso já é alguma coisa.

— Ah, você é tão ruim quanto Laura — disse o conde com impaciência. Olhou para a

esposa, como se esperasse que ela dissesse algo. Mas a condessa continuou com sua costura

sem mesmo erguer os olhos. O conde pegou-me pelo braço. — Venha — falou, e seu tom era

quase de raiva. — Vamos dar uma volta lá fora. — A resignação religiosa da esposa, sua

paciência, sua serenidade o irritavam, eu percebia, como uma reprimenda; tácita, na verdade, e

sem intenção, mas mesmo assim não menos irritante.

Ao longo dos caminhos cheios de erva no que uma vez, nos antigos dias de esplendor, fora o jardim, lentamente caminhamos em direção à fazenda. Algumas árvores maltratadas cresciam

ao longo da beira do caminho; outrora havia cercas bem cuidadas. Sobre uma concha de

mármore seca um tritão soprava sua trombeta sem água. No final da alameda dois pares —

Plutão e Prosérpina, Apolo e Dafne — contorciam-se em desespero contra o céu.

— Vi seu pai ontem — comentei. — Ele parece mais velho.

— Não podia ser diferente — disse Fábio ferozmente. — Tem sessenta e nove anos.

Senti, pouco à vontade, que o assunto se tornara sério demais para uma conversa leve.

Queria perguntar pela Colombella; dadas as circunstâncias, resolvi que seria mais sábio não falar nela. Reprimi minha curiosidade. Caminhávamos agora no curral de sob os prédios da

fazenda.

— As vacas parecem muito saudáveis — comentei educadamente, olhando por uma porta

aberta. No crepúsculo do interior, seis traseiros cinzentos, sujos de bosta seca, apresentavam-se

em fila; seis compridas caudas de couro balançavam-se com impaciência de um lado para o

outro. Fábio não fez nenhum comentário; apenas resmungou.

— De qualquer maneira — continuou ele devagar, depois de outro silêncio — ele não

pode viver mais muito tempo. Vou vender minha parte e sumir para a América do Sul, apesar da família. — Era uma ameaça contra seu próprio destino, uma ameaça que ele devia saber vã.

Enganava-se para manter a coragem.

— Mas ora! — exclamei, tentando uma oportunidade melhor para mudar o assunto. — Vejo que você afinal começou uma fábrica aqui. — Caminhamos devagar para o extremo oposto da

praça. Através das janelas do prédio comprido e baixo que, em minha última visita, estivera

deserto, vi formas complicadas de máquinas, uma série delas em fila dupla ao longo de todo o

comprimento do prédio. — Teares? Então você desistiu do queijo? E os afrescos? — Voltei-me

interrogativamente em direção ao conde. Tinha o medo horrível de que, quando voltássemos

para a casa, encontrasse o grande vestíbulo descascado de seus Veronese e uma parede lisa

onde antes havia a história de Eros e Psique.

— Ah, os afrescos ainda estão lá, o que sobrou deles. — E apesar do rosto triste de Fábio, fiquei contente com as notícias. — Convenci meu pai a vender parte de suas propriedades em

Pádua, e começamos esse negócio de tecelagem aqui há dois anos. Bem a tempo — Fábio

acrescentou — para a revolução comunista.

Pobre Fábio, ele não tinha sorte. Os camponeses tinham tomado sua fábrica e tentado

apossar-se de sua terra. Durante três semanas ele vivera na villa sitiada, defendendo o lugar,

com vinte fascistas para ajudá-lo, contra todos os camponeses da região. O perigo tinha passado

agora; mas as máquinas estavam quebradas, e de qualquer maneira estava fora de questão

colocá-las em funcionamento; os ânimos estavam ainda muito exaltados. E o que piorava tudo para Fábio era o fato de seu irmão Lúcio, que também arranjara um pequeno capital com o

velho, ter ido para a Bulgária e investido numa fábrica de cadarços de bota. Era a única fábrica

de cadarços no país, e Lúcio estava ganhando dinheiro a rodo. Estava livre como o vento e rico,

com uma linda garota turca como amante. Para Fábio, era claro que a garota turca era a última

gota.

— Una turca, una vera turca — repetia ele, sacudindo a cabeça. Essa mulher pagã

simbolizava a seus olhos tudo o que era exótico, irregular, não doméstico; tudo o que não era

família; tudo que era distante de Pádua e da propriedade.

— E eram máquinas tão lindas — disse Fábio, parando por um momento para olhar pela

última da longa fila de janelas. — Vendê-las, esperar até tudo isso passar ou então consertá-las

e tentar recomeçar... não sei. — Deu de ombros com desânimo. — Ou deixar as coisas correrem

até o velho morrer. — Dobramos a esquina da praça e começamos a caminhar de volta para

casa. — Às vezes — acrescentou, depois de um silêncio — não acredito que ele vá morrer

algum dia.

As crianças estavam brincando no grande vestíbulo dos Veronese. As majestosas portas

duplas que davam para o pórtico estavam abertas; através da abertura as observamos por um momento sem sermos vistos. A família estava formada em ordem de batalha. Um garoto ruivo de

dez ou nove anos abria a vanguarda, um menino moreno vinha em seguida. Depois vinham três

garotinhas, diminuindo em tamanho como três pérolas graduadas; e finalmente uma figurinha

ainda aprendendo a andar, de macacão azul. Todos os seis carregavam bambus ao ombro, e

cantavam em precário uníssono ao som de uma espécie de toque de clarim de três notas: “All’

armi i Fascisti; a morte i Communisti; a basso i Socialisti” — vez após vez. E enquanto

cantavam marchavam à roda, esforçada e incansavelmente. O enorme aposento ecoava como

uma piscina. Distantes sob seus arcos triunfais, em seu mundo sereno de fantástica beleza, as damas e os cavalheiros sedosos tocavam sua música, bebiam seu vinho; o poeta declamava, o

pintor segurava seu pincel diante da tela; os macacos trepavam pelas ruínas romanas, os

papagaios cochilavam nas balaustradas. “All’ armi i Fascisti, a morte i Communisti...” Devia ter ficado ali em silêncio, só para ver por quanto tempo as crianças continuariam sua marcha

patriótica. Mas Fábio não possuía minha curiosidade científica; ou, se possuía, ela já tinha sido

exaurida muito antes de ter nascido o último de seus filhos. Depois de me permitir o espetáculo

por um momento, ele acabou de abrir a porta e entrou. As crianças olharam em volta e

silenciaram imediatamente. Com seu mau humor e sua teoria de educar implicando, elas

pareciam ter pavor do pai.

— Continuem — disse ele. — Continuem. — Mas elas não queriam; obviamente não

podiam, em sua presença aterradora. Esgueiraram-se para longe discretamente.

Fábio levou-me para rodear o quarto.

— Olhe aqui — dizia ele — e aqui. — Numa das paredes do enorme vestíbulo havia meia

dúzia de buracos de bala. Faltava uma lasca em uma das cornijas pintadas; uma dama tinha sido

horrivelmente ferida no rosto; havia dois ou três buracos na paisagem, e a cauda de um macaco

fora cortada. — Nossos amigos, os camponeses — Fábio explicou.

Nos salões de Carpioni tudo estava bem; os sátiros ainda perseguiam suas ninfas, e, na sala

dos centauros e das sereias, os homens que eram metade cavalos ainda galopavam tão

tumultuosamente quanto sempre para dentro do mar para encantar as mulheres que eram metade peixe. Mas a história de Eros e Psique sofrera horrivelmente. O primoroso painel no qual

Tiepolo pintara Psique segurando a lamparina para olhar para seu amante misterioso era pouco

mais que um borrão fraco e mofado. E onde o antigamente indignado jovem deus alçara voo

para voltar a seus parentes olímpicos (que ainda, felizmente, deslizavam intactos por entre as

nuvens do teto) nada havia senão o palidíssimo fantasma de um Cupido ascendendo, ao passo

que Psique, chorando na terra lá embaixo, estava agora quase invisível.

— Nossos amigos, os franceses — disse Fábio. — Ficaram aquartelados aqui em 1918, e

não se davam o trabalho de fechar as janelas quando chovia.

Pobre Fábio! Tudo estava contra ele. Eu não tinha consolo algum a oferecer. Naquele

outono mandei-lhe um crítico de arte e mais três norte-americanos. Mas dessas visitas nada

surgiu. O fato é que ele tinha coisa demais a oferecer. Um quadro, isso podia ser vendido

facilmente. Mas que se poderia fazer com uma casa cheia de pinturas, como essa?

Passaram-se os meses. Por volta da Páscoa do ano seguinte recebi outra carta de Fabio. A

colheita das azeitonas tinha sido ruim. A condessa esperava outro bebê e não se sentia muito

bem. As duas crianças mais velhas estavam com rubéola, e a mais nova contraíra o que os

italianos chamam de tosse asinina. Sua expectativa era de que logo todas acabassem por contrair ambas as doenças. Sentia-se também bastante em dúvida quanto a se valeria ou não a

pena reativar seus teares; a situação do mercado de seda não era tão boa quanto a de fins de

1919. Ai se tivesse enveredado pelos queijos, seu primeiro projeto! Mas Lucio acabava de

amealhar 50 mil liras num golpe de sorte especulativa; sua mulher infiel, contudo, fugira com um

romeno. O velho conde envelhecia a olhos vistos; quando Fabio o vira pela última vez, ele lhe

contara a mesma piada três vezes no intervalo de dez minutos. Com essas duas boas notícias —

ambas eram para ele, tanto quanto posso imaginar, os únicos pontos de luz em meio à treva —

Fabio encerrou a carta. Quedei pensativo — por que razão ele teria se dado ao trabalho de escrever? Talvez obtivesse algum prazer, ainda que mórbido, em arrolar de tal maneira suas

agruras.

Naquele mês de agosto estava programado um festival de música em Salzburgo. Nunca estivera na Áustria; a ocasião pareceu-me apropriada. Fui — e diverti-me como nunca.

Salzburgo fazia-se, então, puro movimento. Havia igrejas barrocas aos montes; fontes em estilo

italiano; jardins e palácios que, à sua pesada e extravagante maneira alemã, imitavam jardins e

palácios de Roma; e, dos tesouros o mais refinado, um túnel de 12 metros de altura

atravessando uma íngreme escarpa — túnel com o qual apenas um príncipe-bispo do século XVII

poderia ter sonhado, tendo a cada ponta um arco triunfal com pilastras, frontões abertos,

estátuas e brasões, todos esculpidos na rocha bruta — uma obra-prima entre os túneis, e isto

numa cidade onde tudo, não sendo verdadeiramente bom, é no mínimo adoravelmente “divertido”, esta a mais divertida das qualidades. Ah, Salzburgo é sem dúvida puro movimento.

Certa tarde subi no funicular ao castelo. Havia um bar no terraço de sob os muros da

fortaleza, do qual se tinha uma vista bastante famosa em Baedeker. Abaixo de você, de um lado,

estava a cidade, estendendo-se pelas ondulações do vale e cortada por um rio como fosse uma

pequena versão alemã de Florença. Do outro lado do terraço você tinha diante de si uma

paisagem que em nada afetava italianismos; era tão doce e romanticamente alemã quanto uma

ária de Freischütz, de Weber. No horizonte viam-se as montanhas, pontiagudas e azuis como

fossem parte de um livro de imagens; e em primeiro plano, correndo em direção ao próprio sopé do precipício improvável em que castelo e terraço se aninhavam, um verde campo, vasto e

plano — quilômetros e quilômetros de campinas férteis pontilhadas de vacas mínimas, com

fazendinhas de brinquedo aqui e ali ou, mais raramente, um grupo de casinhas de boneca, com

uma torre erguendo-se brilhante entre elas.

Eu estava sentado com minha cerveja clara diante dessa paisagem deliciosa e ligeiramente

cômica, pensando confortavelmente em nada em particular, quando ouvi atrás de mim uma voz

extasiada exclamando: “Bello! Bello!”. Olhei para trás com curiosidade — pois me pareceu

bem surpreendente ouvir italiano ali — e vi uma dessas mulheres suntuosas que no sul eles tanto admiram. Ela era uma bella grassa, gorducha à beira do exagero e perigosamente próxima da

meia-idade; mas ainda, a seu modo, extremamente bonita. Seu rosto tinha as proporções de um

iceberg — um quinto acima d’água, quatro quintos abaixo. Ampla e exuberante dos olhos para

baixo, quase não tinha testa; os cabelos começavam logo acima das têmporas. Os olhos eram

escuros, grandes e, para meu gosto pelo menos, excessivamente ternos. Observei-a por um

momento e estava prestes a desviar os olhos novamente quando seu companheiro, que estivera

contemplando a paisagem do outro lado, voltou-se. Era o velho conde.

Eu fiquei bem mais constrangido, acredito, do que ele. Senti que ruborizava, quando nossos olhos se encontraram, como se fosse eu quem estivesse viajando pelo mundo com uma

Colombella e ele quem tivesse me pegado em flagrante. Não sabia o que fazer: se sorrir e falar

com ele, ou dar as costas como se não o tivesse reconhecido, ou fazer um gesto de cabeça e

então, discretamente, desaparecer. Mas o velho conde pôs fim à minha hesitação chamando meu

nome em tom de espanto, correndo para mim e agarrando-me a mão. Que delícia ver um velho

amigo! Logo ali! Naquele país esquecido — embora fosse bastante barato, não achava? Ele ia

me apresentar a uma encantadora compatriota sua, uma dama italiana que ele conhecera na

véspera no trem de Viena.

Fui apresentado a Colombella, e nos sentamos à minha mesa. Empenhado em seu italiano, o

conde pediu mais duas cervejas. Conversamos. Ou melhor, o conde conversou; pois a conversa

foi um monólogo. Ele nos contou anedotas da Itália de cinquenta anos antes; fez-nos imitações de personagens estranhos que conhecera; até mesmo, a certo momento, imitou o zurro de um

burro — não me lembro em que contexto; mas o zurro permanece vívido em minha memória.

Cheirando o ar entre cada frase, ele nos deu sua opinião sobre as mulheres. A Colombella

guinchava protestos indignados e derretia-se de rir. O velho conde retorcia os bigodes, piscando

para ela através de sua rede de rugas. De vez em quando virava-se em minha direção e dava-me

uma piscadela.

Eu ouvia atônito. Esse era o homem que contara a mesma anedota três vezes em dez

minutos? Olhei para o velho Conde. Ele estava inclinado para a Colombella sussurrando em seu ouvido algo que a fez rir tanto que teve de enxugar os olhos. Dando-lhe as costas, ele

interceptou meu olhar; sorrindo, deu de ombros como se dissesse: “Essas mulheres! Que

imbecis, mas que deliciosas, que criaturas indispensáveis!”. Esse era o velho cansado que eu

tinha visto um ano antes sentado no terraço do Pedrochi? Parecia incrível.

— Bem, adeus, a rivederci. — Eles precisavam descer para a cidade novamente. O

funicular estava esperando.

— Tive muito prazer em vê-lo — disse o velho conde apertando-me a mão afetuosamente.

— Eu também — afirmei. — Especialmente por vê-lo tão bem.

— Sim, agora estou muito bem — disse-me ele estufando o peito.

— E jovem — continuei. — Mais jovem que eu! Como foi que conseguiu?

— Ahá! — O velho conde inclinou a cabeça para o lado misteriosamente.

Mais por brincadeira do que a sério, eu disse:

— Acho que o senhor andou procurando Steinach em Viena para uma operação de

rejuvenescimento.

Como resposta, o velho conde ergueu o dedo indicador da mão direita, pousando-o

primeiro nos lábios, depois na lateral do nariz, piscando. Então, apertando o punho e com o polegar esticado para cima rigidamente, ele fez um gesto complicado que para um italiano,

tenho certeza, seria cheio de significado profundo e vital. Para mim, no entanto, pouco familiar

com a linguagem de sinais, o sentido exato não ficou inteiramente claro. Mas o conde não

ofereceu nenhuma explicação verbal. Ainda sem dizer uma palavra, levantou o chapéu; depois,

pousando o dedo mais uma vez nos lábios, voltou-se e correu com espantosa agilidade pela

descida inclinada em direção ao pequeno vagão do funicular, no qual a Colombella já se

sentara.