Contos escolhidos

Aldous Huxley · Capítulo 22 de 23

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Contos escolhidos

Os Claxton

 

EM SUA CASINHA NO BOSQUE, como era linda, como era espiritual a vida dos Claxton! Até o gato era

vegetariano — pelo menos oficialmente. Até o gato. O que tornava realmente indesculpável o

comportamento da pequena Sylvia. Pois afinal a pequena Sylvia era humana e tinha seis anos de

idade, ao passo que o gato tinha só quatro e era um animal. Se o gato podia contentar-se com

verduras, batatas, leite e uma ocasional porção de manteiga de amendoim como prêmio — o

gato, que tinha um tigre em seu sangue —, certamente podia-se esperar que Sylvia fosse capaz

de evitar comer toicinho às escondidas. Particularmente na casa dos outros. O que tornava o

incidente especialmente doloroso para os Claxton era que tinha ocorrido sob o teto de Judith. Era a primeira vez que ficavam com Judith desde seu casamento. Martha Claxton nutrira certo

medo da irmã, medo de sua língua ferina, de seu riso e de sua irreverência assustadora. E, por

causa de seu próprio marido, ela tinha um pouco de ciúme do marido de Judith. Os livros de

Jack Bamborough não eram apenas apreciados; também rendiam dinheiro. Ao passo que o pobre

Herbert... “A arte de Herbert é interior demais, espiritual demais para a maioria das pessoas”,

costumava explicar a esposa. Ela tinha raiva do sucesso de Jack Bamborough; era completo

demais. Não se importaria muito se ele tivesse ganhado rios de dinheiro às voltas com o

desprezo da crítica; ou se os críticos tivessem aprovado e ele não tivesse ganhado coisa alguma. Mas ganhar elogios e mil libras por ano, isso era demais. Um homem não tinha o direito de ter o

melhor de ambos os mundos desse jeito, quando Herbert nunca vendia coisa alguma e era

inteiramente ignorado. Apesar de tudo isso ela tinha aceitado finalmente os repetidos convites

de Judith. Afinal devia-se amar a irmã e o marido da irmã. Ademais, todas as chaminés da casa

precisavam de limpeza, e o telhado teria de ser consertado onde havia goteiras. O convite de

Judith chegara num momento conveniente. Martha aceitou-o. E então Sylvia acabou fazendo

aquela coisa realmente inadmissível. Descendo para o café da manhã antes dos outros, ela

roubou uma fatia do prato de toicinho com o qual a tia e o tio tão barbaramente começavam seu dia. A chegada da mãe impediu-a de comê-lo no local; teve de escondê-lo. Semanas mais tarde,

quando Judith procurava algo na cômoda italiana marchetada, uma pequena poça de gordura

seca dava um testemunho eloquente do crime. O dia passou; mas Sylvia não encontrou

oportunidade para consumar a transgressão que iniciara. Foi só à noite, enquanto seu irmãozinho

Paul recebia o banho, que ela conseguiu recuperar o toicinho, agora rígido e viscoso. Com

pressa e culpa, ela correu para cima e escondeu-o sob o travesseiro. Quando a luz foi apagada,

comeu-o. De manhã, as manchas de gordura e um pedaço de casca mastigada denunciaram-na.

Judith teve inesgotáveis ataques de riso.

— É como o Jardim do Éden — ofegou entre as explosões de riso. — A carne do Porco do

Conhecimento do Bem e do Mal. Mas se você insiste em dar ao toicinho todos esses

imperativos categóricos e esse mistério, o que poderia esperar, minha querida Martha?

Martha continuou sorrindo seu sorriso costumeiro de doce benevolência e perdão. Mas por dentro sentia-se extremamente irada; a criança tinha feito com que eles todos parecessem tolos

diante de Judith e Jack. Ela gostaria de dar-lhe uma boa surra. Em vez disso — pois nunca se

deve ser ríspido com uma criança, nunca se deve deixá-la perceber que se está irritado —, ela conversou com Sylvia, explicou, pediu e apelou, mais com tristeza do que com raiva, para seus

melhores sentimentos.

— Seu pai e eu não achamos correto fazer os animais sofrerem, se podemos comer

verduras, que não sofrem.

— Como você sabe que elas não sofrem? — perguntou Sylvia, fazendo a pergunta com

malícia. Tinha no rosto as marcas do mau humor.

— Não achamos direito, querida — continuou a sra. Claxton, ignorando a interrupção. —

E tenho certeza de que você também não acharia, se pensasse. Pense, meu amor; para fazer aquele toicinho, um porquinho teve de ser morto. Morto, Sylvia, pense nisso. Um pobre

porquinho inocente que não tinha feito mal a ninguém.

— Mas eu odeio porcos — exclamou Sylvia. Sua raiva explodiu em súbita ferocidade; os

olhos, que estavam fixos e vidrados de ressentimento, brilharam obscuramente. — Odeio,

odeio, odeio.

— Muito bem — disse tia Judith, que entrara inoportunamente no meio do sermão. —

Muito bem. Os porcos são nojentos. É por isso que são chamados porcos.

Martha ficou contente em voltar para a casinha no bosque e a bela vida, feliz em escapar do riso irreverente de Judith e da eterna censura do sucesso de Jack. Em sua casa ela

comandava, era a senhora dos destinos da família. Aos amigos que vinham visitá-los ela

gostava de dizer, com aquele seu sorriso: “Sinto que, a nosso modo e em escala mínima,

construímos Jerusalém na terra verde e agradável da Inglaterra”.

Tinha sido o bisavô de Martha quem iniciara a fábrica de cerveja. Postagate’s Entire era

uma palavra costumeira em Cheshire e Derbyshire. A parte de Martha na fortuna da família era

de umas setecentas libras por ano. A espiritualidade e o desprendimento dos Claxton eram as

flores de uma planta econômica cujas raízes eram regadas a cerveja. Se não fosse a sede dos trabalhadores britânicos, Herbert teria de gastar tempo e energia produzindo lucro, não vivendo

em meio à beleza. A cerveja e o fato de ter se casado com Martha permitiam-lhe cultivar as

artes e as religiões, distinguir-se em um mundo grosseiro como um apóstolo do idealismo.

— É o que se chama divisão de trabalho — dizia Judith, rindo. — Outras pessoas bebem.

Martha e eu pensamos. Ou, pelo menos, pensamos que pensamos.

Herbert era um desses homens que nunca estão sem uma mochila nas costas. Mesmo na rua

Bond, nas raras ocasiões em que ia a Londres, Herbert parecia estar prestes a escalar o Mont

Blanc.[58] A mochila é um sinal de espiritualidade. Para o moderno teutão ou anglo-saxão pensador e puro de coração, o escândalo da mochila é o que o escândalo da cruz era para os

Franciscanos. Quando Herbert passava, de pernas compridas e calças curtas, a barba clara

como uma explosão em volta de seu rosto, a mochila transbordando com alhos-porós e repolhos

em abundância necessária para manter uma família puramente graminívora, os garotos de rua

gritavam, as raparigas dobravam-se de rir. Herbert ignorava-os, ou então sorria através da

barba com ar de perdão e um humor meio estudado. Todos nós temos nossas pequenas mochilas

para carregar. Herbert carregava a dele não com mera resignação, mas corajosamente,

provocantemente, jogando-a na cara das pessoas; e, junto com a mochila, os outros símbolos de diferença, de separação da humanidade comum e vulgar: a barba, as calças curtas, a camisa

byrônica. Ele tinha orgulho de sua diferença.

— Ah, sei que vocês nos acham ridículos — dizia aos amigos do mundo grosseiro e materialista. — Sei que riem de nós e nos acham malucos.

— Não, não — respondiam os amigos, mentindo educadamente.

— No entanto, se não fosse pelos malucos, onde estariam vocês agora, o que estariam

fazendo? — Herbert insistia. — Estariam surrando crianças e torturando animais e enforcando

pessoas por roubarem um xelim e fazendo todas as outras coisas horríveis que se faziam

antigamente.

Ele tinha orgulho, orgulho; sabia-se superior. Assim como Martha. Apesar de seu belo

sorriso cristão, ela também tinha certeza de sua superioridade. Aquele seu sorriso era a marca registrada de sua espiritualidade. Versão mais benevolente do sorriso da Mona Lisa, ele

mantinha seus lábios um tanto finos e sem sangue quase cronicamente curvados para cima numa

lua crescente de doce caridade e perdão; ele sobrecarregava a casmurrice natural do rosto dela

com uma espécie de doçura descabida. Era o produto de longos anos de autonegação, de

teimosas aspirações em direção ao elevado, de um amor consciente e decidido pela humanidade

e por seus inimigos. (E para Martha os termos eram realmente idênticos; a humanidade, embora

naturalmente ela não o admitisse, era mesmo sua inimiga. Ela sentia-a hostil e, portanto, amava-

a, consciente e conscienciosamente; amava-a porque na realidade a odiava.)

Por fim o hábito fixara o sorriso em seu rosto de maneira indelével. Ele brilhava

permanentemente, como os faróis de um carro deixados ligados, acidentalmente e sem nenhuma

necessidade, durante o dia. Mesmo quando aborrecida ou radicalmente zangada, mesmo quando,

teimosa, lutava para impor sua vontade, o sorriso persistia. Emoldurados por cachos pré-

rafaelitas de cabelos cor de rato, o rosto pesado, de feições amuadas e doentiamente pálido,

continuava a brilhar com o incongruente e amoroso perdão por todo aquele mundo de

humanidade odiosa e hostil; apenas nos olhos cinzentos havia algum traço das emoções que

Martha reprimia tão cuidadosamente.

Quem ganhara o dinheiro tinham sido o bisavô e o avô dela. O pai já era, por berço e

criação, um cavalheiro proprietário de terras. A fábrica de cerveja era apenas o pano de fundo

longínquo, porém lucrativo, de atividades mais refinadas, como esportista, agricultor, criador de

cavalos e de rododendros, membro do parlamento e sócio dos melhores clubes de Londres.

A quarta geração estava, obviamente, madura para a arte e o pensamento superior. E assim,

a seu tempo, a adolescente Martha descobriu William Morris e a sra. Besant, descobriu Tolstói,

Rodin, Dança Folclórica e Lao-Tsé. Teimosamente, com todo o poder de sua vontade pesada,

ela dirigiu-se à conquista da espiritualidade, ao cerco e à captura do superior. E, não menos a seu tempo que a irmã, a adolescente Judith descobriu a literatura francesa e ficou levemente

entusiasmada (pois estava em sua natureza ser leve e alegre) com Manet e Daumier, e até

mesmo, a seguir, com Matisse e Cézanne. A longo prazo, fabricar cerveja leva quase

inevitavelmente ao impressionismo, à teosofia ou ao comunismo. Mas há outras estradas para as

alturas espirituais; era por uma dessas outras estradas que Herbert tinha viajado. Não havia

fabricante de cerveja entre os ancestrais de Herbert. Ele vinha de uma camada mais baixa, ou

pelo menos mais pobre, da sociedade. Seu pai tinha um armarinho em Nantwich. O sr. Claxton

era um homem magro e frágil, com uma queda para a discussão e para picles de cebola. A indigestão estragara-lhe o humor, e a crônica consciência de inferioridade fizera dele um

revolucionário e um valentão doméstico. Nos intervalos do trabalho ele lia a literatura do

socialismo e da descrença e implicava com a esposa, que se refugiava na piedade não conformista. Herbert era um menino inteligente, com talento para passar nos exames. Dava-se

bem na escola. Em casa tinham muito orgulho dele, pois era filho único.

“Guarde bem o que lhe digo”, dizia o pai, iluminando-se profeticamente naquela beatitude

de quinze minutos que surgia entre o jantar e o início da digestão. “Este menino ainda vai fazer

alguma coisa notável.”

Poucos minutos mais tarde, com os primeiros roncos e as primeiras convulsões da

indigestão, ele estaria gritando com o filho, furioso, esmurrando-o, expulsando-o da sala.

Não sendo bom em jogos, Herbert vingava-se de seus rivais mais atléticos através da leitura. Aquelas tardes passadas na biblioteca pública em vez de no campo de futebol, ou em

casa com um dos livros revolucionários do pai, foram o início de sua diferença e superioridade.

Era, quando Martha o conheceu, uma diferença política, uma diferença anticristã. A

superioridade dela era principalmente artística e espiritual. A personalidade de Martha era a

mais forte; em pouco tempo o interesse de Herbert pelo socialismo tornava-se inteiramente

secundário ao seu interesse pela arte, e seu anticlericalismo adquiriu tons de religiosidade

oriental. Era de esperar.

O que não era de esperar foi os dois se casarem, ou até mesmo se conhecerem. Não era comum que filhos de cervejeiros latifundiários e de donos de armarinho se conhecessem e se

casassem.

Uma sessão de dança medieval fez o milagre. Eles se conheceram em certo jardim nos

subúrbios de Nantwich onde o sr. Winslow, o professor, presidia os passinhos e saltinhos um

tanto solenes de tudo o que era o melhor da juventude de Cheshire oriental. Martha foi do campo

para esse jardim suburbano de automóvel. Herbert foi de bicicleta, da rua principal.

Conheceram-se: o amor fez o resto.

Martha tinha vinte e quatro anos e, em seu estilo pesado e pálido, não era feia. Herbert era um ano mais velho, um rapaz alto, desproporcionalmente magro, com o rosto de feições fortes e

aquilinas, no entanto singularmente calmas (“um carneiro em vestes de águia”, foi como Judith o

descreveu certa vez), e cabelos muito claros. Barba, na época ele não mantinha. A necessidade

econômica ainda o impedia de anunciar a sua diferença e superioridade. No escritório do

leiloeiro onde Herbert trabalhava, uma barba seria tão inteiramente inadmissível quanto calças

curtas, camisa aberta, e aquele símbolo exterior e visível da graça interior, a mochila. Para

Herbert, essas coisas só se tornaram possíveis quando o casamento e as setecentas libras anuais

de Martha ergueram-no acima das implacáveis influências da razão econômica. Nesses dias de Nantwich o máximo que ele podia se permitir era uma gravata vermelha e algumas opiniões

particulares.

Foi Martha quem se incumbiu da maior parte do amor. Taciturnamente, com uma paixão

quase sombria em sua intensidade teimosa, ela o adorava — o corpo frágil, as mãos delicadas,

de dedos longos, aquele rosto aquilino com seu ar de distinção e inteligência que outros olhos

consideravam falso, todo ele, todo. “Ele leu William Morris e Tolstói”, escreveu em seu diário.

“É uma das poucas pessoas que conheci que se sentem responsáveis a respeito das coisas.

Todas as outras são terrivelmente frívolas, egocêntricas e indiferentes. Como Nero tocando violino enquanto Roma ardia. Ele não é assim. Ele é consciente, atento, ele aceita a carga. Por

isso gosto dele.” Por isso, de qualquer maneira, ela achava que gostava dele. Mas sua paixão

era na verdade pelo Herbert Claxton físico. Pessoalmente, como uma nuvem escura carregada de eletricidade, ela pairava sobre ele como uma espécie de ameaça, prestes a explodir sobre

ele com os raios da paixão e da vontade dominadora. Herbert carregou-se com um pouco da

eletricidade de paixão que despertara nela. Porque ela amava, ele a amava de volta. Sua

vaidade também estava lisonjeada; era apenas teoricamente que ele desprezava as diferenças

sociais e a fortuna.

Os proprietários-cervejeiros ficaram horrorizados quando Martha declarou que pretendia

casar-se com o filho de um comerciante. As objeções apenas intensificaram a teimosa

determinação de Martha de fazer o que queria. Mesmo que não o amasse, teria casado com ele por princípio, só porque o pai dele era comerciante e porque todo esse negócio de classes era

uma bobagem sem importância. Além disso, Herbert tinha talento. Que tipo de talento era difícil

especificar. Mas, fosse qual fosse esse talento, ele estava sendo destruído no escritório do

leiloeiro. Suas setecentas libras por ano lhes dariam liberdade. Era praticamente um dever

casar-se com ele.

— Um homem é um homem, apesar de tudo — declarou ao pai, citando, na esperança de

persuadi-lo, o poeta favorito dele; ela própria achava que Burns era por demais grosseiro e

pouco espiritual.

— E um carneiro é um carneiro — retorquiu o sr. Postgate. — E um inseto é um inseto,

apesar de tudo.

Martha enrubesceu violentamente e deu-lhe as costas sem dizer mais nada. Três semanas

mais tarde, ela e o quase passivo Herbert estavam casados.

Bem, agora Sylvia tinha seis anos e dava bastante trabalho; o pequeno Paul, que era

manhoso e tinha adenoides, acabara de fazer cinco; e Herbert, sob a influência da esposa,

descobrira inesperadamente que seus talentos eram na realidade artísticos, sendo nessa época

um pintor com uma estabelecida reputação de inépcia e falta de vida. Depois de cada reafirmação de sua falta de sucesso, ele exibia, mais desafiador, o escândalo da mochila, os

escândalos das calças curtas e da barba. Martha, enquanto isso, falava sobre a interioridade da

arte de Herbert. Eles conseguiam convencer-se de que era sua superioridade que os impedia de

receber o reconhecimento que mereciam. A falta de sucesso de Herbert era até mesmo uma

prova (embora talvez não a espécie mais satisfatória de prova) dessa superioridade.

— Mas o dia de Herbert chegará — afirmava Martha profeticamente. — Tem de chegar.

Enquanto isso a pequena casa transbordava de quadros não vendidos. Alegóricos, eles

eram pintados sem muito cuidado, num estilo que era indiano antigo, não obstante temperado, sempre que os originais orientais decaíam por demais lascivamente para seios e cinturas de

vespa e coxas como a lua, pela melancólica respeitabilidade de Puvis de Chavannes.

— E deixe-me implorar, Herbert — esses tinham sido os conselhos de despedida de

Judith, enquanto esperavam na plataforma o trem que os levaria de volta à casinha no bosque.

— Deixe-me implorar a você: tente ser um pouco mais indecente em seus quadros. Não tão

chocantemente puro. Você não sabe como me faria feliz se pudesse ser realmente obsceno, ao

menos uma vez. Realmente obsceno.

Era um alívio, pensou Martha, estar se distanciando desse tipo de coisa. Judith era muito...

Seus lábios sorriam, sua mão acenou em despedida.

— Não é maravilhoso estar de volta a nossa casinha querida! — ela exclamou, quando o

táxi entrou aos solavancos pelo caminho que atravessava o terreno até o portão do jardim. — Não é maravilhoso?

— Maravilhoso — disse Herbert, fazendo ecoar obedientemente seu êxtase um tanto

forçado.

— Maravilhoso! — repetiu o pequeno Paul, fanhosamente, por causa das adenoides. Era

uma criança boa, quando não estava fazendo manha, e sempre dizia e fazia o que se esperava

dele.

Pela janela do táxi Sylvia contemplou criticamente a casa comprida e baixa entre as

árvores.

— Acho que a casa de tia Judith é mais bonita — concluiu com decisão.

Martha voltou-se para ela com a doce iluminação de seu sorriso.

— A casa de tia Judith é maior e muito mais luxuosa — disse. — Mas este é o lar, minha

querida. Nosso próprio lar.

— Mesmo assim, gosto mais da casa de tia Judith — insistiu Sylvia.

Martha sorriu-lhe em perdão e sacudiu a cabeça.

— Quando você crescer vai entender o que quero dizer — falou. “Uma criança estranha”,

pensava, “uma criança difícil.” Não como Paul, que era tão fácil. Fácil demais. Paul aceitava sugestões, fazia o que lhe mandavam, coloria-se com as cores do ambiente espiritual. Sylvia

não. Ela tinha vontade própria. Paul era como o pai. Na menina, Martha via algo de sua própria

teimosia, paixão, determinação. Se essa vontade pudesse ser dirigida... Mas o problema é que

ela era, com demasiada frequência, hostil, relutante, contrária. Martha pensou naquela ocasião

deplorável, poucos meses antes, em que Sylvia, num ataque de raiva por não ter permissão de

fazer algo que queria fazer, cuspira no rosto do pai. Herbert e Martha tinham concordado que

ela devia ser castigada. Mas como? Não surrada, naturalmente surrar estava fora de questão. A

coisa importante era fazer a criança entender o horror do que tinha feito. Finalmente resolveram que a melhor coisa a fazer seria Herbert conversar com ela muito seriamente (mas muito

suavemente, é claro) e então deixá-la escolher seu próprio castigo. Deixar que a consciência

dela decidisse. Parecia uma ideia excelente.

— Quero lhe contar uma história, Sylvia — disse Herbert naquela noite, colocando a

criança no colo. — Sobre uma menininha que tinha um pai que a amava muito, muito. — Sylvia

olhou para ele com suspeita, mas não disse nada. — E um dia essa menininha, que às vezes era

uma menina um pouco estouvada, embora eu não acredite que fosse realmente má, estava

fazendo uma coisa que não era certo ou bom para ela. E o pai lhe disse que não fizesse. E o que acha que essa menininha fez? Ela cuspiu no rosto do pai. E o pai ficou muito triste. Porque o que

sua filhinha fez estava errado, não estava? — Sylvia assentiu desafiadoramente. — E quando

alguém faz alguma coisa errada, deve ser castigado, não deve? — A criança tornou a assentir.

Herbert ficou contente; suas palavras tinham tido efeito; a consciência dela estava sendo tocada.

Sobre a cabeça da criança ele trocou um olhar com Martha. — Se você fosse esse pai, e a

menina que você amava tanto tivesse cuspido em seu rosto, o que você teria feito, Sylvia?

— Cuspido de volta — respondeu Sylvia ferozmente e sem hesitar.

À lembrança dessa cena, Martha suspirou. Sylvia era difícil, Sylvia era decididamente um problema. O táxi parou no portão; os Claxton descarregaram a si mesmos e a bagagem. Diante

da gorjeta insuficiente, o motorista fez a cena de costume. Carregando a mochila, Herbert deu-

lhe as costas com digna paciência. Estava acostumado a esse tipo de coisa; era um martírio crônico. O desagradável dever de pagar era sempre dele. Martha apenas fornecia o dinheiro —

e com que relutância extrema, crescente a cada ano! Ele sempre ficava entre o fogo da gorjeta

insuficiente e a frigideira da avareza de Martha.

— Uma viagem de quatro quilômetros e uma gorjeta de dois pence! — gritou o motorista

para as costas emochiladas de Herbert, que se afastava.

Martha reclamava até dos dois pence. Mas a convenção exigia que alguma gorjeta fosse

dada. As convenções são coisas estúpidas; mas até mesmo os Filhos do Espírito tinham de fazer

concessões ao Mundo. Nesse caso Martha estava disposta a fazer uma concessão de até o máximo de dois pence. Não mais. Herbert sabia que ela ficaria muito zangada se ele tivesse

dado mais. Não abertamente, é claro; não explicitamente. Ela nunca perdia a paciência ou o

sorriso a olhos vistos. Mas sua desaprovação clemente teria pesado em cima dele durante

vários dias. E durante vários dias ela teria encontrado desculpas para economizar, para poder

compensar a enorme extravagância de uma gorjeta de seis pence em vez de dois. Suas

economias eram principalmente na comida, e sua justificativa era sempre espiritual. Comer era

grosseiro; viver bem era incompatível com pensar bem; era horrível pensar nos pobres com

fome enquanto as pessoas viviam em luxuosa gula. Haveria um corte na manteiga e nas castanhas, nas verduras mais gostosas e nas melhores frutas. As refeições consistiriam mais e

mais exclusivamente em pirão, batata, repolho, pão. Só quando a extravagância original tivesse

sido compensada cem vezes é que Martha começaria a relaxar em seu ascetismo. Herbert nunca

se aventurou a reclamar. Depois de um desses ataques de vida sob necessidades básicas, ele

durante muito tempo tomou cuidado para evitar outras extravagâncias, mesmo quando, como

nesse caso, suas economias o levavam a um conflito doloroso e humilhante com aqueles sobre

quem elas eram praticadas.

— Da próxima vez vou cobrar mais caro pela barba — gritava o motorista.

Herbert atravessou a soleira e fechou a porta atrás de si. Salvo! Tirou a mochila e

depositou-a cuidadosamente numa cadeira. Grosso, vulgar, animal! Mas de qualquer maneira ele

fora embora com os dois pence. Martha não teria razão para diminuir o suprimento de ervilhas.

De modo manso e espiritual, Herbert gostava muito de comer. Martha também — de modo mal-

humorado e violento. Por isso ela se tornara vegetariana, por isso suas economias eram sempre

à custa do estômago — exatamente porque gostava tanto de comer. Ela sofria quando se privava

de um petisco delicioso. Mas havia um sentido no qual ela amava seu sofrimento mais que o

petisco. Negando-se, ela sentia todo o seu ser irradiado por um brilho de poder; sofrendo, ela se fortalecia, sua vontade se firmava, sua energia aumentava. Os instintos represados subiam sem

parar atrás do muro da mortificação voluntária, profundos e pesados com o potencial de força.

Na luta entre os instintos, o amor que Martha tinha pelo poder era em geral suficientemente forte

para vencer sua gula; entre a hierarquia de prazeres, a alegria de exceder a vontade pessoal

consciente era mais intensa do que a alegria de comer até mesmo chocolate com menta ou

morangos com creme. Nem sempre, no entanto; pois havia ocasiões em que, vencida por um

desejo súbito e irresistível, Martha comprava e, em um só dia, consumia secretamente um quilo

inteiro de bombons de chocolate, jogando-se sobre os doces com a mesma violência pesada que caracterizara sua paixão por Herbert. Com a passagem do tempo e a diminuição, depois do

nascimento dos dois filhos, de sua paixão física pelo marido, as orgias de Martha entre os

chocolates se tornaram mais frequentes. Era como se suas energias vitais estivessem sendo forçadas, pelo fechamento do canal sexual, a encontrar um escoadouro na gulodice. Depois de

uma dessas orgias Martha sempre tendia a se tornar mais severa do que era em sua ascética

espiritualidade.

Três semanas depois da volta dos Claxton à sua casinha no bosque, irrompeu a guerra.

— Ela mudou a maioria das pessoas — comentou Judith no terceiro ano de guerra. —

Alterou algumas a um ponto irreconhecível. Não Herbert e Martha, no entanto. Só os fez mais...

mais como eles mesmos do que eram antes. Curioso — ela sacudiu a cabeça. — Muito curioso.

Mas não era curioso: era inevitável. A guerra não podia deixar de intensificar tudo o que era caracteristicamente herbertiano e marthaense em Herbert e Martha. Ela aumentava seu senso

de superioridade distante, separando-os ainda mais do rebanho comum. Pois enquanto as

pessoas comuns acreditavam na guerra, lutavam e trabalhavam para vencer, Herbert e Martha

desaprovavam-na inteiramente e, pela razão de serem parcialmente budistas, parcialmente

socialistas e parcialmente tolstoianos, recusaram-se a participar daquela coisa maldita. No

meio da loucura universal, só eles eram sãos. E sua superioridade era provada e divinamente

aureolada pela perseguição. A desaprovação não oficial dera lugar, depois da lei do alistamento

compulsório, à repressão oficial. Herbert alegou uma objeção consciente. Ele foi mandado trabalhar na terra em Dorset, um mártir, um ser humano diferente e espiritualmente superior. O

ato de um ministério da Guerra brutal o tinha definitivamente promovido para além das fileiras

da humanidade comum. Dessa promoção Martha participava por extensão. Mas o que mais

poderosamente estimulava a espiritualidade dela não era a perseguição do tempo da guerra, mas

sim a instabilidade financeira do tempo da guerra, do aumento dos preços no tempo da guerra.

Nas primeiras semanas de confusão ela ficara em pânico; imaginava que todo o seu dinheiro

estava perdido, via-se com Herbert e as crianças, famintos e sem casa, mendigando de porta em

porta. Imediatamente despediu as duas empregadas, reduziu o suprimento de comida da família a uma ração de prisão. O tempo passou e seu dinheiro entrava como sempre. Mas Martha estava

tão deliciada com as economias que fizera que não quis voltar ao antigo modo de vida.

— Afinal, não é realmente agradável ter desconhecidos dentro de casa para nos servir —

argumentava. — Além disso, por que deveriam nos servir? Eles são tão bons quanto nós. — Era

um tributo hipócrita à doutrina cristã; na verdade, eles eram imensuravelmente inferiores. — Só

porque acontece que somos capazes de pagar-lhes, é por isso que eles têm que nos servir. Isso

sempre me fez sentir inconfortável e envergonhada. A você não, Herbert?

— Sempre — disse Herbert, em eterna concordância com a mulher.

— Além disso, acho que cada um deve fazer seu próprio trabalho. Não se deve perder o

contato com as pequenas e humildes realidades da vida. Sinto-me realmente mais feliz desde

que comecei a fazer o trabalho de casa. Você não?

Herbert assentiu.

— E é tão bom para as crianças. Ensina-as a humildade e o dever.

Passar sem empregada economizava cento e cinquenta libras por ano. Mas as economias

que ela fazia na comida logo eram contrabalançadas pelos resultados da escassez e da inflação.

A cada aumento de preço, o entusiasmo de Martha pela espiritualidade ascética tornava-se mais férvido e profundo. Assim como a sua convicção de que as crianças seriam estragadas e

transformadas em pessoas mundanas caso as mandassem para um colégio interno caro. “Herbert

e eu acreditamos muito na educação no lar, não acreditamos, Herbert?” E Herbert concordava que acreditavam muito mesmo. Educação em casa, sem uma governanta, insistia Martha. Por que

haveria necessidade de deixar um filho ser influenciado por desconhecidos? Talvez mal

influenciado. De qualquer forma, não influenciado da maneira exata como os pais o

influenciariam. As pessoas contratavam governantas porque não gostavam do trabalho difícil de

educar seus filhos. E naturalmente o trabalho era mesmo difícil — tanto mais difícil quanto mais

elevados fossem os ideais. Mas não valia a pena fazer sacrifícios pelos filhos? Com essa

pergunta consoladora, o sorriso de Martha curvava-se em uma meia-lua de espiritualidade

maior do que o normal. Claro que valia a pena. O trabalho era um contentamento incessante — não era, Herbert? Pois o que poderia ser mais delicioso, mais profundamente agradável à alma,

do que ajudar os próprios filhos a crescerem belamente, guiá-los, moldar seu caráter em formas

ideais, levar seus pensamentos e desejos para os canais mais nobres? Não por qualquer sistema

compulsório, naturalmente; as crianças não deviam ser compelidas jamais; a arte da educação

era convencer as crianças a moldarem-se nas formas mais ideais, era mostrar-lhes como serem

os artífices de seus próprios eus superiores, era injetar-lhes entusiasmo pelo que Martha

descrevia, apropriadamente, como “autoescultura”.

Em Sylvia, a mãe tinha de admitir, essa arte da educação era difícil de ser praticada. Sylvia não queria esculpir-se, pelo menos não nas formas que Martha e Herbert achavam as

mais bonitas. Ela era, quase num nível desencorajador, desprovida daquele senso de beleza

moral no qual os Claxton confiavam como meio de educação. Era feio, diziam-lhe, ser rude,

desobedecer, dizer coisas feias e falar mentiras. Era bonito ser gentil e delicada, obediente e

honesta. “Mas não me importo de ser feia”, retorquia Sylvia. Não havia resposta possível a não

ser uma surra; e as surras eram contra os princípios dos Claxton.

Para Sylvia, a beleza estética e intelectual parecia significar tão pouco quanto a beleza

moral. Que dificuldades tiveram para fazer com que ela se interessasse pelo piano! Isso era ainda mais extraordinário, considerava a mãe, porque Sylvia era obviamente musical; quando

tinha dois anos e meio já sabia cantar Os três ratinhos sem desafinar. Mas não queria aprender

as escalas. A mãe falou-lhe de um menininho maravilhoso chamado Mozart. Sylvia odiava

Mozart. “Não, não!”, gritava, sempre que a mãe mencionava o nome detestado. “Não quero

ouvir.” E para ter certeza de não ouvir ela levava os dedos ao ouvidos. Mesmo assim, aos nove

anos ela conseguia tocar A camponesa alegre do início ao fim sem errar. Martha ainda tinha

esperança de transformá-la na musicista da família. Paul, enquanto isso, era o futuro Giotto;

tinha sido decidido que ele herdara os talentos do pai. Ele aceitou essa carreira tão docilmente quanto tinha consentido em aprender a ler. Sylvia, por outro lado, simplesmente recusava-se a

ler.

— Mas pense como vai ser maravilhoso quando você puder abrir um livro e ler todas as

coisas lindas que as pessoas escreveram! — dizia Martha em tom enlevado. Suas palavras, no

entanto, não surtiram efeito.

— Gosto mais de brincar — dizia Sylvia, obstinada, com aquela expressão de mau humor

que ameaçava tornar-se tão crônica quanto o sorriso da mãe. Fiéis a seus princípios, Herbert e

Martha deixavam-na brincar; mas era uma dor para eles.

— Você deixa seu papai e sua mamãe tão tristes — diziam, tentando apelar para seus

melhores sentimentos. — Tão tristes. Por que não tenta ler para fazer felizes seu papai e sua

mamãe? — A criança enfrentava-os com uma expressão de infelicidade irada e teimosa, e sacudia a cabeça. — Só para nos agradar — pediam. — Você nos deixa tão tristes. — Sylvia

olhava tristemente de um rosto clemente para o outro e explodia em lágrimas.

— Malvados — soluçava incoerentemente. — Malvados. Vão embora. — Ela os odiava

por serem tristes, por fazerem-na triste. — Não, vão embora, vão embora — gritava, quando

tentavam consolá-la. Ela chorava inconsolavelmente; mas não queria ler.

Paul, por outro lado, era maravilhosamente ensinável e moldável. Lentamente (pois, com

suas adenoides, ele não era um garoto muito inteligente), mas com toda a docilidade que se

poderia desejar, ele aprendeu a ler sobre o gato de sapato no mato e assuntos do gênero. “Ouça como Paul lê bem”, Martha dizia, na esperança de despertar o espírito da emulação em Sylvia.

Mas Sylvia apenas fazia um ar de desprezo e saía da sala. Por fim, ela aprendeu a ler

secretamente, em poucas semanas. O orgulho dos pais com essa façanha diminuiu quando

descobriram os motivos dela para fazer tamanho esforço.

— Mas que livrinho horrível é este? — perguntou Martha, erguendo um exemplar de Nick

Carter e os assassinos do Boulevard Michigan, que ela descobrira cuidadosamente escondido

sob as roupas de inverno de Sylvia. Na capa havia um desenho de um homem sendo jogado do

teto de um arranha-céu por um gorila.

A criança arrancou o livro da mão dela.

— É um livro lindo — retorquiu, enrubescendo violentamente, com uma raiva que era

intensificada por seu sentimento de culpa.

— Querida — disse Martha, sorrindo lindamente na superfície de seu aborrecimento —,

você não deve se apoderar das coisas assim. É feio.

— Não me importo.

— Deixe-me dar uma olhada nele, por favor. — Martha estendeu a mão. Sorria, mas seu

rosto pálido estava pesadamente decidido, seus olhos ordenavam.

Sylvia enfrentou-a, sacudiu teimosamente a cabeça.

— Não, não quero que você veja.

— Por favor — pediu a mãe, mais clemente e autoritária que nunca. — Por favor. — E

finalmente, com uma explosão súbita de raiva lacrimosa, Sylvia entregou o livro e correu para o

jardim.

— Sylvia, Sylvia! — chamou a mãe. Mas a criança não voltou. Assistir à mãe violando os

segredos de seu mundo particular teria sido insuportável.

Devido às adenoides, Paul parecia, e era, quase um imbecil. Embora não fosse cientologista, Martha não acreditava nos médicos; mais particularmente ainda, não gostava dos

cirurgiões, talvez por que fossem tão caros. Deixou as adenoides de Paul no lugar; elas

cresceram e inflamaram a garganta. De novembro a maio ele nunca estava sem um resfriado,

uma amigdalite, uma dor de ouvido. O inverno de 1921 foi particularmente ruim para Paul.

Começou com gripe, que se transformou em pneumonia, pegou sarampo durante a convalescença

e no Ano-Novo desenvolveu uma infecção no ouvido médio que ameaçava deixá-lo surdo para

sempre. O médico recomendou categoricamente a operação, um tratamento, um período de

convalescença na Suíça a certa altitude e ao sol. Martha hesitou em seguir o conselho dele. Acabara tão firmemente convencida de sua pobreza que não via como poderia fazer o que o

médico mandara. Em sua perplexidade, escreveu para Judith. Dois dias depois, Judith em

pessoa chegou.

— Mas você quer matar o menino? — perguntou ferozmente à irmã. — Por que não o tirou

desse buraco imundo e úmido há várias semanas?

Em poucas horas ela arranjara tudo. Herbert e Martha viajariam imediatamente com o

menino. Seguiriam sem paradas para Lausanne no trem-dormitório.

— Mas certamente um trem-dormitório não é necessário — objetou Martha. — Você

esquece (ela sorria lindamente) que somos pessoas simples.

— Só me lembro que vocês têm uma criança doente consigo — disse Judith, e o trem foi

reservado.

Em Lausanne ele seria operado. (Um caro telegrama para a clínica com resposta paga; a

pobre Martha sofria.) E quando estivesse bastante bem ele iria para um sanatório em Leysin.

(Outro telegrama, pelo qual, no entanto, Judith pagou. Martha esqueceu-se de lhe dar o

dinheiro.) Martha e Herbert, enquanto isso, procurariam um bom hotel, onde Paul iria se juntar a

eles tão logo seu tratamento terminasse. E eles ficariam pelo menos seis meses, de preferência

um ano. Sylvia, enquanto isso, ficaria com a tia na Inglaterra; isso economizaria a Martha muito

dinheiro. Judith tentaria encontrar um inquilino para a casa no bosque.

— E ainda falam dos selvagens! — comentou Judith com o marido. — Nunca vi uma canibalzinha como Sylvia.

— É o que dá ter pais vegetarianos, imagino.

— Pobre criaturinha! — continuou Judith, com indignada piedade. — Às vezes tenho

vontade de afogar Martha, ela é uma imbecil, uma criminosa. Criar essas crianças sem nunca

deixar que se aproximem de crianças da idade delas! É escandaloso! E falando com elas sobre

espiritualidade e Jesus e ahimsa e beleza e Deus sabe mais o quê! E não querendo que tenham

brincadeiras bobas, mas que sejam artísticas! E sempre boazinha, mesmo quando está furiosa! É

horrível, realmente horrível! E tão estúpido. Será que ela não vê que a melhor maneira de transformar uma criança num demônio é tentar criá-la como um anjo? Ah, bem... — Suspirou e

silenciou, pensativa; ela própria não tinha filhos e, se os médicos estivessem corretos, nunca os

teria.

Passaram-se as semanas e gradualmente a pequena selvagem civilizou-se. Suas primeiras

aulas eram sobre a arte da moderação. A comida, que na casa dos Bamborough era boa e

abundante, a princípio constituía uma horrível tentação para uma criança acostumada às

austeridades da vida espiritual.

— Amanhã tem mais — dizia Judith, quando a criança pedia mais uma porção de pudim. — Você não é uma cobra, sabia? Não pode armazenar o que come demais hoje para os jantares

da próxima semana. A única coisa que pode fazer com tanta comida é ficar doente por causa

dela.

A princípio Sylvia insistia, chorava e fazia manha, querendo mais. Mas por sorte, como

Judith comentou com o marido, por sorte ela tinha o fígado delicado. As profecias da tia

cumpriam-se pontualmente. Depois de três ou quatro ataques biliosos, Sylvia aprendeu a

controlar a gula. Sua aula seguinte foi sobre obediência. A obediência que estava acostumada a

dar aos pais era lenta e de má vontade. Herbert e Martha nunca ordenavam, por princípio, apenas sugeriam. Era um sistema que tinha quase forçado na criança o hábito de dizer um

automático não a qualquer proposta que lhe fosse feita. “Não, não, não!”, ela começava, e então

aos poucos deixava-se persuadir, convencer ou comover-se, pela expressão de tristeza dos pais, a uma obediência atrasada e geralmente ressentida. Assentindo finalmente, ela sentia um rancor

obscuro contra aqueles que não a tinham obrigado a obedecer de pronto. Como a maioria das

crianças, teria gostado de ser libertada compulsoriamente da responsabilidade por seus

próprios atos; zangava-se com a mãe e o pai por forçarem-na a gastar tanta energia em resistir a

eles, tanta quantidade de emoção dolorosa em deixar finalmente sua vontade ser dominada.

Teria sido muito mais simples se eles tivessem insistido desde o princípio, tivessem-na

obrigado a obedecer imediatamente, e assim lhe poupassem todo o esforço e a dor espiritual.

Ressentia-se amargamente do incessante apelo que faziam a seus melhores sentimentos. Não era justo, não era justo. Eles não tinham o direito de sorrir e perdoar e fazê-la sentir-se um animal,

de enchê-la de tristeza por eles próprios ficarem decepcionados. Sentia que estavam de algum

modo se aproveitando cruelmente dela. E só porque odiava quando eles ficavam tristes, ela

perversa e deliberadamente se esforçava para dizer e fazer as coisas que mais amargamente os

entristeceria. Um de seus truques favoritos era ameaçar “sair e caminhar pela tábua sobre o

açude”. Entre o lago calmo e o regato raso, as águas tranquilas tornavam-se por um momento

terríveis. Represados em um canal estreito de alvenaria malfeita, dois metros de cachoeira

caíam com um clamor incessante em um lago escuro e encrespado. Era um lugar horrível. Com que frequência os pais lhe imploraram para não brincar perto do açude! A ameaça dela fazia

com que repetissem suas recomendações; eles imploravam que fosse razoável. “Não, eu não vou

ser razoável”, Sylvia gritava e corria na direção do açude. Se, na verdade, ela nunca se

aventurava a menos de três metros do abismo trovejante, era porque tinha muito mais medo do

que os pais. Mas chegava o mais perto que ousava pelo prazer (o prazer que ela odiava) de

ouvir a mãe expressar sua melancólica tristeza por ter uma filha tão desobediente, egoísta e

selvagem. Ela tentou o mesmo truque com tia Judith.

— Vou entrar no bosque sozinha — ameaçou um dia, furiosa. Para sua surpresa, em vez de implorar-lhe que fosse razoável e não entristecesse os adultos correndo perigo por

desobediência, Judith apenas deu de ombros.

— Pode ir, se quer mesmo bancar a boba — disse, sem erguer os olhos de sua carta.

Indignada, Sylvia foi; mas tinha medo de ficar sozinha no imenso bosque. Só o orgulho

impediu-a de voltar imediatamente. Molhada, suja, lacrimosa e arranhada, ela foi trazida de

volta duas horas depois por um empregado.

— Que sorte! — comentou Judith com o marido. — Que sorte enorme que a pequena idiota

tenha se perdido.

O esquema das coisas foi organizado contra a delinquência da criança. Mas Judith não

confiava inteiramente no esquema das coisas para dar força ao seu código; ela mesma

providenciava suas próprias sanções. A obediência tinha de ser instantânea, de outro modo as

consequências seriam instantâneas. Uma vez Sylvia conseguiu provocar raiva de verdade na tia.

A cena causou-lhe uma profunda impressão. Uma hora mais tarde esgueirou-se hesitante e

humildemente até onde a tia estava sentada.

— Desculpe, tia Judith — disse. — Desculpe. — E rompeu em lágrimas. Foi a primeira

vez que ela pediu perdão espontaneamente.

As aulas que mais ajudavam Sylvia eram aquelas em que aprendia com outras crianças.

Depois de algumas experiências malogradas e vez por outra dolorosas, aprendeu a brincar, a

comportar-se como uma igual entre iguais. Até então ela vivera exclusivamente como uma inferior cronológica entre adultos, em estado de incessante rebelião e guerrilha. Sua vida fora

um grande risorgimento contra austríacos clementes e gentis, Bourbons que sorriam lindamente.

Com os pequenos Carter da casa no fim da rua, os pequenos Holmes da casa em frente, ela

agora via-se subitamente obrigada a adaptar-se à democracia e ao governo parlamentarista. No

princípio houve dificuldades; mas quando por fim a pequena delinquente desenvolveu a arte da

civilidade, ficou extraordinariamente feliz. Os adultos exploravam a sociabilidade infantil para

seus próprios fins educacionais. Judith montou um teatro amador; houve uma apresentação

juvenil de Sonho de uma noite de verão. A sra. Holmes, que era musicista, organizou num coral o entusiasmo das crianças a respeito de fazer barulho. A sra. Carter ensinava-lhes danças

folclóricas. Em poucos meses, Sylvia adquirira toda aquela paixão pela vida superior que sua

mãe vinha tentando infundir-lhe havia anos, sempre em vão. Ela amava poesia, amava música,

amava dança — um tanto platonicamente, era verdade; pois Sylvia era uma dessas criaturas

congenitamente desajeitadas e esteticamente insensíveis cuja sincera paixão pelas artes está

sempre destinada a não ser consumada. Ela amava ardentemente, mas em vão; mas não era

infeliz, pois ainda não tinha, talvez, a consciência da impossibilidade. Amava até mesmo a

aritmética e a geografia, a história inglesa e a gramática francesa, que Judith arranjara para que ela aprendesse, juntamente com os pequenos Carter e a formidável governanta deles.

— Você se lembra de como ela era quando chegou? — perguntou Judith ao marido um dia.

Ele assentiu, comparando mentalmente a pequena selvagem mal-humorada de nove meses

antes com a criança séria e de ardente entusiasmo que acabava de sair da sala.

— Sinto-me como uma domadora de leões — continuou Judith com um risinho que

encobria um grande amor e um grande orgulho. — Mas o que se faz, Jack, quando o leão se

volta para o Alto Anglicanismo? Dolly Carter está sendo preparada para a confirmação, e

Sylvia foi contagiada. — Judith suspirou. — Acho que ela já está pensando que nós dois estamos condenados.

— Ela também estaria condenada, se não o fizesse — respondeu Jack filosoficamente. —

Muito mais seriamente condenada, porque seria condenada neste mundo. Seria uma terrível

falha em seu caráter se nessa idade ela não acreditasse em uma caraminhola qualquer.

— Mas e se ela continuar acreditando nisso? — perguntou Judith.

 

Martha, enquanto isso, não estava gostando da Suíça, talvez porque fisicamente lhe fizesse bem

demais. Havia algo, sentia, meio indecente em ter uma saúde tão perfeita como ela tinha em Leysin. Era difícil, quando a pessoa se sentia tão cheia de espírito animal, pensar com muita

solicitude sobre a humanidade sofredora e Deus, sobre Buda e a vida superior etc. Ela se

indignava com o jovial egoísmo livre e despreocupado de seu próprio corpo sadio.

Periodicamente despertada por percepções culpadas de que passara horas e mesmo dias sem

pensar em outra coisa senão no prazer de sentar-se ao sol, de respirar o ar aromático sob os

pinheiros, de caminhar nas campinas altas, colhendo flores e contemplando a paisagem, ela

embarcaria numa campanha de espiritualidade intensiva; mas, depois de pouco tempo, o sol e o

ar brilhante eram demais para ela, e ela recaía mais uma vez no estado vergonhosamente irresponsável do mero bem-estar.

— Vou ficar contente quando Paul ficar bom e pudermos voltar para a Inglaterra — vivia

dizendo.

E Herbert concordava com ela, em parte por princípio, porque, resignado à sua inferioridade econômica e moral, sempre concordava com ela, e em parte porque ele também,

embora saudável como nunca, achava a Suíça espiritualmente insatisfatória. Em um país onde

todos usavam calças curtas, camisa aberta e mochila, não havia superioridade, não havia

diferença em vestir-se assim. O escândalo da cartola teria sido o equivalente em Leysin ao

escândalo da cruz; ele se sentia indistintamente ortodoxo.

Quinze meses depois de sua partida, os Claxton estavam de volta à casa no bosque. Martha

estava resfriada e sofria de um pouco de lumbago; privado do exercício na montanha, Herbert já

estava sucumbindo aos ataques de sua velha inimiga crônica, a prisão de ventre. Eles transbordavam de espiritualidade.

Sylvia também voltou para a casa no bosque, e, nas primeiras semanas, era tia Judith para

cá e tia Judith para lá, na casa de tia Judith fazíamos assim, tia Judith nunca me fez fazer isso.

Com um lindo sorriso, mas um ressentimento não percebido no coração, Martha dizia: “Minha

querida, eu não sou a tia Judith”. Realmente odiava a irmã por ter tido sucesso onde ela falhara.

“Você fez maravilhas com Sylvia”, ela escreveu a Judith, “e Herbert e eu nunca seremos

suficientemente gratos.” E dizia a mesma coisa em conversa com os amigos. “Nunca seremos

suficientemente gratos, seremos, Herbert?” E Herbert de pronto concordava que nunca seriam suficientemente gratos. Mas quanto mais grata era, devida e até exageradamente à irmã, mais

Martha a odiava, mais raiva tinha do sucesso e da influência de Judith sobre a criança. Era

inegável que a influência tinha sido boa; mas era precisamente por isso que Martha se ressentia

dela. Era-lhe insuportável que a frívola e pouco espiritual Judith conseguisse influenciar a

criança com mais facilidade do que ela jamais conseguira. Despedira-se de uma Sylvia

emburrada, mal-educada e desobediente, cheia de ódio e rebelde por todas as coisas que os

pais admiravam; voltara e encontrara Sylvia bem-comportada, gentil, apaixonadamente

interessada em música e poesia, sinceramente preocupada com os problemas recém-descobertos da religião. Era insuportável. Com paciência, Martha pôs-se ao trabalho para solapar a

influência da irmã na criança. A própria obra de Judith tornou sua tarefa mais fácil. Pois, graças

a Judith, Sylvia agora era maleável. O contato com crianças da sua idade tinha aquecido,

suavizado e sensibilizado a criança, mitigado seu egoísmo selvagem e feito com que ela se

abrisse para influências externas. O apelo a seus melhores sentimentos podia agora ser feito

com a certeza de evocar uma resposta positiva, em vez de uma rebeldemente negativa. Martha

fazia a todo momento esse apelo, e com habilidade. Discorria (com uma linda resignação, é

lógico) sobre a pobreza da família. Se tia Judith permitira muitas coisas que não eram feitas e permitidas na casa no bosque, isso era porque tia Judith era muito mais rica. Podia se permitir

muitos luxos que os Claxton não podiam ter. “Não que seu pai e eu nos importemos de passar

sem tais regalias”, Martha insistia. “Pelo contrário. É realmente uma bênção não ser rico. Você

se lembra do que Jesus disse sobre os ricos.” Sylvia lembrava-se, e ficava pensativa. Martha

desenvolvia o assunto; o fato de uma pessoa poder se permitir certos luxos tinha certo efeito

embrutecedor e desespiritualizante. Era muito fácil tornar-se frívolo. A insinuação era,

naturalmente, que tia Judith e tio Jack tivessem sido corrompidos pela frivolidade. A pobreza

preservara os Claxton desse perigo — a pobreza e também, Martha insistia, sua própria meritória vontade. Pois poderiam ter mantido pelo menos uma empregada, mesmo nos tempos

difíceis; mas preferiam passar sem ela, “porque, sabe, servir é melhor que ser servido”. Jesus

tinha dito que o caminho de Maria era melhor do que o de Marta. “Mas eu sou uma Marta”, dizia Martha Claxton, “que tenta ser Maria também. Marta e Maria — é o melhor caminho de

todos. Serviço prático e contemplação. Seu pai não é um desses artistas que egoisticamente se

afasta do contato com os fatos humildes da vida. É um criador, mas não é orgulhoso demais para

fazer o serviço mais humilde.” Pobre Herbert! Ele não poderia recusar o serviço mais humilde,

quando Martha ordenava. Alguns artistas, Martha continuou, só pensavam no sucesso imediato,

só trabalhavam de olho nos lucros e nos aplausos. Mas o pai de Sylvia, pelo contrário, era um

que criava sem pensar no público, apenas o fazia em nome da verdade e da beleza.

Na mente de Sylvia, esses discursos e outros semelhantes, constantemente repetidos com variações em todos os tons emocionais, tinham um efeito profundo. Com todo o entusiasmo da

puberdade ela desejava ser boa, espiritual e desinteressada, ansiava por sacrificar-se, não

importava a quê, contanto que fosse a uma causa nobre. A mãe agora lhe fornecia uma causa.

Entregou-se a ela com toda a teimosa energia de sua natureza. Com que ferocidade ela estudava

piano! Com que determinação lia inteiros os livros mais enfadonhos! Tinha um caderno onde

copiava as passagens mais inspiradoras de sua leitura diária; e outro no qual registrava suas

boas resoluções, e com elas, num diário torturado e cronicamente cheio de remorsos, os

fracassos em cumprir certas resoluções, suas quedas da graça. “Gula. Prometi que ia comer só uma ameixa. Comi quatro no almoço. Nenhuma amanhã. O.D.M.A.A.S.B.”

— O que é que significa O.D.M.A.A.S.B.? — perguntou Paul com malícia, certo dia.

Sylvia enrubesceu violentamente.

— Você andou lendo o meu diário! — exclamou. — Ah, seu animal, seu animalzinho. — E

de repente lançou-se sobre o irmão como uma Fúria. O nariz dele sangrava quando conseguiu

afastar-se dela. — Se fizer isso de novo, eu mato você. — E, parada ali, com os dentes rilhando

e as narinas trêmulas, os cabelos despenteados, ela parecia estar falando sério. — Eu mato! —

repetiu. Sua raiva era justificada; O.D.M.A.A.S.B. significava “Oh, Deus, me ajude a ser boa”.

Naquela noite ela procurou Paul e pediu perdão.

 

Tia Judith e tio Jack tinham ficado quase um ano na América.

— Vá, é claro — disse Martha, quando chegou a carta de Judith convidando Sylvia para

passar alguns dias com eles em Londres. — Você não deve perder a oportunidade de ir à ópera

e àqueles maravilhosos concertos.

— Mas é justo, mamãe? — perguntou Sylvia, hesitante. — Quero dizer, não quero ir me

divertir sozinha. Parece, de certa forma...

— Mas você deve ir — Martha interrompeu-a. Tinha tanta certeza de Sylvia agora que não

tinha medo de Judith. — Para uma musicista como você, é uma necessidade ouvir Parsifal e A

flauta mágica. Pretendia levá-la eu mesma no ano que vem; mas, agora que a oportunidade

surgiu este ano, você tem de aceitar. Com gratidão — acrescentou, adoçando o sorriso.

Sylvia foi. Parsifal era como ir à igreja, só que muito mais solene. Sylvia escutava com

uma excitação respeitosa que era, no entanto, interrompida de vez em quando pela consciência

irrelevante, até mesmo ignóbil — mas tão dolorosa! —, de que seu vestido, suas meias e seus

sapatos eram horrivelmente diferentes dos que usava aquela menina de sua própria idade, que ela notara na fila atrás da sua, quando entrou. E a menina, parecia-lhe, tinha retribuído seu olhar com desprezo. Em volta do Santo Graal houve uma explosão de sinos e rugidos harmoniosos.

Ela sentiu vergonha de si mesma por pensar em coisas indignas na presença do mistério. E

quando, no intervalo, tia Judith ofereceu-lhe um sorvete, ela recusou quase com indignação.

Tia Judith ficou surpresa.

— Mas você adorava sorvete.

— Mas agora não, tia Judith. Agora não. — Sorvete na igreja — que sacrilégio! Ela tentou

pensar no Graal. Uma visão de sapatos de cetim verde e uma linda flor artificial lilás flutuou

diante de sua visão interior.

No dia seguinte foram fazer compras. Era uma manhã brilhante e sem nuvens, de início de

verão. As vitrines das lojas de armarinhos na rua Oxford tinham desabrochado em cores claras

e brilhantes. Os manequins de cera estavam todos preparados para ir para Ascot, para Henley, já estavam pensando no jogo entre Eton e Harrow. As calçadas estavam cheias de gente, um

imenso ruído abafado enchia o ar como uma névoa. Os ônibus escarlates e dourados pareciam

majestosos, e a luz do sol cintilava com um brilho rico e oleoso nos flancos encerados das

limusines que passavam. Uma pequena procissão de desempregados passou relaxadamente, com

uma charanga à frente, tocando músicas alegres, como se eles estivessem felizes por estarem

desempregados, como se fosse um prazer real ter fome.

Sylvia não vinha a Londres havia quase dois anos, e essas multidões, esse ruído, esse

número infinito de coisas curiosas e lindas em cada vitrine brilhante subiram-lhe à cabeça. Ela sentia-se ainda mais excitada do que se sentira em Parsifal.

Durante uma hora andaram por dentro da Selfridge’s.

— E agora, Sylvia, agora você pode escolher o vestido de que gostar — disse tia Judith,

quando finalmente tinha terminado com todos os itens de sua lista. Ela fez um gesto com a mão.

Uma exposição de Moda de Verão para Senhoritas rodeava-as por todos os lados. Lilases e

escarlates, rosados e verdes, azuis e roxos, brancos, floridos, com pintas, uma espécie de

canteiro de vestidos jovens. — O que você quiser — repetiu tia Judith. — Ou, se você preferir

um vestido para a noite...

Sapatos de cetim verde e uma grande flor lilás. A menina tinha olhado com desprezo. Era

indigno, indigno.

— Não, não, tia Judith. — Ela enrubesceu, gaguejou. — Realmente, não preciso de um

vestido. Realmente.

— Mais uma razão para ganhar, se você não precisa. Qual deles?

— Não, realmente. Não quero, não posso... — E de repente, para o espanto e a

incompreensão de tia Judith, ela se pôs a chorar.

 

O ano era 1924. A casinha no bosque aquecia-se ao sol suave do fim de abril. Pelas janelas

abertas da sala veio o som do estudo de Sylvia. Teimosamente, com uma espécie de fúria fixa e

decidida, ela estava tentando dominar a Valsa em ré bemol de Chopin. Sob seus dedos

esforçados e insensíveis, a cadência e o langor do ritmo de dança eram afanosamente

sentimentais, como a execução no piano de um solo de cornetim do lado de fora de um bar e o

tremular rápido de semicolcheias nas passagens contrastantes eram um tremular, quando Sylvia

tocava, de borboletas mecânicas, o bater de asas de lata. E ela tocava de novo, de novo e de

novo. No pequeno bosque do outro lado do regato nos fundos do jardim os passarinhos continuavam sua atividade, imperturbáveis. Nas árvores, as novas folhinhas eram como os espíritos das folhas, quase imateriais, mas vívidas como pequenas chamas, na ponta de cada

ramo. Herbert estava sentado num toco de árvore no meio do bosque fazendo aqueles exercícios

de respiração ioga, acompanhados de autossugestão, que ele achava tão bons para sua prisão de ventre. Fechando a narina direita com um longo indicador, ele inspirava profundamente pela

esquerda, enquanto contava quatro batidas do coração. Depois, durante dezesseis batidas,

prendia a respiração e entre cada batida dizia a si mesmo muito depressa: “Não tenho prisão de

ventre, não tenho prisão de ventre”. Depois de fazer essa afirmação dezesseis vezes, ele fechava

a narina esquerda e expirava, enquanto contava até oito, através da narina direita. Depois disso,

recomeçava. A narina esquerda era a mais favorecida, pois ela inspirava, juntamente com o ar,

uma doçura vaga e doce de prímulas, de folhas e de terra úmida. Perto dele, num banquinho,

Paul fazia o desenho de um carvalho. Arte a todo custo; Arte bela, que eleva, Arte desinteressada. Paul estava entediado. Uma árvore velha e pobre — que sentido havia em

desenhá-la? A sua volta as lanças verdes e agudas dos jacintos silvestres assomavam das moitas

escuras. Uma delas perfurara uma folha morta e a erguera, transfixada, no ar. Mais alguns dias

de sol e todas as lanças desabrochariam em flores azuis. Quando sua mãe o mandasse de novo

fazer compras em sua bicicleta, Paul estava pensando, ele ia ver se não conseguia cobrar dois

xelins a mais pelas compras em vez de um, como tinha feito da última vez. Então poderia

comprar chocolate e também ir ao cinema; e talvez até mesmo alguns cigarros, embora isso

pudesse ser perigoso.

— Bem, Paul, como está se saindo? — perguntou o pai, que tinha tomado uma dose

suficiente de seu equivalente místico do laxativo. Levantou-se do toco e atravessou a clareira,

indo para onde o garoto estava sentado. A passagem do tempo modificara Herbert muito pouco;

sua barba explosiva ainda era loura como sempre fora, ele era magro como sempre, a cabeça

não mostrava sinais de calvície. Apenas os dentes tinham envelhecido visivelmente; seu sorriso

era desbotado e quebrado.

— Mas ele devia mesmo ir ao dentista — Judith tinha insistido com a irmã, na última vez

em que se encontraram.

— Ele não quer — Martha tinha respondido. — Realmente não acredita neles. — Mas

talvez sua própria relutância em separar-se do número de guinéus necessário tivesse algo a ver

com a falta de fé de Herbert nos dentistas. — Além disso, Herbert mal percebe essas coisas

meramente materiais e físicas. Vive tão mergulhado no mundo numênico que mal percebe o

mundo fenomenal. Realmente não percebe.

— Bem, ele devia perceber — respondeu Judith. — É só o que eu posso dizer. — Ela

estava indignada.

— Como está se saindo? — repetiu Herbert, colocando a mão sobre o ombro do garoto.

— A casca é a coisa mais difícil de fazer — respondeu Paul em voz queixosa e zangada.

— Isso torna ainda mais meritório você conseguir — disse Herbert. — Paciência e

trabalho são tudo na vida. Sabe como um grande homem certa vez definiu o gênio? — Paul sabia

muito bem como um grande homem certa vez tinha definido o gênio; mas a definição parecia-lhe

tão estúpida e um insulto tão pessoal a si mesmo que ele não respondeu, apenas grunhiu. — O

gênio — continuou Herbert, respondendo sua própria pergunta — é uma capacidade infinita de

se esforçar. — Naquele momento Paul odiou o pai.

— Um-e-dois-e-três-e-um-e-dois-e-três-e... — Sob os dedos de Sylvia as borboletas mecânicas continuavam a bater suas asas de metal. O rosto dela estava tenso, determinado,

irritado; o grande homem de Herbert teria achado gênio nela. Atrás de suas costas rígidas e

determinadas, a mãe ia e vinha com um espanador na mão, espanando. O tempo a engrossara e tornara vulgar; ela caminhava pesadamente. Os cabelos começavam a ficar grisalhos. Quando

terminou de espanar, ou melhor, quando se cansou disso, sentou-se. Sylvia, laboriosa, estava

fazendo seu solo de cornetim através do ritmo de dança. Martha fechou os olhos.

— Lindo, lindo! — disse, e sorriu seu mais belo sorriso. — Você toca maravilhosamente,

minha querida. — Tinha orgulho da filha. Não apenas como musicista; como ser humano

também, quando pensava no trabalho que tinha tido com Sylvia anos antes... —

Maravilhosamente. — Levantou-se finalmente e subiu para seu quarto. Destrancando um

armário, tirou uma caixa de frutas cristalizadas e comeu várias cerejas, um pêssego e três abricós. Herbert tinha voltado para seu estúdio e para o quadro inacabado de “Europa e

América aos pés da mãe Índia”. Paul tirou um estilingue do bolso, colocou uma pedra e apontou

para um pica-pau que corria como um rato no tronco de um carvalho do outro lado da clareira.

“Droga!”, exclamou, ao ver o pássaro voar para longe, ileso. Mas o tiro seguinte foi mais feliz.

Houve uma explosão de penas esvoaçando, dois ou três pios. Correndo até lá, Paul encontrou

um tentilhão fêmea caído na relva. Havia sangue nas penas. Com uma espécie de excitação cheia

de nojo, Paul pegou o pequeno corpo. Como estava quente! Era a primeira vez que ele tinha

matado alguma coisa. Que tiro perfeito! Mas não havia pessoa alguma com quem ele pudesse conversar sobre isso. Sylvia não servia: era quase pior que a mãe a respeito de certas coisas.

Com um galho caído ele abriu um buraco e enterrou o pequeno cadáver, com medo de que

alguém pudesse encontrá-lo e querer saber como ele tinha sido morto. Ficariam furiosos se

soubessem! Ele foi para o almoço tremendamente satisfeito consigo mesmo. Mas seu rosto

anuviou-se quando olhou para a mesa.

— Só essa comida fria e ruim?

— Paul, Paul — disse o pai em tom de censura.

— Onde está mamãe?

— Ela hoje não vai comer — respondeu Herbert.

— Mesmo assim, ela podia ter se dado o trabalho de fazer alguma coisa quente para nós —

resmungou Paul baixinho.

Enquanto isso, Sylvia estava sentada, sem erguer os olhos de seu prato de salada de batata,

comendo em silêncio.