Contos escolhidos
Túneis verdes
— Nos jardins italianos do século XIII... — O sr. Buzzacott interrompeu-se para servir-se
novamente do risoto que lhe era oferecido. — Excelente risoto, este — observou. — Ninguém
que não tenha nascido em Milão sabe fazê-lo direito. É o que dizem.
— É o que dizem — repetiu o sr. Topes com sua voz triste e contrita, e serviu-se por sua
vez.
— Pessoalmente — disse a sra. Topes com firmeza — acho toda a cozinha italiana
abominável. Não gosto do azeite, especialmente quente. Não, obrigada. — Afastou-se do prato
oferecido.
Depois da primeira garfada o sr. Buzzacott baixou o talher.
— Nos jardins italianos do século XIII — recomeçou, fazendo com a mão longa e pálida um
gesto curvo e floreado que terminou com uma carícia na barba — fazia-se uso frequente e muito
feliz dos túneis verdes.
— Túneis verdes? — Bárbara despertou subitamente de seu silêncio. — Túneis verdes?
— Sim, minha cara — disse o pai. — Túneis verdes, sim. Alamedas em arco cobertas de
vinhas ou outras trepadeiras. Sua extensão era considerável.
Mas Bárbara tinha mais uma vez deixado de prestar atenção ao que ele dizia. Túneis verdes — as palavras flutuaram até ela através de imensas profundezas de sonho, através de
grandes espaços de abstrações, assustando-a como o som de um sino de estranha afinação.
Túneis verdes: que ideia maravilhosa. Ela não iria ouvir o pai explicar a frase até torná-la
enfadonha. Ele tornava tudo enfadonho: um alquimista às avessas, transformando ouro em
chumbo. Ela imaginou cavernas num grande aquário, longas paisagens entre pedras e plantas que
mal ondeavam e corais pálidos e descoloridos; infinitos corredores de verde e sombra com
enormes e preguiçosos peixes vagando sem rumo entre eles. Monstros de rostos verdes e olhos
esbugalhados e bocas que se abriam e se fechavam lentamente. Túneis verdes...
— Eu os vi ilustrados em manuscritos com iluminuras desse período — continuou o sr.
Buzzacott; mais uma vez levou a mão à barba castanha e pontuda; acariciou-a e penteou-a com
os dedos longos.
O sr. Topes ergueu os olhos. As lentes de seus óculos redondos de coruja faiscavam
quando ele movia a cabeça.
— Sei o que quer dizer — declarou.
— Tenho muita vontade de plantar um em meu jardim aqui.
— Vai demorar muito tempo para crescer — disse o sr. Topes. — Nessa areia, tão perto do mar, você só vai conseguir plantar parreiras. E elas crescem muito devagar, realmente muito
devagar. — Sacudiu a cabeça e os pontos de luz dançaram enlouquecidos em seus óculos. A
voz, desanimada, esmoreceu, o bigode cinza esmoreceu, toda a sua pessoa esmoreceu. Então, de
repente, ele se recompôs. Um sorriso tímido e contrito apareceu em seu rosto. Remexeu-se desconfortavelmente. Então, com um último sacudir rápido da cabeça, proferiu uma citação:
Mas às minhas costas sempre posso ouvir
A carruagem alada do tempo aproximando-se depressa.[34]
Falou vagarosamente, e sua voz tremia um pouco. Sempre achara dolorosamente difícil
dizer algo refinado e fora do comum; no entanto, que tesouro de frases recordadas, que
manancial de novas ideias estava sempre surgindo em sua mente agitada!
— Elas não crescem tão devagar assim — disse o sr. Buzzacott confiante. Tinha pouco
mais de cinquenta anos e parecia um belo homem de trinta e cinco. Dava a si mesmo pelo menos outros quarenta anos; na verdade, não tinha ainda começado a pensar na possibilidade de um dia
se acabar.
— A srta. Bárbara vai apreciá-lo, talvez: o seu túnel verde. — O sr. Topes suspirou e
olhou por cima da mesa para a filha de seu anfitrião.
Bárbara estava sentada com os cotovelos sobre a mesa, o queixo nas mãos, olhos fixos à
frente. O som de seu nome alcançou-a vagamente. Voltou a cabeça na direção do sr. Topes e viu-
se enfrentada pelo brilho dos óculos redondos e convexos. Ao final do túnel verde (ela
encarava os círculos brilhantes) havia os olhos esbugalhados de um peixe. Eles se aproximavam, flutuando, cada vez mais perto, ao longo do sombrio corredor submarino.
Enfrentado por esse olhar fixo, o sr. Topes desviou os olhos. Que olhos pensativos! Ele não
se lembrava de ter visto olhos tão cheios de pensamento. Havia certas Madonnas de Montagna,
ele refletiu, muito parecidas com ela: suaves Madonnas louras com narizes ligeiramente
arrebitados e muito, muito jovens. Mas ele era velho; levaria muitos anos, apesar de Buzzacott,
para que as parreiras crescessem e formassem um túnel verde. Tomou um gole de vinho; então,
mecanicamente, chupou o grisalho bigode que lhe pendia sobre a boca.
— Arthur!
Ao som da voz da esposa o sr. Topes assustou-se, levou o guardanapo à boca. A sra. Topes
não permitia que se chupassem bigodes. Era apenas em momentos de distração que ele alguma
vez errava, como agora.
— O marquês Prampolini vem para o café — disse o sr. Buz- zacott de repente. — Quase
me esqueço de avisá-los.
— Um desses marqueses italianos, imagino — comentou a sra. Topes, que não era esnobe,
a não ser na Inglaterra. Ergueu o queixo com um pequeno estremecimento.
O sr. Buzzacott executou uma curva ascendente com a mão na direção dela.
— Eu lhe asseguro, sra. Topes, que ele pertence a uma família muito antiga e distinta. São
de origem genovesa. Lembra-se do palácio deles, Bárbara? Construído por Alessi.
Bárbara ergueu os olhos.
— Ah, sim — disse vagamente. — Alessi. Sei. — Alessi: Aleppo, lugar de um turco
perverso e de turbante. — E de turbante; eles sempre lhe pareceram muito engraçados.
— Vários de seus ancestrais — continuou o sr. Buzzacott — distinguiram-se como vice-
reis da Córsega. Fizeram um ótimo trabalho reprimindo rebeliões. Estranho, não é? — Voltou-se
para o sr. Topes como se fizesse um parêntese. — O modo como a simpatia vai sempre para o lado dos rebeldes? Que confusão as pessoas fizeram por causa da Córsega! Aquele livro de
Gregorovius, por exemplo. E os irlandeses, os poloneses, e todo o resto deles. Isso sempre me pareceu supérfluo e absurdo.
— Não é, talvez, um pouco natural? — começou o sr. Topes, tímida e cautelosamente, mas
seu anfitrião continuou, sem ouvir.
— O atual marquês está à frente dos fascisti locais. Fizeram um grande bem neste distrito,
no sentido de preservar a lei e a ordem e manter as classes inferiores em seu lugar.
— Ah, os fascisti — repetiu a sra. Topes em tom de aprovação.
— Seria bom ver algo assim na Inglaterra. Com todas aquelas greves...
— Ele me pediu uma contribuição para os fundos da organização. Vou lhe dar, é claro.
— É claro — assentiu a sra. Topes. — Meu sobrinho, aquele que foi major durante a
guerra, foi voluntário na última greve dos mineiros. Ele lamentou, sabe, que não tenham chegado
à luta. “Tia Annie”, ele me disse quando o vi pela última vez, “se tivesse havido luta nós teríamos acabado completamente com eles. Completamente.”
Em Aleppo, os fascisti, maléficos e de turbante, estavam lutando sob as palmeiras. Não
eram palmeiras aquelas plumas com tufos verdes?
— O quê, nada de sorvete hoje? Niente gelato? — inquiriu o sr. Buzzacott quando a
empregada colocou na mesa a compota de pêssegos.
Concetta pediu desculpas. A máquina de fazer sorvete do povoado quebrara. Não haveria
sorvete até o dia seguinte.
— Muito ruim — disse o sr. Buzzacott. — Troppo male, Concetta.
Sob as palmeiras, Bárbara os viu; eles saracoteavam, lutando. Estavam montados em
grandes cães, e nas árvores havia enormes pássaros multicoloridos.
— Meu Deus, esta garota está dormindo. — A sra. Topes oferecia o prato de pêssegos. —
Por quanto tempo vou ter que segurar este prato debaixo do seu nariz, Bárbara?
Bárbara sentiu-se enrubescer.
— Desculpe — murmurou, e pegou o prato desajeitadamente.
— Sonhando acordada. É um mau hábito.
— Todos nos entregamos a isso, às vezes — observou o sr. Topes em tom de indulgência, com um leve tremor nervoso da cabeça.
— Você, pode ser, meu caro — disse a esposa. — Eu, não.
O sr. Topes baixou os olhos para o prato e continuou a comer.
— O marchese deve chegar a qualquer momento — disse o sr. Buzzacott consultando o
relógio. — Espero que não se atrase. Descobri que me faz muito mal adiar minha siesta. Este
calor italiano — acrescentou, em tom de queixa. — Todo cuidado é pouco.
— Ah, mas quando eu estava na Índia com meu pai... — começou a sra. Topes em tom de
superioridade. — Ele era um civil indiano, sabem...
Aleppo, Índia — sempre as palmeiras. Cavalgadas de enormes cães e também de tigres.
Concetta fez entrar o marquês. Encantado. Prazer em conhecê-lo. Fala inglês? Sim, sim.
Pocchino. Sra. Topes; e o sr. Topes, o famoso antiquário. Ah, é claro; conheço bem seu nome.
Minha filha. Encantado. Muitas vezes vi a signorina na praia. Admiro o modo como mergulha.
Belíssimo — a mão fez um gesto longo e acariciante. Essas atléticas signorine inglesas. Os
dentes brilhavam, espantosamente brancos no rosto queimado, os olhos escuros faiscavam. Ela
sentiu-se enrubescer de novo, desviou os olhos, sorriu tolamente. O marquês já tornara a voltar-
se para o sr. Buzzacott.
— Então resolveu estabelecer-se em nossa Carrara.
Bem, não exatamente estabelecer-se; o sr. Buzzacott não iria tão longe a ponto de dizer
estabelecer-se. Um villino para os meses de verão. O inverno em Roma. Era-se obrigado a viver no estrangeiro. Os impostos na Inglaterra... Logo estavam todos falando. Bárbara
observava-os. Perto do marquês pareciam todos moribundos. O rosto brilhava quando ele
falava; parecia estar fervilhando de vida. O pai era mole e pálido, como algo que tivesse ficado
durante muito tempo enterrado longe da luz; o sr. Topes era todo seco e enrugado; e a sra. Topes
mais do que nunca parecia algo que funcionava movido a corda. Estavam falando sobre
socialismo e os fascisti, coisas assim. Bárbara não escutava o que diziam; mas os observava,
absorta.
Adeus, adeus. A face animada com o clarão de um sorriso virava-se feito uma lanterna de um para outro. Agora estava voltada para ela. Talvez uma noite ela viesse, com o pai e a
signora Topes. Ele e a irmã davam pequenos bailes às vezes. Só uma vitrola, naturalmente. Mas
era melhor que nada, e a signorina devia dançar divinamente — outro clarão —, ele tinha
certeza. Tornou a apertar-lhe a mão. Adeus.
Era hora da siesta.
— Não se esqueça de baixar o mosquiteiro, minha cara — exortou o sr. Buzzacott. — Há
sempre o perigo de anofilinas.
— Está bem, papai. — Ela se dirigiu para a porta sem se voltar para responder. Ele era sempre tão enfadonho a respeito de mosquiteiros. Uma vez tinham atravessado a Campagna num
carro alugado, completamente envolvidos por um mosquiteiro improvisado. Os monumentos ao
longo da Via Appia surgiam enevoados como se através de um véu de noiva. E como todos
riam! Mas o pai, naturalmente, nem tinha percebido. Ele nunca percebia coisa alguma.
— Está em Berlim aquela encantadora Madonna de Montagna? — perguntou abruptamente
o sr. Topes. — Aquela com o Donor ajoelhado no canto esquerdo como se fosse beijar os pés
do Infante. — Seus óculos faiscaram na direção do sr. Buzzacott.
— Por que pergunta?
— Não sei. Estava pensando nisso.
— Acho que você está falando daquela da coleção Mond.
— Ah, sim, com certeza. Na Mond...
Bárbara abriu a porta e entrou para a escuridão de seu quarto fechado. Até ali estava
quente; nas três horas seguintes seria impossível mexer-se. E aquela velha idiota, a sra. Topes,
sempre criava caso se alguém aparecesse para o almoço de pernas nuas e com a saída de banho.
“Na Índia sempre fazíamos questão de estar apropriadamente vestidos. Uma inglesa deve
manter sua posição com os nativos, e para todos os efeitos os italianos são nativos.” E assim ela sempre tinha de colocar sapatos e meias e um vestido convencional exatamente na hora mais
quente do dia. Que imbecil era aquela mulher! Despiu as roupas o mais rápido que pôde. Assim
estava um pouco melhor.
Parada diante do comprido espelho na porta do armário, ela chegou à conclusão humilhante
de que parecia um pedaço de pão mal torrado. Rosto marrom, pescoço e ombros marrons,
braços marrons, pernas marrons do joelho para baixo; mas todo o resto era branco, tolo, sem
vigor, branco de cidade. Se pudesse andar por aí sem roupas até ficar como aquelas crianças
acobreadas que rolavam e caíam na areia quente! Agora ela estava mal passada, meio assada e inteiramente ridícula. Por um longo tempo contemplou sua imagem pálida. Via-se correndo pela
areia, o corpo todo bronzeado; ou através de um campo de flores, narcisos e tulipas silvestres;
ou na relva macia sob o tom gris das oliveiras. Virou-se com um susto repentino. Ali, nas sombras atrás de si... Não, claro que não havia coisa alguma. Era aquela foto horrível que vira
numa revista, muitos anos antes, quando era criança. Havia uma mulher sentada à penteadeira,
penteando os cabelos em frente ao espelho; e um enorme macaco cabeludo e preto
aproximando-se por trás. Ela sempre tinha medo quando se olhava ao espelho. Muito tolo.
Ainda assim. Deu as costas ao espelho, atravessou o quarto e, sem baixar o mosquiteiro, deitou-
se na cama. As moscas zumbiam a seu redor, pousando incessantemente em seu rosto. Ela
sacudiu a cabeça e, com raiva, espantou-as com as mãos. Haveria paz se ela baixasse o
mosquiteiro. Mas pensou na Via Appia vista sob aquele véu de noiva e preferiu aguentar as moscas. Finalmente teve de render-se: as pestes eram demais para ela. Mas, de qualquer
maneira, não foi o medo de anofilinas que a fez baixar o mosquiteiro.
Em paz agora e imóvel, ela ficou estendida, calorenta, sob a transparente tenda de filó. Um
espécime sob uma redoma. A fantasia tomou conta de sua mente. Viu um enorme museu com
milhares de redomas, cheias de fósseis e borboletas e pássaros empalhados e colheres e
armaduras medievais e joias florentinas e múmias e marfim entalhado e manuscritos com
iluminuras. Porém uma das redomas continha um ser humano, aprisionado vivo.
De repente ela se sentiu horrivelmente infeliz.
— Chato, chato, chato — sussurrou, formulando as palavras em voz alta. Será que nunca ia
deixar de ser chato? As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Como tudo era horrível! E talvez fosse
continuar sendo ruim assim por toda a vida. Dezessete para setenta eram cinquenta e três.
Cinquenta e três anos disso. E, se vivesse cem anos, haveria mais de oitenta.
A ideia deixou-a deprimida a noite inteira. Até mesmo o banho de mar depois do chá não
adiantou. Nadando para longe, bem longe, ela ficou boiando na água morna. Às vezes olhava
para o céu, às vezes voltava a cabeça em direção à costa. Emolduradas em seus bosques de
pinheiros, as villas pareciam pequenas e aconchegantes como no anúncio de um balneário. Mas atrás delas, além das planícies, havia as montanhas. Picos nus e agudos de calcário, encostas
verdes de bosques e extensões verde-acinzentadas dos platôs de oliveiras — pareciam
maravilhosamente próximos e nítidos nessa luz vespertina. E lindos, mais lindos do que se pode
expressar. Mas isso, de alguma forma, só piorava as coisas. E Shelley vivera alguns
quilômetros litoral acima, ali, atrás do cabo que protegia o golfo de Spezia. Shelley tinha
morrido afogado nesse mar quente como leite. Isso também piorava as coisas.
O sol estava bem baixo e vermelho sobre o mar. Ela nadou lentamente de volta. Na praia a
sra. Topes a esperava com sua postura reprobatória. Ela conhecera uma pessoa, um homem forte, que teve cãibras por ficar tanto tempo dentro d’água. Afundou como uma pedra. Como
uma pedra. Quanta gente estranha a sra. Topes tinha conhecido! E que coisas engraçadas elas
faziam, que coisas estranhas lhes aconteciam!
O jantar naquela noite foi mais enfadonho que nunca. Bárbara foi cedo para a cama. A noite
inteira a mesma cigarra irritante cantava sem parar entre os pinheiros, monótona e regular como
um relógio. Sip, sip, sip, sip, sip. Chato, chato. Será que o bicho nunca se entediava com seu
próprio barulho? Parecia estranho que não. Mas, pensando bem, ninguém se entediava com o
próprio barulho. A sra. Topes, por exemplo: ela nunca parecia se entediar. Sip, sip, sip, sip, sip. A cigarra continuou a cantar sem interrupção.
Concetta bateu à porta às sete e meia. A manhã estava radiante e sem nuvens como todas as
manhãs. Bárbara saltou da cama, olhou por uma das janelas para as montanhas, por outra para o mar; tudo parecia estar bem com eles. Tudo estava bem com ela, também, nessa manhã. Sentada
ao espelho, nem pensou no macaco enorme a um canto distante e escuro do quarto. Roupa de
banho e roupão, sandálias, um lenço na cabeça, e ela estava pronta. O sono não deixara
lembrança do tédio mortal da véspera. Correu para o primeiro andar.
— Bom dia, sr. Topes.
O sr. Topes passeava no jardim entre as parreiras. Ele voltou-se, tirou o chapéu, sorriu em
cumprimento.
— Bom dia, srta. Bárbara. — Fez uma pausa. Depois, com um tremor embaraçado de abertura, continuou; a voz assumiu um pequeno gaguejar estranho. — Uma manhã realmente
chauceriana, srta. Bárbara. Uma manhã digna de maio, porém, em pleno setembro. A natureza
está aprazível e irradiante, e há pelo menos um espécime nesse jardim de sonho — tornou a
remexer-se mais desconfortavelmente que nunca, e havia um brilho trêmulo nas lentes redondas
dos óculos — da “aprazível juventude” dos poetas. — Fez uma reverência na direção dela,
sorriu contritamente e silenciou. O comentário, parecia-lhe agora que terminara de falar, não
era, de algum modo, tão bom quanto ele pensara que ia ser.
Bárbara riu.
— Chaucer! Eles nos faziam ler os Contos de Canterbury na escola. Mas sempre me
entediaram. O senhor vai à praia?
— Não antes do almoço. — O sr. Topes sacudiu a cabeça. — Fica-se um tanto velho para
isso.
— Fica-se? — Por que o velho bobo sempre dizia “fica-se”, “é-se”, quando queria dizer
“eu fico, eu sou”? Não conseguiu deixar de rir dele. — Bem, tenho que me apressar, senão vou
me atrasar para o café outra vez, e sabe o que me acontece.
Saiu correndo pelo portão no muro, através da praia até a cabine listrada de vermelho e branco que ficava na frente da casa. A uns cinquenta metros de distância viu o marquês
Prampolini, ainda molhado do mar, correndo para sua cabine. Avistando-a, ele sorriu em sua
direção e fez um cumprimento militar. Bárbara acenou, depois achou que o gesto fora um pouco
familiar demais (mas a essa hora da manhã era difícil não ser alegremente mal-educada) e
acrescentou uma rígida reverência corretiva. Afinal, só o conhecera na véspera. Logo nadava
mar adentro e, ai, que quantidade enorme de algas.
O sr. Topes a seguira devagar pelo portão e através da areia. Observou-a correr da cabine,
esguia como um garoto, os passos longos e elásticos. Observou-a saltar e mergulhar levantando espuma através da água cada vez mais profunda, depois lançar-se à frente e começar a nadar.
Observou-a até que ela se tornasse apenas um pontinho escuro à distância.
Emergindo de sua cabine, o marquês encontrou-o caminhando lentamente ao longo da
praia, cabeça baixa e os lábios em leves movimentos, como se repetisse algo, uma oração ou um
poema, consigo mesmo.
— Bom dia, signore. — O marquês apertou-lhe a mão com uma cordialidade mais que
inglesa.
— Bom dia — replicou o sr. Topes, permitindo que sua mão fosse sacudida. Irritou-se com tal interrupção de seus pensamentos.
— Ela nada muito bem, a srta. Buzzacott.
— Muito — assentiu o sr. Topes, e sorriu consigo mesmo ao pensar nas coisas lindas e poéticas que poderia ter dito, se quisesse.
— Bem, é isso — fez o marquês, por demais coloquial. Apertaram-se as mãos novamente,
e os dois homens seguiram seus caminhos respectivos.
Bárbara ainda estava a uns cem metros da praia quando ouviu crescer e diminuir o som do
gongo, flutuando até ela vindo da villa. Droga! Ia se atrasar de novo. Aumentou a rapidez das
braçadas e atravessou correndo a parte rasa, enrubescida e sem fôlego. Estaria dez minutos
atrasada, calculou. Levaria pelo menos isso para pentear os cabelos e vestir-se. A sra. Topes
mais uma vez a receberia com hostilidade; embora só Deus soubesse que direito tinha a velha de lhe pregar sermões como fazia. Ela sempre conseguia fazer-se horrivelmente ofensiva e
desagradável.
A praia estava deserta quando ela a atravessou, ofegante e em passos rápidos, vazia para a
direita e para a esquerda até onde podia enxergar. Se pelo menos tivesse um cavalo para
galopar pela beira d’água, quilômetros e quilômetros. Iria até a Bocca d’Arno, nadaria no rio —
podia ver-se curvada sobre as costas do cavalo, enquanto ele nadava, com as pernas encolhidas
na sela, tentando não molhar os pés — e tornaria a galopar, só Deus sabia até onde.
Estacou subitamente em frente à cabine. Ali, na areia ondulada, ela tinha visto algo escrito. Letras grandes, vagamente legíveis, espalhavam-se através de seu caminho.
Ó, Clara d’Ellébeuse[35]
Refez as letras quase apagadas. Não estavam ali quando ela saíra para nadar. Quem?...
Olhou em volta. A praia estava deserta. E qual era o significado? “Ó, Clara d’Ellébeuse.”
Pegou o roupão na cabine, calçou as sandálias e correu de volta para casa o mais rápido que conseguiu. Sentia-se horrivelmente assustada.
Era uma manhã pesada, opressiva, com um siroco quente que sacudia as bandeiras nos
mastros. Ao meio-dia as nuvens de tempestade tinham encoberto metade do céu. O sol ainda
brilhava no mar, mas sobre as montanhas estava tudo negro e azul-escuro. A tempestade
explodiu ruidosamente quando bebiam o café depois do almoço.
— Arthur — disse a sra. Topes, irritantemente calma. — Feche as janelas, por favor.
Ela não estava com medo. Mas preferia não ver os relâmpagos. Quando o aposento ficou
escurecido ela começou a falar, suave e incessantemente.
Recostada em sua poltrona funda, Bárbara pensava em Clara d’Ellébeuse. Que significava
aquilo, e quem era Clara d’Ellébeuse? E por que ele tinha escrito aquilo para ela ver? Ele —
pois não havia dúvida de quem tinha escrito. O clarão dos dentes e dos olhos, o cumprimento
militar, sabia que não devia ter acenado para ele. Tinha escrito aquilo enquanto ela estava
nadando. Escreveu e depois fugiu. Ela até que gostava disso: apenas palavras fabulosas na
areia, como a pegada em Robinson Crusoe.
— Pessoalmente — dizia a sra. Topes — prefiro a Harrod’s.
O trovão explodiu e estrondeou. Era bastante excitante, pensou Bárbara; sentia-se que alguma coisa estava acontecendo, para variar. Lembrou-se do quartinho na metade da escada na
casa de Lady Thingumy, com as estantes de livros, as cortinas verdes e a cúpula alaranjada da lâmpada; e aquele rapaz horrível, como uma lesma branca, que tentara beijá-la ali, no baile do
ano passado. Mas aquilo fora diferente — nem um pouco sério; e ademais, o rapaz era muito
feio. Ela viu o marquês correndo pela praia, rápido e alerta. Todo cor de cobre, os cabelos negros. Era sem dúvida muito bonito. Mas, quanto a estar apaixonada, bem... o que significa
isso exatamente? Talvez, quando o conhecesse melhor. Mesmo agora ela imaginava perceber
alguma coisa. Ó, Clara d’Ellébeuse. Que coisa fabulosa!
Com seus dedos longos o sr. Buzzacott penteava a barba. Neste inverno, pensava ele,
trocaria mais mil libras em moeda italiana quando o câmbio estivesse favorável. Na primavera
ele sempre parecia cair de novo. Podia-se lucrar trezentas libras com o capital, se o câmbio
descesse para setenta. A renda de trezentas libras era quinze libras por ano, e quinze libras eram
agora mil e quinhentas liras. E mil e quinhentas liras, pensando bem, eram na verdade sessenta libras. Isso significava que era possível acrescentar mais de uma libra por semana à renda, com
essa simples especulaçãozinha. Percebeu que a sra. Topes lhe fizera uma pergunta.
— Sim, sim, perfeitamente — respondeu.
A sra. Topes continuou a falar; ela estava mantendo seu moral alto. Teria ela razão em
desfazer-se da tensão e acreditar que o trovão soara um pouco menos alto e próximo?
O sr. Topes estava sentado, lustrando os óculos com um lenço de seda branca. Vagos e
míopes entre as pálpebras franzidas, seus olhos pareciam perdidos, sem lar, infelizes. Ele
estava pensando sobre a beleza. Havia certas relações entre as pálpebras e as têmporas, entre o busto e o ombro; havia certas sucessões de sons. E o que dizer deles? Ah, esse era o problema,
esse era o problema. E havia a juventude, havia a inocência. Mas era tudo muito obscuro, e
havia tantas frases, tantos quadros e tantas melodias relembradas; ele parecia estar preso em seu
emaranhado. E como era velho e inútil.
Tornou a colocar os óculos, e a definição surgiu no mundo nebuloso diante de seus olhos. A
sala fechada estava muito escura. Ele podia distinguir o perfil renascentista do sr. Buzzacott, a
barba, as feições delicadas. Em sua poltrona funda, Bárbara aparecia, levemente branca, em
atitude relaxada e pensativa. E a sra. Topes nada mais era que uma voz na escuridão. Chegara ao casamento do príncipe de Gales. Quem encontrariam para ele?
Clara d’Ellébeuse, Clara d’Ellébeuse. Já se via nitidamente como a marchesa. Teriam uma
casa em Roma, um palácio. Estava no Palazzo Spada — havia um lindo corredor abobadado
levando do pátio até os jardins nos fundos. “MARCHESA PRAMPOLINI, PALAZZO SPADA, ROMA” — um grande cartão
de visitas lindamente gravado. E ela cavalgaria todos os dias no Pincio. “Mi porta il mio
cavallo”, diria ao lacaio que atendia à campainha. Porta? Seria correto? Absolutamente. Ela
precisaria de algumas boas lições de italiano para falar com os criados. Não se deve ser
ridículo diante dos criados. “Voglio il mio cavallo.” Isso se dizia em tom altivo, sentada à escrivaninha, em traje de equitação, sem se virar. Seria um traje verde, com um chapéu tricórnio
preto, enfeitado de prateado.
“Prendero la mia collazione al letto”: Era assim que se pedia o café da manhã na cama?
Porque ela tomaria o café na cama, sempre. E quando se levantasse, haveria maravilhosos
espelhos com três folhas onde a pessoa podia ver-se de lado. Imaginou-se inclinada para a
frente, empoando o nariz com cuidado e ciência. Com o macaco se aproximando por trás? Oh!
Horrível! Ho paura di questa scimmia, questo scimmione.
Voltaria para o almoço depois de cavalgar. Talvez Prampolini estivesse em casa; ela até então o tinha deixado de fora. “Dov’è il Marchese?” “Nella sala di pranza, signora.” Comecei
sem você, estava com tanta fome. Pasta asciutta. Onde você esteve, meu amor? Cavalgando,
meu pombinho. Imaginava que teriam o hábito de dizer coisas assim. Parece que todos diziam. E você? Eu saí com os fascisti.
Ah, esses fascisti! Será que valeria a pena viver se ele estava sempre saindo com pistolas,
bombas e coisas? Um dia seria trazido numa maca. Ela o via. Pálido, pálido, com sangue. Il
signore è ferito. Nel petto. Gravamente. È morto.
Como ela suportaria? Era horrível demais; terrível demais. Sua respiração saiu como uma
espécie de soluço; ela estremeceu como se tivesse sido ferida. È morto. È morto. As lágrimas
subiram-lhe aos olhos.
Foi despertada de súbito por uma luz cegante. A tempestade afastara-se o suficiente para permitir que a sra. Topes abrisse as janelas.
— Parou de chover.
Ser perturbada na dor íntima e no abandono junto ao leito de morte pela intrusão de um
desconhecido, de uma voz estranha... Bárbara desviou o rosto da luz e disfarçadamente enxugou
os olhos. Podiam vê-la e perguntar por que ela estava chorando. Ela odiava a sra. Topes por ter
aberto as janelas; à entrada da luz algo de belo fugira, uma emoção desaparecera,
irrecuperavelmente. Era um sacrilégio.
O sr. Buzzacott consultou o relógio.
— Tarde demais para a siesta agora — comentou. — E se pedirmos o chá mais cedo?
— Uma sucessão interminável de refeições — falou o sr. Topes com voz trêmula e um
suspiro. — É o que parece ser a vida, a vida real.
— Andei calculando... — O sr. Buzzacott voltou os olhos verdes como cristais para seu
convidado. — Talvez eu tenha condições de comprar aquele lindo cinque cassone, afinal. Ia
ficar um pouco apertado. — Brincou com a barba. — Mas mesmo assim...
Depois do chá, Bárbara e o sr. Topes saíram para um passeio ao longo da praia. Ela não
tinha muita vontade de ir, mas a sra. Topes achou que seria bom para ela; assim, ela teve de ir. A tempestade passara, e o céu estava claro sobre o mar. Mas as ondas ainda quebravam num
desassossegado rugir, e a água cobria a areia uns vinte ou trinta metros para além da linha onde,
em dias calmos, a espuma se dissipava. Brilhantes extensões de água avançavam e recuavam
como superfícies de aço movimentadas por uma enorme máquina. Através do ar lavado pela
chuva as montanhas apareciam com uma clareza incrível. Acima delas pairavam enormes
massas de nuvens.
— Nuvens sobre Carrara — disse o sr. Topes, pedindo desculpas pelo comentário com um
leve sacudir da cabeça e um movimento dos ombros. — Às vezes fico imaginando que os espíritos dos grandes escultores vivem em meio a esses montes de mármore, e que são suas
mãos invisíveis que modelam as nuvens nessas formas enormes e esplêndidas. Imagino os
fantasmas deles — sua voz estremeceu — estudando concepções sobre-humanas, planejando
enormes grupos, frisos e figuras monumentais com panejamentos esvoaçantes; planejando,
concebendo, mas sem nunca conseguir. Veja, há algo de Michelangelo naquela nuvem branca
com as sombras escuras embaixo. — O sr. Topes apontou, e Bárbara assentiu e disse “sim,
sim”, embora não tivesse bem certeza de qual nuvem ele mostrava. — É como a Noite no
túmulo dos Médici; toda a força e a paixão estão ali dentro, presas, latentes. E ali, naquele pedaço de vapor que se ergue e gesticula, está vendo qual é? Aquilo é um Bernini. Toda a
paixão está na superfície, expressa; o gesto foi apreendido em sua maior violência. E aquela
branca e esguia ali é um Canova deliciosamente absurdo. — O sr. Topes deu uma risadinha.
— Por que o senhor sempre fala sobre arte? — perguntou Bárbara. — O senhor traz essas
pessoas mortas para tudo. Que é que sei de Canova ou seja quem for?
Nenhum deles estava vivo. Ela pensou naquele rosto escuro, no qual a vida brilhava como
um candeeiro. Ele pelo menos não estava morto. Perguntou-se se as letras ainda estariam na
areia diante da cabine. Não, claro que não; a chuva e o vento as teriam apagado.
O sr. Topes ficou em silêncio; caminhava com os joelhos ligeiramente curvados e os olhos
fixos no chão; usava um chapéu de palha preto e branco. Sempre pensava em arte; era isso que
estava errado com ele. Era como uma árvore velha; feito de madeira morta, com apenas umas poucas fibras de vida para impedir que apodrecesse. Caminhava em silêncio durante um longo
tempo.
— Eis o rio — disse o sr. Topes finalmente.
Mais alguns passos e estavam à margem de um riacho largo que descia lentamente através
da planície em direção ao mar. Até chegar à praia ele era bordejado de pinheiros; além das
árvores podia-se ver a planície, e além da planície havia as montanhas. Nessa luz calma depois
da tempestade tudo parecia estranho. As cores pareciam mais profundas e mais intensas do que
em ocasiões comuns. E, embora tudo estivesse tão claro, havia um misterioso ar de distanciamento em toda a cena. Não havia som, exceto a respiração contínua do mar. Ficaram
parados um pouco, olhando; depois voltaram.
À distância, ao longo da praia, duas figuras aproximavam-se lentamente. Calças de flanela
branca, uma camisa cor-de-rosa.
— A natureza — enunciou o sr. Topes sacudindo a cabeça. — Deve-se sempre voltar à
natureza. Em um momento como este, em um ambiente como este, é que se percebe isso. Agora
se vive; mais sossegadamente, talvez, porém mais profundamente. Águas profundas. Águas
profundas...
As figuras se aproximavam. Não era o marquês? E quem estava com ele? Bárbara
esforçou-se para enxergar.
— A maior parte da vida — continuou o sr. Topes — é um esforço prolongado para evitar
o pensamento. Seu pai e eu, nós colecionamos quadros e lemos a respeito dos mortos. Outras
pessoas conseguem o mesmo resultado bebendo, criando coelhos, fazendo trabalho amador de
carpintaria. Qualquer coisa para não pensar calmamente sobre as coisas importantes.
O sr. Topes silenciou. Olhou em volta, para o mar, as montanhas, as grandes nuvens, sua
companheira. Uma frágil Madonna de Montagna, com o mar e o sol no poente, as montanhas e a tempestade, toda a eternidade como pano de fundo. E ele tinha sessenta anos, com toda uma vida
atrás de si, uma vida vazia, imensamente longa porém infinitamente curta. Pensou na morte e nos
milagres da beleza; por trás de seus óculos redondos e faiscantes sentia-se inclinado a chorar.
O casal que se aproximava estava bem perto agora.
— Que morsa mais engraçada — comentou a mulher.
— Morsa? Sua história natural está toda errada. — O marquês riu. — Ele é seco demais
para ser uma morsa. Sugiro algo como um gato velho.
— Bem, seja o que for, tenho pena da pobre menina. Imagine, não ter alguém melhor com quem sair!
— Bonitinha, não é?
— É, mas jovem demais, naturalmente.
— Gosto da inocência.
— Inocência? Cher ami! Essas garotas inglesas, oh, la la! Podem parecer inocentes. Mas
creia-me...
— Psiu, vão ouvir você.
— Bah, eles não entendem italiano.
O marquês ergueu a mão.
— A velha morsa... — sussurrou; depois dirigiu-se em voz alta e jovial aos recém-
chegados.
— Boa tarde, signorina. Boa tarde, sr. Topes. Depois de uma tempestade o ar é sempre
mais puro, não concordam?
Bárbara assentiu, deixando a resposta para o sr. Topes. Não era a irmã dele. Era a mulher
russa de quem a sra. Topes costumava dizer que era um absurdo permitirem que ela ficasse no
hotel. Ela voltara as costas, dissociando-se da conversa; Bárbara observou o perfil de seu rosto.
O sr. Topes estava dizendo algo sobre a Sinfonia pastoral. Pó de arroz escarlate à luz do dia;
medonho.
— Bem, au revoir.
O clarão do sorriso do marquês foi dirigido a eles. A mulher russa deu as costas ao mar,
fez uma reverência ligeira, sorriu languidamente. As pesadas pálpebras brancas estavam quase
fechadas; parecia presa de um enorme tédio.
— Eles destoam um pouco — disse o sr. Topes quando se afastaram. — Destoam da hora,
do lugar, da emoção. Não possuem a inocência para essa... essa... — remexeu-se e sua voz
tremeu ao dizer a palavra certa, a palavra preciosa — essa paisagem prelapsariana.
Olhou de lado para Bárbara e se perguntou por que ela franzia a testa tão pensativa. Ah,
maravilhosa e delicada jovem criatura! Que poderia ele dizer de adequado sobre a morte, a beleza, a ternura? Ternura...
— Tudo isso — continuou desesperadamente, e fez um gesto com a mão para indicar o céu,
o mar, as montanhas —, essa cena é como algo relembrado, claro e inteiramente calmo;
relembrado através de grandes golfos de tempo interveniente.
Mas aquilo não era realmente o que ele queria dizer.
— Entende o que quero dizer? — perguntou em tom dúbio. Ela não respondeu. Como
poderia entender? — Essa cena é tão clara e pura e remota; você precisa da emoção
correspondente. Essas pessoas estavam fora de harmonia. Não eram claras e puras o suficiente. — Ele parecia estar cada vez mais enrolado. — É uma emoção dos jovens e dos velhos. Você
poderia senti-la, eu poderia senti-la. Essas pessoas não poderiam. — Ele estava tateando seu
caminho através de obscuridades. Onde chegaria finalmente? — Certos poemas exprimem isso.
Conhece Francis Jammes? Pensei muito na obra dele ultimamente. Arte em lugar da vida, como
sempre; mas sou assim. Não consigo deixar de pensar em Jammes. Essas coisas delicadas e
maravilhosas que ele escreveu sobre Clara d’Ellébeuse.
— Clara d’Ellébeuse? — Ela estacou e encarou-o.
— Conhece os versos? — O sr. Topes sorriu deliciado. — Este lugar me faz pensar, você me faz pensar neles. “J’aime dans les temps Clara d’Ellébeuse...” Mas, minha cara Bárbara,
que foi que aconteceu?
Ela tinha começado a chorar, sem razão alguma.