Contos escolhidos
O retrato
— INTURAS — DISSE O SR. IGGER P B. — Você quer ver algumas pinturas? Bem, temos no momento, em nossas
galerias, uma exposição mista de coisas modernas muito interessante. Francesas e inglesas,
sabe?
O freguês ergueu a mão e sacudiu a cabeça.
— Não, não. Nada de moderno para mim — declarou, em seu agradável inglês do norte. —
Quero pinturas de verdade, pinturas antigas. Rembrandt e Sir Joshua Reynolds, esse tipo de
coisa.
— Perfeitamente — assentiu o sr. Bigger. — Os Velhos Mestres. Ah, naturalmente lidamos com os antigos, assim como com os modernos.
— O fato é — disse o outro — que acabei de comprar uma casa meio grande. Um Solar —
acrescentou em tom imponente.
O sr. Bigger sorriu; havia naquele sujeito simples uma ingenuidade muito simpática.
Perguntou-se como o homem teria ganhado dinheiro. “Um Solar.” O modo como ele tinha dito
isso era de fato encantador. Ali estava um homem que com seu trabalho ascendera da servidão à
posse de um solar, desde a base larga da pirâmide feudal até o cume estreito. Sua própria
história e toda a história das classes sociais estavam implícitas naquela ênfase orgulhosa e reverente de “Solar”. Mas o desconhecido continuava a falar; o sr. Bigger não podia se dar ao
luxo de maiores divagações.
— Em uma casa desse estilo — dizia o outro — e com uma posição como a minha, é
preciso ter alguns quadros. Velhos Mestres, sabe; Rembrandt e aqueles sujeitos.
— Naturalmente — disse o sr. Bigger —, um Velho Mestre é um símbolo de superioridade
social.
— É exatamente isso — exclamou o outro com um sorriso largo. — Você disse o que eu
queria dizer.
O sr. Bigger inclinou-se e sorriu. Era delicioso encontrar alguém que tomava suas
pequenas ironias como grave seriedade.
— Claro, precisamos de um só Velho Mestre no primeiro andar, no salão de recepções.
Seria bom demais ter um em cada quarto também.
— Realmente seria — assentiu o sr. Bigger.
— Aliás, minha filha desenha um pouco — continuou o Senhor do Solar. — E muito bem.
Mandei emoldurar algumas das coisas dela para pendurar nos quartos. É útil ter um artista na
família. Economiza na compra de quadros. Mas, é claro, precisamos ter alguma coisa antiga no primeiro andar.
— Acho que tenho exatamente o que você quer. — O sr. Big- ger levantou-se e tocou a
campainha. “Minha filha desenha um pouco”: ele imaginou uma personagem grande, loura, do
tipo de uma estalajadeira, com trinta e um anos e ainda solteira, um pouco decadente. Sua secretária apareceu à porta. — Traga-me o retrato veneziano, srta. Pratt, aquele na sala dos
fundos. Sabe a qual me refiro.
— Você está bem instalado aqui — comentou o Senhor do Solar. — Os negócios vão bem, espero.
O sr. Bigger suspirou.
— A recessão — disse. — Nós, comerciantes de arte, somos mais afetados por ela do que
qualquer outra pessoa.
— Ah, a recessão. — O Senhor do Solar deu uma risadinha. — Eu previ isso o tempo
todo. Algumas pessoas pareciam pensar que os bons tempos durariam para sempre. Que tolos!
Vendi tudo na crista da onda. Por isso posso comprar quadros agora.
O sr. Bigger riu também. Esse era o tipo certo de freguês.
— Eu gostaria de ter tido algo para vender durante a alta — disse.
O Senhor do Solar riu até as lágrimas rolarem por seu rosto. Ainda estava rindo quando a
srta. Pratt tornou a entrar na sala. Ela carregava um quadro, como um escudo, com as duas mãos,
à sua frente.
— Coloque-o no cavalete, srta. Pratt — disse o sr. Bigger. — Agora, o que acha? —
perguntou, voltando-se para o Senhor do Solar.
O quadro que estava no cavalete à frente deles era um retrato de meia altura. De rosto
redondo, pele branca, busto alto em seu vestido profundamente decotado de seda azul, a pessoa retratada parecia uma típica dama italiana de meados do século XVIII. Um pequeno sorriso
complacente curvava os lábios carnudos, e em uma das mãos ela segurava uma máscara preta,
como se tivesse acabado de retirá-la depois de um dia de carnaval.
— Muito bonito — fez o Senhor do Solar, mas acrescentou, em tom de dúvida: — Não
parece muito Rembrandt, não é? É tão claro e brilhante... Geralmente nos Velhos Mestres a
gente nunca enxerga nada, são tão escuros e embaçados.
— É verdade — disse o sr. Bigger. — Mas nem todos os Velhos Mestres são como
Rembrandt.
— Imagino que não. — O Senhor do Solar não parecia convencido.
— Este quadro é veneziano, do século XVIII. As cores dele são sempre luminosas. Giangolini
foi o pintor. Ele morreu jovem, sabe? Não mais que meia dúzia de seus quadros são conhecidos.
Este é um deles.
O Senhor do Solar assentiu. Ele sabia apreciar o valor da raridade.
— Percebe-se ao primeiro olhar a influência de Longhi — continuou vivamente o sr.
Bigger. — E há algo da morbidezza de Rosalba no rosto.
O Senhor do Solar olhava desconfortavelmente do sr. Bigger para o quadro e do quadro para o sr. Bigger. Não há nada mais embaraçoso do que ouvir alguém que possua mais
conhecimento do que nós. O sr. Bigger aproveitou sua vantagem.
— É curioso — continuou — que não se reconheça coisa alguma do estilo de Tiepolo nele.
Você não acha?
O Senhor do Solar assentiu. Seu rosto tinha uma expressão sombria. Os cantos de sua boca
de bebê caíram. Podia-se imaginar que ele ia desatar em lágrimas.
— É agradável — disse o sr. Bigger, compadecendo-se afinal — conversar com alguém
que realmente entende de pintura. Tão poucas pessoas entendem.
— Bem, não posso dizer que tenha estudado muito o assunto — disse o Senhor do Solar
modestamente. — Mas sei o que me agrada quando o vejo. — Seu rosto iluminou-se como se
mais uma vez se sentisse em terreno seguro.
— Um instinto natural — disse o sr. Bigger. — Isso é um dom muito precioso. Vi em seu
rosto que o senhor o possui; vi no momento em que entrou na galeria.
O Senhor do Solar ficou deliciado.
— Realmente, ora — disse. Sentia-se crescer, ficar mais importante. — Realmente. —
Inclinou a cabeça criticamente para o lado. — Sim, devo dizer que acho esse quadro muito bom.
Muito bom. Mas o fato é que eu preferia uma peça mais histórica, entende o que quero dizer?
Alguém com mais jeito de ancestral, sabe? Um retrato de alguém com uma história — Ana
Bolena, ou Nell Gwynn, ou o Duque de Wellington, algo do gênero.
— Mas, meu caro cavalheiro, eu ia justamente lhe contar. Este quadro tem uma história. —
O sr. Bigger inclinou-se para a frente e deu um tapinha no joelho do Senhor do Solar. Seus olhos
brilhavam com um fulgor benevolente e divertido sob as sobrancelhas cerradas. Havia uma
bondade sábia em seu sorriso. — Uma história extraordinária está ligada à pintura deste quadro.
— Não diga! — O Senhor do Solar ergueu as sobrancelhas.
O sr. Bigger recostou-se na cadeira.
— A dama que o senhor vê ali — disse, indicando o retrato com um gesto de mão — era a
esposa do quarto conde Hurtmore. A família agora está extinta. O nono conde morreu no ano passado. Consegui esse quadro quando a casa foi vendida. Triste ver o fim dessas velhas casas
ancestrais.
O sr. Bigger suspirou. O Senhor do Solar parecia solene, como se estivesse em uma igreja.
Houve um momento de silêncio; então o sr. Bigger continuou, em tom diferente:
— Pelos retratos dele, que eu vi, o quarto conde parece ter sido um sujeito de rosto
comprido, sombrio e acinzentado. Não se poderia imaginá-lo jovem; era o tipo de homem que
parece permanentemente ter cinquenta anos. Seus maiores interesses na vida eram a música e
antiguidades romanas. Há um retrato dele segurando uma flauta de marfim em uma das mãos e descansando a outra sobre um fragmento de um entalhe romano. Passou pelo menos metade da
vida viajando pela Itália, procurando antiguidades e ouvindo música. Quando tinha uns
cinquenta e cinco anos, resolveu de repente que era hora de se casar. Esta foi a dama de sua
escolha. — O sr. Bigger apontou para o quadro. — O dinheiro dele e o título devem ter
compensado muitas deficiências. Não se pode imaginar, pela aparência dela, que lady Hurtmore
tivesse muito interesse em antiguidades romanas. Tampouco ocorre-me pensar se importava
muito com ciência e história da música. Ela gostava de roupas, gostava de sociedade, gostava
de jogar, gostava de flertar, gostava de se divertir. Não parece que o casal recém-casado tenha se dado muito bem. Mas mesmo assim eles evitaram uma ruptura. Um ano depois do casamento,
lorde Hurtmore resolveu fazer outra visita à Itália. Chegaram a Veneza no início do outono. Para
lorde Hurtmore, Veneza significava música ilimitada. Significava os concertos diários de
Galuppi no orfanato da Misericórdia. Significava Puccini na Santa Maria. Significava novas
óperas em San Moise; significava cantatas deliciosas em cem igrejas. Significava concertos
privados de amadores; significava Pórpora e os melhores cantores da Europa; significava
Tartini e os maiores violinistas. Para lady Hurtmore, Veneza significava algo bem diferente.
Significava jogar no Ridotto, bailes de máscaras, jantares alegres, todas as delícias da cidade mais divertida do mundo. Vivendo suas vidas separadas, ambos poderiam ter sido felizes lá em
Veneza quase indefinidamente. Mas um dia lorde Hurtmore teve a ideia desastrosa de mandar
pintar o retrato da esposa. O jovem Giangolini lhe foi recomendado como pintor promissor, de futuro. Lady Hurtmore iniciou as sessões de pintura. Giangolini era bonito e ousado, Giangolini
era jovem. Tinha uma técnica amorosa tão perfeita quanto sua técnica artística. Lady Hurtmore
teria sido mais que humana se fosse capaz de resistir a ele. Ela não era mais que humana.
— Nenhum de nós é, não? — O Senhor do Solar enfiou o dedo nas costelas do sr. Bigger e
riu.
Educadamente o sr. Bigger o acompanhou em seu divertimento; quando este arrefeceu, ele
continuou:
— Finalmente eles decidiram fugir juntos através da fronteira. Viveriam em Viena, com as joias da família Hurtmore, que a dama teria o cuidado de levar em sua mala. Elas valiam mais
de vinte mil, as joias Hurtmore; e em Viena, sob Maria Teresa, podia-se viver muito bem com
os juros de vinte mil. Os planos foram feitos facilmente. Giangolini tinha um amigo que fez tudo
para eles: arranjou passaportes com nomes falsos, alugou cavalos para esperar em terra firme,
colocou sua gôndola à disposição deles. Decidiram fugir no dia da última sessão de pintura. O
dia chegou. Lorde Hurtmore, segundo seu costume, levou a esposa ao estúdio de Giangolini em
uma gôndola, deixou-a lá, aninhada ao alto encosto do trono da modelo, e saiu de novo para
ouvir o concerto de Galuppi na Misericórdia. Era o momento alto do carnaval. Mesmo durante o dia as pessoas andavam mascaradas. Lady Hurtmore usava uma máscara de seda preta — o
senhor a vê com a máscara ali no retrato. O marido, embora não fosse boêmio e desaprovasse a
confusão do carnaval, preferia conformar-se à moda grotesca de seus vizinhos em vez de atrair
atenção sobre si por não conformar-se. O comprido casaco preto, o enorme chapéu preto de três
pontas, a máscara de nariz comprido de papel branco eram o traje comum a todos os
cavalheiros venezianos nessas semanas de carnaval. Lorde Hurtmore não queria parecer
diferente; e usava a mesma coisa. Certamente havia algo ricamente absurdo e esdrúxulo no
espetáculo do sisudo cavalheiro inglês de respeitosas feições vestido com o uniforme de palhaço de um alegre mascarado veneziano. “Pantaleão nas roupagens de Pulcinella” foi como
os amantes o descreveram, o velho caduco da eterna comédia vestido de palhaço. Bem, nessa
manhã, como já disse, lorde Hurtmore chegou como sempre em sua gôndola alugada, trazendo
consigo sua dama. E ela por sua vez trazia, sob as dobras de sua capa ampla, uma pequena caixa
de couro dentro da qual, aconchegadas em seu leito de seda, repousavam as joias Hurtmore.
Sentados na pequena cabine escura da gôndola, eles contemplavam as igrejas, os palazzi
ricamente ornamentados, as casas altas e estreitas por entre as quais deslizavam. Sob sua
máscara de palhaço ouviu-se a voz de lorde Hurtmore, grave, lenta, imperturbável. “O erudito padre Martini prometeu dar-me a honra de vir jantar conosco amanhã”, disse ele. “Duvido que
alguém conheça mais a história musical do que ele. Eu lhe peço que se esforce para lhe prestar
homenagens especiais.” “Esteja certo de que as farei, meu lorde.” Ela mal podia conter a alegre
excitação que borbulhava dentro de si. No dia seguinte, à hora do jantar, ela estaria muito longe
— além da fronteira, depois de Gorizia, galopando pela estrada de Viena. Pobre velho
Pantaleão! Mas não, ela não tinha a menor pena dele. Afinal, ele tinha sua música, tinha suas
miudezas de mármore quebrado. Sob a capa ela segurou a caixa de joias com mais força. Como
era divertido seu segredo! Sentia-se como que embriagada.
O sr. Bigger apertou as mãos e levou-as dramaticamente ao coração. Ele próprio se
divertia. Virou o nariz comprido como o focinho de uma raposa em direção ao Senhor do Solar
e sorriu com benevolência. O Senhor do Solar, por sua parte, era todo atenção.
— E então? — inquiriu.
O sr. Bigger soltou as mãos e deixou-as cair no joelho do outro.
— Bem, a gôndola para à porta de Giangolini, lorde Hurtmore ajuda a esposa a sair, leva-a
até o grande aposento do pintor no primeiro andar, entrega-a a ele com sua costumeira fórmula
educada, e então parte para ouvir o concerto matinal de Galuppi na Misericórdia. Os amantes
têm umas boas duas horas para fazer os preparativos finais. Assim que o velho Pantaleão some
de vista, surge o útil amigo do pintor, de capa e máscara como qualquer pessoa nas ruas e
canais dessa Veneza em pleno carnaval. Seguem-se abraços, apertos de mão e risadas; tudo saiu tão maravilhosamente bem, nenhuma suspeita despertada. De sob o casaco de lady Hurtmore
surge a caixa de joias. Ela a abre e há altas exclamações italianas de espanto e admiração. Os
brilhantes, as pérolas, as grandes esmeraldas Hurtmore, os broches de rubis, os brincos de
diamantes — todas essas coisas brilhantes e faiscantes são examinadas com carinho,
manuseadas com conhecimento. No mínimo cinquenta mil cequins é a estimativa do comparsa.
Os dois amantes, extasiados, jogam-se nos braços um do outro. O comparsa os interrompe;
ainda há algumas poucas coisas a serem feitas. Eles têm de assinar os passaportes no Ministério
da Polícia. Ah, uma simples formalidade; mas precisa ser cumprida. Enquanto isso ele vai sair e vender um dos diamantes da dama para obter os fundos necessários para a viagem.
O sr. Bigger parou para acender um cigarro. Soprou uma nuvem de fumaça e continuou:
— Assim saíram todos, com suas máscaras e capas, o comparsa em uma direção, o pintor e
a amante em outra. Ah, o amor em Veneza! — O sr. Bigger revirou os olhos, em êxtase. — Você
já esteve em Veneza e apaixonado? — perguntou ao Senhor do Solar.
— Nunca fui mais longe que Dieppe — respondeu o Senhor do Solar sacudindo a cabeça.
— Ah, então perdeu uma das grandes experiências da vida. Nunca se pode entender
completamente o que podem ter sido as sensações da pequena lady Hurtmore e do artista enquanto seguiam pelos longos canais, contemplando um ao outro através dos orifícios de suas
máscaras. Às vezes, talvez, beijavam-se — embora isso devesse ser difícil sem tirar as
máscaras; ademais, sempre havia o perigo de que alguém reconhecesse seus rostos nus através
das janelas de sua pequena cabine. Não — concluiu pensativamente o sr. Bigger. — Acho que
eles se limitaram a contemplar-se. Mas em Veneza, ao longo do torpor dos canais, pode-se
quase satisfazer-se em olhar — só olhar.
Acariciou o ar com a mão e deixou a voz esvair-se em silêncio. Deu duas ou três tragadas
no cigarro sem falar coisa alguma. Quando continuou, sua voz era baixa e regular.
— Mais ou menos meia hora depois que eles partiram, uma gôndola parou à porta de
Giangolini e um homem com máscara de papel, envolto numa capa preta e usando na cabeça o
inevitável chapéu de três pontas, saltou e subiu para o aposento do pintor. Estava vazio. Doce,
ou talvez um pouco tolamente, o retrato sorria no cavalete. Mas não havia pintor diante dele, e o
trono da modelo estava desocupado. A máscara de nariz comprido contemplou o aposento com
uma curiosidade sem expressão. O olhar errante veio pousar finalmente sobre a caixa de joias
que estava onde os amantes a tinham descuidadamente deixado, aberta sobre a mesa. Profundos
e sombreados de negro por trás da máscara grotesca, os olhos contemplaram longa e fixamente esse objeto. O Pulcinella de nariz comprido parecia estar absorto em meditação. Alguns minutos
mais tarde houve o som de passos na escada, de duas vozes rindo juntas. O mascarado voltou-se
para olhar pela janela. Atrás dele a porta abriu-se ruidosamente; bêbados de excitação e de uma alegre e animada irresponsabilidade, os dois amantes entraram. “Ah, caro amico! Já de volta?
Teve sorte com o diamante?” A figura embuçada não se mexeu; Giangolini continuou a falar
alegremente. Não tinha havido o menor problema com as assinaturas, nenhuma pergunta; os
passaportes estavam em seu bolso. Podiam partir imediatamente. De repente lady Hurtmore
começou a rir incontrolavelmente; não conseguia parar. “Que foi?”, perguntou Giangolini, rindo
também. “Eu estava pensando”, ela ofegou, no paroxismo de sua alegria, “estava pensando no
velho Pantaleão sentado na Misericórdia, solene como uma coruja, escutando” — ela quase
engasgou, e as palavras saíram agudas e forçadas como se ela falasse através de lágrimas — “as enfadonhas cantatas velhas do velho Galuppi.” O homem à janela voltou-se. “Infelizmente,
madame”, disse ele, “o sábio maestro estava indisposto esta manhã. Não houve concerto.” Ele
tirou a máscara. “E assim tomei a liberdade de voltar mais cedo do que o costume.” O rosto
comprido, cinzento e sério de lorde Hurtmore enfrentou-os. Os amantes ficaram por um
momento sem fala. Lady Hurtmore levou a mão ao coração; ele tinha dado um pulo, e ela sentia
uma sensação horrível na boca do estômago. O pobre Giangolini ficara branco como sua
máscara de papel. Mesmo nesses dias de cicisbei, de cavalheiros amigos oficiais, havia casos
de maridos ultrajados e ciumentos recorrendo ao homicídio. Ele estava desarmado, e só Deus sabia que armas de destruição estavam escondidas sob aquela enigmática capa preta. Mas lorde
Hurtmore não fez nada brutal ou indigno. Grave e calmamente, como era seu costume, ele
caminhou até a mesa, pegou a caixa de joias, fechou-a com o maior cuidado e, dizendo “Minha
caixa, eu creio”, guardou-a no bolso e saiu do aposento. Os amantes foram deixados olhando
interrogativamente um para o outro.
Houve um silêncio.
— Que aconteceu depois? — perguntou o Senhor do Solar.
— O anticlímax — respondeu o sr. Bigger, sacudindo a cabeça tristemente. — Giangolini imaginara fugir com cinquenta mil cequins. Pensando um pouco melhor, lady Hurtmore não se
via muito à vontade com a ideia de amor numa cabana. O lugar da mulher, ela decidiu
finalmente, é em casa — com as joias da família. Mas lorde Hurtmore veria o assunto
exatamente sob o mesmo prisma? Essa era a questão, a questão alarmante, inquietante. Ela
resolveu ir ver por si própria. Chegou à casa bem na hora do jantar. “Sua Ilustríssima
Excelência está esperando na sala de jantar”, disse o mordomo. As portas altas foram abertas à
sua frente; ela entrou majestosa, de queixo erguido; mas com que terror na alma! Seu marido
estava postado junto à lareira. Adiantou-se para ir ao encontro dela. “Eu a estava esperando, madame”, disse, e levou-a a seu lugar. Foi a única referência que fez ao incidente. À tarde ele
mandara um empregado buscar o retrato no estúdio do pintor. Era parte da bagagem deles
quando, um mês depois, partiram para a Inglaterra. A história foi transmitida junto com o retrato
de uma geração para outra. Eu a ouvi de um velho amigo da família quando comprei o retrato no
ano passado.
O sr. Bigger jogou o cigarro na lareira. Orgulhava-se de ter contado a história muito bem.
— Muito interessante — disse o Senhor do Solar. — Realmente muito interessante.
Bastante histórico, não é? Não se pode dizer que Nell Gwynn ou Ana Bolena sejam melhores.
O sr. Bigger produziu um sorriso vago, distante. Estava pensando em Veneza — a condessa
russa hospedada em sua pensão, a árvore copada no pátio do lado de fora do seu quarto, o
perfume forte e quente que ela usava (fazia a pessoa prender a respiração ao senti-lo pela primeira vez) e os banhos no Lido, a gôndola e a cúpula do Salute de encontro ao céu nublado,
parecendo igual a quando Guardi a pintou. Como tudo parecia tão imensamente longe! Ele era
pouco mais que um menino então; tinha sido sua primeira grande aventura. Acordou de seus
devaneios com um susto.
O Senhor do Solar estava falando.
— Agora, quanto você quer pelo quadro? — perguntou ele. Seu tom era neutro, sem
preparação alguma; era uma peça rara demais para barganhar.
— Bem — disse o sr. Bigger, deixando com relutância a condessa russa, a Veneza paradisíaca de vinte e cinco anos antes. — Já pedi até mil por obras menos importantes que
esta. Mas não me importo de vendê-la por setecentos e cinquenta.
O Senhor do Solar assobiou.
— Setecentos e cinquenta? — repetiu. — É demais.
— Mas, meu caro cavalheiro — protestou o sr. Bigger —, pense no que teria de pagar por
um Rembrandt deste tamanho e qualidade: vinte mil pelo menos. Setecentos e cinquenta não é
demais. Pelo contrário, é muito pouco, considerando-se a importância do quadro que levará. O
senhor tem esclarecimento o bastante para ver que esta é uma bela obra de arte.
— Ah, não estou negando isso — disse o Senhor do Solar. — Tudo o que estou dizendo é
que setecentos e cinquenta é muito dinheiro. Uau! Ainda bem que minha filha desenha. Pense se
eu tivesse que enfeitar os quartos com pinturas a setecentos e cinquenta cada uma! — Ele riu.
O sr. Bigger sorriu.
— O senhor tem de se lembrar também de que está fazendo um bom investimento — disse.
— Os antigos venezianos estão subindo. Se eu tivesse um capital sobrando...
A porta abriu-se e a cabeça loura e ondulada da srta. Pratt assomou.
— O sr. Crowley quer saber se pode recebê-lo, sr. Bigger.
O sr. Bigger franziu a testa.
— Diga-lhe que espere — respondeu com irritação. Tossiu e voltou-se novamente para o
Senhor do Solar. — Se eu tivesse algum capital sobrando, ia colocá-lo todo em antigos
venezianos. Até o último centavo.
Enquanto dizia essas palavras, perguntou-se quantas vezes já dissera às pessoas que
colocaria todo o seu capital, se tivesse algum, em cubismo primitivo, escultura negra, gravuras
japonesas...
Finalmente o Senhor do Solar escreveu-lhe um cheque de seiscentos e oitenta.
— Você podia me arranjar uma cópia datilografada da história — pediu, enquanto punha o
chapéu. — Seria um bom caso para contar aos convidados durante o jantar, não acha? Eu
gostaria de ter os detalhes bem corretos.
— Ah, naturalmente, naturalmente — disse o sr. Bigger. — Os detalhes são
importantíssimos.
Levou o homenzinho roliço até a porta.
— Bom dia, bom dia.
O homem partiu.
Um rapaz alto e pálido, com costeletas, apareceu à porta. Seus olhos eram escuros e
melancólicos; sua expressão, sua aparência geral, eram românticas e ao mesmo tempo davam
um pouco de pena. Era o jovem Crowley, o pintor.
— Lamento tê-lo feito esperar — disse o sr. Bigger. — Por que queria me ver?
O sr. Crowley parecia constrangido, e hesitou. Como odiava ter de fazer esse tipo de
coisa!
— O fato é que estou terrivelmente sem dinheiro — disse afinal. — Imaginei que talvez o
senhor não se importasse, se lhe fosse conveniente, de me pagar por aquela coisa que fiz para o
senhor no outro dia. Lamento muito incomodá-lo assim.
— Não se preocupe, meu caro amigo. — O sr. Bigger tinha pena dessa criatura desgraçada
que não sabia como cuidar de si mesmo. O pobre jovem Crowley era indefeso como um bebê. — Quanto foi que combinamos?
— Vinte libras, acho que era — disse o sr. Crowley timidamente.
O sr. Bigger pegou sua carteira.
— Vamos dizer vinte e cinco — falou.
— Ah, não, realmente, eu não poderia. Muito obrigado. — O sr. Crowley ruborizou-se
como uma menina. — Imagino que não gostaria de fazer uma exposição com algumas de minhas
paisagens, não é? — perguntou, encorajado pelo ar de benevolência do sr. Bigger.
— Não, não. Nada de seu. — O sr. Bigger sacudiu a cabeça inexoravelmente. — Não há dinheiro em coisas modernas. Mas compro qualquer quantidade desses falsos Velhos Mestres
seus. — Tamborilou com os dedos no ombro pintado de lady Hurtmore. — Tente outro
veneziano — acrescentou. — Este aqui foi um grande sucesso.