Contos escolhidos
O meio-feriado
I
ERA SÁBADO À TARDE, e o tempo estava bom. À luz nevoenta do sol de primavera Londres entrevia-se
linda, como uma cidade de imaginação. Luzes douradas, sombras azuis e violetas. Com sua
esperança indefectível, as árvores fuliginosas do parque rebentavam em folhas; e o verde novo era incrivelmente vivo, leve e etéreo, como se as minúsculas folhas tivessem sido recortadas da
faixa esmeralda central de um arco-íris. O milagre, para todos os que caminhavam no parque
aquela tarde, era visível. O que fora morte ali revivia; e da fuligem brotava o verde de um arco-
íris. Sim, era visível. E, além disso, aqueles que percebiam essa mudança taumatúrgica da
morte para a vida estavam eles mesmos mudados. Havia algo contagioso no milagre primaveril.
Amando mais, os casais tranquilos sob as árvores estavam mais felizes — ou muito mais
agudamente infelizes. Homens corpulentos tiravam os chapéus, e enquanto o sol beijava suas
cabeças calvas eles tomavam resoluções — a respeito de uísque, a respeito da linda datilógrafa do escritório, a respeito de acordar cedo. Abordadas por rapazes bêbados da primavera, as
jovens consentiam, a despeito do que lhes diziam sua educação e temores, em ir passear.
Cavalheiros de meia-idade, passeando pelo parque em direção a suas casas, de repente sentiam
seus corações, cascudos e encardidos de negócios, desabrochando como essas árvores em
bondade e generosidade. Pensavam em suas esposas, pensavam nelas com súbita afeição,
apesar de vinte anos de casamento. “Tenho que parar no caminho de volta e comprar um
presentinho para a patroa”, diziam a si mesmos. Que poderia ser? Uma caixa de frutas
cristalizadas? Ela gostava de frutas cristalizadas. Ou um vaso de azaleias? Ou... E então lembravam-se de que era sábado de tarde. As lojas estariam quase todas fechadas. E pensavam,
suspirando, que provavelmente o coração da patroa também estaria fechado; pois a patroa não
tinha caminhado sob as árvores em botão. Assim é a vida, eles refletiam, olhando com tristeza
para os barcos no brilhante Serpentine, as crianças que brincavam, os namorados sentados de
mãos dadas na grama verde. Assim é a vida; quando o coração está aberto, as lojas geralmente
estão fechadas. Mas mesmo assim resolviam tentar, no futuro, controlar seus humores.
A exemplo do que se passava com todos os que entravam em sua zona de influência, o
alegre sol primaveril e as árvores em broto causavam profunda impressão em Peter Brett. Faziam-no sentir-se a um só tempo mais solitário e mais infeliz do que jamais se sentira. Em
contraste com a luminosidade à sua volta, sua alma parecia mais escura. Das árvores
rebentavam os brotos; ele permanecia morto. Os namorados passeavam aos pares; ele
caminhava sozinho. Apesar da primavera, apesar do sol, apesar do fato de que era sábado e o
dia seguinte seria domingo — ou melhor, por causa dessas coisas que deveriam fazê-lo tão feliz
e que realmente faziam felizes as outras pessoas — ele passava pelo milagre do Hyde Park
sentindo-se profundamente infeliz.
Como sempre, procurou conforto na imaginação. Por exemplo, uma linda criatura poderia
escorregar numa pedra bem na frente dele e torcer o tornozelo. Enorme e bonitão, Peter
acorreria para ministrar os primeiros socorros. Iria levá-la de táxi (ele teria dinheiro para pagá-lo) até a casa dela — em Grovesnor Square. Ele descobriria que ela era filha de um nobre. Eles
se amariam...
Ou então ele salvava uma criança que caíra no lago, ganhando, assim, a gratidão eterna, e
mais que a gratidão, de sua mãe viúva, rica e jovem. Sim, viúva; Peter fazia questão de frisar a
viuvez da mulher. Suas intenções eram estritamente honradas. Ainda era muito jovem e fora
bem-educado.
Ou então não havia um acidente preliminar. Ele apenas via uma moça sentada sozinha num
banco, parecendo muito solitária e triste. Ousado, porém cortês, ele se aproximava, tirava o chapéu, sorria. “Percebo que está sozinha”, dizia; e falava com elegância e desenvoltura, sem
um traço de seu sotaque de Lancashire, nem mesmo um vestígio dessa horrível gagueira que, na
vida real, lhe tornava a fala um tormento. “Percebo que está sozinha. Eu também. Posso me
sentar a seu lado?” Ela sorria, e ele se sentava. E então contava a ela que era órfão e que tudo o
que tinha era uma irmã casada que morava em Rochdale. E ela dizia: “Também sou órfã”. E isso
produzia uma grande ligação entre eles. E contavam um para o outro como eram infelizes. E ela
começava a chorar. E então ele dizia: “Não chore, você tem a mim”. E com isso ela se alegrava
um pouco. E então eles iam ao cinema. E finalmente, supunha, casavam-se. Mas essa parte da história era um pouco obscura.
Mas, é claro, nenhum acidente chegou a acontecer, e ele nunca teve coragem de dizer a
alguém como era solitário; e sua gagueira era horrível; e ele era baixinho, usava óculos e quase
sempre tinha espinhas no rosto; e seu terno cinzento escuro estava ficando puído e um tanto curto
nas mangas; e as botas, embora cuidadosamente engraxadas, pareciam tão baratas quanto
realmente eram.
Foram as botas que mataram seus devaneios nessa tarde. Caminhando de olhos baixos,
pensativo, ele tentava decidir o que diria à linda filha do nobre no táxi a caminho de Grovesnor Square, quando subitamente tomou consciência dos largos passos de suas botas, imiscuindo-se
negramente entre os fantasmas translúcidos de sua vida interior. Como eram feias! E como eram
tristemente diferentes daquelas botas elegantes, brilhantes e suntuosas que cobriam os pés dos
ricos! Elas já eram bastante feias quando novas; a idade as deixara verdadeiramente repulsivas.
Nenhuma fôrma conseguia corrigir os efeitos do uso, e o peito, logo acima da biqueira, era
profunda e medonhamente enrugado. Sob a graxa ele percebia uma rede de inúmeras rachaduras
no couro ressecado e de qualidade inferior. No lado externo da bota direita a biqueira descolara
e fora mal recosturada; o remendo era por demais visível. Gastos de tanto dar passagem aos cadarços, os furos tinham perdido seu esmalte preto e revelavam-se em sua nudez de cobre.
Ah, como eram horríveis, como eram nojentas suas botas! Mas teriam que durar ainda
muito tempo. Peter começou a refazer os cálculos que tantas vezes fizera. Se gastasse 3,5 pence
a menos todos os dias no almoço; se, com o tempo bom, ele caminhasse para o trabalho todas as
manhãs em vez de pegar o ônibus... Mas, por mais cuidadosa e por mais frequentemente que ele
fizesse seus cálculos, vinte e sete xelins e seis pence por semana continuavam sendo vinte e sete
e seis. Botas eram caras; e quando ele tivesse economizado o suficiente para comprar um par
novo, ainda havia o problema do terno. E para piorar as coisas era primavera; as folhas estavam brotando, o sol brilhava, e entre os casais enamorados ele caminhava sozinho. A realidade era
demais para ele nesse dia; não conseguia escapar. As botas perseguiam-no para onde quer que
tentasse fugir e arrastavam-no de volta à contemplação de sua infelicidade.
II
As duas moças saíram da trilha cheia de gente ao longo da margem do Serpentine e subiram a
colina por um caminho menor na direção da estátua de Watts. Peter seguiu-as. Um refinado
perfume pairava no ar atrás delas. Ele o respirou com desejo, e seu coração começou a bater com uma violência fora do comum. Elas lhe pareciam verdadeiros portentos, não seres
humanos. Eram tudo de lindo e inalcançável. Ele as encontrara caminhando lá embaixo, perto do
Serpentine, ficara fascinado por aquele vislumbre de uma beleza luxuosa e altiva e
imediatamente voltara-se para segui-las. Por quê? Ele próprio mal sabia. Simplesmente para
poder estar perto delas; e talvez com a esperança fantástica e incontrolável de que alguma coisa
pudesse acontecer, algum milagre que o projetasse em suas vidas.
Desejoso, aspirou o perfume delicado delas; com uma espécie de desespero, como se sua
vida dependesse disso, observou-as, estudou-as. Ambas eram altas. Uma delas usava um casaco de tecido cinzento, arrematado por pele cinza-escura; o casaco da outra era todo de pele; sabe-
se lá quantas raposas douradas não tinham sido assassinadas para que ela pudesse ficar
aquecida entre as sombras geladas dessa tarde de primavera. Uma delas usava meias cinzentas e
a outra cor de camurça. Uma caminhava em pelica, e a outra em couro de cobra. Os chapéus
eram pequenos e justos. Um pequeno buldogue francês preto acompanhava-as correndo, às
vezes junto a seus calcanhares, às vezes à frente delas. A coleira do cão era enfeitada com pele
de lobo malhado que se destacava como uma franja de pelos em volta de sua pequena cabeça
negra.
Peter caminhava tão perto delas que, quando estavam longe da multidão, conseguia ouvir
pedaços de sua conversa. Uma tinha a voz doce, a outra falava meio roucamente.
— Que homem maravilhoso! — dizia a voz rouca. — Realmente divino!
— Foi o que Elizabeth me contou — disse a de voz doce.
— E uma festa perfeita, também — continuou a Rouca. — Ele nos fez rir a noite inteira.
Todo mundo ficou meio tonto, também. Quando chegou a hora de ir embora, eu disse que ia
caminhar e tentar a sorte de encontrar um táxi no caminho. Foi então que ele me convidou para ir
procurar um táxi em seu coração. Ele disse que tinha muitos lá, todos desocupados.
Ambas riram. A conversa de um grupo de crianças que vinham de trás e passavam naquele
instante impediu que Peter ouvisse o que se disse a seguir. Interiormente ele amaldiçoou as
crianças. Demoniozinhos animalescos — estavam fazendo com que ele perdesse sua revelação.
E que revelação! De uma vida tão estranha, pouco familiar e extravagante! Os sonhos de Peter
sempre tinham sido idílicos e pastorais. Mesmo com a filha do nobre ele pretendia viver no
campo, uma vida sossegada e doméstica. O mundo no qual existem festas perfeitas onde todos
ficam meio tontos e homens divinos convidam jovens deusas para procurar táxis em seus
corações lhe era inteiramente desconhecido. Ele tivera um vislumbre desse mundo naquele momento; ficara fascinado com sua peculiaridade exótica e tropical. Toda a sua ambição era
agora entrar nesse mundo maravilhoso, envolver-se, de alguma forma e a todo custo, na vida dessas jovens deusas. E se agora ambas tropeçassem ao mesmo tempo naquela raiz protuberante
e torcessem os tornozelos. E se... Mas ambas passaram por cima dela em segurança. E então, de
repente, ele viu uma esperança — no buldogue.
O cachorro tinha deixado o caminho para farejar a base de um olmo que crescia a poucos
metros à direita. Tinha farejado, tinha rosnado, tinha deixado uma desafiadora lembrança de sua
visita e então, ameaçador, jogava terra e galhos com as patas traseiras contra a árvore, quando
um terrier irlandês amarelo apareceu e começou por sua vez a farejar, primeiro a árvore, depois
o buldogue. O buldogue parou suas investidas na terra e farejou o terrier. Cautelosamente os
dois animais andaram um ao redor do outro farejando e rosnando. Peter observou-os por um
momento com uma curiosidade lânguida e vaga. Sua mente estava alhures; ele mal via os dois
cachorros. Então, num clarão revelador, ocorreu-lhe que eles poderiam começar a brigar. Se brigassem, ele era um homem feito. Correria para separá-los, heroicamente. Podia até ser
mordido. Mas não importava. Na verdade, seria até melhor. Uma mordida poderia ser mais um
trunfo para a gratidão das deusas. Desejou ardentemente que os cachorros brigassem. A coisa
horrível seria se as deusas ou os donos do terrier amarelo percebessem e interferissem antes
que a briga pudesse começar. “Ah, Deus, não deixe que chamem os cachorros agora”, ele rezou
fervorosamente. “Mas deixe os cachorros brigarem. Em nome de Jesus Cristo. Amém.” Peter
tivera uma educação cristã.
As crianças tinham passado. As vozes das rainhas tornaram-se novamente audíveis.
— ... um chato tão horrível — dizia a de voz doce. — Não posso dar um passo sem
encontrá-lo. E ele não se manca. Eu lhe disse que odiava judeus, que o acho feio, estúpido, sem
tato, impertinente e chato. Mas parece que não faz a menor diferença.
— Você devia fazer com que ele fosse útil, pelo menos. — disse a Rouca.
— Ah, eu faço — afirmou a Doce.
— Já é alguma coisa.
— Alguma coisa — admitiu a Doce. — Mas não muito.
Houve uma pausa. “Ah, Deus, não deixe que elas vejam”, rezou Peter.
— Se pelo menos os homens entendessem que... — começou a Doce pensativamente.
Um barulho assustador de rosnados e latidos interrompeu-a violentamente. As duas moças
voltaram-se na direção de onde vinha o som.
— Pongo! — gritaram em coro, ansiosa e autoritariamente. E novamente, com mais
urgência: — Pongo!
Mas seus gritos eram vãos. Pongo e o terrier amarelo já estavam brigando com demasiada
fúria para prestar atenção.
— Pongo! Pongo!
— Benny! — gritavam também em vão a menininha e sua corpulenta babá. — Benny, venha
cá!
Chegara o momento, o apaixonadamente esperado, o precioso e significativo momento.
Exultante, Peter jogou-se sobre os cachorros.
— Afaste-se, seu bruto — gritou, chutando o terrier irlandês. Pois o terrier era o inimigo, e
o buldogue francês, o buldogue francês delas, o amigo a quem ele viera, como um dos deuses do
Olimpo na Ilíada, socorrer. — Afaste-se! — Em sua excitação esqueceu que era gago. A letra f
sempre lhe era difícil; mas ele conseguiu nessa ocasião gritar “Afaste-se!” sem um traço de hesitação. Agarrou os cachorros pelos tocos das caudas, pela pele do pescoço e tentou apartá-
los. De vez em quando ele chutava o terrier amarelo. Mas foi o buldogue que o mordeu. Ainda
mais estúpido que Ajax, o buldogue não conseguira entender que o imortal estava lutando do seu lado. Mas Peter não se ressentiu e, no calor do momento, quase não deu com a dor. O sangue
começou a escorrer de uma fileira de furos rasgados em sua mão esquerda.
— Ai! — gritou a Doce, como se fosse a sua mão que tivesse sido mordida.
— Tome cuidado — admoestou a Rouca ansiosamente. — Tome cuidado.
O som de suas vozes encorajou-o a outros esforços. Chutou e puxou com mais força; e
finalmente, por uma fração de segundo, conseguiu separar os animais furiosos. Por uma fração
de segundo nenhum cachorro tinha qualquer porção da anatomia do outro em sua boca. Peter
aproveitou a oportunidade, e pegando o buldogue francês pela pele solta na nuca ergueu-o, ainda latindo furiosamente, rosnando e lutando, no ar. O terrier amarelo ficou à sua frente,
latindo e de vez em quando saltando num esforço alucinado para morder as patas pretas
pendentes de seu inimigo. Mas Peter, com o gesto de Perseu erguendo a cabeça cortada da
Górgona, levantou o agitado Pongo para fora do perigo, estendendo o braço ao máximo. Com o
pé manteve o cachorro amarelo à distância; e a babá e a menininha, que a essa altura tinham
recuperado em parte sua presença de espírito, aproximaram-se do furioso animal por detrás e
conseguiram finalmente prender a guia na coleira. As quatro patas rigidamente plantadas
derrapando na grama, o terrier amarelo foi arrastado para longe à força bruta, ainda latindo, embora sem tanta potência — meio estrangulado que estava em seus esforços para escapar.
Suspenso quase dois metros acima do chão pela pele escura de seu pescoço, Pongo contorcia-se
em vão.
Peter voltou-se e aproximou-se das deusas. A Rouca tinha olhos apertados e uma boca
triste; era um rosto magro, de aparência trágica. A Doce era mais redonda, mais rosada e mais
branca, de olhos mais azuis. Peter olhou de uma para a outra e não conseguiu decidir qual era a
mais bonita.
Baixou o agitado Pongo.
“Aqui está seu cachorro” era o que ele queria dizer. Mas a beleza dessas criaturas
radiantes trouxe de volta de repente toda a sua timidez, e com ela sua gagueira.
— Aqui está seu... — começou, mas não conseguia pronunciar cachorro. C, para Peter, era
sempre uma letra difícil.
Para todas as palavras comuns que começavam com letras difíceis Peter tinha de prontidão
um estoque de sinônimos mais fáceis. Assim, ele sempre chamava os gatos de “bichanos”, não
por qualquer afetação de infantilidade, mas porque b era mais pronunciável do que o impossível
g. Carvão ele tinha que dizer na forma mais vaga de “lenha”. Detritos, para ele, eram sempre “sujeira”. Na descoberta de sinônimos ele tinha se tornado quase tão engenhoso quanto aqueles
poetas anglo-saxões que, usando a aliteração em vez de rimas, eram compelidos, em seus
esforços para fazer, digamos, o mar começar com a mesma letra de suas ondas ou suas espumas,
a chamá-lo “orgulho de Netuno” ou “estrada das baleias”. Mas Peter, que não podia permitir-se
a total licença poética de seus ancestrais saxões, às vezes era obrigado a soletrar as palavras
mais difíceis para as quais acontecia não existir um equivalente prosaico e conveniente. Assim,
nunca tinha muita certeza se devia chamar uma caneca de xícara ou c-a-n-e-c-a.
No momento presente, era a miserável palavrinha “cachorro” que o retinha. Peter tinha vários sinônimos para cachorro.
Se não tivesse problemas com f, poderia dizer “filhote”. Ou então, de modo entre
brincalhão e pseudo-heroico, um “mastim”. Mas a presença das duas deusas era tão emocionante que Peter achou tão desesperadamente impossível pronunciar um m quanto um c.
Hesitou dolorosamente, tentando pronunciar primeiro cachorro, depois filhote, depois mastim.
Seu rosto ficou muito vermelho. Ele estava angustiado.
— Aqui está seu bicho — conseguiu dizer afinal. A palavra, ele tinha consciência, era um
pouco imprópria para uma conversa elegante. Mas foi a única que saiu.
— Muitíssimo obrigada — disse a Doce.
— Você foi esplêndido, realmente esplêndido — asseverou a Rouca. — Mas acho que
você se feriu.
— Ah, não é n-nada — Peter declarou. E, enrolando o lenço em volta da mão mordida,
enfiou-a no bolso.
A Doce, enquanto isso, tinha prendido a ponta da correia à coleira de Pongo.
— Pode colocá-lo no chão agora — falou.
Peter fez o que ela mandava. O cachorrinho preto imediatamente saltou na direção de seu
inimigo que relutava em afastar-se. Chegou ao fim da corda com um solavanco que o deixou de
pé nas patas traseiras e o manteve, latindo, na posição de um leão rampante num escudo de
armas.
— Mas tem certeza de que não é nada? — insistiu a Rouca. — Deixe-me dar uma olhada.
Obedientemente Peter tirou o lenço e estendeu a mão. Parecia-lhe que tudo estava
acontecendo como ele esperava. Então percebeu com horror que suas unhas estavam sujas. Se
pelo menos, se pelo menos tivesse pensado em tomar banho antes de sair! Que é que pensariam
dele? Enrubescendo, tentou retirar a mão. Mas a Rouca segurou-a.
— Espere — disse ela. E acrescentou: — Foi uma mordida feia.
— Horrível — afirmou a Doce, que também estava inclinada sobre a mão dele. —
Lamento tanto que meu cachorro estúpido tenha...
— Você devia ir direto a uma farmácia — disse a Rouca, interrompendo-a — mandar
desinfetar e fazer um curativo.
Ergueu os olhos da mão para o rosto dele.
— Uma farmácia — ecoou a Doce, e também ergueu os olhos.
Peter olhou de uma para a outra, igualmente entontecido pelos olhos azuis arregalados e os
olhos verdes apertados e secretos. Sorriu vagamente e vagamente sacudiu a cabeça.
Discretamente enrolou a mão no lenço e escondeu-a.
— N-não foi n-nada — disse.
— Mas é preciso — insistiu a Rouca.
— É preciso — exclamou a Doce.
— N-nada — ele repetiu. Não queria ir a uma farmácia. Queria ficar com as deusas.
A Doce voltou-se para a Rouca.
— Qu’est-ce qu’on donne à ce petit bonhomme? — perguntou, falando muito depressa e
em voz baixa.
A Rouca sacudiu os ombros e fez uma pequena careta que sugeria incerteza.
— Il serait offensé, peut-être — sugeriu.
— Tu crois?
A Rouca lançou um olhar de soslaio ao objeto de sua discussão, avaliando-o criticamente
desde o chapéu de feltro barato até as botas baratas, do rosto pálido e manchado às mãos meio sujas, dos óculos de armação de aço à correia de couro do relógio. Peter viu que ela olhava
para ele e sorriu-lhe com vago e tímido arroubo. Como era linda! Perguntou-se o que estariam
cochichando. Talvez estivessem debatendo se deveriam convidá-lo para tomar chá. E assim que
essa ideia lhe ocorreu teve certeza de que era isso. Miraculosamente as coisas estavam
acontecendo como aconteciam em seus sonhos. Perguntou-se se teria coragem de lhes dizer —
nessa primeira vez — que elas poderiam procurar táxis em seu coração.
A Rouca voltou-se para a companheira. Mais uma vez sacudiu os ombros.
— Vraiment, je ne sais pas — sussurrou.
— Si on lui donnait une livre? — sugeriu a Doce.
A Rouca assentiu.
— Comme tu voudras. — E, enquanto a outra voltava-se para remexer discretamente a
bolsa, ela se dirigia a Peter.
— Você foi muitíssimo corajoso — disse, sorrindo.
Peter só conseguiu sacudir a cabeça, enrubescer e baixar os olhos diante daquele olhar
firme, seguro, frio. Desejava olhar para ela; mas quando estava pronto a fazê-lo, simplesmente
não conseguia manter os olhos firmemente fixos naqueles olhos decididos.
— Talvez você esteja acostumado com cachorros — continuou. — Você tem um?
— N-não — Peter conseguiu dizer.
— Ah, bem, isso o faz ainda mais corajoso — disse a Rouca. Então, percebendo que a
Doce tinha encontrado o dinheiro que procurava, ela pegou a mão do rapaz e sacudiu-a
calorosamente. — Estamos muitíssimo gratas a você. Nossa, estou até arrepiada! — repetiu. E
enquanto repetia perguntava-se por que usou a palavra arrepiada com tanta frequência.
Normalmente quase nunca a usava. De qualquer forma, parecia adequada, já que estava falando
com aquele sujeito. Ela sempre era calorosa, enfática e usava linguagem escolar quando tratava com classes inferiores.
— G-g-g... — começou Peter. Será que elas estavam indo embora, perguntou-se em agonia,
saindo subitamente de seu sonho confortável e rosado. Indo de fato embora, sem convidá-lo
para o chá ou dar-lhe seus endereços? Ele queria implorar-lhes para que ficassem mais um
pouco, para que deixassem que ele as visse novamente. Mas sabia que não conseguiria
pronunciar as palavras necessárias. Diante do adeus da Rouca ele se sentiu como um homem
que se vê sob a iminência de uma terrível catástrofe e nada pode fazer para impedi-la. — G-g...
— gaguejou baixinho. Mas encontrou-se apertando a mão da outra antes de ter terminado a despedida fatal.
— Você foi realmente esplêndido — disse a Doce, apertando-lhe a mão. — Realmente
esplêndido. Só precisa ir imediatamente a uma farmácia desinfetar a mordida. Adeus, e muito,
muito obrigada. — Enquanto dizia essas últimas palavras deixou uma nota de uma libra bem
dobrada na palma dele e com suas duas mãos fechou-lhe os dedos sobre ela. — Muito, muito
obrigada — repetiu.
Enrubescendo violentamente, Peter sacudiu a cabeça.
— N-n... — começou, e tentou fazer com que ela pegasse a nota de volta.
Mas ela apenas sorriu mais docemente.
— Sim, sim — insistiu. — Por favor. — E sem esperar para ouvir mais, voltou-se e correu
até a Rouca, que continuava a andar, subindo o caminho, levando o relutante Pongo, que ainda latia e forçava heraldicamente a guia.
— Bem, está tudo certo — disse, quando alcançou a companheira.
— Ele aceitou?
— Sim, sim — assentiu. Depois, mudando de tom: — Deixe-me ver... de que é que
estávamos falando quando este cachorro desgraçado nos interrompeu? — continuou.
— N-não — Peter conseguiu dizer finalmente. Mas ela já tinha lhe dado as costas e
afastava-se correndo. Ele deu alguns passos em seu encalço; depois estacou. Não adiantava. Se
tentasse explicar, apenas provocaria mais humilhações. Ora, poderiam até pensar, enquanto estava parado ali esforçando-se para dizer as palavras, que tinha corrido atrás delas para pedir
mais. Poderiam deixar outra libra em sua mão e fugir ainda mais depressa. Observou-as até
desaparecerem de vista, sobre o topo da colina; depois voltou na direção do Serpentine.
Em sua imaginação ele recriou a cena, não como tinha realmente acontecido, mas como
deveria ter acontecido. Quando a Doce deixou a nota em sua mão ele sorriu e devolveu-a
educadamente, dizendo: “Acho que você cometeu um erro. Um erro bem justificável, admito.
Pois pareço pobre, e na verdade sou pobre. Mas sou um cavalheiro, sabe? Meu pai era médico
em Rochdale. Minha mãe era filha de médico. Fui para uma boa escola até os dois morrerem. Eles se foram quando eu tinha dezesseis anos, com meses de diferença um do outro. Assim, tive
de ir trabalhar antes de terminar os estudos. Mas percebe que não posso aceitar seu dinheiro”. E
então, tornando-se mais galante, pessoal e confidencial, continuou: “Separei esses cachorros
horríveis porque queria fazer algo por você e sua amiga. Porque achei vocês lindas e
maravilhosas demais. De modo que mesmo que não fosse um cavalheiro eu não aceitaria seu
dinheiro”. A Doce ficou profundamente emocionada com esse pequeno discurso. Apertou a mão
dele e disse-lhe que lamentava muito. E ele a deixou à vontade assegurando-lhe que seu engano
era perfeitamente compreensível. E então ela perguntou se ele gostaria de ir com elas tomar uma xícara de chá. E desse ponto em diante os devaneios de Peter tornaram-se mais vagos e cor-de-
rosa, até que ele voltou ao velho sonho familiar da filha do nobre, da viúva agradecida e da órfã
solitária; apenas acontecia que dessa vez eram duas deusas, e seus rostos em vez de obscuras
criações da imaginação eram reais e definidos.
Mas ele sabia, mesmo no meio de seu sonho, que as coisas não tinham acontecido assim.
Sabia que ela fora embora antes que ele conseguisse dizer alguma coisa; e que mesmo que
tivesse corrido atrás delas e tentado apresentar sua explicação nunca o teria conseguido. Por
exemplo, ele teria de dizer que seu pai era “doutor”, não médico (d sendo mais fácil que m). E quando chegasse a hora de lhes dizer que os seus tinham morrido, teria de ter dito “perecido” o
que soaria pedante, como se ele estivesse tentando fazer uma piada. Não, não, a verdade tinha
de ser enfrentada. Ele aceitara o dinheiro, e elas tinham ido embora pensando que ele era só
algum vagabundo de rua, que se arriscara a uma mordida por uma boa gorjeta. Quanto a
convidá-lo para tomar chá e fazê-lo amigo delas...
Mas sua imaginação ainda estava ativa. Ocorreu-lhe que teria sido desnecessário dar
qualquer explicação. Poderia simplesmente ter forçado a nota de volta à mão dela, sem dar uma
palavra. Por que não o tinha feito? Precisava desculpar a si mesmo por sua omissão. Ela tinha se afastado rápido demais; essa era a razão.
E se ele tivesse caminhado na frente delas e ostensivamente dado o dinheiro ao primeiro
menino de rua que encontrasse? Uma boa ideia, essa. Infelizmente não tinha lhe ocorrido na hora.
Toda aquela tarde Peter caminhou pensando no que acontecera, imaginando alternativas
plausíveis e satisfatórias. Mas o tempo todo ele sabia que essas alternativas eram apenas
imaginárias. Às vezes a lembrança de sua humilhação era tão vívida que o fazia encolher-se e
estremecer.
A luz começou a cair. No crepúsculo cinzento e violáceo os namorados abraçavam-se com
mais força enquanto passeavam, apertavam-se ainda mais sob as árvores. Filas de lâmpadas
amarelas brotavam na escuridão crescente. Bem alto no céu pálido, um quarto de lua se fez visível. Ele se sentia mais infeliz e solitário que nunca.
A essa altura sua mão mordida doía muito. Ele saiu do parque e seguiu pela rua Oxford até
encontrar uma farmácia. Depois que a mão foi desinfetada e coberta com um curativo, ele entrou
numa casa de chá e pediu um ovo pochê, um pãozinho e uma caneca de moca, que teve de
traduzir para a garçonete como uma x-í-c-a-r-a de c-a-f-é.
“Parece-me que você pensa que sou um vagabundo ou um malandro.” Era isso que devia
ter dito a ela, indignado e orgulhoso. “Você me insultou. Se você fosse um homem, eu acabava
com você. Pegue seu dinheiro sujo.” Mas, refletiu, não podia esperar que elas se tornassem suas amigas depois disso. Pensando bem, decidiu que sua indignação de nada adiantaria.
— Machucou a mão? — perguntou-lhe simpaticamente a garçonete enquanto servia seu ovo
e sua caneca de moca.
Peter assentiu.
— Atacado p-por um c-c... um bicho. — A palavra saltou finalmente, explosivamente.
A lembrança do vexame fê-lo enrubescer enquanto falava. Sim, tinham-no tomado por um
malandro, tinham-no tratado como se ele na verdade não existisse, como se fosse apenas um
instrumento cujos serviços se contratava e ao qual, depois de pagar a conta, não se prestava mais atenção. A lembrança da humilhação era tão vívida, a percepção dela tão profunda e
completa que afetava não apenas sua mente mas também seu corpo. O coração batia com rapidez
e violência anormais; sentia-se enjoado. Foi com a maior dificuldade que conseguiu comer seu
ovo e beber sua caneca de moca.
Ainda recordando a dolorosa realidade, ainda construindo febrilmente suas alternativas
imaginárias, Peter deixou a casa de chá e, embora estivesse muito cansado, recomeçou suas
andanças sem rumo. Caminhou ao longo da rua Oxford até o Circus, desceu a rua Regent, parou
no Piccadilly para contemplar os luminosos que estremeciam epileticamente, subiu a avenida Shafsbury e, virando para o sul, avançou por suas laterais até o Strand.
Em uma rua perto do Covent Garden uma mulher esbarrou nele.
— Alegre-se, rapaz. Não fique tão triste — disse ela.
Peter olhou-a espantado. Seria possível que estivesse falando com ele? Uma mulher... seria
possível? Ele sabia, naturalmente, que ela era o que as pessoas chamavam de uma mulher
perdida. Mas o fato de que falasse com ele lhe parecia mesmo assim extraordinário; e ele não o
relacionou com sua “perdição”.
— Venha comigo — falou dengosa.
Peter assentiu. Não conseguia acreditar que era verdade. Ela o pegou pelo braço.
— Você tem dinheiro? — perguntou, ansiosa.
Ele tornou a assentir.
— Parece que você esteve num enterro — disse a mulher.
— Eu estou s-solitário — explicou. Sentia-se prestes a chorar. Chorar e ser consolado. A
voz tremia quando falou.
— Solitário? É engraçado. Um rapaz bonitão como você não tem por que ficar solitário. —
Ela riu de forma expressiva e sem alegria.
O quarto dela era penumbroso, com um toque de rosa na iluminação. Um cheiro de perfume
barato e roupa suja pairava no ar.
— Espere um instante — disse ela, e desapareceu por uma porta em um aposento oculto.
Ele sentou-se e esperou. Um minuto depois ela voltou, usando roupão e chinelos. Sentou-se
nos joelhos dele, abraçou-o e começou a beijá-lo.
— Amorzinho — falou com sua voz rachada. — Amorzinho. — Os olhos eram duros e
frios. O hálito rescendia a álcool. Vista de perto ela era indescritivelmente horrível.
Peter viu-a, parecia-lhe que pela primeira vez: viu e deu-se conta do que tinha diante de si.
Desviou o rosto. Lembrando-se da filha do nobre que torcera o tornozelo, da órfã solitária, da
viúva cujo filho caíra no lago; lembrando-se da Doce e da Rouca, desvencilhou-se dos braços
dela, empurrou-a para longe e pôs-se de pé.
— Desculpe — disse. — Tenho que s-s... Esqueci uma c-c... Eu... — Pegou o chapéu e se
encaminhou para a porta.
A mulher correu atrás dele e pegou-o pelo braço.
— Seu diabo — gritou. Seus insultos eram terríveis e sujos. — Convida uma garota e
depois tenta se mandar sem pagar. Ah, não vai não, não vai não. Você...
E os insultos recomeçaram.
Peter enfiou a mão no bolso e puxou a nota cuidadosamente dobrada da Doce.
— D-deixe-me ir — disse, entregando-lhe a nota.
Enquanto ela abria a nota, cheia de suspeitas, ele se afastou depressa, batendo a porta atrás
de si, e desceu correndo a escada escura para a rua.