Contos escolhidos

Aldous Huxley · Capítulo 2 de 23

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Contos escolhidos

Contos escolhidos

Felizes para sempre

 

I

 

NAS MELHORES CIRCUNSTÂNCIAS é longo o caminho entre Chicago e Blaybury, em Wiltshire, mas a guerra

instalou entre as duas cidades uma enorme distância. Parecia, portanto, um ato de singular

devoção da parte de Peter Jacobsen ter vindo do Meio Oeste, no quarto ano da guerra, para visitar seu velho amigo Petherton, uma vez que o projeto implicava um combate solitário contra

duas grandes potências a respeito de passaportes e o risco, depois que fossem obtidos, de

perecer miseravelmente no caminho, vítima de atrocidades.

À custa de muito tempo e mais complicações, Jacobsen finalmente chegara; o abismo entre

Chicago e Blaybury fora transposto. No vestíbulo da casa de Petherton encenou-se uma cena de

boas-vindas sob o olhar vago de seis ou sete retratos de família, marrons, feitos por mestres

desconhecidos dos séculos XVIII e XIX.

O velho Alfred Petherton, manta cinzenta nos ombros — pois precisava tomar cuidado, mesmo em junho, com correntes de ar e resfriados —, sacudia a mão de seu visitante com

interminável cordialidade.

— Meu menino — repetia ele —, é um imenso prazer vê-lo. Meu menino...

Jacobsen abandonou lânguido o antebraço e esperou com paciência.

— Nunca serei suficientemente grato — continuou o sr. Petherton —, nunca, por você ter

tido todo esse trabalho para vir visitar um velho decrépito; pois isso é tudo que sou agora, tudo,

acredite.

— Ora, eu lhe asseguro... — disse Jacobsen, em vago protesto. “Le vieux crétin qui pleurniche”, disse a si mesmo. O francês era uma língua maravilhosamente expressiva, com

certeza.

— Minha digestão e meu coração pioraram muito desde a última vez que o vi. Mas acho

que lhe disse isso em minhas cartas.

— Disse, sim, e fiquei mortificado ao saber.

“Mortificado” — que sabor curioso essa palavra tinha! Como o chá de alguém, que

costumava trazer à lembrança as misturas mais deliciosas de quarenta anos atrás. Mas era

decididamente o mot juste. Tinha um ar obituário muito apropriado.

— Sim, minhas palpitações estão muito ruins agora — continuou o sr. Petherton. — Não

estão, Marjorie? — ele recorreu à filha, parada a seu lado.

— As palpitações de papai estão muito ruins — ela respondeu, zelosa.

Era como se estivessem falando de alguma herança longa e amorosamente acalentada.

— E minha digestão... Essa enfermidade física torna tão difícil qualquer atividade mental.

Mesmo assim, ainda sou capaz de produzir algo útil. Mas vamos discutir isso mais tarde. Você

deve estar cansado e precisando de um banho depois dessa viagem. Vou levá-lo a seu quarto. Marjorie, você arranja alguém para subir com a bagagem?

— Eu mesmo posso fazer isso — disse Jacobsen, e ergueu uma pequena valise que tinha

deixado junto à porta.

— É só isso? — perguntou o sr. Petherton.

— Só.

Pautado pela razão, Jacobsen era contra possuir coisas. Era muito fácil se tornar escravo

das coisas, em vez de seu senhor. Ele gostava de ser livre; refreava seus instintos possessivos e

limitava suas posses ao estritamente essencial. Sentia-se tão pouco em casa em Blaybury quanto

em Pequim. Poderia ter explicado tudo isso, se quisesse. Mas no caso presente não valia a pena

o trabalho.

— Esta é sua humilde câmara — declarou o sr. Petherton, abrindo a porta do que era, na verdade, um belo quarto de hóspedes, com tecidos estampados, flores nos vasos e castiçais de

prata. — Pobre, mas seu.

Nobre delicadeza! Caro velhote! Citação oportuna.[1] Jacobsen desfez sua valise e arrumou

o que trazia com cuidado e método nas várias gavetas e prateleiras do armário.

 

Já se passavam muitos anos desde que Jacobsen fora, no decorrer de seu grand tour

educacional, a Oxford. Vivera alguns anos lá, pois gostava do lugar, e seus habitantes eram para

ele uma infalível fonte de divertimento.

Norueguês, nascido na Argentina, educado nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra;

um homem sem nacionalidade e sem preconceitos, deveras velho no que toca à experiência,

Jacobsen descobriu algo muito novo, leve e divertido nos estudantes seus colegas com suas

cômicas tradições de escola pública e sua fabulosa ignorância do mundo. Silenciosamente

observava-os em suas pequenas farras, sentindo o tempo todo que grades os separavam dele, e

ele devia, a cada truque particularmente divertido, oferecer-lhes um biscoito ou punhado de

amendoins. Nos intervalos de seus passeios nesse estranho e delicioso Jardin des Plantes ele lia

os Mestres, e foi através de Aristóteles que entrou em contato com Alfred Petherton, congregado e professor de sua universidade.

Petherton é um nome respeitável no mundo acadêmico. Você vai encontrá-lo na capa de

livros meritórios, embora não exatamente brilhantes, tais como Os predecessores de Platão,

Três metafísicos escoceses, Introdução ao estudo da ética, Ensaios sobre o neoidealismo.

Algumas de suas obras estão publicadas em edições baratas como livros didáticos.

Uma dessas curiosas e inexplicáveis amizades que com frequência unem as pessoas mais

improváveis surgira entre professor e aluno, e permanecera intacta por mais de vinte anos.

Petherton sentia uma afeição paternal pelo rapaz mais jovem, juntamente com um orgulho de pai, agora que Jacobsen desfrutava de reputação mundial, por ter, como acreditava, lhe dado berço

espiritual. E agora Jacobsen tinha viajado oito ou dez mil quilômetros atravessando um mundo

em guerra só para visitar o velho. Petherton ficou profundamente emocionado.

 

— Você viu algum submarino no caminho? — perguntou Marjorie, quando ela e Jacobsen

passeavam no jardim depois do café da manhã, no dia seguinte.

— Não percebi nenhum; mas sou muito desatento acerca dessas coisas.

Houve uma pausa. Finalmente:

— Imagino que sejam muitos os esforços de guerra na América agora — Marjorie comentou.

Jacobsen imaginava que sim; e sua mente fora acometida de uma visão de bandas marciais,

oradores com megafones, desenhos patrióticos no céu, ruas tornadas perigosas pelo roubo organizado dos que pediam dinheiro para a Cruz Vermelha. Ele era preguiçoso demais para

descrever tudo aquilo; além disso, ela não ia entender.

— Eu gostaria de poder fazer algum esforço de guerra — justificou-se Marjorie com

alguma frustração. — Mas tenho que tomar conta de papai e cuidar da casa, de modo que não

tenho mesmo tempo.

Jacobsen pensou detectar ali um discurso padrão para estranhos. Ela evidentemente queria

parecer correta aos olhos dos outros. O comentário sobre cuidar da casa fez Jacobsen pensar na

falecida sra. Petherton, mãe dela: tinha sido uma mulher bonita, esforçadamente jovial, com o desejo ardente de brilhar na comunidade acadêmica em Oxford. Descobria-se logo que era

aparentada com bispos e famílias proprietárias; uma caçadora de leões eclesiásticos e uma

esnobe. Ele sentiu-se alegre por ela já ter morrido.

— Não vai ser horrível quando não houver mais esforços de guerra? — comentou. — As

pessoas não vão ter o que pensar ou fazer quando vier a paz.

— Eu vou ficar contente. Tomar conta da casa vai ser muito mais fácil.

— Verdade. É sempre um consolo.

Marjorie olhou para ele com suspeita; não gostava que rissem dela. Que homenzinho insosso ele era! Baixo, corpulento, bigode castanho encerado e uma testa que a calvície

incipiente tornava interminavelmente alta. Parecia o tipo do homem a quem se diz: “Obrigado,

vou querer em notas e prata no valor de uma libra”. Havia bolsas sob seus olhos e bolsas sob

seu queixo, e nunca se podia adivinhar por sua expressão o que ele estava pensando. Ela ficou

contente por ser mais alta e poder olhar para ele de cima.

O sr. Petherton apareceu vindo da casa, a manta cinzenta nos ombros e as páginas ruidosas

do The Times aberto entre as mãos.

— Boa manhã! — exclamou.

Diante do entusiasmo shakespeariano desse cumprimento, Marjorie respondeu com a

geladíssima modernidade de seu “Bom-dia” moderno. O pai sempre dizia “Boa manhã” em vez

de “Bom-dia”, e esse fato a irritava com infalível regularidade todos os dias de sua vida.

— Há um relato interessantíssimo — informou o sr. Petherton — de um jovem piloto sobre

uma batalha aérea no jornal de hoje — e, enquanto caminhavam de uma ponta a outra da

alameda de cascalho, ele leu o artigo, que tinha uma coluna e meia de extensão.

Marjorie não se deu ao trabalho de disfarçar seu tédio, e ocupou-se lendo algo no outro

lado da página, entortando o pescoço para ver. — Muito interessante — disse Jacobsen quando a leitura terminou.

O sr. Petherton tinha virado a página e agora lia a Circular da Corte.

— Estou vendo — informou — que há alguém chamado Beryl Camberley-Belcher que vai

se casar. Sabe se é algum parente de Howard Camberley-Belcher, Marjorie?

— Não tenho ideia de quem seja Howard Camberley-Belcher — replicou Marjorie um

tanto rispidamente.

— Ah, pensei que soubesse. Deixe-me ver. Howard Camberley-Belcher fez faculdade

comigo. E ele tinha um irmão chamado James. Ou era William? E uma irmã que se casou com um dos Rider, ou pelo menos com um parente dos Rider; eu sei que os Camberley-Belcher e os

Rider tinham algo em comum em algum lugar. Meu Deus, acho que minha memória para nomes

está sumindo.

Marjorie entrou em casa para discutir com a cozinheira as estratégias e manobras

domésticas do dia. Ao acabar, retirou-se para sua sala de estar e destrancou sua escrivaninha

muito própria. Tinha que escrever para Guy nessa manhã. Marjorie conhecia Guy Lambourne

havia muitos anos, desde tempos quase imemoriais. Os Lambourne eram velhos amigos de

família dos Petherton; na verdade eram, embora distantes, parentes; eles “tinham algo em

comum em algum lugar”, como diria o sr. Petherton — em algum lugar, algumas gerações atrás.

Marjorie era dois anos mais nova que Guy; ambos eram filhos únicos; era natural que as

circunstâncias colaborassem em muito para aproximá-los. Então o pai de Guy morreu, e não muito depois, a mãe, e aos dezessete anos Guy fora morar com os Petherton, pois o velho era

seu tutor. E agora estavam noivos; isso mais ou menos desde o primeiro ano da guerra.

Marjorie pegou pena, tinta e papel. “CARO GUY”, começou (“Nós não somos sentimentais”,

ela certa vez comentara, com um misto de desprezo e inveja secreta, a uma amiga que lhe

confidenciara que ela e o noivo não começavam com algo menos que Querido). “Estou ansiando

por outra carta sua...” Ela recitou a costumeira ladainha de saudade. “Ontem foi aniversário de

papai; ele fez sessenta e cinco anos. Não suporto pensar que um dia você e eu seremos velhos

assim. Tia Ellen mandou-lhe um queijo Stilton — um presente útil em tempo de guerra. Como cuidar da casa é enfadonho! De tanto pensar em queijos, minha mente está rapidamente virando

um — um Gruyère, onde não há queijo, somente buracos, cheios de vácuo...”

Na verdade ela não se importava tanto em cuidar da casa. Encarava isso como coisa

natural e só fazia porque o trabalho estava lá para ser feito. Guy, pelo contrário, nunca encarava

coisa alguma como natural; ela fazia essas demonstrações para satisfazê-lo.

 

“Li as cartas de Keats, como você sugeriu, e achei-as muito lindas...”

Ao final de uma página de puro entusiasmo ela parou e mordeu a caneta. O que havia mais a dizer? Parecia absurdo ter de escrever cartas a respeito dos livros que lia. Mas não havia

mais coisa alguma sobre o que escrever; nada acontecia. Afinal, que é que tinha acontecido em

sua vida? A mãe morta quando ela tinha dezesseis anos; depois, a excitação de Guy ter vindo

morar com eles; depois, a guerra, embora isso não tivesse muita importância para ela; depois

Guy apaixonado, e o noivado deles. Na verdade, isso era tudo. Ela gostaria de poder escrever

sobre seus sentimentos de modo preciso, complicado, como as pessoas nos romances; mas

quando pensava nisso não parecia ter sentimentos para serem descritos.

Olhou para a última carta de Guy, enviada da França. “Às vezes”, escrevera, “sou torturado por um intenso desejo físico por você. Não consigo pensar em coisa alguma senão em

sua beleza, seu corpo jovem e forte. Detesto isso; tenho que lutar para reprimi-lo. Você me

perdoa?” Excitava-a o fato de que ele se sentisse assim a seu respeito: ele sempre fora tão frio,

tão reservado, tão oposto ao sentimentalismo — aos beijos e carinhos que ela, talvez,

secretamente tivesse apreciado. Mas ele tinha parecido tão correto quando dissera: “Temos que

nos amar como seres racionais, com nossas mentes, não com mãos e lábios”. Mesmo assim...

Ela mergulhou a pena na tinta e recomeçou a escrever. “Conheço os sentimentos de que

você falou em sua última carta. Às vezes sinto sua falta da mesma forma. Outra noite sonhei que tinha você em meus braços e acordei abraçada ao travesseiro.” Leu o que tinha escrito. Era horrível demais, vulgar demais! Precisava apagar aquilo. Mas não, deixaria, apesar de tudo, só

para ver o que ele ia pensar. Terminou depressa a carta, selou-a e lacrou-a e chamou a

empregada para levá-la ao correio. Depois que a empregada saiu, fechou a escrivaninha com força. Bang! A carta tinha ido, irrevogavelmente.

Pegou um livro volumoso que estava sobre a mesa e começou a ler. Era o primeiro volume

de Declínio e queda. Guy dissera que ela precisava ler Gibbon, que não seria culta até ter lido

Gibbon. Assim, na véspera ela procurara o pai na biblioteca para pegar o livro.

— Gibbon — tinha dito o pai. — Certamente, minha cara. Como é gostoso dar uma olhada

nesses grandes livros novamente. Sempre se encontra algo novo, todas as vezes.

Marjorie deu-lhe a entender que nunca o tinha lido. Sentia certo orgulho de sua ignorância.

O sr. Petherton entregou-lhe o primeiro dos onze volumes.

— Grande livro — ele murmurou. — Um livro essencial. Preenche a lacuna entre sua

história clássica e seu conhecimento medieval.

“Sua” história clássica, Marjorie repetiu consigo mesma, “sua” história clássica, claro! O

pai tinha a mania irritante de achar que ela sabia tudo, que a história clássica era tanto dela

quanto dele. Um ou dois dias antes virara-se para ela durante o almoço com um “você se

lembra, minha cara filha, se foi Pomponazzi quem negou a imortalidade pessoal da alma, ou se

foi aquele sujeito estranho, Laurentius Valla? Não estou conseguindo me lembrar agora”.

Marjorie perdeu a calma diante da pergunta — para o inocente espanto de seu pobre pai.

Pôs-se a trabalhar com energia em Gibbon; seu marcador de páginas registrava o fato de

que ela tinha percorrido cento e vinte e três páginas na véspera. Marjorie começou a ler. Parou

depois de duas páginas. Verificou o número de páginas a serem lidas — e aquele era apenas o

primeiro volume. Sentia-se como uma vespa preparando-se para o melhor de um vegetal. O

volume de Gibbon não diminuíra perceptivelmente com sua primeira picada. Era grande demais.

Ela fechou o livro e saiu para uma caminhada. Passando pela casa dos White, viu a amiga,

Beatrice White, sentada no jardim com os dois bebês. Beatrice cumprimentou-a, e ela entrou.

— Dá bolo, dá bolo — disse. Aos dez meses, o bebê John já tinha aprendido a arte de dar bolos. Ele deu um tapa na mão estendida oferecida a ele, e seu rostinho, redondo, macio e

rosado como um enorme pêssego, brilhou de prazer.

— Não é lindo? — exclamou Marjorie. — Sabe, tenho certeza de que ele cresceu desde

que o vi pela última vez, que foi na terça-feira.

— Ele engordou trezentos gramas na semana passada — anunciou Beatrice.

— Que maravilha! E o cabelo está nascendo lindo...

 

O dia seguinte era domingo. Jacobsen apareceu para o café da manhã com um terno preto, arrumadíssimo. Parecia, achou Marjorie, mais do que nunca um contador. Morria de vontade de

lhe dizer para se apressar, senão perderia o 8h53 pela segunda vez na semana, e o gerente ia

ficar zangado. A própria Marjorie não estava, e disso tinha uma vaga consciência, vestida com

suas melhores roupas de domingo.

— Qual é o nome do vigário? — inquiriu Jacobsen, enquanto se servia de bacon.

— Trubshaw. Luke Trubshaw, eu acho.

— Ele prega, bem?

— Não pregava quando eu costumava ouvi-lo. Mas não vou muito à igreja agora, de modo que não sei como ele anda hoje em dia.

— Por que você não vai à igreja? — inquiriu Jacobsen, com uma suavidade de tom que

dissimulava o fundo grosseiro da pergunta.

Marjorie sentiu a dor de saber-se ruborizar. Encheu-se de raiva contra Jacobsen.

— Porque — declarou com firmeza — não acho que seja necessário exprimir meus

sentimentos religiosos fazendo um monte de... — hesitou um momento — um monte de gestos

sem sentido junto com uma multidão de pessoas.

— Você costumava ir — disse Jacobsen.

— Quando era criança, e não tinha pensado nessas coisas.

Jacobsen ficou em silêncio e escondeu um sorriso na xícara de café. Realmente, disse a si

mesmo, deveria haver obrigatoriedade religiosa para as mulheres e para a maioria dos homens,

também. Era grotesco o modo como essas pessoas achavam que conseguiam aguentar sozinhas — os idiotas, embora houvesse a infinita autoridade da religião organizada para apoiar suas

ridículas fraquezas.

— Lambourne vai à igreja? — perguntou ele maliciosamente e com perfeito ar de

ingenuidade e boa-fé.

Marjorie ruborizou-se novamente, e uma nova onda de raiva cresceu dentro dela. No

momento em que dissera a frase, ela se perguntara se Jacobsen era capaz de perceber que as

palavras “gestos sem sentido” não soavam propriamente como criação sua. “Gestos” — essa

era uma das palavras de Guy, como “incrível”, “exacerbar”, “impingir”, “sinistro”. Claro que todas as suas opiniões atuais sobre religião vinham de Guy. Encarou Jacobsen com firmeza e

respondeu:

— Sim, acho que ele vai à igreja com bastante regularidade. Mas na verdade não sei; a

religião dele nada tem a ver comigo.

Jacobsen ficou absorto em prazer e admiração.

Pontualmente às 10h40, ele saiu para a igreja. De onde estava sentada, no gazebo, Marjorie

observou-o atravessar o jardim, incrivelmente absurdo e inadequado em suas roupas pretas

entre as flores brilhantes e o fresco esmeralda das árvores. Ele agora estava escondido atrás da cerca de sarça, todo menos o melão negro e duro de seu chapéu-coco saltitando entre os galhos

mais altos.

Ela continuou a carta para Guy. “... Que homem estranho é o sr. Jacobsen! Imagino que seja

muito inteligente, mas não consigo tirar muita coisa dele. Hoje, no café da manhã, tivemos uma

discussão sobre religião; acho que saí vitoriosa. Ele agora foi para a igreja sozinho; era-me

insuportável a ideia de ir com ele — espero que goste do sermão do velho sr. Trubshaw!”

Jacobsen gostou enormemente do sermão do sr. Trubshaw. Sempre fazia questão, estivesse

em qualquer parte da Cristandade, de assistir ao serviço religioso. Tinha uma enorme admiração pelas Igrejas como instituições. Em sua solidez e imutabilidade, ele via uma das poucas

esperanças para a humanidade. Mais ainda, ele sentia grande prazer em comparar a Igreja como

instituição — esplêndida, poderosa, eterna — com a imbecilidade infantil de seus

representantes. Como era delicioso sentar-se entre a congregação arrebanhada e ouvir a torrente

sincera de um intelecto apenas um pouquinho menos limitado do que o de um aborígine

australiano! Como era repousante sentir-se membro de um rebanho, guiado por um bom pastor

— ele próprio um carneiro! E havia também o interesse científico (ele ia à igreja como

estudante de antropologia, como um psicólogo freudiano) e o divertimento filosófico de contar os termos médios não distribuídos e tabular historicamente os sofismas já desmascarados no

discurso do pároco.

Hoje o sr. Trubshaw pregou um sermão alusivo à situação irlandesa. Seu evangelho era o do Morning Post, levemente temperado com cristianismo. Era nosso dever, disse ele, rezar

primeiramente pelos irlandeses, e se isso não tivesse efeito no recrutamento, ora, então temos

que forçá-los, com o mesmo zelo com que rezamos antes.

Jacobsen recostou-se no banco com um suspiro de contentamento. Um connaisseur, ele

reconhecia que aquilo estava ótimo.

— Bem — disse o sr. Petherton por sobre seu bife de domingo, ao almoço. — Gostou de

nosso estimado vigário?

— Ele estava esplêndido — afirmou Jacobsen, com grave entusiasmo. — Um dos melhores sermões que já ouvi.

— É mesmo? Terei de ir ouvi-lo de novo. Deve fazer quase dez anos desde que o escutei.

— Ele é inimitável.

Marjorie olhou com bastante atenção para Jacobsen. Ele parecia inteiramente sério. Mais

que nunca ela estava perplexa com aquele homem.

Os dias deslizavam, dias quentes e azuis que passavam como um clarão quase sem que

fossem notados, dias frios e cinzentos parecendo inúmeros e sem fim, e sobre os quais se

comentava com um ar de justa indignação, pois afinal era verão. Havia combates na França — batalhas terríveis, a julgar pelas manchetes em The Times; mas, afinal, o jornal de um dia era

bem parecido com o do outro. Marjorie lia-os com muito cuidado, mas honestamente não

aprendia muita coisa; pelo menos, esquecia-se logo das coisas. Não conseguia manter a

contagem das batalhas de Ypres, e quando alguém lhe disse que ela devia ir ver as fotografias

do Vindictive, sorriu vagamente e disse sim, sem se lembrar exatamente do que era o Vindictive

— um navio, imaginava.

Guy estava na França, naturalmente, mas ele agora era um oficial de informações, de modo

que ela quase não se preocupava com ele. Os clérigos costumavam dizer que a guerra estava nos trazendo a todos de volta a um sentido das realidades fundamentais da vida. Ela sentia que isso

era verdade; as ausências forçadas de Guy eram para ela um sofrimento, e as dificuldades de

manter a casa cresciam e multiplicavam-se continuamente.

O sr. Petherton demonstrava pela guerra um interesse mais qualificado do que a filha. Ele

se orgulhava de ser capaz de ver a coisa como um todo, de ver tudo isso com um olhar histórico

e divino. Falava sobre isso às refeições, insistindo que o mundo tinha que ser tornado seguro

para a democracia. Entre as refeições ele se sentava na biblioteca trabalhando em sua

monumental História da moral. Suas dissertações à hora do jantar eram ouvidas por Marjorie com alguma atenção e por Jacobsen com uma polidez infalível, brilhante, inteligente. O próprio

Jacobsen raramente empenhava comentários sobre a guerra; pressupunha-se que suas opiniões

eram exatamente como as de todos os que valia a pena ouvir. Entre as refeições ele trabalhava

em seu quarto ou discutia a moral da Renascença italiana com seu anfitrião. Marjorie poderia

muito bem escrever a Guy que nada acontecia, e que, se não fosse pela ausência dele e pelo

tempo interferindo tanto no tênis, ela estaria perfeitamente feliz.

No meio dessa placidez caiu, maravilhoso raio vindo do nada, a notícia de que Guy obteria

uma licença no final de julho. “QUERIDO”, escreveu Marjorie, “estou tão feliz de saber que você estará comigo em tão pouco... tão longo, longo tempo.” Realmente, ela estava tão agitada e feliz

que percebeu, em comparação e não sem uma pitada de remorso, quão pouco tinha pensado nele

quando parecia não haver oportunidade de vê-lo, quão vago ele era na ausência. Uma semana mais tarde ela soube que George White tinha conseguido uma licença na mesma época para

poder ver Guy. Ficou contente; George era um rapaz encantador, e Guy o apreciava muitíssimo.

Os White eram os vizinhos mais próximos, e desde que viera morar em Blaybury, Guy o via com

bastante frequência.

— Vai ser um grupo bem festivo — comentou o sr. Petherton. — Roger virá na mesma

época que Guy.

— Eu tinha esquecido o tio Roger — disse Marjorie. — Claro, as férias dele vão começar,

não vão?

O reverendo Roger era irmão de Alfred Petherton e professor em uma de nossas mais

gloriosas escolas públicas. Marjorie não concordava com o pai em que sua presença aumentaria

a “festividade” do grupo. Era uma pena que ele viesse nessa época em particular. No entanto,

todos temos nossa pequena cruz para carregar.

O sr. Petherton alegrava-se.

— Mandemos descer o melhor falerno para a ocasião, engarrafado nos idos em que

Gladstone era cônsul — disse ele. — Precisamos preparar coroas e unguentos e contratar um

flautista e algumas dançarinas...

Passou o resto da refeição citando Horácio, Catulo, a Antologia Grega, Petrônio e Sidônio

Apolinaris. O conhecimento de Marjorie a respeito das línguas mortas era decididamente

limitado. Seus pensamentos estavam em outra parte, e era apenas vagamente, como se através de

uma neblina, que ela ouvia o pai murmurando — se meramente consigo mesmo, ou com a

esperança de extrair uma resposta de alguém, ela não sabia:

— Deixe-me ver: como é aquele epigrama? Aquele sobre as diferentes espécies de peixes

e a guirlanda de rosas, de Meléagro, ou seria Posêidipo...?

 

II

 

Guy e Jacobsen passeavam no jardim holandês, uma dupla incongruente. Em Guy a servidão

militar não deixara marca visível; sem o uniforme, ele parecia um calouro alto e desarrumado;

continuava curvado como sempre; os cabelos ainda eram despenteados e, a julgar pela

expressão sombria de seu rosto, ainda não aprendera a pensar soberanamente. Seu uniforme cáqui sempre pareceu um disfarce, como a mais absurda das fantasias. Jacobsen trotava a seu

lado, baixo, gorducho, muito lustroso e correto. Conversavam desconexamente sobre assuntos

sem importância. Guy, ansioso por um pouco de exercício intelectual depois de tantos meses de

disciplina, tentara atrair seu companheiro para uma discussão filosófica. Jacobsen prontamente

fugiu a seus esforços; era preguiçoso demais para falar com seriedade; não era capaz de ver que

proveito obteria com as opiniões desse rapaz, e não tinha o menor desejo de arranjar um

discípulo. Preferia, portanto, discutir a guerra e o tempo. Irritava-o profundamente que as

pessoas quisessem invadir o domínio do pensamento — pessoas que não tinham o direito de viver em outro lugar além do plano vegetativo da mera existência. Gostaria que elas

simplesmente se contentassem em ser ou fazer, não tentar, tão inutilmente, pensar, enquanto apenas um em um milhão é capaz de pensar com um mínimo de proveito para si mesmo ou

qualquer outra pessoa.

Do canto dos olhos ele observou o rosto sensível e sombrio de seu companheiro: devia ter entrado nos negócios aos dezoito anos. Era o veredito de Jacobsen. Pensar lhe fazia mal; ele não

era suficientemente forte.

O som alto de latidos rompeu a calma do jardim. Olhando para cima, os dois viram George

White correndo pelo gramado verde da quadra de críquete com um enorme cão castanho

saltando a seu lado.

— Bom dia — gritou ele. Vinha sem chapéu e sem fôlego. — Estava levando Bella para

uma corrida, e resolvi passar e ver como iam as coisas por aqui.

— Que cachorro lindo — exclamou Jacobsen.

— Um velho mastim inglês, nosso único cachorro aborígene. O pedigree dela vai direto a

Eduardo, o Confessor.

Jacobsen deu início a uma animada conversa com George sobre as virtudes e defeitos dos

cães. Bella cheirou suas canelas e depois ergueu seus suaves olhos escuros para vê-lo. Parecia

satisfeita.

Guy observou-os por algum tempo; estavam absortos demais em sua conversa canina para

prestar atenção nele. Fez um gesto como se de repente tivesse se lembrado de algo, soltou um

grunhido e, com uma expressão muito preocupada no rosto, voltou-se para ir na direção da casa. Sua pequena, ainda que elaborada, encenação passou despercebida aos supostos espectadores;

Guy percebeu isso e sentiu-se mais infeliz, zangado e ciumento que nunca. Eles pensariam que

ele se afastara, discreto e constrangido, porque não era desejado — o que era bem verdade —

em vez de acreditar que tinha algo muito importante a fazer, que era o que queria que eles

acreditassem.

Uma nuvem de insegurança pairava sobre ele. Será que sua mente era, afinal, sem valor e

as coisinhas que ele escrevera, não a obra de um gênio potencial, como esperava, mas

bobagens? Jacobsen tinha razão em preferir a companhia de George. George era fisicamente perfeito, uma criatura esplêndida; que é que ele próprio podia pretender?

“Sou de segunda classe”, pensou, “de segunda classe, fisicamente, moralmente,

mentalmente. Jacobsen está certo.”

O melhor que podia esperar ser era um prosaico homem de letras com gostos modestos.

NÃO, não, não! Fechou as mãos em punho e, como se para registrar sua resolução diante do

universo, disse alto:

— Eu vou fazer isso; vou ser de primeira classe, eu vou.

Ficou coberto de vergonha ao ver um jardineiro surgir, surpreso, de trás de uma moita de rosas silvestres. Falando sozinho — o homem deve ter pensado que ele era louco!

Atravessou às pressas o gramado, entrou na casa e correu escada acima para seu quarto.

Não havia um segundo a perder; tinha que começar imediatamente. Escreveria algo — algo que

duraria, sólido, rijo, brilhante...

— Danem-se todos! Eu vou conseguir, eu posso...

Havia material de escrita e uma mesa em seu quarto. Escolheu uma pena — com uma pena

Relief ele poderia continuar durante horas sem se cansar — e uma folha de papel grande e

quadrada para escrever.

Hatch House,

Blaybury,

Wilts.

Estação: Cogham, 5 km; Nobes

Monacorum, 7 km.

 

As pessoas eram estúpidas em mandar imprimir seus papéis de carta em vermelho, quando

em preto ou azul era tão mais bonito! Passou tinta sobre as letras.

Ergueu o papel contra a luz; havia uma marca-d’água, “Pimlico Bond”. Que nome

admirável para o herói de um romance! Pimlico Bond...

 

Há car-ne na despen-sa

E paa-tos no lago;

Gritando la, la, la, la...

 

Mordeu a ponta da pena. “O que quero obter”, disse consigo mesmo, “é algo muito duro,

muito externo. Emoção intensa, mas de algum modo alguém terá saído dela.” Fez um movimento

de mãos, braços e ombros, contraindo os músculos num esforço para exprimir para si mesmo, fisicamente, dureza, contração e firmeza do estilo pelo qual estava lutando.

Começou a desenhar em seu papel virgem. Uma mulher nua, um braço erguido sobre a

cabeça de modo a levantar seu seio por aquele maravilhoso músculo curvo que desce do ombro.

A superfície interna das coxas, lembre-se, é ligeiramente côncava. Os pés, vistos de frente, são

sempre uma dificuldade.

Jamais poderia deixar aquilo por ali. O que pensariam os empregados? Transformou os

mamilos em olhos, desenhou linhas grossas para o nariz, a boca e o queixo, usando bastante

tinta; agora formava um rosto passável — embora um observador atento pudesse detectar a nudez original. Rasgou o desenho em pedaços pequenos.

Um estrondo crescente encheu a casa. Era o gongo. Olhou para o relógio. Hora do almoço,

e ele não fizera nada. Oh, Deus!...

 

III

 

Era hora do jantar na última noite de licença de Guy. A mesa de mogno sem toalha era como

uma tranquila poça de água marrom, em cujas profundezas as flores e o brilho de formas de

cristal e prata pendiam, vagamente refletidas. O sr. Petherton sentava-se à cabeceira da mesa,

ladeado pelo irmão Roger e Jacobsen. A juventude, representada por Marjorie, Guy e George

White, reunira-se na outra ponta. Chegavam ao estágio da sobremesa.

— Este Porto é excelente — declarou Roger tão lustroso e reluzente quanto um cob

irlandês[2] bem alimentado sob seu colete clerical de seda. Era um homem forte e atarracado de

uns cinquenta anos, com um pescoço vermelho tão grosso quanto a cabeça. Os cabelos eram cortados à feição militar; ele gostava de dar bom exemplo aos garotos, alguns dos quais

ostentavam tendências “estéticas” sofríveis e usavam cabelos longos.

— Fico contente por você gostar. Eu mesmo não posso beber, é claro. Tome outra taça. —

O rosto de Alfred Petherton tinha uma expressão de melancolia dispéptica. Desejava não ter comido tanto pato.

— Obrigado, aceito. — Roger pegou o frasco com um sorriso de satisfação. — O mestre-

escola fatigado merece sua segunda taça. White, você parece um tanto pálido; acho que deve tomar outro. — Roger tinha modos alegres e dados ao chiste, calculados para provar a seus

alunos que ele não fazia o tipo de padre encarquilhado.

Na ponta jovem da mesa, todos estavam bastante entretidos numa animada conversa.

Intimamente irritado por ter sido então interrompido em meio a ela, White voltou-se e lançou um

leve sorriso para Roger.

— Ora, obrigado, senhor — disse, e empurrou sua taça à frente, para ser enchida. O

“senhor” escapou sem querer; afinal, havia pouco tempo desde que fora estudante sob o domínio

de Roger.

— É preciso sorte — continuou Roger com seriedade — para conseguir vinho do Porto

hoje em dia. Sou grato por ter comprado dez dúzias dele de minha velha universidade há alguns

anos para guardar em minha adega, caso contrário, não sei o que faria. Meu vendedor de vinho

diz que não seria capaz de me arranjar uma única garrafa. Na verdade, ele quis comprar

algumas das minhas, caso as vendesse. Mas eu não quis. Hoje em dia, uma garrafa na adega vale

dez xelins no bolso. Sempre digo que o Porto se tornou uma necessidade, agora que se consegue

tão pouca carne. Lambourne! Você é o outro de nossos bravos defensores; merece uma segunda

taça.

— Não, obrigado — respondeu Guy, mal erguendo os olhos. — Já bebi o suficiente. —

Continuou a conversar com Marjorie, sobre as diferentes opiniões de russos e franceses a

respeito da vida.

Roger serviu-se de cerejas.

— É preciso escolhê-las com cuidado — comentou para proveito e instrução de George,

que ouvia de má vontade. — Nada dá tanta dor de barriga quanto cerejas verdes.

— Julgo que esteja feliz, sr. Petherton, pelo início das férias — disse Jacobsen.

— Feliz? Claro que sim! O fim dos cursos de verão nos deixa tão exaustos. Não é, White?

White tinha aproveitado a oportunidade para voltar-se novamente e ouvir a conversa de

Guy; ao ser chamado, como um cachorro de súbito atento a um aroma proibido, ele

obedientemente assentiu que se ficava muito cansado no final do trimestre de verão.

— Suponho que você ainda ensine as mesmas coisas de sempre — disse Jacobsen. —

César, versos latinos, gramática grega e o resto? Nós, americanos, não podemos acreditar que

isso ainda seja feito.

— Graças a Deus — fez Roger — ainda inculcamos coisas bem fundamentadas neles.

Ultimamente tem se feito muito alarde sobre novos currículos e coisas do gênero. Agora ministra-se muita ciência e coisas dessa espécie, mas não creio que as crianças aprendam

alguma coisa. É pura perda de tempo.

— Mas não seria esse o problema da educação em geral? — respondeu Jacobsen em tom

leve.

— Não, se você lhes ensina disciplina. Isso é que é necessário, disciplina. A maioria

desses menininhos precisa de uma bela palmatória, e hoje em dia não recebem o suficiente.

Além disso, se não se consegue enfiar conhecimento dentro da cabeça deles, pode-se pelo

menos aplicar umas belas palmadas em seus traseiros.

— Mas que fúria, Roger — disse o sr. Petherton, sorrindo. Sentia-se melhor; o pato estava

mais bem digerido.

— Não, é o mais importante. O melhor que a guerra nos trouxe foi a disciplina. O país estava ficando frouxo e precisava de um aperto. — O rosto de Roger brilhava de entusiasmo.

Da outra ponta da mesa ouviu-se a voz de Guy dizendo:

— Conhece o Dieu s’avance à travers la Lande, de César Franck? É uma das melhores

peças religiosas que conheço.

O rosto do sr. Petherton iluminou-se; ele se inclinou para a frente.

— Não — respondeu jogando inesperadamente sua resposta no meio da conversa dos

jovens. — Não conheço. Mas você conhece esta? Espere um minuto. — Franziu o sobrolho, e

seus lábios moveram-se como se estivesse tentando relembrar uma fórmula. — Ah, sim. Diga-me? Que nome de uma famosa peça religiosa pronuncio quando ordeno a um velho carpinteiro,

antigamente liberal, mas agora um renegado que aderiu ao conservadorismo, que marque o

gado?

Guy desistiu; seu tutor sorriu com agrado.

— Ora, Tory, oh! Judas! Marque os bois![3] — enunciou. — Entendeu? Oratório Judas

Macabeus!

Guy desejou que esse destroço da juventude patusca do sr. Petherton não tivesse assim

vindo dar com as ondas a seus pés. Sentia-se como se estivesse espionando indecentemente “o

abismo escuro e retrospectivo do tempo”.[4]

— Essa é boa — casquinou o sr. Petherton. — Vou ver se consigo lembrar outras.

Roger, que não era facilmente desviado de seu assunto favorito, esperou até que essa

irrelevante faísca de inconveniência expirasse para dizer:

— É notável como nunca se consegue unir a disciplina ao ensino de ciências ou de línguas

modernas. Quem já ouviu falar de um professor de ciências com uma boa turma? As turmas dos

cientistas são sempre ruins.

— Que estranho! — comentou Jacobsen.

— Estranho, porém verdadeiro. Parece-me um grande erro dar-lhes turmas, se eles não

conseguem manter a disciplina. E há a questão da religião. Alguns desses homens nunca vão à

capela, a não ser quando estão em serviço. Eu lhes pergunto, que acontece quando eles

preparam os meninos para a crisma? Ora, já me chegaram garotos que tinham sido preparados

por um desses homens, e com poucas perguntas eu constatava que eles não sabiam coisa alguma

sobre os aspectos mais fundamentais da Eucaristia. — Quer me passar mais dessas cerejas

ótimas, por favor, White? — Claro, nesses casos faço o possível para dizer aos meninos o que

pessoalmente sinto sobre a importância e profundidade dessas coisas. Mas geralmente não há tempo; a vida da gente é tão cheia... e eles vão para a crisma com uma vaga ideia do que se

trata. Vejam como é absurdo deixar uma pessoa que não é um educador tradicional cuidar da

vida dos meninos.

— Sacuda bastante, minha cara — o sr. Petherton instruía a filha, que chegara com o

remédio.

— O que é isso? — perguntou Roger.

— Ah, é só minha peptona. Não consigo fazer a digestão sem ela.

— Você tem todo o meu apoio moral. Meu pobre colega Flexner sofre de colite crônica.

Não consigo imaginar como ele continua a trabalhar.

— Pois é. Vejo que não consigo fazer nada que exija esforço.

Roger virou-se e mais uma vez dirigiu-se ao infeliz George.

— White, que isso seja uma lição para você. Cuide de seu interior; é o segredo de uma

velhice feliz.

Guy ergueu os olhos rapidamente.

— Não se preocupe com a velhice dele — falou, com voz estranha e ríspida, bem diferente

do tom gentil e elaboradamente modulado em que em geral falava. — Ele não vai ficar velho.

Suas chances de sobreviver são de três contra catorze, se a guerra durar mais um ano.

— Ora, não seja pessimista — fez Roger.

— Mas não estou sendo. Eu lhe asseguro, estou dando uma opinião muitíssimo otimista das chances de George chegar à velhice.

Sentia-se que os comentários de Guy tinham sido de mau gosto. Houve um silêncio; olhares

flutuavam sem rumo e pouco à vontade, tentando não encontrar uns com os outros. Roger abriu

ruidosamente uma noz. Depois de desfrutar o bastante da situação, Jacobsen mudou de assunto

comentando:

— Hoje de manhã nossos destróieres fizeram um belo trabalho, não foi?

— Ler aquilo me fez bem — declarou o sr. Petherton. — Tinha um toque de Nelson.

Roger ergueu a taça.

— Nelson! — exclamou, e esvaziou-a de um gole. — Que homem! Estou tentando

convencer o diretor a transformar o dia de Trafalgar em feriado. É a melhor maneira de lembrar

aos garotos coisas como aquela.

— Um inglês curiosamente atípico para ser herói nacional, não é? — comentou Jacobsen.

— Tão emocional, sem a fleuma britânica.

O reverendo Roger assumiu um ar grave.

— Há uma coisa que nunca consegui entender sobre Nelson: como é que um homem que

era o símbolo da honra e do patriotismo pôde ter sido... hum... imoral com Lady Hamilton. Conheço pessoas que dizem que era costume na época, que essas coisas não significavam nada

etc.; mas mesmo assim, repito, não dá para entender como um homem que era um inglês tão

intensamente patriota pôde ter feito uma coisa daquela.

— Não consigo entender o que o patriotismo tem a ver com isso — declarou Guy.

Roger fixou nele seu olhar mais pedagógico e declarou, lenta e gravemente:

— Então lamento por você. Não pensei que fosse necessário dizer a um inglês que a pureza

moral é uma tradição nacional; principalmente a você, um homem formado em escola pública.

— Vamos jogar uma partida de bilhar — convidou o sr. Petherton. — Você vem, Roger? E você, George, e Guy?

— Eu sou péssimo — insistiu Guy — e realmente preferia não ir.

— Eu também — declarou Jacobsen.

— Então, Marjorie, você vai ter que completar o quarteto.

Os jogadores de bilhar saíram; Guy e Jacobsen ficaram sozinhos, remoendo o desastre do

jantar. Houve um longo silêncio. Os dois homens fumavam. Guy, sentado numa postura bem

relaxada esparramado na cadeira como um saco pela metade, e Jacobsen bem ereto e sereno.

— Você aguenta facilmente os tolos? — perguntou Guy abruptamente.

— Com o maior prazer.

— Eu gostaria de aguentar. O reverendo Roger tem a tendência a fazer meu sangue ferver.

— Mas é uma boa alma — insistiu Jacobsen.

— Pode ser, mas não deixa de ser um monstro.

— Você devia ter mais calma com ele. Faço questão de nunca me deixar perturbar por

coisas não essenciais. Concentro-me em meus escritos e meus pensamentos. A verdade é bela, a

beleza é verdadeira, e assim por diante; afinal, são as únicas coisas de valor sólido. —

Jacobsen olhava para o rapaz com um sorriso enquanto dizia essas palavras. “Não resta

dúvida”, disse a si mesmo, “de que este rapaz devia ter entrado para os negócios; que grande

erro é essa educação refinada, meu deus.”

— Claro, são só coisas — exclamou Guy apaixonadamente. — Você pode dizer isso porque teve a sorte de ter nascido vinte anos antes que eu, e com quatro mil quilômetros de

águas profundas entre você e a Europa. E aqui estou, convocado para dedicar minha vida, de

modo muito diferente de como você dedica a sua à verdade e à beleza; dedicar a minha vida a...

bem, a quê? Não tenho certeza, mas mantenho uma fé comovente de que seja a algo bom. E você

me diz para ignorar as circunstâncias. Venha viver um pouquinho em Flandres, e tente... — E

lançou-se em um discurso sobre agonia, morte, sangue e putrefação. — Que é que se pode fazer?

— concluiu com desespero. — Que diabos é o certo? Eu pretendia passar minha vida

escrevendo e pensando, tentando criar algo belo ou descobrir algo verdadeiro. Mas não se deve, afinal, quando se sobrevive, desistir de tudo o mais e tentar transformar esse covil que é o

mundo em algo mais habitável?

— Acho que você pode se convencer de que um mundo que se deixou arrastar para essa

loucura criminosa é um mundo sem esperanças. Siga suas inclinações; ou, melhor ainda, entre

para um banco e ganhe muito dinheiro.

Guy explodiu em uma gargalhada, um tanto alta demais. — Incrível, incrível! — exclamou.

— Voltando a nosso velho assunto dos tolos: francamente, Jacobsen, não posso imaginar por que

você escolheu passar seu tempo com meu velho e caro tutor. É um senhor encantador, mas venhamos e convenhamos... — Fez um gesto amplo com as mãos.

— Temos que viver em algum lugar — disse Jacobsen. — Acho seu tutor uma companhia

interessantíssima. Ei, olhe para esse cachorro!

No tapete em frente à lareira, o pequeno pequinês de Marjorie, Confúcio, preparava-se

para deitar e dormir. Com todo o zelo, ele procedeu à circunspecta farsa de arranhar o chão,

como se estivesse preparando um ninho confortável para deitar. Girava e girava, arranhando

com diligência e método. Depois deitou-se, enrodilhou-se e adormeceu num piscar de olhos.

— Isso não é maravilhosamente humano? — exclamou Jacobsen, deliciado. Guy achou que agora podia ver por que Jacobsen gostava de morar com o sr. Petherton. O velho era tão

maravilhosamente humano...

 

Mais tarde, na mesma noite, terminada a partida de bilhar e tendo o sr. Petherton atentado

corretamente ao anacronismo de ensinar o jogo a Antônio e Cleópatra, Guy e Marjorie saíram

para um passeio no jardim. A lua erguera-se acima das árvores e iluminava a frente da casa com

sua brilhante luz pálida, incapaz de despertar as cores adormecidas do mundo.

— O luar é a luz arquitetônica adequada — declarou Guy, enquanto contemplavam a casa. A luz branca e as pesadas sombras negras destacavam toda a elegância de sua simetria

georgiana.[5]

— Veja, eis o espectro de uma rosa. — Marjorie tocou numa flor grande e fria, que se

adivinhava, mais do que se via, ser vermelha, um carmim lunar pálido e enganador. — E sinta o cheiro das flores do tabaco. Não é delicioso?

— Sempre pensei haver algo muito misterioso nos perfumes que pairam no escuro dessa

forma. Parecem vir de um mundo imaterial inteiramente diverso, povoado por sensações

incorpóreas, paixões fantasmagóricas. Pense no efeito espiritual do incenso numa igreja escura.

Não é de espantar que as pessoas tenham acreditado na existência da alma.

Continuaram a caminhar em silêncio. Às vezes, acidentalmente, a mão dele esbarrava na

dela no movimento da caminhada. Guy sentia uma intolerável sensação de expectativa, próxima

ao medo. Aquilo o deixava quase fisicamente doente.

— Você se lembra — perguntou abruptamente — daquelas férias de verão que nossas

famílias passaram juntas em Gales? Deve ter sido em 1904 ou 1905. Eu tinha dez anos e você,

oito, por aí.

— Claro que me lembro — exclamou Marjorie. — De tudo. Havia aquela divertida

ferrovia de brinquedo, pequenina, que vinha das pedreiras de ardósia.

— E você se lembra de nossa mina de ouro? Todas aquelas toneladas de metal férreo

amarelo que juntamos e escondemos numa caverna, acreditando piamente que eram pepitas.

Como parece incrivelmente distante!

— E você tinha um processo maravilhoso para testar se era ouro de verdade ou não. E

todas as pedras passaram triunfantemente no teste como genuínas, eu me lembro.

— Aquele segredo foi o que primeiro nos fez amigos, acho.

— Também acho — concordou Marjorie. — Há catorze anos, quanto tempo! E você

começou lá mesmo a me educar: tudo o que você me falou sobre mineração de ouro, por

exemplo.

— Catorze anos — repetiu Guy pensativo. — E amanhã vou embora de novo...

— Não fale nisso. Fico tão infeliz quando você está longe. — Ela realmente esqueceu o verão maravilhoso que tinha tido, a não ser pela falta de tênis.

— Temos que fazer desta a hora mais feliz de nossa vida. Talvez seja a última que teremos

juntos. — Guy olhou para a lua e percebeu, com um susto repentino, que ela era uma esfera

ilhada em uma noite sem-fim, não um disco plano grudado a uma parede não tão distante. Isso o

encheu de uma melancolia infinita; sentia-se por demais insignificante para viver.

— Guy, você não deve falar assim — pediu Marjorie.

— Temos doze horas — continuou Guy em voz pensativa. — Mas isso é só o tempo do

relógio. Pode-se dar a uma hora a qualidade de durar para sempre, e passar anos que são como se nunca tivessem existido. Alcançamos nossa imortalidade aqui e agora; é uma questão de

qualidade, não de quantidade. Não estou ansioso por harpas douradas ou coisas assim. Sei que,

quando estiver morto, estarei morto; não existe um depois. Se me matarem, minha imortalidade

estará na sua lembrança. Talvez, também, alguém vá ler as coisas que escrevi, e em sua mente

vou sobreviver, fraca e parcialmente. Mas em sua lembrança vou sobreviver intacto e inteiro.

— Tenho certeza de que vamos continuar vivendo depois da morte. Ela não pode ser o fim.

— Marjorie tinha consciência de ter ouvido essas palavras antes. Onde, ah, sim, era a sisuda

Evangeline que as dissera na sociedade de debates da escola.

— Eu não contaria com isso — replicou Guy com uma risadinha. — Você pode ter uma

decepção quando morrer. — Então, em voz alterada: — Não quero morrer. Odeio e temo a

morte. Mas provavelmente não vou ser morto, afinal. Mesmo assim... — Sua voz morreu. Entraram num túnel de escuridão impenetrável, entre duas altas sebes de carpa. Ele se reduzira

a uma voz, e esta também cessara; ele havia desaparecido. A voz recomeçou, baixa, rápida,

monótona, um pouco sem fôlego. — Eu me lembro de ter lido um poema de um dos velhos

trovadores provençais, dizendo que Deus certa vez lhe concedera a felicidade suprema; pois na

noite da véspera de partir para a Cruzada fora-lhe dado ter sua dama em seus braços... durante

toda uma breve noite eterna. Ainsi que j’aille outre-mer: quando eu ia para além-mar. — A voz

tornou a interromper-se. Estavam parados exatamente na boca da alameda de carpas, olhando,

de dentro daquele estreito rio de sombra, para um oceano de pálido luar.

— Como está quieto. — Eles não falavam; mal respiravam. Saturavam-se de quietude.

Marjorie rompeu o silêncio.

— Você me quer tanto assim, Guy? — Durante todo aquele longo e mudo minuto ela tentara

dizer essas palavras, repetindo-as para si mesma, ansiando por dizê-las em voz alta, mas

paralisada, sem conseguir. E finalmente as tinha dito, impessoalmente, como se pela boca de

outra pessoa. Ela ouviu-as muito distintamente e espantou-se com seu tom impassível.

A resposta de Guy tomou forma de pergunta.

— Bem, imagine se eu fosse morto agora — disse ele —, poderia dizer que realmente vivi?

Tinham saído da profundeza da trilha para o luar. Ela agora podia vê-lo claramente, e

havia nele algo tão choroso, tristonho e patético, ele parecia tanto uma criança supercrescida

que uma onda de apaixonada piedade percorreu-a, reforçando outras emoções menos maternais.

Ela ansiava por tomá-lo nos braços, acariciar seus cabelos, acalentá-lo, como a um bebê, para

que dormisse em seu peito. E Guy, por sua vez, desejava apenas entregar suas fadigas e

sensibilidades aos cuidados maternais dela, que ela beijasse depressa seus olhos, e ele assim

dormisse sob seus carinhos. Em suas relações com as mulheres — embora sua experiência nesse campo fosse deploravelmente pequena — ele tinha, a princípio inconscientemente, mas

mais tarde com a consciência do que estava fazendo, representado esse papel de criança. Em . momentos de autoanálise ria de si mesmo por “dar uma de criança”, como ele chamava. E ali

estava então — ainda não o tinha percebido — fazendo a mesma coisa, choroso, tristonho,

totalmente patético, frágil...

Marjorie foi dominada pela emoção. Iria se entregar a seu amante, apoderar-se de sua

criança indefesa e digna de piedade. Rodeou o pescoço dele com os braços, ergueu o rosto para

os beijos dele, sussurrou algo terno e inaudível.

Guy puxou-a para si e começou a beijar-lhe a boca macia e cálida. Tocou no braço despido que circundava seu pescoço; a carne era firme sob seus dedos; sentiu vontade de beliscá-la e

rasgá-la.

Tinha sido exatamente assim com aquela vagabundinha da Minnie. Exatamente assim — só

a horrível lascívia. Ele recordou um curioso fato fisiológico lido em Havelock Ellis.

Estremeceu, como se tivesse tocado numa coisa nojenta, e empurrou-a.

— Não, não, não. É horrível; odioso. Bêbado de luar, entregando-me a sentimentalismos

sobre a morte... Por que não dizer, com a franqueza bíblica, deite-se comigo, deite-se comigo?

Enchia-o de horror que esse amor, que era para ter sido tão maravilhoso, novo e bonito,

terminasse libidinosa e bestialmente como o caso, nunca recordado sem um arrepio de

vergonha, com Minnie (com a vulgaridade dela!).

Marjorie rompeu em lágrimas e afastou-se correndo, ferida e trêmula, para a solidão da

sombra das carpas. “Vá embora, vá embora”, soluçava, com tal intensidade de comando que

Guy, impulsionado por um remorso imediato e pela visão das lágrimas a abraçá-la e pedir

perdão, teve de deixá-la ir.

Uma calma fria e impessoal sucedera-se imediatamente à sua explosão. Examinou

criticamente o que tinha feito e achou, não sem certa satisfação, que tinha sido a maior

“mancada” de sua vida. Mas pelo menos a coisa estava feita e não podia ser desfeita. Ele sentiu

a felicidade do homem sem força de espírito diante da irrevocabilidade do ato. Percorreu os gramados de um lado para o outro, fumando um cigarro e pensando com clareza e calma —

lembrando o passado, questionando o futuro. Quando o cigarro terminou, entrou em casa.

Chegou ao salão de fumar para ouvir Roger dizer: “... são os pobres que estão bem agora.

Bastante comida, bastante dinheiro, sem pagar impostos. Nenhum imposto, isso é que dá nojo. O

jardineiro de Alfred, por exemplo. Ele ganha vinte e cinco ou trinta xelins por semana e tem uma

boa casa. É casado, mas só tem um filho. Um homem como ele está extraordinariamente bem.

Devia estar pagando imposto de renda; tem condições para isso”. O sr. Petherton ouvia

sonolento, Jacobsen com sua costumeira polidez atenta e inteligente; George brincava com o melancólico gatinho persa.

Tinha sido combinado que George dormiria lá, porque era desagradável ter de andar mais

de um quilômetro no escuro até em casa. Guy acompanhou-o até o quarto e sentou-se na cama

para um último cigarro, enquanto George se despia. Era a hora das confidências — aquele

momento meio perigoso em que a fadiga relaxa as fibras da mente, deixando-a pronta e boa para

os sentimentos.

— Fico tão deprimido — disse Guy — em pensar que você tem só vinte anos e eu já tenho

vinte e quatro. Você ainda vai ser jovem e bem-disposto quando a guerra terminar; eu serei um velho acabado.

— Nem tão velho assim — respondeu George, arrancando a camisa. Sua pele era muito

branca, e em comparação o rosto, o pescoço e as mãos pareciam de um marrom-escuro; havia

uma linha bem demarcada de bronzeado na garganta e nos pulsos.

— Fico horrorizado em pensar no tempo que se perde nessa maldita guerra, ficando-se

cada dia mais estúpido e grosseiro, sem conseguir coisa alguma. Serão cinco, seis, Deus sabe

quantos anos retirados da nossa vida. Você vai ter um mundo pela frente quando tudo terminar,

mas eu terei gasto minha melhor idade.

— Claro, para mim não faz tanta diferença — disse George através da espuma da pasta de

dentes. — Não sou capaz de fazer coisa alguma que preste. Na verdade dá no mesmo se eu

viver uma vida sem mácula como corretor de ações ou passar a vida sendo morto. Mas para

você, concordo, é violento demais...

Guy continuou a fumar em silêncio, a mente cheia de um ressentimento lânguido contra as

circunstâncias. George vestiu o pijama e esgueirou-se para dentro dos lençóis; teve que se

enrodilhar, porque Guy estava deitado de través na cama e ele não podia esticar as pernas.

— Imagino... — disse Guy finalmente, em tom pensativo. — Imagino que os únicos consolos são, afinal, mulheres e vinho. Realmente vou ter que recorrer a eles. Só que as

mulheres são na maioria tão profundamente chatas, e o vinho anda tão caro hoje em dia...

— Mas nem todas as mulheres! — George, era evidente, estava esperando para abrir o coração numa confidência.

— Suponho que você tenha encontrado as exceções.

George contou. Tinha acabado de passar seis meses em Chelsea — seis meses horríveis no

alojamento; mas tinha havido intervalos brilhantes entre os exercícios e os cursos especiais, que

ele tinha enchido com muitas viagens notáveis de descobertas por entre mundos desconhecidos.

E principalmente, um Colombo para sua própria alma, ele descobrira todas aquelas

potencialidades e aqueles detalhes que apenas as paixões trazem à luz. Nosce te ipsum,[6] era a

ordem; e um cultivo criterioso das paixões é um dos caminhos mais seguros para o autoconhecimento. Para George, que mal contava vinte anos, era tudo surpreendentemente novo

e excitante, e Guy escutava a história de suas aventuras com admiração e uma ponta de inveja.

Ele lamentava a castidade vergonhosa e enclausurada – rompida apenas uma vez, e com que

sordidez! Não teria aprendido muito mais, perguntava-se — não teria sido um ser humano

melhor e mais verdadeiro se tivesse tido as experiências de George? Teria aproveitado delas

muito mais do que George poderia. Havia o risco de que George se envolvesse num mero gasto

tolo de espírito, num desperdício de vergonha. Podia não ser um indivíduo suficientemente forte

para permanecer ele mesmo apesar do ambiente; sua mão iria se manchar com a tinta com a qual trabalhava. Guy tinha certeza de que ele próprio não teria corrido risco algum; teria vindo, visto

e vencido, e voltado intacto e ainda ele mesmo, porém enriquecido pelo espólio de um novo

conhecimento. Será que afinal ele errara? Será que a vida no claustro de sua própria filosofia

tinha sido inteiramente inaproveitável?

Olhou para George. Glorioso efebo que era, não surpreendia que as mulheres o

favorecessem.

“Com um rosto e um corpo como o meu”, pensou, “eu não poderia viver a vida dele,

mesmo que quisesse.” E riu consigo mesmo.

— Você precisa conhecê-la — dizia George com entusiasmo.

Guy sorriu.

— Não preciso, não. Deixe-me dar-lhe um belíssimo conselho. Nunca tente compartilhar

suas alegrias. As pessoas são solidárias na dor, mas não no prazer. Boa noite, George.

Inclinou-se sobre o travesseiro e beijou o rosto sorridente que era macio como o de uma

criança sob seus lábios.

Guy ficou um longo tempo acordado, e os olhos estavam secos e doloridos quando

finalmente o sono o alcançou. Passou aquelas horas escuras e intermináveis pensando — pensando muito, intensamente, dolorosamente. Assim que saíra do quarto de George, um

sentimento de intensa infelicidade o possuíra. “Deformado de sofrimento”, era como ele

descrevia a si mesmo; adorava forjar frases assim, pois sentia a necessidade do artista de

expressar-se, além de sentir e pensar. Distorcido de sofrimento ele foi para a cama; distorcido

de sofrimento ele deitou-se e pensou e pensou. Tinha, positivamente, uma sensação de

deformação física: seus intestinos estavam retorcidos, tinha as costas curvadas, as pernas

emaciadas...

Tinha o direito de estar infeliz. Voltaria para a França no dia seguinte, ferira violentamente o amor de sua amada e estava começando a duvidar de si mesmo, a perguntar-se se sua vida

inteira não teria sido uma ridícula loucura.

Passou sua vida em revista, como um homem prestes a morrer. Imaginava que se tivesse nascido em outra época teria sido religioso. Cedo livrara-se da religião, como do sarampo —

aos nove anos na Igreja Baixa,[7] aos doze como um liberal, e aos catorze agnóstico — mas ainda

conservava o temperamento de um homem religioso. Intelectualmente aproximava-se de

Voltaire, emocionalmente aderia a Bunyon. Ter chegado a essa fórmula era, ele sentia, inegável

progresso no sentido do autoconhecimento. E como tinha sido tolo com Marjorie! Sua postura

afetada — obrigando-a a ler Wordsworth quando ela não queria. Amor intelectual — suas frases

nem sempre eram uma bênção; como enganara a si mesmo com palavras! E agora, essa noite, a

mais rematada abominação, comportando-se com ela como um anacoreta histérico lidando com uma tentação. A essa lembrança seu corpo tremeu de vergonha.

Ocorreu-lhe uma ideia; iria vê-la, desceria a escada na ponta dos pés até o quarto dela, iria

ajoelhar-se junto à cama, pediria seu perdão. Ficou deitado imóvel, imaginando a cena inteira.

Chegou mesmo a levantar-se da cama, abrir a porta, que fez um ruído como o grito de um pavão,

e esgueirar-se até a beira da escada. Ficou ali um longo tempo, os pés cada vez mais frios, e

então resolveu que a aventura era na realidade por demais sordidamente parecida com o

episódio no início da Ressurreição de Tolstói. A porta tornou a gritar quando voltou; deitou-se

na cama, tentando convencer-se de que seu autocontrole tinha sido admirável e ao mesmo tempo maldizendo sua falta de coragem em não levar a cabo o que pretendia.

Lembrou-se de um discurso que certa vez fizera a Marjorie, sobre o Amor Sagrado e o

Profano. Pobre garota, como ela ouvira com paciência! Era capaz de vê-la, e ela trazia uma

expressão tão séria no rosto que parecia bem feia. Ela ficava tão bonita quando ria ou ficava

feliz; na casa dos White, por exemplo, três noites antes, quando George e ela dançaram depois

do jantar e ele ficou sentado, secretamente invejoso, lendo um livro no canto da sala e

ostentando um ar superior. Não aprenderia a dançar, mas sempre quis saber. Era uma ocupação

bárbara e afrodisíaca, ele dizia, e preferia gastar o tempo e as energias lendo. Novamente salvacionista! George mostrara-se uma pessoa muito mais sábia! Não tinha preconceitos nem

opiniões teóricas sobre a conduta da vida; apenas vivia, admiravelmente, naturalmente, como o

espírito, ou a carne, lhe ordenava. Se pelo menos pudesse tornar a viver sua vida, se ao menos

pudesse abolir a monstruosa estupidez dessa noite...

Marjorie também estava acordada. Ela também se sentia deformada de sofrimento. Como

ele tinha sido cruel, e como ela ansiava por perdoá-lo! Talvez ele viesse na escuridão, quando

toda a casa estivesse dormindo, entrando na ponta dos pés, em silêncio, para ajoelhar-se junto à

sua cama e pedir para ser perdoado. Ela se perguntava: será que ele viria? Fixou os olhos na escuridão acima e em volta dela, querendo que ele viesse, ordenando-o — zangada e infeliz

porque ele demorava tanto a vir, porque ele não viera. Antes das duas horas, ambos estavam

dormindo.

Sete horas de sono fazem uma diferença surpreendente no estado de espírito. Guy, que

pensava que estava deformado para o resto da vida, acordou e encontrou-se saudavelmente

normal. A raiva e o desespero de Marjorie tinham desaparecido. A hora que eles tiveram juntos,

entre o café da manhã e a partida de Guy, foi preenchida com conversas quase triviais. Guy

estava decidido a dizer algo sobre o incidente da véspera. Mas foi apenas no último momento, quando a carruagem já estava à porta, que ele conseguiu gaguejar um arrependimento pelo que

tinha acontecido na véspera.

— Não pense nisso — dissera-lhe Marjorie. Assim, beijaram-se e separaram-se, e suas relações continuaram precisamente as mesmas que tinham sido antes de Guy vir em licença.

 

George deu baixa uma ou duas semanas depois, e um mês depois disso soube-se em Blaybury

que ele perdera uma perna — felizmente, abaixo do joelho.

— Pobre rapaz! — exclamou o sr. Petherton. — Realmente preciso escrever para a mãe

dele sem demora.

Jacobsen não fez comentário algum, mas era para si próprio uma surpresa descobrir como

tinha ficado perturbado com a notícia. George White perdera uma perna; não conseguia tirar esse pensamento da cabeça. Mas apenas abaixo do joelho; podia ser chamado de sortudo.

“Sortudo — as coisas são deploravelmente relativas”, ele refletiu. Agradece-se a Deus porque

Ele achou apropriado privar uma de suas criaturas de um membro.

“E Ele também não se delicia com as pernas de qualquer homem”, hein? Nous avons

changé tout cela.

George perdera uma perna. Não haveria mais aquela velocidade, força e beleza olímpicas.

Jacobsen evocou em sua memória uma visão do rapaz correndo com seu grande cão castanho

através de grandes extensões verdes de grama. Como ele parecia radiante, os finos cabelos castanhos voando como fogo ao vento de sua própria velocidade, as faces vermelhas, os olhos

brilhantes. E com que facilidade corria, com passos longos e elásticos, baixando os olhos para

o cão que saltava e latia a seu lado!

Dele fora a perfeição, e agora ela estava estragada. Em lugar de uma perna ele tinha um

toco. Moignon, diziam os franceses; havia em moignon o tom repulsivo que faltava em “toco”.

Soignons le moignon en l’oignant d’oignons.

Com frequência, à noite, antes de dormir, ele não conseguia deixar de pensar em George,

na guerra e em todos os milhões de moignons que devia haver no mundo. Certa noite sonhara com nódulos vermelhos pegajosos, coisas que pareciam pólipos, que cresciam enquanto ele as

olhava, inchando entre suas mãos — moignons, na verdade.

No fim do outono George estava suficientemente bem para vir para casa. Tinha aprendido a

caminhar com as muletas com muita habilidade, e sua absurda cadeira de rodas puxada a

jumento logo se tornou um objeto familiar nas trilhas da vizinhança. Era uma incrível cena

quando George passava a trote, inclinando-se para a frente como um jovem Febo em sua

carruagem e apressando o animal preguiçoso com a voz e a muleta. Ele ia a Blaybury quase

todos os dias; Marjorie e ele conversavam infindavelmente sobre a vida e o amor, Guy e outros assuntos interessantes. Com Jacobsen ele jogava piquê e discutia mil assuntos. Estava sempre

alegre e feliz — e era especialmente isso que cortava de pena o coração de Jacobsen.

 

IV

 

Tinham começado as férias de Natal e o reverendo Roger estava de volta a Blaybury. Estava sentado à escrivaninha na sala de estar, ocupado então em morder a ponta da pena e coçar a

cabeça. Seu rosto ostentava uma expressão de perplexidade; podia-se dizer que estava no paroxismo da composição literária. E realmente estava. “Amado pupilo de Alfred Petherton...”,

disse alto. “Amado pupilo”... Sacudiu a cabeça, em dúvida.

A porta abriu-se e Jacobsen entrou no aposento. Roger voltou-se imediatamente.

— Já ouviu a triste notícia? — perguntou.

— Não. Que é?

— O pobre Guy está morto. Recebemos um telegrama há meia hora.

— Meu Deus! — disse Jacobsen em voz dolorida, que parecia mostrar que ele tinha sido

arrojado para longe da calma que possui aquele que leva a vida da razão. Desde a mutilação de

George ele estava consciente de que suas defesas estavam mais fracas; as circunstâncias

externas estavam marchando resolutas sobre ele. Agora elas o tinham invadido e, no momento,

ele estava à sua mercê. Guy morto... Controlou-se o suficiente para dizer, depois de uma pausa:

— Bem, imagino que era de se esperar, mais cedo ou mais tarde. Pobre rapaz.

— É, é horrível, não é? — disse Roger, sacudindo a cabeça. — Estou escrevendo o

anúncio para mandar ao The Times. Não se pode dizer “o amado pupilo de Alfred Petherton”,

não é? Não soa muito bem; no entanto, seria bom dar expressão pública, de alguma forma, à

profunda afeição que Alfred sentia por ele. “Amado pupilo”... Não, decididamente não serve.

— Você vai ter que dar um jeito — disse Jacobsen. A presença de Roger de certo modo

tornava mais fácil voltar à vida da razão.

— Pobre Alfred — continuou o outro. — Você não tem ideia de como ele recebeu mal a notícia. Foi como se tivesse perdido um filho.

— Que desperdício! — exclamou Jacobsen. Sua emoção era profunda demais.

— Fiz o possível para consolar Alfred. Deve-se ter sempre em mente por que causa ele

morreu.

— Toda aquela potencialidade destruída! Ele era um sujeito capaz, o Guy. — Jacobsen

falava mais consigo mesmo que com o outro, mas Roger aceitou a sugestão.

— Era mesmo. Alfred achava que ele prometia muito. É principalmente por causa dele que

lamento. Nunca me dei muito bem com o rapaz. Era excêntrico demais para o meu gosto. Pode-se ser inteligente demais, não? É um tanto desumano. Ele costumava fazer os iambos gregos

mais notáveis quando garoto. Imagino que fosse um sujeito muito bom, debaixo de toda aquela

inteligência e estranheza. É tudo muito triste, muito lamentável.

— Como foi que ele morreu?

— Morreu em consequência de ferimentos, ontem de manhã. Acha que seria bom colocar

uma citação qualquer no final do anúncio no jornal? Algo como Dulce et Decorum, ou Sed

Miles, Sed Pro Patria, ou Per Ardua ad Astra?

— Não me parece importante — opinou Jacobsen.

— Talvez não. — Os lábios de Roger moveram-se silenciosamente; ele estava contando.

— Quarenta e duas palavras. Imagino que isso dê oito linhas. Pobre Marjorie! Espero que ela

não fique muito amargurada. Alfred me disse que eles estavam noivos não oficialmente.

— Foi o que entendi.

— Acho que vou ter de dar a notícia a ela. Alfred está perturbado demais para fazer

qualquer coisa. Vai ser uma tarefa dolorosíssima. Pobre moça! Imagino que, na verdade, eles

não conseguiriam se casar tão cedo, pois Guy quase não tinha dinheiro. Esses casamentos

apressados são perigosos. Deixe-me ver: oito vezes três xelins dá uma libra e quatro xelins, não é? Imagino que eles aceitem cheques sem problemas.

— Quantos anos ele tinha? — Jacobsen perguntou.

— Vinte e quatro e alguns meses.

Jacobsen caminhava inquieto de um lado para o outro do aposento.

— Mal chegando à maturidade! Hoje em dia temos de ser gratos por termos nosso próprio

trabalho e nossos pensamentos para nos distrair desses horrores.

— É terrível, não é? Terrível. Foram tantos os meus alunos mortos que já perdi a conta.

Alguém bateu na janela francesa que dava para o jardim; era Marjorie pedindo para entrar.

Ela cortara hera e azevinho para a decoração de Natal e carregava uma cesta cheia de folhas

escuras e brilhantes.

Jacobsen destrancou a janela e Marjorie entrou, sorridente e ruborizada pelo frio. Jacobsen nunca a tinha visto tão bonita: ela estava esplendorosa, radiante, como Ifigênia entrando vestida

de noiva para o sacrifício.

— Há muito pouco azevinho este ano — comentou ela. — Acho que nossa decoração de

Natal não vai ficar tão linda desta vez.

Jacobsen aproveitou a oportunidade para esgueirar-se pela janela francesa em direção ao

jardim. Embora estivesse desagradavelmente frio, ele caminhou de uma ponta à outra dos

caminhos pavimentados do jardim holandês, sem chapéu e sem casaco, durante muito tempo.

Marjorie movimentava-se pela sala, colocando galhos de azevinho em volta das molduras dos quadros. Hesitando em falar, o tio a observava; ele se sentia completamente desconfortável.

— Infelizmente — disse afinal — seu pai está muito perturbado hoje. — A voz era rouca;

ele fez um ruído explosivo para limpar a garganta.

— São as palpitações? — Marjorie perguntou friamente; as enfermidades do pai não lhe

causavam muita ansiedade.

— Não, não. — Roger percebeu que sua jogada de abertura fora um erro. — Não. É...

hum... mais uma aflição mental, e temo que vá perturbar você também. Marjorie, você tem de

ser forte e corajosa; acabamos de saber que Guy está morto.

— Guy morto? — Ela não conseguia acreditar; mal imaginara a possibilidade; além disso,

ele fazia serviço de escritório. — Oh, tio Roger, não é verdade.

— Infelizmente não há dúvida. O telegrama do Ministério da Guerra chegou logo que você

saiu para buscar o azevinho.

Marjorie sentou-se no sofá e escondeu o rosto nas mãos. Guy morto; jamais o veria de

novo, jamais o veria de novo, jamais; começou a chorar.

Roger aproximou-se e parou com a mão no ombro dela, postando-se como um leitor de

pensamentos. Para aqueles dominados pelo sofrimento o toque de uma mão amiga é com frequência reconfortante. Eles caíram num abismo, e o toque da mão serve para lembrar-lhes

que a vida, Deus e a solidariedade humana ainda existem, por mais profundo que o abismo da

dor possa parecer. No ombro de Marjorie a mão de seu tio descansava com um calor úmido e

pesado que lhe era estranhamente desagradável.

— Querida criança, é muito triste, eu sei; mas você precisa tentar ser forte e aguentar

firme. Todos temos nossa cruz para carregar. Dentro de dois dias estaremos comemorando o

nascimento de Cristo; lembre-se com que paciência Ele recebeu a taça de agonia. E também

lembre-se por que causa Guy deu a vida. Ele teve a morte de um herói, a morte de um mártir, dando testemunho do Céu contra as forças do mal — sem o perceber Roger apelava às palavras

de seu último sermão na capela da escola. — Você deve sentir orgulho pela morte dele, além da

dor. Portanto, pronto, querida criança. — Deu-lhe uns tapinhas no ombro. — Talvez fosse melhor deixá-la agora.

Por algum tempo, depois da saída do tio, Marjorie ficou sentada imóvel, o corpo dobrado

para a frente, o rosto entre as mãos. Repetia sem cessar as palavras “nunca mais”, e o som delas

encheu-a de desespero e fê-la chorar. Elas pareciam desvendar uma paisagem sombria, cinzenta

e infinita: “nunca mais”. Eram um feitiço que evocava lágrimas.

Levantou-se finalmente e começou a caminhar sem rumo pela sala. Parou diante de um

pequeno espelho antigo emoldurado em preto, pendurado junto à janela, e contemplou seu

reflexo. De certo modo esperara estar com a aparência diferente, transformada. Surpreendeu-se ao ver seu rosto inteiramente inalterado: grave, melancólico talvez, mas ainda assim o mesmo

rosto que ela tinha visto quando se penteava de manhã. Uma ideia curiosa passou-lhe pela

cabeça; ela se perguntou se seria capaz de sorrir agora, nesse momento terrível. Movimentou os

músculos do rosto e ficou cheia de vergonha diante da visão do sorriso sem alegria que

zombava dela no espelho. Como era estúpida e insensível! Explodiu em lágrimas e tornou a

jogar-se no sofá, enterrando o rosto numa almofada. A porta abriu-se, e pelo ruído Marjorie

reconheceu a aproximação de George White em suas muletas. Ela não ergueu os olhos. Diante

da figura em frangalhos no sofá, George parou, sem saber o que fazer. Deveria ir embora silenciosamente ou ficar e tentar dizer algo consolador? A visão da moça ali deitada dava-lhe

uma dor quase física. Resolveu ficar.

Aproximou-se do sofá e parou acima dela, equilibrado em suas muletas. Ela não ergueu a

cabeça, mas apertou mais o rosto contra a escuridão sufocante da almofada, como se para fechar

sua consciência a todo o mundo exterior. George contemplava-a em silêncio. Os cachinhos

delicados que apareciam na nuca da jovem eram maravilhosamente bonitos.

— Eu já soube — disse ele finalmente. — Agora mesmo, quando cheguei. É horrível

demais. Acho que gostava mais de Guy do que de qualquer outra pessoa no mundo. Nós dois, não é?

Ela recomeçou a soluçar. George ficou tomado de remorso sentindo que de alguma forma a

tinha ferido, de alguma forma tinha aumentado a dor dela com o que tinha dito.

“Pobre criança, pobre criança”, disse ele, quase alto. Ela era um ano mais velha que ele,

mas parecia indefesa e pateticamente jovem, agora que estava chorando.

Ficar muito tempo de pé fatigava-o, e ele baixou o corpo, lenta e dolorosamente, para

sentar-se no sofá ao lado dela. Ela finalmente ergueu o rosto e começou a enxugar os olhos.

— Estou tão infeliz, George, principalmente porque sinto que não agi direito com o querido Guy. Houve ocasiões, sabe, em que eu me perguntava se não era tudo um grande erro

estarmos noivos. Às vezes eu sentia que quase o odiava. Nessas últimas semanas senti tanta

raiva dele. E agora vem isso, e me faz perceber como fui horrível com ele. — Ela sentia alívio

em contar e confessar; George era tão solidário, ele compreenderia. — Agi como um animal.

Sua voz morreu, e foi como se alguma coisa se partisse na cabeça de George. Ele estava

dominado pela piedade; não podia suportar que ela sofresse.

— Você não deve se perturbar em excesso, querida Marjorie — ele implorou, acariciando

as costas da mão dela com sua palma enorme e áspera. — Não faça isso.

Marjorie continuou, impiedosamente.

— Quando tio Roger me contou, agora mesmo, sabe o que eu fiz? Eu me perguntei: será

que me importo mesmo? Não consegui saber. Olhei no espelho para ver se meu rosto me respondia. Então de repente resolvi ver se conseguia rir, e consegui. E isso me fez sentir como

sou detestável, e comecei a chorar de novo. Ah, eu sou um animal, George, não sou?

Ela explodiu em lágrimas apaixonadas e mais uma vez escondeu o rosto na almofada

amiga. George não conseguiu suportar aquilo. Colocou a mão no ombro dela e inclinou-se para

a frente, perto dela, até o rosto quase tocar-lhe os cabelos.

— Não — exclamou. — Não, Marjorie. Você não pode se atormentar assim. Sei que você

amava Guy; nós dois o amávamos. Ele gostaria que fôssemos felizes e corajosos e que nossa

vida continuasse, e não que fizéssemos da morte dele uma fonte de desespero. — Houve um silêncio, rompido apenas pelo som desesperado dos soluços dela. — Marjorie, querida, você

não deve chorar.

— Pronto, não estou chorando — disse Marjorie através das lágrimas. — Vou tentar parar.

Guy não ia querer que chorássemos por ele. Você tem razão; ele iria querer que vivêssemos por

ele, com dignidade, à sua maneira esplêndida.

— Nós que o conhecemos e o amamos devemos fazer de nossas vidas a celebração de sua

memória. — Em circunstâncias comuns, George preferia morrer a fazer um comentário desses.

Mas ao falar dos mortos as pessoas se esquecem de si mesmas e se amoldam à peculiar convenção obituária de pensamento e linguagem. Espontaneamente, inconscientemente, George

se amoldara.

Marjorie enxugou os olhos.

— Obrigada, George. Você sabe tão bem do que o querido Guy gostaria. Você me faz sentir

mais forte para eu aguentar. Mas mesmo assim sinto-me odiosa pelo que pensei sobre ele às

vezes. Não o amei o suficiente. E agora é tarde demais. Nunca mais vou vê-lo outra vez. — O

feitiço daquele “nunca” tornou a funcionar: Marjorie soluçava desesperadamente.

A tristeza de George não tinha limite. Rodeou os ombros de Marjorie com o braço e beijou-lhe os cabelos.

— Não chore, Marjorie. Todos se sentem assim às vezes mesmo com as pessoas que mais

amam. Você não deve se fazer infeliz.

Mais uma vez ela ergueu o rosto e olhou para ele com um sorriso triste, de cortar o

coração.

— Você tem sido tão bom para mim, George. Não sei o que teria feito sem você.

— Pobre querida! — exclamou George. — Não suporto ver você infeliz. — Seus rostos

estavam próximos, e parecia natural que seus lábios se encontrassem num longo beijo. — Vamos recordar apenas as coisas boas e gloriosas de Guy — ele assim o fez. — Que pessoa

maravilhosa ele era, e como nós o amávamos. — Tornou a beijá-la.

— Talvez nosso querido Guy esteja conosco agora mesmo — disse Marjorie, com uma

expressão de êxtase no rosto.

— Talvez esteja — repetiu George.

Foi nesse ponto que se ouviu uma passada pesada e uma mão sacudiu a porta. Marjorie e

George afastaram-se um do outro. O intruso era Roger, que entrou apressado, esfregando as

mãos com um ar de alegria forçada, fingindo com empenho que nada de INCONVENIENTE acontecera. É de nossa tradição inglesa que escondamos nossas emoções.

— Bem, bem — fez ele. — Acho que é melhor irmos almoçar. A sineta já tocou.