Contos escolhidos

Aldous Huxley · Capítulo 5 de 23

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Contos escolhidos

A livraria

 

PARECIA MESMO UM lugar estranho para encontrar uma livraria. Todas as outras empresas comerciais da

rua destinavam-se a prover as necessidades mínimas da movimentada escória do bairro. Nessa

rua, a principal via de circulação, havia um brilho e uma vida especiais, produzidos pela rápida

passagem do tráfego. Era quase arejada, quase alegre. Mas por toda a volta grandes trechos de

favela pululavam em sua úmida clausura. Os habitantes faziam todas as suas compras na rua

principal; passavam segurando peças de carne que pareciam viscosas mesmo através do

embrulho de papel; pechinchavam linóleo em portas de estofadores; mulheres, de chapéu e xale

pretos, passavam arrastando os pés em direção ao mercado com sacolas surradas de palha tecida. Como é que essas pessoas podiam, me perguntei, comprar livros? E no entanto aí estava

ela, uma loja minúscula; e as vitrinas tinham prateleiras, e havia as lombadas marrons dos

livros. À direita um grande empório inundava a rua com sua mobília fabulosamente barata; à

esquerda as vitrinas discretas e cobertas de cortinas de um restaurante anunciavam em

descascadas letras brancas os méritos das refeições de seis centavos. No meio, tão estreita que

mal impedia a junção da comida com a mobília, estava a lojinha. Uma porta de um metro e meio

de vitrina escura, era essa toda a extensão da fachada. Via-se aqui que a literatura era um luxo;

aqui ela tomava seu lugar proporcional, nesse lugar de necessidade. Mesmo assim, o consolo era que ela sobrevivera, definitivamente sobrevivera.

O proprietário da loja estava parado à porta, um homem pequenino, de barba grisalha e

com olhos muito vivos atrás dos óculos que encimavam seu nariz comprido e agudo.

— Os negócios vão bem? — perguntei.

— Eram melhores no tempo do meu avô — ele me respondeu, sacudindo a cabeça com

tristeza.

— Nós ficamos cada vez mais filisteus — sugeri.

— É a nossa imprensa barata. O efêmero sobrepuja o permanente, o clássico.

— Esse jornalismo ou, pode-se dizer, esse cotidianismo trivial é a maldição de nossa era

— concordei.

— Serve só para... — Ele gesticulou com as mãos, como se procurasse agarrar a palavra.

— Para o fogo.

O velho foi enfático ao dizer, em tom de triunfo:

— Não; para o esgoto.

Sorri, solidário com sua veemência.

— Concordamos agradavelmente em nossa opinião — falei. — Posso dar uma olhada em seus tesouros?

Dentro da loja havia um lusco-fusco marrom, recendendo a couro velho e o cheiro daquela

poeira sutil e fina que se agarra às páginas de livros esquecidos, como que preservando seus

segredos — como a areia seca dos desertos asiáticos sob a qual, ainda incrivelmente intactos, jazem os tesouros e o lixo de mil anos atrás. Abri o primeiro volume que me caiu nas mãos. Era

um livro de estampas de moda, detalhadamente pintadas à mão em magenta e púrpura, marrom,

escarlate e castanho e todos aqueles tons diluídos de verde que uma geração ainda anterior tinha denominado Os sofrimentos de Werther. Beldades em saia-balão deslizavam através das

páginas com a desenvoltura de navios embandeirados. Representavam-se os pés magros,

achatados e pretos, como folhas de chá destacando-se sob suas anáguas. Seus rostos eram ovais,

rodeados por cabelos de um negro brilhante, e exprimiam uma pureza imaculada. Pensei em

nossos manequins modernos, com seus saltos altos e o arco de seus pés, seus rostos achatados e

o sorriso enfadado. Era difícil não preferir o passado. Comovo-me facilmente com símbolos; há

algo de Quarles[20] em minha natureza. Não dispondo de uma mente filosófica, prefiro ver minhas

abstrações concretamente retratadas. E ocorreu-me então que, se quisesse um símbolo para a santidade do casamento e a influência do lar, não poderia escolher melhor do que dois pezinhos

escuros como folhas de chá espiando decorosamente sob bainhas de imensas anáguas. Ao passo

que saltos altos e pés arqueados deveriam simbolizar — ah, bem, o oposto.

A corrente de meus pensamentos foi desviada pela voz do velho.

— Imagino que você seja amante da música — disse ele.

Ah, sim, eu era um pouco; e ele me ofereceu um volumoso fólio.

— Alguma vez já ouviu isto? — ele perguntou.

Robert, o Demônio;[21]não, eu não tinha ouvido. Eu não duvidava de que era uma lacuna em minha educação musical.

O velho pegou o livro e puxou uma cadeira dos sombrios recessos da loja. Foi então que

percebi um fato surpreendente: o que eu imaginara, a um olhar descuidado, ser um balcão

comum, percebia agora ser um estranho piano quadrado. O velho sentou-se diante dele.

— Você deve perdoar qualquer defeito na afinação — disse, voltando-se para mim. — Um

antigo Broadwood, georgiano, sabe, e já viu muito trabalho em cem anos.

Abriu a tampa, e as teclas amarelas sorriram para mim no escuro como os dentes de um

cavalo antigo.

O velho folheou as páginas até encontrar o trecho desejado.

— O tema do balé — disse. — É lindo. Escute.

Suas mãos ossudas e um tanto trêmulas começaram subitamente a movimentar-se com

incrível agilidade, e, fraca e tilintante contra o rugido do tráfego, ergueu-se uma melodia alegre

e saltitante. O instrumento sacudia consideravelmente, e o volume de som era fino como o fio

d’água de um regato atingido pela seca; mas era afinado, e a melodia lá estava, tênue, aérea.

— E agora a canção dos bêbados — exclamou o velho, entusiasmando-se com sua

execução. Tocou uma série de acordes que modulavam num crescendo, até o clímax; tão supremamente operístico que era sem dúvida alguma uma paródia daquele momento de tensão e

suspense, quando os cantores se preparam para uma explosão de paixão. E então chegou o coro

dos bêbados. Imaginavam-se homens envoltos em mantos, rudemente joviais, com o vazio de

garrafões de vinho de papelão.

 

Versiam’a tazza piena

Il generoso umor.

 

A voz do velho era aguda e rachada, mas seu entusiasmo compensava quaisquer problemas de execução. Eu nunca tinha visto alguém imerso em tão absoluto deleite.

Ele passou mais algumas páginas.

— Ah, a Valse Infernale — disse. — Esta é boa. — Houve um pequeno e melancólico prelúdio e em seguida a melodia, talvez não tão infernal como se era levado a esperar, mas

mesmo assim bastante agradável. Olhei por cima do ombro dele e cantei com seu

acompanhamento.

 

Demoni fatali

Fantasmi d’orror,

Dei regni infernali

Plaudite al signor

 

Um grande caminhão de cerveja, movido a vapor, passou rugindo com seu trovão

aniquilador e fez desaparecer por completo a última linha. As mãos do velho ainda se

movimentavam sobre as teclas amarelas, eu abria e fechava a boca; mas não havia som de

palavras ou de música. Era como se os demônios fatais, os fantasmas de horror, tivessem

irrompido subitamente nesse lugar tranquilo e perdido.

Olhei para fora através da porta estreita. O tráfego corria sem cessar; homens e mulheres passavam apressados, com rostos tensos. Fantasmas de horror, todos eles: habitavam reinos

infernais. Lá fora, homens viviam sob a tirania das coisas. Todos os seus atos eram

determinados por ordens da mera matéria, por dinheiro, e pelas ferramentas de seu ofício e

pelas leis irrefletidas do hábito e das convenções. Mas aqui eu parecia a salvo das coisas,

vivendo a um passo da realidade; aqui, onde um senhor barbado, improvável sobrevivente de

alguma outra era, corajosamente tocava a música da romança, não obstante o fato de que

fantasmas de horror pudessem vez por outra abafar o som dela com sua turba.

— E então, vai levar? — A voz do homem invadiu meus pensamentos. — Posso deixar por cinco xelins.

Ele segurava o volume grosso e gasto em minha direção. Seu rosto refletia uma ansiedade

tensa. Eu via como ele estava ansioso por meus cinco xelins, como lhe eram — pobre homem!

— necessários. Ele tocou, pensei com uma amargura nada razoável, ele tocou simplesmente

para mim como um cachorro treinado. Sua altivez, sua cultura — tudo um truque de negociante.

Senti-me ofendido. Ele era apenas um dos fantasmas de horror disfarçado em anjo nesse paraíso

de contemplação um tanto cômico. Dei-lhe duas moedas, e ele começou a embrulhar o volume

em papel.

— Sabe, fico triste em me separar dele — comentou. — Sou muito ligado a meus livros,

mas eles sempre têm de ir.

Suspirou com uma emoção tão obviamente genuína que me arrependi da opinião que fizera

dele. Era um habitante renitente dos domínios infernais, exatamente como eu.

Lá fora começavam a anunciar os jornais da tarde: um navio afundado, trincheiras

capturadas, o novo discurso emocionante de alguém. Olhamos um para o outro — o velho

vendedor de livros e eu — em silêncio. Nós nos compreendíamos sem palavras. Ali estávamos

nós em particular, e ali estava toda a humanidade em geral, todos enfrentando o horrível triunfo das coisas. Nesse contínuo massacre de homens, no sacrifício forçado desse velho, a matéria

triunfava igualmente. E caminhando para casa através do Regent’s Park, eu também descobri a matéria triunfando sobre mim. Meu livro era despropositadamente pesado, e eu me perguntei o

que poderia fazer com uma partitura de Robert, o Demônio quando chegasse em casa. Seria

apenas mais uma coisa a me pesar e me atrapalhar; e naquele momento ela era pesada, ah, abominavelmente pesada. Inclinei-me sobre a grade que rodeia o lago ornamental e, o mais

discretamente que pude, deixei cair o livro entre os arbustos.

Com frequência penso que seria melhor não tentar a solução do problema da vida. Viver já

é bastante difícil sem complicar o processo pensando nele. A coisa mais sábia, talvez, é aceitar

a “aborrecida condição da humanidade, nascida sob uma só lei, todos uns presos aos outros”[22] e

parar por aí, sem tentar reconciliar os incompatíveis. Ah, a absurda dificuldade de tudo isso! E,

além do mais, gastei cinco xelins, o que é sério, sabe, nesses tempos difíceis.