Deixa a criança ser tímida
Alegres decepções
Seguro meu filho no colo, tem cinco anos, e vejo como ele é dependente
de mim. E eu cada vez mais dele. Ele funga meu pescoço. O pescoço é a gola do meu cheiro. Voltado ao meu ombro, espia o mundo de dentro de sua árvore. O que ele está pensando? Com frequência, pergunto-me o que ele está pensando. O que ele está sonhando? Com frequência, sento ao pé de sua cama para ver se encontro algum sinal exterior, um tremor de cílios, para descobrir o que sua imaginação desenha e o que tem permanecido de imagem do seu dia. Não há dúvida que ele me guarda, desejava descobrir onde ele me guarda para me buscar de vez em quando.
Qualquer pai deve ter um medo igual: de desaparecer para seu filho. De
não entendê-lo. De entendê-lo e não se explicar. De confundir quando se explica.
Meu filho não sabe quem sou, tento ser quem ele imagina que eu seja. E
vou me modificando para atendê-lo. Vou terminar sendo o que eu queria ser quando criança.
Eu o protejo ou é ele que me protege?
Ele é sensível aos barulhos de noite — e todo barulho que não seja de
gato miando, de cachorro latindo, de cigarras fazendo as pazes com as ervas, já corre aos meus braços a olhar minha boca. Fica esperando que minha voz dissipe a dúvida. Minha boca é sua cama mais segura.
Ele me dá coragem porque me obriga a responder. E passo a acreditar
em minhas respostas. Depois de pai é que passei a acreditar em mim, porque há uma fé, como nunca antes, esperando pela minha fala. Não posso me substituir.
Igual acontece com minha filha de 13 anos. Ela me telefona para contar
que procura emagrecer. Ao reduzir a alimentação, lamenta que apenas conserva o seu peso. Juro que não sei o que orientar e oriento. Temos pressa um do outro. E a minha resposta é a pressa de mantê-la presa à minha voz. Nenhum pai é sábio, os pais são seguros pela total insegurança, por isso têm resposta para tudo, inclusive para o que não dominam.
Um dia, é inevitável, vou ouvir de ambos os filhos: você me mentiu? Você não me compreende? Eu o odeio!
Não há problema, tenho decepções com meu pai, mas foram as decepções que abriram as brechas para amá-lo. Quando ele vinha nos visitar, já separado, reunia-se com os filhos na sala para mexer nos livros que havia deixado na residência. Entre brincadeiras e risos, via que ele estava mais interessado em rever e retomar sua biblioteca do que escutar nossa conversa. Cheguei a observá-lo colocar um dos volumes em seu paletó, discretamente. Mostrei desinteresse à cena para alegrá-lo.
A decepção nada mais é do que tomar conta do pai quando ele não consegue mais tomar conta de si.