Deixa a criança ser tímida
Sete segundos
Sete segundos é o tempo de diferença entre a transmissão de uma tevê a cabo da narração do rádio. Sete segundos: parece nada, nem pesa. Mas nenhum velocista alcançou sete segundos em um recorde de 100 m rasos. Mas sete segundos em uma partida de futebol culminam em drama. Na cobrança de uma penalidade, por exemplo, o jogador já está comemorando com a torcida e o telespectador ainda o observa ajeitando a bola na marca de cal. A bola apanhou da trave e confiamos que pousará nas redes. E se for uma decisão de pênaltis, o atraso provoca uma histeria. Uma desvantagem que aumenta a frustração e tira o sabor da vitória. A sensação é que somos os últimos a comemorar e a lamentar.
Sete segundos é a expressão da paternidade e da maternidade. Todo pai e toda mãe são sete segundos. É uma atenção multiplicada ao extremo, uma posição intermitente de luneta aos pequenos desenlaces domésticos. Sete segundos para apanhar um copo que a criança não segura direito. Sete segundos para censurar o filho no momento em que enfia seus dedos na tomada. Sete segundos para se dar conta que ele prova a ferrugem de um parafuso. Sete segundos para evitar uma mordida de cachorro. Sete segundos para segurá-lo na escada. Sete segundos para agarrar a gola no momento de atravessar a rua. Os pais não têm tempo para pensar, são sete segundos afinal dentro de seu corpo. O gesto não avisa o pensamento. Não somente vestimos os filhos, os filhos nos vestem de premonições. Os pais deslizam entre duas estações, duas frequências. Exageram os cuidados, nunca definindo ao certo o que é do que pode ser. São profetas enrustidos.
Pai e mãe mantêm um radar involuntário pela respiração, exercitam uma intuição que faz olhar mesmo quando não olham. Todo pai e toda mãe são paranormais. Não entortam talheres, não levantam objetos até o teto; em compensação, previnem-se de qualquer tragédia quando não existe possibilidade imediata. Descobrem quando a criança está com febre no meio da noite. Desconfiam do silêncio do quarto quando os filhotes brincam.
Lembro que minha filha colocou um enorme botão na boca, como se
fosse uma bala soft. Foram sete segundos para identificar que faltava uma peça na extensão do edredon. Não vistoriei o chão, não cogitei a hipótese de estar em outro lugar, o que era mais lógico, senão na dentição miúda da pequena. Sete segundos para correr determinado em sua direção, bater nas costas e vê-la cuspir meu medo. Tirei aquilo com uma agilidade que não seria capaz de usar em meu favor. Um pouco de indecisão e ela engoliria.
Sete segundos demonstram o tamanho da responsabilidade que o pai e a
mãe carregam no pescoço, como se o mundo dos filhos fosse responsabilidade integral deles. Dentro ou fora de casa. Os pais se veem como onipresentes — é uma fragilidade onipresente, uma vulnerabilidade onipresente.
Não dependem de explicações e de telefonemas para compreender. Os
pais se ressentem de não oferecer exclusividade. Os pais se amaldiçoam pelo sofrimento (imaginado ou real) de suas crianças. Quando o filho se machuca na escola, o pai e a mãe pedem “desculpa” a ele. Pedem perdão inclusive no momento que não têm culpa.
Entre pai e filhos, há um amor inexplicável. Um amor pacientemente
rápido.