Deixa a criança ser tímida

Fabrício Carpinejar · Capítulo 21 de 30

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Deixa a criança ser tímida

De bandeja

 

A mãe adoeceu e ele teve de levar o filho ao trabalho. Era garçom do

restaurante Ouriço. O filho de 4 anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os lábios.

A criança não se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do

pai, tantas vezes prometido e adiado.

O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu não

incomodar.

Só que a criança perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava

seus gestos, sua carranca, questionou se ele não receberia também uma gravata borboleta.

Há guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino

desejava uma gravatinha para encurtar o pescoço. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto os dois se pareciam.

O pai avisou que não tinha. Brabo. Já estava brabo, porque precisava

atender as mesas, trocar as toalhas, repor o serviço, providenciar a comida.

Se o garçom normalmente olha para todos os lados, ele olhava até para

fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua pressão subiu como espuma de chope.

No entrevero entre a cozinha e a recepção, não é que seu filho derrubou

um prato de petiscos… O garçom-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa.

Saiu ralhando:

— Não mexe mais em nada!

Ingenuidade crer no silêncio:

— Pai, o que eu vou fazer com os braços?

— Que braços?

— Não posso mexer em nada.

A criança observava com admiração a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma única mão, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os números das mesas.

— Meu pai é malabarista.

— Meu pai nunca erra.

— Meu pai é famoso, todos chamam ele.

A cada elogio que recebia, o garçom se irritava. O amor impróprio para aquele momento. A criança não entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalhão de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava histórias e o fazia dormir com a mão no rosto.

— Por favor, vou perder o emprego.

O filho ensaiou um resmungo pela expressão de raiva, não por ter compreendido as palavras.

— Tá bom, tá bom, depois a gente conversa.

O chefe percebeu o desespero de seu funcionário. O medo de falhar. Alcançou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos.

A criança foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imaginária. Calçou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranquilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas.

A criança falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:

— Viu? Sou que nem meu pai…

Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor.