Deixa a criança ser tímida
Do liquidificador à chaleira
DO LIQUIDIFICADOR
À CHALEIRA
O mistério de uma criança dormindo. Os braços largados, os cabelos boiando. Só uma criança sabe dormir como quem está nadando. A impressão é que o colchão é a mão de Deus. Ou uma saboneteira. Parece que ela está flutuando.
O pai e a mãe caminham no sono, rastejam, debatem-se, encolhem-se, numa atitude defensiva ou de ataque.
A criança, não. Ela encontra a serenidade própria das águas. Desprotegida na confiança.
O filho descansando é um enigma. Mas adormecê-lo mais se assemelha a um milagre.
Alguém pode me explicar por que crianças cochilam no carro sempre quando estamos chegando e nos condenam a subir cinco vãos de escadas com elas nos ombros?
Com dois filhos, passei por quase todas as maneiras de convencer a criança a fechar os olhos. Frequentador da cozinha, o micro-ondas já virou meu relógio de bolso.
O primeiro filho é a insônia. Mariana só dormia no colo, agarrada nos cabelos. Hoje ela não poderia fazer isso (não há mais cabelos). Nasceu no tempo certo. Foi minha fase de liquidificador: balançar, balançar, balançar. Não tenho certeza se ela dormia ou ficava tonta. De tanto andar pela casa, conheci todas as rachaduras das paredes e as infiltrações do corredor (pensava obsessivamente em reforma). Era obrigado a cantar, inventei uma série de músicas. Quando iria largá-la na cama, ela acordava e reiniciava tudo de novo. Você pode concluir que não dependia de academia para manter a forma. Só que me angustiava com a demora e ela se aproveitava da minha ansiedade para adiar o descanso. A primeira coisa que a criança sente é quando o pai ou a mãe querem se livrar da tarefa. Finja que tem uma eternidade e não há nenhum compromisso dali por diante. A tranquilidade exclusiva dá sono.
Numa noite qualquer, decidi ouvir uma fita da poesia de João Cabral
enquanto dava colo. Quando a olhei, ela dormiu pesadamente. Capotou. A poesia de João Cabral é maravilhosa, porém a voz de sacristão do poeta, lendo diferentes poemas no mesmo tom monótono, era um verdadeiro calmante natural.
Ao nascer Vicente, o segundo, acredito que me tornei mais esperto.
Ingressei no meu período de chaleira. Comecei a roncar (não tive trabalho para isso) e ele nunca quis dormir entre o casal. Eu respirava barulhos insuportáveis no seu cangote. Acho que ficou traumatizado. Dorme unicamente em sua caminha, com seu leite, com seu quarto, com suas janelas pela metade. Um livro ou uma canção servem para mudar o dial da brincadeira para a quietude. Valorizamos o ritual. Cada dia ele escolhe um boneco para acompanhá-lo. De vez em quando, há mais bonecos em suas cobertas do que no armário.
Os filhos sonham quando estamos relaxados.