Deixa a criança ser tímida

Fabrício Carpinejar · Capítulo 25 de 30

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Deixa a criança ser tímida

Conversa séria

 

Pede-se transparência como se fosse fácil. Falar os assuntos com franqueza, esquecendo que existe a fraqueza por detrás.

Conversar com os filhos abertamente, com o namorado abertamente, com os pais abertamente não é dizer tudo. Relação aberta é também não falar.

A honestidade termina quando cai no constrangimento ou na vergonha. A conversa não pode diminuir o interlocutor, fazê-lo sentir culpado, humilhado.

Cito duas cenas de ilustração. Um amigo se masturbava no banheiro. Sua irmã mais velha pegou a cópia da chave e o flagrou no ato. Não bastando, gritou a sua colega de escola que o irmão estava batendo punheta. Pelo que sei, citou até o tamanho do pênis. É óbvio que o amigo ficou vexado a ponto de não olhar para suas calças durante um mês.

É traumático confundir liberdade com intimidade. A linguagem não permite a clareza integral, muitas vezes não dizer é um modo de compreender. O escuro conforta e oxigena. Nada demais em se masturbar, eu faço, a maioria faz. Que ridículo seria o pai ou a mãe chegar do trabalho e perguntar: “Filho, se masturbou hoje?”.

Abordar o sexo não é torná-lo uma religião, com minúcias extravagantes e irritantes. Hábitos são saudáveis desde que não transformados em caricaturas ou depreciados em manias. Não é justo apagar o sentimento. O amigo estava reagindo com a sua sexualidade de um modo espontâneo e natural. O problema não era dele, mas da irmã, que o retorquiu como se ele fosse uma aberração.

Duvido quando sou convidado para uma conversa séria, sei que terei que enfrentar um novo trauma pela frente.

Conversa não precisa ser séria, pode ser divertida, imbuída de alegria e

autocrítica. Recordo que a primeira vez que transei em casa sujei seriamente os lençóis. Não tinha noção do funcionamento da máquina de lavar. Passei um sufoco para me livrar do pânico: o que a minha mãe iria concluir? Escondi os panos no armário da lavanderia. Era patético esconder naquele canto, numa caixa de papelão, alguém perceberia a falta, porém quando estamos com receio realizamos as coisas mais absurdas. Minha mãe deve ter encontrado os lençóis, sumiram dali a três dias, lavou e não me comentou uma nuvem. Não me censurou, não me deixou culpado. Sua educação me protegeu e me inspirou a confiar nela. Não me vi como um animal acuado, e sim como alguém aprendendo a lidar com a vida.

Relação aberta é também respeitar o silêncio.