Deixa a criança ser tímida
Como conversar com adolescentes
COMO CONVERSAR
COM ADOLESCENTES
Adolescente não merece pagar a conta pela crise de identidade. Não é culpa do hormônio.
A crise já eclodiu na infância. Ruim mesmo são as espinhas, que buscam o lugar fixo das sobrancelhas.
Estou farto da sentença “é adolescente, tá explicado” como desculpa para a azia do comportamento. Explicado o quê?
Seu filho bate a porta, não conversa com as visitas, passa emburrado e embirrado pela sala, não troca um olhar digno no almoço, logo justificamos: “é a adolescência”. E os adolescentes deitam e rolam aproveitando a fama.
Adolescência virou uma entidade divina. Uma força sobrenatural para explicar a falta de paciência, humor e entendimento dos pais.
Os adolescentes só perdem para os políticos no ranking “É assim mesmo”. É necessário reconhecer, eles são grosseiros, mas os pais são carentes desesperados pelo reconhecimento. O problema não é a compreensão, é a frequência. Eles estão rindo, e os pais falando sério.
Na adolescência, exercita-se o avesso da linguagem. Tudo é ao contrário. A linguagem está se olhando no espelho. A ironia é talhada, assim como a crítica.
O adolescente não fala nada direto, fase das tangências e das transversais. Deixa as avenidas para os adultos, andam pelos becos, vielas, ruas sem saída.
Minha filha de 13 anos não me elogia, sequer faz declarações apaixonadas. Não vai me abraçar e denunciar que sente saudades. A fase dos cartões com desenhos e legendas “eu te amo, papai” terminou na 3ª série. Edição esgotada, reimpressão fora de cogitação. Quem guardou, guardou.
Ela me critica de um modo implacável. Manhã, tarde e noite. Nem meus
inimigos seriam tão atentos. Estou colocando uma roupa e ela espicha sua voz. Juro que vou receber um carinho e ela tasca:
— Que barriguinha charmosa.
Primeiro round. Sento-me para escrever no computador, ela logo vem e
diz toda melosa:
— Minha carequinha.
Em dez minutos, sou barrigudo e careca. Segundo round. Atendo o
telefone e ela me imita, destacando as palavras que pronuncio enroladas:
— Ingrês, pai?
Agora sou fanho. Terceiro round. Ela ouve meu texto e comenta
vigorosa:
— Gosto mais do que escrevia antes.
Sou repetitivo. Quarto round. Reclama que herdou meu nariz e meus
dentes.
— Seus olhos de mel ficaram com quem? Seu egoísta! Quinto round. Pronto. Acrescente narigudo e dentição torta ao prontuário. Preparo-me para sair, ela me investiga:
— Vai sair assim?
— O que há de errado?, replico.
— Nada, a única coisa que faz bem é se vestir. Nocaute.
Nenhum dos apontamentos maliciosos me incomoda. Depois de respirar
fundo, encontro uma satisfação esquisita. Ficaria deprimido se ela não falasse comigo. Na adolescência, as frases têm de ser entendidas ao revés. Agredir é seu modo de me elogiar, de interpelar, de se fazer presente, de se preocupar comigo. Ela não me ama menos, é o jeito que encontrou de se aproximar. Seu deboche me valoriza. O adolescente não deseja ser óbvio. Procura o contraponto e as conexões secretas.
A verdade é que ela não deixou de brincar comigo. Continuamos com o
esconde-esconde de antigamente.