Deixa a criança ser tímida

Fabrício Carpinejar · Capítulo 12 de 30

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Deixa a criança ser tímida

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Aniversário mexe comigo. Não porque envelheço, mas por não me curar

dos que já aconteceram.

Aos 25 anos, avisei a mãe que passaria rapidinho em sua casa em Porto

Alegre para um abraço. Ela me armou uma surpresa e buscou a Mariana. Entretanto, eu estava com o horário apertado, tinha compromisso na noite com a minha nova namorada em São Leopoldo. Dependia de ônibus e da generosidade dos relógios.

Mariana me abraçou com um vestido azul, alegria atiçada. Seus três

anos me mordendo de beijo: usava a gengiva como dente.

Ela pulou em meus ombros, me entregou um cartão com um sol

cabeludo e uma árvore rebolando, naqueles movimentos de giz que unicamente uma criança captura. Eu fiquei envergonhado — não tinha folga. Na minha vida, acho que nunca fui tão insensível. Insensível a mim. Pela vergonha de cumprir o planejado.

Deveria desabafar:

— Foda-se o mundo.

A namorada entenderia. Caso soubesse, não aceitaria e providenciaria

um encontro a três.

Preferi seguir o que havia combinado. Decidi sozinho, para não estragar

com os filhos o início do namoro. Como se os filhos estragassem! Como se os filhos me impedissem de alguma coisa! Mas pai jovem tende a impressionar e mostrar uma liberdade que não existe, uma liberdade que é patética perto da paz de ser amado pela sua pequena. Ele omite que tem uma biografia para nascer com a nova mulher.

Não seria marido de ninguém sem meus filhos.

A filhota não assimilou minha pressa. Ou, se absorveu, fingiu que mastigou, naquelas distrações que unicamente uma criança permite. Não permaneceria com ela de noite, contrariando sua expectativa de jantar comigo.

Ela era a minha vida. Meu rosto. Meus cabelos encaracolados e uma palidez de praia deserta. Por mais comovido, segui adiante, contra ela. Pois comover pode ser apenas o primeiro passo. Comover-se não é retribuir.

O coração de pai solteiro vacilou. Como vacila entre uma história de amor e a história dos filhos, aguardando o momento em que as duas possam se cruzar. Coração de pai separado é próprio para transplante, já foi transplantado do peito à garganta com frequência.

Eu me enervei, não dominei as palavras, quando ela me puxou pela calça.

— Pai, não pode ir.

Ela veio com um bolo da cozinha. Passos miudinhos, segurando o suspiro para não tropeçar.

Colocou na mesa e emprestou sua vela de dois anos.

Ela não se importou com a minha tristeza. Cantou o parabéns com cada pausa que aprendera na creche.

Houve tempo para três fotografias feitas pela minha mãe. Todas tremidas.

Comi a torta de pé. Ela, sentada, equilibrava o garfo no recheio, no merengue. Espiava a contração de minha boca, ansiosa por uma reação intempestiva.

Ao me desembaraçar do portão, me alcançou um balão azul, como o seu vestido.

Mantive o balão perto de mim a noite inteira. A corda substituindo sua mão.

Ela acendeu a vela e demorei para apagar. Sou uma faísca atrasada, choro agora por ter faltado à festa de aniversário aos 25, a primeira festa preparada pela minha filha.

Queria tanto que estivesse comigo para dizer pessoalmente, dizer pessoalmente o que ela nem se lembra. Porque minha filha sempre foi maior do que o passado que dei a ela.