Deixa a criança ser tímida

Fabrício Carpinejar · Capítulo 19 de 30

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Deixa a criança ser tímida

Pijama monocromático

 

Com os filhos, queremos ressuscitar nossa infância. Fui comprar pijama

para o Vicente. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e não encontrei um conjunto que servisse. Não era problema de número, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.

Não achei um pijama como antigamente. Pijama inconfundível, com

cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o título falso de pijama.

Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que não se

diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu armário. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?

Cadê o conjunto monocromático que ninguém duvidava antes de sua

natureza sonâmbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o café da manhã. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como único parente possível a malfadada ceroula, calça colada que a mãe me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.

Pijama que combinava com os cabelos em pé e os olhos remelentos.

Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.

O pijama representava um segundo lençol, uma segunda cama, as

bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.

Agora os pijamas são trajes para sair, vestuário frequente na praça, na

piscina, na lanchonete, sem causar um ruído de estranhamento.

Na minha época, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado.

Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e rápidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.

Hoje pijamas são peças comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e estão prontos para sair. Não precisam se arrumar. Já dormem vestidos de escola. Não têm folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e são intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. Até os pássaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.

Sou favorável ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nostálgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual é bem mais atraente. Sei que é. Questiono o sacrifício do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hibernação da casa no corpo.