Deixa a criança ser tímida
Jogo de comparações
JOGO DE
COMPARAÇÕES
Os pais estabelecem um jogo de comparações com seus filhos,
determinando o que puxaram de um e do outro. É como se houvesse somente dois caminhos genealógicos. O filho fica prensado entre a família da mãe e a do pai. Faço igual e com a malandragem de empurrar o temperamento difícil das crias para o lado materno. Ponho as facilidades de adaptação em minha conta.
A identificação inicia logo com o nascimento da criança. É uma
adoração de seus pequenos feitos e passos. O bebê boceja e a mãe sai gritando: “ele me chamou de mãe”. A criança arrota e o pai descobre na sonoridade semelhanças com seu nome. Uma corrida insana para patentear os movimentos. A palavra de estreia da criança transforma-se no primeiro litígio amoroso. Devia-se existir um perito no mercado, misto de fonoaudiólogo com detetive, para esclarecer a dúvida.
É um jogo de poder e queda-de-braço. Pode ser inclusive divertido. De
noite, o casal entre beijos resume na cama as últimas dos filhos, os vocábulos surpreendentes, os atos inesperados, os gestos de carinho. E estão contabilizando: — Isso é meu, isso é seu.
Lembra inventário de parente, liquidação de loja. A atitude não é
negativa. Mas corresponde à chance de perpetuar as aspirações, de vingar a personalidade e, quem sabe, de viver além da efemeridade da carne.
É evidente que a maldade e a indisciplina serão órfãs. Não há um
interessado para adotá-las. Quando a criança apronta, é normal comentar: “não sei quem você puxou…”. A porção ruim e selvagem é creditada ao acaso. Somos pais apenas das boas notícias e primos distantes das más.
Os apontamentos das semelhanças vão além das características físicas.
Seria tolo dizer que o filho é alto porque sou alto, de que é castanho porque a mãe é castanha, de que tem olhos claros em respeito ao avô. O cruzamento refere-se a traços subjetivos, que formam o DNA do espírito, que inclui teimosia, implicância, generosidade, resistência, inteligência e coragem. Os pais realizam um teste vocacional a cada semana. Os filhos nem notam.