Deixa a criança ser tímida
Câmera em casa
Meus filhos acordam. Com aquele charme do pijama dobrado ou da camisola estrategicamente amassada. Meus filhos, quando acordam, são meus travesseiros. Enquanto faço o café ou converso com a minha mulher, as crianças vão relatando seus sonhos. É o jeito que tenho de filmá-los. Suas frases são fotografias em sequência.
Nunca coloquei câmera dentro de casa para controlar babás. Até porque eu estaria procurando algo ruim. Colocar câmera é demitir a babá. É aviso-prévio. Não se põe câmera para registrar a alegria, ou apanhar os filhos em situações admiráveis. Câmeras na rua, nos postos, nas lojas e bancos servem para inibir assaltos e identificar ladrões. Alguém coloca uma câmera para enxergar beijos apaixonados? Abraços de amigos com o nó da saudade? Estamos acostumados a filmar para denunciar. Filmar para delatar. Filmar para incriminar. A partir de uma fivela, um amigo embutiu uma filmadora na cintura de uma escultura. Colocou um cinto bem brega numa peça de porcelana da sala. Transformou uma figura renascentista em pós-moderna. E me mostrou o filme de uma tarde. Ele comentava:
— Não há nada neste dia.
E passava adiante. E tudo o que acontecia naquele dia era seu filho rindo, puxando os cabelos para cima para tentar imitar as flores da varanda. Isso é nada? No “nada daquele dia”, não constava nenhuma atitude suspeita da babá. Ele esquecia o seu filho para ficar caçando indícios dela. Vivia pelo pior. Aliás, vivemos pela exceção, pelo castigo, para se antecipar às tristezas e aos maus-tratos e sacrificamos a naturalidade das relações. Quem vai atrás do desastre, forja motivos de preocupação. A desconfiança permanente entende errado. Entende o que persegue.
Quando pequeno, tive babá que foi péssima comigo, me trancava no quarto para acompanhar a novela e receber o namorado. Tive babá que roubava a despensa da cozinha e estocava os produtos no seu quarto. Tive babá que abriu o portão para o meu cachorro fugir e não precisar mais cuidar. Todas perderam o trabalho porque eu relatava minhas preocupações. Meus pais me escutavam. Aprender a ouvir é verdadeiramente filmar. Fazer perguntas constantemente à babá e observar suas reações em relação à educação dos filhos são suficientes para entender se ela está envolvida ou não. Falei das babás que não foram boas, é natural elogiar o triste. Mas delas, não recordo nem o nome. Lembro do nome de quem adorei, Neide, que cuidou de mim dos 2 aos 8 anos. E saiu de nosso lar somente para casar e se fixar no interior do Rio Grande do Sul. Seus cabelos loiros e sua ternura de colo esforçam minhas palavras para ser fiel ao amor que ela me deu. Minha infância sempre reproduzirá o sotaque italiano dela. Em vez de demorar a escolher a câmera, por que não demorar a escolher a babá? Precisa vir com referências familiares, entrar no ritmo da casa, ter uma amizade em que se possa conversar fora dali. É mais humano confiar até que se prove o contrário do que desconfiar sempre para buscar provas.