Deixa a criança ser tímida

Fabrício Carpinejar · Capítulo 23 de 30

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Deixa a criança ser tímida

Insônia

 

 

O cueiro, os paninhos, os aventais, os bordados, as fraldas das gavetas

assistidas diariamente. Não faltaram panos para esticar a infância.

Cheiro a nuca, contorno as golas, arrumo suas cobertas e a respiração

deles não deixa a minha boca se afastar.

Talvez seja assim. Todo o ar que entra pela casa passa pela respiração de

meus filhos.

De pequeno, mirava o céu durante horas a descobrir quem soprava as

estrelas. Acreditava que as estrelas eram nuvens que não foram capturadas.

Não dormirei de olhos limpos. Não lavarei os meus olhos ao acordar. Ficarão sujos. Sujos daquilo que vi.

O tanque de pedra de minha avó era tão verdadeiro. As roupas de molho

recebiam braçadas de figos ao longo do entardecer. Minhas roupas cheiravam a figueiras. Corriam espantadas de pássaros.

Eu me distraio. Distraído dos filhos à perturbação dos astros, dos astros

ao nervosismo dos chinelos, dos chinelos aos remédios vencidos, dos remédios à sentinela que come a marmita diante do televisor, da sentinela ao cachorro revirando o lixo, do cachorro ao carro que passa sem reparar que estou aqui no quarto andar de minha paz.

Na aula, vivia distraído com o que acontecia fora da aula. Fora da aula,

distraído com o que acontecia dentro da aula.

No casamento, distraído com o que acontecia fora do casamento. Fora

do casamento, distraído com o que acontecia no casamento.

Eu me disperso com facilidade. Minha dispersão é amor avulso. Não me despeço, me disperso.

Às vezes me bate um desejo de viver tanto, tanto, que até me esqueço de

falar.