Deixa a criança ser tímida

Fabrício Carpinejar · Capítulo 18 de 30

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Deixa a criança ser tímida

Velho-do-saco

 

Tremia de horror do Velho-do-saco.

O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de

vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclopédia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, não funcionava o aviãozinho. Se não desejava comer, alguém inventava de apertar a campainha e meu estômago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A mãe suspirava diante da mudança de atitude.

O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que

ele carregava.

— Crianças, ora bolas!

A mãe respondia a seco, sem o mínimo de complacência. Atitude

esquisita para quem se mostrava sensível e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manhã na igreja. Demonstrava indiferença com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.

O Velho-do-saco foi o primeiro sequestrador que eu tive conhecimento.

Sonhei várias vezes com ele e ainda desfruto de condições de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam?

Ele se parece com todo mundo, por isso é o Velho-do-saco. Ele se

disfarça dele mesmo, o que deveria confundir a localização pela polícia. Agiu impunemente durante a infância inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda não aconteceu. Fui uma criança que acompanhava o noticiário policial. Não pude constatar os efeitos colaterais desse hábito precoce.

O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu

ponto fosse o da Rua Bagé com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua ausência de binóculo.

De noite, meus irmãos lembravam comigo das escalações dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obrigação noturna. Nosso pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o silêncio era o único jeito de enganá-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respiração e os dentes do coração mastigando o ar. Os dentes tortos do coração. Os dentes de leite do coração que nunca cederam lugar aos permanentes.

Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.

Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no armário, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz… Cartazes ocupavam a porta da sala de aula.

Perto da fechadura, o rabisco do meu filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engraçada: Vicente tem medo de aula de capoeira.

É um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.