Deixa a criança ser tímida
Deixa a criança ser tímida
DEIXA A CRIANÇA
SER TÍMIDA
Excesso de cuidado estraga tanto quanto a falta dele. A criança não pode
perder a possibilidade de escolha. Tem direito ao pudor, à cautela, ao mistério, à insegurança. A timidez ajuda a conhecer e a preservar a solidão. Vejo pais que sobrecarregam os filhos de expectativa. Transformam de repente seus pequenos em atrações turísticas da casa. Se aparece uma visita, a mãe logo convoca a criança para cantar. Se estão jantando com amigos, o pai chama o filho para contar histórias. Desde quando criança é entretenimento?
Criança também precisa ficar sozinha e isso não é defeito. Ordens,
contraordens, há a mania de mandar e ser mandado, ainda mais disfarçado no afeto e na proteção. É evidente que as intenções são nobres, de querer mostrar os filhos, de valorizá-los, de demonstrar o orgulho do amor. O que surge como diversão para uns, aparece como castigo para outros. A vida não é plana, cada um tem seu ritmo e rosto. A vida não é encomendada, o testamento vai sendo atualizado a todo instante. A criança lançada a agradar os adultos torna-se dependente da reação externa, deixando de tomar os seus próprios caminhos. A medição do dom pelo ibope anula a autocrítica. A audiência é um sequestro sem volta.
Para alcançar a aceitação, o filho passa a ser o que os familiares querem
e a infância, que é o seu lugar imaginário, onde exerce seu direito de ser ninguém, de adivinhar personagens, de fazer de conta, termina se profissionalizando no elogio. E o elogio que é costume vira obrigação.
Da mesma forma, é inútil forçar a criança a pedir desculpa se ela
permanece com a razão dentro dela. Cabe conversar e mostrar as possibilidades. Não sou contra a partilha de talentos, e sim contra a imposição da exibição deles. Basta a criança riscalhar uma folha com têmpera e os pais estão comparando as garatujas com Picasso ou Miró. Não é muita pretensão?
Só falta vender os quadros ou montar uma vernissage com cachorro-quente e Coca-Cola. Tocar bem um piano não transformará ninguém em Mozart, até porque Mozart já existiu e outros virão com seus nomes e singularidades.
Há um desejo insano de que o filho seja um gênio, um superdotado para exibição em pré-estreia. Mas raros são os que aceitam ser pai ou mãe dos problemas dos filhos. Deve-se tomar cuidado para não projetar desilusões e converter a confiança em cegueira.
O maior talento da criança é ser criança. Não será a música, a matemática, o balé, a natação, o futebol. Ela pretende apenas brincar e ficar na sua. Forçar a responsabilidade precoce é um passo para a ausência de diálogo no futuro. É equivocado entusiasmar a criança a imitar o adulto, numa espécie de infância cover, e achar engraçada sua mímica e inspirar que cresça o mais rápido possível.
Ser adulto não é uma solução. A criança que vira o centro das atenções tem dificuldades para chamar atenção ao que realmente interessa para ela. Perguntar não ofende. Responder sem perguntar ofende.