Deixa a criança ser tímida
Uma letra entre as pegadas
UMA LETRA ENTRE
AS PEGADAS
O benefício de ser pai é justamente assistir o que fazia na infância por outro ângulo.
Durante as manhãs de janeiro, montei castelos de areia com o meu filho e havia me esquecido de como dedicamos tempo a acertar a estrutura da composição, a mistura das paredes, o formato das colunas. Cada gesto é apuro: o cuidado com a distância do mar, o poço fundo para evitar a enxurrada, o peso das torres. Há uma ciência em moldar o barro, como se o rosto não pudesse se fixar sem os lábios. Eu explicava a decisão por um contorno e estendia o cotovelo da voz.
O que me incomodou foi minha ansiedade. Não a ansiedade de aprontar o forte, mas a ansiedade do dia seguinte para descobrir se estaria de pé. Se ele sobreviveria aos pontapés das crianças ciumentas, aos acessos de raiva do mar, aos contrabandos de margens do vento.
Custava a dormir pensando nisso, e me assustava como poderia me preocupar, agora adulto, com as emanações ingênuas da terra. Afinal, a insônia deve ser um cansaço da infância.
Assim que o sol trocava de casaco, já me postava de sunga pronto para ir à praia.
Qual era meu contentamento ao encontrar ainda um montinho cravejado de conchas. Mesmo que significasse somente um banco de areia, uma reentrância das dunas, em que me permitia localizar onde ele estava construído. Eu pulava de alegria, com a permanência de algum jeito do trabalho das mãos. O castelo estava disforme, reduzido, inofensivo (unicamente eu e meu filho poderíamos definir que aquilo fora um castelo).
Era um sinal de que nem tudo é apagado: a escrita é também leitura. As ruínas me davam satisfação para continuar. Começava a reinventar a fortaleza das sobras.
Toda vez que repetia a cena, reparei o quanto se desiste fácil da
esperança. Amores são reduzidos a aventuras. Não se deixa mais nem um pontinho daquilo que foi levantado. Nem uma marca, sequer uma cicatriz.
Os relacionamentos não mais terminam, ficam em aberto. Casos se
dissolvem, namorados ou namoradas somem e não assumem a separação. Não avisam, são demissionários do amor. Abandonam o serviço. Deixam o destino decidir para não se incomodar em explicar.
Independência nunca será virar o rosto, desimportar-se. Sou contrário a desaparecimentos, insisto em fixar castelos quando é
impossível conservá-los. Quero uma imagem derradeira e não caçar à toa na memória o que deve sobreviver.
Um amontoado de areia pode ser apenas um amontoado de areia. Ou
uma letra entre as pegadas. A dúvida não substitui o amor.