Depois do Funeral
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DEPOIS DO
FUNERAL
Capítulo I
1
O velho Lanscombe ia cambaleante, de sala em sala, suspendendo as venezianas. De vez em quando, com os olhos cansados, espiava pela janela.
Logo, todos estariam de volta do funeral. Arrastou-se um pouco mais depressa. Havia tantas janelas!
Enderby Hall era uma grande casa vitoriana em estilo gótico. Cada aposento tinha as cortinas de rico brocado desbotado ou de veludo. Algumas paredes ainda estavam cober-tas de seda desbotada. Na sala de visitas verde, o velho mordomo olhou para cima da lareira onde estava o retrato do velho Cornelius Abernethie, para quem Enderby fora cons-truída. A barba castanha de Cornelius Abernethie se destacava com certa agressividade. Sua mão estava pousada em um globo terrestre, sendo difícil saber-se se havia sido colocado ali por desejo do modelo ou se simbolizava a presunção do artista.
Cornelius Abernethie havia sido um homem muito enérgico, assim sempre pensara o velho Lanscombe, e estava satisfeito por nunca tê-lo conhecido pessoalmente. Seu pa-trão tinha sido o Sr. Richard. Bom patrão o Sr. Richard. E morrera de repente, embora já estivesse sob cuidados médicos há algum tempo. O problema é que ele nunca se re-cuperara do choque causado pela morte do jovem Mortimer. O velho balançou a cabeça enquanto entrava na saleta branca pela porta de comunicação.
Tinha sido terrível, uma verdadeira catástrofe! Um jovem tão simpático, honesto, forte e saudável! Ninguém imaginaria que tal coisa pudesse lhe acontecer. Fora lamentável, profundamente lamentável. E o Sr. Gordon morto na guerra... Uma coisa atrás da outra. Era assim que as coisas aconteciam hoje em dia. Fora demais para seu patrão.
A terceira veneziana da saleta branca se recusou a subir. Subiu um pouco e parou. As molas estavam fracas — era isto —, as molas eram muito velhas, como tudo o mais naquela casa. E não se conseguia ninguém para consertar essas peças antigas. Muito fora de moda — era o que alegavam, balançando a cabeça naquele tolo modo superior. Como se as coisas antigas não fossem muito melhores do que as modernas! Ele poderia dizer-lhes isto! Bugigangas, isto é que era metade dessas invenções modernas. Desmanchavam-se nas mãos. O material não era bom, e tampouco a mão-de-obra. Oh, sim, ele poderia dizer-lhes isto!
A não ser que fosse buscar uma escada, nada poderia fazer com relação à veneziana. Ele já não gostava muito de subir em escadas porque sentia vertigem. De qualquer maneira, por ora ele deixaria a veneziana do jeito que estava. Não tinha importância, já que a saleta branca não dava para a frente da casa e não seria vista quando os carros voltassem do funeral. E o aposento já não era tão usado. Era um aposento de senhoras, e há muito tempo não havia nenhuma senhora em Enderby. Uma pena que o Sr. Mortimer não tivesse se casado! Sempre viajando para a Noruega para pescar, para a Escócia para caçar, para a Suíça para praticar os tais esportes de inverno, em vez de se casar com uma boa moça e sossegar em casa, com crianças correndo por todo lado. Já se passara muito tempo desde a época em que havia crianças naquela casa.
E então o pensamento de Lanscombe voltou-se para uma época que se destacava clara e distintamente — muito mais do que os últimos vinte anos, enevoados e confusos. Realmente, não conseguia lembrar-se de quem havia estado por lá ou até mesmo de suas aparências. Contudo, recordava-se perfeitamente do passado.
O Sr. Richard fora uma espécie de pai para seus jovens irmãos e irmãs. Estava com vinte e quatro anos quando o pai morrera, e começara a trabalhar intensamente, saindo todo dia pontualmente como um relógio e mantendo a casa e tudo o mais da maneira mais eficiente possível.
Era uma família muito feliz, com todas aquelas moças e rapazes crescendo unidos. De vez em quando, é claro, havia algumas brigas e discussões, e as governantas tinham então bastante trabalho. Governantas eram criaturas pobres de espírito que Lanscombe sempre desprezara.
As irmãs do Sr. Richard eram muito espirituosas. Principalmente a Srta. Geraldine. A Srta. Cora também, apesar de muito mais jovem. E agora o Sr. Leo estava morto, como também a Srta. Laura. O Sr. Timothy tornara-se um inválido muito triste. A Srta. Geraldine morrera em algum lugar no estrangeiro. O Sr. Gordon morrera na guerra. Apesar de ser o mais velho, o Sr. Richard revelou-se o mais forte entre eles. Sobreviveu a todos... a quase todos, porque o Sr. Timothy ainda estava vivo, e também a pequena Cora, que se casara com um artista, um sujeito bastante desagradável. Fazia uns vinte e cinco anos que ele não a via. Era uma bonita moça na ocasião em que partira com aquele sujeito. Agora ele quase não a reconhecera. Tornara-se uma mulher muito corpulenta, e tão rebuscada na maneira de vestir! Seu marido era francês, ou quase um francês, e nenhum bem poderia resultar de um casamento com um deles. A Srta. Cora, entretanto, sempre fora um pouco simplória, como seria chamada se morasse em um vilarejo. Em toda família existe alguém assim.
Ela porém se lembrara muito bem dele.
— Ora, é Lanscombe! — exclamara, parecendo bastante satisfeita em vê-lo. Ah, antigamente todos gostavam dele! E quando havia uma festa iam todos sorrateiramente para a copa, onde ele lhes servia geléia e Charlotte russe. Naquele tempo, todos conheciam o velho Lanscombe, e agora quase ninguém se lembrava dele. A não ser os mais jovens, que ele não conseguia guardar claramente na cabeça, e que o consideravam apenas um mordomo que ali trabalhava já há algum tempo. Um bando de estranhos, pensou ele, quando os viu chegando para o funeral, e um bando de estranhos mal-arrumados.
A Sra. Leo, não, esta era diferente. Ela e o Sr. Leo estavam sempre por lá desde que se tinham casado. A Sra. Leo era muito distinta — uma verdadeira lady. Vestia-se muito adequadamente e tinha os cabelos sempre bem penteados. O patrão gostava muito dela. Era uma lástima que ela e o Sr. Leo nunca tivessem tido filhos.
Lanscombe levantou-se. O que estava ele fazendo ali parado, sonhando com o passado, quando ainda havia tanta coisa para ser feita?! Ele já cuidara de todas as venezianas do andar térreo e mandara Janet subir e arrumar os quartos de dormir. Ele, Janet e a cozinheira tinham ido assistir às exéquias, porém, em vez de irem ao crematório, haviam retornado para casa a fim de cuidar da arrumação e preparar o almoço. Almoço frio, é lógico. Presunto, galinha, língua e salada. Com suflê de limão frio e torta de maçã para terminar. Serviriam em primeiro lugar uma sopa quente, e era melhor ir ver se Marjorie já terminara de prepará-la, pois decerto estariam de volta em poucos minutos.
Lanscombe, com o passo trôpego, cruzou a sala apressadamente. Seu olhar, distraído e desinteressado, pousou no quadro em cima da lareira... o quadro que fazia par com o da sala verde. Era uma bonita pintura. Cetim branco e pérolas envolviam uma figura humana sem qualquer traço marcante. Feições inexpressivas, a boca em forma de botão de rosa, com o cabelo repartido ao meio. Uma mulher modesta e despretensiosa. A única coisa realmente digna de nota a respeito da Sra. Cornelius Abernethie era seu nome
— Coralie.
Por mais de sessenta anos após seu lançamento, a Coral Cornplasters e sua associada “Coral”, medicamentos para os pés, ainda continuavam firmes. Se alguma vez houvera alguma coisa de notável a respeito da CC, ninguém poderia dizer — entretanto, conseguira agradar ao público. Fora à custa da CC que haviam conseguido construir aquela mansão neogótica, com seus enormes jardins; o dinheiro para manter sete filhos e filhas. E possibilitara, ainda, que Richard Abernethie morresse havia três dias como um homem muito rico.
2
Ao examinar a cozinha com uma palavra de censura, Lanscombe esbarrou em Marjorie, a cozinheira. Marjorie era jovem, com apenas vinte e sete anos de idade, e representava motivo de constante irritação para Lanscombe, pois, de acordo com seu conceito, estava longe de ser uma cozinheira adequada. Ela não possuía dignidade alguma, nem a menor consideração pela posição de Lanscombe. Freqüentemente chamava aquela casa de “um respeitável velho mausoléu” e reclamava do tamanho da cozinha, copa e despensa, dizendo que “levava um dia inteiro para percorrê-las”. Estava em Enderby havia dois anos, e aí tinha permanecido porque, em primeiro lugar, o salário era bom; e, em segundo, porque o Sr. Abernethie apreciara sua comida. Cozinhava muito bem.
Janet, que estava perto da mesa de cozinha reanimando-se com uma xícara de chá, era uma empregada mais antiga que, apesar de gostar de ter freqüentes e azedas discussões com Lanscombe, aliava-se a ele contra a nova geração representada por Marjorie. A quarta pessoa na cozinha era a Sra. Jacks, que viera dar uma ajuda. Ela havia apreciado o funeral.
— Foi lindo — comentou, dando uma fungada enquanto enchia sua xícara. — Dezenove carros, a igreja repleta, e achei que o cônego fez uma bela oração. E também estava um dia esplêndido para o acontecimento. Ah, pobrezinho do Sr. Abernethie, não restam muitos como ele neste mundo! Era respeitado por todos.
Ouviu-se o som de uma buzina e de um carro chegando. A Sra. Jacks pousou a xícara e exclamou: — Aí estão eles!
Marjorie aumentou o fogo da grande panela da cremosa sopa de galinha. O enorme fogão dos dias da era vitoriana permanecia frio e intocado, como um tributo ao passado.
Os carros chegaram um após o outro, e as pessoas que saíam de dentro deles, com suas roupas pretas, moviam-se um tanto inseguras através do hall e pelo interior da grande sala de visitas verde. Por trás da grade de aço, o fogo ardia, uma homenagem aos primeiros dias outonais e previsto para neutralizar o frio adicional que se sente quando se comparece a um funeral.
Lanscombe entrou na sala oferecendo cálices de xerez em uma bandeja de prata.
O Sr. Entwhistle, antigo sócio da velha e respeitada firma Bollard, Entwhistle, Entwhistle e Bollard, estava parado de costas para a lareira, se aquecendo. Aceitou um cálice de xerez e examinou os presentes com seu astuto olhar de advogado. Ele não conhecia todos pessoalmente e sentia necessidade de decifrá-los. As apresentações feitas antes de partirem para o funeral haviam sido apressadas e superficiais.
Observando primeiro o velho Lanscombe, o Sr. Entwhistle pensou consigo mesmo: “O pobre homem está ficando muito trôpego, o que não é de admirar, com seus quase noventa anos. É uma pessoa devotada. Hoje em dia não existem mais empregados como os de antigamente. Serviços domésticos e babás. Que Deus ajude a todos nós! É um mundo triste. Talvez tenha sido melhor que Richard não vivesse por mais tempo. Ele não tinha muita razão para viver”.
Para o Sr. Entwhistle, de setenta e dois anos, a morte de Richard Abernethie, aos sessenta e oito, era sem dúvida uma morte precoce. O Sr. Entwhistle se aposentara havia dois anos, porém, na condição de testamenteiro de Richard Abernethie e em respeito a um de seus mais antigos clientes e amigo pessoal, fizera essa viagem para o norte.
Refletindo sobre as cláusulas do testamento, começou a analisar a família.
A Sra. Leo, Helen, ele conhecia bem, é claro. Uma mulher encantadora por quem nutria respeito e simpatia. Seus olhos pousaram de maneira aprovadora sobre ela, parada perto de uma das janelas. O preto lhe assentava muito bem. Ela havia conservado a boa aparência. Ele gostava de suas feições marcantes, da linha dos cabelos grisalhos ao longo das têmporas e de seus olhos violeta, que ainda possuíam uma cor bem viva.
Com quantos anos estaria Helen agora? Por volta de cinqüenta e um ou cinqüenta e dois, calculou ele. Era estranho que ela não tivesse se casado novamente após a morte de Leo. Uma mulher tão atraente! Ah, mas eles haviam sido um casal muito devotado um ao outro.
Voltou o olhar para a Sra. Timothy. Ele nunca chegara a conhecê-la muito bem. O preto não lhe assentava bem. Deveria usar tweeds. Uma mulher de aparência sensata e eficiente. Sempre fora uma boa e devotada esposa para Timothy. Tratando de sua saúde, cheia de cuidados, talvez até com certo exagero. Haveria realmente alguma coisa errada com Timothy? O Sr. Entwhistle suspeitava que era apenas um hipocondríaco. Richard Abernethie era da mesma opinião. — Tinha pulmões fracos quando criança —, dissera ele. — Mas que Deus me perdoe se eu achar que há alguma coisa de errado com ele agora.
Ah, bem, todos precisam de algum passatempo! O passatempo de Timothy era o muito absorvente cuidado com a saúde. Será que ele conseguia enganar a Sra. Timothy? Provavelmente, não, mas as mulheres nunca admitem esse tipo de coisa. Ele deveria ter uma boa renda. Nunca fora esbanjador. Contudo, um dinheiro extra não seria inoportuno, não nesses dias de tantos impostos. Depois da guerra, possivelmente ele tivera que baixar consideravelmente seu padrão de vida.
O Sr. Entwhistle transferiu a atenção para George Crossfield, filho de Laura. Laura havia se casado com um sujeito meio suspeito. Ninguém nunca soubera muito a respeito dele. Apresentava-se como corretor. O jovem George trabalhava numa firma de advogados — uma firma de reputação pouco recomendável. Era um jovem de boa aparência, embora houvesse nele algo de suspeito. Não devia ter muito dinheiro. Laura havia sido uma completa tola em seus investimentos. Havia cinco anos, quando morrera, não deixara praticamente nada. Tinha sido uma moça muito bonita e romântica, mas sem qualquer tino para negócios.
Os olhos do Sr. Entwhistle desviaram-se de George Crossfield. Qual das duas moças seria aquela? Ah, sim, aquela era Rosamund, filha de Geraldine. Estava olhando para as flores de cera colocadas em cima de uma mesa de mármore. Bonita moça; na verdade, linda, apesar de ter um rosto um tanto tolo. Trabalhava no teatro. Casara-se também com um ator. Um cara bonitão. “E ele sabe que é”, pensou o Sr. Entwhistle, que tinha preconceito contra o teatro como profissão. “Imagino que tipo de passado ele tem e de onde vem.” Lançou um olhar reprovador a Michael Shane, com seu cabelo louro e o aspecto um tanto cansado.
Quanto a Susan, filha de Gordon, esta se sairia bem melhor no palco que Rosamund. Tinha mais personalidade. Talvez até um pouco de personalidade demais para a vida do dia-a-dia. Estava muito próxima a ele e o Sr. Entwhistle pôde observá-la secretamente. Tinha cabelos escuros, olhos cor de avelã, quase dourados, e uma boca carnuda e atraente. A seu lado estava o marido, com quem se casara há pouco tempo. Era assistente de farmacêutico, pelo menos era o que ele tinha entendido. Um assistente de farmacêutico! De acordo com a mentalidade do Sr. Entwhistle, moças não se casavam com jovens que trabalhavam atrás de balcão. Mas hoje em dia, é claro, elas se casavam com qualquer um! O jovem, de cabelos ruivos e um rosto pálido e enigmático, pareceu-lhe muito inquieto. O Sr. Entwhistle ficou imaginando qual seria o motivo, mas decidiu, caridosamente, que deveria ser devido à tensão de conhecer tantos parentes da mulher em um só dia.
Cora Lansquenet foi a última a ser examinada. Havia uma certa lógica nisso, pois Cora, sem dúvida alguma, fora um imprevisto na família. A irmã mais nova de Richard nascera quando sua mãe já estava com cinqüenta anos, e aquela frágil mulher não sobrevivera à sua décima gravidez (três crianças haviam morrido na infância). Pobre Cora! Toda a vida havia sido uma espécie de embaraço, crescendo alta e desajeitada, fazendo comentários indesejáveis. Todos os seus irmãos e irmãs mais velhos haviam sido muito bondosos para com ela, atentos às suas deficiências e encobrindo suas gafes sociais. Jamais ocorrera a alguém que Cora se casaria. Ela nunca fora uma moça muito atraente, e suas claras tentativas de conquistar rapazes normalmente resultavam na fuga destes, um tanto alarmados. E então apareceu Lansquenet, Pierre Lansquenet, meio francês, que ela conhecera na Escola de Arte, onde estava tendo proveitosas lições de pintura com aquarela. De alguma forma, ela conseguira entrar para a classe de modelos vivos e lá conhecera Pierre Lansquenet; voltara para casa anunciando sua intenção de se casar com ele. Richard Abernethie foi contra a idéia — não gostara do que pudera observar em Pierre Lansquenet, e suspeitava de que, na realidade, ele estava era à procura de uma esposa rica. Mas, enquanto fazia algumas investigações sobre os antecedentes de Lansquenet, Cora fugia com o sujeito para algum lugar onde não pudessem ser encontrados, e lá se casaram. Passaram a maior parte de suas vidas na Bretanha e Cornualha e outros lugares famosos pela freqüência de pintores. Lansquenet havia sido um péssimo pintor e um marido não muito delicado; Cora, porém, continuara dedicada a ele. Richard, generosamente, mandava uma mesada, e era com esse dinheiro que eles viviam, assim acreditava o Sr. Entwhistle. Ele duvidava que Lansquenet alguma vez na vida tivesse ganho dinheiro. Já devia ter morrido há uns doze anos ou mais, pensou o Sr. Entwhistle. E agora ali estava sua viúva, um tanto arredondada, com um espalhafatoso vestido preto cheio de bordados, mexendo-se de um lado para outro, tocando nos objetos e exclamando com prazer quando se recordava de algum fato de infância. Ela fingiu muito pouco estar triste com a morte do irmão. Mas, na realidade, refletiu o Sr. Entwhistle, Cora nunca fora de fingir.
Retornando à sala, Lanscombe falou num tom baixo, adequado à ocasião:
— O almoço está servido.