Depois do Funeral

Agatha Christie · Capítulo 14 de 22

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Depois do Funeral

Capítulo XVII · Michael jogou a carta para Rosamund, que…

 

Michael jogou a carta para Rosamund, que estava do outro lado da mesa.

— Que acha disso?

— Oh, nós iremos. Não acha melhor?

— Se você quiser... — concordou Michael.

— Pode haver algumas jóias. É claro que todas as coisas naquela casa são horrorosas. Pássaros empalhados, flores de cera... ugh!

— Sim. É o próprio mausoléu. Aliás, gostaria de fazer um ou dois esboços, especialmente da sala de visitas. Da lareira, por exemplo, e daquele sofá de forma tão estranha. São perfeitos para The baronet’s progress, caso venhamos a encená-la.

Ele se levantou e olhou o relógio.

— Por falar nisso, preciso ir encontrar-me com Rosenheim. Só chegarei tarde da noite. Vou jantar com Oscar para falarmos sobre a encenação da peça e estudar as suas possibilidades no mercado americano.

— Querido Oscar! Ele ficará satisfeito em vê-lo depois de tanto tempo. Mande-lhe as minhas lembranças.

Michael olhou-a penetrantemente. Não estava mais sorrindo e em seu rosto havia uma expressão alerta e vigilante.

— O que quer dizer com “depois de tanto tempo”? Qualquer pessoa pensaria que não o vejo há meses.

— E você não o tem visto, tem?

— Sim, almoçamos juntos há apenas uma semana.

— Que engraçado! Então ele deve ter se esquecido. Telefonou ontem à noite e disse que não o via desde a noite da estréia de Tilly looks west.

— Ele deve estar maluco!

Michael riu. Rosamund, com seus olhos azuis e grandes, olhava-o sem emoção.

— Você pensa que sou uma tola, não pensa, Mick?

Michael protestou:

— Querida, é lógico que não!

— Sim, você pensa. Entretanto, não sou completamente tola. Você não esteve com Oscar naquele dia. Sei aonde foi.

— Rosamund querida... o que você está querendo dizer?

— Que sei aonde você realmente foi.

Michael, com o rosto atraente e inseguro, encarou a esposa. Ela lhe devolveu o olhar, plácida e imperturbável.

Como podia ser desconcertante um olhar verdadeiramente vazio, pensou ele de repente.

Ele foi um tanto infeliz ao falar:

— Não sei onde você está querendo chegar.

— Que é bobagem sua me contar um monte de mentiras.

— Olhe aqui, Rosamund...

Ele começou a gritar, mas parou, surpreso, quando sua mulher disse suavemente:

— Você quer encenar esta peça, não quer?

— Se eu quero!? Tem o papel com que sempre sonhei!

— Sim... era isso que eu queria dizer.

— O que exatamente você queria dizer?

— Bem, que é uma coisa que tem muito valor, mas que não se deve correr muitos riscos.

Ele encarou-a e disse vagarosamente:

— O dinheiro é seu... eu sei disso. Se você não quer se arriscar...

— O dinheiro é nosso — enfatizou Rosamund. — Acho que isso é muito importante.

— Olhe, querida. O papel de Eileen parece-me muito bom.

Rosamund sorriu.

— Não creio... realmente... que desejo interpretá-lo.

— Minha querida menina... — Michael estava espantado. — O que está acontecendo?

— Nada.

— Está, sim, você anda diferente ultimamente... melancólica... nervosa. O que há?

— Nada. Quero apenas que seja cuidadoso, Mick.

— Cuidadoso com o quê? Sempre sou cuidadoso.

— Não, não acho que seja. Você sempre pensa que pode escapar com tudo o que faz e que todo mundo acreditará no que você quiser. Outro dia você foi muito tolo a respeito de Oscar.

Michael ficou vermelho de raiva.

— E quanto a você? Você disse que ia fazer compras com Jane. Não é verdade. Jane está na América há semanas.

— Sim — concordou Rosamund. — Isso também foi tolice minha. Na realidade, fui dar uma volta... no Regent"s Park.

Michael olhou-a, intrigado.

— Regent"s Park? Você nunca foi passear no Regent"s Park em toda a sua vida. O que está acontecendo? Você tem algum namorado? Pode me dizer o que quiser, Rosamund. Você tem andado diferente ultimamente. Por quê?

— Tenho pensado em certas coisas. Sobre o que fazer...

Michael deu a volta na mesa, indo até ela num ímpeto espontâneo. Havia fervor em sua voz quando falou:

— Querida, você sabe que a amo loucamente!

Ela correspondeu ao abraço. Entretanto, quando se separaram, ele foi de novo desagradavelmente surpreendido pela estranha sagacidade que havia naqueles lindos olhos.

— Você perdoaria qualquer coisa que eu fizesse, não? — indagou ele.

— Suponho que sim — respondeu Rosamund vagamente. — Não é esse o ponto. É tudo diferente agora, entende? Temos que pensar e planejar.

— Pensar e planejar o quê?

Rosamund, com uma expressão carregada, falou:

— As coisas não acabam quando as fazemos. Na verdade, é apenas uma espécie de começo, e então é preciso decidir-se o que se deve fazer em seguida. O que é importante e o que não é.

— Rosamund...

Ela sentou-se. O rosto perplexo, o pensamento perdido na distância, onde aparentemente Michael não figurava.

Na terceira repetição de seu nome, ela começou lentamente a sair de seu sonho.

— O que disse?

— Perguntei-lhe o que estava pensando.

— Oh, sim, estava imaginando se deveria ir a... qual é mesmo o nome?... Lytchett St. Mary e ver esta tal de Srta. Alguma Coisa, a mulher que trabalhava para tia Cora.

— Para quê?

— Bem, ela irá embora em breve, não irá? Para a casa de algum parente ou algo assim. Acho que não devemos permitir que vá embora antes de lhe perguntar.

— Perguntar-lhe o quê?

— Perguntar-lhe quem matou tia Cora.

Michael arregalou os olhos.

— Você quer dizer que acha que ela sabe?

Rosamund respondeu um tanto distraída:

— Oh, suponho que sim. Ela morava lá, entende?

— Mas, se fosse assim, ela teria contado à polícia.

— Oh, não digo que ela saiba a ponto de afirmar para a polícia. Apenas que, provavelmente, ela tem bastante certeza. Por causa do que tio Richard falou quando esteve lá. Você sabe, ele foi até lá. Susan me contou.

— Porém, ela não deve ter ouvido o que ele disse.

— Ah, sim, ela deve ter ouvido, sim, querido.

Rosamund parecia alguém discutindo com uma criança irracional.

— Bobagem! Não consigo ver o velho Richard Abernethie falando de suspeitas em relação à família diante de uma desconhecida.

— Bem, isso é lógico. Mas ela poderia ter ouvido.

— Você quer dizer ouvir por acaso?

— Acho que sim... na verdade, tenho certeza. Deve ser mortalmente aborrecido duas mulheres morando sozinhas num chalé sem nunca acontecer nada, exceto lavar louça, co-zinhar, colocar o gato para o lado de fora e coisas desse gênero. É claro que ela ouvia as conversas e lia as cartas... qualquer pessoa o faria.

Michael olhou-a de uma forma que quase se aproximava do assombro.

— Você seria capaz? — ele perguntou abruptamente.

— Eu nunca iria ser dama de companhia no interior. Preferiria morrer.

— Quero dizer... você leria cartas e tudo o mais?

— Se quisesse saber de alguma coisa, sim. Todo mundo é assim, você não acha? — disse Rosamund calmamente.

Um olhar límpido encontrou o dele.

— A pessoa deseja apenas saber — continuou Rosamund. — Não quer fazer nada a respeito. Acho que foi assim que ela se sentiu. Refiro-me à Srta. Gilchrist. Estou certa de que ela sabe.

Michael falou com a voz abafada:

— Rosamund, quem você acha que matou Cora e o velho Richard?

Novamente o olhar límpido e azul encontrou o seu.

— Querido, não seja absurdo! Você sabe tão bem quanto eu. Mas é muito, muito melhor não mencionar isso nunca. E, assim sendo, nunca o faremos.