Depois do Funeral

Agatha Christie · Capítulo 19 de 22

Páginas do PDF

Depois do Funeral

Capítulo XXII · Às onze horas, Hercule Poirot convocou uma…

 

1

 

Às onze horas, Hercule Poirot convocou uma reunião informal na biblioteca. Todos estavam presentes e Poirot olhou pensativo para o semicírculo de rostos.

— Ontem à noite — começou ele —, a Sra. Shane revelou-lhes que eu era um detetive particular. Quanto a mim, esperava manter minha — digamos — camouflage por mais um pouco. Mas não importa! Hoje ou no máximo amanhã eu lhes contaria a verdade. Agora, por favor, ouçam com atenção o que tenho para lhes dizer. Na minha profissão, sou uma pessoa famosa... posso dizer que até muito famosa. Na verdade, o meu talento é inigualável.

— Tudo isso, Sr. Pont... não, Sr. Poirot, é engraçado... eu nunca ouvi falar do senhor.

— Não é engraçado — respondeu energicamente Poirot. — É lamentável. Hoje em dia não existe mais educação decente. Aparentemente não se aprende nada além de economia... e de como preparar testes de inteligência. Mas vamos ao assunto. Há muitos anos que sou amigo do Sr. Entwhistle...

— Ah, então é ele o intrometido!

— Se quiser encarar o fato dessa maneira, Sr. Crossfield. O Sr. Entwhistle ficou muito abalado com a morte de seu velho amigo, Richard Abernethie. Perturbou-se especialmente com algumas palavras proferidas no dia do funeral pela irmã do Sr. Abernethie, a Sra. Lansquenet. Palavras ditas nesta sala.

— Palavras tolas... bem típico de Cora — disse Maude. — O Sr. Entwhistle deveria ter tido mais juízo e não ter dado atenção a elas.

Poirot prosseguiu:

— O Sr. Entwhistle ficou ainda mais perturbado depois da coincidência, digamos, da morte da Sra. Lansquenet. Ele queria apenas uma coisa: ter certeza de que essa morte foi realmente uma coincidência. Em outras palavras, ele desejava ficar certo de que Richard Abernethie morrera de morte natural. Assim, ele me contratou para fazer as inves-tigações necessárias.

Houve uma pausa.

— E eu as fiz...

Nova pausa. Ninguém falou.

Poirot jogou a cabeça para trás.

— Eh bien, todos ficarão radiantes em saber que como resultado de minhas investigações... não há absolutamente razão alguma para se acreditar que a morte de Richard Abernethie não tenha sido morte natural. Não há motivo algum para se acreditar que ele tenha sido assassinado. — Ele sorriu e levantou as mãos num gesto de triunfo. — É uma boa notícia, não é?

Pela maneira como a receberam, mal parecia ser. Eles o encararam, e nos olhos de todos, exceto nos de uma pessoa, parecia haver dúvida e suspeita.

A exceção era Timothy Abernethie, que balançava a cabeça em concordância violenta.

— É claro que Richard não foi assassinado! — disse ele com raiva. — Nunca consegui compreender por que alguém, por um momento sequer, pudesse até mesmo pensar em tal coisa. Foi apenas mais uma brincadeira de Cora. Só isso. Querendo nos pregar um susto. Era essa a sua idéia de ser engraçada. A verdade é que apesar de ser minha irmã ela era um pouco maluca, pobre garota. Bem, Sr.... seja lá qual for seu nome, fico satisfeito que tenha tido juízo para chegar à conclusão correta, embora ache uma audácia do Sr. Entwhistle contratá-lo para ficar nos espionando. E se ele pensa que vai tirar os seus honorários do nosso dinheiro está muito enganado! Maldita intromissão! Quem é o Sr. Entwhistle para se meter? Se a família está satisfeita...

— Mas a família não estava, tio Timothy — retrucou Rosamund.

— Hein... o que disse?

Timothy olhou-a com ar carrancudo.

— Não estávamos satisfeitos. E o que me diz quanto a tia Helen esta manhã?

Maude respondeu rispidamente:

— Helen está numa idade em que a pessoa está sujeita a um derrame. É apenas isso.

— Entendo — disse Rosamund. — A senhora acha que foi outra coincidência.

Ela olhou para Poirot.

— Não são coincidências demais?

— Coincidências acontecem — explicou Hercule Poirot.

— Bobagem — disse Maude. — Helen sentiu-se doente e desceu para telefonar para o médico, e então...

— Ela não telefonou para o médico — afirmou Rosamund. — Eu perguntei a ele...

— Para quem ela telefonou? — apressou-se Susan.

— Eu não sei — disse Rosamund. Uma sombra de embaraço passou pelo seu rosto. — Mas garanto-lhe que vou descobrir — acrescentou, esperançosa.

 

2

 

Hercule Poirot estava sentado no pavilhão vitoriano. Tirou o relógio do bolso e pousou-o na mesa à sua frente.

Havia comunicado que partiria no trem do meio-dia. Ainda faltava meia hora. Meia hora para alguém se decidir a procurá-lo. Talvez mais de uma pessoa...

O pavilhão era perfeitamente visível da maioria das janelas da mansão. Certamente, logo alguém viria procurá-lo.

Senão, seu conhecimento da natureza humana era deficiente e a sua premissa inicial, incorreta.

Ele esperava... e, acima de sua cabeça, uma aranha na teia esperava por uma mosca.

A Srta. Gilchrist foi quem veio primeiro. Estava agitada, nervosa e um tanto incoerente.

— Oh, Sr. Pontarlier... não consigo guardar seu outro nome — disse ela. — Tive que vir falar com o senhor, apesar de não gostar de fazer isso... mas realmente achei que devia. Quero dizer, depois do que aconteceu hoje de manhã com a pobre Sra. Leo... penso que a Sra. Shane estava com toda a razão... não foi coincidência e é claro que não foi um derrame, como sugeriu a Sra. Timothy, porque meu pai teve um, e é completamente diferente. Além do mais, o médico disse claramente que era uma Concussão.

Ela fez uma pausa, tomou fôlego e olhou para Poirot com olhos Suplicantes.

— Sim? — disse Poirot, encorajadora e gentilmente. — A senhorita deseja me contar alguma coisa?

— Como eu disse, não gosto de fazer isso... porque ela foi muito bondosa. Arrumou-me uma colocação com a Sra. Timothy. Tem sido extremamente bondosa. É por isso que me sinto tão ingrata. Ela até me deu o casaco de pele da Sra. Lansquenet, que é realmente lindo e que me assenta muito bem, pois não tem importância que um casaco de pele fique um pouco grande. E, quando quis devolver-lhe o broche de ametista, ela nem me deu ouvidos...

— Está se referindo à Sra. Banks?

— Sim, o senhor entende... — A Srta. Gilchrist olhou para baixo, torcendo os dedos, infeliz. Olhou para cima e continuou com um soluço repentino: — O senhor entende... eu ouvi!

— A senhorita quer dizer que ouviu uma conversa por acaso...

— Não. — A Srta. Gilchrist balançou a cabeça com ar de heróica determinação. — Prefiro contar a verdade. E acho que não será desagradável contar-lhe porque o senhor não é inglês.

Hercule Poirot compreendeu-a sem sentir-se ofendido.

— Quer dizer que para um estrangeiro é natural que as pessoas escutem atrás das portas, abram correspondência ou leiam cartas deixadas ao acaso?

— Oh, eu nunca abri correspondência de ninguém! — exclamou a Srta. Gilchrist, chocada. — Isso nunca! Mas aquele dia eu escutei... no dia em que o Sr. Richard Abernethie foi visitar a irmã. Fiquei curiosa, entende, de ele aparecer depois de tantos anos. E eu imaginando o porquê... e... e... sabe, quando não se tem muita vida própria, tende-se a ficar interessada... quando se vive com alguém, quero dizer.

— É muito natural — afirmou Poirot.

— Sim, acho que foi natural... Embora, é claro, não seja direito. Mas eu o fiz. E ouvi o que ele disse.

— A senhorita ouviu o que o Sr. Abernethie falou para a Sra. Lansquenet?

— Sim. Foi alguma coisa como: “De nada adianta falar com Timothy. Ele acha tudo bobagem. Simplesmente, não quer ouvir. Mas achei que gostaria de me desabafar com você. Só restamos nós três. E, apesar de você sempre ter gostado de bancar a tola, acho que tem bastante bom senso. Então, o que você faria se fosse eu?”

“Não pude ouvir direito o que a Sra. Lansquenet respondeu, mas escutei a palavra „polícia"... e em seguida o Sr. Abernethie exclamou bem alto: „Não posso fazer isso. Não, quando se trata da minha própria sobrinha". E então tive que correr para a cozinha, pois alguma coisa estava queimando e, quando voltei, o Sr. Abernethie estava falando: „Mesmo que eu não morra de morte natural, não quero que chamem a polícia, se for possível evitar. Você compreende, não compreende, minha querida? Mas não se preocupe, agora que sei, tomarei todas as precauções". E ele continuou dizendo que fizera um novo testamento e que ela, Cora, ficaria muito bem. Falou também sobre ela ter sido feliz com o marido e como talvez ele tivesse cometido um erro no passado.”

A Srta. Gilchrist calou-se.

Poirot disse:

— Entendo... entendo...

— Porém, nunca quis contar nada. Creio que a Sra. Lansquenet não gostaria. Mas agora, depois de a Sra. Leo ter sido atacada esta manhã e o senhor dizendo tão calma-mente que foi coincidência... Oh, Sr. Pontarlier, não foi coincidência!

Poirot sorriu e disse:

— Não, não foi coincidência... Obrigado, Srta. Gilchrist, por ter vindo. Era muito importante que viesse.

3

 

Ele teve alguma dificuldade em se livrar da Srta. Gilchrist e era urgente que o fizesse, pois esperava outras confidências.

Seu instinto estava certo. Mal a Srta. Gilchrist saíra, Gregory Banks atravessou a passos largos o gramado e entrou impetuosamente pavilhão adentro. Seu rosto estava pálido e havia gotas de suor em sua testa. Os olhos estavam estranhamente excitados.

— Finalmente! — exclamou ele. — Pensei que aquela mulher idiota não iria embora nunca. O senhor estava completamente errado no que disse esta manhã. Errado a respeito de tudo. Richard Abernethie foi assassinado. Eu o matei.

Os olhos de Poirot percorreram a figura do agitado jovem. Ele não mostrava qualquer surpresa.

— Então o senhor o matou? De que maneira?

Gregory Banks sorriu.

— Não foi difícil para mim. O senhor certamente pode compreender isso. Existem uns quinze ou vinte diferentes tipos de droga às quais tenho acesso e que serviriam aos meus planos. Precisei de mais imaginação quanto ao método de administração, mas no final tive uma idéia muito engenhosa. A beleza da idéia estava em eu não precisar estar pre-sente na ocasião.

— Muito esperto! — comentou Poirot.

— Sim. — Gregory Banks abaixou os olhos com modéstia. Parecia satisfeito. — Sim, realmente achei que foi muito engenhoso.

Poirot perguntou, com interesse:

— Por que o matou? Pelo dinheiro que sua mulher herdaria?

— Não. É claro que não! — Subitamente Greg ficou bastante indignado. — Não sou uma pessoa ávida por dinheiro. Não me casei com Susan pelo seu dinheiro.

— Não mesmo, Sr. Banks?

— Era isso o que ele pensava — disse Greg com repentino rancor. — Richard Abernethie! Ele gostava de Susan, admirava-a, tinha orgulho dela como um exemplo do sangue dos Abernethie. Entretanto, achava que ela se casara com uma pessoa inferior a ela... ele achava que eu não servia... me desprezava. Achava que eu não falava de maneira correta, que não usava roupas apropriadas. Ele era um esnobe... um esnobe nojento.

— Não acho — retrucou Poirot calmamente. — Por tudo o que tenho ouvido falar dele, acho que Richard Abernethie não era nenhum esnobe.

— Ele era. Ele era. — O jovem falava quase com histeria. — Não me dava a menor importância. Zombava de mim... sempre muito educadamente... mas no fundo eu podia ver que ele não gostava de mim!

— É possível.

— As pessoas não podem me tratar assim e saírem ilesas! Já tentaram antes! Uma mulher que costumava trazer suas receitas para serem preparadas. Sabe o que fiz?

— Sim, eu sei — respondeu Poirot.

Gregory ficou espantado.

— Então o senhor sabe?

— Sei.

— Ela quase morreu. — Ele falava de maneira satisfeita. — Isso demonstra que não sou o tipo de pessoa que deva ser menosprezada. Richard Abernethie me desprezava... e o que lhe aconteceu? Morreu.

— Um assassinato muito bem sucedido — congratulou-se Poirot. — E por que o senhor veio se entregar? — acrescentou.

— Porque o senhor disse que já estava tudo resolvido. O senhor falou que ele não havia sido assassinado. Tinha que lhe mostrar que o senhor não era tão esperto quanto pensava, e além disso, além disso...

— Sim? — disse Poirot. — E além disso?

Greg afundou-se no banco. Sua expressão mudou. De repente tomou um ar doentio.

— Foi errado... perverso... devo ser castigado... devo voltar para o lugar da punição... para expiar as minhas faltas. Sim, pagar por elas! Receber a punição! O castigo!

Nesse momento seu rosto estava iluminado, com um brilho doentio. Poirot observou-o por uns instantes, curioso. Em seguida, perguntou:

— O senhor deseja muito se livrar de sua esposa, não?

O rosto de Gregory mudou.

— Susan? Susan é maravilhosa... maravilhosa.

— Sim, Susan é maravilhosa. E isso é uma carga pesada. Susan o ama profundamente. Isso também é uma carga, não é?

Gregory olhava para a frente, fixamente. Então ele disse, com jeito de uma criança rabugenta:

— Por que ela não me deixou em paz?

Levantou-se.

— Ela está vindo para cá agora... atravessando o gramado. Eu vou embora. Mas conte-lhe o que lhe disse. Diga-lhe que fui à polícia. Para confessar.

 

4

 

Susan entrou ofegante.

— Onde está Greg? Ele estava aqui. Eu o vi.

— Sim. — Poirot fez uma pausa antes de continuar: — Ele veio me dizer que foi ele quem envenenou Richard Abernethie...

— Que absurdo! Espero que o senhor não tenha acreditado.

— E por que não deveria acreditar?

— Ele nem estava perto daqui quando tio Richard morreu.

— Talvez não. Onde estava ele quando Cora Lansquenet foi assassinada?

— Em Londres. Nós dois estávamos.

Hercule Poirot balançou a cabeça.

— Não, não, nada feito. A senhora, por exemplo, saiu em seu carro e esteve fora a tarde toda. Acho que sei aonde a senhora foi. Foi para Lytchett St. Mary.

— Não fiz nada disso.

Poirot sorriu.

— Quando a encontrei aqui, madame, não foi, conforme lhe disse, a primeira vez que a vi. Depois do inquérito da Sra. Lansquenet, a senhora esteve na garagem do King"s Arms. Conversou com um mecânico, e perto da senhora havia um carro com um idoso senhor estrangeiro. A senhora não o notou, mas ele reparou na senhora.

— Não entendo o que quer dizer. Aquele era o dia do inquérito.

— Mas procure recordar-se do que o mecânico lhe disse. Ele perguntou se a senhora era parente da vítima e a senhora respondeu que era sua sobrinha.

— Ele estava apenas bancando o abutre. São todos uns abutres.

— E as palavras seguintes dele foram: “Ah, onde será que a vi antes?” Onde ele a tinha visto antes, madame? Deveria ter sido em Lytchett St. Mary, já que em sua mente a lembrança de tê-la visto estava ligada ao fato de a senhora ser sobrinha da Sra. Lansquenet. Ele a teria visto perto do chalé? Quando? Era uma questão que pedia investigação. E o resultado dessa investigação é que a senhora estava em Lytchett St. Mary na tarde em que Cora Lansquenet faleceu. A senhora estacionou seu automóvel na mesma pedreira onde o deixou na manhã do inquérito. O carro foi visto e o número da chapa anotado. A essa altura o Inspetor Morton já sabe de quem era o carro.

Susan encarou-o. Sua respiração estava um tanto ofegante, mas ela não dava mostras de perturbação.

— O senhor está falando bobagem, Sr. Poirot. E está me fazendo esquecer o que vim aqui dizer... Eu queria encontrá-lo sozinho...

— Para confessar que foi a senhora e não seu marido quem praticou o crime?

— Não, é lógico que não. Que tipo de tola o senhor pensa que sou? E já lhe disse que Gregory não saiu de Londres naquele dia.

— Um fato impossível de a senhora saber, já que a senhora mesma não estava lá. Por que foi a Lytchett St. Mary, Sra. Banks?

Susan respirou fundo.

— Está bem, já que o senhor insiste! O que Cora havia dito no dia do funeral me preocupava. Eu não parava de pensar naquilo. Finalmente, decidi pegar o carro e ir até lá vê-la e perguntar-lhe o que havia colocado aquela idéia em sua cabeça. Greg achava bobagem, e por isso não lhe disse nada. Cheguei lá por volta das três horas, toquei a campainha e bati na porta, mas ninguém atendeu. Achei que ela deveria ter viajado ou saído. Foi só isso que aconteceu. Não dei a volta à casa. Se eu o tivesse feito, talvez notasse a janela quebrada. Simplesmente voltei para Londres sem a menor idéia de que havia algo errado.

O rosto de Poirot estava impassível. Ele indagou:

— Por que seu marido se acusa do crime?

— Porque ele é... — A palavra tremia na língua de Susan e era rejeitada. Poirot aproveitou a oportunidade.

— A senhora ia dizer “porque ele é maluco”, em tom de brincadeira, mas a brincadeira estava muito próxima da verdade, não é?

— Greg está bem. Ele está... está...

— Sei alguma coisa a respeito da história dele — disse Poirot. — Antes de ele conhecê-la, esteve por alguns meses na Forsdyke House.

— Ele não foi forçado a se internar. Internou-se voluntariamente!

— É verdade. Ele não pode ser classificado como uma pessoa insana. Contudo ele é, fora de dúvida, desequilibrado. Tem complexo de culpa. Suspeito que o tenha desde a infância.

Susan falou apressada e ansiosamente:

— O senhor não compreende, Sr. Poirot. Greg nunca teve uma oportunidade. É por isso que eu queria tanto o dinheiro de tio Richard. Tio Richard era uma pessoa muito objetiva. Não conseguia entender. Eu sabia que Greg precisava se estabelecer na vida. Precisa sentir que é alguém, e não apenas um assistente de farmacêutico, sempre obedecendo a ordens. Agora tudo será diferente. Ele terá seu próprio laboratório. Poderá criar suas próprias fórmulas.

— Sim, sim, a senhora lhe dará o mundo... porque o ama. Ama-o demais, por segurança ou felicidade. Entretanto, não se pode dar às pessoas o que elas não estão pre-paradas para receber. No final, Gregory continuará sendo algo que não quer ser...

— O quê?

— Marido de Susan.

— Como o senhor é cruel! E como fala besteira!

— No que diz respeito a Gregory Banks, a senhora não tem escrúpulos. A senhora desejava o dinheiro de seu tio... não para si... mas para seu marido. Até que ponto a senhora o queria?

Zangada, Susan virou-se e saiu abruptamente.

 

5

 

— Pensei em passar por aqui para dizer-lhe adeus — explicou Michael.

Ele sorriu e seu sorriso era estranhamente envolvente.

Poirot tinha consciência da vitalidade e do charme daquele homem.

Por alguns momentos, em silêncio, ele estudou Michael Shane. Sentiu que de todas as pessoas do grupo aquele homem era o que conhecia menos, pois Michael apenas mos-trava o lado que queria mostrar.

— Sua esposa é uma mulher fora do comum — comentou Poirot.

Michael ergueu as sobrancelhas.

— O senhor acha? Concordo que ela é uma beleza. Mas não é lá uma pessoa muito brilhante.

— Ela nunca procurará ser muito esperta — afirmou Poirot. — Contudo, ela sabe o que quer. — Ele suspirou. — São tão poucas as pessoas que o sabem!

— Ah! — Outro sorriso iluminou o rosto de Michael. — Pensando na mesa de mármore verde?

— Talvez. — Poirot fez uma pausa e acrescentou: — E no que estava em cima dela.

— Refere-se às flores de cera?

— As flores de cera.

Michael franziu a testa.

— Nem sempre consigo entendê-lo, Sr. Poirot. — Tornou a sorrir. — Estou muito feliz em saber que estamos fora de perigo. O mínimo que posso dizer é que é desagradável andar por aí sob a suspeita de que, de uma forma ou outra, um de nós matou o pobre velho Richard.

— Foi essa a impressão que teve dele quando o conheceu? Pobre velho Richard?

— É claro que ele estava muito bem conservado e tudo o mais...

— E em plena posse de suas faculdades mentais...

— Oh, sim.

— E, na verdade, bastante perspicaz?

— Certamente que sim.

— E um perito avaliador de caráter?

O sorriso permaneceu inalterado.

— O senhor não espera que eu concorde com isso, Sr. Poirot. Ele não gostava de mim.

— Talvez achasse que o senhor fosse do tipo infiel — sugeriu Poirot.

Michael riu.

— Que idéia mais antiquada!

— Mas é verdade, não é?

— O que o senhor está querendo dizer com isso?

Poirot juntou as pontas dos dedos.

— Foram feitas algumas investigações — murmurou ele.

— Pelo senhor?

— Não apenas por mim.

Michael Shane lançou-lhe um rápido olhar inquiridor. Suas reações, notou Poirot, eram rápidas. Michael Shane não era nenhum tolo.

— O senhor quer dizer que a polícia também está interessada?

— Eles nunca ficaram muito satisfeitos em considerar o assassinato de Cora Lansquenet um crime casual.

— E eles andaram fazendo investigações a meu respeito?

— Estão interessados nos movimentos dos parentes da Sra. Lansquenet no dia em que ela foi assassinada.

— Isso é terrivelmente embaraçoso — falou Michael num tom confidencial.

— É mesmo, Sr. Shane.

— Mais do que o senhor possa imaginar. Sabe, naquele dia eu disse a Rosamund que ia almoçar com um certo Oscar Lewis.

— Quando na realidade o senhor não ia?

— Não. Na verdade, fui de carro encontrar-me com uma mulher chamada Sorrel Dainton... uma atriz bastante conhecida. Trabalhei com ela em seu último espetáculo. É um tanto embaraçoso, entende, pois, embora seja satisfatório no que diz respeito à polícia, haverá problemas com Ro-samund.

— Ah! — Poirot pareceu discreto. — Tem havido problemas em relação a essa sua amizade?

— Sim... na verdade, Rosamund fez-me prometer que eu deixaria de vê-la.

— Sim, compreendo que possa ser constrangedor... Entre nous, o senhor teve um caso com essa senhora?

— Oh, foi uma aventura. Eu não sentia nada de especial por ela.

— Mas ela gostava do senhor?

— Bem, ela tem sido bastante insistente... As mulheres grudam tanto! Contudo, pelo que o senhor disse, de qualquer maneira a polícia ficará satisfeita.

— O senhor acha?

— Bem, seria difícil eu estar assassinando Cora com uma machadinha e ao mesmo tempo namorando Sorrel a milhas de distância. Ela tem um chalé em Kent.

— Entendo... entendo... e essa Sra. Dainton testemunharia a seu favor?

— Ela não gostará disso, mas como se trata de um assassinato suponho que terá de fazê-lo.

— Talvez o fizesse mesmo que naquele dia o senhor não tivesse estado com ela.

— O que é que o senhor quer dizer? — Michael de repente assumiu um ar ameaçador.

— A jovem gosta do senhor. Quando as mulheres estão apaixonadas por um homem, juram sobre o que é verdade e sobre o que não é verdade também.

— Quer dizer que o senhor não acredita em mim?

— Não importa se eu acredito ou não. Não é a mim que o senhor deve convencer.

— A quem então?

Poirot sorriu.

— Ao Inspetor Morton... que acaba de surgir no terraço pela porta lateral.

Michael virou-se abruptamente.