Depois do Funeral
Capítulo IV · O Sr. Entwhistle passou uma noite muito…
1
O Sr. Entwhistle passou uma noite muito agitada. Pela manhã, sentia-se tão mal que não se levantou.
Sua irmã, que tomava conta da casa, trouxe-lhe o desjejum numa bandeja e comentou com severidade o quanto ele estava errado em ter ido ao norte da Inglaterra na sua idade e no seu estado de saúde.
O Sr. Entwhistle contentou-se em dizer que Richard Abernethie era um velho amigo.
— Funerais! — exclamou sua irmã com profunda censura. — Funerais são fatais para homens na sua idade. Se você não se cuidar melhor, vai desaparecer tão repentinamente quanto seu precioso Sr. Abernethie.
A palavra “repentinamente” fez com que o Sr. Entwhistle se sobressaltasse. E também o silenciou. Ele não discutiu.
Estava bem consciente do que o fizera sobressaltar-se.
Cora Lansquenet! O que ela sugerira era definitivamente impossível, mas mesmo assim ele gostaria de descobrir exatamente por que ela sugerira aquilo. Sim, ele iria até Lytchett St. Mary para vê-la. Fingiria estar ali para tratar de assunto referente ao testamento e por precisar de sua assinatura. Não havia necessidade de deixar que ela adivinhasse que ele dera atenção ao seu comentário absurdo. Mas ele iria procurá-la... e faria isso em breve.
Terminou o café e recostou-se no travesseiro para ler o The Times. Achava-o um jornal muito relaxante.
Naquela tarde, por volta das cinco e quarenta e cinco o telefone tocou.
Ele atendeu. Era o Sr. James Parrot, o atual segundo sócio de Bollard, Entwhistle, Entwhistle e Bollard.
— Ouça, Entwhistle — falou o Sr. Parrot. — Acabei de receber um telefonema de um lugar chamado Lytchett
St. Mary.
— Lytchett St. Mary?
— Sim. Parece... — O Sr. Parrot fez uma pausa. Parecia embaraçado. — É a respeito de uma tal Sra. Cora Lansquenet. Ela não é uma das herdeiras de Abernethie?
— Sim, é claro. Estivemos juntos ontem no funeral.
— Oh? Ela foi ao funeral?
— Sim. O que houve com ela?
— Bem — disse o Sr. Parrot parecendo se desculpar. — Ela... é realmente extraordinário... ela foi... assassinada.
O Sr. Parrot pronunciou a última palavra demonstrando profundo menosprezo. Não era o tipo de palavra, acentuou ele, que deveria estar ligada à firma Bollard, Entwhistle, Entwhistle e Bollard.
— Assassinada?
— Sim... sim... receio que sim. Bem, quero dizer, não há a menor dúvida.
— Como foi que a polícia chegou até nós?
— Foi por meio da dama de companhia, empregada ou seja lá o que for. Uma tal de Srta. Gilchrist. A polícia pediu o nome do parente mais próximo ou de seus advogados. E esta tal de Srta. Gilchrist pareceu um tanto incerta a respeito dos parentes e seus endereços; entretanto, sabia sobre nós. E, sendo assim, eles se comunicaram conosco imediatamente.
— O que os faz pensar que ela tenha sido assassinada? — indagou o Sr. Entwhistle.
O Sr. Parrot respondeu, constrangido:
— Oh, bem, quanto a isso parece que não pode haver dúvida... quero dizer, foi com uma machadinha ou alguma coisa desse tipo... um crime muito violento.
— Roubo?
— Essa é a idéia. Uma janela foi arrombada, desapareceram algumas jóias sem valor, as gavetas estavam abertas e tudo o mais em completa desordem; entretanto, a polícia parece pensar que pode haver algo... bem... falso nisso tudo.
— A que horas aconteceu o crime?
— Entre duas e quatro e meia desta tarde.
— Onde estava a dama de companhia?
— Trocando alguns livros na biblioteca. Ela voltou em torno das cinco horas e encontrou a Sra. Lansquenet morta. A polícia quer saber se temos alguma idéia de quem poderia tê-la atacado. — O Sr. Parrot parecia revoltado. — Eu disse que isso seria muito pouco provável.
— Sim, é lógico.
— Deve ter sido algum débil mental que anda por aquelas redondezas e que pensou que podia haver alguma coisa para roubar. Depois, perdendo a cabeça, a atacou. Deve ter sido isso... eh, não acha, Entwhistle?
— Sim, sim... — falou o Sr. Entwhistle distraidamente.
Parrot estava certo, disse para si mesmo. Deve ter sido isso que aconteceu...
Porém, para sua aflição, tornou a ouvir a voz de Cora dizendo vivamente:
“Ele foi assassinado, não foi?”
Uma tola, Cora. Sempre fora. Intrometendo-se por caminhos que nem os anjos se atreveriam a trilhar. Revelando impulsivamente verdades indesejáveis.
Verdades!
Outra vez esta maldita palavra...
2
O Sr. Entwhistle e o Inspetor Morton olharam-se com simpatia.
De maneira hábil e precisa, o Sr. Entwhistle havia exposto ao inspetor todos os fatos relevantes sobre Cora Lansquenet. Sua criação, seu casamento, sua viuvez, sua situação financeira, seus parentes.
— Seu único irmão vivo e parente mais próximo é o Sr. Timothy Abernethie, porém ele vive recluso, pois é inválido, incapacitado de sair de casa. Ele me autorizou a representá-lo e a tomar todas as providências necessárias.
O inspetor concordou com a cabeça. Era um alívio poder contar com esse astuto e experiente advogado. Além disso, ele esperava que o advogado o ajudasse a resolver o que estava começando a lhe parecer um problema um tanto intrincado. Falou:
— Tomei conhecimento pela Srta. Gilchrist de que a Sra. Lansquenet, na véspera de sua morte, havia ido ao norte para assistir ao funeral de um irmão mais velho.
— É isso mesmo, inspetor. Eu também estive lá.
— Havia algo de incomum em suas maneiras... ela parecia estranha ou amedrontada?
O Sr. Entwhistle levantou as sobrancelhas, num gesto de surpresa bem simulada.
— É comum haver alguma coisa estranha no comportamento de uma pessoa que está prestes a ser assassinada? — perguntou ele.
O inspetor sorriu um tanto desanimado.
— Não estou pensando que ela estivesse “marcada para morrer” ou que tivesse algum pressentimento. Não, estou apenas procurando alguma coisa... bem, alguma coisa fora do comum.
— Acho que não o estou compreendendo, inspetor — disse o Sr. Entwhistle.
— Não é um caso muito fácil de se compreender, Sr. Entwhistle. Digamos que alguém fica observando essa tal Gilchrist sair de casa por volta das duas horas, indo em di-reção à vila e até o ponto de ônibus. Então esse alguém, deliberadamente, apanha uma machadinha no barracão e com ela quebra a janela da cozinha. Entra na casa, sobe, ataca a Sra. Lansquenet... ataca selvagemente. Foram seis ou oito golpes.
O Sr. Entwhistle se sobressaltou.
— Oh, sim, foi um crime brutal. Em seguida, o intruso abre algumas gavetas, apanha algumas jóias sem valor, valendo no máximo dez libras, e foge.
— Ela estava na cama?
— Sim. Parece que chegara do norte na noite anterior, exausta e muito excitada. Pelo que pude entender, ela recebeu uma herança?
— Sim.
— Ela dormiu muito mal e acordou com uma terrível dor de cabeça. Tomou várias xícaras de chá, um analgésico e, em seguida, pediu à Srta. Gilchrist para não a incomodar até a hora do almoço. Não se sentindo melhor, resolveu tomar mais dois comprimidos para dormir. Mandou a Srta. Gilchrist à biblioteca para trocar alguns livros. Ela devia estar muito sonolenta, se não dormindo, quando esse homem arrombou a casa. Ele poderia ter levado tudo o que queria usando de ameaças, ou poderia facilmente tê-la amordaçado. Uma machadinha, deliberadamente trazida com ele de fora, parece-me demais.
— Talvez ele pretendesse usá-la apenas para assustá-la — sugeriu o Sr. Entwhistle. — Se ela tentasse reagir, então...
— De acordo com o laudo médico, não há o menor sinal de que ela tenha tentado. Tudo parece indicar que ela estava dormindo tranqüilamente quando foi atacada.
O Sr. Entwhistle mexeu-se inquieto na cadeira.
— Às vezes ouve-se falar desses crimes brutais e absurdos — salientou ele.
— Oh, sim, sim, provavelmente é isso. A polícia está de sobreaviso, é claro, para qualquer tipo suspeito. Não é ninguém da localidade, estamos bem certos disso. Todos os habitantes prestaram depoimentos satisfatórios. Àquela hora do dia, a maioria das pessoas está no trabalho. É evidente que o chalé fica numa viela afastada da cidade e que qualquer um poderia chegar lá facilmente sem ser visto. Há um labirinto de travessas por toda a vila. Estava uma linda manhã e há dias que não chove. Por isso não encontramos nenhuma pista de carro para seguir... no caso de alguém ter vindo de carro.
— O senhor acha que alguém veio de carro? — indagou o Sr. Entwhistle.
O inspetor encolheu os ombros. — Eu não sei. Estou apenas dizendo que existem aspectos curiosos nesse caso. Isto, por exemplo... — Ele apanhou na escrivaninha um punhado de coisas: um broche em forma de trevo com pequenas pérolas, um broche de ametistas, um pequeno cordão de pérolas e uma pulseira. — Estas são as coisas tiradas da caixa de jóias. Foram encontradas jogadas perto de um arbusto, do lado de fora da casa..
— Sim, sim, é um tanto estranho. Talvez o assaltante estivesse assustado com o que havia feito...
— Pode ser. Mas aí provavelmente ele as teria deixado lá em cima, no quarto. É óbvio que ele pode ter entrado em pânico enquanto estava entre o quarto e o portão de entrada.
O Sr. Entwhistle falou calmamente:
— Ou podem, como o senhor mesmo está sugerindo, ter sido roubadas apenas para despistar.
— Sim, há várias possibilidades. É lógico que essa tal de Gilchrist pode ser a culpada. Duas mulheres morando sozinhas... nunca se sabe que discussões, ressentimentos ou outros tipos de sentimentos podem surgir. Também estamos levando esta hipótese em consideração. Porém não me parece muito provável. Todas as informações são de que as duas se davam muito bem. — Fez uma pausa antes de prosseguir. — De acordo com o que o senhor disse, ninguém sairá ganhando com a morte de Cora Lansquenet, não é?
O advogado mexeu-se, desassossegado.
— Não foi bem isso o que eu disse.
O inspetor encarou-o atentamente.
— Pensei que o senhor tivesse dito que a fonte de renda da Sra. Lansquenet era urna mesada dada por seu irmão e, pelo que o senhor sabia, ela não tinha propriedades nem outros bens.
— É isso mesmo. O marido dela morreu na miséria e, pelo que eu me lembro de quando ela era menina, ficaria surpreso em saber que alguma vez em sua vida ela economizara ou juntara algum dinheiro.
— Nem o chalé é dela, é alugado. E as peças de mobília que lá existem não são nenhuma maravilha, mesmo para os dias de hoje. Alguns móveis rústicos e quadros sem valor. A pessoa para quem ela deixou aquilo não ganhará muito, no caso, é lógico, de ela ter deixado um testamento.
O Sr. Entwhistle balançou a cabeça.
— Nada sei sobre seu testamento. É preciso compreender que eu não a via há muitos anos.
— Então o que foi exatamente que o senhor quis dizer ainda há pouco? O senhor tinha algo em mente, não?
— Sim, eu tinha. Gostaria de ser extremamente cuidadoso e preciso.
— Estava se referindo à herança que mencionara? A que o irmão lhe havia deixado? Ela poderia dispor da herança em seu testamento?
— Não, não da forma a que o senhor se refere. Ela não poderia dispor do capital. Agora que ela morreu, será dividido entre os outros cinco beneficiários do testamento de Richard Abernethie. Foi isso que eu quis dizer. Todos serão, automaticamente, beneficiados com sua morte.
O Inspetor Morton pareceu desapontado.
— Oh, pensei que aí encontraríamos um ponto de partida. Bem, certamente não parece haver motivo para alguém chegar e golpeá-la violentamente com uma machadinha. Dá a impressão de que é coisa de algum sujeito de parafuso frouxo... talvez um desses delinqüentes juvenis. Há muitos deles espalhados por aí. E então, perdendo a calma, ele jogou fora as jóias e fugiu. Sim, deve ter sido isso. A não ser que tenha sido a respeitável Srta. Gilchrist e, devo dizer, isso me parece improvável.
— Quando foi que ela encontrou o corpo?
— Só por volta das cinco horas. Ela voltou da biblioteca no ônibus das quatro e meia. Ao chegar ao chalé entrou pela porta da frente, foi até a cozinha e preparou a chaleira para o chá. Nenhum som vinha do quarto da Sra. Lansquenet. A Srta. Gilchrist imaginou que ela ainda estivesse dormindo. Em seguida, a Srta. Gilchrist notou a janela da cozinha. Estava quebrada e havia vidro espalhado por todo o chão. Mesmo assim, a princípio pensou que tivesse sido algum garoto com uma bola ou estilingue. Subiu as escadas e entrou no quarto da Sra. Lansquenet sem fazer muito barulho, para ver se ela continuava dormindo ou se por acaso desejava tomar chá. Então gritou e saiu correndo pela travessa até o vizinho mais próximo. Sua história parece bastante convincente, e não encontramos vestígios de sangue nem em seu quarto nem em seu banheiro ou em suas roupas. Não, não creio que a Srta. Gilchrist tenha alguma coisa a ver com isso. O médico chegou lá às cinco e meia. Ele calcula que a morte tenha ocorrido antes das quatro e meia, e, provavelmente, mais próximo das duas horas. Dessa forma, seja lá quem for, estava esperando por perto que a Srta. Gilchrist saísse de casa.
O rosto do advogado crispou-se. O Inspetor Morton prosseguiu: — Suponho que o senhor irá ver a Srta. Gilchrist?
— Sim, estava pensando em ir vê-la.
— Ficaria satisfeito se o senhor fosse. Acredito que ela tenha nos contado tudo, embora nunca se possa ter certeza. Às vezes, numa conversa pode aparecer um detalhe inesperado. Ela é uma velha solteirona insignificante, mas uma mulher sensata e prática, que tem sido de muita ajuda para nós.
Fez uma pausa e em seguida prosseguiu:
— O corpo está no necrotério. Se o senhor quiser ir ver...
O Sr. Entwhistle concordou, mas sem qualquer entusiasmo.
Poucos minutos depois, ele estava parado, em pé, olhando para os restos mortais de Cora Lansquenet. Ela havia sido selvagemente atacada e o cabelo tingido estava endurecido pelo sangue coagulado. O Sr. Entwhistle crispou os lábios e afastou-se, enjoado.
Pobre Cora! Como ela havia estado ansiosa na antevéspera para saber se o irmão lhe havia deixado alguma coisa! Que previsões maravilhosas ela deveria ter tido do futuro! Quantas coisas tolas ela poderia ter feito... e se divertido fazendo-as... com aquele dinheiro.
Pobre Cora! Como duraram pouco os seus sonhos! Ninguém saíra ganhando com sua morte, nem mesmo o brutal assaltante que jogara fora as jóias ao fugir. Cinco pessoas teriam mais alguns milhares de libras acrescentados ao seu capital. Entretanto, o dinheiro que eles haviam recebido era provavelmente mais do que suficiente. Não, o motivo não estava ali. Estranho que um assassinato tenha passado pela cabeça de Cora justamente um dia antes de ela própria ser assassinada.
“Ele foi assassinado, não foi?”
Que coisa mais ridícula para se dizer! Ridícula! Completamente ridícula. Ridícula demais para ser mencionada ao Inspetor Morton.
É lógico, depois de ele conversar com a Srta. Gilchrist... Talvez a Srta. Gilchrist, apesar de ele achar pouco provável, pudesse esclarecer algo sobre o que Richard havia dito a Cora.
“Pensei que... pelo que ele havia dito...”
O que dissera Richard?
“Preciso ver a Srta. Gilchrist imediatamente”, pensou o Sr. Entwhistle 3
A Srta. Gilchrist era uma mulher magra, sem viço, de cabelos curtos e grisalhos. Tinha um desses rostos indefiníveis que as mulheres muitas vezes adquirem por volta dos cinqüenta anos.
Ela cumprimentou o Sr. Entwhistle afetuosamente.
— Fico tão satisfeita que o senhor tenha vindo, Sr. Entwhistle! Na verdade, sei muito pouco a respeito da família da Sra. Lansquenet e, é lógico, nunca tive nada a ver com assassinatos antes. É terrível demais!
O Sr. Entwhistle sentiu que realmente a Srta. Gilchrist nunca tivera nada a ver com assassinatos. Na realidade, a reação dela era muito semelhante à sua própria.
— Lê-se muito sobre crimes, é evidente — continuou a Srta. Gilchrist. — Relegando-os sempre a seu próprio círculo. E até mesmo isso eu não gosto muito de fazer. Na maioria dos casos, são sórdidos demais.
O Sr. Entwhistle olhava tudo atentamente enquanto a seguia até a sala de visitas. Havia um cheiro muito forte de tinta a óleo. O chalé estava superlotado, não bem por mobília, que correspondia bastante à descrição do Inspetor Morton, mas por quadros. As paredes estavam cobertas de quadros, a maioria de pinturas a óleo. Havia também esboços em aquarela e um ou dois de natureza-morta. Pinturas menores estavam empilhadas junto à janela.
— A Sra. Lansquenet costumava comprá-los em leilão — explicou a Srta. Gilchrist. — Coitadinha, ela se interessava muito por arte. Ia a todos os leilões que havia pelas redondezas. Os quadros hoje em dia estão bastante baratos, uma verdadeira pechincha. Ela nunca pagava mais de uma libra por eles, algumas vezes apenas alguns xelins, e costu-mava dizer que havia sempre a maravilhosa oportunidade de se obter alguma coisa de valor. Freqüentemente, falava que este era um primitivo italiano que poderia valer muito dinheiro.
O Sr. Entwhistle olhou em dúvida para o primitivo italiano que ela apontava. “Cora”, refletiu ele, “na verdade nunca entendera nada a respeito de pintura. Macacos me mordam se algum desses borrões vale mais do que uma nota de cinco libras!”
— É claro — continuou a Srta. Gilchrist, percebendo a expressão e a reação do Sr. Entwhistle. — Eu mesma não entendo muito de pintura, embora meu pai fosse pintor. Infelizmente sem sucesso, o que eu lamento muito. Quando criança, entretanto, eu costumava pintar a aquarela e ouvia falar muito sobre pintura. Sendo assim, era agradável para a Sra. Lansquenet ter com quem conversar, e alguém que entendesse um pouco do assunto. Pobrezinha, ela gostava tanto de arte!
— A senhorita gostava dela?
Era uma pergunta idiota, ele pensou consigo mesmo. Seria possível ela responder “não”? Entretanto, Cora deveria ter sido uma mulher muito cansativa para se morar junto.
— Oh, sim — respondeu a Srta. Gilchrist. — Nós nos dávamos muito bem. O senhor sabe, de certa forma Cora era igual a uma criança. Dizia tudo o que lhe viesse à cabeça. Não sei se seu “raciocínio” era sempre bom...
Não se diz de uma pessoa morta: “Ela era uma mulher inteiramente tola”, pensou o Sr. Entwhistle. Então ele disse:
— Ela não era de forma alguma o que poderíamos chamar de uma mulher intelectual.
— Não, talvez não. Entretanto, era muito perspicaz, Sr. Entwhistle. Realmente muito astuta. Algumas vezes chegava a me surpreender pela maneira como conseguia acertar em cheio.
O Sr. Entwhistle olhou para a Srta. Gilchrist com maior interesse e concluiu que ela também não era nenhuma boba.
— Creio que a senhorita estava com ela há alguns anos, não é verdade?
— Há três anos e meio.
— A senhorita... ahn... era sua dama de companhia e também... bem... cuidava da casa?
Era evidente que ele tocara num assunto muito delicado.
A Srta. Gilchrist corou ligeiramente.
— Oh, sim, de fato. Era eu quem cozinhava, a maioria das vezes. Aliás, adoro cozinhar. E fazia a arrumação da casa e outros trabalhos leves. Mas é claro que eu não fazia nenhum trabalho pesado. — O tom da Srta. Gilchrist expressava um princípio rígido.
O Sr. Entwhistle, que não tinha a menor idéia do que era “trabalho pesado”, concordou com ela num murmúrio.
— A Sra. Panter, que mora na vila, costumava vir aqui para isso, duas vezes por semana. Compreenda, Sr. Entwhistle, eu não poderia aceitar ser uma simples empregada. Quando a minha pequena casa de chá faliu... um desastre... foi a guerra, o senhor sabe. Era um lugar encantador. Chamava-se Willow Tree, e a louça azul com motivos de salgueiro era delicada e bonita. Os doces eram realmente gostosos. Sempre tive boa mão para bolos e doces. Sim, eu estava indo muito bem quando chegou a guerra e os suprimentos foram cortados, e o negócio foi à falência. Foi um acidente da guerra, é o que eu digo sempre, procurando encarar o fato sob este ângulo. Perdi o pouco dinheiro que meu pai me deixara e que eu investira todo naquele negócio. E, sendo assim, tive que procurar trabalho. Eu não tinha prática de coisa alguma. Fui trabalhar para uma senhora, mas não deu certo porque ela era muito grosseira e arrogante. Em seguida, fui trabalhar num escritório, mas detestei. E então vim para a casa da Sra. Lansquenet e nos entendemos bem desde o começo... seu marido tendo sido um artista e tudo o mais. — A Srta. Gilchrist parou para respirar e acrescentou tristemente: — Mas como eu gostava da minha querida, querida casa de chá! Era freqüentada por pessoas tão agradáveis!
Olhando para a Srta. Gilchrist, o Sr. Entwhistle teve um súbito reconhecimento... um quadro composto de centenas de distintas senhoras em numerosas casas de chá, Bay Trees, Ginger Cats, Blue Parrots, Willow Trees e Cosy Corners, todas discretamente vestidas em aventais azuis, rosa ou amarelos, anotando os pedidos de chá e bolinhos. A Srta. Gilchrist tivera uma casa de chá à moda antiga, com uma freguesia selecionada. Deveria haver, pensou ele, um grande número de Srtas. Gilchrists espalhado por todo o país, todas muito parecidas, com os rostos suaves e pacientes, o lábio superior denotando obstinação, e cabelos grisalhos.
A Srta. Gilchrist prosseguiu:
— Mas não devo ficar falando a meu respeito. A polícia tem sido muito amável e atenciosa, agindo com muita consideração para comigo. Muito amável mesmo. O Inspetor Morton saiu de seu escritório para vir até aqui e foi muito compreensivo. Até providenciou para eu passar a noite na casa da Sra. Lake, mas eu recusei. Achei que era meu dever permanecer aqui cuidando de todas as coisas bonitas que há na casa da Sra. Lansquenet. Eles levaram o... o... — a Srta. Gilchrist engoliu em seco — o corpo, trancaram o quarto, e o Inspetor Morton informou-me que um policial ficaria de serviço a noite toda na cozinha... por causa da janela quebrada, que felizmente foi de novo envidraçada esta manhã. Mas o que era mesmo que eu estava falando? Oh, sim, eu dizia que ficaria muito bem em meu próprio quarto, embora deva confessar que empurrei a cômoda para a frente da porta e coloquei um grande jarro de água no peitoril da janela. Nunca se sabe... e se por algum acaso foi um maníaco... ouve-se falar tanto nessas coisas!
Neste ponto, a Srta. Gilchrist fez uma pausa e o Sr. Entwhistle apressou-se em falar:
— Estou ciente dos fatos principais. O Inspetor Morton colocou-me a par de tudo. Entretanto, se não lhe afligisse muito, gostaria que me desse seu próprio relato.
— Pois não, Sr. Entwhistle. Entendo perfeitamente como o senhor se sente. Os policiais são tão impessoais, não são?
— A Sra. Lansquenet retornou do funeral anteontem à noite — mencionou o Sr. Entwhistle.
— Sim, seu trem só chegou bem tarde. Eu havia contratado um táxi para apanhá-la, conforme pedido seu. Ela estava muito cansada, pobrezinha, o que era bastante natu-ral, mas de resto sentia-se muito animada.
— Sim, sim. Ela comentou alguma coisa sobre o funeral?
— Muito pouco. Eu lhe servi um copo de leite quente... ela não queria outra coisa... e ela me contou que a igreja estivera repleta de pessoas, com muitas, muitas flores... Disse também que lastimava não ter visto seu outro irmão... Timothy, não é este o nome?
— Sim, Timothy.
— Disse que já haviam se passado mais de vinte anos desde a última vez que ela o vira e que esperara encontrá-lo por lá, mas que compreendia que sob tais circunstâncias ele deveria ter achado melhor não ir. Mas que a mulher dele tinha ido e que ela nunca conseguira suportar Maude... oh, Deus, desculpe-me, Sr. Entwhistle, saiu sem querer... não quis dizer...
— Não se preocupe, eu não sou parente. E acredito que realmente Cora e sua cunhada nunca se deram muito bem.
— Bem, foi quase isso. “Sempre soube que Maude se tornaria uma dessas mulheres mandonas e intrometidas”, foi isso o que ela disse. E então, como estava se sentindo muito cansada, disse que ia para a cama imediatamente. Eu já havia preparado seu saco de água quente e ela subiu.
— Não se recorda de nada especial que ela tenha dito?
— Ela não teve nenhum pressentimento do que ia acontecer, Sr. Entwhistle, se é isso que quer dizer. Estou bem certa disso. Ela estava realmente muito animada, apesar do cansaço e do... do triste ocorrido. Perguntou-me se gostaria de ir a Capri. Capri! É evidente que respondi que seria maravilhoso, que era uma coisa que eu nunca sonhara ser possível, e ela afirmou: “Nós iremos!” Falou assim mes-mo. Eu imaginei, mas na verdade não foi mencionado... que o seu irmão deveria ter-lhe deixado uma anuidade ou coisa parecida.
O Sr. Entwhistle concordou com a cabeça.
— Pobre coitada! Fico satisfeito em saber que pelo menos ela teve o prazer de fazer planos, apesar do que aconteceu.
A Srta. Gilchrist suspirou e murmurou pensativa: — Acho que agora nunca irei a Capri...
— E na manhã seguinte? — indagou o Sr. Entwhistle sem dar atenção aos lamentos da Srta. Gilchrist.
— Na manhã seguinte, a Sra. Lansquenet não estava nada bem. Na verdade, estava com uma péssima aparência. Contou-me que não dormira. Pesadelos. “É porque a senhora se cansou demais ontem”, eu lhe disse, e ela respondeu que talvez eu tivesse razão. Tomou o café da manhã na cama e não se levantou. Entretanto, na hora do almoço, disse-me que não havia conseguido dormir. “Sinto-me tão agitada!”, disse ela, “Não paro de pensar em certas coisas e ficar imaginando.” Em seguida falou que iria tomar alguns comprimidos para ver se conseguia dar uma boa dormida durante a tarde. Pediu-me para ir de ônibus até a biblioteca trocar dois livros porque lera ambos durante a viagem de trem e agora não tinha nada para ler. Normalmente, levava quase uma semana para ler dois livros. Então eu saí logo depois das duas horas e esta... esta... foi a última vez... — A Srta. Gilchrist começou a fungar. — Ela devia estar dormindo. Não deve ter ouvido nada e o Inspetor Morton garantiu-me que ela não sofreu. Ele acredita que o primeiro golpe a matou. Oh, Deus, fico doente só em pensar no que aconteceu!
— Por favor, procure se acalmar. Não desejo forçá-la a entrar em maiores detalhes. Tudo o que eu queria era saber o que a senhorita podia me contar sobre a Sra. Lansquenet antes de ocorrer a tragédia.
— O que é muito natural, tenho certeza. Diga aos parentes dela que, embora tenha passado uma noite tão ruim, ela estava realmente muito contente, aguardando o futuro com ansiedade.
O Sr. Entwhistle fez uma pausa antes de formular a pergunta seguinte. Era preciso tomar cuidado para não induzir a testemunha.
— Ela não mencionou nenhum de seus parentes em particular?
— Não, creio que não. — A Srta. Gilchrist refletiu. — A não ser o que falou sobre ter lamentado não ter visto seu irmão Timothy.
— Ela não comentou nada a respeito da doença do irmão? A... ahn... a sua origem? Nada relacionado a isso?
— Não.
Não havia nenhum sinal de alarme no rosto da Srta. Gilchrist. O Sr. Entwhistle estava certo de que haveria se Cora houvesse falado sobre seu veredicto de assassinato.
— Acho que ele já estava doente há algum tempo — observou a Srta. Gilchrist vagamente. — Embora deva dizer que fiquei surpresa ao ouvir isso. Ele parecia tão forte!
O Sr. Entwhistle perguntou, apressado:
— Quando a senhorita o viu?
— Quando ele veio visitar a Sra. Lansquenet. Deixe-me ver... há umas três semanas.
— Ele dormiu aqui?
— Oh, não. Ficou só para o almoço. Foi uma surpresa e tanto. A Sra. Lansquenet não o esperava. Imagino que existia algum problema de família. Ela não o via há anos, conforme ela mesma me revelou.
— Sim, é isso mesmo.
— Vê-lo novamente perturbou-a bastante. E também por perceber o quanto ele estava doente.
— Ela sabia que ele estava doente?
— Oh, sim, lembro-me muito bem. Porque eu fiquei imaginando se o Sr. Abernethie não estava de miolo mole. Uma de minhas tias...
Com muita habilidade o Sr. Entwhistle desviou o assunto.
— Foi alguma coisa que a Sra. Lansquenet disse que a fez pensar assim?
— Sim. A Sra. Lansquenet falou: “Pobre Richard! A morte de Mortimer o envelheceu tanto! Ele parece senil. Todas essas fantasias de alguém estar querendo envenená-lo! Pessoas idosas às vezes ficam assim”. E é lógico que sei que isso é verdade. Essa minha tia de quem eu falava estava convencida de que os empregados estavam querendo envenená-la com a comida, e no final ela só comia ovos cozidos porque, dizia, não era possível colocar veneno dentro deles. Nós achávamos graça nela, mas se fosse nos dias atuais não sei o que faríamos. Com essa escassez de ovos e a maioria vinda do estrangeiro, cozinhá-los seria sempre arriscado.
O Sr. Entwhistle estava surdo à narrativa da história da tia da Srta. Gilchrist. Ele estava profundamente perturbado. Quando, afinal, a Srta. Gilchrist interrompeu sua nervosa dissertação, ele conseguiu falar:
— Imagino que a Sra. Lansquenet não levou isso tudo muito a sério?
— Oh, não, Sr. Entwhistle, ela entendeu tudo perfeitamente bem.
O Sr. Entwhistle também achou esse comentário perturbador, embora não no sentido em que a Srta. Gilchrist havia empregado. Teria Cora Lansquenet compreendido? Talvez não no momento, mas sim mais tarde. Teria ela compreendido bem demais?
O Sr. Entwhistle sabia que Richard Abernethie nunca estivera senil. Richard mantivera-se em perfeita posse de suas faculdades mentais. E não era, de forma alguma, o tipo de homem de ter mania de perseguição. Era, como sempre havia sido, um lúcido e obstinado homem de negócios, e sua doença nada modificara a esse respeito. Parecia absurdo que ele tivesse falado com sua irmã naqueles termos. Mas era possível que Cora, com sua estranha astúcia infantil, tivesse lido nas entrelinhas e tivesse colocado os pingos nos is no que Richard Abernethie realmente dissera. Cora sempre fora uma completa tola. Não possuía nenhum bom senso, nenhum equilíbrio, e tinha um ponto de vista imaturo e infantil. Contudo, era dotada de uma estranha habilidade infantil que algumas vezes a fazia acertar em cheio de maneira bastante assustadora.
O Sr. Entwhistle deixou por isso mesmo. A Srta. Gilchrist, pensou ele, não sabia mais do que contara a ele. Perguntou-lhe se sabia se Cora Lansquenet havia deixado um testamento. A Srta. Gilchrist respondeu que o testamento da Sra. Lansquenet se encontrava no banco.
Com isso, e depois de tomar algumas providências, ele se retirou. Antes, porém, insistiu para que a Srta. Gilchrist aceitasse uma pequena quantia em dinheiro para pagar as despesas existentes. Disse que se comunicaria com ela novamente e que enquanto isso ficaria muito grato se ela per-manecesse no chalé até encontrar novo trabalho. Isso seria, respondera a Srta. Gilchrist, muito conveniente, já que, na verdade, ela não estava nem um pouco nervosa.
Ele não conseguiu sair sem que antes a Srta. Gilchrist o levasse por todo o chalé e mostrasse vários quadros do falecido Pierre Lansquenet agrupados numa pequena sala de jantar. O Sr. Entwhistle ficou perplexo. A maioria era de nus, falhos na técnica de desenho mas extremamente minuciosos nos detalhes. Foi também forçado a admirar vários pequenos desenhos a óleo de pitorescos portos de pesca feitos pela própria Cora.
— Polperro — disse a Srta. Gilchrist orgulhosamente. — Estivemos lá no ano passado e a Sra. Lansquenet ficou encantada com seu caráter pitoresco.
O Sr. Entwhistle, vendo Polperro com vistas tomadas do sudoeste, noroeste e, provavelmente, de outros pontos cardeais, chegou à conclusão de que a Sra. Lansquenet deveria ter ficado realmente muito entusiasmada.
— A Sra. Lansquenet prometeu me deixar seus desenhos — disse a Srta. Gilchrist ansiosamente. — Eu os admiTO tanto! Podem-se realmente ver as ondas se quebrando neste aqui, não é mesmo? No caso de ela ter se esquecido, talvez eu pudesse ficar com um como lembrança, o senhor não acha?
— Estou certo de que isso pode ser arranjado — garantiu o Sr. Entwhistle amavelmente.
Ele tomou mais algumas providências e em seguida retirou-se para uma entrevista com o gerente do banco e para maiores consultas com o Inspetor Morton.
Capítulo V
1
— Você está esgotado — disse a Srta. Entwhistle, naquele tom indignado e ameaçador adotado por irmãs devotadas e que cuidam da casa para os irmãos. — Não deveria fazer isso na sua idade. Gostaria de saber o que é que isso tudo tem a ver com você. Você está aposentado, não está?
O Sr. Entwhistle explicou calmamente que Richard Abernethie tinha sido um de seus melhores amigos.
— Certamente! Entretanto, Richard Abernethie está morto, não está? Então não vejo razão para você se envolver em coisas que não lhe dizem respeito e morrer de frio nesses desagradáveis trens cheios de corrente de ar. E também assassinatos! Não consigo entender por que o chamaram lá.
— Comunicaram-se comigo porque no chalé havia uma carta assinada por mim, avisando Cora dos arranjos para o funeral.
— Funerais! Um funeral atrás do outro... e, por falar nisso, outro desses preciosos Abernethie tem telefonado... Timothy, acho que é este o nome. Tem telefonado de algum lugar de Yorkshire, e o assunto também é sobre um funeral! Disse que tornaria a ligar mais tarde.
Naquela noite uma chamada para o Sr. Entwhistle foi completada. Atendendo ao telefone, ele ouviu a voz de Maude Abernethie do outro lado.
— Graças a Deus, consegui finalmente encontrá-lo! Timothy tem andado num estado terrível. As notícias a respeito de Cora o perturbaram enormemente.
— Isto é bastante compreensível — observou o Sr. Entwhistle.
— O que foi que o senhor disse?
— Disse que era perfeitamente compreensível.
— É, suponho que sim. — Maude parecia incerta. — Quer dizer que foi realmente assassinato?
(“Foi assassinato, não foi?”, havia dito Cora. Mas dessa vez não havia hesitação quanto à resposta.)
— Sim, foi assassinato — afirmou o Sr. Entwhistle.
— E pelo que li nos jornais foi com uma machadinha.
— Sim.
— Parece-me tão inacreditável! — comentou Maude. — A irmã de Timothy, sua própria irmã, assassinada com uma machadinha!
Para o Sr. Entwhistle também não parecia menos inacreditável. A vida de Timothy era tão afastada de violência que se sentia que até mesmo seus parentes deveriam estar igualmente imunes a ela.
— Receio que tenhamos que enfrentar o fato — disse o Sr. Entwhistle gentilmente.
— Na verdade, estou muito preocupada com Timothy. Tudo isso é muito ruim para ele! Agora consegui colocá-lo na cama, mas ele insiste em que eu convença o senhor a vir até aqui para vê-lo. Quer saber uma centena de coisas: se vai haver inquérito, quem deverá comparecer, quando será o funeral, onde, que capital disponível existe, se Cora expressou algum desejo de ser cremada ou algo assim, se deixou um testamento...
O Sr. Entwhistle interrompeu-a antes que a lista se tornasse longa demais.
— Sim, existe um testamento. E ela nomeou Timothy seu testamenteiro.
— Oh, Deus, receio que Timothy não possa incumbir-se de nada...
— A firma cuidará de tudo. O testamento é muito simples. Ela deixou seus desenhos e um broche de ametista para a dama de companhia, a Srta. Gilchrist, e o restante para Susan.
— Susan? Mas por que Susan? Acho que ela nem conhecia Susan... pelo menos, não a via desde que ela era um bebê.
— Imagino que ela tenha sido informada que Susan havia feito um casamento que não agradara totalmente à família.
Maude falou de modo zangado:
— Até mesmo Gregory é um bocado melhor do que Pierre Lansquenet! É lógico que casar com um homem que trabalha numa loja seria inadmissível no meu tempo, porém uma farmácia é muito melhor do que um armarinho, e Gregory pelo menos me parece uma pessoa respeitável. — Fez uma pausa e acrescentou: — Isso significa que Susan fica com a renda que Richard deixou para Cora?
— Oh, não. O capital será dividido de acordo com as instruções do testamento de Richard. Não, a pobre Cora tinha apenas algumas centenas de libras e a mobília de sua casa para deixar. Quando pagarem as dívidas existentes e a mobília for vendida, duvido que tudo venha a somar mais do que quinhentas libras. — Ele prosseguiu: — Evidentemente terá que haver um inquérito. Está marcado para a próxima quinta-feira. Se Timothy estiver de acordo, mandaremos o jovem Lloyd para acompanhar o processo em nome da família. — Acrescentou, desculpando-se: — Receio que vá atrair a atenção do público devido... ahn... às circunstâncias.
— Mas que desagradável! Já prenderam o desgraçado que cometeu o crime?
— Ainda não.
— Suponho que tenha sido um desses jovens meio malucos que perambulam por aí assassinando pessoas. A polícia é tão incompetente!
— Não, não — retrucou o Sr. Entwhistle. — A polícia não é, de forma alguma, incompetente. Não pense isso nem por um momento.
— Bem, tudo me parece bastante estranho. E é tão ruim para Timothy! Seria possível o senhor vir até aqui, Sr. Entwhistle? Eu ficaria muito agradecida se viesse. Acredito que Timothy se acalmaria se o senhor estivesse aqui para tranqüilizá-lo.
O Sr. Entwhistle ficou calado por um momento. O convite não chegara em má hora.
— Acho que a senhora tem razão — admitiu ele. — E também irei precisar, para certos documentos, da assinatura de Timothy, já que ele é o testamenteiro. Sim, acho que é uma boa idéia.
— Isso é esplêndido! Estou tão aliviada! Amanhã? O senhor passará a noite aqui? O melhor trem é o das onze e vinte, que sai de St. Pancras.
— Receio que tenha que pegar o trem da tarde. Tenho um outro compromisso pela manhã — explicou o Sr. Entwhistle.
2
George Crossfield cumprimentou o Sr. Entwhistle cordialmente, embora com uma certa surpresa.
O Sr. Entwhistle falou de uma maneira elucidativa, mas que na verdade não explicava nada:
— Acabei de chegar de Lytchett St. Mary.
— Então foi mesmo a tia Cora? Li sobre o caso nos jornais, mas eu simplesmente não podia acreditar. Pensei que se tratava de alguém com o mesmo nome.
— Lansquenet não é um nome comum.
— Não, é claro que não. Suponho que é uma aversão natural que se tem em acreditar que alguém de sua própria família tenha sido assassinado. Parece muito com aquele caso que aconteceu mês passado em Dartmoor.
— Parece?
— Sim. As mesmas circunstâncias. Um chalé num lugar solitário. Duas mulheres idosas morando juntas. A soma de dinheiro roubado bastante desprezível e insignificante.
— O valor do dinheiro é sempre muito relativo — afirmou o Sr. Entwhistle. — O que conta é a necessidade.
— Sim, sim, suponho que o senhor tenha razão.
— Se a pessoa precisa desesperadamente de dez libras, então quinze libras são mais do que o suficiente. E também ocorre o inverso. Se a sua necessidade é de cem libras, quarenta e cinco libras de nada adiantarão. E, se a pessoa precisar de milhares de libras, então umas centenas não resolverão o problema.
George, com um brilho repentino nos olhos, falou: — Eu diria que hoje em dia qualquer dinheiro é bem-vindo. Todo mundo está com dificuldades financeiras.
— Mas não desesperados — observou o Sr. Entwhistle. — É o desespero que conta.
— O senhor está pensando em alguma coisa especial?
— Oh, não, em absoluto. — Fez uma pausa para em seguida prosseguir: — Como levará algum tempo até que se resolva a questão da herança, será que o senhor acharia conveniente receber um adiantamento?
— Aliás, eu ia tocar neste assunto. Entretanto, esta manhã fui ao banco e mencionei seu nome, e eles foram muito gentis em relação a um cheque em descoberto.
Tornou a aparecer o mesmo brilho nos olhos de George, e o Sr. Entwhistle, com sua profunda experiência, o reconheceu. George, ele teve certeza, tinha estado se não desesperado, pelo menos em grandes dificuldades financeiras. Naquele momento, ele soube o que sentira o tempo todo subconscientemente. Em matéria de dinheiro ele jamais confiaria em George. Ficou imaginando se o velho Richard Abernethie, que também possuíra grande experiência em julgar os homens, havia sentido o mesmo. O Sr. Entwhistle estava certo de que, depois da morte de Mortimer, Richard Abernethie tivera a intenção de fazer de George seu herdeiro. George não era um Abernethie, mas era o único homem da geração mais jovem. Era o sucessor natural de Mortimer. Richard Abernethie convidara George para sua casa e o hospedara por alguns dias. Tudo indicava que, ao terminar a visita, Richard não achara George satisfatório. Teria ele sentido instintivamente, como sentira o Sr. Entwhistle, que George não era honesto? A família achava que o pai de George havia sido má escolha da parte de Laura. Um corretor com outras atividades um tanto misteriosas. George puxara mais ao pai do que aos Abernethie.
Talvez interpretando mal o silêncio do velho advogado, George falou com um riso nervoso:
— A verdade é que ultimamente não tenho tido muita sorte nos meus investimentos. Arrisquei-me um pouco e não deu certo. Perdi praticamente todo o meu dinheiro. Agora, entretanto, vou poder me recuperar. Tudo o que a pessoa precisa é de um bom capital. Ardens Consolidated é um bom negócio, não acha?
O Sr. Entwhistle não concordou nem discordou. Estava pensando se, por algum acaso, George andara especulando com o dinheiro dos clientes e não com seu próprio. Se George correra o risco de ser processado.
O Sr. Entwhistle falou com firmeza:
— Tentei localizá-lo no dia seguinte ao funeral, mas creio que você não estava no escritório.
— O senhor me procurou? Não me disseram nada. Na verdade, achei que tinha direito a um dia de folga depois das boas novas!
— Boas novas?
George enrubesceu.
— Oh, olhe aqui, não estava me referindo à morte de tio Richard. Mas herdar muito dinheiro deixa qualquer um eufórico. Sente-se necessidade de celebrar. Na realidade, fui ao Hurst Park. Acertei em dois vencedores. Quando se está com sorte, tudo dá certo. Ganhei apenas cinqüenta libras, mas sempre ajuda.
— Oh, sim — concordou o Sr. Entwhistle. — Sempre ajuda. E agora você receberá uma soma adicional resultante da morte de Cora.
George pareceu preocupado.
— Coitada dela! — lastimou. — Foi muito azar, não foi? Logo agora que ela ia aproveitar a vida.
— Vamos torcer para que a polícia encontre a pessoa responsável por sua morte — disse o Sr. Entwhistle.
— Espero que o peguem logo. A nossa polícia é boa. Pode reunir todos os criminosos em potencial da redondeza e dar uma checada... fazer com que prestem conta de suas ações na hora do ocorrido.
— Não é assim tão fácil depois que já se passou algum tempo — afirmou o Sr. Entwhistle, dando um sorriso de quem estava prestes a dizer uma piada. — Eu mesmo estava na Livraria Harchard às três e meia no dia em questão. Será que eu me lembraria se fosse interrogado pela polícia dez dias depois? Duvido muito. E você, George, você estava no Hurst Park. Será que você se lembraria em que dia você foi às corridas depois de... digamos... de um mês?
— Oh, eu poderia tomar como base o funeral. Foi no dia seguinte.
— Está certo. E você apostou em dois vencedores. Outra ajuda para a memória. Raramente alguém se esquece do nome de um cavalo com o qual se ganhou dinheiro. A propósito, quais foram?
— Deixe-me ver... Gaymark e Frogg II. Sim, não os esquecerei tão cedo.
O Sr. Entwhistle deu um riso seco e curto e se retirou.
3
— É ótimo vê-lo — disse Rosamund sem qualquer sinal de entusiasmo. — Porém é terrivelmente cedo.
Ela bocejou com exagero.
— São onze horas — observou o Sr. Entwhistle.
Rosamund tornou a bocejar. Ela falou se desculpando:
— Demos uma festa daquelas ontem à noite. Bebida à vontade. Michael ainda está com uma terrível ressaca.
Nesse momento apareceu Michael, também bocejando. Trazia uma xícara de café preto na mão e usava um roupão muito elegante. Era magro, atraente, e seu sorriso tinha o encanto habitual. Rosamund estava de saia preta, um casaco amarelo um tanto sujo e, pelo que o Sr. Entwhistle pudera observar, nada mais além disso.
O exigente e minucioso advogado não aprovava de maneira alguma a forma de viver dos jovens Shane. Um apartamento quase desmoronando em Chelsea... garrafas, copos, pontas de cigarros espalhados por toda a sala... o ambiente poeirento e desarrumado. Em meio a esse cenário desalentador, floresciam Rosamund e Michael com suas aparências maravilhosas. Formavam, sem dúvida alguma, um casal muito bonito, e pareciam gostar muito um do outro. Era evidente, pensou o Sr. Entwhistle, que Rosamund era profundamente apaixonada por Michael.
— Querido — disse ela —, que acha de um pequeno gole de champanha? Apenas para nos reanimar e fazer um brinde ao futuro. Oh, Sr. Entwhistle, foi realmente uma sorte incrível o tio Richard nos deixar todo aquele dinheiro justamente agora!...
O Sr. Entwhistle percebeu o rápido olhar zangado que Michael lhe lançou, mas mesmo assim Rosamund continuou tranqüilamente:
— Porque há uma esplêndida oportunidade para encenarmos uma peça. Tem um papel simplesmente maravilhoso para Michael e também um pequeno papel para mim. É sobre um desses jovens marginais, o senhor sabe, na verdade eles são santos... e repletos de idéias avançadas.
— É o que parece — comentou o Sr. Entwhistle com frieza.
— Ele rouba, mata, é perseguido pela polícia, pela sociedade e, então, no final, faz um milagre.
O Sr. Entwhistle se mantinha calado, indignado. Quantas bobagens perniciosas esses jovens tolos diziam! E escreviam!
Não que Michael Shane estivesse falando muito. Havia em seu rosto um leve ar zangado.
— O Sr. Entwhistle não está interessado em ouvir as nossas histórias particulares. Fique um pouco de boca fechada e deixe que ele nos diga por que veio nos procurar.
— Há um ou dois assuntos para resolver — explicou o Sr. Entwhistle. — Estou acabando de chegar de Lytchett St. Mary.
— Então foi mesmo a tia Cora que foi assassinada. Li a notícia nos jornais. Achei que deveria ser ela porque o nome é muito pouco comum. Pobre tia Cora! Eu a estava observando no dia do funeral e pensando o quanto ela era desmazelada e que para uma pessoa com aquela aparência era melhor estar morta... e agora ela está morta! Ontem à noite ninguém queria acreditar quando lhes contei que a mulher que fora assassinada com uma machadinha era minha tia. Eles simplesmente riram, não foi, Michael?
Michael não respondeu, e Rosamund, com toda a aparência de que estava se divertindo, continuou:
— Dois assassinatos, um atrás do outro. É demais, não é?
— Não seja tola, Rosamund! Seu tio Richard não foi assassinado!
— Bem, Cora achava que sim.
O Sr. Entwhistle interveio para indagar:
— Vocês voltaram para Londres logo após o funeral, não?
— Sim, viemos no mesmo trem que o senhor.
— É claro. Perguntei porque tentei me comunicar com vocês — ele lançou um rápido olhar para o telefone — no dia seguinte, várias vezes aliás, e ninguém respondeu.
— Oh, sinto muito. O que foi mesmo que fizemos naquele dia? Anteontem. Ficamos em casa até por volta do meio dia, não foi? Então você saiu para tentar encontrar Rosenheim e almoçar com Oscar, e eu saí para comprar algumas roupas íntimas e percorri algumas lojas. Deveria me encontrar com Janet, porém nos desencontramos. Sim, passei uma tarde esplêndida fazendo compras... e depois jantamos no Castile. Creio que chegamos por volta das dez horas.
— É, foi por volta disso — confirmou Michael. Ele estava olhando pensativo para o Sr. Entwhistle. — Para que o senhor estava nos procurando?
— Oh, eram apenas alguns detalhes que apareceram a respeito da herança de Richard Abernethie. Papéis para assinar e coisas assim.
— Receberemos o dinheiro agora ou só daqui a séculos? — perguntou Rosamund.
— Receio que a lei esteja sujeita a atrasos — observou o Sr. Entwhistle.
— Mas poderemos conseguir um adiantamento, não? — Rosamund parecia alarmada. — Michael disse que sim. Na verdade, é terrivelmente importante. Por causa da peça.
Michael falou gentilmente:
— Oh, não há tanta pressa assim. É apenas uma questão de decidirmos se vamos ou não encenar a peça.
— Será muito fácil adiantar-lhes algum dinheiro — explicou o Sr. Entwhistle. — A quantia que for preciso.
— Então está tudo bem. — Rosamund respirou aliviada. Em seguida, acrescentou: — Tia Cora deixou algum dinheiro?
— Um pouco. Deixou-o para sua prima Susan.
— Gostaria de saber por que Susan. É muito?
— Poucas centenas de libras e alguns móveis.
— Bonitos?
— Não — respondeu o Sr. Entwhistle. Rosamund então perdeu o interesse pelo assunto.
— É tudo muito estranho, não é? — comentou ela. — Depois do funeral, lá estava Cora saindo-se de repente com “Ele foi assassinado!”, e então, exatamente no dia se-guinte, ela própria é assassinada. Quero dizer, é estranho, não é?
Houve um momento de silêncio um tanto desconfortável antes que o Sr. Entwhistle falasse calmamente:
— Sim, é realmente muito estranho...
4
O Sr. Entwhistle estudou Susan Banks enquanto ela se inclinava para a frente da mesa, falando com seu modo animado.
Não havia nela nada da beleza de Rosamund. Possuía, entretanto, um rosto atraente, e sua atração residia, concluiu o Sr. Entwhistle, em sua vitalidade. A curva da boca era harmoniosa e carnuda. Era uma boca feminina e seu corpo, decididamente, o de uma mulher... e de uma forma bastante expressiva. Entretanto, em muitos aspectos, Susan lembrava seu tio, Richard Abernethie. O formato da cabeça, a linha do queixo, os olhos fundos e pensativos. Possuía o mesmo tipo de personalidade dominante de Richard e a mes-ma clarividência e avaliação correta das coisas. Dos três membros da jovem geração só ela parecia ser feita da mesma fibra que criara a vasta fortuna dos Abernethie. Haveria Richard reconhecido em sua sobrinha um espírito idêntico ao seu? O Sr. Entwhistle acreditava que sim. Richard sempre tivera aguçado julgamento do caráter das pessoas. Ali, seguramente, estavam as qualidades que ele procurava. E, contudo, em seu testamento Richard Abernethie não fizera nenhuma distinção em seu favor. Desconfiado em relação a George, assim pensava o Sr. Entwhistle, ignorando aquela linda tola, Rosamund, não poderia ele ter encontrado em Susan o que buscava... um herdeiro com vigor semelhante ao seu?
Senão, o motivo deveria ser, sim, era lógico: o marido...
O olhar do Sr. Entwhistle passou por cima do ombro de Susan e pousou em Gregory Banks, que distraidamente apontava um lápis.
Era um jovem de cabelos ruivos, magro, pálido, fisionomia indecifrável. Tão ofuscado pela personalidade brilhante de Susan que era difícil chegar-se a uma conclusão de como ele realmente era. Não havia nada de especial a seu respeito, parecia até bastante agradável, sempre pronto a concordar. Contudo, isso não era bastante para descrevê-lo. Havia algo de vagamente inquietante no indecifrável Gregory Banks. Ele não era par para ela; entretanto, ela insistira em casar-se com ele, enfrentando todas as oposições. Por quê? O que ela teria visto nele?
E agora, seis meses após o casamento, “ela é louca pelo sujeito”, concluiu o Sr. Entwhistle. Ele conhecia todos os sintomas. Um grande número de casos havia passado pela firma Bollard, Entwhistle, Entwhistle e Bollard. Esposas profundamente devotadas a maridos inadequados e aparentemente sem qualquer atrativo, e esposas desdenhosas e en-fastiadas com maridos atraentes e impecáveis. O que essas mulheres viam em determinados homens ia além da compreensão humana. Era assim e ponto final. Uma mulher poderia ser inteligente em relação a tudo o que existe no mundo e uma completa tola quando se tratasse de determinado homem. Susan, pensou o Sr. Entwhistle, era uma dessas mulheres. Para ela o mundo girava em torno de Greg. E isso era extremamente perigoso.
Susan falava com ênfase e indignação:
— ...é uma vergonha. O senhor está lembrado daquela mulher que foi assassinada em Yorkshire no ano passado? Nunca prenderam o criminoso. E a velha da loja de doces que foi morta com uma alavanca?! Detiveram um sujeito e em seguida o soltaram!
— É preciso provas, minha querida — explicou o Sr. Entwhistle.
Susan não lhe deu atenção.
— E aquele outro caso, o da enfermeira reformada, acho que foi com uma machadinha, exatamente como tia Cora.
— Ora veja, parece-me que você fez um completo estudo desses crimes, Susan — comentou o Sr. Entwhistle calmamente.
— Naturalmente, a pessoa não se esquece dessas coisas, e quando alguém de sua própria família é assassinado e da mesmíssima forma... bem, isso demonstra que deve haver lá pelo interior muita gente desse tipo, invadindo casas e atacando mulheres solitárias... e que a polícia simplesmente não está se importando!
O Sr. Entwhistle balançou a cabeça.
— Não menospreze a polícia, Susan. São homens astutos, pacientes, e também bastante persistentes. Apenas porque ainda não foi mencionado nos jornais, não quer dizer que o caso esteja encerrado. Longe disso!
— Mesmo assim todo ano há centenas de crimes não solucionados.
— Centenas? — O Sr. Entwhistle parecia em dúvida. — Um certo número, sim. Mas existem ocasiões em que a polícia sabe quem cometeu o crime, mas as provas não são suficientes para uma instauração de processo.
— Não acredito nisso — afirmou Susan. — Acho que quando se sabe com certeza quem cometeu o crime sempre é possível conseguir-se a prova.
— Não estou bem certo disso. — O Sr. Entwhistle parecia pensativo. — Não estou bem certo...
— Eles têm alguma idéia... no caso de tia Cora... de quem poderia ser o assassino?
— Eu não saberia responder. Pelo que sei, não. Contudo é pouco provável que me contassem. E também ainda é cedo; lembre-se de que o crime ocorreu apenas anteontem.
— Não há dúvida de que deve ter sido um tipo determinado de pessoa. — Susan refletiu. — Um tipo selvagem, talvez um doente mental ou um criminoso incorrigível. O que eu quero dizer é que usar uma machadinha daquela forma...
Parecendo ligeiramente zombeteiro, o Sr. Entwhistle murmurou, levantando as sobrancelhas:
“Com muitos golpes de machadinha
Lizzie Borden seu pai matou.
Quando viu o que havia feito,
Com muitos mais sua mãe golpeou”.
— Oh! — exclamou Susan, vermelha de raiva. — Cora não morava com nenhum parente, a não ser que o senhor esteja se referindo a sua dama de companhia. E, de qualquer maneira, Lizzie Borden foi solta. Ninguém tinha certeza de que ela matara os pais.
— O verso é bastante acusatório — observou o Sr. Entwhistle.
— Quer dizer que foi a dama de companhia? Tia Cora deixou-lhe alguma coisa?
— Um broche de ametista de pouco valor e alguns quadros de vilas de pescadores de valor apenas sentimental.
— É preciso ter um motivo para cometer um assassinato, a não ser que se seja doido.
O Sr. Entwhistle soltou um pequeno riso.
— Por enquanto, pelo que sabemos, a única pessoa que tinha motivo era você, minha querida Susan.
— O que disse? — Greg repentinamente deu um passo à frente: era como se tivesse despertado.
De repente, ele não era mais a figura desprezível em segundo plano.
— O que Susan tem a ver com isso? O que o senhor está querendo insinuar?
Susan falou com frieza:
— Cale a boca, Greg. O Sr. Entwhistle não quis insinuar nada.
— Era apenas uma brincadeira — desculpou-se o Sr. Entwhistle. — Receio que de mau gosto. De acordo com o testamento de Cora, você é a herdeira, Susan. Mas, para uma jovem que acabou de herdar milhares de libras, um legado de no máximo algumas centenas de libras dificilmente poderá ser considerado motivo para um assassinato.
— Ela deixou seu dinheiro para mim? — surpreendeu-se Susan. — Que estranho! Ela nem me conhecia. Por que o senhor acha que ela fez isso?
— Creio que ela ouviu alguns boatos a respeito de alguns problemas... ahn... com seu casamento. — Greg, que continuava a apontar o lápis, franziu a testa. — Como houve certos problemas com seu próprio casamento, acho que ela sentiu uma certa afinidade de situação.
— Ela casou-se com um artista de quem a família não gostava, não é isso? Ele era um bom pintor? — indagou Susan com certo interesse.
O Sr. Entwhistle negou com a cabeça, muito decididamente.
— Há algum de seus quadros no chalé?
— Sim.
— Então eu mesma irei julgá-los.
O Sr. Entwhistle sorriu diante da firmeza de Susan.
— Então que seja assim. Sem dúvida, sou uma pessoa irremediavelmente antiquada a respeito de arte. Estou seguro, entretanto, que você não irá contestar meu veredicto.
— Suponho que, de qualquer modo, eu deva ir até lá para dar uma olhada. Há alguém no chalé?
— Providenciei para que a Srta. Gilchrist permanecesse lá por mais algum tempo.
— Ela deve ter nervos de aço para ficar numa casa onde foi cometido um assassinato — disse Greg.
— Eu diria que a Srta. Gilchrist é uma mulher bastante sensata. Além do mais — acrescentou o advogado secamente —, não creio que ela tenha lugar para ficar até que arranje outro trabalho.
— Quer dizer que a morte de tia Cora deixou-a de mãos vazias? Ela... ela e tia Cora se davam bem?
O Sr. Entwhistle olhou-a bastante curioso, tentando imaginar exatamente o que se passava em sua cabeça.
— Creio que se davam razoavelmente bem. Ela nunca tratou a Srta. Gilchrist como empregada.
— Provavelmente, tratava-a bem pior do que isso — opinou Susan. — Hoje em dia essas pseudomadames são as que mais se aproveitam desse tipo de pessoa. Tentarei lhe arranjar uma colocação decente em algum lugar. Qualquer pessoa que esteja disposta a fazer um pouco de trabalho doméstico e cozinhar está valendo ouro. Ela cozinha, não?
— Oh, sim; pelo que entendi é apenas ao “trabalho pesado” que ela faz objeções. Receio que eu não tenha entendido bem o que significa “trabalho pesado”.
Susan parecia bastante divertida.
Olhando para o relógio, o Sr. Entwhistle comunicou:
— Sua tia deixou Timothy como testamenteiro.
— Timothy — disse Susan com desprezo. — Tio Timothy é praticamente um mito. Ninguém nunca o vê.
— Realmente. — O Sr. Entwhistle tornou a olhar o relógio. — Viajarei esta tarde para vê-lo. Informar-lhe-ei de sua decisão de ir até o chalé.
— Devo ficar lá por apenas um ou dois dias. Não quero me afastar de Londres por muito tempo. Tenho vários planos. Vou entrar para o mundo dos negócios.
O Sr. Entwhistle olhou em torno da pequena sala de visitas do minúsculo apartamento. Era evidente que Greg e Susan tinham problemas financeiros. O pai de Susan, pelo que ele sabia, havia gasto a maior parte do seu dinheiro. Deixara a filha em má situação.
— Será que posso perguntar quais são seus planos para o futuro?
— Estou de olho em um imóvel na Cardigan Street. Suponho que, se for necessário, o senhor poderá me adiantar algum dinheiro, não? Tenho que pagar um depósito.
— Isso pode ser arranjado — afirmou o Sr. Entwhistle. — Telefonei-lhe várias vezes no dia seguinte ao funeral, mas ninguém atendeu. Pensei que poderia estar interessada em um adiantamento. Fiquei imaginando que você talvez tivesse saído da cidade.
— Oh, não — respondeu Susan rapidamente. — Ficamos em casa o dia todo. Nós dois. Não saímos nem um minuto.
Greg falou gentilmente: — Sabe, Susan, acho que naquele dia o nosso telefone estava com defeito. Lembra-se de que durante a tarde não conseguimos completar a ligação para Hard and Co.? Pretendia registrar a queixa; entretanto, na manhã seguinte já estava funcionando bem.
— Telefones... algumas vezes não podemos confiar neles — observou o Sr. Entwhistle.
De repente, Susan falou:
— Como é que tia Cora sabia sobre o nosso casamento? Foi realizado num cartório e só comunicamos depois.
— Imagino que talvez Richard tenha lhe contado. Ela refez o testamento há três semanas (o anterior era em favor da Sociedade Teosófica), por volta da época em que ele foi visitá-la.
Susan ficou assombrada.
— Tio Richard foi visitá-la? Eu não sabia disso!
— Eu também não sabia — reforçou o Sr. Entwhistle.
— Então foi quando...
— Quando o quê?
— Nada — respondeu Susan.