Depois do Funeral

Agatha Christie · Capítulo 9 de 22

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Depois do Funeral

Capítulo XI · Susan estava deitada esperando o sono chegar.…

 

1

 

Susan estava deitada esperando o sono chegar. Tinha tido um dia comprido e sentia-se cansada. Pensara que adormeceria imediatamente. Nunca tivera nenhuma dificuldade para dormir. Contudo, lá estava ela, deitada, hora após hora, completamente desperta, a mente trabalhando sem cessar.

Ela dissera que não se incomodaria de dormir naquele quarto, naquela cama. Naquela cama onde Cora Lansquenet... Não, não, ela precisava tirar aqueles pensamentos da cabeça. Sempre se orgulhara de possuir nervos de aço. Por que pensar naquela tarde há menos de uma semana? Deveria pensar adiante... pensar no futuro. No seu futuro e no de Greg. Aquele prédio na Cardigan Street era exatamente o que eles haviam sonhado. A loja no andar de baixo e no andar superior um apartamento simpático. O quarto que ficava nos fundos da casa serviria de laboratório para Greg. Por questões de imposto de renda seria um excelente arranjo. Greg se acalmaria e ficaria bom novamente. Não teria mais daquelas crises alarmantes. Às vezes, ele olhava para ela parecendo não saber quem ela era. Uma ou duas vezes ela ficara bastante amedrontada... E o velho Sr. Cole havia insinuado, chegando mesmo a ameaçar: “Se isto tornar a acontecer...” E poderia ter acontecido novamente... teria acontecido, se tio Richard não tivesse morrido exatamente quando morreu...

Tio Richard... mas por que ver os fatos sob este prisma? Ele não tinha mais motivo para querer viver. Velho, cansado e doente. O filho morto. Na verdade, fora uma bênção para ele. Morrera tranqüilamente, durante o sono. Tranqüilo... em seu sono... Se ao menos ela conseguisse dormir. Era uma estupidez ficar deitada acordada hora após hora... ouvindo a mobília ranger, o sussurro das árvores e das folhagens do lado de fora e o estranho e melancólico piar que ela supunha ser de uma coruja. De certa forma, o campo era bastante sinistro. Tão diferente da cidade grande e barulhenta! Lá a pessoa se sentia segura... cercada de gente... nunca sozinha. Ao passo que aqui...

Casas onde assassinatos eram cometidos, algumas vezes se tornavam assombradas. Talvez aquele chalé viesse a ser conhecido como o chalé mal-assombrado. Povoado pelo espírito de Cora Lansquenet... tia Cora. Era realmente estranho como desde o momento em que chegara havia sentido como se Cora estivesse perto dela... ao seu alcance. Tudo puro nervosismo e fantasia. Cora Lansquenet estava morta e amanhã seria enterrada. E não havia ninguém na casa a não ser ela e a Srta. Gilchrist. Então por que sentia a presença de alguém naquele quarto, alguém bem perto dela...

Era nessa cama que Cora tinha estado deitada quando fora atacada por uma machadinha. Dormindo confiante... Não sabendo de nada até ser golpeada... E agora ela não deixava Susan dormir.

A mobília voltou a ranger... ou teria sido um passo furtivo? Susan acendeu a luz. Nada. Nervos, nada além de nervos. Relaxe... feche os olhos.

Aquilo sem dúvida tinha sido um suspiro... um suspiro ou um leve gemido. Alguém com dores... alguém morrendo...

— Não devo imaginar coisas, não devo — murmurou Susan para si mesma.

A morte era o fim... não havia existência após a morte. Sob nenhuma circunstância alguém poderia voltar. Ou estaria ela revivendo uma cena do passado... uma mulher mor-rendo, gemendo...

Outra vez... mais forte... alguém gemendo de dor.

Mas... isso era real. Susan tornou a acender a luz, sentou-se na cama e prestou atenção. Os gemidos eram verdadeiros e ela os estava ouvindo através da parede. Vinham do quarto ao lado. Susan levantou-se bruscamente e vestindo o penhoar saiu do quarto. Batendo na porta do quarto da Srta. Gilchrist, entrou logo em seguida. A luz estava acesa. A Srta. Gilchrist estava sentada na cama, extremamente pálida, com o rosto desfigurado pela dor.

— O que há, Srta. Gilchrist? Está doente?

— Sim. Não sei o que eu... — Ela tentou sair da cama, mas teve um acesso de vômitos e caiu de volta nos travesseiros.

Ela murmurou: — Por favor, telefone para o médico. Devo ter comido alguma coisa...

— Vou apanhar bicarbonato. Poderemos chamar o médico pela manhã, se a senhorita não melhorar.

A Srta. Gilchrist balançou a cabeça.

— Não, chame o médico agora. Estou me sentindo péssima.

— Sabe o número do telefone ou devo procurar na lista telefônica?

A Srta. Gilchrist deu-lhe o número. Foi interrompida por um outro acesso de vômito.

A chamada de Susan foi respondida por uma sonolenta voz de homem.

— Quem? Gilchrist? Em Mead"s Lane. Sim, eu conheço. Irei já.

Ele cumpriu realmente a palavra. Dez minutos depois Susan ouviu o automóvel chegar e foi abrir a porta.

Explicou o caso à medida que subiam as escadas. — Acho — comentou ela — que ela deve ter comido alguma coisa que lhe fez mal.

O médico tinha o ar de uma pessoa controlada e que já se acostumara a atender chamados desnecessários. Contudo, assim que examinou a mulher lamurienta, sua expressão mudou. Deu várias ordens a Susan e desceu rapidamente para telefonar. Em seguida, juntou-se a Susan na sala.

— Chamei a ambulância. É preciso levá-la para o hospital imediatamente.

— Então, ela está realmente mal?

— Sim. Apliquei-lhe morfina para acalmar a dor. Mas parece... — Ele se calou. — O que ela comeu?

— Comemos espaguete au gratin e pudim no jantar. E depois café.

— A senhora comeu as mesmas coisas?

— Sim.

— E está se sentindo bem? Nenhuma dor ou mal-estar?

— Não.

— Ela não comeu nada mais além disso? Nenhum peixe em conserva ou lingüiça?

— Não. Almoçamos no King"s Arms... depois do inquérito.

— Sim, é claro. A senhora é sobrinha da Sra. Lansquenet?

— Sim.

— Foi um negócio sórdido. Espero que capturem o culpado.

— Sim, realmente.

A ambulância chegou. Levaram a Srta. Gilchrist e o médico a acompanhou. Disse a Susan que lhe telefonaria de manhã. Assim que o médico se retirou, ela subiu e foi se deitar.

Dessa vez adormeceu assim que sua cabeça tocou o travesseiro.

 

2

 

O funeral foi bem concorrido. A maioria dos moradores da vila compareceu. Susan e o Sr. Entwhistle eram os únicos de luto, mas várias coroas de flores haviam sido enviadas pelos outros membros da família.

O Sr. Entwhistle perguntou pela Srta. Gilchrist, e Susan explicou o ocorrido num sussurro apressado. O Sr. Entwhistle levantou as sobrancelhas.

— É um fato um tanto estranho, não?

— Oh, ela já está melhor hoje. Telefonaram-me do hospital. As pessoas costumam ter esses embrulhos estomacais. Algumas fazem mais espalhafato a respeito do que outras.

O Sr. Entwhistle não disse mais nada. Ele iria voltar para Londres imediatamente após o funeral.

Susan voltou para o chalé. Encontrou alguns ovos e preparou uma omelete. Em seguida, subiu para o quarto de Cora e começou a remexer nos pertences da morta.

Foi interrompida pela chegada do médico.

Parecia preocupado. Respondeu à pergunta de Susan dizendo que a Srta. Gilchrist estava bem melhor.

— Terá alta daqui a alguns dias — afirmou ele. — Foi sorte a senhora ter me chamado logo. De outro modo... ela poderia não ter escapado.

Susan o encarou.

— Ela esteve assim tão mal?

— Sra. Banks, poderia me dizer exatamente o que a Srta. Gilchrist comeu e bebeu ontem? Tudo.

Susan refletiu e deu um relato minucioso. O médico balançou a cabeça, insatisfeito.

— Ela deve ter comido alguma coisa que a senhora não comeu.

— Não creio... Bolinhos, geléia, chá... e depois o jantar. Não, não consigo me lembrar de mais nada.

O médico esfregou o nariz. Andou de um lado para o outro.

— Está certo de que foi alguma coisa que ela comeu? Comida envenenada? — indagou Susan.

O médico lançou-lhe um olhar penetrante. Então pareceu chegar a uma decisão.

— Foi arsênico — afirmou ele.

— Arsênico? — espantou-se Susan. — Quer dizer que alguém lhe deu arsênico?

— É o que parece.

— Ela poderia ter tomado por vontade própria? Quero dizer, deliberadamente?

— Suicídio? Ela diz que não e ela deve saber. Além disso, se quisesse se suicidar não seria provável que escolhesse arsênico. Há pílulas para dormir aqui no chalé. Poderia tomar uma dose excessiva.

— O arsênico poderia ter sido colocado em alguma coisa por acidente?

— É nisso que estou pensando. Parece muito improvável, mas já houve casos. Mas se a senhora e ela comeram as mesmas coisas...

Susan balançou a cabeça. Ela disse:

— Tudo parece impossível... — De repente exclamou: — Ora, mas é claro, o bolo de noiva!

— O que disse? Bolo de noiva?

Susan explicou ao médico, que escutou com grande atenção.

— Estranho! E a senhora diz que ela não tinha certeza de quem o mandara? Sobrou algum pedaço, ou pelo menos a caixa em que ele veio está por aí?

— Não sei. Vou ver.

Procuraram juntos e por fim encontraram, no armário da cozinha, a caixa de cartolina branca com algumas migalhas de bolo. O médico recolheu-as com bastante cuidado.

— Levarei isso. Tem alguma idéia de onde possa estar o papel que embrulhava a caixa?

Nisso eles não tiveram sucesso, e Susan falou que provavelmente havia sido queimado no incinerador.

— A senhora ainda ficará aqui alguns dias, não, Sra. Banks?

Apesar de seu tom cordial, Susan se sentiu um pouco desconfortável.

— Sim, preciso cuidar dos pertences de minha tia.

— Ótimo. A senhora entende, a polícia possivelmente vai querer lhe fazer algumas perguntas. A senhora não sabe de ninguém que... bem, tivesse raiva da Srta. Gilchrist?

Susan balançou a cabeça.

— Na realidade, sei muito pouco a respeito dela. Trabalhava para minha tia há muitos anos... isso é tudo o que sei.

— Certo, certo. Sempre me pareceu uma mulher agradável e simples... bastante comum. Diria que não era o tipo de pessoa que possuísse inimigos ou qualquer coisa melo-dramática. Bolo de noiva enviado pelo correio. Parece coisa de alguma mulher invejosa... mas quem sentiria inveja da Srta. Gilchrist? Nada parece encaixar.

— Não.

— Bem, preciso me retirar. Não sei o que está acontecendo em nossa pequena Lytchett St. Mary. Primeiro, um assassinato brutal e, agora, uma tentativa de envenenamento pelo correio. Estranho, um em seguida ao outro.

Saiu e encaminhou-se para o automóvel. O chalé estava abafado e Susan deixou a porta aberta enquanto subia, vagarosamente, para terminar sua tarefa.

Cora Lansquenet não havia sido uma mulher nem arrumada nem metódica. Suas gavetas eram um confuso agrupamento de coisas. Havia artigos de toalete, cartas, lenços velhos, escovas, tudo misturado numa gaveta. Havia algumas cartas antigas e contas no meio de uma gaveta entupida de roupa íntima. Em outra gaveta, debaixo de alguns casacos de lã, havia uma caixa de papelão com duas franjas postiças. Numa outra, fotografias antigas e um álbum de recortes. Susan deteve-se numa fotografia de um grupo, tirada, evidentemente, em algum lugar da França. Mostrava uma Cora mais jovem e magra agarrada ao braço de um homem alto e esbelto, de barba irregular, usando um casaco que parecia de veludo, e que Susan presumiu tratar-se do falecido Pierre Lansquenet.

As fotografias interessavam a Susan, mas ela as deixou de lado, apanhou todos os papéis que encontrara e começou a examiná-los cuidadosamente. Pouco depois encontrou uma carta. Leu-a duas vezes e ainda a estava olhando fixamente quando uma voz vinda de trás dela fez com que desse um grito de susto.

— O que foi que você encontrou aí, Susan?

Susan enrubesceu, contrariada. O seu grito havia sido involuntário; sentiu-se envergonhada e ficou ansiosa para explicar.

— George! Que susto você me deu!

Seu primo sorriu preguiçosamente.

— É o que parece.

— Como foi que você chegou aqui?

— Bem, a porta da frente estava aberta, então entrei. Parecia não haver ninguém lá embaixo, por isso subi. Mas, se está se referindo a como foi que eu vim parar nesta parte do mundo, comecei a viagem para cá esta manhã para assistir ao funeral.

— Mas eu não vi você por lá.

— A camioneta pregou-me uma peça. Parece que a bomba de gasolina estava entupida. Depois de muito custo consegui consertá-la. Àquela altura, eu estava muito atrasado para o enterro, mas achei que, como me encontrava aqui, poderia muito bem vir vê-la. Sabia que você tinha vindo para cá.

Ele fez uma pausa e depois prosseguiu:

— Aliás, eu lhe telefonei e Greg me informou que você viria receber a herança. Achei que poderia lhe dar uma ajuda.

— Não precisam de você no escritório? Ou você pode tirar folga sempre que deseja?

— Um funeral sempre foi considerado motivo para faltar ao trabalho. E este é indubitavelmente verdadeiro. Além do mais, sempre fascina as pessoas. De qualquer ma-neira, no futuro não deverei ir muito ao escritório, não agora que sou um homem de posses. Terei coisas melhores para fazer.

Calou-se e sorriu.

— Tal como Greg — observou ele.

Susan olhou para George, pensativa. Nunca tivera muito contato com o primo e nas poucas vezes em que se encontraram ela sempre achara difícil decifrá-lo.

— Por que foi que você realmente veio até aqui, George?

— Garanto-lhe que não foi para bancar o detetive. Estive pensando bastante a respeito do último funeral a que comparecemos. Naquele dia, tia Cora certamente conseguiu tumultuar o ambiente. Tenho me perguntado se foram a alegre irresponsabilidade e a joie de vivre de nossa tia que a induziram a dizer aquelas palavras ou se na verdade tinha alguma base para falar aquilo. O que há nesta carta que você estava lendo com tanta atenção quando eu entrei?

— É uma carta que tio Richard escreveu para Cora depois que esteve aqui para vê-la.

Como eram negros os olhos de George! Ela sempre imaginara que eles eram castanhos, mas na realidade eram pretos. E havia nesses olhos alguma coisa de

estranhamente impenetrável. Escondiam os pensamentos que havia por trás deles.

— Encontrou alguma coisa interessante na carta? — perguntou George arrastando as palavras.

— Não, não exatamente...

— Posso ver?

Ela hesitou por um momento e então entregou-lhe a carta.

Ele leu passando por cima de certos trechos, num tom monótono.

— “Fiquei satisfeito em vê-la depois de todos esses anos... está com ótima aparência... fiz boa viagem de volta e não cheguei muito cansado...”

De repente sua voz mudou, ganhando veemência:

— “Por favor, não comente com ninguém a respeito do que eu lhe contei. Pode ser um engano. Seu irmão, Richard.”

George olhou para Susan.

— O que significa isso?

— Pode significar qualquer coisa... Pode estar se referindo à saúde dele, ou pode ser algum boato a respeito de um amigo comum.

— Oh, sim, pode ser uma porção de coisas. Não é conclusivo, mas é sugestivo... O que ele disse a Cora? Alguém sabe o que ele disse a ela?

— A Srta. Gilchrist é capaz de saber — comentou Susan, pensativa. — Acho que ela ouviu a conversa.

— Oh, sim, a dama de companhia. A propósito, onde está ela?

— No hospital, vítima de envenenamento por arsênico.

George arregalou os olhos.

— Você não está falando sério!

— Estou. Alguém lhe enviou um bolo de casamento envenenado.

George sentou-se numa das cadeiras do quarto e assobiou.

— Parece que tio Richard não estava enganado — disse ele.

 

3

 

Na manhã seguinte, o Inspetor Morton apareceu no chalé.

Era um homem calmo, de meia-idade, com leve sotaque do interior. Suas maneiras eram calmas e pausadas embora os olhos fossem astutos.

— A senhora compreende do que se trata, não, Sra. Banks? — perguntou. — O Dr. Proctor já lhe falou a respeito da Srta. Gilchrist. As migalhas do bolo que ele levou daqui foram analisadas e apresentaram traços de arsênico.

— Então alguém queria deliberadamente envenená-la.

— É o que parece. A própria Srta. Gilchrist não está sendo capaz de nos ajudar. Fica repetindo que é impossível, que ninguém faria tal coisa. Mas alguém fez. Será que a senhora poderia nos ajudar a esclarecer o assunto?

Susan balançou a cabeça.

— Estou simplesmente perplexa — respondeu. — O senhor não conseguiu descobrir nada no correio? E quanto à caligrafia?

— A senhora se esqueceu? O papel provavelmente foi queimado. E há dúvida de que tenha realmente vindo pelo correio. O jovem Andrews, o motorista da camioneta dos Correios, não consegue se lembrar de tê-lo entregue. Ele serve a uma grande área e não pode ter certeza.

— Mas então qual é a alternativa?

— A alternativa, Sra. Banks, é a de que tenha sido usado um velho pedaço de papel já com o nome e o endereço da Srta. Gilchrist e um selo usado. E que o pacote tenha sido empurrado pela caixa postal ou colocado atrás da porta por alguém para dar a impressão de ter vindo pelo correio.

Ele acrescentou, calmamente:

— É uma idéia bem esperta, escolher um bolo de noiva. Mulheres de meia-idade são sentimentais a esse respeito. Ficam satisfeitas de serem lembradas. Uma caixa de doces ou algo assim poderia ter despertado suspeita.

Susan falou vagarosamente:

— A Srta. Gilchrist especulou um bocado sobre quem poderia tê-lo mandado, mas não estava nem um pouco desconfiada. Como o senhor mesmo disse, ela ficou contente e também envaidecida. — Acrescentou: — Havia veneno bastante para matá-la?

— Isto é difícil de responder até que se saiba o resultado da análise de quantidade. Depende muito de a Srta. Gilchrist ter comido ou não um pedaço inteiro. Ela parece achar que não. A senhora não se lembra?

— Não, não estou certa. Ela me ofereceu um pedaço, mas eu recusei. Ela então comeu um pedaço e comentou que estava muito bom, mas não consigo me lembrar se ela comeu tudo.

— Se a senhora não se incomodar, eu gostaria de ir lá em cima.

— À vontade.

Ela o acompanhou ao quarto da Srta. Gilchrist. Falou, desculpando-se:

— Receio que esteja todo desarrumado. Mas, com o enterro de minha tia, não tive tempo de ajeitar nada. E depois da visita do Dr. Proctor, achei que seria melhor não mexer em nada.

— Isso foi muito inteligente da sua parte, Sra. Banks. Nem todo mundo agiria assim.

Ele foi até a cama e escorregando a mão por baixo do travesseiro levantou-o cuidadosamente. Um sorriso calmo surgiu em seu rosto.

— Aí está — disse ele.

Em cima do lençol havia um pedaço de bolo com aparência um tanto deteriorada.

— Que extraordinário! — exclamou Susan.

— Oh, não, não é. Talvez sua geração não faça isso. As jovens hoje em dia talvez não tenham tanto empenho em se casar, mas é um velho costume. Coloque um pedaço de bolo de noiva debaixo de seu travesseiro e sonhará com seu futuro marido.

— Mas certamente a Srta. Gilchrist...

— Ela não queria nos contar porque sentia-se tola em fazer tal coisa na sua idade. Mas eu tinha um palpite de que se tratava disso. E, se não fosse por uma tolice de solteirona, a Srta. Gilchrist talvez não estivesse viva hoje.

— Mas quem poderia querer matá-la?

Os olhos dele encontraram os de Susan, e seu olhar estranhamente inquiridor fez com que ela se sentisse pouco à vontade.

— A senhora não sabe? — perguntou ele.

— Não... é claro que não.

— Então parece que teremos que descobrir — finalizou o Inspetor Morton.