Depois do Funeral

Agatha Christie · Capítulo 12 de 22

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Depois do Funeral

Capítulo XIV · Hercule Poirot agradeceu a Janet, que estava…

 

Hercule Poirot agradeceu a Janet, que estava com uma expressão mal-humorada.

— Muito obrigado. A senhora foi muito gentil.

Janet, com os lábios ainda num contorno amargo, retirou-se da sala. Estes estrangeiros! As perguntas que eles fazem! Quanta impertinência! Estava muito bem dizer que era um especialista interessado em problemas de coração como o do Sr. Abernethie. Isso certamente era verdade... o patrão havia morrido repentinamente e o médico ficara sur-preso. Mas o que é que um médico estrangeiro tinha a ver com isso? Estava certo que a Sra. Leo dissesse: “Por favor, responda às perguntas do Sr. Pontarlier. Ele tem um bom motivo para fazê-las”.

Perguntas. Sempre perguntas. Às vezes, páginas delas para serem preenchidas da melhor maneira possível. E por que o governo ou outra pessoa queria saber sobre assuntos pessoais? Naquele censo haviam perguntado sua idade... com a maior impertinência, mas ela não lhes dissera. Diminuíra cinco anos. E por que não? Se ela se sentia com cinqüenta e quatro anos, então ela se considerava com cinqüenta e quatro anos!

De qualquer forma, o Sr. Pontarlier não indagara sua idade. Ao menos tivera alguma decência. Apenas perguntas a respeito dos remédios que seu patrão costumava tomar, onde os guardava, e se, talvez, ele poderia ter tomado uma quantidade maior do que a receitada se não estivesse se sentindo muito bem... ou se costumava ser uma pessoa esque-cida. Como se ela pudesse se lembrar de toda essa bobagem... o patrão sabia muito bem o que estava fazendo! E indagando se alguns dos remédios ainda estavam na casa. Naturalmente que já haviam sido jogados fora. Problema de coração... e mais uma outra palavra comprida que ele usara. Esses médicos estavam sempre inventando alguma novidade. Olhe só eles dizendo ao velho Rogers que ele estava com problemas de coluna. Simples lumbago, era apenas isso que havia de errado com ele. Seu pai havia sido jardineiro e sofrera de lumbago. Médicos!

O falso médico suspirou e subiu as escadas à procura de Lanscombe. Não conseguira arrancar muita coisa de Janet, mas ele já esperava por isso Tudo o que realmente quisera fora conferir algumas das informações arrancadas de Janet com as que haviam sido obtidas, com muito menos dificuldade, por Helen Abernethie, já que Janet estava pronta a admitir que a Sra. Leo tinha todo o direito de fazer tais perguntas. E, na verdade, a própria Janet gostara de participar ativamente das últimas semanas de vida de seu patrão. Doen-ça e morte lhe eram assuntos familiares.

Sim, pensou Poirot, poderia ter confiado nas informações que Helen havia lhe dado. Na realidade, confiara. Mas, por natureza e por longo hábito, não confiava em ninguém até que ele próprio os pusesse à prova.

De qualquer modo, as evidências eram inconsistentes e insatisfatórias. Resumiam-se ao fato de que cápsulas de vitaminas gelatinosas haviam sido receitadas para Richard Abernethie. Que essas ficavam num grande vidro que, na ocasião de sua morte, estava quase vazio. Qualquer pessoa que qui-sesse, com uma seringa hipodérmica, poderia ter agido em uma ou mais dessas cápsulas. E poderia ter arrumado o vidro de tal forma que a dose fatal só seria tomada algumas semanas depois que já tivesse ido embora. Ou alguém, na véspera da morte de Richard Abernethie, poderia ter entrado escondido na casa e adulterado uma cápsula... ou então, o que é mais provável, ter substituído a pílula de dormir por algo diferente. O pequeno vidro ficava ao lado da cama. Ou também poderia facilmente ter misturado alguma coisa na comida ou na bebida.

Hercule Poirot fizera suas próprias experiências. A porta da frente era mantida fechada, mas havia uma porta lateral dando para o jardim, que só era trancada ao anoitecer. Por volta da uma e quinze, quando os jardineiros haviam ido almoçar e quando os outros empregados estavam na sala de refeições, Poirot entrara no jardim, fora até a porta lateral, subindo até o quarto de Richard Abernethie sem encontrar ninguém. Numa outra tentativa ele conseguira passar por uma porta e entrara na despensa. Ouvira vozes vindas da cozinha, no fim do corredor, mas ninguém o tinha visto.

Sim, poderia ter sido feito. Mas teria sido feito? Não havia nada para indicar que sim. Não que Poirot estivesse realmente procurando provas; ele queria apenas certificar-se das possibilidades. O assassinato de Richard Abernethie poderia não passar de uma hipótese. O que precisava era de provas para o assassinato de Cora Lansquenet. O que ele desejava era estudar as pessoas que naquele dia haviam se reunido para o funeral e formar uma opinião a respeito delas. Ele já traçara um plano, mas primeiro queria trocar algumas palavras com o velho Lanscombe.

Lanscombe foi cortês mas distante. Pousou a flanela com a qual estava carinhosamente polindo um bule de estilo georgiano.

— Sim, senhor? — disse educadamente.

Poirot sentou-se cuidadosamente num banquinho da copa.

— A Sra. Abernethie contou-me que quando o senhor se aposentar pretende morar num chalé ao lado do portão norte?

— É isso mesmo, senhor. Naturalmente, agora tudo mudou. Quando esta propriedade for vendida...

Poirot interrompeu-o delicadamente.

— Creio que ainda é possível. Existe o chalé para os jardineiros. O chalé não é necessário para os hóspedes nem seus empregados. Talvez possamos entrar num acordo.

— Bem, obrigado, senhor, pela sugestão. Mas acho que dificilmente... Presumo que a maioria dos hóspedes será de estrangeiros?

— Sim, serão estrangeiros. Dentre aqueles que vieram da Europa para este país existem vários que estão muito velhos. Não existe futuro para eles se retornarem para seus países, pois essas pessoas, o senhor compreende, são aquelas cujos parentes morreram. Eles não podem ganhar seu próprio sustento. Arrecadamos um capital, que está sendo administrado pelo organização que eu represento, para doar-lhes várias casas de campo. Acho este lugar altamente apropriado. O negócio está praticamente fechado.

Lanscombe suspirou.

— O senhor pode entender o quanto é triste para mim saber que esta casa deixará de ser residência particular. Contudo, sei como as coisas são hoje em dia. Ninguém da família poderia manter este lugar... e nem mesmo acredito que os jovens quisessem. Atualmente, é muito difícil conseguir-se empregados domésticos, e quando se consegue cobram caríssimo e o trabalho é insatisfatório. Compreendo que estas belas mansões já cumpriram seu dever. — Lanscombe tornou a suspirar. — Contudo, se tem que ser transformada numa instituição, ficarei satisfeito em saber que será do tipo que o senhor mencionou. Fomos poupados neste país, e devemos isso a nossa Marinha e Força Aérea e aos jovens corajosos. Tivemos sorte bastante de nosso país ser uma ilha. Se Hitler tivesse vindo parar aqui, todos nós o teríamos enfrentado e rapidamente acabado com ele. Minha vista não é muito boa para atirar, mas eu poderia ter usado um forcado. Era o que pretendia fazer se fosse necessário. Neste país sempre acolhemos bem os necessitados, senhor. Isso tem sido o nosso orgulho. E continuaremos a agir assim.

— Obrigado, Lanscombe — agradeceu Poirot gentilmente. — A morte de seu patrão deve ter sido um grande choque.

— Foi, sim, senhor. Trabalhava para ele desde que ele era muito jovem. Tive muita sorte na vida. Ninguém poderia ter tido um patrão melhor.

— Estive conversando com meu amigo... ahn... meu colega, o Dr. Larraby. Estávamos imaginando se por acaso seu patrão não tinha tido alguma preocupação extra... alguma conversa desagradável... na véspera de sua morte... Não se lembra de nenhuma visita especial naquele dia?

— Creio que não, senhor. Não me recordo de ninguém.

— Ninguém veio naqueles dias?

— O vigário esteve aqui para o chá um dia antes. Também vieram algumas freiras recolhendo donativos. E um jovem bateu na porta dos fundos tentando vender para Mar-jorie escovas e esponjas de aço. Ele era muito persistente. Ninguém mais apareceu.

Uma expressão preocupada surgira no rosto de Lanscombe. Poirot parou de pressioná-lo. Lanscombe já desabafara com o Sr. Entwhistle. E era natural que fosse muito menos acessível com Hercule Poirot.

Com Marjorie, entretanto, Poirot Obtivera sucesso imediato. Marjorie não possuía nenhum dos estereótipos do “bem servir”. Era uma cozinheira de primeira e o caminho de seu coração era através de sua comida. Poirot fora vê-la na cozinha. Elogiara com discernimento certos pratos, e Marjorie, notando que ele era alguém que entendia do que estava falando, imediatamente aclamou-o como alma irmã. Ele não teve a menor dificuldade em descobrir exatamente o que havia sido servido na noite anterior ao falecimento de Richard Abernethie. Marjorie estava inclinada a explicar o que “aconteceu na noite em que eu fiz o suflê de chocolate. Eu havia guardado seis ovos. O leiteiro é meu amigo. Também tinha conseguido algum creme, mas é melhor não perguntar como. Que o Sr. Abernethie gostou, gostou”. O resto da refeição foi igualmente detalhado. O que sobrara na sala de jantar havia sido comido na cozinha. Apesar da disposição de Marjorie em falar, Poirot não ficara sabendo nada de importante.

Foi apanhar seu paletó e um cachecol, e assim protegido contra o frio do norte saiu para o terraço, onde se juntou a Helen Abernethie, que estava colhendo rosas.

— Descobriu alguma coisa nova? — indagou ela.

— Não. Mas eu já esperava por isso.

— Eu sei. Desde que o Sr. Entwhistle me revelou que o senhor viria, comecei a investigar, mas realmente não existe nada.

Ela fez uma pausa e falou esperançosa:

— Talvez tudo não tenha passado de um logro...

— Ser atacada por uma machadinha?

— Não estava pensando em Cora.

— Mas é em Cora que eu penso. Por que alguém achou necessário matá-la? O Sr. Entwhistle me contou que naquele dia, no momento em que ela soltou aquela gafe, a senhora sentiu que algo estava errado. É verdade?

— Bem... sim, mas não sei...

Poirot prosseguiu, apressado:

— O que parecia errado? Inesperado? Surpreendente? Ou... digamos... inquietante... sinistro?

— Oh, não, sinistro, não. Apenas alguma coisa que não estava... oh, eu não sei, não consigo me lembrar e nem era importante.

— Mas por que a senhora não consegue se lembrar? Será que uma outra coisa desviou seu pensamento... uma coisa mais importante?

— Sim, sim, creio que o senhor tem razão neste ponto. Suponho que tenha sido a menção do crime. Isso apagou tudo o mais.

— Talvez tenha sido a reação de alguém à palavra “assassinato”?

— Talvez... Mas não me lembro de ter olhado para ninguém em especial. Estávamos todos olhando para Cora.

— Pode ter sido algo que a senhora ouviu, algo que tenha caído... quebrado...

Num esforço para se recordar, Helen franziu a testa.

— Não... acho que não...

— Ah, bem, algum dia a senhora se lembrará. E pode ser que não tenha nenhuma importância. Agora diga-me, madame, das pessoas aqui presentes, quem melhor conhecia Cora?

Helen refletiu.

— Lanscombe, suponho Ele a conheceu criança. A empregada, Janet, só veio trabalhar aqui depois que ela já havia se casado e ido embora.

— E depois de Lanscombe?

Helen respondeu, pensativa:

— Acho que era eu. Maude mal a conhecia.

— Então, levando em conta que a senhora era a pessoa que a conhecia melhor, por que acha que ela fez aquela pergunta?

Helen sorriu.

— Era bem típico de Cora!

— A senhora quer dizer que não passou de tolice pura e simples? Que ela apenas deixou escapar o que estava em seu pensamento? Ou estaria ela sendo maliciosa... divertindo-se em perturbar os outros?

Helen meditou.

— Nunca se pode ter certeza a respeito de uma pessoa, não é? Nunca cheguei a saber se Cora era simplesmente ingênua ou se desejava, infantilmente, chamar atenção. É a isso que o senhor está se referindo?

— Sim. Eu estava pensando. Suponhamos que Cora dissesse para si mesma: “Como seria divertido perguntar se Richard foi assassinado e depois ver a reação de todos!” Isto seria bem típico dela, não?

Helen parecia em dúvida.

— É possível. Ela certamente possuía um senso de humor travesso como o de uma criança. Mas que diferença faz?

— Reforçaria a opinião de que não é sensato fazer-se piadas sobre assassinatos — explicou Poirot secamente.

Helen estremeceu.

— Pobre Cora.

Poirot mudou de assunto.

— A Sra. Timothy Abernethie ficou aqui na noite depois do funeral?

— Sim.

— Ela comentou com a senhora o que Cora dissera?

— Sim, ela falou que era chocante e bem próprio de Cora!

— Ela não levou o comentário a sério, levou?

— Oh, não. Estou certa que não.

O segundo “não”, pensou Poirot, soara repentinamente hesitante. Mas não era isso que acontecia quase sempre quando a pessoa procura se recordar de alguma coisa?

— E a senhora, madame, levou a sério?

Helen Abernethie, os olhos muito azuis e estranhamente jovens sob a moldura de cabelos grisalhos, respondeu:

— Sim, Sr. Poirot, creio que levei.

— Talvez por causa de sua sensação de que algo estava errado?

— Talvez.

Ele esperou... mas como ela não dissesse mais nada, continuou:

— Havia uma desavença que já durava anos entre a Sra. Lansquenet e sua família, não é verdade?

— É, sim. Nenhum de nós gostava de seu marido e ela sentia-se ofendida com isso. E assim, a desavença cresceu.

— E então, de repente, seu cunhado vai visitá-la. Por quê?

— Não sei... suponho que ele sabia, ou imaginava que não iria viver por muito tempo e queria se reconciliar... mas eu realmente não sei.

— Ele não lhe contou?

— Contar a mim?

— Sim. A senhora estava aqui com ele, antes de ele ir visitar Cora. Ele nem ao menos mencionou-lhe a sua intenção?

Poirot teve a impressão de que uma ligeira reserva aparecera nas maneiras de Helen.

— Ele me disse que iria ver seu irmão Timothy, o que fez. Não mencionou Cora nenhuma vez. Vamos entrar? Deve estar quase na hora do almoço.

Ele caminhou ao seu lado levando as flores que colhera. Quando entravam pela porta lateral, Poirot indagou:

— A senhora está certa, bem certa, de que durante a sua estadia com o Sr. Abernethie ele nada disse de relevante a respeito de nenhum membro da família?

Com um ligeiro ressentimento, Helen comentou:

— O senhor está falando como um policial.

— Já fui um policial. Não estou mais na ativa. Não tenho nenhum direito de lhe fazer perguntas. A senhora, entretanto, quer a verdade, ou pelo menos foi o que me fez acreditar.

Entraram na sala de visitas verde. Helen falou com um suspiro:

— Richard estava desapontado com a nova geração. Os homens idosos geralmente sentem-se assim. Ele discordava deles em vários aspectos... mas não houve nada... nada, o senhor entende... que poderia possivelmente sugerir um motivo para assassinato.

— Ah! — exclamou Poirot. Helen apanhou um vaso chinês e começou a arrumar as rosas. Quando ela finalmente ficou satisfeita com o arranjo, olhou em torno procurando um lugar para colocá-lo.

— A senhora faz arranjos de flores admiráveis, madame — elogiou Hercule. — Acho que qualquer coisa que a senhora resolvesse fazer, faria com perfeição.

— Obrigada, gosto muito de flores. Acho que estas aqui ficariam muito bem naquela mesa de mármore verde.

Havia um buquê de flores de cera numa redoma de vidro em cima da mesa de mármore. Quando ela a levantou, Poirot falou casualmente:

— Alguém revelou ao Sr. Abernethie que o marido de Susan quase envenenara uma cliente ao preparar uma receita? Ah, pardon!

Ele pulou para trás.

O ornamento vitoriano escorregara dos dedos de Helen. O recuo de Poirot não fora suficientemente rápido. Caindo no chão, a redoma se quebrou. O rosto de Helen ganhou uma expressão de aborrecimento.

— Que falta de cuidado a minha! As flores, entretanto, não ficaram estragadas. Posso mandar fazer uma redoma nova para elas. Vou guardá-las no armário que fica sob as escadas.

Só depois de tê-la ajudado a colocar as flores numa prateleira do armário e de tê-la acompanhado de volta à sala, é que Poirot falou:

— A culpa foi minha. Não deveria tê-la assustado.

— O que foi que o senhor perguntou mesmo? Eu me esqueci.

— Oh, não há necessidade de repetir a pergunta. Na verdade, eu também já não me lembro mais.

Helen se aproximou dele e pousou a mão em seu braço.

— Sr. Poirot, existe alguém cuja vida suportaria uma investigação muito profunda? É preciso que a vida das pessoas seja arrastada nisso quando elas nada têm a ver com... com...

— Com a morte de Cora Lansquenet? Sim. Porque é preciso examinar-se tudo. Oh, é verdade, é uma velha máxima: “Todos têm alguma coisa a esconder”. É uma verdade de todos nós. Talvez também se aplique à senhora. Mas torno a dizer que nada pode ser ignorado. É por esse motivo que o seu amigo, o Sr. Entwhistle, me procurou. Porque eu não sou um policial. E desde que nesta história não são as evidências e sim as pessoas que me preocupam... então é das pessoas que me ocuparei. Preciso, madame, conhecer todos os que estiveram aqui no dia do funeral. E seria muito conveniente... sim, seria estrategicamente perfeito se eu pudesse reuni-los todos aqui.

— Receio — disse Helen vagarosamente — que isso seja muito difícil.

— Não tão difícil quanto a senhora pensa.

Já encontrei um meio. A casa foi vendida. Assim irá declarar o Sr. Entwhistle. Ele convidará todos os membros da família para se reunirem aqui a fim de escolherem os objetos que desejam antes que tudo seja posto em leilão. Poderemos escolher um fim de semana adequado para esse propósito.

Ele calou-se e em seguida disse:

— Está vendo, é fácil, não é?

Helen olhou para ele. Seus olhos estavam frios, quase gelados.

— O senhor está preparando uma armadilha para alguém, Sr. Poirot?

— Quem me dera que eu já soubesse tanto! Pode haver — acrescentou Poirot, pensativo — certos testes...

— Testes? Que tipo de testes?

— Ainda não os formulei. E de qualquer modo, madame, seria melhor que a senhora não os conhecesse.

— Para que eu também possa ser testada?

— Com a senhora, madame, eu já conversei. Há uma parte que ainda oferece dúvida. Acredito que os jovens venham imediatamente, mas talvez seja difícil conseguir-se a presença do Sr. Timothy Abernethie. Ouvi dizer que ele nunca sai de casa.

Helen sorriu repentinamente.

— Parece que o senhor está com sorte, Sr. Poirot. Maude telefonou-me ontem. Estão pintando a casa e Timothy está sofrendo terrivelmente por causa do cheiro da tinta. Ele diz que está afetando seriamente sua saúde. Creio que Maude e ele ficariam satisfeitos de vir para cá... talvez por uma ou duas semanas. Maude ainda não está podendo se movimentar muito bem. O senhor sabia que ela quebrou o tornozelo?

— Não, não sabia. Que falta de sorte!

— Felizmente conseguiram ficar com a empregada de Cora, a Srta. Gilchrist. Parece que ela se revelou um verdadeiro tesouro.

— Como disse? — Poirot virou-se bruscamente para Helen. — Eles pediram para a Srta. Gilchrist ficar com eles? Quem sugeriu isso?

— Acho que foi arranjo de Susan. Susan Banks.

— Ah! — exclamou Poirot com voz curiosa. — Então foi a pequena Susan. Ela gosta de fazer arranjos.

— Susan deu-me a impressão de ser uma moça muito competente.

— Sim. Ela é competente. A senhora soube que a Srta. Gilchrist escapou por pouco da morte por comer um pedaço de bolo envenenado?

— Não! — Helen parecia assustada. — Agora me lembro de que Maude me disse ao telefone que a Srta. Gilchrist acabara de sair do hospital; entretanto, não tinha a menor idéia do motivo por que ela fora parar no hospital. Envenenada? Mas, Sr. Poirot... por quê... ?

— A senhora realmente acha necessário fazer esta pergunta?

Helen falou com repentina veemência:

— Oh! Reúna-os todos aqui! Descubra a verdade! Não deve mais haver assassinatos.

— Então a senhora vai cooperar?

— Sim, vou cooperar.