Depois do Funeral

Agatha Christie · Capítulo 13 de 22

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Depois do Funeral

Capítulo XV · — O linóleo está muito bonito, Sra.…

 

1

 

— O linóleo está muito bonito, Sra. Jones. A senhora realmente sabe cuidar dele. O bule de chá está na mesa da cozinha, pode se servir à vontade. Irei para lá assim que levar a bandeja para o Sr. Abernethie.

A Srta. Gilchrist subiu as escadas carregando uma bandeja elegantemente arrumada. Bateu na porta e, interpretando um resmungo como um convite para entrar, transpôs a porta muito animada.

— Café e biscoitos, Sr. Abernethie. Espero que o senhor esteja se sentindo melhor hoje. Está um dia tão bonito!

Timothy respondeu e perguntou, desconfiado:

— Tem nata neste leite?

— Oh, n-ão, Sr. Abernethie. Eu tirei a nata com muito cuidado, mas mesmo assim trouxe um pequeno coador para o caso de se formar novamente. O senhor sabe, algumas pessoas gostam de nata, dizem que é creme... e é, na realidade.

— Idiotas! — exclamou Timothy. — Que tipo de biscoito é este?

— São uns deliciosos biscoitos digestivos.

— Umas drogas! Biscoitos de gengibre são os únicos que vale a pena comer.

— Sinto que esta semana estivessem em falta no armazém. Mas estes são ótimos. Prove e verá.

— Eu sei que gosto têm, obrigado. Será que não pode deixar estas cortinas em paz?

— Pensei que o senhor gostaria de um pouco de sol. Está um dia muito bonito.

— Quero que o quarto fique escuro. Minha cabeça está terrível. É esta tinta. Está me envenenando.

A Srta. Gilchrist respirou fundo para sentir o cheiro e falou animadamente:

— Daqui não se sente muito o cheiro. Os trabalhadores estão do outro lado da casa.

— A senhora não é tão sensível como eu. Será que é preciso levar todos os livros que estou lendo para longe do meu alcance?

— Sinto muito, Sr. Abernethie, não sabia que estava lendo todos eles.

— Onde está a minha esposa? Não a vejo há mais de uma hora.

— A Sra. Abernethie está descansando no sofá.

— Diga-lhe para vir descansar aqui em cima.

— Eu lhe direi, Sr. Abernethie. Mas ela pode ter adormecido. Digamos, daqui a uns quinze minutos, está bem?

— Não, diga-lhe que preciso dela agora. Deixe este cobertor em paz. Está da maneira que eu gosto.

— Desculpe. Pensei que estivesse escorregando.

— Eu gosto assim. Vá chamar Maude. Preciso dela.

A Srta. Gilchrist encaminhou-se para o andar de baixo e nas pontas dos pés entrou na sala, onde Maude Abernethie estava sentada com a perna para cima, lendo um livro.

— Desculpe-me, Sra. Abernethie, o Sr. Abernethie está chamando a senhora.

Maude deixou o livro de lado com expressão culposa.

— Oh, minha nossa. Irei imediatamente — disse ela apanhando a bengala.

Timothy gritou assim que ela entrou no quarto:

— Finalmente você chegou!

— Sinto muito, querido, não sabia que você precisava de mim.

— Esta mulher que você arrumou vai me deixar maluco. Zanzando de um lado para o outro como uma barata tonta. Uma solteirona típica, isto é o que ela é.

— Lamento que ela o aborreça. Ela apenas procura ser gentil.

— Não preciso de ninguém gentil. Não quero uma maldita solteirona sempre tagarelando à minha volta. E ela também é cheia de malícia...

— Só um pouquinho, talvez.

— Trata-me como se eu fosse um garoto confuso. É de enlouquecer.

— Estou certa de que deve ser. Mas, por favor, Timothy, procure não ser grosseiro com ela. Eu ainda não estou bem, e você mesmo disse que ela cozinha bem.

— Ela cozinha direito — admitiu o Sr. Abernethie. — Cozinha bastante bem. Mas mantenha-a na cozinha, é só isso que eu peço. Não a deixe vir aqui me perturbar.

— Não, querido, é claro que não. Como está se sentindo?

— Nada bem. Acho melhor chamar Barton para vir me dar uma olhada. Esta tinta está me afetando o coração. Sinta o meu pulso. Está com a batida irregular.

Maude segurou o pulso sem fazer comentário.

— Timothy, que acha de irmos para um hotel até que terminem a pintura?

— Seria um grande desperdício de dinheiro.

— Isso tem tanta importância... agora?

— Você é igual a todas as mulheres... incorrigivelmente extravagante! Só porque herdamos de meu irmão uma quantia de dinheiro ridiculamente pequena, você pensa que podemos morar para sempre no Ritz.

— Não foi bem isso o que eu disse, querido.

— Posso lhe garantir que a diferença que o dinheiro de Richard vai fazer é muito pouca. Este governo sanguessuga cuidará para que seja assim. Grave bem as minhas palavras. Irá tudo nos impostos.

A Sra. Abernethie balançou a cabeça tristemente.

— Este café está frio — disse o inválido olhando com desagrado para a xícara que ele ainda não provara. — Por que será que nunca consigo tomar um café realmente quente?

— Vou lá embaixo esquentá-lo.

Na cozinha, a Srta. Gilchrist estava tomando chá e conversando afavelmente, embora com um leve tom de condescendência, com a Sra. Jones.

— Fico ansiosa para poupar a Sra. Abernethie o máximo que eu puder — comentava ela. — Toda essa subida e descida é muito penosa para ela.

— Trabalha como uma escrava — disse a Sra. Jones mexendo o chá.

— É muito triste ser inválido.

— Ele não é tão inválido assim — afirmou a Sra. Jones sombriamente. — É muito confortável para ele ficar lá deitado a tocar a campainha e ter tudo levado para ele na mesma hora. Mas ele consegue muito bem se levantar e sair por aí. Outro dia mesmo, quando a Sra. Abernethie estava viajando, eu o vi na vila, andando bem fagueiro. Qualquer coisa de que ele realmente precise... como seu tabaco ou um selo... sabe ir buscar. E é por isso que quando a Sra. Maude foi ao funeral, e ficou retida na volta, e ele me disse que eu teria que passar a noite aqui, recusei. “Sinto muito, senhor”, eu falei, “mas tenho meu marido para cuidar. Sair para trabalhar durante o dia está muito bem, mas tenho que tratar dele quando ele volta do trabalho.” Far-lhe-ia bem, pensei, para variar movimentar-se pela casa e cuidar de si mesmo. Talvez servisse para ver o quanto se faz por ele. Mantive-me firme.

A Sra. Jones deu um longo suspiro e tomou um saboroso gole de chá doce e escuro. — Ah! — exclamou, satisfeita.

Apesar de profundamente desconfiada da Srta. Gilchrist, e considerando-a uma “solteirona meticulosa e afetada”, a Sra. Jones apreciava a maneira pródiga com que ela lhe oferecia chá e açúcar.

Ela pousou a xícara e disse amavelmente:

— Darei uma boa esfregada no chão da cozinha e depois irei embora. As batatas já estão descascadas, querida. Estão ao lado da pia.

Apesar de ligeiramente afrontada pela “querida”, a Srta. Gilchrist apreciava a boa vontade com que ela havia destituído de suas cascas uma enorme quantidade de batatas.

Antes que pudesse falar alguma coisa, o telefone tocou e ela correu para atendê-lo. O telefone, no estilo característico de cinqüenta anos atrás, ficava inconvenientemente situado numa passagem com corrente de ar, atrás das escadas.

Maude Abernethie apareceu no topo das escadas enquanto a Srta. Gilchrist ainda estava falando. Esta olhou para cima e disse:

— É a Sra. Leo Abernethie.

— Diga-lhe que já vou atender.

Maude desceu as escadas devagar e penosamente.

A Srta. Gilchrist murmurou: — Lamento que a senhora tenha tido que descer novamente, Sra. Abernethie. O Sr. Abernethie já terminou o café? Acabarei este chá num só gole e irei apanhar a bandeja.

Ela subiu correndo enquanto a Sra. Abernethie atendia ao telefone.

— Helen? É Maude.

O inválido recebeu a Srta. Gilchrist com um olhar maligno. Quando ela apanhou a bandeja, ele perguntou, mal-humorado.

— Quem está ao telefone?

— A Sra. Leo Abernethie.

— Garanto como vão ficar tagarelando durante uma hora. As mulheres perdem a noção do tempo quando estão ao telefone. Nunca pensam no dinheiro que estão jogando fora.

A Srta. Gilchrist respondeu de imediato que a Sra. Leo é quem teria que pagar, e Timothy resmungou.

— Abra a cortina, sim? Não, esta não, a outra. Não quero o sol batendo nos meus olhos. Agora está melhor. Não há motivo, só porque sou inválido, para que eu fique o dia inteiro no escuro.

Ele prosseguiu:

— E a senhora pode procurar naquela pasta ali por uma... O que houve agora? Por que esta pressa?

— Estão batendo na porta da frente, Sr. Abernethie.

— Eu não ouvi nada. Aquela empregada está lá embaixo, não está? Deixe que ela vá atender.

— Está bem, Sr. Abernethie. Qual era o livro que o senhor queria que eu apanhasse?

O doente fechou os olhos.

— Agora não me lembro mais. A senhora fez com que eu esquecesse. É melhor ir embora.

A Srta. Gilchrist apanhou a bandeja e partiu apressada. Pousando a bandeja na mesa da copa dirigiu-se para o hall, passando pela Sra. Abernethie, que continuava ao telefone.

Em poucos instantes ela voltou para perguntar em voz baixa:

— Desculpe-me interrompê-la. É uma freira recolhendo donativos. Acho que é da Fundação Coração de Maria. Ela está com um livro. A maioria das pessoas subscreveu meia coroa ou cinco xelins.

Maude disse ao telefone:

— Um momento, Helen. — E para a Srta. Gilchrist: — Eu não dou donativos a católicos. Fazemos caridade para a nossa própria igreja.

A Srta. Gilchrist saiu novamente apressada.

Depois de alguns minutos, Maude terminou a conversa com a frase: “Falarei com Timothy a respeito”.

Desligou e foi até o hall principal. A Srta. Gilchrist estava parada à porta da sala de visitas. Franziu o rosto de maneira estranha e pulou quando Maude Abernethie falou com ela.

— Há algo errado, Srta. Gilchrist?

— Oh, não, Sra. Abernethie. Receio que eu estivesse apenas divagando. É tão tolo da minha parte quando há tanto para fazer!

A Srta. Gilchrist retornou ao seu papel de mulher ativa, e Maude subiu as escadas vagarosamente e com esforço.

— Era Helen ao telefone. Parece que a casa foi vendida para alguma Instituição de Refugiados Estrangeiros...

Permaneceu calada, enquanto Timothy se expressava a respeito do assunto de refugiados estrangeiros, com comentários esparsos sobre a casa onde ele nascera e fora criado. — Não há mais padrões morais neste país. Minha antiga casa! Não suporto pensar nisso.

Maude continuou:

— Helen compreende bem o que você... nós sentimos a este respeito. Ela achou que gostaríamos de ir até lá para uma visita antes que passe para outras mãos. Ficou muito aborrecida com o seu estado de saúde e pela maneira como a tinta o está afetando. Achou que preferiríamos ir para Enderby a irmos para um hotel. Os empregados ainda continuam lá e, sendo assim, você teria todo o conforto.

Timothy abriu a boca para proferir violentos protestos, mas não chegou a formulá-los. Seus olhos de repente haviam se tornado muito vivos. Ele então balançou a cabeça em sinal de aprovação.

— É muita gentileza de Helen — observou ele. — Muita gentileza. Não sei, tenho que pensar no assunto. Não há dúvida de que o cheiro da tinta está me envenenando... creio que há arsênico nas tintas. Acho que ouvi algo a este respeito. Por outro lado, o esforço da mudança pode ser demasiado para mim. É difícil saber o que seria melhor.

— Talvez você prefira o hotel, querido — disse Maude. — Um bom hotel é muito caro, mas quando se trata de sua saúde...

Timothy a interrompeu.

— Gostaria de fazer com que compreendesse, Maude, que não somos milionários. Por que irmos para um hotel quando Helen, muito gentilmente, nos convidou para irmos para Enderby? Não que caiba a ela sugerir tal coisa. A casa não é dela. Não entendo de assuntos legais, mas presumo que, até que seja vendida e o lucro dividido, a casa pertença a todos igualmente. Refugiados estrangeiros! Isso faria o velho Cornelius dar voltas em seu túmulo. Sim, eu gostaria de rever a casa antiga antes de morrer.

Maude jogou sua última cartada corretamente.

— Pelo que entendi, o Sr. Entwhistle achou que os membros da família gostariam de escolher algumas peças de mobília, cristais ou outras coisas, antes que sejam postos a leilão.

Animado, Timothy endireitou-se na cadeira.

— Não podemos deixar de ir. É preciso haver uma correta avaliação do que é escolhido por cada pessoa. Aqueles homens com quem as garotas se casaram... pelo que ouvi falar deles, não confiaria em nenhum dos dois. Eles poderiam dar algum golpe. Helen é passiva demais. Como chefe da família, é meu dever estar presente!

Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro com passos rápidos e vigorosos.

— Sim, é uma idéia excelente. Escreva a Helen dizendo que aceita. Estou pensando realmente é em você. Será um bom descanso e uma boa mudança. Você tem trabalhado muito ultimamente. Os pintores podem continuar com o trabalho enquanto estivermos fora, e essa tal Gillespie pode ficar e cuidar da casa.

— Gilchrist — corrigiu Maude.

Timothy abanou a mão e disse que era tudo a mesma coisa.

2

 

— Eu não posso — disse a Srta. Gilchrist.

Maude olhou-a, surpresa.

A Srta. Gilchrist estava tremendo. Seus olhos a encaravam, Suplicantes.

— Sei que é tolice da minha parte. Mas simplesmente não posso ficar sozinha nesta casa. Será que não há ninguém que possa vir dormir aqui?

Olhou esperançosa para a outra mulher, mas Maude balançou a cabeça. Maude Abernethie sabia bem demais o quanto era difícil conseguir alguém na vizinhança para passar a noite ali.

Com um certo desespero na voz, a Srta. Gilchrist prosseguiu:

— Sei que a senhora achará isso tudo bobagem e puro nervosismo. Eu jamais sonhei que um dia me sentiria assim. Nunca fui uma mulher nervosa... ou fantasiosa. Mas agora tudo parece diferente. Ficaria aterrorizada... sim, completamente aterrorizada em permanecer aqui sozinha.

— É claro — concordou Maude. — Que tolice a minha! Depois do que aconteceu em Lytchett St. Mary!

— É, suponho que seja isso... Sei que não tem muita lógica. E no começo não me senti assim. Não me importei em ficar sozinha no chalé mesmo depois... depois do que aconteceu. Este sentimento foi crescendo gradualmente. Talvez a senhora não faça bom juízo de mim, mas a verdade é que desde que cheguei aqui tenho me sentido assustada... com medo. De nada em particular... apenas assustada. Sei que é bobagem minha e realmente sinto-me envergonhada. É como se o tempo todo eu estivesse esperando que alguma coisa terrível fosse acontecer. Até aquela freira vindo aqui me assustou. Oh, Deus, estou me sentindo péssima!

— Suponho que é o que eles chamam de choque retardado — observou Maude vagamente.

— É? Eu não sei. Sinto muito parecer tão... tão ingrata. Depois de toda a sua bondade! O que a senhora não irá pensar...

Maude acalmou-a.

— Precisamos pensar em outro arranjo — disse ela.

Capítulo XVI

George Crossfield parou indeciso enquanto olhava para umas costas femininas que desapareciam por uma porta. Em seguida, balançou a cabeça e seguiu-as.

A porta em questão era a de uma loja, uma loja desocupada. A janela mostrava um vazio desconcertante. A porta estava fechada, mas George bateu. Um jovem de rosto inexpressivo e usando óculos abriu a porta e encarou George.

— Desculpe — disse George —, mas acho que minha prima acabou de entrar aí.

O jovem recuou e George entrou.

— Alô, Susan — cumprimentou ele.

Susan, que estava de pé em cima de um caixote e usando uma régua, virou a cabeça com certa surpresa.

— Alô, George. De onde você surgiu?

— Vi você de costas. E tinha certeza de que era você.

— Como você é esperto! Suponho que as costas sejam inconfundíveis.

— Muito mais do que os rostos. Coloque uma barba ou algum outro disfarce e faça coisas diferentes com seu cabelo e ninguém o reconhecerá. Mesmo cara a cara. Entretanto, tome cuidado quando virar as costas.

— Vou me lembrar. Será que você pode se lembrar da medida de sete pés e cinco polegadas até eu anotar?

— Certamente. O que é isto, prateleiras?

— Não, espaço cúbico. Oito pés nove e três pés sete...

O jovem de óculos, que estava irrequieto, tossiu.

— Dá licença, Sra. Banks, se a senhora ainda vai ficar aqui por mais algum tempo...

— Vou, sim — respondeu Susan. — Se deixar as chaves, eu tranco a porta e devolvo-as no escritório quando passar por lá. Está bem assim?

— Sim, obrigado. Se não estivéssemos com poucos funcionários esta manhã...

Susan aceitou a intenção de desculpa que havia na frase inacabada e o jovem se retirou para a rua.

— Fico contente em me livrar dele — comentou Susan. — Agentes imobiliários só servem para atrapalhar. Ficam falando quando o que eu quero é fazer contas.

— Ah! — exclamou George. — Assassinato numa loja vazia! Como seria excitante para os transeuntes verem o corpo morto de uma linda jovem através da janela de vidro. Iam ficar de olhos esbugalhados. Como peixes!

— Não haveria motivo para você me assassinar, George.

— Bem, eu receberia uma quarta parte da herança que vazia! Como seria excitante para os transeuntes verem o bastante de dinheiro, isso seria uma razão.

Susan parou de tomar as medidas e virou-se para olhá-lo. Seus olhos se abriram um pouco.

— Você parece uma pessoa diferente, George. É realmente extraordinário.

— Diferente? Diferente como?

— Como no anúncio. “Este é o homem que vocês viram na página anterior, mas agora ele tomou vitaminas Uppington.”

Ela sentou-se em outro caixote e acendeu um cigarro.

— Você deveria querer muito a sua parte do dinheiro do velho Richard, não é, George?

— Ninguém pode afirmar com honestidade que dinheiro não é bem-vindo nos dias atuais.

O tom de George era leve.

— Você estava em apuros, não estava, George? — perguntou Susan.

— Isto não é problema seu, é?

— Estava apenas interessada.

— Você está alugando esta loja para negócios?

— Vou comprar todo o prédio. Os dois andares superiores eram apartamentos. Um estava vinculado à loja. Quanto ao,outro, vou indenizar os moradores para que saiam.

— É bom ter dinheiro, não é, Susan?

Havia um tom de malícia na voz de George. Mas Susan apenas respirou fundo e disse:

— Quanto a mim, acho maravilhoso. É uma resposta às minhas orações.

— Orações matam parentes mais velhos?

Susan não lhe deu atenção.

— Este lugar é perfeito. Para começar, tem uma arquitetura muito boa. No andar superior posso fazer um apartamento inigualável. Há dois telhados lindamente moldados e os quartos têm uma bela forma. Esta parte de baixo, que já foi reformada, vou fazê-la toda moderna.

— O que vai ser? Uma loja de roupas?

— Não. De artigos de beleza. Preparação de ervas medicinais. Cremes faciais.

— Com todo o aparato?

— Como de costume. Dá dinheiro. Sempre deu. O que precisa é de um toque de personalidade. E isso eu posso dar.

George olhou para Susan com aprovação. Ele admirava-lhe as formas angulosas do rosto, a boca generosa, o colorido radiante. Tudo formando um rosto incomum e cheio de vida. E ele reconhecia que Susan possuía aquela estranha e indefinível qualidade... a qualidade do sucesso.

— Sim — disse ele. — Acho que você tem jeito para a coisa. Você receberá de volta o dinheiro gasto neste empreendimento e terá sucesso.

— Tem a localização certa. Fica exatamente na saída da principal rua de comércio e pode-se estacionar o carro bem em frente à loja.

George balançou a cabeça.

— Sim, Susan, você vai obter sucesso. Há muito tempo que você tem isso em mente?

— Há mais de um ano.

— Por que não levou ao conhecimento do velho Richard? Ele poderia ter financiado o negócio.

— Eu levei ao conhecimento dele.

— Ele não tomou nenhuma providência? Por que será? Pensei que ele reconheceria em você o mesmo vigor que ele próprio possuía.

Susan não respondeu, e na mente de George apareceu, num relance, a figura de uma outra pessoa. Um jovem magro, nervoso e de olhar desconfiado.

— Onde o... qual é mesmo seu nome... Greg... entra nisso tudo? — indagou ele. — Ele deixará de preparar pílulas e pós?

— É claro. Construiremos um laboratório lá nos fundos. Teremos as nossas próprias fórmulas para cremes faciais.

George reprimiu um sorriso. Ele queria dizer: “Então, agora o garoto vai ganhar seu brinquedinho”, mas não disse. Como primo, ele não se importava em ser malicioso, embora tivesse a inquietante impressão de que os sentimentos de Susan pelo marido eram uma coisa para ser tratada com muito cuidado. Tinha todo o aspecto de um perigoso explosivo. Ele ficou pensando, como ficara no dia do funeral, naquele sujeito esquisito e apagado, Gregory. Ele tinha algo de estranho, algo indefinível e que ao mesmo tempo não o era.

Tornou a olhar para Susan, tão tranqüila e radiantemente triunfante.

— Você tem o verdadeiro toque dos Abernethie — observou ele. — É a única da família que o possui. Pena que seja mulher. Digo isso por causa do velho Richard. Se você fosse homem, aposto como ele teria lhe deixado toda a sua fortuna.

Susan falou devagar:

— Sim, creio que sim.

Ela fez uma pausa e em seguida disse:

— Sabe, ele não gostava de Greg...

— Ah! — George ergueu as sobrancelhas. — Erro dele.

— Sim.

— Oh, bem, de qualquer modo as coisas agora vão bem... tudo correndo de acordo com seu plano.

Ao pronunciar estas palavras, ele foi surpreendido pelo fato de que elas pareciam especialmente aplicáveis a Susan.

Essa idéia fez com que, por um momento, ele sentisse um certo mal-estar.

Mudando de assunto, ele disse:

— A propósito, você recebeu uma carta de Helen? Sobre Enderby?

— Sim, recebi esta manhã. Você recebeu?

— Sim. O que vamos fazer a respeito?

— Greg e eu pensamos em ir no próximo fim de semana... se isso for conveniente para todos. Helen parece querer reunir todos nós.

George riu maliciosamente.

— Caso contrário, alguém poderá escolher uma peça de mais valor do que o outro.

Susan riu.

— Oh, suponho que haja uma avaliação apropriada. Entretanto, uma avaliação para um inventário será muito mais baixa do que pelo preço do mercado. E, além disso, eu gostaria de ficar com algumas relíquias do fundador da fortuna dos Abernethie. Acho que seria interessante colocar aqui um ou dois exemplares realmente absurdos e encanta-dores da era vitoriana. O estilo daquela época está voltando à moda. Havia uma mesa de mármore verde na sala de visitas que dá para fazer uma decoração bem colorida. Talvez com pássaros empalhados... ou um daqueles arranjos de flores de cera. Alguma coisa desse tipo, como elemento central, pode ser de muito efeito.

— Confio no seu gosto.

— Você irá, não?

— Oh, irei, nem que seja só para me assegurar da honestidade da distribuição.

Susan riu.

— Quanto quer apostar que vai sair uma grande confusão na família? — perguntou ela.

— Rosamund provavelmente vai querer a mesa de mármore verde para um cenário de teatro.

Susan não achou graça. Em vez disso, franziu as sobrancelhas.

— Você tem visto Rosamund ultimamente?

— Não vejo a linda prima Rosamund desde que voltamos do funeral naquele trem de terceira classe.

— Eu a vi uma ou duas vezes. Ela... ela parecia um tanto estranha...

— O que estava acontecendo? Ela estava tentando pensar?

— Não. Ela parecia... bem... parecia perturbada.

— Perturbada por ter herdado muito dinheiro e agora poder montar alguma peça horrível onde Michael possa fazer papel de tolo?

— Oh, isso está sendo levado adiante, e realmente me parece horrível... mas mesmo assim pode vir a ser sucesso. Você sabe, Michael é bom. Ele causa grande impressão no palco. Não é como Rosamund, que não passa de uma mulher bonita e péssima atriz.

— Pobre linda e péssima atriz Rosamund!

— De qualquer forma, Rosamund não é tão tola quanto se imagina. Às vezes ela diz coisas bastante perspicazes. Coisas que você nem imaginaria que ela tivesse sequer notado. É... é bem desconcertante.

— Bem parecida com tia Cora.

— Sim.

Uma inquietude momentânea desceu sobre eles... dando a impressão de ter sido trazida pela invocação do nome de Cora Lansquenet.

Em seguida George falou com um ar de despreocupação um tanto estudado.

— Por falar em Cora, e quanto àquela empregada? Acho que algo deveria ser feito em relação a ela.

— Fazer algo em relação a ela? O que você quer dizer?

— Bem, não deixa de ser um assunto que diz respeito à nossa família. Na verdade, estive pensando que Cora era nossa tia, e ocorreu-me que essa mulher poderia não encontrar emprego com facilidade.

— Você pensou nisso?

— Sim. As pessoas vivem preocupadas com a própria segurança. Não digo que pensem que esta tal de Gilchrist os atacaria com uma machadinha, mas lá no fundo podem achar que ela traz azar. As pessoas são supersticiosas.

— Que estranho você ter pensado tudo isso, George! O que você poderia entender desse assunto?

George respondeu secamente:

— Você se esqueceu de que sou advogado. Vejo muito o lado estranho e ilógico das pessoas. Mas o que eu estava querendo dizer é que acho que deveríamos fazer alguma coisa por essa mulher. Dar-lhe uma pequena mesada ou algo parecido. Ou arranjar-lhe um emprego num escritório, se é que ela sabe fazer esse tipo de trabalho. Sinto que devemos manter contato com ela.

— Você não precisa se preocupar — afirmou Susan. Sua voz estava irônica e seca. — Já tomei minhas providências. Ela está na casa de Timothy e Maude.

George pareceu espantado.

— Susan... isso é sensato?

— Foi a melhor coisa em que pude pensar... no momento.

George encarou-a, curioso.

— Você é muito segura de si mesma, não é, Susan? Sabe o que está fazendo e não sente remorsos.

— Sentir remorsos é perda de tempo — respondeu Susan tranqüilamente.