Depois do Funeral

Agatha Christie · Capítulo 17 de 22

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Depois do Funeral

Capítulo XX · Houve um momento de extraordinária tensão. Poirot…

 

1

 

Houve um momento de extraordinária tensão. Poirot pôde senti-la, embora não tivesse afastado os olhos do lindo e calmo rosto de Rosamund.

Com uma ligeira reverência, ele disse:

— A senhora tem uma grande perspicácia.

— Nem tanto — retrucou Rosamund. — Certa vez, num restaurante, mostraram-me o senhor. Lembro-me bem.

— Mas por que a senhora não mencionou isso antes?

— Achei que seria mais divertido se não o fizesse — respondeu Rosamund.

Michael falou numa voz mal controlada:

— Minha... querida!

Poirot voltou o olhar para ele.

Michael estava zangado. Zangado e talvez... apreensivo.

Os olhos de Poirot examinaram vagarosamente todos os rostos: o de Susan estava zangado e atento; o de Gregory, cansado e abatido; o da Srta. Gilchrist, abobalhado e com a boca aberta; George estava alerta; Helen, assustada e nervosa...

Todas aquelas expressões eram normais naquelas circunstâncias. Ele gostaria de ter visto seus rostos um segundo antes, quando a palavra “detetive” saíra dos lábios de Rosa-mund. Porque agora, inevitavelmente, não seria bem a mesma coisa...

Endireitou os ombros e fez uma reverência. Seu sotaque tornou-se menos acentuado.

— Sim — disse ele. — Sou um detetive.

George Crossfield perguntou:

— Quem o mandou aqui?

— Fui designado para investigar as circunstâncias da morte de Richard Abernethie.

— Por quem?

— Por enquanto isso não lhe diz respeito. Mas seria bom, não seria, se eu pudesse lhes assegurar que acima de qualquer suspeita Richard Abernethie morreu de morte natural?

— É lógico que foi morte natural. Quem está dizendo o contrário?

— Cora Lansquenet disse. E ela está morta.

Uma pequena sombra de inquietação pairou sobre a sala como uma brisa maligna.

— Ela disse aquilo... nesta sala — falou Susan. — Mas, realmente, não pensei que...

— Não mesmo, Susan? — George Crossfield lançou-lhe um olhar sarcástico. — Por que continuar a fingir? Você não conseguirá enganar o Sr. Pontarlier.

— Na verdade, todos nós acreditamos nela — afirmou Rosamund. — E o nome dele não é Pontarlier, é Hercule alguma coisa.

— Hercule Poirot... a seu serviço.

Poirot fez uma reverência.

Não houve nenhuma exclamação de surpresa ou apreensão. Seu nome nada parecia significar para eles.

Eles ficaram menos alarmados com a menção de seu nome do que haviam ficado pela palavra “detetive”.

— Posso saber a que conclusões o senhor chegou? — indagou George.

— Ele não lhe dirá, querido — disse Rosamund. — E, se ele falar, não será a verdade.

À parte de todo o grupo, ela parecia estar se divertindo.

Hercule Poirot olhou para ela, pensativo.

 

2

 

Hercule Poirot não dormiu bem naquela noite. Estava perturbado e não tinha muita certeza do motivo por que estava assim. Trechos incompreensíveis de conversas, vários olhares, movimentos estranhos... tudo parecia carregado de atormentador significado na solidão da noite. Estava no limiar do sono, mas o sono não chegava. No momento em que começava a adormecer, alguma coisa aparecia em sua mente e o despertava. Pintura... Timothy e tinta. Tinta a óleo... o cheiro de tinta a óleo... associado de alguma forma com o Sr. Entwhistle. Pintura e Cora. Pinturas de Cora... cartões-postais... Cora fraudulenta com sua pintura... Não, de volta ao Sr. Entwhistle... algo que o Sr. Entwhistle dissera... ou fora Lanscombe? Uma freira que apareceu no dia da morte de Richard Abernethie. Uma freira de bigode. Uma freira em Stansfield Grange e em Lytchett St. Mary. Eram freiras demais! Rosamund glamourosa, vestida de freira no palco. Rosamund... revelando que ele era detetive... e todos a encarando quando ela falou. Deveria ter sido assim que olharam para Cora no dia em que ela dissera: “Mas ele foi assassinado, não foi?” O que Helen Abernethie achara de errado naquela ocasião? Helen Aber-nethie... deixando o passado para trás, indo para Chipre... Helen deixando cair as flores de cera quando ele dissera... o que foi mesmo que dissera? Não conseguia lembrar-se...

Ele então adormeceu e, enquanto dormia, sonhou...

Sonhou com uma mesa de mármore verde. Em cima dela havia uma redoma de vidro com flores de cera... só que tudo havia sido pintado com uma espessa tinta a óleo vermelha. Pintado da cor de sangue. Ele podia sentir o cheiro da tinta, e Timothy estava gemendo e dizendo: “Estou morrendo... morrendo... é o fim”. E Maude, em pé ao lado, alta e forte, com uma grande faca na mão e repetindo as palavras dele: “Sim, é o fim...” O fim... um leito de morte, com velas e uma freira rezando. Se ao menos ele pudesse ver o rosto da freira, ele saberia...

Poirot acordou... e ele sabia!

Sim, era o fim...

Apesar de ainda haver um longo caminho a percorrer.

Ele separou todas as peças do mosaico.

O Sr. Entwhistle, o cheiro de tinta, a casa de Timothy, e alguma coisa que deveria estar dentro dela... ou que poderia estar dentro dela... as flores de cera... Helen... vidro quebrado...

 

3

 

Em seu quarto, Helen levou algum tempo para se deitar. Estava pensando.

Sentada em frente à penteadeira, olhava-se sem se ver no espelho.

Havia sido forçada a receber Hercule Poirot. Ela não tinha querido. Contudo, o Sr. Entwhistle tornara difícil para ela recusar. E agora tudo fora revelado. Não havia mais possibilidade de deixar Richard Abernethie descansar em paz em seu túmulo. Tudo começara com aquelas poucas palavras de Cora...

No dia do funeral... Qual teria sido a expressão em seus rostos? Como Cora os teria visto? E como ela, Helen, teria se mostrado?

O que dissera George? Sobre ver a si próprio.

Existia também a citação: “Vermos a nós mesmos como os outros nos vêem...” Como os outros nos vêem.

Os olhos que estavam olhando o espelho sem nada ver de repente focalizaram. Ela estava se vendo... mas não realmente a si mesma... não como os outros a viam... não como Cora a vira naquele dia.

Sua sobrancelha direita... não, a esquerda, era ligeiramente mais arqueada do que a direita. A boca? Não, a curva de sua boca era simétrica. Se ela se encontrasse con-sigo mesma, certamente não veria muita diferença em relação àquela imagem no espelho. Não como Cora.

Cora... a imagem voltou bem claramente... Cora, no dia do funeral, sua cabeça inclinada de lado... fazendo sua pergunta... olhando para Helen...

De repente, Helen cobriu o rosto com as mãos. Disse para si mesma: “Não tem sentido... não pode ter sentido...”

 

4

 

A Srta. Entwhistle foi despertada de seu agradável sonho, no qual estava jogando cartas com a Rainha Mary, pela campainha do telefone.

Tentou ignorá-la, mas o barulho persistiu. Sonolenta, levantou a cabeça do travesseiro e olhou para o relógio ao lado da cama. Cinco para as sete. Quem poderia estar telefonando àquela hora da manhã? Deveria ser engano.

O irritante tilintar continuava. A Srta. Entwhistle suspirou, apanhou um robe e dirigiu-se à sala de estar.

— Kensington 675498 — disse asperamente ao atender ao telefone.

— Aqui é a Sra. Abernethie. Sra. Leo Abernethie. Posso falar com o Sr. Entwhistle?

— Oh, bom dia, Sra. Abernethie. — O bom-dia não foi nada cordial. — Quem fala aqui é a Srta. Entwhistle. Receio que meu irmão ainda esteja dormindo. Aliás, eu também estava dormindo.

— Sinto muito. — Helen foi forçada a se desculpar. — Mas é muito importante que eu fale com seu irmão imediatamente.

— Não pode deixar para mais tarde?

— Infelizmente, não.

— Oh, então está bem.

A Srta. Entwhistle foi rude.

Ela bateu na porta do quarto do irmão e entrou.

— São os Abernethie de novo — disse ela asperamente.

— Eh! Os Abernethie?

— A Sra. Leo Abernethie. Telefonando antes das sete da manhã. Era só o que faltava!

— A Sra. Leo? Minha nossa! Que estranho! Onde está meu robe? Ah, obrigado.

Pouco depois ele estava falando:

— Aqui é Entwhistle. É você, Helen?

— Sim. Lamento muito tirá-lo da cama desta maneira. Mas o senhor me pediu para telefonar-lhe no momento em que eu me lembrasse do que me chamara a atenção no dia do funeral, quando Cora nos pegou de surpresa sugerindo que Richard fora assassinado.

— Ah! A senhora se lembrou?

Helen respondeu numa voz intrigada:

— Sim, mas não tem sentido.

— Deve me permitir julgar isso. Foi alguma coisa que notou em alguém?

— Sim.

— Conte-me.

— Parece-me absurdo. Entretanto, estou bastante segura. Lembrei-me quando estava me olhando no espelho ontem à noite. Oh...

O pequeno grito assustado foi sucedido por um estranho som que veio através dos fios... um barulho pesado e seco que o Sr. Entwhistle não conseguia distinguir.

Ele falou, ansioso:

— Alô, alô... a senhora está aí? Helen, responda! Helen...