Depois do Funeral

Agatha Christie · Capítulo 3 de 22

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Depois do Funeral

Capítulo III · Viajando para Londres em um trem de…

 

1

 

Viajando para Londres em um trem de primeira classe, o Sr. Entwhistle entregou-se ao pensamento, de certa forma inquietante, a respeito da extraordinária observação feita por Cora Lansquenet. Era evidente que Cora era uma mulher desequilibrada e excessivamente tola. Desde criança era conhecida por sua maneira embaraçosa de explodir com verdades indesejáveis. Ele não queria dizer “verdades” — esta era uma palavra bastante inadequada para se usar. “Comentários embaraçosos”... este sim era um termo muito mais apropriado.

Mentalmente ele reviu a seqüência imediata àquele infeliz comentário. Os olhares de censura e espanto fizeram com que Cora percebesse a enormidade do que acabara de dizer.

Maude exclamara: — Realmente, Cora! — Alguém mais havia perguntado: — O que você quer dizer com isso?

E imediatamente Cora Lansquenet, envergonhada, explodira em frases confusas.

— Oh, desculpem... eu não quis dizer... oh, é claro, foi muito tolo de minha parte, mas pensei que... pelo que ele havia dito... Oh, é claro que sei que está tudo bem, mas sua morte foi tão repentina! Por favor, esqueçam o que eu disse... não queria ser tão tola... sei que estou falando a coisa errada.

E então o mal-estar momentâneo diminuíra e iniciara-se uma discussão prática sobre a distribuição dos bens pessoais do falecido Richard Abernethie. A casa e seus objetos, o Sr. Entwhistle acrescentara, seriam postos à venda.

A infeliz gafe de Cora havia sido esquecida. Afinal de contas, Cora sempre fora se não extremamente tola, embaraçosamente ingênua. Nunca tivera a menor idéia do que deveria ou não ser dito. Aos dezenove anos isso não tivera muita importância. Os maneirismos de uma enfant terrible poderiam persistir até aquela idade, porém uma enfant terrible com quase cinqüenta anos era decididamente desconcertante. Falando sem parar, explodindo em verdades indesejáveis... A seqüência de pensamentos parou subitamente. Já era a segunda vez que aquela palavra perturbadora lhe ocorrera. E por que era tão inquietante assim? Porque obviamente, no fundo, esse era o motivo pelo qual os comentários de Cora sempre causavam embaraço. Suas declarações ou eram verdadeiras ou continham algo de verdade!

Apesar de o Sr. Entwhistle ter visto na gorda mulher de quarenta e nove anos pouca semelhança com a tola e desajeitada garota do passado, alguns dos trejeitos de Cora haviam permanecido — a inclinação da cabeça como um passarinho quando fazia uma observação especialmente ultrajante... uma certa aparência de agradável expectativa... Fora dessa maneira que, certa vez, Cora havia comentado sobre a figura da cozinheira: “A barriga de Mollie está tão inchada que ela quase não pode se aproximar da mesa da cozinha. Está assim há um ou dois meses. Por que será que ela está engordando tanto?”

Cora tinha sido rapidamente silenciada. A criadagem era mantida debaixo de um clima vitoriano. No dia seguinte, a cozinheira havia desaparecido da casa, e, depois das devidas investigações, o jardineiro fora obrigado a torná-la uma mulher honesta, tendo sido por isso presenteado com uma cabana. Eram lembranças remotas... mas tinham a sua im-portância. O Sr. Entwhistle examinou sua inquietação mais detalhadamente. O que havia nos ridículos comentários de Cora para permanecer importunando daquela maneira seu inconsciente? Ele separou duas frases: “Eu pensei, pelo que ele havia dito...” e “Sua morte foi tão repentina...” Em primeiro lugar, o Sr. Entwhistle examinou o último comentário. Sim, a morte de Richard poderia, de certa forma, ser considerada repentina. O Sr. Entwhistle havia conversado a respeito da saúde de Richard tanto com o próprio Richard como com seu médico. Este último mostrara claramente que uma longa vida não poderia ser esperada. Se o Sr. Abernethie tomasse razoável cuidado consigo mesmo, poderia viver mais dois ou três anos. Talvez até mais, mas isso era pouco provável. De qualquer maneira, o médico não havia previsto nenhum colapso em futuro próximo.

Bem, o médico se enganara, e os próprios médicos eram os primeiros a admitir que nunca podiam ter certeza quanto à reação individual de um paciente a uma doença. Às vezes, o caso é dado como perdido e inesperadamente há uma recuperação. Pacientes a caminho de se restabelecer têm uma recaída e morrem. Depende muito da vitalidade do doente, de seu desejo de viver. E Richard Abernethie, apesar de ser um homem forte e vigoroso, não tinha, nos últimos tempos, grande motivação para viver. Pois há seis meses seu único filho vivo, Mortimer, contraíra paralisia infantil e morrera em uma semana. Sua morte havia sido um choque consideravelmente aumentado pelo fato de ele ter sido um jovem extraordinariamente forte e animado. Era um excelente esportista e uma dessas pessoas de quem se diz que nunca ficou doente. Estava prestes a ficar noivo de uma moça encantadora, e todas as esperanças do pai centralizavam-se naquele filho profundamente amado, que só lhe dava alegrias.

Em vez disso viera a tragédia. E, além da sensação da perda, o futuro tinha muito pouco para oferecer a Richard Abernethie. Um filho havia morrido na infância, o segundo sem deixar descendentes. Ele não tinha netos. Não havia, na verdade, ninguém com o nome de Abernethie para vir depois dele, e ele era dono de uma enorme fortuna, distribuída em vários negócios, que até certo ponto ainda controlava. Quem iria herdar aquela fortuna e cuidar dos negócios?

Entwhistle sabia que isso preocupava profundamente Richard. Seu único irmão vivo era quase um inválido. Restava a jovem geração. Richard pretendia — assim pensava o advogado, apesar de na verdade seu amigo não lhe ter dito nada a esse respeito — escolher um sucessor, embora pequenos legados provavelmente fossem feitos.

De qualquer maneira, como Entwhistle sabia, nos últimos seis meses Richard Abernethie havia convidado para hospedar-se com ele, sucessivamente, seu sobrinho George, a sobrinha Susan e o marido, sua sobrinha Rosamund e o marido, e sua cunhada, Sra. Leo Abernethie. Foi entre os três primeiros, assim presumia o advogado, que Abernethie havia procurado seu sucessor. Helen Abernethie, ele supôs, havia sido convidada por motivos afetivos e, talvez, até mesmo para trocar idéias com ele, já que Richard sempre tivera uma excelente opinião sobre seu bom senso e julgamento experiente. O Sr. Entwhistle também se lembrou de que certa vez, nesse período de seis meses, Richard fizera uma curta visita a seu irmão Timothy.

O resultado disso tudo havia sido este que ele agora carregava em sua pasta — uma igual distribuição de bens. Por conseguinte, a única conclusão a que poderia chegar era que ele se desapontara tanto com seu sobrinho quanto com as sobrinhas, ou talvez com seus maridos.

Pelo que o Sr. Entwhistle tinha conhecimento, Richard não havia convidado sua irmã, Cora Lansquenet, para visitá-lo... e isso levou o advogado de volta à primeira frase perturbadora que Cora havia deixado escapar inconvenientemente: “Mas eu pensei, pelo que ele havia dito...”

O que dissera Richard Abernethie? E quando fora que ele dissera? Se Cora não havia estado em Enderby, então Richard deveria ter ido visitá-la em Berkshire, onde ela possuía um chalé. Ou seria alguma coisa que Richard havia dito em carta?

O Sr. Entwhistle franziu as sobrancelhas. Cora, é claro, era uma mulher muito tola. Poderia interpretar mal uma frase, torcer seu significado. Porém, ele gostaria de saber que frase tinha sido essa.

Ele estava bastante aflito, a ponto de considerar a possibilidade de se aproximar de Cora Lansquenet para falar sobre o assunto. Mas não muito em breve; era melhor fazer com que não parecesse tão importante. Contudo, ele desejava saber exatamente o que Richard Abernethie dissera a ela, para levá-la a formular tão vivamente aquela pergunta chocante:

“Mas ele foi assassinado, não foi?”

 

2

 

Num trem de terceira classe, Gregory Banks comentou com sua mulher:

— Aquela sua tia deve ser completamente biruta!

— Tia Cora? — Susan estava distante. — Oh, sim, creio que ela sempre foi meio avoada ou algo assim.

George Crossfield, sentado do lado oposto, falou rispidamente:

— Ela deveria ser impedida de sair por aí dizendo coisas assim. Pode colocar idéias na cabeça dos outros.

Rosamund Shane, tentando desenhar o contorno de sua boca em forma de arco de cupido, murmurou vagamente:

— Não acredito que alguém daria atenção ao que uma desmazelada como aquela dissesse. Que roupa mais estranha, cheia de enfeites...

— Bem, eu acho que deveriam impedi-la — repetiu

— Está bem, querido — riu Rosamund, guardando o batom e olhando com satisfação a sua imagem no espelho. — Por que você não a impede?

Seu marido falou inesperadamente:

— Acho que George tem razão. É muito fácil despertar comentários.

— Bem, e que importância teria isso? — perguntou

Rosamund. Seus lábios se abriram num sorriso. — Poderia até ser bem divertido.

— Divertido? — quatro vozes se levantaram.

— Ter um caso de assassinato na família — explicou Rosamund. — Acho excitante!

Ocorreu àquele jovem nervoso e infeliz, Gregory Banks, que a prima de Susan, deixando de lado a aparência atraente, poderia ter alguns pequenos pontos em comum com sua tia Cora. Suas próximas palavras serviram para confirmar-lhe a opinião:

— Se ele foi assassinado — indagou Rosamund —, quem vocês acham que é o criminoso?

Seu olhar passeou pensativo pelo trem.

— Sua morte foi extremamente conveniente para todos nós — afirmou ela. — Michael e eu estávamos completamente sem dinheiro. Mick foi convidado para um papel realmente excelente no espetáculo de Sandbourne se puder dispor de recursos para esperar até sua estréia. Agora ficaremos numa ótima situação financeira. Poderemos até mon-tar nosso próprio espetáculo, se desejarmos. A verdade é que há uma peça teatral com um papel simplesmente maravilhoso...

Ninguém ouvia a dissertação de Rosamund. Suas atenções haviam sido desviadas para seus próprios futuros.

“Foi por um fio”, pensou George consigo mesmo. “Agora vou poder repor o dinheiro e ninguém nunca ficará sabendo... Mas escapei por pouco.”

Gregory fechara os olhos, recostando-se em sua cadeira. “Livrei-me da escravidão.”

Susan falou com sua voz clara e um tanto dura: — Lamento, é claro, pelo pobre tio Richard. Mas ele estava muito velho e Mortimer morrera, não lhe restando nenhum motivo para viver. Teria sido terrível continuar doente ano após ano. Para ele foi muito melhor partir assim, repentinamente, sem nenhuma confusão. — Seus olhos confiantes e firmes se suavizaram quando se voltaram para o rosto absorto do marido. Adorava Greg. Ela sentia vagamente que Greg gostava menos dela do que ela dele, mas isso só servia para aumentar sua paixão. Greg era dela, ela faria qualquer coisa por ele. Qualquer coisa...

 

3

 

Maude Abernethie, enquanto trocava de roupa para jantar em Enderby (ela ia passar a noite ali), estava em dúvida se deveria ou não ter se oferecido para ficar mais tempo ajudando Helen a selecionar os objetos da casa. Lá se encontravam todos os pertences de Richard... Talvez houvesse cartas... Todos os papéis importantes, supôs ela, já deveriam estar em mãos do Sr. Entwhistle. Era absolutamente necessário voltar para Timothy o mais rápido possível. Ele se queixava muito quando ela não estava lá para tomar conta dele. Ela desejava que ele ficasse satisfeito com o testamento e não aborrecido. Timothy esperava, ela sabia, que a maior parte da fortuna de Richard ficasse para ele. Afinal de contas, ele era o único Abernethie vivo. Richard poderia ter confiado nele para tomar conta da geração mais jovem. Sim, ela temia que Timothy se aborrecesse. E isso seria muito ruim para sua digestão. E, quando ele se contrariava, podia se tornar bastante irracional. Havia ocasiões em que chegava a perder o senso de proporção. Ela não sabia se devia ou não falar ao Dr. Barton sobre o fato. Aquelas pílulas para dormir... Ultimamente, Timothy andava tomando uma quantidade excessiva delas, e ficava zangado quando ela queria guardar o vidro. Mas as pílulas poderiam ser perigosas. O Dr. Barton dissera que a pessoa poderia ficar sonolenta e esquecer que já as tomara... e depois tomar mais. E então tudo poderia acontecer. Estava certa de que havia no vidro menos pílulas do que deveria haver. Timothy era realmente muito desobediente e rebelde em relação a remédios. Não lhe dava ouvidos. Algumas vezes ele era uma pessoa muito difícil.

Ela suspirou, porém logo em seguida ficou animada. Agora tudo iria se tornar muito mais fácil. O jardim, por exemplo...

 

4

 

Helen Abernethie estava na sala verde, sentada perto da lareira, esperando Maude descer para o jantar.

Olhou em torno da sala, relembrando os dias passados ali com Leo e os outros. Aquela havia sido uma casa alegre. Entretanto, uma casa daquele tipo precisava de gente. Precisava de crianças, empregados, grandes refeições, e no inverno bastante fogo queimando na lareira. Tinha se transformado em um lugar triste quando fora habitada por um velho que havia perdido o filho...

Quem a compraria? Ela gostaria de saber. Provavelmente, seria transformada em hotel, instituto ou, talvez, numa dessas hospedarias para jovens. Era o que costumava acontecer com essas enormes mansões. Talvez fosse demolida e todo o terreno loteado. Sentia-se triste ao pensar nisso, mas empurrou a tristeza para o lado resolutamente. Não fazia bem a ninguém viver do passado. A casa, os dias felizes vividos ali, Richard, Leo, tudo isso era muito bom, mas acabara. Ela agora tinha suas próprias atividades, amigos e interesses. Sim, seus interesses... E agora, com a renda que Richard lhe deixara, iria poder manter a villa em Chipre e fazer tudo o que planejara.

Ultimamente, ela andara muito preocupada com dinheiro — impostos, todos aqueles investimentos dando errado... Mas agora, graças ao dinheiro de Richard, tudo isso chegara ao fim.

Pobre Richard! Morrer durante o sono tinha sido realmente uma grande bênção. De repente, no dia 22... Ela ficou pensando o que fora que colocara aquela idéia na cabeça de Cora. Cora costumava se exceder. Sempre fora assim. Helen lembrou-se de tê-la encontrado no estrangeiro, certa vez, logo após seu casamento com Pierre Lansquenet. Ela estivera particularmente tola e infantil naquele dia, inclinando a cabeça para o lado, fazendo comentários dogmáticos sobre pintura, especialmente a respeito das pinturas do marido, o que deve ter sido muito desconcertante para ele. Homem nenhum poderia gostar de ter uma esposa tão tola. E Cora era uma tola! Oh, bem, pobre coitada, ela não podia evitar, e aquele seu marido não a tratara nada bem.

O olhar de Helen pousou distraído no ramo de flores artificiais dispostas em cima de uma mesa redonda de mármore. Cora estivera sentada ao lado daquela mesa enquanto esperavam para ir para a igreja. Estivera cheia de reminiscências, deliciada com o reconhecimento de vários objetos e evidentemente satisfeita por estar de volta a sua antiga casa. Com isso, esquecera-se completamente do motivo por que estavam ali reunidos.

“Mas, talvez”, pensou Helen, “ela fosse apenas menos hipócrita que todos nós.”

Cora nunca fora uma pessoa que respeitasse convenções. Veja a maneira com que ela proferira abruptamente aquela pergunta: “Mas ele foi assassinado, não foi?”

Todos aqueles rostos assustados, chocados, olhando para ela! Uma enorme variedade de expressões aparecera naqueles rostos...

E de repente, revendo com clareza a cena, Helen franziu as sobrancelhas... Havia algo de errado naquela cena...

Alguma coisa... ?

Alguém... ?

Teria sido a expressão no rosto de alguém? Teria sido isso? Alguém que... Como ela poderia explicar? Algo que não deveria estar ali?

Ela não sabia... não conseguia identificar. Mas tinha havido alguma coisa... em algum instante... errada.

 

5

 

Entrementes, em um restaurante em Swindon, uma senhora, com um vestido de luto com bordados negros, comia brioches e tomava chá enquanto pensava no futuro. Ela não estava com nenhum pressentimento ruim. Estava feliz.

Essas viagens pelo campo eram bastante cansativas. Teria sido bem mais fácil voltar a Lytchett St. Mary via Londres, e não teria saído tão caro assim. Ah, mas agora os gastos não tinham mais importância. Contudo, ela teria sido forçada a viajar com a família, provavelmente tendo que conversar o tempo todo. Seria uma esforço grande demais.

Não, era melhor voltar para casa pelo campo.

Aqueles brioches eram realmente excelentes. Era impressionante como um funeral abria o apetite. A sopa em Enderby estivera deliciosa, assim como o suflê.

Como as pessoas eram afetadas! E quanta hipocrisia! Todos aqueles rostos... quando ela falara sobre assassinato! O modo como todos olharam para ela!

Bem, tinha sido a coisa certa a dizer. Balançou a cabeça, satisfeita consigo mesma. Sim, ela fizera a coisa certa.

Olhou para o relógio e viu que faltavam apenas cinco minutos para seu trem partir. Bebeu o chá. Não estava muito bom. Ela fez uma careta.

Por um ou dois minutos, ficou sentada, sonhando. Sonhando com um futuro que se desenrolava diante de seus olhos. Sorriu como uma criança feliz.

Finalmente, iria aproveitar a vida. Foi em direção à pequena estação, ocupada em fazer planos.