Depois do Funeral

Agatha Christie · Capítulo 18 de 22

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Depois do Funeral

Capítulo XXI · Só depois de quase uma hora de…

 

1

 

Só depois de quase uma hora de espera e um bocado de conversa com os supervisores da telefônica e outros é que o Sr. Entwhistle afinal conseguiu falar com Hercule Poirot.

— Até que enfim! — exclamou o Sr. Entwhistle com desculpável exasperação. — O serviço interurbano parece ter tido a maior dificuldade em conseguir a ligação.

— Não é de admirar. O telefone estava fora do gancho.

Havia um tom sério na voz de Poirot que fez o Sr. Entwhistle perguntar:

— Aconteceu alguma coisa?

— Sim. A Sra. Leo Abernethie foi encontrada por uma empregada, há cerca de vinte minutos, caída na biblioteca ao lado do telefone. Estava inconsciente. Foi uma Concussão violenta.

— Quer dizer que ela foi golpeada na cabeça?

— Acho que sim. Há a possibilidade de ela ter caído e batido com a cabeça na maçaneta da porta, mas não acredito que tenha sido isso, e nem tampouco o médico.

— Ela estava falando comigo na hora. Estranhei que a ligação tivesse sido cortada tão bruscamente.

— Então era com o senhor que ela estava falando? O que disse ela?

— Há algum tempo atrás ela mencionou que, na ocasião em que Cora Lansquenet sugeriu que seu irmão havia sido assassinado, ela sentira que havia algo errado... estranho... ela não sabia, entretanto, como explicar... pois, infelizmente, não conseguia se lembrar por que tivera aquela impressão.

— E de repente ela se lembrou?

— Sim.

— E telefonou para lhe contar?

— Sim.

— Eh bien.

— Não há nenhum “eh bien” neste caso — afirmou o Sr. Entwhistle. — Ela começou a me contar, mas foi interrompida.

— O que ela chegou a contar?

— Nada de importante.

— Desculpe-me, mon ami, mas eu julgo isso, não você. O que exatamente ela disse?

— Ela me lembrou de que eu lhe pedira para informar-me imediatamente caso ela se recordasse do que chamara sua atenção. Disse-me que se lembrara, mas que não tinha sentido. Perguntei-lhe se era alguma coisa relacionada com as pessoas que estavam presentes naquele dia, e ela respondeu que sim. Falou que o fato voltara à sua memória quando ela estava se olhando no espelho...

— Sim?

— Foi só isso.

— Ela não deu nenhuma pista a respeito de quem ela estava falando?

— Se ela tivesse me revelado isso, eu dificilmente esqueceria de informá-lo — respondeu friamente o Sr. Entwhistle.

— Peço desculpas, mon ami. É lógico que você teria me contado.

O Sr. Entwhistle falou:

— Temos apenas que esperar que ela recupere a consciência para sabermos.

— Isso pode demorar muito. Ou talvez nunca aconteça — afirmou Hercule Poirot.

— Foi tão sério assim? — A voz do Sr. Entwhistle tremeu um pouco.

— Sim, foi muito sério.

— Mas... isso é terrível, Poirot!

— Sim, é terrível. E é por isso que não podemos nos dar ao luxo de esperar. Pois mostra que estamos lidando com alguém completamente desumano ou que está completamente atemorizado, o que vem a dar no mesmo.

— Mas olhe aqui, Poirot, e quanto a Helen? Estou preocupado. Está certo de que ela está segura em Enderby?

— Não, ela não estaria segura aqui em Enderby. Por isso a ambulância já veio e levou-a para uma clínica onde ela terá enfermeiras especiais e ninguém da família ou amigos poderá visitá-la.

O Sr. Entwhistle suspirou.

— Você me deixa aliviado. Ela poderia estar correndo perigo.

— Aqui ela certamente estaria em perigo.

A voz do Sr. Entwhistle parecia emocionada:

— Gosto muito de Helen Abernethie. Sempre gostei. É uma mulher de caráter excepcional. Ela pode ter tido algumas... algumas reticências em sua vida.

— Ah, existem reticências?

— Sempre tive uma idéia de que era assim.

— Daí a vila em Chipre. Sim, isso explica muita coisa.

— Não quero que pense...

— Você não pode me impedir de pensar. Mas agora tenho uma incumbência para você. Espere um momento.

Houve uma pausa e em seguida Poirot tornou a falar:

— Tinha que me certificar de que ninguém estava ouvindo. Está tudo bem. Agora vou lhe dizer o que quero que faça para mim. Deve se preparar para uma viagem.

— Uma viagem? — O Sr. Entwhistle pareceu ligeiramente desanimado. — Oh, entendo, quer que eu vá até Enderby.

— Nada disso. Estou encarregado disso aqui. Não, você não terá que viajar para tão longe. Sua viagem não o levará para muito longe de Londres. Você irá para Bury St. Edmunds (Ma foi! Que nomes têm essas cidades inglesas!) e lá alugará um carro e irá até a Forsdyke House. É um sanatório para doentes mentais. Procure pelo Dr. Penrith e peça informações particulares sobre um paciente que teve alta há pouco tempo.

— Que paciente? De qualquer modo, certamente...

Poirot interrompeu-o:

— O nome do paciente é Gregory Banks. Descubra que tipo de doença o afligia.

— Quer dizer que Gregory Banks é louco?

— Ch! Tenha cuidado com o que diz. E agora... ainda não tomei o meu café e acho que nem você.

— Ainda não. Estava muito ansioso...

— Posso imaginar. Então, peço-lhe, tome seu café e repouse. Ao meio-dia há um bom trem para Bury St. Edmunds. Se eu tiver alguma novidade telefono antes de você partir.

— Tome cuidado com você mesmo, Poirot — pediu o Sr. Entwhistle, preocupado.

— Ah, isso, sim! Não tenho a menor vontade de ser atingido na cabeça por uma maçaneta. Pode ficar certo de que tomarei todas as precauções. E, por enquanto... até logo.

Poirot ouviu o telefone ser desligado do outro lado e em seguida um segundo clique... e sorriu para si mesmo. Alguém no hall desligara o telefone.

Ele foi até lá. Não havia ninguém por perto. Foi nas pontas dos pés até o armário atrás da escada e olhou para dentro. Naquele momento, Lanscombe saiu da porta de serviço carregando uma bandeja com torradas e um bule de café de prata. Pareceu um tanto surpreso ao ver Poirot surgindo de dentro do armário.

— O café está servido, senhor — disse ele.

Poirot observou-o, pensativo.

O velho mordomo estava pálido e trêmulo.

— Coragem — animou Poirot, batendo-lhe no ombro. — Tudo terminará bem. Seria muito trabalho servir-me uma xicara de café no quarto?

— Pois, não, senhor. Mandarei Janet levá-lo.

Lanscombe lançou um olhar de desaprovação para Hercule Poirot enquanto este subia as escadas. Poirot estava vestido com um exótico robe de seda com estampas de triângulos e quadrados.

“Estrangeiros!”, pensou Lanscombe amargamente. “Estrangeiros nesta casa! E a Sra. Leo com uma Concussão. Não sei aonde vamos chegar. As coisas não são mais as mes-mas desde que o Sr. Richard morreu.”

Quando Janet chegou, Hercule Poirot já estava vestido. Suas expressões de simpatia foram bem recebidas, já que ele havia salientado o choque que a descoberta deveria ter-lhe causado.

— Sim, realmente, senhor, o que senti ao abrir a porta da biblioteca, entrar com Hoover, e ver a Sra. Leo estendida no chão, nunca me esquecerei. Lá estava ela, caída no chão... e eu me certifiquei de que não estava morta. Deve ter desmaiado enquanto falava ao telefone. Estranhei ela estar acordada àquela hora da manhã. Nunca a vi fazer isso antes.

— Estranho, não é? — disse ele, e acrescentou casualmente: — Suponho que mais ninguém estivesse acordado?

— Como de costume, senhor, a Sra. Timothy já estava de pé e se movimentando pela casa. Ela é madrugadora... e muitas vezes dá um passeio antes do café.

— Ela pertence à geração que acorda cedo — comentou Poirot balançando a cabeça. — Os jovens de hoje não se levantam tão cedo.

— O senhor tem razão. Estavam todos dormindo profundamente quando levei-lhes o chá... sendo que eu também cheguei bem tarde, por causa do choque. Tive também que providenciar o médico, e eu mesma estava precisando tomar uma xícara de chá para me acalmar.

Ela saiu e Poirot refletiu sobre o que ela dissera.

Maude Abernethie estivera acordada e andando pela casa. A nova geração na cama... mas isso, ponderou Poirot, nada significava. Qualquer um poderia ter ouvido Helen abrir e fechar a porta, e tê-la seguido... e depois fingir estar dormindo profundamente.

“Mas se eu estou certo”, pensou Poirot, “e, afinal de contas, é natural eu estar certo, é um hábito que tenho, então não há necessidade de esclarecer quem estava acordado e quem não estava. Primeiramente devo procurar a prova no lugar onde eu calculo que esteja. E em seguida faço o meu pequeno discurso. E então sento-me e espero para ver o que acontece...”

Assim que Janet se retirou do quarto, Poirot tomou seu café de um só gole, e vestindo o casaco e o chapéu deixou o quarto. Descendo agilmente as escadas dos fundos, saiu da casa pela porta lateral. Andou animadamente um quarto de milha até a companhia telefônica, onde pediu uma ligação interurbana. Pouco depois estava novamente falando com o Sr. Entwhistle.

— Sim, sou eu outra vez. Não dê atenção à incumbência que lhe confiei. C’est une blague. Alguém estava ouvindo. Agora, mon vieux, vamos à tarefa verdadeira. Você precisa, como eu disse, tomar um trem, não para Bury St. Edmunds. Quero que vá à casa do Sr. Timothy Abernethie.

— Mas Maude e Timothy estão em Enderby!

— Exatamente. Não há ninguém na casa, exceto uma mulher chamada Jones, que foi persuadida por uma soma bastante tentadora a tomar conta da casa enquanto estão ausentes. O que eu quero é que você me traga uma coisa que está naquela casa.

— Meu caro Poirot! Não tenho inclinação para roubo.

— Não parecerá roubo. Você dirá para a excelente Sra. Jones, que já o conhece, que o Sr. ou a Sra. Abernethie lhe pediu para apanhar esse tal objeto e levá-lo para Londres. Ela não suspeitará de nada.

— Não, provavelmente, não. Mas não gosto disso. — O Sr. Entwhistle parecia muito relutante. — Por que você mesmo não vai buscar seja lá o que for?

— Porque, meu amigo, eu seria um desconhecido com aparência de estrangeiro e, sendo assim, uma pessoa suspeita. A Sra. Jones imediatamente criaria dificuldades. Com você ela não criará nenhuma.

— Não... não, eu entendo. Mas o que será que Timothy e Maude irão pensar quando souberem? Conheço-os há mais de quarenta anos.

— E você também conhecia Richard Abernethie desde essa época. E também conheceu Cora Lansquenet quando ela era uma criança.

Numa voz angustiada, o Sr. Entwhistle perguntou:

— Está certo de que é realmente necessário, Poirot?

— A velha pergunta que faziam durante a guerra: “A sua viagem é realmente necessária?” Eu lhe digo: ela é necessária. É vital.

— E que objeto é esse que eu devo apanhar?

Poirot disse-lhe.

— Mas francamente, Poirot, não entendo...

— Não é necessário que você entenda.

— E o que quer que eu faça com essa maldita coisa?

— Você a levará a Londres, para um endereço em Elm Park Gardens. Se tiver um lápis, tome nota.

Depois de ter anotado, o Sr. Entwhistle falou, ainda com a voz angustiada:

— Espero que saiba o que está fazendo, Poirot.

Ele parecia ter dúvidas... mas na resposta de Poirot não havia nenhuma dúvida:

— É lógico que sei o que estou fazendo. Estamos chegando ao final.

O Sr. Entwhistle suspirou.

— Se ao menos pudéssemos adivinhar o que Helen ia dizer...

— Não é preciso adivinhar. Eu sei.

— Sabe? Mas, meu caro Poirot...

— As explicações devem ficar para depois. Entretanto, deixe-me assegurar-lhe uma coisa. Eu sei o que Helen Abernethie viu quando se olhou no espelho.

 

2

 

O café da manhã foi uma refeição inquieta. Nem Rosamund nem Timothy apareceram, mas os outros estavam presentes e falaram num tom baixo e comeram menos do que de costume.

George foi o primeiro a recuperar o bom humor. Seu temperamento era vivo e otimista.

— Acho que tia Helen ficará boa — opinou ele. — Os médicos gostam de exagerar as coisas. O que é uma Concussão, afinal de contas? Normalmente, as pessoas se re-cuperam em poucos dias.

— Uma mulher que conheci teve uma Concussão durante a guerra — comentou a Srta. Gilchrist. — Um tijolo ou algo assim caiu-lhe na cabeça enquanto andava pela Estrada Tottenham Court. Foi durante um bombardeio... e ela não sentiu nada. Continuou com o que estava fazendo. . . e desmaiou num trem para Liverpool, doze horas depois. Parece inacreditável, mas ela não se recordava de ter ido à estação e apanhado o trem. Simplesmente não entendeu nada quando acordou no hospital. E já estava lá há quase três semanas.

— O que eu não consigo compreender — disse Susan — é o que Helen estava fazendo, telefonando àquela hora da manhã. E para quem ela estava telefonando?

— Sentiu-se doente — disse Maude com firmeza. — Provavelmente acordou sentindo-se estranha e desceu para ligar para o médico. Então teve uma vertigem e caiu. Esta é uma história que tem sentido.

— Foi uma falta de sorte ela ter batido com a cabeça na maçaneta da porta — lamentou Michael. — Se ela tivesse caído em cima do tapete felpudo, estaria bem.

A porta se abriu e Rosamund entrou, a expressão carregada.

— Não consigo encontrar aquelas flores de cera — disse ela. — Refiro-me às que estavam em cima da mesa de mármore no dia do funeral de tio Richard. — Ela olhou para Susan, de um modo acusador. — Você as pegou?

— É claro que não! Realmente, Rosamund, você ainda está pensando em mesas de mármore com a pobre tia Helen no hospital com uma Concussão?

— Não vejo por que não pensar. Se a pessoa está com uma Concussão não sabe o que está acontecendo, e, por conseguinte, não se importa. Não podemos fazer nada por tia Helen, e Michael e eu temos que estar de volta a Londres amanhã até a hora do almoço porque temos um encontro com Jackie Lygo para falarmos a respeito do dia da estréia de The baronet’s progress. Por isso, gostaria de resolver de uma vez por todas sobre a mesa. E também dar mais uma olhada naquelas flores de cera. Agora, em cima da mesa, tem um vaso chinês... bonito, mas não autêntico. Onde será que estão... talvez Lanscombe saiba.

Nesse momento, Lanscombe entrou para ver se tinham acabado o café.

— Nós já acabamos, Lanscombe — informou George levantando-se. — O que aconteceu ao nosso amigo estrangeiro?

— Ele está tomando o café no quarto, senhor.

— Lanscombe, sabe onde estão aquelas flores de cera que costumavam ficar em cima da mesa verde da sala de visitas? — indagou Rosamund.

— Creio que a Sra. Leo teve um acidente com elas. Ela ia mandar fazer uma redoma nova, mas acho que ainda não providenciou.

— Então onde estão?

— Provavelmente no armário atrás da escada. É lá que normalmente se guardam as coisas que estão precisando de conserto. Devo buscá-las para a senhora?

— Eu mesma irei. Venha comigo, Michael. Lá é escuro e não vou sozinha em nenhum canto escuro depois do que aconteceu com tia Helen.

Todos tiveram uma reação violenta. Maude perguntou, séria:

— O que você quer dizer com isso, Rosamund?

— Bem, ela foi golpeada por alguém, não foi?

Gregory Banks falou com veemência:

— Ela desmaiou e caiu.

Rosamund riu.

— Ela lhe disse isso? Não seja bobo, Greg, é claro que ela foi golpeada.

George falou rispidamente:

— Você não deveria dizer essas coisas, Rosamund.

— Bobagem — respondeu Rosamund. — É o que deve ter acontecido. Quero dizer, tudo se encaixa. Um detetive na casa procurando por pistas, tio Richard envenenado, tia Cora morta por uma machadinha, a Srta. Gilchrist quase envenenada por um bolo de noiva, e agora tia Helen atingida por um objeto pesado. Vocês verão, continuará assim. Um após outro, todo mundo será morto, e o que sobrar será o assassino. Mas não vou ser eu... que serei assassinada, quero dizer.

— E por que alguém haveria de querer matá-la, linda Rosamund? — perguntou George alegremente.

Rosamund arregalou bem os olhos.

— Oh, porque eu sei demais, é lógico.

— O que você sabe? — Maude Abernethie e Gregory Banks quase falaram juntos.

Rosamund sorriu de modo vago e angelical.

— Como vocês gostariam de saber, não é? — disse ela cordialmente. — Venha, Michael.