Depois do Funeral

Agatha Christie · Capítulo 7 de 22

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Depois do Funeral

Capítulo IX · A Srta. Gilchrist enfiou o chapéu com…

 

A Srta. Gilchrist enfiou o chapéu com firmeza e prendeu uma mecha de cabelo grisalho. O inquérito estava marcado para o meio-dia e ainda não eram onze e vinte. Seu casaco e saia cinza, pensou ela, estavam com boa aparência. Ela comprara uma blusa preta. Gostaria de poder estar toda vestida de preto, mas isso estaria muito acima de seu orça-mento. Olhou em torno do pequeno e arrumado quarto em cujas paredes estavam penduradas reproduções do porto de Brixham, Cockington Forge, Anstey"s Cove, Kyance Cove, Polflexan, Babbacombe Bay, etc, todos vistosamente assinados por Cora Lansquenet. Seus olhos pousaram com carinho especial na enseada de Polflexan. Em cima da cômoda, cuidadosamente emoldurada, havia uma fotografia amarelada da casa de chá Willow Tree. Olhando-a com amor, a Srta. Gilchrist suspirou.

Foi despertada de seu sonho pelo som da campainha da porta.

— Minha nossa! — murmurou a Srta. Gilchrist. — Quem será que...

Saiu do quarto e começou a descer as escadas. A campainha tornou a tocar, seguida por uma batida seca.

Por algum motivo, a Srta. Gilchrist ficou nervosa. Diminuiu, por instantes, seus passos. Em seguida, um tanto contra a vontade, foi até a porta, forçando-se a não ser tão tola.

Uma jovem vestida de preto e carregando uma mala estava parada à entrada. Notando o olhar assustado da Srta. Gilchrist, apressou-se em falar:

— Srta. Gilchrist? Sou sobrinha da Sra. Lansquenet, Susan Banks.

— Oh, sim, é claro. Por favor, entre, Sra. Banks. Eu não sabia que a senhora viria para o inquérito. Teria preparado alguma coisa, um café ou algo assim.

Susan Banks respondeu vivamente:

— Não desejo nada. Lamento se a assustei.

— Bem, de certa forma a senhora me assustou. Sei que foi muito tolo de minha parte. Normalmente, não sou nervosa. De fato, disse ao advogado que não era nervosa e que nem ficaria por permanecer aqui sozinha, e realmente não sou nervosa. Apenas... talvez seja por causa do inquérito e... por ficar pensando nas coisas. Senti-me sobressaltada durante toda esta manhã, e há meia hora a campainha tocou e quase não consigo ir abrir a porta. Foi muito estúpido de minha parte, pois é muito pouco provável que o assassino volte... por que voltaria? Na verdade, era apenas uma freira recolhendo dinheiro para um orfanato. Senti-me tão aliviada que lhe dei dois xelins, apesar de eu não ser católica e de não ter nenhuma simpatia pela Igreja Romana e todos esses padres e freiras. Entretanto, acho que as irmãs de caridade realizam um bom trabalho. Mas, por favor, sente-se, Sra... Sra...

— Banks.

— Sim, é claro, Banks. A senhora veio de trem?

— Não, vim de carro. A estrada é tão estreita que levei o carro por um outro caminho e estacionei-o junto a uma pedreira abandonada que encontrei por perto.

— Essa estrada é mesmo muito estreita, mas quase não há tráfego por aqui. É uma estrada solitária.

A Srta. Gilchrist estremeceu ligeiramente ao dizer essas últimas palavras.

Susan Banks estava olhando em torno da sala.

— Pobre tia Cora! — comentou ela. — Deixou para mim tudo o que possuía, a senhora sabia?

— Sim, eu sei. O Sr. Entwhistle me contou. Espero que goste da mobília. Pelo que pude compreender, a senhora é recém-casada, e hoje em dia custa uma fortuna mobiliar uma casa. A Sra. Lansquenet tinha algumas coisas bonitas.

Susan não concordava. Cora não apreciava o estilo antigo e a decoração era do tipo modernoso e na base da arte barata.

— Não vou querer nenhuma peça da mobília — afirmou. — É que já tenho a minha. Colocarei tudo em leilão. A não ser que... há alguma coisa com que a senhora gostaria de ficar? Eu teria prazer em... — parou, embaraçada.

A Srta. Gilchrist, entretanto, não estava nem um pouco embaraçada. Sorriu.

— É muita gentileza de sua parte, Sra. Banks, realmente muita gentileza. Na verdade, gosto muito de tudo, mas a senhora sabe, tenho minhas próprias coisas. Guardei-as num depósito para o caso de algum dia eu vir a precisar. Tenho também alguns quadros que meu pai me deixou. Certa época, tive uma pequena casa de chá, mas aí estourou a guerra... foi tudo um grande azar. Mesmo assim, não vendi meus objetos, porque tinha esperança de ter novamente a minha própria casa, e por isso guardei num depósito as coisas melhores juntamente com os quadros de meu pai e algumas relíquias de nossa antiga casa. Gostaria muito, entretanto, se a senhora realmente não se importar, de ficar com a pequena mesa de chá pintada da querida Sra. Lansquenet. É tão bonita e sempre tomávamos chá nela!

Susan, olhando com leve estremecimento para a pequena mesa verde pintada com grandes orquídeas roxas, apressou-se em dizer que ficaria muito contente se a Srta. Gilchrist ficasse com ela.

— Muito obrigada, Sra. Banks. Sinto-me um tanto gananciosa. Fiquei com todos os quadros, a senhora sabe, e um lindo broche de ametista, porém talvez deva devolver-lhe isto.

— Não, não é preciso.

— A senhora gostaria de examinar seus pertences? Talvez depois do inquérito?

— Pensei em passar alguns dias aqui para examinar e arrumar tudo.

— Quer dizer, dormir aqui?

— Sim. Existe algum inconveniente?

— Oh, não, Sra. Banks, é lógico que não. Colocarei lençóis limpos em minha cama, e posso muito bem dormir aqui no sofá.

— Mas e o quarto de tia Cora? Posso dormir lá.

— A senhora não... não se incomodaria?

— Quer dizer porque foi lá que ela foi assassinada? Oh, não, isso não tem problema. Sou muito corajosa, Srta. Gilchrist. Já foi... quero dizer... está tudo arrumado?

A Srta. Gilchrist compreendeu a pergunta.

— Oh, sim, Sra. Banks. Todos os cobertores foram mandados para a lavanderia e a Sra. Panter e eu limpamos todo o quarto cuidadosamente. E há muitos cobertores ex-tras. Mas suba e veja a senhora mesma.

Começou a subir as escadas e Susan seguiu-a.

O quarto de Cora Lansquenet estava limpo, arejado, e curiosamente desprovido de qualquer atmosfera sinistra. Possuía, exatamente como a sala de visitas, uma mistura de objetos modernos e móveis pintados com detalhes elaborados e rebuscados. Representava a personalidade alegre e sem gosto de Cora. Em cima da lareira uma pintura a óleo mostrava uma mulher jovem e robusta prestes a entrar no banho.

Susan sentiu um ligeiro tremor ao olhar o quadro. A Srta. Gilchrist comentou:

— Foi pintado pelo marido da Sra. Lansquenet. Há vários outros quadros dele lá embaixo, na sala de jantar.

— É horrível.

— Bem, eu também não aprecio muito este estilo de pintura, mas a Sra. Lansquenet tinha muito orgulho do marido como pintor e achava que era uma injustiça seu trabalho não ser apreciado.

— Onde estão os quadros de tia Cora?

— Em meu quarto. Gostaria de vê-los?

A Srta. Gilchrist exibiu orgulhosamente seus tesouros.

Susan comentou que Cora parecia ter sido amante dos recantos do litoral.

— Oh, sim. É que ela morou com o Sr. Lansquenet durante muitos anos numa pequena vila de pescadores da Inglaterra. Barcos de pesca são sempre tão pitorescos, não?!

— É evidente — murmurou Susan. Uma série completa de cartões-postais, pensou ela, poderia ser feita dos quadros de Cora Lansquenet. Eram cheios de detalhes e extre-mamente coloridos. Davam margem à suspeita de que eles próprios haviam sido copiados de cartões-postais.

Entretanto, quando ela levantou essa hipótese a Srta. Gilchrist ficou indignada. A Sra. Lansquenet sempre pintava a natureza! Houve até uma vez em que ela teve queimadu-ras de sol por se recusar a abandonar o local onde estava pintando, achando que a luz estava perfeita.

— A Sra. Lansquenet é uma verdadeira artista! — afirmou a Srta. Gilchrist de modo repreensivo.

Ela olhou para o relógio e Susan falou imediatamente.

— Sim, está na hora de irmos para o inquérito. É longe? Devo apanhar o carro?

— A pé chegaremos lá em cinco minutos — assegurou a Srta. Gilchrist.

As duas foram juntas, caminhando. O Sr. Entwhistle, que chegara de trem, foi ao encontro delas e as introduziu no Village Hall.

Parecia haver um grande número de estranhos presentes. O inquérito não foi conduzido de maneira sensacionalista. Sabia-se quem era o morto. Houve evidências médicas quanto à natureza dos ferimentos que haviam causado a morte. Não havia sinais de luta. Estava provavelmente sob efeito de narcóticos ao ser atacada. Era improvável que a morte tivesse ocorrido depois das quatro e meia. Entre duas e quatro e meia, era o cálculo mais aproximado. A Srta. Gilchrist testemunhou ter encontrado o corpo. Um policial e o Inspetor Morton prestaram depoimentos. Os jurados não tiveram dúvidas quanto ao veredicto: “Assassinada por pessoa ou pessoas desconhecidas”.

Acabara. Saíram novamente para a luz do sol. Foram fotografados por meia dúzia de repórteres. O Sr. Entwhistle levou Susan e a Srta. Gilchrist para o King"s Arms, onde tomara a precaução de providenciar para que o almoço fosse servido numa sala privativa atrás do bar.

— Receio que não tenha sido um almoço muito bom — desculpou-se ele.

O almoço; entretanto, não fora ruim. A Srta. Gilchrist choramingara um pouco dizendo que “foi tudo tão terrível!”, mas, depois de o Sr. Entwhistle ter insistido para que ela bebesse um cálice de xerez, ela se animou e devorou o cozido com apetite.

— Não imaginava que você viesse hoje, Susan. Poderíamos ter vindo juntos — disse o Sr. Entwhistle.

— Sei que disse que não viria, mas pareceu-me maldade que ninguém da família estivesse presente. Telefonei para George e ele disse que seria impossível vir, pois estaria muito ocupado. Rosamund tinha uma entrevista e tio Timothy, é claro, é um inválido. Sendo assim, eu mesma tinha que vir.

— Seu marido não a acompanhou?

— Greg teve que ficar na sua loja enfadonha.

Notando o olhar espantado da Srta. Gilchrist, Susan falou:

— Meu marido trabalha numa farmácia.

Um marido trabalhando no comércio não se enquadrava bem com a imagem que a Srta. Gilchrist tinha de Susan, porém falou corajosamente:

— Oh, sim, exatamente como Keats.

— Greg não é poeta — retrucou Susan. — Temos planos para o futuro: um estabelecimento de duplo alcance. Cosméticos e salão de beleza e um laboratório para preparados especiais.

— Isso será mais agradável — aprovou a Srta. Gilchrist. — Algo como Elizabeth Arden, que é uma condessa, assim me disseram... ou é a Helena Rubinstein? De qualquer modo — acrescentou ela gentilmente —, uma farmácia não é uma loja comum... uma loja de tecidos, por exemplo, ou um armazém.

— A senhora tinha uma casa de chá, não?

— Sim, realmente. — O rosto da Srta. Gilchrist iluminou-se. O fato de que a Willow Tree tivesse sido alguma vez uma casa comercial no sentido estrito de “comércio” nunca lhe ocorrera. Dirigir uma casa de chá significava para ela a essência do requinte. Começou a falar para Susan a respeito da Willow Tree.

O Sr. Entwhistle, que já a ouvira falar a esse respeito, deixou o pensamento vagar. Depois de Susan ter-se dirigido a ele duas vezes sem obter resposta, ele apressou-se em se desculpar.

— Desculpe-me, querida, estava pensando em seu tio Timothy. Estou um pouco preocupado.

— Com o tio Timothy? Eu no seu lugar não ficaria. Não acredito que haja alguma coisa realmente errada com ele. É apenas um hipocondríaco.

— Sim, sim, pode ser que você tenha razão. Confesso que não é sua saúde que está me preocupando. É a Sra. Timothy. Parece que ela caiu da escada e torceu o tornozelo. Ela tem que ficar em repouso e seu tio está num estado deplorável.

— Porque agora ele vai ter que cuidar dela? Vai lhe fazer muito bem — observou Susan.

— Sim, acredito que sim. Mas será que sua pobre tia receberá algum cuidado? Esta é a pergunta. Sem nenhum empregado em casa?

— A vida é um verdadeiro inferno para as pessoas idosas — comentou Susan. — Eles vivem numa casa de estilo georgiano, não?

O Sr. Entwhistle concordou com a cabeça.

Saíram cautelosamente do King"s Arms, mas tudo indicava que os jornalistas já se haviam dispersado.

Alguns repórteres estavam aguardando Susan à porta do chalé. Orientada pelo Sr. Entwhistle, ela disse algumas palavras necessárias e não comprometedoras. Em seguida, ela e a Srta. Gilchrist entraram na casa e o Sr. Entwhistle retornou ao King"s Arms, onde alugara um quarto. O funeral seria no dia seguinte.

— Meu carro ainda está na pedreira. Havia me esquecido dele. Vou trazê-lo para a vila mais tarde.

A Srta. Gilchrist falou com ansiedade:

— Não muito tarde. A senhora não vai sair depois que escurecer, vai?

Susan a encarou e riu.

— Não está pensando que ainda exista um assassino rondando por aí, está?

— Não, não, suponho que não. — A Srta. Gilchrist parecia embaraçada.

“Entretanto é isto mesmo que ela está achando!”, pensou Susan. “Que incrível!”

A Srta. Gilchrist havia desaparecido em direção à cozinha.

— Estou certa de que gostaria de tomar chá. Daqui a uma meia hora, está bem, Sra. Banks?

Susan achava que chá às três e meia era demais; entretanto, era suficientemente caridosa para compreender que uma boa xícara de chá, de acordo com a opinião da Srta. Gilchrist, era um restaurador dos nervos, e, como tinha seus próprios motivos para desejar agradar à Srta. Gilchrist, concordou:

— Quando quiser, Srta. Gilchrist.

Um alegre ruído de utensílios de cozinha começou e Susan foi para a sala. Estava lá há apenas alguns minutos quando a campainha tocou, seguida por firmes batidas na porta.

Susan encaminhou-se para o hall e a Srta. Gilchrist apareceu à porta da cozinha vestindo um avental e nele limpando as mãos cheias de farinha.

— Minha nossa, quem poderá ser?

— Mais repórteres, creio — respondeu Susan.

— Mas que aborrecimento para a senhora, Sra. Banks!

— Ora, não tem importância. Vou atender.

— Ia começar a fazer alguns bolinhos para o chá.

Susan dirigiu-se à porta da frente e a Srta. Gilchrist ficou andando de um lado para outro, indecisa. Susan imaginou se por acaso ela estaria pensando que havia um homem com uma machadinha esperando do lado de fora.

O visitante, entretanto, era um senhor idoso, que tirou o chapéu assim que Susan lhe abriu a porta. Perguntou sorrindo:

— É a Sra. Banks?

— Sim.

— Meu nome é Guthrie, Alexander Guthrie. Eu era amigo da Sra. Lansquenet. Um amigo antigo. A senhora, creio, é sua sobrinha, Sra. Susan Abernethie, em solteira?

— É isso mesmo.

— Então, já que nos apresentamos, posso entrar?

— É claro.

O Sr. Guthrie limpou os pés cuidadosamente no tapete, entrou, tirou o casaco, colocou-o com o chapéu em cima de uma pequena arca, e seguiu Susan até a sala de visitas.

— Esta é uma ocasião triste — falou o Sr. Guthrie, para quem a tristeza não parecia vir com naturalidade, já que sua inclinação era sorrir. — Sim, uma ocasião muito triste. Eu estava por estes lados e achei que o mínimo que poderia fazer seria comparecer ao inquérito e obviamente ao funeral. Pobre Cora... pobre e tola Cora! Eu a conhecia, minha cara Sra. Banks, desde os primeiros dias de seu casamento. Uma moça alegre que levava a arte a sério como também levava a sério seu marido, Pierre Lansquenet... quero dizer, como artista. No todo, ele não era mau sujeito. Ele era dado a conquistas, a senhora entende o que quero dizer, mas felizmente Cora aceitava isso como parte de seu temperamento de artista. Era um artista e conseqüentemente um imoral. Na verdade, não estou certo de que ela não ia além: ele era imoral e portanto deveria ser um artista! A pobre Cora não possuía qualquer percepção em matéria de arte, apesar de que, se me permite dizer, em outros assuntos Cora tivesse bastante bom senso... Sim, uma surpreendente percepção.

— É isso que todos parecem afirmar — observou Susan. — Não a conheci realmente.

— Não, não, ela se afastou da família porque eles não apreciavam o seu precioso Pierre. Nunca foi uma moça bonita... porém tinha algo. Era uma boa companhia. Nunca se sabia o que ela iria dizer em seguida e nem se seu comportamento ingênuo era verdadeiro ou se fazia aquilo propositalmente. Divertia-nos muito. A eterna criança... esta sempre foi a opinião que tivemos dela. E, realmente, na última vez que a vi (costumava vê-la de tempos em tempos desde que Pierre morreu) ela me surpreendeu por ainda se comportar como uma criança.

Susan ofereceu um cigarro ao Sr. Guthrie, mas o velho recusou com a cabeça.

— Não, obrigado, minha cara. Eu não fumo. A senhora deve estar imaginando por que vim até aqui. Para lhe falar francamente, estava com a consciência pesada. Prometera a Cora vir vê-la há algumas semanas. Costumava visitá-la uma vez por ano, e há pouco tempo ela começara a comprar quadros em leilões e queria que eu desse uma olhada em alguns deles. Sou crítico de arte. É claro que a maioria das aquisições de Cora eram horríveis borrões, mas no todo não eram mau investimento. Nesses leilões do interior os quadros saem por uma ninharia, e as molduras valem mais do que o próprio quadro. Naturalmente que em leilão importante compa-recem negociantes, e não é muito provável que as outras pessoas consigam colocar a mão em obras de arte. Porém, outro dia mesmo, num leilão em uma fazenda, um pequeno Cuyp foi arrematado por umas poucas libras. A sua história é bastante interessante. Havia sido dado a uma enfermeira pela família que ela servira fielmente por muitos anos. Não tinham a menor idéia de seu valor. A velha enfermeira deu para o sobrinho do fazendeiro, que gostava muito do cavalo que havia no quadro. Mas achava o quadro velho e sujo. Sim, sim, essas coisas algumas vezes acontecem, e Cora estava convencida de que tinha bom faro para pintura. E é evidente que não tinha. Queria que eu viesse ver um Rembrandt que Obtivera no ano passado. Um Rembrandt! Não era nem mesmo uma cópia respeitável! Entretanto, ela conseguira uma gravura bastante boa de Bartolozzi... infelizmente manchada de mofo. Vendi-a por trinta libras e isso naturalmente a estimulou. Escreveu-me muito entusiasmada a respeito de um primitivo italiano que comprara em um leilão qualquer, e prometi vir aqui vê-lo.

— Acho que é aquele ali — mostrou Susan, apontando para a parede atrás dele.

O Sr. Guthrie levantou-se, colocou os óculos, e foi examinar o quadro.

— Pobre Cora! — disse ele afinal.

— Há ainda muitos outros — informou Susan.

O Sr. Guthrie deu prosseguimento a uma inspeção demorada dos tesouros artísticos adquiridos pela esperançosa Cora Lansquenet. De vez em quando, ele emitia um “tsk, tsk”. Outras vezes, suspirava.

Por fim, tirou os óculos.

— Poeira é uma coisa maravilhosa, Sra. Banks! Dá uma pátina de romance aos mais horríveis exemplos da arte de pintores. Receio que Bartolozzi tenha sido apenas sorte de principiante. Pobre Cora! Em todo caso, deu-lhe um interesse na vida. Estou realmente satisfeito de não ter sido obrigado a desiludi-la.

— Há outros quadros na sala de jantar — informou Susan —, mas creio que são trabalhos do marido dela.

O Sr. Guthrie estremeceu ligeiramente e levantou a mão em protesto.

— Não me force a olhá-los novamente. Sempre procurei poupar os sentimentos de Cora. Ela era uma esposa dedicada, muito dedicada mesmo. Bem, cara Sra. Banks, não devo tomar mais seu tempo.

— Oh, fique e tome chá conosco. Acho que está quase pronto.

— É muita gentileza sua. — O Sr. Guthrie tornou a sentar-se prontamente.

— Vou lá dentro ver como estão as coisas.

Na cozinha, a Srta. Gilchrist estava acabando de tirar do forno a última porção de bolinhos. A bandeja de chá já estava arrumada e a tampa da chaleira sacudia levemente.

— O Sr. Guthrie está aqui, e eu o convidei para o chá.

— O Sr. Guthrie? Oh, sim, era um grande amigo da querida Sra. Lansquenet. É um consagrado crítico de arte. Que sorte! Fiz alguns bolinhos gostosos e geléia de morango caseira. E também preparei alguns brioches. Vou arrumar o chá agora mesmo. Já esquentei a água. Oh, por favor, Sra. Banks, não carregue esta bandeja pesada. Posso cuidar de tudo.

Apesar dos protestos, Susan pegou a bandeja. A Srta. Gilchrist a seguiu com o bule de chá e a chaleira, e na sala cumprimentou o Sr. Guthrie.

— Bolinhos quentinhas, isto é uma delícia! — exclamou ele. — E que geléia maravilhosa!

A Srta. Gilchrist estava corada de satisfação. Os bolinhos e os brioches estavam excelentes e os dois faziam-lhes justiça. O fantasma da Willow Tree pairava sobre o ambiente. Era evidente que ali a Srta. Gilchrist se encontrava em seu elemento.

— Bem, obrigado — agradeceu o Sr. Guthrie ao aceitar o último bolo, pressionado pela Srta. Gilchrist. — Sinto-me um tanto culpado, saboreando este chá aqui, onde a pobre Cora foi tão brutalmente assassinada.

A Srta. Gilchrist teve uma inesperada reação vitoriana.

— Oh, mas a Sra. Lansquenet teria gostado que o senhor tomasse um bom chá. O senhor precisa manter suas forças.

— Oh, sim, talvez tenha razão. O fato é que é difícil de acreditar que alguém que se conhece, conhece realmente, possa ser assassinado!

— Concordo — disse Susan. — Parece simplesmente fantástico!

— E é certo que não foi nenhum vagabundo que arrombou a casa e a matou. Posso pensar em motivos pelos quais Cora possa ter sido assassinada.

— O senhor pode? Que motivos? — indagou Susan apressadamente.

— Bem, ela não era discreta — afirmou o Sr. Guthrie. — Cora nunca foi discreta. E gostava... como vou explicar... de mostrar o quanto podia ser esperta. Como uma criança que descobriu um segredo de alguém. Se Cora descobrisse um segredo, ela iria querer falar sobre ele. Mesmo que prometesse não o revelar, ainda assim ela contaria. Não seria capaz de se controlar.

Susan não dizia uma palavra. Nem a Srta. Gilchrist. Esta parecia preocupada. O Sr. Guthrie prosseguiu:

— Sim, uma pequena dose de arsênico numa xícara de chá... isso não teria me surpreendido, ou então uma caixa de chocolate enviada pelo correio. Mas um roubo e um assalto sórdido... parecem-me extremamente improváveis. Posso estar enganado, mas acho que ela possuía muito pouca coisa de valor a ponto de um ladrão se arriscar por isso. Não guardava muito dinheiro em casa, guardava?

— Muito pouco — respondeu a Srta. Gilchrist.

O Sr. Guthrie suspirou e se levantou.

— Ah, bem, desde a guerra há muita ilegalidade espalhada por aí. Os tempos mudaram.

Agradeceu pelo chá e se despediu polidamente das duas mulheres. A Srta. Gilchrist levou-o até a porta e o ajudou com o casaco. Pela janela da sala, Susan observou-o caminhar vivamente em direção ao portão.

A Srta. Gilchrist voltou carregando um pequeno pacote.

— O carteiro deve ter estado aqui enquanto comparecíamos ao inquérito. Ele empurrou o pacote pela caixa postal e ele caiu no canto atrás da porta. Bem, o que será... ora, é claro, deve ser um bolo de noiva.

Alegremente, a Srta. Gilchrist rasgou o papel. Dentro havia uma pequena caixa branca amarrada com fita prateada.

— É, sim! — Ela puxou a fita. Dentro havia uma fatia de bolo com recheio de amêndoa e cobertura branca.

— Que lindo! Mas quem... — Ela leu o cartão que estava afixado. — John e Mary. Quem poderia ser? Que tolice não colocarem o sobrenome!

Susan, saindo de seus pensamentos, falou distraidamente:

— Algumas vezes fica bem difícil saber-se de quem se trata com as pessoas usando o primeiro nome. Outro dia recebi um cartão-postal assinado Joan. Conheço oito Joans... e falando-se tanto pelo telefone muitas vezes não se conhece a caligrafia dos amigos.

A Srta. Gilchrist estava alegremente pensando nos possíveis John e Mary que conhecia.

— Pode ser a filha de Dorothy... seu nome é Mary, mas não ouvi falar em noivado, muito menos em casamento. Há também o pequeno John Banfield... suponho que ele já tenha crescido o bastante para se casar... ou a menina Enfield... não, seu nome é Margaret. Nenhum endereço nem nada. Oh, bem, acho que de repente vou me lembrar.

Carregando a bandeja, foi para a cozinha.

Susan levantou-se e disse:

— Bem, acho melhor eu ir guardar o carro em algum lugar.