Depois do Funeral

Agatha Christie · Capítulo 16 de 22

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Depois do Funeral

Capítulo XIX · Toda a família havia sido gentil com…

 

Toda a família havia sido gentil com o Sr. Pontarlier, o representante da ANUOR. E como ele estivera certo ao escolher para ser designada por iniciais. Todos haviam aceitado a ANUOR como um fato lógico... haviam até fingido saber tudo a respeito! Como os seres humanos detestavam admitir ignorância! A única exceção fora Rosamund, que perguntara, curiosa:

“Mas o que é? Eu nunca ouvi falar disso”.

Felizmente, não havia mais ninguém por perto na ocasião. Poirot explicara a organização de tal maneira que qualquer pessoa, a não ser Rosamund, se sentiria embaraçada em desconhecer uma instituição mundialmente famosa. Rosamund, entretanto, apenas disse vagamente: “Oh, refugiados de novo. Estou tão cansada de refugiados!”, exprimindo assim a silenciosa reação de muitos que normalmente eram convencionais demais para se expressarem tão francamente.

O Sr. Pontarlier estava, portanto, aceito... como um estorvo, mas também como uma pessoa sem importância. Tornara-se uma peça de décor estrangeira. A opinião geral era de que Helen deveria ter evitado recebê-lo nesse fim de semana especial, mas, já que ele estava ali, deveriam tratá-lo bem. Felizmente, esse pequeno e esquisito estrangeiro não parecia saber muito inglês. Com bastante freqüência, ele não compreendia o que se dizia a ele, e, quando todo mundo estava falando mais ou menos ao mesmo tempo, ele dava a impressão de estar desnorteado. Aparentava estar interessado apenas em refugiados e nas condições de pós-guerra, e seu vocabulário incluía somente esses assuntos. Bate-papo co-mum parecia confundi-lo. Quase que esquecido por todos, Hercule Poirot, recostado em sua cadeira, bebendo seu café, observava, como um gato costuma observar, todo o movi-mento, as idas e vindas dos pássaros. O gato ainda não estava pronto para fazer sua aparição.

Depois de perambular vinte e quatro horas pela casa e examinar todos os objetos, os herdeiros de Richard Abernethie estavam prontos para declarar suas preferências e, se fosse preciso, lutar por elas.

O assunto da conversa foi, em primeiro lugar, acerca de um certo serviço de sobremesa de porcelana Spode.

— Não creio que eu vá viver por muito tempo — disse Timothy numa voz fraca e melancólica. — E Maude e eu não temos filhos. Dificilmente valerá a pena nos enchermos de objetos sem utilidade. Contudo, por motivos sentimentais, gostaria de ficar com este serviço de sobremesa. Lembra-me os tempos felizes. É claro que está fora de moda, e compreendo que serviço de sobremesa tem pouco valor atual-mente. Mas ficaria muito satisfeito... e talvez também a cômoda boule da saleta branca.

— O senhor chegou atrasado, tio — falou George com alegre despreocupação. — Esta manhã pedi a Helen para reservar o serviço de porcelana Spode para mim.

O rosto de Timothy ficou vermelho de raiva.

— Reservá-lo... reservá-lo? O que significa isso? Ainda não ficou nada resolvido. E para que você quer um serviço de sobremesa? Você não é casado!

— Na realidade, coleciono porcelana Spode. E este é um exemplar esplêndido. Mas quanto à cômoda boule, não há problema. Eu não queria aquilo nem como presente.

— Olhe aqui, meu jovem. Você não pode se intrometer dessa maneira. Sou mais velho do que você e o único irmão vivo de Richard. O serviço Spode é meu.

— Por que não fica com o serviço Dresden? É um lindo modelo e tenho certeza de que também traz lindas recordações. Bem, de qualquer maneira, o Spode é meu. O melhor é de quem chega primeiro.

— Bobagem... nada disso! — explodiu Timothy.

Maude falou com firmeza:

— Por favor, não perturbe seu tio, George. Isso faz muito mal para ele. Naturalmente que ele ficará com o serviço Spode se ele quiser. A primeira escolha é dele, e vocês jovens devem vir depois. Ele era irmão de Richard e você é apenas um sobrinho.

— E digo-lhe mais, meu jovem. — Timothy estava agitado de tanta raiva. — Se Richard tivesse feito um testamento decente, a distribuição dos bens desta casa teria ficado inteiramente em minhas mãos. Era dessa forma que a propriedade deveria ter sido distribuída, e, se não foi, posso apenas suspeitar de alguma influência desonesta. Sim, eu repito, influência desonesta.

Timothy olhou fixamente para o sobrinho.

— Um testamento absurdo! — exclamou ele. — Absurdo!

Recostou-se e colocou a mão sobre o coração, gemendo.

— Isso me faz muito mal. Gostaria de beber um pouco de brandy.

A Srta. Gilchrist apressou-se em buscar e voltou com o tônico num pequeno cálice.

— Aqui está, Sr. Abernethie. Por favor, procure se acalmar. Tem certeza de que não deve subir e ir para a cama?

— Não banque a tola. — Timothy bebeu o brandy. — Ir para a cama?! Pretendo ficar aqui e defender os meus interesses.

— Realmente, George, estou surpresa com você — criticou Maude. — O que o seu tio disse é verdade. A vontade dele vem primeiro. Se ele quiser, o serviço de porcelana Spode será dele.

— De qualquer maneira, é medonho — comentou Susan.

— Cale a boca, Susan — ordenou Timothy.

O jovem magro que estava sentado ao lado de Susan ergueu a cabeça. Com a voz ligeiramente mais aguda do que de costume, disse: — Não fale assim com a minha mulher! — levantando-se um pouco da cadeira.

Susan apressou-se em dizer:

— Está tudo bem, Greg. Eu não me importo.

— Mas eu me importo.

Helen falou:

— Acho que seria gentil de sua parte, George, deixar que seu tio fique com o serviço de sobremesa.

Timothy manifestou-se, indignado:

— Não há nada de “deixar que fique” neste caso!

Contudo, George, com uma ligeira reverência para Helen, disse:

— O seu desejo é uma ordem, tia Helen. Abro mão de minhas pretensões.

— De qualquer forma, você não o queria realmente, queria? — perguntou Helen.

Ele lançou-lhe um olhar aguçado, e em seguida sorriu.

— O seu problema, tia Helen, é que a senhora é muito astuta. Vê mais do que pretende ver. Não se preocupe, tio Timothy, o Spode é seu. Estava apenas me divertindo.

— Divertindo-se, realmente! — Maude estava indignada. — Seu tio poderia ter tido um ataque do coração.

— Não acredito nisso — disse George alegremente. — Tio Timothy provavelmente sobreviverá a todos nós, embora não passe de um velho enferrujado.

Timothy falou malignamente:

— Não é de admirar que Richard tenha se desapontado com você.

— O que disse? — O bom humor desaparecera do rosto de George.

— Você veio aqui depois da morte de Mortimer esperando tomar seu lugar... esperando que Richard o nomeasse seu herdeiro, não foi? Porém, meu irmão percebeu logo com quem estava lidando. Sabia aonde o dinheiro iria parar se você tivesse controle dele. Surpreendo-me até que ele tenha lhe deixado parte de sua fortuna. Ele sabia aonde iria parar. Jogos, Monte Cario, cassinos estrangeiros. Talvez até pior. Ele suspeitava que você não era honesto, não é verdade?

George, com manchas esbranquiçadas aparecendo em torno das narinas, falou:

— Acho que seria melhor o senhor tomar cuidado com o que diz.

— Eu não estava bastante bem para vir ao funeral — continuou Timothy vagarosamente —, porém Maude me contou o que Cora disse. Cora sempre foi uma tola, mas pode haver alguma coisa de real nisso tudo. E, se assim for, sei de quem eu suspeitaria.

— Timothy! — Maude levantou-se, firme, calma, uma torre de fortaleza. — Você teve uma noite muito cansativa. Deve pensar em sua saúde. Não pode ficar doente novamente. Suba comigo. Precisa tomar um sedativo e ir direto para a cama. Helen, Timothy e eu ficaremos com o serviço de sobremesa de porcelana Spode e com a cômoda boule como lembrança de Richard. Espero que não haja nenhuma objeção.

Seu olhar percorreu todo o grupo. Ninguém falou e ela retirou-se da sala apoiando Timothy com a mão debaixo de seu cotovelo. Dispensou com um aceno a Srta. Gilchrist, que aguardava perto da porta.

George quebrou o silêncio assim que eles se retiraram da sala.

— Femme formidable! — disse ele. — Isso descreve com exatidão a tia Maude. Eu detestaria ter que impedir seu triunfal desempenho.

A Srta. Gilchrist tornou a se sentar um tanto desconfortavelmente e murmurou:

— A Sra. Abernethie é sempre tão gentil!

O comentário caiu mal.

Michael Shane riu de repente e disse: — Sabe, estou me divertindo com tudo isso. Herança de Voysey na vida real. Por falar nisso, Rosamund e eu desejamos aquela mesa de mármore da sala de visitas.

— Oh, não — gritou Susan. — Eu a quero.

— Ih, vai começar tudo de novo! — exclamou George, olhando para o teto.

— Bem, não precisamos nos zangar com isso — explicou Susan. — O motivo por que quero a mesa é para colocá-la em meu novo salão de beleza. Apenas um toque colorido. . . e colocarei um grande ramo de flores de cera em cima dela. Ficará lindo. Posso encontrar flores de cera com muita facilidade, mas uma mesa de mármore verde não é muito comum.

— Mas, querida — disse Rosamund —, é justamente por isso que a queremos. Para um novo cenário. Como você mesma disse, uma nota de colorido, e é um exemplar tão perfeito de seu estilo! Com flores de cera ou com pássaros empalhados, ficará absolutamente maravilhosa.

— Entendo o que você quer dizer, Rosamund — falou Susan. — Porém, não acho que tenha uma justificativa tão boa quanto a minha. Você poderia facilmente conseguir uma mesa pintada para o palco. O efeito seria o mesmo. Mas, para o meu salão, preciso de uma peça genuína.

— Vamos, minhas senhoras — apaziguou George. — Que tal uma decisão na sorte? Podemos tirar cara ou coroa. Ou decidir nas cartas. Tudo bem de acordo com o estilo da mesa.

Susan sorriu simpaticamente.

— Rosamund e eu conversaremos sobre isso amanhã — disse ela.

Ela parecia, como sempre, muito segura de si. George olhava com algum interesse para os rostos de Susan e Rosamund. O rosto de Rosamund tinha uma expressão vaga e um tanto distante.

— Em qual das duas a senhora aposta, tia Helen? — indagou ele. — Eu diria que a chance é igual. Susan possui determinação; entretanto, Rosamund é maravilhosamente franca.

— Talvez não pássaros empalhados — disse Rosamund —, mas um daqueles grandes vasos chineses que dariam um lindo abajur, com uma cúpula dourada.

A Srta. Gilchrist apressou-se em fazer um discurso apaziguador.

— Esta casa está repleta de coisas bonitas. Estou certa de que a mesa verde ficaria esplêndida no novo estabelecimento da Sra. Banks. Eu nunca tinha visto nenhuma mesa deste tipo. Deve valer muito dinheiro.

— É óbvio que será deduzido da minha parte da herança — afirmou Susan.

— Sinto muito... não quis dizer... — A Srta. Gilchrist estava completamente tonta pela confusão.

— Poderá ser deduzido da nossa parte da herança — salientou Michael. — Juntamente com as flores de cera.

— Elas ficam tão bem naquela mesa! — murmurou a Srta. Gilchrist. — Delicadamente bonito.

Mas ninguém estava prestando atenção às trivialidades bem-intencionadas da Srta. Gilchrist.

Greg disse, novamente naquela voz nervosa:

— Susan quer aquela mesa.

Houve uma momentânea agitação, como se, com suas palavras, Greg tivesse mudado o tom da música.

Helen falou, apressada:

— Com o que você realmente quer ficar, George? Já que abriu mão do serviço Spode.

George sorriu e a tensão diminuiu.

— É até uma vergonha atormentar o velho Timothy — disse ele. — Mas ele é uma figura quase inacreditável. Possui há tanto tempo o hábito de fazer as coisas de acordo com sua vontade que já se tornou um caso patológico.

— É preciso fazer a vontade de um inválido, Sr. Crossfield — disse a Srta. Gilchrist.

— Um grosseiro velho hipocondríaco, é isso que ele é — afirmou George.

— É claro que é — concordou Susan. — Não acredito que haja nada de errado com ele, você acredita, Rosamund?

— O quê?

— Que exista alguma coisa errada com tio Timothy?

— Não... não, acho que não. — Rosamund estava distraída. Desculpou-se. — Sinto muito, estava imaginando que tipo de iluminação ficaria bem na mesa.

— Está vendo? — alertou George. — Uma mulher de uma idéia só. Sua esposa é uma mulher perigosa, Michael. Espero que você perceba isso.

— Já percebi — respondeu Michael um tanto sombrio.

George prosseguiu com toda a aparência de quem estava se divertindo.

— A Batalha da Mesa! Para ser disputada amanhã... educadamente... mas com firme determinação. Devemos tomar partido. Eu aposto em Rosamund, que parece meiga e dócil, mas não é. Os maridos provavelmente apostarão em suas esposas. A Srta. Gilchrist? Do lado de Susan, obviamente.

— Oh, realmente, Sr. Crossfield, eu não me atreveria a...

— Tia Helen? —. George não deu nenhuma atenção ao alvoroço da Srta. Gilchrist. — A senhora tem o voto decisivo. Oh, tinha me esquecido. Sr. Pontarlier?

— Pardon? — Hercule Poirot parecia distraído.

George pensou em lhe explicar a situação, mas decidiu que não valeria a pena. O pobre sujeito não entendera uma única palavra do que estava acontecendo. Disse: — É apenas uma brincadeira em família.

— Sim, sim, compreendo. — Poirot sorriu cordialmente.

— Então o voto decisivo é seu, tia Helen. De que lado a senhora está?

Helen sorriu.

— Talvez eu também queira a mesa para mim, George.

Ela deliberadamente mudou de assunto, dirigindo-se ao convidado estrangeiro.

— Receio que tudo isso seja muito aborrecido para o senhor, Sr. Pontarlier.

— De forma alguma, madame. Considero um privilégio ser admitido a participar de sua vida em família. — Ele inclinou a cabeça. — Gostaria de dizer... não consigo expressar-me bem... o meu pesar de que esta casa tenha que passar de suas mãos para as de estranhos. É sem dúvida uma grande tristeza.

— Não, realmente, não. Isso não nos entristece nem um pouco — assegurou-lhe Susan.

— A senhora é muito gentil, madame. Isto aqui será o lugar perfeito para os velhos sofredores de perseguição. Quanta tranqüilidade! Que paz! Rogo-lhe para lembrar-se disso quando as situações cruéis da vida surgirem, como seguramente ocorrerá. Ouvi dizer que havia também a possibilidade de isto aqui ser transformado em colégio... não um colégio comum, um convento... administrado por religiosas... por “freiras”, acho que é assim que se diz. Talvez os senhores preferissem isto?

— De forma alguma — garantiu George.

— O Sagrado Coração de Maria — continuou Poirot. — Felizmente, devido à bondade de um doador desconhecido, pudemos fazer uma oferta ligeiramente mais alta. — Dirigiu-se diretamente à Srta. Gilchrist. — Creio que a senhorita não gosta de freiras.

A Srta. Gilchrist enrubesceu, parecendo embaraçada.

— Oh, realmente, Sr. Pontarlier, o senhor não deve... quero dizer, não é nada pessoal. Mas não acho certo esconder-se do mundo daquela maneira... isto é, não é necessário e é quase egoísta. Embora, é claro, existam aquelas que dão aulas e as que lidam com os pobres. Estas, com certeza, são mulheres altruístas e que praticam o bem.

— Eu, simplesmente, não posso imaginar como se pode querer ser freira — comentou Susan.

— O traje é muito bonito — disse Rosamund. — Lembram-se no ano passado quando reviveram O milagre? Sonia Wells estava indescritivelmente glamourosa.

— O que eu não entendo — disse George — é por que agradaria ao Todo-Poderoso que elas andassem vestidas daquela maneira medieval. Porque, afinal de contas, é assim que uma freira se veste. Inteiramente incômodo, anti-higiênico e nada prático.

— Faz com que fiquem tão parecidas umas com as outras, não acham? — indagou a Srta. Gilchrist. — Sei que é bobagem, mas tive um choque e tanto quando estava na casa da Sra. Abernethie e uma freira bateu à porta recolhendo donativos. Meti na minha cabeça que era a mesma freira que aparecera em Lychett St. Mary no dia do inquérito da pobre Sra. Lansquenet. Sabe, tive quase a impressão de que ela estava me perseguindo.

— Pensei que as freiras sempre recolhiam donativos aos pares — comentou George. — Não houve, certa vez, uma história de detetive baseada justamente nesse detalhe?

— Desta vez havia apenas uma — afirmou a Srta. Gilchrist. — Talvez precisem economizar — acrescentou vagamente. — E, de qualquer modo, não poderia ter sido a mesma freira, porque a outra estava coletando dinheiro para uma organização, acho que de St. Barnabas... e esta era para algo bem diferente... algo a ver com crianças.

— As duas tinham o mesmo tipo de feições? — perguntou Hercule Poirot. Ele parecia interessado. A Srta. Gilchrist dirigiu-se a ele:

— Acho que deve ter sido isso. O lábio superior... quase como se ela tivesse um bigode. Creio que foi justamente isso que me assustou, pois naquela ocasião eu estava bastante nervosa. E lembrei-me daquelas histórias acontecidas durante a guerra em que as freiras, na realidade, eram homens da Quinta Coluna que desciam de pára-quedas. É lógico que foi muito tolo da minha parte. Soube disso depois.

— Uma freira seria um bom disfarce — observou Susan, pensativa. — Esconde os pés.

— A verdade é que — disse George — raramente alguém olha bem para os outros. É por isso que no tribunal se ouvem de diferentes testemunhas tantos depoimentos contraditórios na descrição de uma pessoa. Vocês ficariam surpresos. Um mesmo homem é muitas vezes descrito como alto, baixo; magro, robusto; louro, moreno; vestido de terno claro, escuro., e assim por diante. Normalmente há um observador em que se pode confiar, mas é preciso se decidir qual.

— Outra coisa estranha — comentou Susan — é que às vezes você se vê inesperadamente num espelho e não sabe quem é. Parece apenas alguém vagamente familiar. E você diz para si mesmo: “É alguém que conheço bastante...”, e então, de repente, você percebe que é você mesmo.

George falou:

— Seria ainda mais complicado se você pudesse realmente se ver... e não uma imagem refletida num espelho.

— Por quê? — perguntou Rosamund, intrigada.

— Por que você não se vê, ninguém se vê, como aparece para as outras pessoas. Sempre se vê num espelho... isto é... uma imagem invertida.

— E há alguma diferença?

— Oh, sim — apressou-se Susan. — Deve haver. Porque os rostos das pessoas nunca são iguais dos dois lados. Suas sobrancelhas são diferentes, suas bocas são mais levantadas de um lado que do outro, e os narizes não são perfeitamente simétricos. Pode-se ver isso com um lápis. Quem tem um lápis?

Alguém apareceu com um lápis e começaram a experiência, segurando o lápis de cada lado do nariz e rindo ao ver a ridícula variação no ângulo.

A atmosfera agora se suavizara bastante. Todos estavam de bom humor. Não eram mais os herdeiros de Richard Abernethie reunidos ali para uma partilha de bens. Era um grupo alegre e comum reunido para um fim de semana no campo.

Apenas Helen Abernethie permanecia calada e desligada.

Com um suspiro, Hercule Poirot levantou-se e deu um educado boa-noite para a sua anfitriã.

— Talvez, madame, seja melhor eu me despedir. Meu trem parte amanhã às nove da manhã. É muito cedo. Sendo assim, prefiro agradecer agora por sua gentileza e hospitali-dade. A data da assinatura da escritura será combinada com o Sr. Entwhistle. À sua conveniência, é claro.

— Pode ser quando o senhor desejar, Sr. Pontarlier. Eu... eu já fiz tudo o que tinha para fazer aqui.

— A senhora voltará para a sua vila de Chipre?

— Sim. — Um ligeiro sorriso apareceu nos lábios de Helen Abernethie.

Poirot falou:

— A senhora está satisfeita. Não sente nenhuma pena?

— Em deixar a Inglaterra? Ou se refere a esta casa?

— Refiro-me a esta casa.

— Oh, não. Não vale a pena se prender ao passado. Deve-se deixá-lo para trás.

— Se se consegue. — Piscando os olhos inocentemente, Poirot sorriu para o grupo de rostos educados que o cercavam. — Muitas vezes não é possível. O passado não pode ser abandonado. Não pode ser relegado ao esquecimento. Permanece ao nosso lado... dizendo: “Este assunto ainda não está encerrado”.

Susan soltou uma gargalhada de descrença. Poirot explicou:

— Mas eu estava falando sério.

— O senhor quer dizer — indagou Michael — que quando os refugiados vierem para cá não conseguirão esquecer completamente os sofrimentos passados?

— Não estou me referindo aos meus refugiados.

— Ele estava falando sobre nós, querido — explicou Rosamund. — Está se referindo a tio Richard, tia Cora, a machadinha e tudo o mais.

Ela virou-se para Poirot.

— Não é verdade?

Poirot olhou para ela com um rosto inexpressivo. Em seguida, perguntou:

— Por que acha isso, madame?

— Porque o senhor é um detetive, não é? É por isso que está aqui. A ANUOR, ou seja lá como se chama, é pura bobagem, não é?