Depois do Funeral
Capítulo VII · — Não sei como lhe dizer o…
— Não sei como lhe dizer o quanto apreciei seu convite.
O Sr. Entwhistle apertou afetuosamente a mão de seu anfitrião.
Hercule Poirot, num gesto de hospitalidade, indicou-lhe a cadeira perto da lareira.
O Sr. Entwhistle suspirou ao sentar-se.
Num dos cantos da sala havia uma mesa posta para dois.
— Retornei do campo esta manhã — explicou Entwhistle.
—E tem um assunto sobre o qual quer me consultar?
— Sim. Receio que seja uma história longa e desconexa.
— Então só falaremos sobre o assunto após termos jantado. Georges?
O eficiente Georges apareceu trazendo pâté de foie gras acompanhado de torradas quentes num guardanapo.
— Comeremos nosso pâté perto da lareira — disse Poirot. — Depois iremos para a mesa.
Uma hora e meia depois, o Sr. Entwhistle esticou-se confortavelmente na cadeira e soltou um suspiro de satisfação.
— Você certamente sabe como se tratar, Poirot. É bem próprio de um francês.
— Sou belga. Porém o resto do seu comentário está correto. Na minha idade, o prazer principal, quase o único prazer que ainda resta, é o da mesa. Graças a Deus, tenho um bom estômago.
— Ah — murmurou o Sr. Entwhistle.
O jantar havia sido sole Veronique, seguido de escalope de veau milanaise, terminando com poire flambée com sorvete.
Haviam bebido pouilly-fuissé seguido de corton, e agora havia um delicioso vinho do Porto ao lado do Sr. Entwhistle. Poirot, que não apreciava vinho do Porto, saboreava crème de cacao.
— Eu não entendo — observou o Sr. Entwhistle, pensativo — como você consegue um escalope como este. Derreteu-se em minha boca.
— Tenho um amigo estrangeiro dono de açougue. Resolvi um pequeno problema doméstico para ele. Ficou muito grato por isso e desde então vem sendo muito gentil comigo em assuntos ligados ao estômago.
— Um problema doméstico — o Sr. Entwhistle suspirou. — Gostaria que não tivesse me lembrado. Este é um momento tão perfeito!
— Prolongue-o, meu amigo. Agora teremos a demi tasse e o conhaque. Depois então, quando a digestão tiver sido feita tranqüilamente, você me dirá por que precisa do meu conselho.
O relógio bateu nove e meia, quando o Sr. Entwhistle se moveu na cadeira. O momento psicológico chegara. Não sentiu mais relutância em revelar sua perplexidade... esta-va ansioso por fazê-lo.
— Não sei — começou ele — se estou bancando o tolo. De qualquer modo, não vejo nada que possa ser feito. Contudo, gostaria de lhe apresentar os fatos e saber o que pensa a respeito.
Calou-se por alguns momentos e depois, com seu jeito frio e meticuloso, relatou a história. Seu cérebro de jurista possibilitou-lhe contar os fatos com clareza, sem deixar nada de lado e não acrescentando detalhes sem importância. Foi um relatório claro e sucinto, e, assim sendo, apreciado pelo pequeno homem idoso, de cabeça em forma de ovo, que estava ali escutando.
Ao terminar, houve uma pausa. O Sr. Entwhistle estava preparado para responder a perguntas, porém, por alguns momentos, não houve nenhuma. Hercule Poirot estava revendo as evidências. Por fim falou:
— Parece-me bastante claro. Você suspeita que seu amigo Richard Abernethie possa ter sido assassinado. Esta suspeita ou suposição está baseada em um único fato: as palavras proferidas por Cora Lansquenet no funeral de Richard Abernethie. Tire estas palavras e não resta nada. O fato de ela própria ter sido assassinada no dia seguinte pode não passar de pura coincidência. É verdade que Richard Abernethie morreu repentinamente, mas estava sendo cuidado por um médico conceituado, que o conhecia muito bem, e esse médico não teve a menor suspeita e passou-lhe um atestado de óbito. Richard foi enterrado ou cremado?
— Cremado... de acordo com seu próprio desejo.
— Sim, esta é a lei. E isso significa que um segundo médico assinou o atestado, mas quanto a isso não haveria a menor dificuldade. Então, retornamos ao ponto essencial: o que Cora Lansquenet disse. Você estava lá e ouviu. Ela disse: “Mas ele foi assassinado, não foi?”
— Sim.
— E o fato é que você acredita que ela estivesse falando a verdade.
O advogado hesitou por um instante e em seguida afirmou:
— Sim, acredito.
— Por quê?
— Por quê? — repetiu Entwhistle, um tanto confuso.
— É isso, por quê? Foi porque no fundo você já sentia uma certa inquietação em relação à morte de seu amigo?
O advogado balançou a cabeça.
— Não, não, nem um pouco,
— Então foi única e exclusivamente por causa dela... de Cora. Você a conhecia bem?
— Não a via há mais de vinte anos.
— Tê-la-ia reconhecido se a encontrasse na rua?
O Sr. Entwhistle refletiu.
— Poderia passar por ela na rua sem reconhecê-la. Na última vez em que a vi era uma moça magricela e agora havia se transformado em uma mulher de meia-idade corpulenta e mal-arrumada. Mas acredito que no momento em que falasse com ela cara a cara eu a reconheceria. Continuava usando o cabelo do mesmo modo: uma franja caída em cima da testa. Manteve o hábito de observar atentamente por trás da franja, como um animal um tanto tímido. E sua maneira muito característica de falar abruptamente. O jeito de virar a cabeça para um lado e de repente falar alguma coisa bastante chocante. Sempre teve personalidade, uma personalidade altamente marcante.
— Então era de fato a mesma Cora que você conhecera anos atrás. E continuava a dizer coisas chocantes. Essas coisas, essas coisas afrontosas que ela havia dito no passado, normalmente eram justificadas?
— Isso é que sempre foi estranho a respeito de Cora. Quando seria melhor que a verdade não fosse revelada, ela falava.
— E essa característica permaneceu inalterável. Richard Abernethie foi assassinado... então Cora imediatamente mencionou o fato.
O Sr. Entwhistle ficou agitado.
— Você acha que ele foi assassinado?
— Oh, não, não, meu amigo, não podemos ir tão depressa. Ela estava bastante certa de que ele fora assassinado. Para ela era mais uma certeza do que suposição. E aí chegamos à conclusão de que ela deveria ter tido alguma razão para acreditar nisso. Concordamos, pelo que você conheceu a seu respeito, em que não foi apenas uma brincadeira. Agora, responda-me: quando ela falou isso houve na mesma hora um coro de protestos, não é isso?
— Certo.
— E então ela ficou confusa, embaraçada, e recuou dizendo, pelo que você consegue se lembrar, algo como: “Mas eu pensei... pelo que ele disse...”
O advogado concordou com a cabeça.
— Gostaria de me lembrar mais precisamente. Mas estou bastante certo quanto a essa parte. Ela usou as palavras “ele disse” ou “ele falou”.
— Em seguida, o assunto foi encoberto e todos começaram a falar de outras coisas. Revendo o fato, você não consegue se lembrar de nenhuma expressão especial no rosto de alguém? Alguma coisa que ficou guardada em sua memória como... digamos... estranha?
— Não.
— E no dia seguinte Cora é assassinada... e você se pergunta: será isso causa e conseqüência?
O advogado mexeu-se, inquieto.
— Suponho que isso tudo lhe pareça fantástico demais.
— Nem um pouco — respondeu Poirot. — Partindo da premissa de que a hipótese inicial seja correta, existe lógica. O crime perfeito, o assassinato de Richard Abernethie, foi cometido, tudo acontecendo sem problemas... e de repente surge uma pessoa que parece ter conhecimento da verdade. Evidentemente essa pessoa precisa ser silenciada o mais depressa possível.
— Então acha que ele foi assassinado?
Poirot falou gravemente:
— Penso, mon cher, exatamente como você, que é um caso para investigação. Já tomou alguma providência? Falou sobre isso com a polícia?
— Não — disse o Sr. Entwhistle balançando a cabeça. — Não achei aconselhável. Minha posição é a de representante da família. Se Richard Abernethie foi assassinado, parece existir apenas uma maneira possível de isso ter sido feito.
— Veneno?
— Exatamente. E o corpo foi cremado. Não existe agora nenhuma prova à nossa disposição. Entretanto, sinto necessidade de esclarecer esse assunto. É por isso que vim procurá-lo, Poirot.
— Quem estava na casa na hora em que ele morreu?
— Um velho mordomo que trabalha lá há muitos anos, uma cozinheira e uma arrumadeira. Talvez dê a impressão de que tenha sido algum deles...
— Ah, não tente me ludibriar. Essa tal de Cora sabe que Richard Abernethie foi assassinado, e mesmo assim concorda em se calar. Ela disse: “Acho que vocês têm razão”. Por conseguinte, só pode se tratar de alguém da família, alguém que talvez a própria vítima preferisse não fosse acusada abertamente. Se não fosse assim, já que Cora gostava tanto de seu irmão ela não aceitaria deixar o assassino andar solto por aí. Não concorda?
— Sim, era a essa conclusão que eu havia chegado confessou o Sr. Entwhistle. — Mas como é que alguém poderia ser capaz...
Poirot interrompeu-o abruptamente.
— No que diz respeito a veneno, existem todos os tipos de possibilidades. Se ele morreu durante o sono e se não havia nenhum sinal suspeito, provavelmente foi algum tipo de narcótico. É possível que por ordem médica ele estivesse tomando algum narcótico.
— De qualquer maneira — observou o Sr. Entwhistle —, a forma pouco importa. Nunca poderemos provar nada.
— No caso de Richard Abernethie, não. Entretanto, o assassinato de Cora Lansquenet é diferente. No momento em que soubermos quem, então provavelmente arranjaremos provas. — Acrescentou com um olhar penetrante: — Você já deve ter feito alguma coisa.
— Muito pouco. Acho que meu método principal foi o da eliminação. Para mim é muito desagradável pensar que alguém da família Abernethie seja um assassino. Ainda não consigo acreditar. Esperava que, com algumas perguntas aparentemente sem importância, eu pudesse eliminar alguns membros da família sem ficar nenhuma dúvida. Quem sabe, até todos eles? Nesse caso, Cora teria se enganado em sua suposição e sua própria morte poderia ser atribuída a algum ladrão que invadiu sua casa. Afinal de contas, a questão é muito simples. O que estavam fazendo os membros da família Abernethie na tarde em que Cora Lansquenet foi morta?
— Eh bien — disse Poirot —, o que estavam fazendo?
— George Crossfield estava assistindo às corridas em Hurst Park. Rosamund estava em Londres fazendo compras. Seu marido... pois devemos incluir os maridos...
— Certamente.
— ... seu marido estava resolvendo um negócio a respeito de uma peça teatral. Susan e Gregory Banks ficaram em casa o dia todo. Timothy Abernethie, que é um inválido, estava em sua casa em Yorkshire, e sua esposa estava voltando de Enderby de carro.
Fez uma pausa.
Hercule Poirot olhou para ele e balançou a cabeça em sinal de que havia compreendido.
— Sim, é isso o que eles dizem. E é tudo verdade?
— Simplesmente não sei, Poirot. Algumas declarações são ou não possíveis de serem provadas. Contudo, seria difícil fazê-lo sem que percebessem as minhas intenções. Aliás, isso equivaleria a uma acusação. Vou apenas lhe contar a respeito de algumas conclusões a que cheguei. George pode ter estado em Hurst Park, mas eu não acredito. Ele estava muito apressado para alardear que havia jogado em dois vencedores. Sei por experiência própria que muitos transgressores da lei arruínam seu próprio caso por falarem demais. Perguntei-lhe os nomes dos vencedores, e ele disse os nomes dos cavalos sem nenhuma hesitação aparente. Descobri que no dia em questão ambos os cavalos haviam recebido muitas apostas, e que realmente um vencera, conforme era esperado. O outro, apesar de ser favorito, inexplicavelmente falhara até mesmo em conseguir uma colocação.
— Interessante. Esse tal de George tinha alguma necessidade urgente de dinheiro por ocasião da morte do tio?
— A minha impressão é de que sua necessidade era muito grande. Não tenho provas para afirmar, mas tenho forte suspeita de que ele tenha andado especulando com o dinheiro de seus clientes e que corria o perigo de ser processado. Trata-se apenas de uma impressão, mas tenho alguma experiência nesses assuntos. Lamento dizer que advogados inescrupulosos não são muito raros. Posso lhe garantir que eu não entregaria meu dinheiro a George. Suspeito que Richard Abernethie, um perspicaz avaliador dos homens, estava insatisfeito com o sobrinho e não lhe depositava nenhuma confiança.
“Sua mãe”, continuou o advogado, “era uma moça muito bonita e um tanto tola. Casou-se com um homem que considero de caráter duvidoso.” Ele suspirou. “As jovens Abernethie não sabem fazer boas escolhas.”
Fez uma pausa e em seguida prosseguiu:
— Quanto a Rosamund, é uma linda cabecinha de vento. Realmente não consigo imaginá-la com uma machadinha. Seu marido, Michael Shane, é um tanto enigmático. É um homem ambicioso e diria que também extremamente vaidoso. Porém, na verdade, sei muito pouco a seu respeito. Não tenho nenhum motivo para suspeitar que seja capaz de um crime brutal ou de um envenenamento planejado, mas até eu saber se ele realmente estava fazendo o que diz que estava não posso excluí-lo.
— Entretanto, você não tem nenhuma dúvida a respeito de sua mulher?
— Não, não, há uma certa insensibilidade alarmante... mas não, não consigo imaginá-la com a machadinha. É uma criatura de aparência frágil.
— E linda! — acrescentou Poirot com um sorriso levemente irônico. — E quanto à outra sobrinha?
— Susan? Ela é um tipo de mulher bem diferente de Rosamund. Uma moça de notável habilidade, eu diria. Ela e o marido estavam juntos em casa naquele dia. Eu disse (falsamente) que na tarde em questão tentara falar com eles pelo telefone. Greg rapidamente respondeu que o telefone estivera quebrado o dia inteiro. Que ele tentara ligar para alguém e não conseguira.
— Então mais uma vez não é conclusivo... Você não pode eliminá-la como gostaria de fazer. Como é o marido?
— Acho difícil decifrá-lo. Possui uma personalidade de alguma forma desagradável, embora não consiga explicar por que me causa essa impressão. Quanto a Susan...
— Sim?
— Susan me lembra o tio. Tem o vigor, a força, a capacidade mental de Richard Abernethie. Pode ser imaginação minha, mas sinto que faltam nela a bondade e o calor humano de meu velho amigo.
— As mulheres nunca são boas — observou Poirot. — Apesar de que algumas vezes possam ser ternas. Ela ama o marido?
— Apaixonadamente, eu diria. Mas realmente, Poirot, não posso acreditar... não vou acreditar, por um momento sequer, que Susan...
— Você prefere George? É natural! Quanto a mim, não sou tão sentimental em relação a jovens bonitas. Agora, conte-me sobre sua visita à velha geração.
O Sr. Entwhistle descreveu detalhadamente a visita a Timothy e Maude. Poirot resumiu o resultado.
— Então a Sra. Abernethie é uma boa mecânica. Conhece tudo a respeito de motores de automóvel. E o Sr. Abernethie não é o inválido que ele gosta de pensar que é. Sai para passear a pé e é, de acordo com sua opinião, capaz de ações vigorosas. É também um pouco egomaníaco e se ressente do sucesso do irmão e de seu caráter superior.
— Ele falou de Cora de maneira muito afetuosa.
— E ridicularizou o tolo comentário que ela fez depois do funeral. E quanto ao sexto beneficiário?
— Helen? A Sra. Leo? Não suspeito dela nem por um segundo. Mesmo assim sua inocência é fácil de ser provada. Estava em Enderby, com três empregados na casa.
— Eh bien, meu amigo — exclamou Poirot. — Vamos ser práticos: o que quer que eu faça?
— Quero saber a verdade, Poirot.
— Sim. Eu sentiria o mesmo em seu lugar.
— E você é o homem ideal para descobri-la. Sei que você não aceita mais casos. Entretanto, peço que aceite este. É uma questão de chegarmos a um acordo. Ficarei responsável pelos seus honorários. Vamos, dinheiro sempre é útil!
Poirot sorriu ironicamente.
— Não, quando vai tudo embora nos impostos. Mas devo admitir que seu problema me interessa. Porque não é fácil. É tudo tão nebuloso... Há uma coisa, meu amigo, que é melhor que seja feita por você. Depois, me ocuparei do caso. Acho que você deve procurar o médico que tratou de Richard Abernethie. Você o conhece?
— Ligeiramente.
— Que tal é ele?
— É um senhor de idade, bastante competente. Dava-se muito bem com Richard. Um ótimo sujeito.
— Então procure-o. Ele falará mais abertamente com você do que comigo. Pergunte-lhe sobre a doença do Sr. Abernethie. Descubra quais os remédios que o Sr. Abernethie estava tomando antes e na ocasião de sua morte. Veja se alguma vez Richard Abernethie comentou algo com ele a respeito de suspeitar que estava sendo envenenado. A propósito, essa tal de Srta. Gilchrist tem certeza de que ele usou o termo “envenenar” na conversa com a irmã?
O Sr. Entwhistle refletiu.
— Foi a palavra que ela usou... mas ela é o tipo de testemunha que freqüentemente muda as palavras porque está convencida de que está mantendo o sentido. Se Richard disse que estava com medo que alguém quisesse matá-lo, a Srta. Gilchrist pode ter se lembrado de veneno porque ela ligava os temores dele com os de uma tia que pensava que estavam misturando veneno em sua comida. Posso tocar novamente no assunto com ela uma outra hora.
— Sim. Ou eu mesmo o farei. — Calou-se e em seguida, com a voz alterada, disse: — Não lhe ocorreu, meu amigo, que a Srta. Gilchrist também possa estar correndo perigo?
O Sr. Entwhistle pareceu surpreso.
— Não, não posso dizer que isso tenha me ocorrido.
— Mas sim. No dia do funeral Cora declarou suspeitas. A dúvida na mente do assassino seria se Cora teria comentado a esse respeito com mais alguém ao tomar conhecimento da morte de Richard. E a pessoa mais provável seria a Srta. Gilchrist. Acho, mon cher, que ela não deveria permanecer sozinha naquele chalé.
— Creio que Susan vai até lá.
— Ah, então a Sra. Banks vai até lá?
— Ela quer dar uma olhada nos pertences de Cora.
— Entendo, entendo. Bem, meu amigo, faça o que lhe pedi. Pode preparar a Sra. Abernethie — a Sra. Leo Abernethie — para a possibilidade de eu aparecer por lá. Vamos ver. De agora em diante, eu mesmo vou me ocupar de tudo.
Poirot torceu o bigode com energia. Capítulo VIII
1
O Sr. Entwhistle olhou pensativo para o Dr. Larraby.
Ele possuía larga experiência em avaliar as pessoas. Em várias ocasiões fora obrigado a manejar uma situação difícil ou um assunto delicado. A essa altura, o Sr. Entwhistle já era perito na arte de saber exatamente como fazer a aproximação correta. Como seria o melhor modo de abordar o Dr. Larraby no que era certamente um assunto muito difícil e com o qual o médico poderia ficar ressentido no que dizia respeito à sua própria habilidade profissional?
Franqueza, pensou o Sr. Entwhistle, ou pelo menos uma franqueza moderada. Seria imprudente dizer que a suspeita surgira por causa de um comentário ocasional proferido por uma mulher tola. O Dr. Larraby não conhecera Cora.
O Sr. Entwhistle limpou a garganta e precipitou-se a falar corajosamente.
— Desejo consultá-lo a respeito de um assunto muito delicado — começou ele. — O senhor poderá se ofender, mas sinceramente espero que isso não aconteça. O senhor é um homem sensato e compreenderá, tenho certeza, que uma... ahn... a melhor maneira de se lidar com uma insinuação absurda é descobrir uma resposta razoável em vez de deixá-la de lado. Diz respeito ao meu cliente, o falecido Sr. Abernethie. Farei a minha pergunta claramente. O senhor tem certeza, certeza absoluta, de que ele morreu de morte natural?
O rosto de meia-idade, vermelho e bem-humorado, olhou assombrado para seu inquisidor.
— Que idéia... É claro que sim! Passei um atestado de óbito, não passei? Se eu não tivesse ficado satisfeito...
O Sr. Entwhistle interrompeu-o habilmente:
— Naturalmente, naturalmente. Asseguro-lhe que não estou pensando nada em contrário. Contudo, ficaria satisfeito em ter sua confirmação... em face de... ahn... boatos que estão sendo espalhados por aí.
— Boatos? Que boatos?
— Ninguém sabe ao certo como essas coisas começam — comentou o Sr. Entwhistle mentirosamente. — Mas a minha opinião é que eles deveriam parar e, se possível, oficialmente.
— Abernethie era um homem doente. Sofria de doença que seria fatal em, digamos, no máximo dois anos. Poderia acontecer muito mais cedo. A morte de seu filho enfraquecera sua vontade de viver e sua resistência. Admito que não esperava que morresse tão cedo e não tão repentinamente, mas existem precedentes. Qualquer médico que prognosticar a data exata em que seu paciente vai morrer ou quanto tempo ele irá viver está sujeito a fazer papel de tolo. O fator humano é sempre imprevisível. Muitas vezes o fraco tem forças inesperadas de resistência, e algumas vezes os fortes sucumbem.
— Compreendo tudo isso. Não estou duvidando de seu diagnóstico. O Sr. Abernethie estava, digamos, de uma forma um tanto melodramática, receio, sob sentença de morte. Estou apenas lhe perguntando se é possível que um homem sabendo ou suspeitando de que está condenado poderia, por vontade própria, encurtar esse período de vida. Ou se uma outra pessoa poderia fazê-lo.
O Dr. Larraby franziu as sobrancelhas.
— Quer dizer suicídio? Abernethie não era do tipo suicida.
— Entendo. O senhor pode me garantir, falando do ponto de vista médico, que tal sugestão é impossível?
O médico mexeu-se, inquieto.
— Eu não usaria impossível. Depois da morte do filho, a vida de Abernethie deixou de ter o interesse que tivera anteriormente. Na verdade, não acredito na probabilidade de suicídio, mas não posso afirmar que seja impossível.
— O senhor está analisando pelo aspecto psicológico. Quando me refiro ao ponto de vista médico, quero, na verdade, dizer: as circunstâncias de sua morte tornam tal suges-tão impossível?
— Não, oh, não. Não posso afirmar isso. Ele morreu dormindo, o que acontece com muitas pessoas. Não há motivo para se suspeitar de suicídio, nenhuma evidência de seu estado mental. Se fossem pedir uma autópsia toda vez que um homem seriamente doente morresse durante o sono...
O rosto do médico estava ficando cada vez mais vermelho. O Sr. Entwhistle apressou-se em intervir.
— É claro, é claro. Mas se tivessem existido evidências... evidências de que o senhor mesmo não estivesse ciente? Se, por exemplo, ele tivesse dito algo a alguém...
— Indicando que estivesse pensando em suicídio? Ele fez tal coisa? Devo dizer que isso me surpreende.
— Mas se assim fosse, meu caso é puramente hipotético, o senhor poderia eliminar a possibilidade?
O Dr. Larraby falou vagarosamente:
— Não, eu não poderia fazer isso. Torno, porém, a repetir que ficaria muito surpreso.
O Sr. Entwhistle apressou-se em manter sua vantagem.
— Se então admitirmos que sua morte não foi natural — tudo isto é puramente hipotético —, o que poderia tê-la causado? Quero dizer, que tipo de droga?
— Várias. Algum tipo de narcótico. Não havia nenhum sinal de cianose. Sua aparência era tranqüila.
— Ele tomava pílulas para dormir ou alguma coisa desse tipo?
— Sim, eu havia receitado Slumberyl, um sonífero seguro. Ele não tomava todas as noites. E só tinha um pequeno vidro de comprimidos de cada vez. Três ou até quatro vezes a dose receitada não causariam a morte. Na verdade, após sua morte lembro-me de ter visto na prateleira um vidro praticamente cheio.
— O que mais o senhor lhe havia receitado?
— Várias coisas... um remédio contendo pequena quantidade de morfina para ser tomado quando tivesse uma crise de dor; algumas cápsulas de vitaminas; um preparado para a digestão.
O Sr. Entwhistle interrompeu-o.
— Cápsulas de vitaminas? Acho que, certa vez, receitaram-me um tratamento desse tipo. Pequenas e redondas cápsulas de gelatina.
— Sim. Contendo adexolina.
— Seria possível alguma outra coisa ter sido introduzida em... digamos... uma dessas cápsulas?
— Quer dizer, alguma coisa mortal? — O médico parecia cada vez mais surpreso. — Mas certamente ninguém iria... olhe aqui, Entwhistle, aonde está querendo chegar? Meu Deus, homem, você está insinuando assassinato?
— Eu não sei bem o que estou insinuando... quero apenas saber o que seria possível.
— Mas que evidências você tem para até mesmo sugerir tal coisa?
— Não tenho nenhuma evidência — respondeu o Sr. Entwhistle com voz cansada. — Abernethie está morto... e a pessoa com quem ele falou também está morta. Trata-se de um boato... um boato vago e insatisfatório. E eu gostaria de colocar um ponto final nisso tudo, se puder. Se você dissesse que seria completamente impossível alguém ter envenenado Abernethie, eu ficaria profundamente agradecido! Garanto-lhe que tiraria um enorme peso da minha consciência.
Levantando-se, o Dr. Larraby começou a andar de um lado para outro.
— Não posso lhe dizer o que quer que eu diga — falou afinal. — Gostaria de poder. É claro que poderia ter sido feito. Qualquer pessoa ter extraído o óleo da cápsula e subs-tituído com... digamos... nicotina pura, ou meia dúzia de outras coisas. Ou poderiam ter colocado algo em sua comida ou bebida. Não acha isso mais provável?
— Talvez. Mas o caso é que só os empregados estavam em casa quando ele morreu, e não acredito que tenha sido nenhum deles; na realidade, estou certo que não. Sendo assim, estou procurando pela possibilidade de alguma ação de efeito retardado. Suponho que não exista nenhuma droga que possa ser administrada vindo a causar a morte somente semanas depois?
— Uma idéia prática, mas receio que insustentável — afirmou secamente o médico. — Sei que é uma pessoa responsável, Entwhistle, mas quem está fazendo essa insinuação? Parece-me completamente fora de propósito. .
— Abernethie nunca lhe disse nada? Nunca deu a entender que algum de seus parentes talvez estivesse querendo vê-lo fora do caminho?
O médico olhou-o, curioso.
— Não, ele nunca me disse nada. Tem certeza de que alguém não estava querendo causar sensação? Você sabe que alguns comentários absurdos podem parecer bastante lógicos e racionais.
— Espero que tenha sido isso. É melhor que seja.
— Deixe-me ver se entendo. Alguém alegou que Abernethie contou a ela... foi uma mulher, suponho?
— Oh, sim, foi uma mulher.
— ...disse a ela que alguém estava querendo matá-lo?
Encurralado, o Sr. Entwhistle contou a história do comentário de Cora no dia do funeral. O rosto do Dr. Larraby se iluminou.
— Meu caro amigo, não deveria ter-lhe dado nenhuma atenção. A explicação é bem simples. Numa certa época de sua vida, a mulher, ansiando por sensações, desequilibrada, insegura, é capaz de dizer qualquer coisa. Elas fazem isso, você sabe!
O Sr. Entwhistle ressentiu-se com a rápida conclusão do médico. Ele próprio já lidara com grande quantidade de mulheres histéricas à procura de sensações.
— Pode ser que você tenha razão — respondeu, levantando-se. — Infelizmente não poderemos discutir o assunto com ela, pois ela foi assassinada.
— O que disse... assassinada? — O Dr. Larraby parecia ter graves suspeitas quanto ao equilíbrio mental do Sr. Entwhistle.
— Provavelmente, você leu a esse respeito nos jornais. A Sra. Lansquenet, em Lytchett St. Mary, Berkshire.
— É claro. Contudo, não tinha a menor idéia de que ela era parente de Richard Abernethie. — O Dr. Larraby estava trêmulo.
Sentindo que havia se desforrado da superioridade profissional do médico, e tristemente consciente de que suas próprias suspeitas não haviam diminuído com o resultado da visita, o Sr. Entwhistle se retirou.
2
De volta a Enderby, o Sr. Entwhistle decidiu falar com Lanscombe.
Começou por perguntar ao velho mordomo a respeito de seus planos para o futuro.
— A Sra. Leo me pediu para permanecer aqui até que a casa seja vendida, e certamente ficarei muito satisfeito em obedecer-lhe. Todos nós gostamos muito da Sra. Leo. — Ele suspirou. — Lamento muito, se me permite mencionar, que a casa tenha que ser vendida. Trabalho aqui há muitos anos e vi todas as moças e rapazes crescerem. Sempre imaginei que o Sr. Mortimer sucedesse ao pai e talvez criasse a própria família aqui. Estava combinado que eu iria para North Lodge quando ficasse velho demais para o meu traba-lho. North Lodge é um lugar muito agradável e eu pretendia deixá-lo novinho em folha. Creio, entretanto, que agora não seja possível.
— Lamento que sim, Lanscombe. Toda a propriedade será vendida. Mas, com o seu legado...
— Oh, não estou me queixando, senhor. Fiquei muito grato pela generosidade do Sr. Abernethie. Fiquei numa boa situação financeira; contudo, hoje em dia não é tão fácil encontrar um lugar agradável para se comprar, e, apesar de minha sobrinha casada ter me convidado para morar com ela, não será a mesma coisa.
— Entendo — disse o Sr. Entwhistle. — Este mundo moderno é duro para nós, velhos. Gostaria de ter convivido mais com o meu velho amigo antes de ele morrer. Como estava ele nos últimos meses?
— Bem, depois da morte do Sr. Mortimer, ele nunca mais foi o mesmo.
— Não, aquilo deixou-o em pedaços. E ele também era um homem doente... homens doentes algumas vezes têm estranhas fantasias. Creio que nos seus últimos dias o Sr. Abernethie deveria estar sofrendo desse tipo de coisa. Talvez falasse de inimigos, de alguém que desejasse fazer-lhe mal? Pode ter chegado até a imaginar que estavam colocando alguma coisa em sua comida?
O velho Lanscombe pareceu surpreso... surpreso e ofendido.
— Não me lembro de nada desse tipo, senhor.
Entwhistle olhou-o atentamente.
— Você é um empregado muito leal, Lanscombe. Tenho certeza disso. Contudo, tais fantasias por parte do Sr. Abernethie seriam... ahn... sem importância, apenas um sintoma natural em certas doenças.
— É mesmo, senhor? Posso apenas lhe dizer que o Sr. Abernethie nunca me disse nada nem ouvi nada parecido.
Gentilmente, o Sr. Entwhistle desviou para outro assunto.
— Antes de morrer, ele trouxe parte da família para ficar com ele, não foi? Seu sobrinho, suas sobrinhas e os maridos?
— Sim, senhor, é isso mesmo.
— Ele ficou satisfeito com essas visitas? Ou ficou desapontado?
O olhar de Lanscombe ficou distante.
— Realmente, eu não saberia como responder, senhor.
— Acho que saberia — disse o Sr. Entwhistle delicadamente. — O que você quer dizer realmente é que sua posição não lhe permite comentar certas coisas. Às vezes, entretanto, é preciso ir contra o que se julga correto. Fui um dos melhores amigos de seu patrão. Gostava muito dele. Você também. É por isso que estou pedindo sua opinião como homem, não como mordomo.
Por um momento, Lanscombe permaneceu calado; em seguida, falou com voz inexpressiva:
— Há alguma coisa errada, senhor?
O Sr. Entwhistle respondeu com sinceridade:
— Não sei. Espero que não. Gostaria de ter certeza. Você por acaso sentiu que havia algo... errado?
— Só depois do funeral, senhor. E não saberia dizer exatamente o quê. Mas naquela noite, depois que os outros se retiraram, a Sra. Leo e a Sra. Timothy não pareciam mais as mesmas.
— Você tem conhecimento do conteúdo do testamento?
— Sim, senhor. A Sra. Leo achou que eu gostaria de saber. Parece-me, se me permite dar a minha opinião, um testamento muito justo.
— Sim, foi um testamento muito justo. Todos foram beneficiados igualmente. Não creio, entretanto, que tenha sido o testamento que o Sr. Abernethie pensou em fazer após a morte do filho. Responderá agora à pergunta que lhe fiz ainda há pouco?
— Posso apenas lhe dar a minha opinião pessoal...
— Sim, sim, essa parte já ficou acertada.
— O patrão, senhor, ficou muito desapontado depois da visita do Sr. George. Acho que ele esperava encontrar no Sr. George alguma semelhança com o Sr. Mortimer. O Sr. George, se me permite dizer, não correspondeu à expectativa. O marido da Srta. Laura sempre foi considerado pusilânime e receio que o Sr. George tenha saído a ele. — Lanscombe fez uma pausa. — Em seguida, vieram as jovens com seus maridos. Logo de saída, o Sr. Abernethie afeiçoou-se a Susan. Uma moça bonita e de muito espírito. Mas na minha opinião ele não suportou o marido dela. Hoje em dia as jovens fazem escolhas estranhas, senhor.
— E quanto ao outro casal?
— Não tenho muito o que dizer a esse respeito. Um casal bonito e agradável. Acredito que meu patrão gostou de tê-los aqui. Porém, não creio... — O velho Lanscombe hesitou.
— Sim, Lanscombe?
— Bem, o Sr. Abernethie nunca teve nada a ver com teatro. Certo dia ele me disse: “Não consigo compreender por que as pessoas se tornam fanáticas pelo teatro. É um tipo tolo de vida. Parece tirar das pessoas qualquer bom senso que possam ter, e não sei o que faz à sua moral. Certamente perdem o senso de proporção”. É lógico que ele não estava se referindo diretamente a...
— Não, não, compreendo perfeitamente. E então depois dessas visitas o próprio Richard viajou. Primeiro foi ver o irmão e, em seguida, a irmã, a Sra. Lansquenet.
— Não sabia disso, senhor. Quero dizer, ele mencionou que iria até a casa do Sr. Timothy e em seguida a algum lugar chamado St. Mary.
— É isso mesmo. Lembra-se de alguma coisa que ele disse a respeito dessas duas visitas?
Lanscombe refletiu.
— Realmente, não sei... nada direto. Estava satisfeito de estar de volta. Viajar e ficar em casas estranhas o cansava muito... isso me lembro de ele ter dito.
— Nada mais? Nada a respeito de qualquer dos dois?
Lanscombe franziu as sobrancelhas.
— O meu patrão costumava... bem, resmungar, se é que me entende. Falando comigo, mas mais consigo mesmo... mal percebendo que eu estava lá.
— Isso porque ele confiava em você.
— Minhas lembranças são muito vagas. Ele falou alguma coisa sobre não entender o que ele havia feito com seu dinheiro... achei que se referia ao Sr. Timothy. Em seguida disse algo sobre “mulheres podem ser tolas em centenas de situações, mas muito astutas em determinados assuntos”. Ah, sim, ele comentou: “A pessoa só pode dizer o que realmente pensa a alguém de sua própria geração. Não pensam, como os jovens, que você está fantasiando as coisas”. E mais tarde ele disse, porém não sei em que sentido, que “não é muito agradável ter que preparar armadilhas para outras pessoas; contudo, não sei o que mais eu poderia fazer!” É possível que ele estivesse se referindo ao jardineiro... um problema de os pêssegos estarem sendo roubados.
O Sr. Entwhistle, entretanto, não acreditava que Richard Abernethie estivesse se referindo ao jardineiro. Após mais algumas perguntas, ele dispensou Lanscombe e refletiu sobre o que acabara de tomar conhecimento. Nada, realmente nada que ele não houvesse deduzido anteriormente. Contudo, havia pontos sugestivos. Não era sua cunhada Maude, mas sim sua irmã Cora a quem ele se referia quando fez aquele comentário sobre mulheres que eram tolas e ao mesmo tempo astutas. E fora com ela que ele conversara sobre as suas fantasias. E ele falara em preparar uma armadilha. Para quem?
3
O Sr. Entwhistle meditara bastante sobre o que deveria dizer a Helen. Por fim decidiu colocá-la a par de tudo.
Primeiramente agradeceu-lhe por ter cuidado dos pertences de Richard e por ter tomado várias providências domésticas. A casa fora colocada à venda e havia um ou dois compradores em perspectiva que em breve viriam dar uma olhada.
— Compradores particulares?
— Receio que não. A ACM está cogitando do assunto, há também um outro clube de jovens, e os administradores da Fundação Jefferson, que estão procurando um lugar ade-quado para as suas instalações. Acho triste esta casa deixar de ser uma residência, mas é claro que nos dias de hoje não seria uma proposição prática.
— Gostaria de pedir-lhe, se for possível, que você permaneça aqui até que a venda seja efetuada. Ou seria um grande inconveniente?
— Não, na verdade seria até muito conveniente para mim. Não desejo retornar a Chipre antes de maio, e prefiro muito mais ficar aqui a permanecer em Londres, como pla-nejara. Sabe que amo esta casa. Leo a amava e sempre nos sentíamos felizes quando estávamos aqui reunidos.
— Existe uma outra razão para eu ficar agradecido se você permanecer aqui. Há um amigo meu, um homem chamado Hercule Poirot...
Helen falou bruscamente:
— Hercule Poirot? Então você acha...
— Você o conhece?
— Sim. Alguns amigos meus... mas eu imaginava que ele tivesse morrido há muito tempo.
— Ele está bem vivo. Não é jovem, é claro.
— Não, dificilmente poderia ser jovem.
Ela falava mecanicamente. Seu rosto estava branco e contraído. Num esforço, perguntou:
— Você acha que Cora tinha razão? Que Richard foi... assassinado?
O Sr. Entwhistle sentiu-se aliviado. Era um prazer poder desabafar com Helen, dona de uma mente clara e tranqüila.
Quando ele terminou, ela disse:
— Tudo isso poderia parecer fantástico, mas não é. Maude e eu... na noite depois do funeral... estou certa de que estava em nossos pensamentos. Dizendo para nós mesmas que mulher tola era Cora, e apesar disso sentindo-nos inquietas. Em seguida Cora é assassinada... e eu disse a mim mesma que se tratava de uma coincidência, e é lógico que pode ter sido. Ah, se ao menos eu pudesse ter certeza. É tudo tão complicado!
— Sim, é complicado. Entretanto, Poirot é um homem de muita engenhosidade, praticamente um gênio. Ele sabe exatamente do que precisamos: a certeza de que tudo não passa de boato.
— E supondo que não seja?
— O que a faz pensar assim? — indagou o Sr. Entwhistle rapidamente.
— Não sei. Tenho andado inquieta. Não só por causa do que Cora falou naquele dia... é uma outra coisa. Algo que na ocasião senti que estava errado.
— Errado? De que maneira?
— O problema é justamente este. Eu não sei.
— Está se referindo a alguma coisa ligada a alguém que estava na sala naquela tarde?
— Sim, sim, algo assim. Não sei, porém, quem ou o quê... Oh, isso parece absurdo!
— De forma alguma. É interessante... muito interessante. Você não é nenhuma boba, Helen. Se notou alguma coisa, essa coisa tem importância.
— Sim, mas não consigo me lembrar o que foi. Quanto mais penso...
— Não pense. Este é o modo errado de se procurar recordar de alguma coisa. Deixe o tempo passar. Mais cedo ou mais tarde você terá um lampejo. E, quando isso acontecer, avise-me imediatamente.
— Avisarei.