Destemida

Jessica Watson · Capítulo 11 de 20 · parte 2/2

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Destemida

Etapa Seis - Oceano Antártico rumo à minha casa

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Atingiremos mais um marco empolgante em breve, pois passaremos

por baixo do Cape Leeuwin amanhã em algum momento antes do meio-

dia!

 

Segunda-feira, 12 de abril de 2010

 

Tempestade de raios

 

...As coisas ficaram bem interessantes em parte da noite de ontem,

quando o que achei se tratar de uma chuva passageira transformou-se

em uma tempestade completa, a pior que vi no mar até agora. Embora

mal conseguisse enxergar através da chuva gélida que caía de lado, os

relâmpagos surgiam no mar perto de nós – perto demais para o meu

gosto. O vento também soprou com muita força.

A Ella’s Pink Lady já estava rizada àquela altura. Mas até eu conseguir

enrolar a maior parte da vela de proa e colocar o terceiro rizo, adernamos

dramaticamente. Logo o vento se acalmou outra vez e a chuva começou

de verdade. Era tão forte que mal dava para ver onde acabava a água e

começava o céu.

Nunca me assustei com trovões, mas sozinha no mar às quatro da

manhã, eles parecem um tanto ameaçadores, e fica bem mais difícil

controlar os nervos! Além da tempestade de raios, o clima ainda está

bem inquieto, com chuvas quase constantes, eventuais pancadas de

vento e mar revolto. Felizmente, o vento não anda tão forte. O progresso

tem sido bom, apesar do cenário sombrio e cinzento, e ando rindo à toa

e me mantendo seca graças ao abrigo da capota.

A previsão de Bob para amanhã mostra mais um pouco de vento, mas

em seguida as coisas vão melhorar muito.

Foi muito legal saber que Bruce e o Big Wave Rider mantiveram a

liderança até a linha de chegada em Mooloolaba e que a Sunshine Coast

lhes deu uma grande recepção!

Por hoje é isso, pois tenho um pouco de sono para recuperar. Estou

cruzando os dedos para conseguir dormir por mais de dez minutos dessa

vez sem ser acordada por alguma coisa!

 

Relâmpagos no mar são realmente impressionantes... Mas pelo que sei não são nada bons! Os clarões de luz podem ser espetaculares se você estiver

na segurança de casa, mas sabendo que o mastro de metal da Ella’s Pink

Lady era a coisa mais alta – e a única – por perto não me ajudou a relaxar

quando havia tempestades elétricas. Eu não conseguia fazer nada para deixar o barco seguro: só me restava car na cabine e torcer pelo melhor. Na

maioria das tempestades eu cava mesmerizada pelas ondas e assistia a elas

e à chuva pela escada na gaiuta, mas sempre que havia relâmpagos por perto

eu preferia não assistir.

 

Quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ventos contrários e mais relâmpagos

 

Os últimos dias foram um pouco duros (sim, é um estágio mais

avançado do que o “interessantes” de praxe!), com ventos contrários

fortes, mar revolto, muitos relâmpagos e alguns momentos muito

dramáticos hoje pela manhã.

Na noite de anteontem havia muito mais relâmpagos ao nosso redor e

estavam próximos demais para que eu relaxasse. Dessa vez não houve

nenhum vento ou chuva, o que de certa maneira tornou tudo pior, pois

eu conseguia ver como os relâmpagos estavam próximos. Aparecia um

clarão após o outro, o que me deixou à beira de um ataque de nervos e

me impediu de dormir direito por causa da preocupação. Alguns dos

clarões eram tão fortes que tive vontade de colocar os óculos de sol!

Mas depois de algumas horas cheguei à conclusão de que assistir e

ficar aflita não traria nada de bom, então peguei o livro mais bobo que

encontrei, botei uma playlist de música calma para tocar no iPod e fiquei

sentada lendo só com um dos fones de ouvido (quase nunca uso os dois,

para poder ouvir o que está acontecendo no convés. Após tanto tempo

no mar, navego a Ella’s Pink Lady praticamente de ouvido. Bem, não

literalmente, mas escuto o tempo inteiro para ver se há qualquer

pequena mudança!).

Depois disso, o vento subiu para algo entre 25 e 30 nós contra a proa,

junto com um mar revolto e bastante chuva. Não é o que eu chamaria de

uma navegação confortável.

Então, quando pensei que as coisas estavam melhorando, o vento

começou a soprar feito louco de repente, deitando a Ella’s Pink Lady de

lado e deixando-a assim. Enquanto eu estava me divertindo bastante

(atenção para o sarcasmo!) rizando no cockpit (com dois cintos de

segurança, é claro!), lá embaixo a água começou a subir pela pia devido

ao ângulo doido em que estávamos. Costumo fechar a válvula de casco

da pia quando o clima está instável. Mas como achei que as coisas

estavam se acalmando, recém a havia aberto outra vez. A água inundou

a cozinha e o porão. Mas as bombas da Ella’s Pink Lady logo a colocaram

para fora outra vez. Não estou especialmente emocionada com a

bagunça na cozinha ensopada. Mas bem mais incômodo do que isso foi

que, antes de eu conseguir baixá-la o suficiente, a vela mestra rasgou em

dois pedaços. O vento não durou muito, mas quando o clima melhorar

um pouco terei muito o que costurar.

Todos andam me dizendo para não baixar a guarda por estar tão perto

de casa. Mas, acreditem, com esse clima me infernizando, não tenho

como relaxar nem um pouquinho. Eu estava começando a achar que

havia visto uma boa variação de climas, mas esses relâmpagos foram

algo novo. Tudo faz parte do desafio, no entanto, e só fará com que eu

valorize mais a tranquilidade quando estivermos atracados em segurança

numa doca de Sydney. Ah, e também espero ansiosamente por uma

cama seca!

Estou me sentindo muito melhor hoje graças ao sono decente e após

conversar pelo telefone via satélite com minha irmã, a equipe e alguns

amigos, estou tão alegre que nem consigo me chatear pela cabine estar

um pouco ensopada e o clima continuar uma droga.

Nesse instante poderíamos estar com bem mais velas erguidas,

avançando um pouco mais rápido, mas vendo os clarões dos

relâmpagos a distância outra vez, com a vela mestra rasgada e todo o

drama da semana, estou satisfeita em pegar leve até que as coisas

fiquem um pouco mais tranquilas.

 

Domingo, 18 de abril de 2010

 

Navegando devagar, costurando e neblina

 

O clima está bem mais calmo outra vez. Às vezes um pouco calmo

demais e em alguns momentos o vento desaparece.

Mas as condições amenas deram uma boa oportunidade para cumprir

todos os trabalhos recentes e minhas mãos frágeis e machucadas

tiveram um tempo para se recuperar.

Está bem menos nublado, mas os últimos dias têm oferecido um

pouco de neblina. Geralmente não me importo com isso, pois é bonito

ver a cerração acomodada entre as ondas. Mas dessa vez a névoa está

mais cinza, úmida e sombria. Existe algum tipo de clima ruim que não

passou por aqui nos últimos tempos?! Começo a me perguntar o que fiz

para ofender o sol, que mal deu as caras em semanas!

A vela mestra está toda costurada outra vez. Acho que não ganharei

nenhum prêmio de bordado, mas deve ser o suficiente para mantê-la

inteira. Não deixei cair nenhuma agulha no mar dessa vez e só espetei as

mãos umas poucas vezes ao puxar a agulha entre as partes mais grossas

da vela com a palma da mão. A cozinha também está bem mais

ordenada depois que esvaziei os armários e sequei tudo na tarde de

ontem. Hoje estive meio ocupada balanceando um pouco o peso para

nos manter equilibradas e navegando bem, agora que já usei boa parte

da água e do diesel. É um trabalho que ficaria muito mais fácil se desse

para sair do barco e ver se é a proa ou a popa que está projetada para

fora da água. Além disso, tenho um probleminha mecânico para resolver

e alguns outros trabalhos a serem feitos e troquei a vela de proa pela

reserva porque a velha estava começando a ficar meio esfarrapada.

A Ella’s Pink Lady está avançando bem com a vela code zero erguida

nesse instante. Estamos seguindo a seis nós rumo ao sudeste. O vento

parece um pouco mais frio agora que estamos a 40 graus sul outra vez e

voltei a usar minhas camadas intermediárias e meias da Musto para

dormir.

Fiquei triste ao saber que o Powderfinger decidiu se separar. Enviaram

para mim sua nova canção, “Sail the Wildest Stretch” um tempo atrás e

desde então toquei essa música até não poder mais.

Bem, por hoje é só. Voltarei ao convés com uma caneca de café e um

pote de Nutella (não se preocupem, serei uma boa garota e usarei uma

colher!) para ver se há estrelas aparecendo entre as nuvens.

 

Minhas mãos caram muito feridas e machucadas durante a última etapa. Estavam quase sempre úmidas e a água salgada impedia mesmo os menores

cortes de sararem. Não era fácil navegar quando tudo o que eu precisava

fazer para manter a Ella’s Pink Lady no rumo certo me impedia de descansá-

las, de modo que estavam sempre sensíveis. Quando nalmente terminei de contornar a Tasmânia, apareceu um helicóptero para tirar algumas fotos.

Fiquei tão empolgada ao vê-lo (embora preocupada quando ele desceu e

cou muito próximo da água, o piloto parecia estar tirando ninho do

mar!). Saí para o convés e abanei freneticamente, com um grande sorriso no rosto. No dia seguinte, quando as fotos foram publicadas nos jornais News

Limited, recebi uma enxurrada de e-mails de minha mãe e de meus tios,

todos preocupados com minhas mãos. Os blogueiros caram igualmente preocupados e quando vi as fotos ao chegar em casa percebi como elas pareciam tristemente doloridas. Não é muito surpreendente, pois foi uma

navegada muito exigente na Austrália e ao redor da Tasmânia e

considerando tudo eu até que estava em boa forma.

 

Segunda-feira, 19 de abril de 2010

 

Não era uma mosca, era uma mariposa!

 

Às vezes, quando não consigo pensar em nada de novo para escrever

no blog, sempre me dizem que não importa. Eu poderia escrever sobre

uma mosca que pousou na Ella’s Pink Lady e alguém acharia

interessante.

Bem, hoje uma mariposa pousou na Ella’s Pink Lady, e não sei quanto

a vocês, mas eu fiquei bem empolgada (parece meio bobo, eu sei!).

Normalmente não gosto muito de insetos, mas esse foi o primeiro que vi

em seis meses, e como a terra mais próxima está a 500 milhas náuticas,

fiquei muito surpresa ao ver uma pequena mariposa cinza parada no

convés. Não me perguntem o que uma criatura de aparência tão delicada

está fazendo tão longe da costa.

Enfim, vamos em frente!

Talvez vocês estejam mais interessados em saber que ontem, 18 de

abril, completaram-se seis meses desde que a Ella’s Pink Lady e eu

estamos no mar – junto com todos vocês que estão nos seguindo de

perto virtualmente! É incrível pensar que faz seis meses que não vejo

ninguém, mas parece que foi ontem que saímos de Sydney.

O tempo passou voando!

 

Eu certamente não estava reclamando da maneira como a viagem havia

transcorrido. Na primeira etapa, mal acreditei na velocidade em que

havíamos percorrido uma grande distância. Originalmente, havíamos

estimado que eu navegaria 23.000 milhas náuticas e caria no mar por aproximadamente 230 dias. Projetamos que eu precisaria navegar uma

média de 100 milhas náuticas por dia, ou manter a média de 4.2 nós.

Quando cheguei em casa, havíamos navegado 24.285 milhas náuticas em

210 dias, então mantivemos uma média de 115. 6 milhas náuticas por dia, velocidade de 4.8 nós. Sinto muito orgulho por termos cado tão perto de

nossas estimativas e pela maneira como a viagem transcorreu. Toda a nossa

pesquisa e preparação valeu a pena e reforçou o que James e Justin, “os

garotos da travessia”, haviam me dito desde o início: a preparação é dois terços da viagem. Minha viagem era muito diferente da deles, mas valiam os

mesmos princípios: trabalho duro e uma boa preparação são a chave de

qualquer sucesso.

 

O vento anda bem leve, então o progresso não tem sido nada demais.

Sou só eu, ou essa última etapa está durando para sempre? Não que eu

me importe muito. Continuo amando estar aqui e, por mais que esteja

ansiosa para fazer um milhão de coisas em terra, sentirei falta de muitas

coisas daqui.

Durante a maior parte do dia de hoje, não houve nenhum vento. Para

não ficar frustrada, desliguei os instrumentos para não poder ver nossa

velocidade infeliz e decidi tentar substituir o gerador eólico (que não

anda funcionando) pelo reserva. Eu não ia me dar o trabalho de substituí-

lo porque tenho diesel suficiente para ligar o motor (desengrenado) e

carregar as baterias, mas eu estava procurando algo para me manter

ocupada e tinha muita energia para gastar. Levou a tarde inteira, e

colocá-lo na posição adequada foi um desafio tão grande que mal reparei

no mar parado e no fato de que mal estávamos nos movendo. O sol até

saiu por algumas horas e o esforço valeu nem que seja pelo cenário ao

fim da conquista.

Ainda preciso desmontar o velho gerador para guardá-lo, então é

melhor voltar ao trabalho!

 

Quinta-feira, 21 de abril de 2010

 

Navegando bem

 

Fico contente em comunicar que ontem finalmente avançamos

bastante e hoje também foi um dia de progresso significativo. É incrível

como Sydney parece mais perto quando estamos nos movendo. E, uau,

estamos chegando perto mesmo!

Nada de novo ou empolgante para contar. Estamos seguindo em

frente com um solzinho de vez em quando e a vida normal na Ella’s Pink

Lady.

Algo que não me empolga muito, contudo, é a previsão para a

próxima semana. Não teremos a navegação tranquila que eu gostaria.

Com sorte, não será muito ruim, mas também não será um passeio no

parque. Ok, “passeio no parque” não é a melhor expressão para usar,

mas vocês entenderam!

Precisei ter um papo sério comigo mesma após ler a última previsão

de Bob. Eu esperava que não tivéssemos mais tempo feio pela frente.

Bem, precisarei fingir que sou durona por mais um tempo!

Ouvi dizer que alguém (Granddad Chisholm!) andou gerando debates

nos dois lados da Tasmânia para saber se sou kiwi ou australiana!

Aparentemente, os neozelandeses estão me reivindicando! Acho que o

que eu disser não fará qualquer diferença, mas tenho passaporte tanto

da Austrália quanto da Nova Zelândia. A Austrália é minha casa (sinto

muito, Granddad!), mas meu fiel escudeiro é um kiwi de pelúcia – o

mascote neozelandês!

 

Domingo, 24 de abril de 2010

 

Jibe chinês, ondas enormes e um

 

avião da imigração

 

Apesar de hoje ter começado com um jibe chinês, a cama úmida, uma

dor de cabeça e ondas enormes, tive um dia ótimo. Sei que as palavras

“jibe chinês” e “ótimo” não cabem na mesma frase, mas nesse momento

estou me sentindo melhor do que me senti durante toda a semana. Não

que estivesse desanimada, mas agora estou com dor na bochecha de

tanto sorrir durante a tarde.

O vento começou a ganhar força ontem e se acomodou em torno de

35 nós durante a noite toda, com algumas rajadas chegando perto dos

40, o que não foi um grande problema, pois a Ella’s Pink Lady estava

navegando apenas com a buja de tempestade, já que estou sendo

extraconservadora (isto é, meus nervos não estão dispostos a uma

viagem muito rápida!).

Foram as ondas que ficaram interessantes. O mar estava revolto

devido a um traiçoeiro sistema de baixa pressão que passava para o sul

e, embora tenhamos escapado da maioria de seus ventos, tivemos que

enfrentar as ondas. Provavelmente as maiores que vi até agora (mas o

mar estava mais perigoso durante a tempestade no Atlântico, pois estava

mais íngreme e o intervalo entre as vagas eram menos espaçadas). Eram

montanhas líquidas de 10 metros de altura que passavam com seus

picos brancos, mas a Ella’s Pink Lady aguentou tudo com serenidade, e

quando sofremos um jibe chinês logo após o amanhecer de hoje, eu já

tinha começado a relaxar, pois o vento e o mar já estavam se acalmando.

Dessa vez eu estava deitada na cama quando viramos e fui acordada

com diversos objetos e um monte de água caindo em cima de mim.

Sério, o que aconteceu com a prática de sacudir alguém suavemente

para acordá-la e então oferecer uma xícara de café?

Enfim, dentro do possível em um cenário de jibe chinês, não foi tão

ruim. O mastro mal tocou a água e não houve nenhum dano. Mas ter um

monte de água na cama não me deixou muito contente. O chato é que eu

havia desligado as câmeras externas meia hora antes. Se as câmeras

tivessem ficado ligadas só mais um pouquinho, vocês poderiam assistir

ao acidente em vez de ler a respeito dele.

Depois que a Ella’s Pink Lady se reergueu, achei que não havia nada

que eu pudesse fazer até que as coisas se acalmassem um pouco, então

vesti minhas roupas impermeáveis, puxei o capuz e voltei para a cama

ensopada. Não se compara aos meus pijamas confortáveis e uma cama

de casal macia com lençóis limpinhos, mas eu não poderia ter dormido

melhor!

Quando acordei, o sol estava brilhando e o mar havia se acalmado um

pouco, mas o cenário ainda era espetacular. Era incrível assistir pela

janela basculante da capota e eu estava fazendo justamente isso quando

o gerador eólico começou a urrar feito um condenado de um segundo

para o outro. Subi rapidinho até o cockpit e percebi que os ruídos não

vinham do gerador, mas de um avião acima de nós!

Era a imigração australiana, enviada para olhar o suspeito barco rosa.

Não, estou brincando. Era um voo de rotina e eles passaram para dizer

“oi” e me lembrar de falar com as devidas autoridades ao chegar em

Sydney, o que parece meio estranho, visto que não parei em nenhum

lugar. Mas imagino que a lei seja essa e que minha equipe na costa tenha

tudo sob controle.

Depois disso, com as velas erguidas outra vez enquanto o vento

continuava a perder força, tive uma tarde muito divertida navegando

manualmente no sol. Seguimos em frente, acolhendo o mar incrível. O

resto da semana não será mais fácil do que isso, pois se espera outra

frente e outro sistema de baixa pressão, mas ao contrário do que ocorreu

alguns dias atrás, já não estou com medo – só ansiosa para chegar à

parte inferior da Tasmânia e navegar rapidamente.

Amanhã é Dia de Anzac, então farei um esforço a mais para assistir ao

nascer do sol e tirar um minuto para pensar em todos os soldados longe

de casa e quem sabe tente fazer biscoitos Anzac.

 

Se eu não tivesse deixado os biscoitos Anzac queimar, teriam cado deliciosos. Mas comi mesmo assim! Eis minha receita:

 

½ caneca de mistura de pão multigrãos (em vez de farinha, pois ainda

havia ondas demais para que eu pudesse ir ao depósito da proa – foi

surpreendente como funcionou bem)

⅓ caneca de coco em pedaços

⅓ caneca de açúcar

¾ caneca de ocos de aveia

4 colheres de manteiga em lata

2 colheres de melaço de cana

½ colher de chá de bicarbonato de sódio dissolvido em água fervente.

 

1. Misture os ingredientes secos em um recipiente com fundo de

borracha antiderrapante!

2. Derreta a manteiga e o melaço de cana juntos e então

acrescente o bicabornato de sódio líquido e bata.

3. Misture os ingredientes úmidos com os secos.

4. Asse em uma panela sobre algumas camadas de papel alumínio

com a tampa fechada e tenha certeza de pôr apenas um

pouco de mistura em cada folha, caso contrário você acabará

com apenas um biscoito gigante (na verdade, se não queimar não é tão ruim).

 

Fazer os biscoitos me distraía do clima por uns tempos, mas às vezes era um show de equilibrismo. A seguir há uma tabela climática (cortesia da

Agência Australiana de Meteorologia) que mostra os sistemas que estavam

passando pela parte inferior da Austrália rumo ao Oceano Antártico

naquele momento. As echinhas pontiagudas mostram as frentes e de regra o vento é mais forte onde as linhas curvas (ou isobáricas) estão agrupadas.

Quarta-feira, 28 de abril de 2010

 

Desviando mais uma vez

 

A frente de sábado passou com apenas 35 nós de vento e sem nos

arrastar, mas o sistema de baixa pressão que está passando para o sul

deixa nossa vida bem interessante no momento. Muito interessante e

muito, muito incômoda! Com a previsão parecendo cada vez pior na

segunda-feira e após todos as discussões, “hmmms” e “ahhhhs” com

Bruce e o resto da equipe, decidi desviar e subir para o norte durante

alguns dias até que o pior já tenha ido para a Tasmânia.

 

Dizer que houve alguns “hmms” e “ahhhs” foi eufemismo. A pressão de

decidir se passaríamos pelo Estreito de Bass ou manteríamos o plano de navegar pela Tasmânia havia tomado conta de minha cabeça. Sabendo que

os padrões climáticos não dariam trégua, quei tentada a ir pelo Estreito,

mas quando pensava direito só havia uma escolha a ser feita. Eu sempre

havia dito que navegaria por quatro cabos: o Cabo Horn, o Cabo da Boa Esperança, o Cabo Leeuwin e o Cabo do Sudeste da Tasmânia. Apesar das

críticas, eu terminaria o que estava determinada a fazer. Sabia que tinha a

habilidade e o barco à altura e me arrependeria para sempre se escolhesse o

caminho mais fácil!

 

Com o Estreito de Bass logo à nossa frente, pegar um atalho por ali e

desviar do mau tempo era uma ideia que precisava ser levada em conta.

Mas decidimos que o mais seguro seria esperar que o mau tempo

passasse antes de descer para a parte inferior da Tasmânia outra vez.

Acho que não houve uma escolha de fato, só levei um tempo para deixar

de me incomodar e aceitar que precisaria ficar por lá e esperar mais um

pouquinho antes de chegar em Sydney e tomar um banho quente!

Na noite passada as coisas ficaram bem interessantes. Soltei a âncora

de mar [um apetrecho semelhante a um paraquedas que pode ser

largado atrás do barco para reduzir a velocidade quando as ondas estão

muito grandes] para evitar que perdêssemos muita distância ou

sofrêssemos um jibe chinês. O vento soprava a 55 nós e o mar estava

(ainda está!) um gigantesco caos, com ondas entre 8 e 12 metros.

Embora o vento esteja se acalmando, o mar segue alto.

Navegar com aquele clima e com a âncora de mar atrás foi muito

parecido com a primeira ventania que enfrentei na Ella’s Pink Lady,

devido ao novo movimento e aos novos ruídos. Não foi a mais tranquila

das noites, pois fiquei manuseando o cabo de amarração da âncora em

uma tentativa de nos posicionar no ângulo certo em relação às ondas.

Então, quando encostei a cabeça para dormir um pouquinho, sofremos

mais um jibe chinês quando a amarração escapou do timão e uma

grande onda nos pegou de lado.

Viramos mais de 90 graus, dessa vez a bombordo para quebrar a

rotina. Novamente não houve danos, mas minha grande garrafa de

detergente escapuliu do armário e saiu voando, despejando seu

conteúdo por todos os lados! Toda a cabine, incluindo o teclado em que

estou digitando, está coberta de detergente de limão pegajoso,

escorregadio e repleto de bolhas. Que maravilha. Minha mãe admite que

tenho uma espécie de obsessão com limpeza! Ando me perguntando por

que me incomodo em secar e organizar a cabine a essa altura, já que

nunca dura muito.

Ainda vai levar um tempo para que o mar se acalme e consigamos

seguir para o sul, o que vai atrasar minha data de chegada. O lado

positivo é que essas ondas são incríveis. Passei anos sonhando com a

aparência delas e elas são dez vezes mais incríveis do que jamais

imaginei. Não consigo acreditar que naveguei ao redor do mundo para

vê-las quando o tempo todo estavam bem no meu quintal!

Fiquei triste ao saber que Abby precisou parar na Cidade do Cabo

para consertar o barco. Mas assim como Abby afirmou tão precisamente

no seu blog um dia desses, de certa maneira é excelente que agora

estejamos perseguindo recordes ligeiramente diferentes, pois não

precisamos competir uma com a outra. Também estou morrendo de

inveja porque ela provavelmente terá um banho quente antes de mim!

 

Acabei com um lábio inchado, sangue por tudo e um olho roxo após

soltar a âncora de mar antes daquele último jibe chinês. Eu passava alguns

dias machucada sicamente após qualquer situação climática intensa. Tentar

manter o barco de cabeça para cima era cansativo.

Após um jibe chinês, eu sempre sabia dizer exatamente o quanto

havíamos virado pela maneira como diversos objetos voadores acabavam se

organizando na cabine depois do retorno à posição normal. Por melhor que

eu amarrasse e preparasse tudo antes de uma tempestade, algumas coisas sempre conseguiam se soltar e acabavam nos lugares mais bizarros. Durante

aquela tempestade no Atlântico, eu sabia o ângulo exato em que havíamos

virado por causa do... Bem, não gosto muito de dizer porque é um pouco

nojento! Digamos apenas que havia um rastro marrom no teto sobre a privada! Por sorte, dessa vez a única coisa que acabou grudando no teto e

escorrendo pelas paredes foi o detergente.

Os lugares aleatórios em que eu encontrava coisas en adas mostrava

como a Ella’s Pink Lady havia sido revirada. Ela era mesmo muito durona!

Durante os jibes chineses no Atlântico, um pacote de bolotas de iogurte

se abriu. Elas me deixaram doida, pois voaram pela cabine enquanto eu estava atada ao assento segurando rme e não podia fazer nada. Encontrei bolinhas de iogurte nos lugares mais escondidos durante semanas! Uma

havia se escondido abaixo do suporte do forno e dali escorregou para o

armário abaixo dele. Mal pude acreditar quando encontrei uma em uma

pilha de meias alojada na proa.

Nunca consegui ver as ondas especí cas que causaram os jibes chineses e

lamento um pouco isso. Deviam ser incríveis e vai saber qual era o tamanho

delas!

 

Quinta-feira, 29 de abril de 2010

 

Encarar o que vier

 

As ondas ainda estão imensas, mas no geral as condições estão bem

mais agradáveis hoje. A âncora de mar foi recolhida ao amanhecer, uma

tarefa muito mais fácil do que eu esperava, e desde então a Ella’s Pink

Lady tem avançado rápido entre as ondas com apenas uma vela.

Recuperei um pouco de sono hoje, recarregando minhas baterias

enquanto posso.

Essa era a boa notícia. A má notícia é que há MAIS tempo ruim vindo

em nossa direção. Após olhar as cartas climáticas que mostravam um

novo sistema de baixa pressão chegando no fim de semana, devo

admitir que precisei buscar forças nos lugares mais recônditos para

continuar tranquila. No momento, tenho um bom número de ferimentos

leves e músculos doloridos. Eu me sinto exaurida e seria capaz de matar

por um pouquinho de navegação tranquila, mas como não é isso o que

teremos, precisarei ser um pouco mais durona e encarar o que vier!

Ajuda muito saber que a Ella’s Pink Lady foi construída para aguentar

isso e contar com os ótimos boletins climáticos de Bob. Enquanto me

mantiver alimentada e descansada, não há motivos para não conseguir

encarar qualquer coisa. Além disso, por algum motivo, ajuda muito saber

que há um montão de gente pensando em mim. Obrigada, pessoal!

 

As coisas estavam bem difíceis àquela altura. Desde nossa chegada ao Cabo Leeuwin, havíamos sido açoitadas quase sem trégua por uma frente

após a outra, conforme a série traiçoeira de sistemas de baixa pressão

passava para o sul.

Quando chegou outro boletim de Bob prevendo mais uma ventania com velocidades de até 65 nós e ondas de 11 metros, não quei nada contente! Eu

já estava sobrecarregada e aquele pareceu ser o golpe nal. Se houvesse uma

opção fácil naquele momento, é provável que eu tivesse pego. Depois de

receber aquela previsão, passei meia hora me lamentando, derramando algumas lágrimas e sentindo pena de mim mesma. Eu só queria um abraço

ou alguém para me cuidar. Sentia saudades de casa e estava exausta do ar

úmido e salgado que envolvia todas as coisas. Depois de um tempo, comecei

a car meio incomodada, e então senti raiva do clima, mas principalmente da maneira como eu estava deixando aquilo tudo me afetar. Decidi que não

terminaria minha viagem triste. Eu só precisava endurecer um pouquinho

mais e lidar com a situação.

Há uma citação de Bethany Hamilton que adoro. Bethany era uma sur sta em ascensão que foi atacada por um tubarão-tigre de quatro metros,

durante uma folga em sua casa no Hawaii. Ela tinha catorze anos de idade.

Seu braço esquerdo foi arrancado logo abaixo do ombro, mas ela voltou à

água para surfar um mês depois. Hoje ela tem vinte anos e diz: “Coragem, sacrifício, determinação, comprometimento, dureza, coração, talento, colhões. É disso que as garotinhas são feitas; dane-se essa história de

doçura”.

Apliquei as palavras de Bethany às minhas ações. Eu ainda estava

assustada e exausta e sem dúvida escolheria uma opção mais fácil caso houvesse alguma, mas eu sabia que era mais durona do que qualquer coisa

que o Oceano Antártico pudesse pôr à minha frente. Eu só precisava seguir

em frente. Isso signi cava exigir o máximo da Ella’s Pink Lady para tentar

contornar o sul da Tasmânia antes que os piores sistemas de baixa pressão nos atingissem.

 

Segunda-feira, 3 de maio de 2010

 

O último cabo!

 

Boas notícias. A Ella’s Pink Lady e eu contornamos o Cabo do Sul da

Tasmânia e agora estamos seguindo para o norte na etapa final rumo a

Sydney! Passamos bem longe da costa, no escuro e sob condições que

não eram as ideais. Mas ainda assim fiquei muito contente.

Nunca esperei que contornar a Tasmânia seria muito emocionante,

mas todas as dificuldades da última semana fizeram o contorno do Cabo

dez vezes mais saboroso. (Dica de profissional: Pular para cima e para

baixo com ondas de 5 metros não é uma boa ideia. Ai!) Ainda não posso

baixar a guarda, mas é ótimo estar de volta a águas mais familiares.

Também estou emocionada por ir para o norte, em direção a

temperaturas mais altas outra vez. Tá, não é tão frio assim por aqui, só

estou a fim de reclamar. Mas quando se está trabalhando no convés com

um pouco de água nas mãos, bastam poucos minutos desse vento para

deixá-las dormentes.

Depois de toda a minha preocupação, dessa vez demos sorte e o

clima não ficou tão ruim quanto esperado. Tem ventado bastante nos

últimos dias, mas os ventos não ultrapassaram os 40 nós na noite

passada. O vento está acomodado em cerca de 25 nós nesse momento e

as ondas estão começando a diminuir de tamanho conforme passamos a

sota-vento da Tasmânia.

 

Terça-feira, 4 de maio de 2010

 

Dia de folga, ventos contrários e

 

o que fazer depois?

 

Ontem finalmente tive o dia que desejava há muito tempo: céu aberto,

ondas pequenas e ventos leves. Que novidade não precisar me segurar

por uma questão de sobrevivência 24 horas, sete dias por semana. Tá, é

um leve exagero, mas eu estava mesmo enfrentando perigos reais.

Para começar, tive o melhor sono em muito tempo e fui acordada na

metade da manhã por uma voz amigável no rádio VHF. Outro avião da

imigração estava passando para dizer “oi”. Passei o resto do dia sendo

muito preguiçosa em relação à navegação.

Em vez de trabalhar nisso, realizei tarefas sob o sol, lavei algumas

coisas e me dei alguns luxos com todos os produtos da Ella Baché. Não

estou dizendo isso só porque são meus patrocinadores. A Ella Baché de

fato tem produtos incríveis. Uma boa prova é que, após seis meses de

sal e vento, minha pele está melhor do que nunca! Recomendo muito os

protetores solares e os produtos para depois do sol que eles fazem.

Eu precisava muito desse dia de folga! Assim como depois de passar

pelo Cabo Horn, após virar o Cabo e deixar para trás Eddystone Rock

(uma ilha de 30 metros de altura e formato estranho que fica logo após o

Cabo do Sudeste), eu mal conseguia ficar de olhos abertos. Não dava

para baixar a guarda ali, então eu precisava recarregar minhas energias

depressa. Aquela área da Tasmânia é famosa entre os surfistas pelas

bancadas de coral secretas, onde são encontradas ondas gigantescas

que vêm do Oceano Antártico. Após os mares revoltos que vinham da

Grande Baía Australiana, a Ella’s Pink Lady e eu tivemos avanços

tranquilos o suficiente para cuidarmos um pouco de nós. Hoje o vento

voltou, mas incidindo direto na proa da Ella’s Pink Lady, então o

progresso não foi muito bom. Ainda assim, não tenho do que reclamar.

Sydney já parece muito perto desse lado da Tasmânia e estou bem

empolgada por estar chegando ao fim.

Mas também é um grande lembrete para eu aproveitar ao máximo os

meus últimos dias por aqui. Eu sempre disse que na metade da volta ao

redor do mundo já teria uma boa ideia do que fazer depois, mas estava

errada. Estou quase completando a volta e há um milhão de coisas que

mal posso esperar para fazer em seguida!

Tenho planos de todos os tipos (a maioria deles não deixa meu pai

muito contente), e há milhares de outros trajetos que quero navegar. Mas

acho que precisarei me readequar à vida na terra por uns tempos.

Concluir alguns dos projetos empolgantes que tenho planejados, como

terminar o meu livro e o documentário, tirar a carteira de motorista e

terminar a escola, serão mais do que suficiente para me manter ocupada.

Também estou desesperada para viajar um pouco. Sei que parece papo

de doido, mas me refiro a viagens onde você para nos lugares e conhece

pessoas!

Bom, chegou a hora do meu jantar. Teremos pernil de cordeiro da

Easyfood hoje à noite, então é melhor eu ir antes que esfrie.

 

Na maior parte do tempo que passei no mar, não pensei muito nos aspectos negativos do que estava rolando na Austrália. Mas por meus

amigos e minha família, quei sabendo de rumores, histórias e comentários

ridículos. Ri bastante ao escutar que andavam dizendo que eu não estava

sozinha no mar e havia sido escoltada pelo Big Wave Rider durante todo o caminho. Hilário!

Desde o início, as pessoas haviam dito que não era eu quem escrevia o

blog. Igualmente hilário, mas também um tanto incômodo, foi não

acreditarem que uma garota de dezesseis anos era capaz de escrever seu próprio blog e saber o que se passava em sua própria mente.

Também havia rumores de que eu parara na Tasmânia e estava

descansando por alguns dias em um hotel encantador. Bem que eu queria!

E, então, nas minhas últimas semanas no mar, surgiu um grande debate discutindo se eu havia percorrido milhas náuticas su cientes para alegar ter

circum-navegado o globo.

O artigo que começou tudo foi escrito por uma navegante muito

experiente, Nancy Knudsen, e apareceu pela primeira vez no site Sail-World. Basicamente, ela dizia que eu não tinha como tirar o recorde da WSSRC de

Jesse Martin como a pessoa mais nova a fazer uma navegação solitária,

ininterrupta e desassistida ao redor do mundo, e citou John Reed (o Secretário da WSSRC e o homem para quem escrevi em junho de 2009 para saber o que exatamente precisava fazer se quisesse desa ar o recorde o cial

da WSSRC de Jesse) dizendo que minha jornada “não é compatível com a

de nição de volta ao mundo e não pode ser comparada de modo algum ao

feito de Martin”.

Nancy Knudsen estava certa ao dizer que, no papel, eu (ou qualquer

pessoa) jamais poderia tirar o recorde da WSSRC de Jesse Martin, pois esse

recorde especí co já não existe. Foi muito estranho isso virar notícia tão

perto da minha chegada. O Sr. Reed havia me dito antes de minha partida que não havia por que navegar exatamente a mesma rota que Jesse, pois o

WSSRC já não reconhecia recordes de idade, e, portanto, não examinaria

minha viagem. Terry Hammon, um amigo e apoiador, havia me ajudado

com tudo isso em maio de 2009, e nós dois havíamos escrito para John Reed. Terry também havia escrito para Jean-Lous Fabry (o vice-presidente

da WSSRC) para con rmar se nosso entendimento das regras estava correto.

Ele chegou ao ponto de consultar qual das diferentes fórmulas de calcular as

distâncias do Grande Círculo a WSSRC utilizava. O Sr. Fabry respondeu que, para que seja reconhecida pela WSSRC, a distância ortodrômica

(Grande Círculo) de uma viagem deve ser superior a 21.600 milhas náuticas.

Após mais trocas de correspondências e a con rmação de que a WSSRC não

certi caria a viagem independentemente do que eu zesse porque tinha menos de dezoito anos, decidi navegar um percurso que satis zesse os

critérios normalmente aceitos para navegações solitárias, ininterruptas e

desassistidas ao redor do mundo.

Eu não entendia todo aquele alvoroço (não era uma notícia velha?) e quando a ABC News Online entrevistou John Reed ele disse: “não falei nada

disso me referindo a Watson”. Parece que eu não era a única pessoa que

estava confusa.

Eu não teria me importado com isso, pois para mim o objetivo da viagem jamais fora bater o recorde. Era uma meta pessoal e uma tentativa de provar

que qualquer pessoa é capaz de alcançar seus sonhos. Nada disso foi afetado

minimamente por algum pedaço de documento. Mas então o jogo começou

a car sujo. Eu não estava preocupada comigo, mas isso era um incômodo para todos lá em casa. As pessoas zeram comentários depreciativos sobre

Andrew Fraser e insinuaram que eu havia sido desonesta ao conversar com

alguns patrocinadores e também no meu site, pois havia dito que queria

quebrar o recorde de Jesse Martin e me tornar a pessoa mais jovem a navegar sozinha, desassistida e ininterruptamente ao redor do mundo. Era

verdade, não havia mais nenhuma reti cação o cial de recordes, mas se eu

atingisse meu objetivo, seria muito mais jovem do que Jesse Martin, David

Dicks, Mike Perham ou Zac Sunderland, e, portanto, me tornaria a pessoa mais jovem a circum-navegar o mundo. Aparentemente, a razão dos ataques

é que eu não havia navegado o su ciente. Ainda assim, quando comparo as

milhas que naveguei com as de Kay Cottee, os números são muito

semelhantes, e até um pouco maiores. Ainda assim, a WSSRC reconheceu alegremente a viagem dela como uma navegação solitária, desassistida e

ininterrupta ao redor do mundo.

Eu poderia ter deixado tudo isso se resolver e nem mencionar o caso

neste livro, mas desde que voltei li alguns dos artigos que estavam circulando na época, especialmente um do Sunday Age que citava Rob

Kothe, o editor da Sail-World, dizendo: “Não acreditamos que ela esteja

fazendo suas próprias decisões de relações públicas. Não acreditamos que

ela tenha decidido sua rota”. Houve insinuações de que eu não estava escrevendo as postagens do blog e o Sr. Kothe disse: “As pessoas acham que

estamos criticando Jessica. Não estamos. Estamos criticando seus gestores”.

Bem, ele estava me criticando e, ao meu ver, da pior maneira possível. Estava sugerindo que eu era apenas uma marionete sem voz ou vontade própria.

Da mesma maneira que você caria irritado se alguém atacasse sua

família, quei irritada por alguém criticar as pessoas que haviam trabalhado

ao meu lado com tanto a nco para tornar a viagem realidade. Cabe lembrar

que pessoas que admiro, como Ian Kiernan, Jesse Martin e John Bertrand nos defenderam, e os comentários no blog de diversas outras pessoas foram

incríveis.

 

Quinta-feira, 6 de maio de 2010

 

Saboreando cada segundo

 

No geral, não costumo me dirigir aos críticos porque alguém sempre

dirá alguma coisa, pouco importa o que eu diga ou faça. Mas achei que

valia dar algumas palavrinhas referentes às acusações de que não

naveguei “oficialmente” ao redor do mundo. Podem me chamar de

imatura, mas tenho rido um pouco disso tudo. Se não tenho navegado

ao redor do mundo, estou intrigada para saber o que andei fazendo esse

tempo todo! Sim, é uma pena que minha viagem não seja reconhecida

por algumas entidades porque tenho menos de dezoito anos, mas isso

não me preocupa muito. Quero dizer, tem milhões, e provavelmente

bilhões de pessoas que ainda não acreditam no aquecimento global,

então parece um ótimo negócio ter umas poucas pessoas indo contra a

corrente e declarando que minha circum-navegação não foi oficial. Bem,

acho que já perdi tempo mais do que suficiente com esse debate tosco –

então, sigamos em frente!

Tive um pouco de todos os fenômenos climáticos nos últimos dias.

Um pouco de sol, alguns ventos mais fortes e uma tempestade de raios

na noite passada que lançou um grande relâmpago na água não muito

longe da Ella’s Pink Lady. Também costurei para fazer reparos na vela

mestra. Mas afora isso, as feridas em minhas mãos e um probleminha

com o motor que ainda estou tentando resolver, não poderia estar mais

feliz. Estou me divertindo mais do que nunca ao andar pela costa, sem

apressar muito a Ella’s Pink Lady e ansiosa para chegar no dia 15. Estou

curtindo os aspectos positivos de navegar sozinha e dentro de uns

poucos dias poderei ficar ansiosa para ver meus amigos e minha família.

Acho que já posso dizer que estou muito empolgada com a ideia de

chegar em casa! Provavelmente é bom que eu esteja sozinha, pois se

houvesse mais alguém aqui eu estaria deixando-os loucos com minha

energia hiperativa!

 

Sábado, 8 de maio de 2010

 

Sol, um navio e problemas no motor

 

Tive muito sol nos últimos dias e hoje fiquei nas nuvens ao perceber

que a temperatura da cabine estava em 20 graus! Já fazia um tempo que

não tínhamos um dia quentinho. Mas nem tudo está indo tão bem

quanto o clima. O sistema de combustível do motor ainda está me dando

dores de cabeça, de modo que não consigo dar partida nele. Não é o fim

do mundo, mas quer dizer que preciso de cuidados extras ao usar

energia. Se eu não conseguir fazê-lo funcionar outra vez, Jesse e Mile

terão que remar a Ella’s Pink Lady até o porto após a linha de chegada.

Não, tô brincando, vamos dar um jeito. Seria muito bom entrar nas docas

por conta própria, então continuarei tentando.

Desde que desisti do sistema das sacolas de comida e passei a comer

minhas coisas preferidas um tempo atrás, comecei a ficar sem comidas

gostosas. Tive que começar a comer as coisas que geralmente deixo

para trás (eu sei, bem feito!), mas o lado positivo é que há tanta água

fresca que estou usando para lavar roupas. Afora isso, a privada também

decidiu se rebelar, o que é o mais chato de tudo. Tipo, não dava para

esperar só mais uma semaninha antes de se recusar a funcionar?

Na noite passada, o AIS detectou o primeiro navio que vi desde a

África, mas ele não chegou perto, e fiquei bem surpresa por não ter visto

nenhum outro.

Se você deu uma olhada no mapa da viagem ou conhece bem essas

águas, é provável que esteja se perguntando por que estou demorando

tanto para chegar a Sydney. Se eu estivesse com alguma pressa ou o

tempo estivesse ruim, de fato, poderia chegar antes do dia quinze. Mas

algum tempo atrás tomei a decisão junto à minha equipe de marcar o dia

quinze como data de chegada, para que eu não tivesse a pressão de

tentar chegar mais cedo. A razão para termos escolhido essa data em vez

de simplesmente deixarmos o vento carregar a Ella’s Pink Lady de

maneira aleatória foi que muitas pessoas precisavam agendar voos e

fazer preparativos.

Se minha data de chegada estimada mudasse mais uma vez, uma

porção de parentes ficaria incomodada! Pelo que ouvi, o planejamento

de minha chegada em Sydney está se mostrando bem complicado e

diversas autoridades estão envolvidas.

Se estivesse desesperada para chegar com a Ella’s Pink Lady, as

coisas seriam diferentes. Mas como o sol está brilhando outra vez, estou

bem empolgada, mas sem grande pressa de chegar em casa. Quero

deixar bem claro que não estou sofrendo nenhuma pressão de ninguém

em casa para chegar em uma data específica. Acreditem, sou bem mais

cabeça dura do que isso. Se quisesse apressar as coisas e chegar mais

cedo, faria isso!

 

Curti cada segundo daqueles últimos dias. Lembram de quando escrevi sobre “óculos de alegria”? Bem, naquela semana eu estava vendo tudo

através de “óculos iupi, estou chegando em casa!”. Isso soa muito pateta?!

Mas era bem assim que eu estava. Eu sentia como se estivesse sorrindo 24

horas, sete dias por semana, e quase explodia de ansiedade ao pensar que veria todo mundo em breve.

O cheiro constante de diesel decorrente do problema no motor e a dor de

cabeça que isso me provocava não foram su cientes para abalar meu bom

humor. Eu estava exausta após o trecho na Tasmânia, então quei contente quando nalmente marcamos a chegada a Sydney para o dia quinze. Isso

signi cava que eu poderia curtir cada último momento com a Ella’s Pink

Lady e saborear nossa fantástica navegação sem me preocupar em perder a

data de chegada caso algo desse errado. Sem mencionar que isso deu a todas as pessoas que haviam viajado comigo através do blog a chance de estar em

Sydney, caso desejassem. Eu sabia que algumas pessoas haviam comentado

no blog que gostariam de estar lá, mas ainda não tinha ideia de quantos

apareceriam mesmo no dia. Eu sabia que Jesse e Mike navegariam comigo depois que eu cruzasse a linha de chegada.

Segunda-feira, 10 de maio de 2010

 

Motor funcionando!

 

O pequeno motor Yanmar está de volta à atividade! Com um pouco

de delicadeza, mas está funcionando com a bomba de transferência de

água amarrada no lugar da bomba de combustível que parou de

funcionar. Está chacoalhando um tanto devido às porcas que não

encaixam direito, mas deve quebrar o galho. Afora a alegria de

finalmente conseguir consertar alguma coisa, fiquei bem aliviada, pois

praticamente não tivemos vento nos últimos dois dias, então as baterias

estavam mais descarregadas do que eu imaginava.

Obrigada a Jim, Iain e meu pai, pelas ideias, e a Bruce pelo

encorajamento (leia-se: ameaça!). Bruce sabia exatamente o que dizer

para me incitar a fazer o motor funcionar. Se há uma coisa que aprendi

aqui é que não há nada que não possa ser consertado com a dose certa

de perseverança, mesmo que isso implique desmontar outra parte do

barco no processo!

Além de gastar um bom tempo coberta de diesel enquanto tento

entender o motor, tenho curtido muito sol e feito um pouco de esforço

extra com as tarefas de casa/barco para que minha mãe não enfarte ao

ver a cabine. Na verdade, minha mãe não é assim, e a cabine nunca

esteve tão ruim (cof cof!).

Ontem, vi a primeira baleia azul da viagem (eu sei, também não

acredito). Fiquei um pouco assustada com as grandes quantidades de

água saltando ao nosso redor ontem à noite quando as ondas se

acalmaram. Deviam ser apenas alguns peixe-espadas, mas prefiro

imaginar que fosse algo mais legal, como um grande tubarão-branco

perseguindo seu jantar!

Ah, é claro, ontem foi dia das mães. Não pude levar o café na cama

para ela nem fazer um cartão, o que ela mereceria receber mil vezes,

então salvei um abraço a mais para quando chegar. O que minha mãe fez

ao autorizar minha viagem e me ajudar a chegar à linha de partida

enquanto tomava conta de meus irmãos é, aos meus olhos, mais difícil

do que qualquer coisa que enfrentei aqui. Obrigada, mãe!

O problema desse tempo lindo e das incríveis noites estreladas que

têm aparecido é que não tenho certeza se quero chegar ao fim da

viagem! Eu poderia continuar nisso para sempre. Um dia tranquilo após

o outro, fazendo as coisas no meu ritmo com poucos problemas e

desafios para me ocuparem. Exceto, é claro, pelo fato de que há muitas,

muitas coisas que estou ansiosa para fazer ao chegar em casa!

Em certo sentido, acho que entrar em Sydney Heads será tão duro

quanto foi sair de lá. Ouvi dizer que as coisas também mudarão muito

para mim, o que é um pouco assustador. Mas não estou preocupada: se

consigo encontrar motivos para rir quando estou rodeada de ondas

enormes no escuro após sofrer um jibe chinês, serei capaz de sorrir

diante de qualquer coisas que aparecer.

Ó, céus, estou ficando muito melosa e reflexiva. É melhor parar por

aqui.

Só mais cinco dormidas e quatro dias restando!

 

Quinta-feira, 13 de maio de 2010

Tão perto e do que sentirei saudades

 

As condições perfeitas terminaram no fim de terça-feira com

tempestades de raios e então um frio congelante trazido por ventos do

sul (brrr!). Ontem o vento estava muito forte, mas hoje reduziu para cerca

de 30 nós, propiciando ótimas condições para avançarmos suavemente

enquanto as ondas se tornavam mais altas por causa do encontro com a

corrente da costa leste. Passei o dia no convés assistindo nosso

progresso com um sorriso frio de orelha a orelha dormente (agora estou

pagando o preço por isso: estou com o rosto queimado de frio!).

Não consigo acreditar como essa semana passou rápido. Só mais

duas noites de sono até a linha de chegada! Já mencionei como estou

empolgada? É como a véspera de Natal, exceto pelo fato de que não

lembro de algum dia ter ficado tão empolgada com o Natal. Duas noites

de sono até um banho quente, comida fresca e... e... e... Todo o resto!

Sabe, acho que vai levar bem mais tempo até que caia a ficha de que

naveguei ao redor do mundo. É algo grande demais para entrar em

minha cabeça!

Em algum momento no Atlântico, lembro que escrevi sobre todas as

coisas de casa que me davam saudades. Então pensei em fazer uma lista

das coisas que sentirei falta daqui. A primeira é bem óbvia: acordar e

navegar o dia inteiro. Sentirei falta de estar fora do alcance de meu irmão

pentelho. Sentirei falta de fazer as coisas no meu ritmo e cantar a plenos

pulmões sem arrumar o quarto!

Sentirei falta da alegria que tenho ao superar desafios por conta

própria ou navegar em meio à escuridão. De um novo pôr-do-sol a cada

noite e do tempo que sempre reservo para assisti-lo. Sentirei falta de

assistir as ondas e o mar. Sei que faz quase sete meses, mas ainda não

me cansei.

Das cristas brancas e movediças quando há vento e do reflexo vítreo

quando não há. Sentirei falta de ver os albatrozes dando círculos ao

redor da Ella’s Pink Lady e dos dias de touca em que encontrar uma

escova de cabelo é trabalho demais!

Bruce, Suzanne e Mick estão no Big Wave Rider e me encontrarão em

algum momento de amanhã para navegar as últimas milhas ao lado da

Ella’s Pink Lady – mal posso esperar para vê-los!

Vejo vocês em breve!