Estilhaça-me
Capítulo 9
— Isso não era necessário, Roland. — A voz de Warner está saturada de falsa decepção. — Suponho que eu estivesse me fazendo a mesma pergunta em sua posição. — Uma pausa. — Juliette?
Consigo levantar a cabeça.
— Tenho uma proposta para você.
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Não tenho certeza se o ouço bem.
— Você tem algo que eu quero. — Warner ainda está me encarando.
— Não entendo — digo.
Ele respira fundo e levanta-se para andar, passo a passo, a extensão da sala. Adam ainda não foi dispensado.
— Você é para mim uma espécie de projeto de animal de estimação. — Warner sorri para si mesmo. — Estudei seus relatórios durante muito tempo.
Não suporto seu pavonear pomposo e convencido. Quero quebrar o sorriso da sua cara.
Warner para de andar.
— Quero você na minha equipe.
— O quê? — Um débil suspiro de surpresa.
— Estamos no meio de uma guerra — diz ele um pouco impaciente. — Talvez você possa botar as coisas no lugar.
— Eu não...
— Eu sei seu segredo, Juliette. Sei por que você está aqui. Sua vida inteira está documentada em registros hospitalares, queixas às autoridades, processos complicados, demandas públicas para botá-
la na prisão. — Sua pausa me dá tempo suficiente para asfixiar-me com o horror preso na minha garganta. — Estive considerando isso por muito tempo, mas quis ter certeza de que você não fosse realmente psicopata. O isolamento não era exatamente um bom indicador, apesar de você ter-se virado muito bem. — Ele expressa um sorriso que diz que eu deveria ser grata por seu elogio. — Enviei Adam para ficar com você como uma precaução final. Queria ter certeza de que você não era volúvel, de que você era capaz de estabelecer interações e comunicações humanas básicas. Devo dizer que estou bastante satisfeito com os resultados.
Alguém está arrancando minha pele.
— Adam, pelo que parece, desempenhou seu papel de maneira excelente. Ele é um bom soldado.
Um dos melhores, na verdade. — Warner poupa-lhe um olhar antes de sorrir para mim. — Mas não se preocupe, ele não sabe do que você é capaz. Pelo menos não até agora.
Rasgo-me no pânico, engulo a agonia, imploro a mim mesma para que não olhe em sua direção, mas falho eu falho eu falho. Adam encontra meus olhos na mesma fração de segundo em que encontro com os seus, mas ele desvia tão rapidamente que não tenho certeza se isso foi minha imaginação.
Sou um monstro.
— Não sou tão cruel quanto você pensa — continua Warner, uma cadência musical em sua voz. — Se você está tão afeiçoada à companhia dele, posso fazer disso — ele gesticula entre mim e Adam — uma designação permanente.
— Não — perco o fôlego.
Warner enverga os lábios em um sorriso negligente.
— Ah, sim. Mas seja cuidadosa, lindinha. Se você fizer algo... ruim... ele terá de atirar em você.
Há cortadores de arame talhando-me buracos no coração. Adam não reage a nada do que Warner diz.
Ele está fazendo um trabalho.
Eu sou um número, uma missão, um objeto facilmente substituível. Não sou sequer uma lembrança em sua mente.
Não sou nada.
Não esperava que sua traição me enterrasse tão profundamente.
— Se aceitar minha oferta — Warner interrompe meus pensamentos —, você viverá como eu vivo. Você será uma de nós, e não um deles. Sua vida mudará para sempre.
— E se eu não aceitar? — pergunto, recolhendo minha voz antes de ela rachar no medo.
Warner parece sinceramente desapontado. Suas mãos estão entrelaçadas em desalento.
— Na verdade você não tem escolha. Se ficar ao meu lado, você será recompensada. — Ele aperta os lábios. — Mas se você escolher desobedecer? Bem... acho que você se mostra particularmente adorável com todas as partes do corpo intactas, não é?
Minha respiração é tão pesada que meu corpo está tremendo.
— Você me quer para que torture pessoas para você?
Seu rosto abre um sorriso brilhante.
— Seria maravilhoso.
O mundo está sangrando.
Não tenho tempo de formular uma resposta antes de ele se voltar a Adam.
— Mostre-lhe o que ela está perdendo, está bem?
Adam responde com um batimento de atraso.
— Senhor?
— Isso é uma ordem, soldado. — Os olhos de Warner estão voltados para mim, seus lábios contorcendo-se em contido divertimento. — Gostaria de dar uma “quebrada” nela. Ela é um pouco irritante demais e isso já é um perigo para si mesma.
— Você não pode me tocar — cuspo com os dentes cerrados.
— Errada — diz ele em ritmo monótono. Ele joga para Adam um par de luvas pretas. — Você vai precisar dessas — diz ele em um sussurro conspiratório.
— Você é um monstro. — Minha voz é demasiado precisa; meu corpo cheio de repentina fúria. — Por que você simplesmente não me mata?
— Isso, minha querida, seria um desperdício. — Ele avança e eu percebo que suas mãos estão cuidadosamente revestidas de luvas de couro branco. Ele inclina meu queixo para cima com um dedo. — Além disso, seria uma pena perder um rosto tão bonito.
Tento desvencilhar meu rosto dele, mas a mesma bota com biqueira de aço dá um pontapé na minha coluna e Warner pega meu rosto em suas garras. Contenho um grito.
— Não lute, amor. Você apenas tornará as coisas mais difíceis para si mesma.
— Espero que você apodreça no inferno.
Warner flexiona sua mandíbula. Ele levanta a mão para impedir que alguém atire em mim, chute-me no baço, rache meu crânio, não faço ideia.
— Você luta para o time errado. — Ele se levanta ereto. — Mas podemos mudar isso. Adam — chama ele — não tire os olhos dela. Ela agora é sua responsabilidade.
— Sim, senhor.