Estilhaça-me

Tahereh Mafi · Capítulo 50 de 51

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Estilhaça-me

Capítulo 50

— Sim.

— Por favor.

Duas fortes batidas mandam nos afastar.

Kenji abre fortemente a porta.

— Vocês notaram que esta parede é feita de vidro, não? — Ele parece que mordeu a cabeça de um verme. — Ninguém quer ver isso.

Ele joga um par de calças para Adam.

Acena para mim.

— Vamos, vou levá-la para Sonya e Sara. Elas vão prepará-la para esta noite. — Vira-se para Adam. — E nunca me devolva essas calças.

— O que acontece se eu não quiser dormir? — pergunta Adam, descarado. — Não tenho permissão para deixar meu quarto?

Kenji aperta os lábios. Encolhe os olhos.

— Eu não uso estas palavras com frequência, Kent, mas, por favor, não tente nenhuma porra de fuga secreta mirabolante. As coisas são reguladas aqui por uma razão. É o único modo de sobreviver.

Portanto, faça um favor a todos e mantenha as calças no lugar. Você vai vê-la pela manhã.

Mas a manhã parece ser daqui a milhões de anos.

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50

As gêmeas ainda estão dormindo quando alguém bate. Sonya e Sara me mostraram onde ficam os banheiros femininos, assim tive a oportunidade de tomar um banho ontem à noite, mas ainda estou vestindo as roupas extragrandes de Kenji. Sinto-me um pouco ridícula ao andar em direção à porta.

Abro-a.

Pisco.

— Oi, Winston.

Ele me olha de cima a baixo.

— Castle achou que você fosse gostar de trocar essas roupas.

— Você tem algo para eu vestir?

— Sim... lembra? Fizemos para você algo sob medida.

— Ah. Puxa. Sim, parece ótimo.

Saio silenciosamente, acompanhando Winston pelos corredores escuros. O mundo subterrâneo é silencioso, seus habitantes ainda dormem. Pergunto a Winston por que estamos de pé tão cedo.

— Imaginei que você quisesse conhecer todo mundo no café da manhã. Deste modo você pode entrar na rotina regular das coisas por aqui... até iniciar seu treinamento. — Ele olha para trás. — Todos nós temos de aprender a utilizar nossas habilidades da maneira mais eficaz possível. Não é bom não ter controle sobre o seu corpo.

— Espera... você também tem uma habilidade?

— Há exatamente 56 de nós que têm. O restante são nossos familiares, filhos ou amigos próximos que ajudam com tudo o mais. Então, sim, sou um desses 56. Assim como você.

Estou quase pisando em seus pés em um esforço para acompanhar suas longas pernas.

— Então, o que você pode fazer?

Ele não responde. E eu não posso ter certeza, mas ele está corando.

— Desculpe-me... — retrato-me. — Não pretendia me intrometer... não devia ter perguntado...

— Está tudo bem — ele me corta. — Só acho meio estúpido. — Ele ri uma risada breve, dura. — De todas as coisas que eu deveria ser capaz de fazer — ele suspira —, pelo menos você pode fazer algo interessante.

Eu paro de andar, atordoada. Horrorizada.

— Você acha que isso é uma competição? Para ver qual truque de mágica é mais excêntrico? Para ver quem pode infligir mais dor?

— Não foi isso que eu quis dizer...

— Não acho que seja interessante ser capaz de matar alguém por acidente. Não acho que seja interessante ter medo de tocar uma coisa viva.

Ele fica tenso.

— Não queria dizer isso desse jeito. Eu só... gostaria de ser mais útil. Isso é tudo.

Cruzo os braços.

— Você não tem que me contar se não quiser.

Ele revira os olhos. Passa uma mão pelo cabelo.

— Eu só... sou muito... flexível — diz ele.

Levo um momento para processar sua confissão.

— Tipo... você consegue se entrelaçar todo?

— Claro. Ou me esticar se for preciso.

Deve ser constrangedora a cara de idiota que estou fazendo.

— Posso ver?

Ele morde o lábio. Reajusta os óculos. Olha para os dois lados do corredor vazio. E enlaça um braço pela cintura. Dando duas voltas.

Estou tão boquiaberta quanto um peixe morto.

— Uau!

— Isso é estúpido — resmunga. — E inútil.

— Você está louco? — Inclino-me para trás para olhar para ele. — Isso é inacreditável.

Mas seu braço já voltou ao normal e ele está caminhando novamente. Tenho de correr para alcançá-lo.

— Não seja tão duro consigo mesmo — tento dizer a ele. — Não há nada do que se envergonhar.

— Mas ele não está ouvindo e eu estou me perguntando quando foi que me tornei uma palestrante motivacional. Quando deixei de odiar a mim mesma e passei a me aceitar. Quando ficou tudo bem para mim a escolha de minha própria vida.

Winston me leva para o quarto onde o conheci. As mesmas paredes brancas. A mesma cama pequena. Só que, desta vez, Adam e Kenji estão lá dentro esperando. Meu coração dispara e estou subitamente nervosa.

Adam está de pé. Ele não se apoia em nada e parece perfeito. Belo. Incólume. Ele avança apenas com um ligeiro desconforto, sorri para mim sem dificuldade. Sua pele está um pouco mais pálida que o normal, mas positivamente radiante se comparada à sua tez na noite em que chegamos e mais radiante que ontem à noite. Seu bronzeado natural confere a um par de olhos azuis um matiz do céu da meia-noite.

— Juliette — diz ele.

Não consigo parar de fitá-lo. Admirá-lo. Maravilhada pela incrível sensação de saber que ele está bem.

— Ei — consigo sorrir.

— Bom dia para você também — intromete-se Kenji.

Fico surpresa. Estou mais corada que o pôr do sol de verão, e me encolhendo o mais rapidamente.

— Ah, oi. — Aceno uma mão frouxa em sua direção.

Ele bufa.

— Tudo bem. Vamos acabar com isso, então? — Winston caminha até uma das paredes, que se revela um armário no qual há uma explosão de cores. Ele a retira do cabide.

— Posso, é, ter um momento a sós com ela?

Winston tira os óculos. Esfrega os olhos.

— Preciso seguir o protocolo. Tenho de explicar tudo...

— Eu sei... está bem... você pode fazer isso depois. — Adam diz. — Só preciso de um minuto, prometo. Não tive a oportunidade de conversar com ela desde que chegamos aqui.

Winston franze as sobrancelhas. Olha para mim. Olha para Adam. Suspira.

— Tudo bem. Mas voltaremos. Tenho que me certificar de que tudo serviu e tenho que verificar o...

— Perfeito. Parece ótimo. Obrigado, cara... — e ele o está empurrando porta afora.

— Espere! — Winston abre novamente a porta. — Pelo menos pegue o traje para ela vestir enquanto aguardamos.

Adam olha para o tecido na mão estendida de Winston, que coça a testa e resmunga algo sobre pessoas que sempre desperdiçam o tempo dele, e Adam reprime um sorriso. Olha para mim. Encolho os ombros.

— OK — diz ele, apanhando o traje. — Mas agora vocês têm que sair... — E empurra os dois de volta para o corredor.

— Vamos ficar bem aqui fora! — grita Kenji. — A cinco segundos de distância...

Adam fecha a porta atrás deles. Vira-se. Seus olhos estão ardentes em mim.

Não sei como acalmar meu coração. Tento falar e falho.

Ele encontra sua voz primeiro.

— Ainda não lhe falei obrigado por ter salvado minha vida. — diz ele.

Baixo os olhos. Finjo que o calor não está subindo pelo meu rosto. Eu me belisco sem nenhum motivo.

Ele avança. Inclina-se. Pega minhas mãos.

— Estou tão feliz que você esteja bem — é tudo o que consigo dizer.

Ele está olhando para os meus lábios e eu estou por toda parte me doendo de desejo. Se ele me beijar neste momento, não sei se o deixarei parar. Ele respira bruscamente. Parece lembrar que está segurando algo.

— Ah. Talvez você devesse vestir isto. — Ele me entrega uma peça colante de alguma coisa roxa.

Parece minúscula. Como um macacão que pudesse servir em uma criança pequena. Ela pesa menos que nada.

Ofereço a Adam um olhar vazio.

Ele sorri.

— Prove.

Olho de forma diferente.

— Ah. — Ele recua, um pouco acanhado. — Certo... vou só... ficar de costas...

Espero até que suas costas estejam viradas para mim antes de expirar. Olho em volta. Parece não haver qualquer espelho neste quarto. Tiro a roupa extragrande. Deixo cair cada peça no chão. Estou aqui de pé, nua, e por um momento fico apavorada demais para me mover. Mas Adam não se vira.

Ele não diz uma palavra. Examino o tecido roxo reluzente. Imagino que ele deva esticar.

Ele estica.

Na realidade, é inesperadamente fácil vesti-lo... como se ele fosse desenhado para o meu corpo.

Há um forro embutido onde deviam estar as roupas íntimas, suporte extra para o meu peito, um colarinho que vai até meu pescoço, mangas que tocam meus pulsos, pernas que tocam meus tornozelos, um zíper que liga tudo. Examino o tecido ultrafino. Parece que não estou vestindo nada. É

do mais vivo tom de roxo; justo, mas de modo nenhum apertado. Ele permite respirar, e é extraordinariamente confortável.

— E que tal...? — pergunta Adam. Ele soa nervoso.

— Pode me ajudar a subir o zíper?

Ele se vira. Seus lábios se apartam, vacilam, formam um sorriso inacreditável. Suas sobrancelhas estão tocando o teto. Estou ruborizando tanto que nem mesmo sei para onde olhar. Ele avança e eu me viro, ansiosa por esconder meu rosto. Adam toca meu cabelo e eu percebo que ele está quase me tomando as costas todas. Talvez seja a hora de cortá-lo.

Seus dedos são tão cuidadosos. Ele tira as ondas de cabelo sobre meus ombros de modo que elas não se enganchem no zíper. Traça a linha da base de meu pescoço até o início da costura, que desce até a região lombar. Mal consigo me manter ereta. Minha espinha está conduzindo eletricidade suficiente para iluminar uma cidade. Ele leva um tempo subindo o zíper. Desce as mãos pela extensão de minha silhueta.

— Céus, você está incrível — é a primeira coisa que ele diz para mim.

Volto-me. Ele está apertando a mão junto à boca, tentando esconder o sorriso, tentando impedir que as palavras caiam de seus lábios.

Toco o tecido. Decido que devo dizer alguma coisa.

— É muito... confortável.

— Sexy.

Levanto os olhos.

Ele está sacudindo a cabeça.

— É sexy pra cacete!

— Pareço uma ginasta — murmuro.

— Não — sussurra ele, quente quente quente contra os meus lábios. — Você parece um super-herói.