Estilhaça-me
Capítulo 46
— Sim, é claro. — Ele fica de pé. — Siga-me.
Este lugar é muito mais complexo, muito mais organizado do que jamais imaginei que fosse. Há centenas de direções diferentes nas quais se perder, quase como muitas das salas, algumas maiores que outras, cada uma dedicada a diferentes atividades.
— A sala de jantar. — Castle diz para mim.
— Os dormitórios. — Na ala oposta.
— As instalações de treinamento. — Descendo um corredor.
— As salas comuns. — Por aqui.
— Os banheiros. — Em cada extremidade do andar.
— As salas de reunião. — Só passar aquela porta.
Cada espaço é um “zum-zum” de corpos, cada corpo adaptado a uma rotina particular. As pessoas levantam os olhos quando nos veem. Algumas acenam, sorriem, alegram-se. Percebo que todas olham para Castle. Ele acena com a cabeça. Seus olhos são bondosos, humildes. Seu sorriso é forte, tranquilizador.
Ele é o líder de todo esse movimento, foi o que Kenji disse. Estas pessoas dependem dele por algo mais que mera sobrevivência. Isto é mais que um abrigo nuclear. Isto é muito mais que um esconderijo. Existe um objetivo maior em mente. Um propósito maior.
— Bem-vinda — diz Castle para mim, gesticulando com uma mão — ao Ponto Ômega.
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— Ponto Ômega?
— A última letra do alfabeto grego. O desenvolvimento final, o último de uma série. — Ele para na minha frente e, pela primeira vez, reparo no símbolo ômega costurado na parte de trás do casaco.
— Somos a única esperança que restou de nossa civilização.
— Mas agora... com número tão reduzido... como você pode esperar competir...
— Há muito tempo estamos arquitetando, Juliette. — Foi a primeira vez em que ele disse meu nome. Sua voz é forte, tranquila, firme. — Estamos planejando, organizando, delineando nossas estratégias há muitos anos. O colapso da sociedade humana não deve vir como uma surpresa. Nós o causamos a nós mesmos.
— A questão não era se as coisas iriam desmoronar — continua ele. — Apenas quando. Era um jogo de espera. Uma questão de quem tentaria tomar o poder e como eles tentariam usá-lo. O medo — diz ele para mim, voltando-se por um momento, seus passos silenciosos contra a pedra — é um grande motivador.
— Isso é patético.
— Concordo. É por isso que parte do meu trabalho é reavivar os corações que perderam toda a esperança. —Viramos em outro corredor. — E lhe dizer que quase tudo o que você aprendeu sobre o estado de nosso mundo é uma mentira.
Paro no lugar. Quase caio.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que as coisas não estão tão ruins quanto O Restabelecimento quer que pensemos que estão.
— Mas não há comida...
— Às quais eles permitam o seu acesso.
— Os animais...
— São mantidos em segredo. Geneticamente modificados. Criados em pastagens secretas.
— Mas o ar... as estações... o tempo...
— Não está tão ruim quanto querem nos fazer crer. Provavelmente é o nosso único verdadeiro problema... mais um causado pelas manipulações irracionais da mãe natureza. Manipulações promovidas pelo homem e que ainda podemos corrigir. — Ele se vira para me encarar. Concentra-se em minha mente com um olhar firme.
— Ainda há uma chance para mudar as coisas. Podemos fornecer água potável e fresca para todas as pessoas. Podemos garantir que as colheitas não sejam regulamentadas para o lucro. Podemos assegurar que elas não sejam geneticamente alteradas para beneficiar fabricantes. Nosso povo está morrendo porque o estamos alimentando com veneno. Animais estão morrendo porque os estamos obrigando a comer sobras, forçando-os a viver na sua própria imundície, aprisionando-os juntos e abusando deles. As plantas estão murchando porque estamos atirando produtos químicos na terra, produtos que as tornam perigosas a nossa saúde. Mas estas são coisas que podemos corrigir. Somos alimentados de mentiras porque acreditar nelas nos torna fracos, vulneráveis, maleáveis.
Dependemos de outros para nossa alimentação, saúde, sustento. Isso nos enfraquece. Cria covardes de nosso povo. Escravos. É hora de revidarmos. — Seus olhos estão brilhantes de sentimento, suas mãos fechadas demonstram fervor. Suas palavras são poderosas, cheias de convicção, articuladas e expressivas. Não tenho dúvidas de que ele influenciou muitas pessoas com esses pensamentos fantasiosos. Esperança de um futuro que parece perdido. Inspiração em um mundo sombrio, sem nada a oferecer. Ele é um líder natural. Um orador talentoso.
Tenho dificuldade de acreditar nele.
— Como você sabe com certeza que suas teorias estão corretas? Tem provas?
Suas mãos relaxam. Seus olhos se aquietam. Seus lábios formam um pequeno sorriso.
— É claro. — Ele quase ri.
— Por que é tão engraçado?
Ele sacode a cabeça. Só um pouco.
— Estou entretido com seu ceticismo. Na verdade, admiro isso. Nunca é uma boa ideia acreditar em tudo que se escuta.
Pego seu duplo sentido. Reconheço-o.
— Touché, senhor Castle.
Uma pausa.
— Você é francesa, senhorita Ferrars?
Minha mãe, talvez. Desvio o olhar.
— Então, onde estão as provas?
— Este movimento inteiro é prova o bastante. Sobrevivemos por causa destas verdades.
Procuramos comida e suprimentos em vários depósitos que O Restabelecimento construiu.
Encontramos seus campos, suas fazendas, seus animais. Eles têm centenas de hectares dedicados a colheitas. Os agricultores são escravos, trabalhando sob a ameaça da morte deles ou de seus familiares. O restante da sociedade ou é morto ou encurralado em setores, que são seccionados para ser monitorados, cuidadosamente inspecionados.
Mantenho meu rosto sem interesse, liso, neutro. Ainda não me decidi se acredito ou não nele.
— E para que você precisa de mim? Por que se importa que eu esteja aqui?
Ele para diante de uma parede de vidro. Aponta para a sala do outro lado. Não responde à minha pergunta.
— Seu Adam está se curando por causa de nosso povo.
Quase tropeço na pressa de vê-lo. Pressiono minhas mãos contra o vidro e espreito o espaço vivamente iluminado. Adam está dormindo, seu rosto perfeito, sereno. Esta deve ser a ala médica.
— Olhe mais de perto — diz Castle para mim. — Não há agulhas presas ao seu corpo. Não há máquinas mantendo-o vivo. Ele chegou com três costelas quebradas. Pulmões perto do colapso. Uma bala na coxa. Seus rins estavam machucados, bem como o restante de seu corpo. Pele rachada, pulsos sangrando. Uma torção de tornozelo. Ele tinha perdido mais sangue que a maioria dos hospitais seria capaz de repor.
Meu coração está prestes a sair de meu corpo. Quero quebrar o vidro e deitá-lo em meus braços.
— Há perto de duzentas pessoas no Ponto Ômega — diz Castle. — Quase metade delas tem algum tipo de dom.
Viro-me, atordoada.
— Eu trouxe você aqui — diz ele cuidadosamente, calmamente para mim — porque este é o lugar a que você pertence. Porque você precisa saber que não está sozinha.