Estilhaça-me

Tahereh Mafi · Capítulo 25 de 51

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Estilhaça-me

Capítulo 25

— Se você não o salvar — as palavras de Warner crepitam pela sala —, nós também não vamos.

Esta criança.

Ele deve ter uma mãe um pai alguém que o ama esta criança esta criança esta criança cambaleando avante no terror. Ele poderia ser atravessado por uma estalactite de metal a qualquer segundo.

Salvá-lo é simples: preciso pegá-lo, encontrar um lugar seguro no chão e segurá-lo em meus braços até que o experimento esteja acabado.

Só existe um problema.

Se eu tocar nele, ele pode morrer.

 

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Warner sabe que eu não tenho escolha. Ele quer me forçar a outra situação em que possa ver o impacto de minhas habilidades, e ele não se importa de torturar uma criança inocente para conseguir exatamente o que quer.

Neste momento eu não tenho opção.

Tenho de arriscar, antes que este garotinho avance na direção errada.

Rapidamente memorizo o tanto quanto consigo das armadilhas e desvio/salto/por pouco escapo dos pregos, até que estou o mais perto possível.

Respiro fundo, vacilante, e concentro-me nos membros trêmulos do menino na minha frente e peço a Deus para estar tomando a decisão certa. Estou prestes a tirar minha blusa para usá-la como barreira entre nós, quando percebo a leve vibração no chão. O tremor que precede o terror. Sei que tenho metade de um segundo antes de os pregos cortarem o ar e ainda menos tempo para reagir.

Puxo-o para os meus braços.

Seus gritos penetram-me como se eu estivesse sendo morta a tiros, uma bala a cada segundo. Ele está arranhando meus braços, meu peito, chutando meu corpo tão forte quanto pode, gritando de agonia, até que a dor o paralisa. Ele fica fraco em meus braços e eu estou sendo rasgada em pedaços, meus olhos, meus ossos, minhas veias, tudo saindo do lugar, tudo se virando contra mim para me torturar com memórias de horrores pelos quais sou responsável.

Dor e poder estão vazando através de seu corpo para o meu, produzindo um abalo tão intenso ao atravessar seus membros e ir de encontro a mim que quase o derrubo. É como reviver um pesadelo que passei três anos tentando esquecer.

— Absolutamente incrível — suspira Warner pelos alto-falantes, e eu percebo que ele estava certo. Ele deve estar assistindo a tudo através de um espelho bilateral. — Brilhante, amor. Estou completamente impressionado.

Estou desesperada demais para me concentrar em Warner neste momento. Não faço ideia de quanto tempo este jogo doentio vai durar, e eu preciso diminuir a quantidade de pele a que estou expondo o corpo deste garotinho.

Meus trajes minúsculos fazem muito sentido agora.

Reacomodo-o em meus braços e consigo agarrar a sua fralda. Estou sustentando-o com a palma de minha mão. Estou desesperada por acreditar que eu não pude tê-lo tocado tempo suficiente para causar-lhe lesões graves.

Ele soluça uma vez; seu corpo vibra de volta à vida.

Poderia chorar de felicidade.

Mas então os gritos recomeçam, não mais gritos de tortura, mas de medo. Ele está desesperado por escapar de mim e eu estou perdendo a força nos braços, meu pulso quase se quebrando por causa do esforço. Não me arrisco em remover sua venda. Prefiro morrer a permitir que ele veja este espaço, que ele veja meu rosto.

Aperto meu maxilar tão rápido que temo quebrar meus dentes. Se eu colocá-lo no chão, ele começará a correr. E, se começar a correr, ele está acabado. Tenho de continuar segurando-o.

O ronco de uma máquina velha ressuscita meu coração. Os pregos ressurgem no chão, um a um, até que todos desaparecem. É tão depressa que a sala volta a ser inofensiva que temo que possa ter imaginado o perigo. Solto o menino de volta ao chão e mordo o lábio para absorver a dor brotando em meu pulso.

A criança começa a correr e acidentalmente esbarra em minhas pernas desnudas.

Ele grita e treme e cai no chão, encolhido, soluçando, até que eu considero a ideia de me destruir, de me livrar deste mundo. As lágrimas estão escorrendo rápido pelo meu rosto e eu quero estender-lhe a mão e ajudá-lo, abraçá-lo, beijar suas lindas bochechas e dizer-lhe que cuidarei dele para sempre, que fugiremos juntos, que brincarei com ele e lerei histórias à noite e eu sei que não posso.

Sei que nunca poderei. Sei que isso nunca será possível.

E de repente o mundo fica de fora.

Sou dominada por uma raiva, uma força, uma fúria tão potente que quase me elevo do chão. Estou fervendo de ódio cego e náusea. Nem mesmo entendo como meus pés se movem no instante seguinte.

Não entendo minhas mãos e o que elas estão fazendo ou como elas decidiram lançar-se para a frente, dedos afastados, investindo rumo à janela. Só sei que quero sentir o pescoço de Warner quebrar entre as minhas duas mãos. Quero que ele experimente o mesmo terror que ele acabou de infligir a uma criança. Quero vê-lo morrer. Quero vê-lo implorar por misericórdia.

Lanço-me às paredes de concreto.

Quebro o vidro com dez dedos.

Estou segurando um punhado de cascalhos e um punhado de pano no pescoço de Warner e há cinquenta armas diferentes apontadas para minha cabeça. O ar é pesado de cimento e enxofre, o vidro ruindo em uma sinfonia agonizante de corações estilhaçados.

Bato Warner contra a pedra corroída.

— Não ousem atirar nela — diz Warner para os guardas, bufando. Ainda não toquei em sua pele, mas tenho a mais forte suspeita de que poderia esmagar seu coração na caixa torácica se eu apenas apertasse um pouco mais forte.

— Devia matá-lo. — Minha voz é um sopro profundo, uma exalação descontrolada.

— Você... — Ele tenta engolir. — Você acabou... você acabou de quebrar o concreto usando apenas as mãos.

Pisco. Não me atrevo a olhar atrás de mim. Mas eu sei, sem olhar para trás, que ele não pode estar mentindo. Devo ter quebrado. Minha mente é um labirinto de possibilidades.

Perco o foco por um instante.

As armas

clicam

clicam

clicam

Cada instante está carregado.

— Se algum de vocês feri-la, eu mesmo trato de atirar em vocês — brada Warner.

— Mas, senhor...

— Relaxe, soldado...

A raiva se foi. A súbita fúria incontrolável se foi. Minha mente já se rendeu à descrença.

Confusão. Não sei o que eu fiz. Obviamente não sei do que sou capaz, pois não fazia ideia de que modo poderia destruir qualquer coisa e, de repente, estou tão apavorada tão apavorada tão apavorada com as minhas duas mãos. Cambaleio para trás, estupefata, e surpreendo Warner observando-me faminto, ávido, seus olhos de esmeralda com o brilho da fascinação infantil. Ele está praticamente tremendo de excitação.