Estilhaça-me

Tahereh Mafi · Capítulo 23 de 51

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Estilhaça-me

Capítulo 23

— Sim, senhor.

A linha fica em silêncio.

Adam desaba contra a parede, seu peito arfando. Não tenho certeza, mas poderia jurar que seus lábios se contorciam no menor dos sorrisos. Ele fecha os olhos e expira.

Não tenho certeza do que fazer com o alívio caindo em minhas mãos.

— Venha cá — diz ele, seus olhos ainda fechados.

Avanço na ponta dos pés e ele me puxa para seus braços. Inala o perfume de meus cabelos e beija minha cabeça. Nunca senti algo tão incrível na minha vida. Nem mais sou humana. Sou muito mais. O

Sol e a Lua fundiram-se e a Terra virou de cabeça para baixo. Sinto que posso ser exatamente quem eu quero ser em seus braços.

Ele me faz esquecer o terror de que sou capaz.

— Juliette — sussurra em meu ouvido. — Precisamos dar o fora daqui.

 

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23

Tenho novamente 14 anos e estou fitando sua nuca em uma pequena sala de aula. Tenho 14 anos de idade e há anos sou apaixonada por Adam Kent. Tento ser ainda mais cuidadosa, de ser ainda mais calada, de ser ainda mais prestativa, pois não queria me mudar novamente. Não queria deixar a escola com o único rosto amigável que já conheci. Eu o vi crescer um pouco a cada dia, ficar maior a cada dia, um pouco mais forte, um pouco mais rígido, um pouco mais calado a cada dia. Ele, no final das contas, ficou grande demais para ser espancado por seu pai, mas ninguém realmente sabia o que acontecera com sua mãe. Os alunos o evitavam, o molestavam, até que ele começou a não deixar por menos, até a pressão do mundo finalmente o enlouquecer.

Mas seus olhos sempre permaneceram os mesmos.

Sempre os mesmos quando ele olhava para mim. Bondosos. Compassivos. Desesperados por compreensão. Mas ele nunca fazia perguntas. Ele nunca me puxou para dizer uma palavra. Ele apenas se certificava de que estava próximo o bastante para espantar todo mundo.

Eu pensava que talvez não fosse tão má. Talvez.

Eu pensava que talvez ele visse algo em mim. Eu pensava que talvez eu não fosse tão horrível quanto todo mundo dizia que eu era. Fazia anos que eu não tocava em ninguém. Não me atrevia a aproximar-me das pessoas. Não poderia arriscar.

Até que um dia me aproximei e arruinei tudo.

Matei um garotinho em um supermercado simplesmente por ajudá-lo a ficar de pé. Por agarrar suas mãozinhas. Não entendia por que ele estava chorando. Era minha primeira experiência em tocar alguém por um período tão longo e eu não entendia o que estava acontecendo comigo. As poucas vezes em que acidentalmente colocara as mãos em alguém eu sempre me afastara. Afastava-me quando me lembrava de que eu não deveria tocar qualquer um. Assim que escutava o primeiro grito escapar de seus lábios.

O garotinho foi diferente.

Queria ajudá-lo. Senti um surto repentino de raiva por sua mãe negligenciar seus gritos. Sua falta de compaixão como mãe me devastou e isso me fez recordar demais minha própria mãe. Só queria ajudá-lo. Queria que ele soubesse que alguém estava ouvindo... que alguém se importava. Não entendia por que era tão estranho e estimulante tocá-lo. Não sabia que eu estava drenando sua vida e não poderia compreender por que ele se tornara mole e calado em meus braços. Pensei que a carga de poder e o sentimento positivo talvez significassem que eu tivesse sido curada da minha horrível doença. Pensei tantas coisas estúpidas e arruinei tudo.

Pensei que estava ajudando.

Passei os três anos seguintes de minha vida em hospitais, escritórios de advocacia, centros de detenção juvenil e sofri com comprimidos e terapia de eletrochoque. Nada funcionava. Nada ajudava. Fora me matar, trancafiar-me em uma instituição era a única solução. O único jeito de proteger o povo do terror de Juliette.

Até entrar na minha cela, fazia três anos que não via Adam Kent.

E ele parece diferente. Mais rígido, maior, mais vigoroso, mais astuto, tatuado. Ele é musculoso, maduro, sereno e rápido. É quase como se ele não pudesse se permitir ser frágil ou vagaroso ou descontraído. Como se não pudesse ser qualquer coisa senão musculoso, qualquer coisa senão força e eficiência. As linhas de seu rosto são suaves, precisas, esculpidas por anos de vida dura e treinamento e na tentativa de sobreviver.

Ele não é mais um menino. Ele não está com medo. Ele está no exército.

Mas ele também não está tão diferente. Ele ainda tem os olhos mais extraordinariamente azuis que já vi. Sombrios e profundos e saturados de paixão. Sempre me perguntava como seria ver o mundo através de lentes tão belas. Perguntava-me se a cor do olho era indício de que a pessoa enxergava o mundo de maneira diferente. Se o mundo, como resultado, enxergava a pessoa de maneira diferente também.

Eu devia saber que era ele quando apareceu na minha cela.

Uma parte de mim sabia. Mas tentara com tanto esforço reprimir as lembranças de meu passado que recusei acreditar que isso seria possível. Porque uma parte de mim não queria lembrar. Uma parte de mim estava assustada demais para ter esperanças. Uma parte de mim não sabia se faria alguma diferença saber que era ele, apesar de tudo.

Muitas vezes me pergunto qual seria minha aparência.

Pergunto-me se sou apenas uma sombra perfurada da pessoa que eu era antes. Não me olho no espelho faz três anos. Fico assustada demais com o que vou encontrar.

Alguém bate à porta.

Sou catapultada ao outro lado do quarto à força de meu próprio medo. Adam fecha os olhos comigo antes de abrir a porta e eu decido escapar para um canto distante do quarto.

Aguço meus ouvidos apenas para escutar sussurros, vozes abafadas, e alguém limpando a garganta. Não estou certa do que fazer.

— Descerei em um minuto — diz Adam em voz um pouco alta. Percebo que ele está tentando dar fim à conversa.

— Qual é, cara, só quero vê-la...

— Ela não é um maldito espetáculo, Kenji. Dê o fora daqui.

— Pera... só me fala: ela lança chamas com os olhos? — Kenji ri e eu me encolho, caindo no chão debaixo da cama. Enrolo-me toda e tento não escutar o restante da conversa.

Falho.

Adam suspira. Posso imaginá-lo coçando a testa.

— Só dê o fora.

Kenji tenta abafar seu riso.

— Caramba, ficou sensível de repente, né? Passar o tempo com uma garota está mudando você, cara...

Adam diz algo que não consigo ouvir.

A porta se fecha com uma batida.

Espio do meu esconderijo. Adam parece constrangido.

Minhas bochechas enrubescem. Estudo os intrincados fios do tapete finamente tecido que está sob meus pés. Toco o tecido que reveste a parede e aguardo que Adam fale. Levanto-me para olhar para fora do quadradinho de uma janela apenas para ser recebida pelo cenário desolador de uma cidade arruinada. Encosto minha testa no vidro.

Cubos de metal estão agrupados a distância: aglomerados de habitação civil envoltos em múltiplas camadas, buscando refúgio contra o frio. Uma mãe segurando a mão de uma criança pequena. Soldados de olho neles, imóveis como estátuas, rifles posicionados e prontos a atirar.

Montes e montes e montes de lixo, perigosas sucatas de ferro e aço cintilando no chão. Árvores solitárias tremulando ao vento.

As mãos de Adam deslizam ao redor da minha cintura.

Seus lábios estão no meu ouvido e ele não diz absolutamente nada, mas eu derreto até ser um punhado de manteiga quente pingando de sua mão. Quero devorar cada minuto deste momento.

Permito que meus olhos se fechem à verdade do lado de fora de minha janela. Só por pouco tempo.

Adam respira fundo e me puxa para ainda mais perto. Estou moldada à forma de sua silhueta; suas mãos estão circundando minha cintura e seu rosto está apertado contra minha cabeça.

— Seu toque é incrível.

Tento rir, mas pareço ter esquecido como.

— São palavras que nunca pensei que escutaria.

Adam me gira, de modo que estou de frente para ele e de repente estou olhando e não olhando para seu rosto, sou lambida por um milhão de labaredas e engolindo mais um milhão. Ele está me fitando como se nunca tivesse me visto antes. Quero banhar minha alma no azul insondável de seus olhos.

Ele se inclina até sua testa repousar sobre a minha e nossos lábios ainda não estão próximos o bastante. Ele sussurra: — Como você está? — e eu quero beijar cada belo batimento de seu coração.

“Como você está?” — Três palavras que ninguém jamais me pergunta.

— Quero dar o fora daqui — é tudo em que consigo pensar.

Ele me aperta contra seu peito e eu fico maravilhada com o poder, a glória, o milagre em um movimento tão simples. Ele parece um bloco de força, 1,80 metro de altura.

Minha barriga se torna uma placa de gelo.

— Juliette.

Inclino-me para trás, de modo a ver seu rosto.

— Você está falando sério sobre ir embora? — ele me pergunta. Seus dedos roçam meu rosto. Ele enfia uma trança desgarrada de cabelo atrás de minha orelha. — Você compreende os riscos?

Respiro fundo. Sei que o único risco real é a morte.

— Sim.

Ele assente com a cabeça. Baixa os olhos, a voz.

— As tropas estão se mobilizando para algum tipo de ataque. Houve muitos protestos de grupos que antes se mantinham em silêncio, e nosso trabalho é destruir a resistência. Penso que eles queiram que este ataque seja o último — acrescenta ele, calmamente. — Tem alguma coisa grande acontecendo, e não estou certo do que seja, não ainda. Mas, seja o que for, temos de estar prontos para ir quando eles estiverem.

Congelo.

— O que quer dizer?

— Quando as tropas estiverem prontas para combater, você e eu devemos estar prontos para fugir.

É o único modo de termos tempo para desaparecer. Todos estarão focados no ataque... isso nos dará tempo antes de repararem que estamos desaparecidos ou poderem reunir gente o bastante para procurar por nós.

— Mas... quer dizer... você virá comigo...? Você estaria disposto a fazer isso por mim?

Ele sorri um sorriso miúdo. Divertido. Seus lábios se contorcem como se ele tentasse não rir.

Seus olhos se abrandam conforme estudam os meus.

— Há muito pouco que eu não faria por você.

Respiro fundo e fecho os olhos, tocando meus dedos em seu peito, imaginando o pássaro levantando voo através de sua pele, e eu faço a ele a única pergunta que me assusta mais: — Por quê?

— Como assim? — Ele recua.

— Por que, Adam? Por que você se importa? Por que você quer me ajudar? Não compreendo...

não sei por que você estaria disposto a arriscar sua vida...

Mas então seus braços estão em volta de minha cintura e ele está me puxando para mais perto e seus lábios estão no meu ouvido e ele diz meu nome, uma, duas vezes e eu não fazia ideia de que podia pegar fogo tão rapidamente. Sua boca está sorrindo contra minha pele.

— Você não?

Eu não sei nada, é o que eu diria a ele se eu tivesse a menor ideia de como falar.

Ele ri um pouco e recua. Toma minha mão e a examina.

— Lembra-se na quarta série — diz ele — quando Molly Carter se inscreveu tarde demais para a viagem de campo da escola? Todos os lugares foram preenchidos, e ela ficou do lado de fora do ônibus, chorando porque queria ir?

Ele não espera por mim para responder.

— Lembro que você desceu do ônibus. Você ofereceu seu assento para ela e ela nem sequer disse obrigado. Observei você em pé na calçada enquanto nos afastávamos.

Não estou mais respirando.

— Lembra-se na quinta série? Aquela semana em que os pais de Dana quase se divorciaram? Ela chegou sem o lanche todos os dias à escola. E você ofereceu o seu para ela. — Ele faz uma pausa. — Assim que aquela semana acabou, ela voltou a fingir que você não existia.

Ainda não estou respirando.

— Na sétima série, Shelly Morrison foi pega colando na prova de matemática. Ela ficou gritando que, se reprovasse, seu pai a mataria. Você disse para a professora que era você que estava colando da prova dela. Você ganhou um zero no exame e retenção durante uma semana. — Ele levanta a cabeça, mas não olha para mim. — Você ficou com machucados nos braços durante pelo menos um mês depois disso. Sempre me perguntei de onde eles vieram.

Meu coração está batendo rápido demais. Perigosamente rápido. Aperto meus dedos para evitar que tremam. Travo a mandíbula e apago a emoção de meu rosto, mas não consigo diminuir a vibração em meu peito, não importa o quanto tente.

— Um milhão de vezes — diz ele, sua voz agora tão serena. — Vi você fazer coisas como essas um milhão de vezes. Mas você nunca dizia uma palavra a menos que fosse forçada. — Ele ri novamente, desta vez uma espécie de risada dura, pesada. Ele está fitando um ponto para além de meu ombro. — Você nunca pediu nada a ninguém. — Ele finalmente encontra meus olhos. — Mas ninguém nunca lhe deu uma chance.

Engulo em seco, tento desviar o olhar, mas ele pega meu rosto.

Ele sussurra:

— Você não faz ideia do quanto pensei em você. De quantas vezes sonhei — ele respira com firmeza —, de quantas vezes sonhei em estar tão perto de você. — Ele se move para passar uma mão pelos cabelos, antes de mudar de ideia. Baixa os olhos. Ergue os olhos. — Céus, Juliette, eu a seguiria para qualquer lugar. Você é a única coisa boa que sobrou neste mundo.

Estou implorando a mim mesma para não romper em lágrimas e não sei se isso está funcionando.

Estou toda quebrada e colada de volta e ruborizando por toda parte e mal consigo encontrar forças para encará-lo.

Seus dedos encontram meu queixo. Inclina-me para cima.

— Temos três semanas no máximo — diz ele, muito suavemente. — Não acho que eles possam controlar as multidões por muito mais tempo.