Estilhaça-me

Tahereh Mafi · Capítulo 2 de 51

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Estilhaça-me

Capítulo 2

Não terei nada senão o chão.

Jamais irei me opor porque estou petrificada demais paralisada demais paranoica demais.

— Então você é... o quê? Louca? É por isso que está aqui?

Não sou louca.

Ele se apoia o suficiente para ver meu rosto. Ele ri novamente.

— Não vou machucá-la.

Quero acreditar nele. Não acredito nele.

— Qual seu nome? — pergunta ele.

Não é da sua conta. Qual seu nome?

Escuto sua respiração irritada. Escuto-o virar-se na cama cuja metade costumava ser minha.

Permaneço a noite toda acordada. Meus joelhos enroscados no queixo, meus braços apertados em volta de meu pequeno corpo. Meu longo cabelo castanho é a única cortina entre nós.

Não vou dormir.

Não posso dormir.

Não posso ouvir aqueles gritos novamente.

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2

Tem cheiro de chuva da manhã.

O quarto está impregnado do cheiro de pedra molhada, solo revolvido; o ar está úmido e terroso.

Respiro fundo e ando na ponta dos pés até a janela apenas para pressionar o nariz contra a superfície fria. Sinto minha respiração embaçar o vidro. Fecho os olhos ao som de um suave tamborilar permeando o vento. As gotas de chuva são minha única lembrança de que as nuvens têm pulsação. De que eu também tenho uma.

Sempre me pergunto sobre as gotas de chuva.

Gostaria de saber como estão sempre caindo, tropeçando nos próprios pés, quebrando as pernas e esquecendo-se de seus paraquedas, conforme tombam direto do céu rumo a um fim incerto. É como uma pessoa que está esvaziando os bolsos sobre a terra e parece não se importar com o destino do conteúdo que cai, que parece não se importar com o fato de que as gotas de chuva estouram quando atingem o solo, de que elas se estilhaçam quando chegam ao chão, de que as pessoas amaldiçoam os dias em que as gotas ousam tocar sua porta.

Sou uma gota de chuva.

Meus pais esvaziaram seus bolsos de mim e deixaram-me evaporar sobre uma laje de concreto.

A janela me diz que não estamos longe das montanhas e que, definitivamente, estamos perto da água, mas, hoje, tudo está perto da água. Só não sei de que lado estamos. Para que direção estamos voltados. Aperto os olhos à primeira luz da manhã. Alguém pegou o Sol e o fixou novamente no céu, mas todos os dias ele paira um pouco mais baixo que no dia anterior. É como um pai negligente que conhece apenas metade de quem você é. Nunca enxerga como sua ausência muda as pessoas. Quão diferentes somos no escuro.

Um sussurro repentino indica que meu companheiro de cela está acordado.

Giro sobre meus pés como se tivesse sido pega roubando comida outra vez. Isso só aconteceu uma vez, e meus pais não acreditaram em mim quando disse que ela não era para mim. Eu disse que estava apenas tentando salvar os gatos vadios que viviam pela vizinhança, mas eles não acreditaram que eu fosse humana o bastante para me importar com um gato. Não eu. Não algo alguém como eu.

Além disso, eles nunca acreditavam em nada do que eu dizia. É exatamente por isso que estou aqui.

O companheiro de cela está me estudando.

Ele adormeceu completamente vestido. Ele está usando uma camiseta azul-marinho e calças cargo cáqui enfiadas em botas pretas de cano alto.

Estou usando fibras de algodão morto nos membros e um rubor de rosas na face.

Seus olhos esquadrinham a silhueta de minha estrutura e esse vagaroso movimento faz meu coração disparar. Apanho as pétalas de rosa conforme me caem do rosto, flutuam em volta da moldura de meu corpo e me revestem em algo cuja sensação remete à ausência de coragem.

Pare de olhar para mim, é o que quero dizer.

Pare de me tocar com seus olhos, mantenha suas mãos afastadas e por favor e por favor e por favor...

— Qual seu nome? — A inclinação de sua cabeça racha ao meio a gravidade.

Estou suspensa no momento. Pisco os olhos e contenho a respiração.

Ele se move e meus olhos se estilhaçam em milhares de pedaços que ricocheteiam ao redor do quarto, capturando um milhão de fotos instantâneas; um milhão de momentos no tempo. Bonitas imagens desbotadas pela idade, pensamentos congelados pairando precariamente no espaço morto, um redemoinho de memórias que me cortam a alma. Ele me faz lembrar de alguém que eu conhecia.

Uma respiração profunda e o choque me devolve à realidade.

Sem mais sonhar acordada.

— Por que você está aqui? — pergunto às rachaduras da parede de concreto. Catorze rachaduras em quatro paredes em mil tons de cinza. O chão, o teto: tudo a mesma laje de pedra. As armações das camas construídas de modo patético: a partir de velhos canos de água. O quadradinho de uma janela: grossa demais para quebrar. Esgotou-se minha esperança. Meus olhos estão dispersos e doloridos.

Meu dedo está traçando um caminho preguiçoso pelo piso frio.

Estou sentada no chão que cheira a gelo, metal e sujeira. O companheiro de cela senta-se diante de mim, pernas dobradas por debaixo dele, botas brilhantes demais para este lugar.

— Você tem medo de mim. — Sua voz não tem forma.

Meus dedos cerram-se em punho.

— Receio que esteja errado.

Poderia estar mentindo, mas isso não é da conta dele.

Ele bufa, e o som ecoa pelo ar que jaz entre nós. Não levanto a cabeça. Não dou com os olhos que ele está lançando em minha direção. Provo do oxigênio seco e gasto e suspiro. O aperto na garganta vem de algo familiar para mim, algo que aprendi a engolir em seco.

Duas súbitas batidas à porta trazem minhas emoções de volta ao lugar.

Ele se coloca de pé em um instante.

— Ninguém está lá — digo a ele. — É só nosso café da manhã. — Duzentos e sessenta e quatro cafés da manhã e ainda não sei do que ele é feito. Tem cheiro de muita coisa química; uma massa amorfa sempre entregue em extremos. Às vezes doce demais, às vezes salgada demais, sempre repugnante. Na maior parte das vezes estou tão morta de fome que nem noto a diferença.

Escuto-o hesitar por apenas um instante antes de avançar rumo à porta. Ele abre uma pequena fresta e através dela espreita um mundo que não existe mais.

— Merda! — Ele praticamente arremessa a bandeja pela abertura, parando apenas para bater a palma da mão contra a camisa. — Merda, merda. — Ele fecha os dedos e tensiona a mandíbula. Ele queimou a mão. Eu o teria alertado se ele tivesse me escutado.

— Você deve esperar pelo menos três minutos antes de tocar a bandeja — digo à parede. Não olho para as leves cicatrizes que adornam minhas pequenas mãos, para as marcas de queimadura que ninguém poderia ter me instruído a evitar. — Acho que eles fazem isso de propósito — acrescento, calmamente.

— Ah, então hoje você está conversando comigo? — Ele está com raiva. Seus olhos relampejam antes de ele desviar o olhar e eu perceber que ele está mais constrangido do que qualquer outra coisa. Ele é um cara durão. Durão demais para cometer erros estúpidos na frente de uma garota.

Durão demais para demonstrar dor.

Aperto os lábios e fito o lado de fora do pequeno quadrado de vidro que eles chamam janela. Não sobraram muitos animais, mas já ouvi histórias de pássaros que voam. Talvez um dia eu consiga ver um. Atualmente, as histórias têm um enredo tão desordenado que há muito pouco em que se acreditar, mas não foi só de uma pessoa que escutei dizer que, de fato, viram um pássaro voando nos últimos anos. Portanto, observo da janela.

Haverá um pássaro hoje. Ele será branco com listras de ouro igual a uma coroa sobre sua cabeça.

Ele voará. Haverá um pássaro hoje. Ele será branco com listras de ouro igual a uma coroa sobre sua cabeça. Ele voará. Haverá um...

Sua mão.

Em mim.

Duas pontas de dois dedos roçam por menos de um segundo meu ombro coberto de pano, e cada músculo, cada tendão de meu corpo está carregado de tensão e amarrado em nós que me comprimem a espinha. Permaneço bastante quieta. Não me movo. Não respiro. Talvez, se não me mover, este sentimento dure para sempre.

Às vezes penso que a solidão dentro de mim explodirá pela pele e, às vezes, não tenho certeza se chorar ou gritar ou rir de histeria resolverá alguma coisa. Às vezes estou tão desesperada por tocar, por ser tocada, por sentir, que tenho quase certeza de que vou cair de um penhasco em um universo alternativo no qual ninguém, nunca, será capaz de me encontrar.

Não parece impossível.

Tenho gritado por anos e ninguém jamais me escutou.

— Você não está com fome? — Sua voz é mais baixa agora, um pouco preocupada.

Há 264 dias estou morrendo de fome.

— Não. — A palavra é pouco mais que uma respiração entrecortada, pois me escapa dos lábios e me viro e eu não deveria, mas faço e ele está me encarando. Está me estudando. Seus lábios estão somente um pouco apartados, seus braços, inertes ao lado do corpo, seus cílios, pestanejam em trégua.

Sinto alguma coisa socar meu estômago.

Seus olhos. Alguma coisa em seus olhos.

Não é ele não é ele não é ele não é ele não é ele.

Fecho-me ao mundo. Tranco-me. Giro a chave com firmeza.

A escuridão me sepulta em seus vincos.

— Ei...

Meus olhos se abrem. Duas janelas estilhaçadas enchendo de vidro minha boca.

— O que é? — Sua voz é uma tentativa fracassada de monotonia, uma tentativa ansiosa de indiferença.

Nada.

Concentro-me no quadrado transparente encravado entre mim e minha liberdade. Quero estraçalhar este mundo de concreto e esquecimento. Quero ser maior, melhor, mais forte.

Quero estar furiosa-furiosa-furiosa.

Quero ser o pássaro que voa para longe.

— O que você está escrevendo? — O companheiro de cela fala novamente.

Estas palavras são vômito.

Esta caneta trêmula é meu esôfago.

Esta folha de papel é minha tigela de porcelana.

— Por que você não me responde? — Ele está perto demais perto demais perto demais.

Ninguém jamais está perto o bastante.

Engulo a respiração e espero que ele dê o fora, como todos os outros de minha vida. Meus olhos estão focados na janela e na promessa do que poderia ser. Na promessa de algo mais grandioso, algo mais importante, alguma razão para a demência que se edifica em meus ossos, alguma explicação para minha incapacidade de fazer qualquer coisa sem arruinar tudo. Haverá um pássaro. Ele será branco com listras de ouro igual a uma coroa sobre sua cabeça. Ele voará. Haverá um pássaro. Ele será...